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sábado, 31 de dezembro de 2011

SAMSARA


Padre Beto



Samsara de Pan Nalin é uma "história de amor espiritual", filmada nas imponentes locações geladas do Himalaia. O foco está centrado nas buscas empreendidas por duas pessoas diferentes. De um lado, um homem procura pelo esclarecimento espiritual por meio da renúncia ao mundo real. De outro, uma mulher quer encontrar o amor e uma nova vida inserida no mundo. Essas duas buscas, em determinado momento, se cruzarão e conectarão irreversivelmente a vida dos personagens. Porem, os dois perceberão que a vida não depende simplesmente das circunstancias, mas principalmente de nossas escolhas.

A vida do ser humano é definida a partir de escolhas. Através da escolha entre poucas ou muitas alternativas é construído o perfil de uma personalidade e influenciada a construção de outras personalidades. Além de ser o momento que nos convida à reflexão, o fazer uma determinada escolha espelha nossa visão de mundo e aquilo que verdadeiramente somos. O que é escolhido está intimamente relacionado com o sujeito que escolhe. Basta analisarmos as coisas mais simples do dia-a-dia, como por exemplo, o que e quando comemos. Pelo menos poderemos perceber se estamos realmente escolhendo ou nos alimentando automaticamente. Sem dúvida alguma, há situações que se tornam inevitáveis. São circunstâncias que independem de nossa própria vontade. Porém, mesmo o fatal nos oferece uma diversidade de alternativas: as diferentes formas de enfrentá-lo. Dependendo da maneira como reagimos diante das situações obrigatórias ou não desejadas demonstramos também nosso caráter e alteramos estas situações para pior ou melhor. O capitão de um navio pode avistar em alto mar uma terrível tempestade que se aproxima. Se o capitão é experiente saberá que a tempestade é inevitável, mas mesmo assim ele poderá controlar a velocidade do navio, a rapidez com a qual o navio se confrontará com a tempestade.

O momento da escolha torna-se muitas vezes fundamental, não simplesmente pelos pensamentos e reflexões que devemos desenvolver ao fazermos uma opção, mas pelo fato da oportunidade da escolha ser efêmera, fugaz, transitória. Diante de muitas alternativas encontra-se o perigo de, no momento seguinte, já não termos mais o direito de escolha. A seriedade diante de uma alternativa não está no fato de podermos viver o que escolhemos, mas no fato de termos que viver o que não escolhemos ou não conseguimos escolher. Muitas vezes, nos recusamos a fazer uma escolha acreditando que somos capazes de conservar a vida como ela se encontra. A vida, porém, é dinâmica e sujeita às mutações. Neste sentido, o mais importante diante das alternativas da vida não é o fazer a escolha certa, mas sim a energia, a seriedade, a vontade com que fazemos a escolha. Através da intensidade que realizamos as escolhas da vida anunciamos e consolidamos nossa personalidade, ganhamos respeito diante das outras pessoas e, muitas vezes, a escolha que aparentemente seria errada torna-se senão a mais correta, pelo menos a mais coerente. Se fizermos uma escolha com seriedade, talvez não cheguemos a fazer grandes feitos ou talvez não agrademos a maioria das pessoas, mas, com certeza, seremos nós mesmos. O objetivo fundamental do ser humano não deve ser a simples aceitação do grupo, mas sim a capacidade de ser autêntico. “A verdadeira grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las” (Aristóteles). Somente na autenticidade o ser humano descobre verdadeiramente o caminho de sua realização pessoal. E se pensarmos bem, esta realização pessoal não se concretiza através da opinião das pessoas, mas pela nossa própria consciência. Ser autêntico é uma qualidade que se encontra acessível a qualquer pessoa, desde que ela a deseje. A vida se desenvolve quando, em nossas escolhas, buscamos ser e fazer o que nos completa. A vida nos oferece sempre a possibilidade de escolher ou não escolher. Nessa decisão está em jogo a nossa autenticidade. Muitas vezes, deixamos que o grupo decida por nós, deixamos de fazer nossas próprias escolhas por medo de perder o amor de determinadas pessoas, medo da reação de outras pessoas ou por receio da mudança em nossa vida. Talvez o único medo que devemos ter é a perda do respeito diante de nós mesmos. Perco o respeito por mim mesmo quando nego, não por convicção, mas por fatores externos, meus valores e aquilo que sou. Somente assumindo minhas escolhas com veracidade encontrarei a razão de estar na existência e tornarei meu “estar aqui” algo significativo. Querer ser igual aos outros pode ser fácil no começo, mas se torna fatigante com o tempo; ser como sou pode me trazer dificuldades, mas sempre terei a certeza de que estou vivendo realmente. O primeiro passo para isso é perceber que sempre é tempo para recomeçar.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

PAZ: CONDIÇÃO DE VIDA

Padre Beto


No galho de uma árvore um passarinho construiu seu ninho e colocou seus ovos. Quando estavam todos os ovos postos, o pequeno pássaro, com grande desespero, percebeu a presença de uma cobra que vinha em direção ao seu ninho. Voando em ziguezague, sem saber o que fazer, o passarinho já via sua esperança destruída. Um macaco percebendo a situação gritou ao pequeno pássaro: “Não se preocupe, eu vou afastar a cobra atirando pedras!” Imediatamente o passarinho respondeu: “Não faça isso, com as pedras você pode atingir o ninho e destruir os ovos!” Um elefante estando por perto viu o desespero do pequeno pássaro e veio em direção à árvore. “Eu vou balançar esta árvore com minha trompa”, disse o elefante, “e fazer a cobra cair!” O passarinho pediu ao elefante: “Não faça isso, ao balançar a árvore os ovos irão, com certeza, cair ao chão!” Foi então que o passarinho teve uma grande idéia. Se os grandes da floresta não podem me ajudar os menores com certeza poderão. O pequeno pássaro voou então para um formigueiro e explicou sua situação às formigas. Imediatamente a árvore encheu-se de formigas que se amontoaram por cima da cobra. Esta entrou em desespero, caiu ao chão e, sem outra alternativa, fugiu para longe deixando os ovos do pequeno ninho se desenvolverem para a vida. O pequeno pássaro pode, então, cantar novamente.

A paz, como a felicidade, sempre foi um objetivo do ser humano. Não é por menos que desde a Antigüidade, as palavras “Shalom”, “eirene” ou “pax” sempre foram formas de saudação cordial entre os amigos. No ocidente, por exemplo, os cristãos desejam-se mutuamente nas celebrações religiosas “a paz de Cristo” e no momento da morte de alguém, é praticamente inevitável ouvir a expressão “descansou em paz” (requiescat in pace). Se a paz como objetivo é algo inquestionável, o mesmo não podemos afirmar de sua compreensão. Muitos buscam a paz, mas poucos conhecem realmente seu significado. Em primeiro lugar, devemos compreender que a paz, como a felicidade, deve envolver todas as dimensões de nossa vida. A paz de consciência, a paz individual e familiar, a paz entre grupos e nações, a paz espiritual e social não podem existir separadamente. A paz pode não ser eterna, mas ela possui, com certeza, uma clara exigência: o domínio total de todo espaço que envolve o ser humano. Assim, a paz de consciência está intimamente ligada à paz familiar que não se desvincula da paz social. Uma sociedade marcada pela criminalidade, corrupção e violação dos direitos humanos é, com certeza, uma sociedade marcada por uma crise da instituição “família” e formada de indivíduos que vivem com freqüência a falta de paz interior ou o tão conhecido “peso na consciência”. Outro aspecto importante para compreender o significado da palavra "paz" é a sua dimensão ética. É fundamental entender que paz não é uma situação alcançada simplesmente por uma via religiosa ou espiritual, mas basicamente ética. Afinal, a Paz é uma condição interior e social, na qual a vida é possível e pode livremente se desenvolver. Meditação e oração ajudam, mas a paz é construída essencialmente através de uma ação política e social. Como dizia Rosseau, “a melhor maneira de pedir a Deus é tornarmo-nos merecedores do que desejamos”. Um ótimo exemplo para entendermos a relação entre ética e paz é a nossa própria sociedade. A situação de violência, a qual a sociedade brasileira há muito tempo suporta, possui suas raízes na má distribuição de renda, nas péssimas condições de moradia de grande parte da população, na má qualidade do sistema de saúde oferecido pelo Estado e principalmente na impossibilidade de acesso à educação e cultura por grande parte da população. Com a perda do imaginário, do estudo, da cultura, da leitura ou do contato com as artes surge a insensibilidade que conduz o ser humano a um processo de brutalização. A base de toda esta estrutura que gera violência em nosso país é basicamente uma falha de relação ética: o desinteresse pelo Outro. Assim, construir a paz não significa simplesmente evitar violência, mas principalmente aumentar o nosso compromisso político e a nossa solidariedade como também manifestar com mais clareza a nossa insatisfação diante do descaso em relação ao bem comum. “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto” (Ruy Barbosa).

terça-feira, 29 de novembro de 2011

ATO CONSCIENTE

Padre Beto


Certa vez, um pretensioso rei resolveu construir uma imensa catedral em honra do Deus Todo-Poderoso. Ninguém estava autorizado a contribuir com um centavo se quer para a construção da catedral. Ela seria única e exclusivamente uma oferta do rei, afinal seu nome deveria entrar para história como alguém generoso e de muito poder. Quando a enorme igreja ficou pronta, o monarca mandou escrever em ouro sobre uma enorme placa de mármore: “O bondoso rei Eufrosino construiu sozinho esta maravilhosa catedral”. A placa foi fixada, mas, no dia seguinte, todos ficaram surpresos, pois na placa ao invés do nome do rei estava escrito o nome de uma pobre mulher conhecida em toda a região. Imediatamente o rei mandou tirar o nome da mulher e escrever novamente a frase correta. No dia seguinte, como um milagre, estava novamente o nome da mulher na placa. O rei ordenou, então, que encontrassem a tal mulher e a trouxessem a sua presença. A pobre senhora se aproximou do rei tremendo dos pés à cabeça. “Me diga a verdade”, disse o rei com muita calma, “você contribuiu de alguma forma para a construção da catedral?” A pobre mulher, com muita vergonha, respondeu: “Me perdoe, senhor rei, eu preciso ganhar o meu pão de cada dia com muito sacrifício. Sem dúvida alguma, eu conhecia a sua ordem e tinha medo de sua punição. Mas foi para mim uma enorme alegria oferecer um pouco de feno ao jumento que suspendia as rochas para construção da catedral. Desta forma, eu realizei minha vontade, sem ao menos pensar em desobedecer sua ordem!”

A partir do momento que estamos na existência não possuímos outra alternativa senão o ato de fazer alguma coisa. A palavra “ato”, do latim actus, possui como significado o conteúdo, a essência do existir humano: o feito, a atividade, a ação que dá forma ao nosso viver. O ato é imprescindível ao existir, pois mesmo que queiramos ser inativos, a nossa própria decisão ou impossibilidade de não fazer nada se constitui em um ato humano. Qualquer alternativa de vida molda a realidade e transfere a ela um determinado conteúdo. Nós somos, em nosso universo, pura potência, ou seja, uma energia capaz de alterar a constelação à nossa volta. Aristóteles dava o nome à realidade de “energeia”, palavra que pode ser traduzida em português como “execução”. Para o filósofo grego, a realidade é o resultado de uma execução, em outras palavras, o universo é uma construção de nossas ações. Estas, porém, podem ser desejáveis, planejadas, forçadas ou espontâneas. Independentemente de sua origem, o ato, consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário, será sempre a construção de nossa realidade. “Há pessoas que têm uma maneira extremamente desagradável de não dizer as coisas” (Millor Fernandes).

Diante do fato de que somos a energia que dá origem ao nosso cosmos individual, familiar e social, nós, seres humanos, possuímos o desafio constante de conduzir através da razão a dinâmica entre o ato, a execução, o fazer e a potência, a capacidade, a vontade. Em outras palavras, o desafio do ser humano é possuir uma ação que represente sua vontade e possa realizá-lo como pessoa. Todo ato está intimamente ligado à “potência”, ou seja, a todo conteúdo que está no interior do ser humano: capacidade, aptidão, vontade de realização. Por esta razão, é necessário que o ser humano se auto-conheça. Através de um processo de auto-conhecimento podemos descobrir o que realmente desejamos e do que somos realmente capazes. Como também se faz necessário que o ser humano tente a concretização de sua consciência, de seus sonhos. Para a filosofia moderna, o ato humano completo se constitui na ação intencional de um sujeito sobre o mundo. Na fenomenologia de Husserl, o ato é o momento de um acontecimento intencional e com um objetivo definido e significativo para a formação de um objeto. Sem dúvida alguma, muitas vezes em nossa vida somos obrigados a realizar atos contra a nossa vontade e, muitas vezes, sem termos a capacidade necessária. Mas a satisfação de viver torna-se maior quando podemos descobrir do que realmente somos capazes e para onde queremos conduzir a nossa existência. Há pessoas que fazem, há pessoas que mandam fazer e sempre encontramos pessoas que apenas perguntam o que foi feito. De qualquer forma, nós influenciamos em nosso universo; o importante é que esta influência seja consciente. Afinal, é esta consciência que nos distingue dos outros animais, que nos coloca como concretizadores de sonhos e que nos traz realmente a satisfação de viver. “Se você já construiu castelos no ar, não tenha vergonha deles. Estão onde devem estar. Agora, dê-lhes alicerces” (Henry David Thoreau).

 
 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A MORTE E A VONTADE

Padre Beto


Me contou, certa vez, um italiano que o famoso bispo de Milão, Carlos Borromeu, pediu a um artista que pintasse um retrato da morte. Depois de alguns dias, o artista apresentou ao bispo um esboço do quadro. Neste a morte era apresentada como um esqueleto que possuía uma foice em uma das mãos e uma ampulheta na outra. Carlos Borromeu olhou para o desenho e, balançando a cabeça, comentou: “Você não deveria pintar a morte deste jeito!” E, depois de meditar um pouco, se explicou: “A morte deveria ser retratada como um lindo anjo com uma chave dourada nas mãos...”

Para o filósofo Arthur Schopenhauer, o princípio absoluto do mundo, aquele que move o universo, é a vontade. Ela está em toda parte e presente em todo o ser vivo. Nas menores formas de vida podemos encontrar a vontade, uma força cega, simples, mas intensa de auto preservação. O que distingue os humanos de outros seres vivos é a manifestação consciente da vontade. Em outras palavras, nós possuímos sim inconscientemente a vontade de viver, mas esta em nós atinge a consciência e torna-se um ato racional. Uma vez que a vontade tenha atingido a consciência no cérebro humano, o mundo, então, torna-se uma idéia, e é construído teoricamente, possibilitando assim que o ser humano possa não somente se preservar, mas principalmente se desenvolver. Como afirma o próprio Schopenhauer, “superar as dificuldades é, para a experiência, o completo deleite de existência”. Porém, para o filósofo, esta vontade, a qual é a força que nos leva a viver, que nos faz ir a busca de ser é, ao mesmo tempo, causa de todo o sofrimento no mundo. Schopenhauer afirma que a vontade faz com que o ser humano torne-se egoísta e ganancioso. Na sua visão pessimista do mundo, o filósofo acredita que a vida é essencialmente má. E ele não para por aqui. Apesar de terem a vontade como motor, os seres vivos possuem a morte como destino, como reta final, o que, na verdade, para o pensador alemão, se constitui em um paradoxo terrível. A vida é motivada pela vontade que nos impulsiona cada vez mais a ser e este, por fim, acaba se desencadeando em um único resultado: a extinção, a morte.

Sem dúvida alguma, poderíamos pensar como Schopenhauer e viver em um completo pessimismo diante do futuro, em uma depressão desanimadora. Porém, a própria existência de uma força vital, ou seja, da vontade, nos impede de viver assim. Justamente esta necessidade que possuímos de viver nos leva a contradizer a primeira afirmação pessimista do filósofo: a vontade não precisa ser necessariamente egoísta e gananciosa. Jean-Jacques Rousseau nos lembra que existe uma “vontade geral”. Para ele, esta vontade é o desejo de tudo. O que nos movimenta para a vida não é apenas a soma de vontades individuais diferentes, mas uma vontade que cada um compartilha para o benefício de todos. Rousseau escreveu certa vez, “aos 16 anos, o adolescente sabe a respeito do sofrimento porque ele mesmo sofre, mas ele dificilmente sabe o que outros seres também sofrem”. Certamente, muitos atingem a vida adulta sem amadurecerem, ou seja, permanecem somente centrados em seus próprios sofrimentos sem perceber o quanto os outros sofrem. Porém, amadurecer significa atingir a consciência de que outros também possuem uma vontade e o direito de serem felizes. Justamente nesta consciência de que todos possuem uma vontade e o direito em realizá-la está o verdadeiro progresso do ser humano, ou seja, a construção de um espaço social no qual a vida possa se desenvolver. “Mais que de máquina, precisamos de humanidade” (Charles Chaplin).

A vontade, seja ela individual ou geral, nos leva a contradizer a segunda afirmação pessimista de Schopenhauer sobre o paradoxo entre vontade e morte. Para isso não há necessidade de recorrermos às religiões. A própria existência da força vital que nos movimenta e a sensação que possuímos de que ela não combina com a morte-extinção, nos leva a acreditar na morte-transformação. Em outras palavras, para o ser humano consciente da vontade, o fenômeno da morte não pode ser um fim da vida, mas sua metamorfose para um estágio superior ou pleno. Ao mesmo tempo, a realidade da morte faz com que possamos compreender que a vida é ainda para nós seres humanos inexplicável. A compreensão de que ainda não conhecemos todo o sentido do universo deve nos ensinar que temos muito ainda que aprender. “A vida é uma longa lição de humildade” (James M. Barrie). Porém, é a realidade da morte que faz com que possamos nos unir na realidade de seres humanos. Independentemente de nossas visões religiosas, condição econômica, social ou de nossas vontades individuais, a realidade da morte nos iguala. Se ela é o fim, ela também coloca todos em um único plano; se ela é uma ressurreição, ela nos dá a mesma chance de transformação. Como afirma um antigo provérbio italiano: “Ao termino do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa”.

domingo, 30 de outubro de 2011

RIA, JOGUE E DANCE!


Padre Beto


Um jovem padre recebeu a incumbência de celebrar uma missa em uma penitenciária. Preocupado com a mensagem que deveria levar aos presos, procurou por várias semanas elaborar sua homilia. No dia marcado, o jovem padre entrou no salão e ficou incomodado com a atmosfera fria e formal do ambiente. Depois da leitura do Evangelho o jovem padre se dirigiu ao púlpito, de onde deveria fazer a homilia. Todos permaneciam em um silêncio profundo e acompanhavam os passos do padre. Quando já estava quase no púlpito o padre não percebeu um pequeno degrau e tropeçou rolando pelo chão. O auditório caiu em uma só risada. Rapidamente, o jovem padre levantou-se sentido algumas dores e muita vergonha. Posicionou-se no púlpito e iniciou sua homilia dizendo: “Exatamente por isso, rapazes, eu estou aqui: todo aquele que cai pode muito bem se levantar!”

Nietzsche imagina em sua filosofia o surgimento de um novo ser humano. Entre outras características, este novo homem deveria possuir a capacidade de fazer de qualquer situação da vida algo de criativo e prazeroso. Para isso, sua postura básica deveria ser a de uma “aceitação criativa”. O novo homem deve saber dizer sim à vida. De forma alguma, Nietzsche prega um comodismo diante das situações do cotidiano. Pelo contrário, para o filósofo a aceitação criativa constitui-se em um sim revolucionário diante da existência. Sem dúvida alguma, nós podemos simplesmente aceitar aquilo que a vida nos traz. A este tipo de aceitação, Nietzsche dá o nome de “sim do asno”. O asno também diz sim à vida, mas sua aceitação é sinônimo de conformismo e submissão. O asno carrega simplesmente o peso da vida. O novo homem diz ativamente “sim” para sua existência. Ele aceita os fatos com a intenção de fazer com que o “ser” venha a se transformar em um “tornar-se”. Para ele, uma situação não é simplesmente um fato, mas uma oportunidade para criar algo desejável ou surpreendentemente melhor. O dizer sim é um ato construtivo, transformador, provocador de uma metamorfose. Enquanto a aceitação submissa do asno mantém os fatos, a aceitação revolucionária do novo homem recria o universo. Aceitar para Nietzsche significa não fugir das situações, mas enfrentá-las, “mergulhando de cabeça” com toda a coragem de quem deseja interagir com os fatos, sejam eles bons ou ruins. “Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não tem nada a aprender com eles” (Richard Bach).

A partir da aceitação criativa frente à vida, o novo homem pode, então, desenvolver três outras capacidades: dançar, rir e jogar. Quem, como o asno, aceita as circunstâncias simplesmente carregando-as, está fixado na vida como ela fatalmente se apresenta. Ele não possui a leveza necessária para movimentar-se diante das situações. O novo homem dança sobre as situações da vida. Mesmo diante das circunstâncias mais tristes e difíceis, o novo homem possui boas pernas para dançar. Nada é tão rígido e inflexível que não pode ser movimentado. O novo homem brinca com as situações livremente como uma criança. Ele dança sobre qualquer circunstância e elegantemente movimenta os fatos para a direção por ele desejada. “O grande homem é aquele que não perde o coração de criança” (Mêncio). Aquele que aceita a vida como um asno é resignado e no fundo triste. Mesmo diante da situação mais dramática, o novo homem não perde o sorriso. Pelo contrário, ele aprendeu a rir de si mesmo e do mundo. O novo homem percebe em todas as circunstâncias, sejam elas boas ou ruins, sementes de vida. Ele sabe que tudo passa e tem consciência que a vida é uma viagem. Nesta, o novo homem aprendeu a rir de si mesmo, pois a vida é muito importante para se perder na seriedade. “O bom humor tem algo de generoso: dá mais do que recebe” (Alain). Por fim, o novo homem compreende a vida como um jogo. Ele sabe jogar, principalmente diante do imprevisível, da surpresa. Ele nunca diz, “que pena”, “a vida é assim mesmo”, “não há o que fazer”. Ele é um jogador, gosta de jogar e joga bem. Ele não possui problemas, mas oportunidades para dar soluções. Para ele, qualquer situação, boa ou ruim, é uma oportunidade para agir e movimentar-se. “Seja lá o que você possa fazer, ou sonhe que pode, comece. A ousadia tem gênio, poder e magia dentro de si. Comece agora” (Goethe). Rindo, jogando e dançando, o novo homem cria e recria sua vida. Desta forma, este novo ser humano destrói o fatalismo. Nada é fatal, tudo é uma oportunidade para uma transformação. Ele tem consciência da constante metamorfose e efemeridade da existência e a manipula ativamente. “Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida” (Carlos Drummond de Andrade).

domingo, 16 de outubro de 2011

UMA ESCADA PARA O CÉU


Padre Beto


Um homem sábio morava perto de uma pequena cidade. Todos admiravam sua inteligência, seu bom senso e muitas lendas surgiam em torno de sua pessoa. Uma destas era que toda a manhã, ao fazer sua oração, o sábio era elevado aos céus. As pessoas costumavam dizer que, graças a esta capacidade de fantástica transcendência, ele adquiria a sabedoria necessária para aconselhar os pobres mortais. Um jovem, ao ouvir pela primeira vez a absurda história, resolveu provar a todos da pequena cidade que esta não passava de uma lenda sem sentido. Em um certo dia, o jovem levantou de madrugada e se escondeu perto da cabana do sábio. As oito da manhã o sábio abriu a porta da casa e com uma sacola caminhou em direção à floresta. O jovem o seguiu sem se deixar perceber. O sábio chegou, então, ao prostíbulo da região. Com grande curiosidade, o jovem aproximou-se da casa, espiou pela janela e viu o sábio colocando sobre a mesa frutas, pães e presunto. Lentamente, o jovem deixou o sábio tomando seu café da manhã com as prostitutas e retornou para sua pequena cidade. Os amigos ao encontrá-lo perguntaram se ele havia visto o velho subindo aos céus. Ainda pensativo, o jovem respondeu: “Ele sobe muito mais alto do que os céus. Podem ter certeza!”

Pertence à natureza humana a busca inconsciente de prazer duradouro, de permanente felicidade. “Todo prazer anseia por eternidade”, escreveu certa vez Nietzsche. Porém, os momentos de prazer que podemos ter em nossa existência são carentes de durabilidade. Por mais que todo ser humano anseie por uma vida prazerosa, parece ser ilusória a tentativa de uma sensação de felicidade constante. Com certeza, o caminho mais superficial e menos inteligente para se manter o prazer de viver é o hedonista. Justamente, a alternativa hedonista é a mais estimulada por nossa sociedade de consumo. O ser humano busca a felicidade por um caminho hedonista quando procura maximizar a soma de episódios de prazer em sua vida. O objetivo é o aumento constante de boa comida, boa bebida, de sensações e emoções, enfim, a intensificação das experiências sensitivas. O hedonismo também se manifesta na busca constante de alcançar objetivos individuais. O ser humano não procura viver o prazer no aqui e agora , mas sacrifica parte de seu tempo e energia, para alcançar objetivos como saúde, dinheiro, fama, reconhecimento, poder. O problema destas duas alternativas hedonistas para a felicidade é o alimento constante da ambição individualista. Esta, além de ser um “saco sem fundo”, conduz o ser humano a uma verdadeira experiência de solidão. Sem dúvida alguma, para o sistema capitalista a busca de episódios de prazer ou da realização de objetivos individualistas geram consumo. Porém, a mentalidade hedonista nos leva a uma incansável busca de algo mais e o ser humano nunca alcança a satisfação. Pior que isso, a mentalidade hedonista faz com que o ser humano centre a razão de toda a sua busca em seu próprio ego. Assim, a necessidade de saúde, dinheiro, fama, reconhecimento, poder é insaciável e possui como objetivo uma única pessoa. Esta busca do prazer individual encontra em sua prática uma grande contradição. Enquanto o ser humano alimentar simplesmente seu amor próprio, a satisfação sempre será demasiadamente efêmera e a necessidade de algo mais contribui para uma sensação frustrante diante da realidade. Neste sentido, podemos compreender a provocante frase de Jesus Cristo: “Quem procurar ganhar sua vida, vai perdê-la, e quem a perder vai conservá la” (Lc 17, 33). Jesus não está de forma alguma pregando anulação da personalidade e muito menos submissão, mas apresentando uma fantástica dialética da existência.

O prazer de viver se torna duradouro não através de um caminho hedonista, mas através de uma mentalidade humanista. Esta se inicia com uma busca consciente de realização pessoal, ou seja, com a estimulação e desenvolvimento de todos os nossos dons pessoais. O prazer não se reduz ao simples consumo, mas à satisfação de aprender ampliando seus horizontes e a possibilidade de realizações. A felicidade é alcançada na sensação de se construir uma vida digna, uma personalidade nobre e uma história criativa. Este crescimento pessoal caminha em direção do verdadeiramente tornar-se uma boa pessoa. Esta mentalidade humanista se completa com a busca do bem estar de nossos semelhantes. Estar disposto a contribuir para a vida de outros significa o engajamento positivo nas amizades, na família, na educação das novas gerações, na cultura de nosso grupo, na economia de nossa sociedade, realização da justiça e na política. Para se ter a satisfação duradoura de contribuir para a beleza do mundo, é necessário que nosso engajamento pelo bem comum seja verdadeiramente sincero. Facilmente o ser humano pode ser levado a se engajar por motivos individualistas (fama, reconhecimento, dinheiro, poder etc.), o que torna o caminho humanista de prazer uma forma mascarada de hedonismo. “Minha alma não consegue encontrar uma escada para o céu que não seja através da beleza do mundo” (Michelangelo).

domingo, 2 de outubro de 2011

ENTRE ERROS E ACERTOS


Padre Beto
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Em uma audiência privada com o Papa João XXIII, um bispo relativamente jovem em sua função reclamava não conseguir dormir graças aos seus muitos encargos em sua diocese. Ao se deitar, ele não conseguia deixar de pensar nas difíceis decisões que deveria tomar e tinha grande medo de cometer erros. Demonstrando compaixão com o jovem bispo, o Papa, então, comentou: "No início do meu pontificado, eu me encontrava na mesma situação. Simplesmente não conseguia dormir e passava as noites pensando no que deveria fazer no dia seguinte. Mas, em uma noite, surgiu um anjo à minha frente que me disse com uma voz muito suave: 'Giovanni, não dê tanta importância a você mesmo!' Desde então eu durmo muito bem!"

É muito fácil criticar os outros. Atitude mais exigente, mas com certeza a mais sábia, é tentar corrigir os nossos próprios erros. Porém, para se ter esta postura de autocorreção é necessário que se adquira como hábito o exame constante de nossos atos e principalmente a qualidade de ser humilde. A tentativa de nos autocorrigir não significa simplesmente não mais errar, mas adquirir o desejo de não mais cometer erros. Não podemos esquecer que somos eternamente aprendizes da vida e até mesmo aqueles que possuem uma grande bagagem cultural estão sempre aprendendo algo novo. Não é por menos que os grandes pensadores na antiga Grécia se autodenominavam "filósofos", o que significa apenas amigos do saber. "Amigo do saber" não é aquele que sabe tudo, ou detém o conhecimento da verdade, mas sim quem tem a consciência de sempre estar em busca do conhecimento, uma busca que não possui um fim. Em outras palavras, ter o desejo de não errar não significa ser perfeito, mas desejar aprender os acertos. Este aprendizado, muitas vezes, só acontece através dos não agradáveis erros. E aqui está o início da sabedoria: saber ver nos erros uma experiência de vida, da qual podemos verdadeiramente aprender. "Não me desencorajo, porque cada tentativa errada descartada é outro passo à frente" (Thomas Edison).

Diante de nossas falhas podemos ter, pelo menos, três atitudes. A primeira é o esquecimento. Nós tentamos ilusoriamente "passar uma borracha" em cima de nossos erros e procuramos não pensamos mais neles. Esta atitude funciona somente com aqueles que não costumam mesmo pensar sobre a vida e seus atos. Quem assume esta postura parece ter uma vida mais tranqüila, mas não raramente esta se mostra cruel ou idiota. Afinal, quem procura se esquecer do que fez e não reflete sobre seus atos possui grandes chances de cometer as mesmas falhas do passado, e com elas novamente sofrer, ou fazer com que os outros sofram. A segunda atitude diante de nossas falhas é entendê-las como uma mácula. Não somente conservamos na memória o que fizemos de mal, mas fazemos a questão de carregar nossos erros por muito tempo como um fardo, um peso, uma cruz. Assim, adquirimos uma compreensão negativa de nós mesmos, o peso da memória nos deixa medrosos diante das novas situações e nos impede de crescer e viver com mais leveza. Por fim, nós podemos ver os erros como uma conseqüência natural de nossa imperfeição. Em outras palavras, nós podemos nos conscientizar verdadeiramente que errar é humano, o que significa que erros pertencem ao desenvolvimento do ser humano e estão a serviço dos acertos. Os erros pertencem à escola da vida e neles encontramos a oportunidade do aprendizado, do aperfeiçoamento de nossos atos e do nosso espírito. Esta consciência não deve estar relacionada somente com nossas ações, mas deve ser uma forma de tratamento com toda a nossa história. É necessário tirar proveito da realidade diversificada, na qual somos obrigados a viver. Nós aprendemos muito sobre a natureza humana não somente através da convivência com amigos fiéis e verdadeiros, mas também com amigos falsos e não confiáveis. A diversidade da vida nos ensina que nosso universo não é somente construído de atitudes, mas principalmente de desejos. Meu inimigo não é somente aquele que me ofende, mas também aquele que deseja me ofender. Por fim, a diversidade de momentos, situações, sentimentos, dores e prazeres constituem em espaços que devem possibilitar o desenvolvimento da vida. Mas isso não depende tanto da situação, mas como nós as vivenciamos. "O homem nasce para viver, e não para se preparar para viver" (Boris Parternak).

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

SATISFAÇÃO DE AGIR POR SI MESMO


Padre Beto
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Dois amigos caminhavam pela floresta. Em um determinado momento avistaram um enorme urso que vinha em sua direção. Imediatamente um deles subiu em uma grande árvore deixando o companheiro sozinho. Este, sem saber para onde ir e vendo que o urso era grande demais para ser dominado, jogou-se no chão fingindo-se de morto. O urso se aproximou e começou a cheirar o homem estendido no chão. O pobre rapaz fazia o possível para não respirar, afinal dizem que os ursos não atacam animais mortos. Depois de cheirar o homem dos pés aos seus ouvidos, o grande urso perdeu rapidamente o interesse naquele corpo aparentemente sem vida e retirou-se continuando seu caminho. O outro homem desceu da árvore e curioso perguntou ao amigo se o urso o havia ferido. O rapaz levantou se e disse que o animal o revelara algo de muito importante. Com espanto, o amigo quis saber imediatamente o que o urso havia cochichado em seu ouvido. O rapaz então respondeu: "Nunca caminhe pela floresta com um amigo que foge diante do perigo!" Mesmo depois de adultos costumamos, muitas vezes, esperar por alguém que venha resolver nossos problemas. Talvez por uma saudade inconsciente dos tempos de infância, nos quais havia sempre um adulto que nos salvava dos perigos, esperamos, não raramente, que um líder nos ajude a alcançar nossos objetivos, um ser iluminado nos entregue a solução de nossos problemas, um "salvador da pátria" nos conduza pelo caminho certo. Se não encontramos este alguém entre os mortais direcionamos nossa esperança a um Deus. Ele deve nos proteger, solucionar nossas dificuldades e endireitar nossa vida. "O homem que deixa um líder prescrever seu curso é como ruínas rebocadas para a pilha de escombros" (Ayn Rand). Viver, porém, significa mais que um simples existir. Se pensarmos bem, um ser humano começa realmente a viver quando assume uma ética individual através da qual ele se torna seu próprio líder. Sem dúvida alguma, todos nós precisamos da ajuda de alguém e ninguém é totalmente auto-suficiente, mas esta inter relação entre os seres humanos não pode significar dependência e acomodação. Todo ser humano deve buscar ser o líder de sua história e não esperar a chegada de um para que sua vida se desenvolva.

O primeiro passo para esta necessária autonomia é compreender que a escada da auto realização é escalada através dos degraus da oportunidade. Ser líder é em primeiro lugar perceber as oportunidades que cada situação nos oferece. Toda a situação se constitui em uma circunstância adequada para alguma coisa. Oportunidade de ajudar alguém, oportunidade de aprender algo, oportunidade de perder alguma coisa, oportunidade de ganhar, oportunidade de arriscar. Enfim, toda situação é ocasião de um agir e o fundamental é ser lúcido o suficiente para compreender a oportunidade que o momento nos oferece. Outro passo necessário para uma vida auto-realizável é a valorização da privacidade. Geralmente as pessoas dependentes se incomodam com o que o grupo pensa e fala e se importam demasiadamente em saber o que os outros fazem. Assim vivemos mergulhados em uma brincadeira mesquinha e repressora de espionagem. E se não nos sentimos espionados por alguém e nem conseguimos saber como os outros estão conduzindo sua vida criamos a idéia de que Deus está constantemente nos espiando. Porém, nós somente criaremos uma civilização verdadeiramente humana se vivenciarmos um processo de deixar o ser humano livre dos seres humanos.

Juntamente com a falta de privacidade e, portanto, de liberdade de tomar suas próprias decisões, o ser humano assimila a falsa idéia de que é uma virtude concordar com os outros. Porém, a vida é sempre triste quando plagiamos a existência, em outras palavras, a vida se reduz a uma mesmice quando reproduzimos os padrões do grupo ao invés de seguir nossas intuições. O ser humano criador é aquele que discorda. O criador é sempre aquele que nada contra a corrente. Para discordar é necessário, porém, a corajosa postura de aprender, conhecer e ter domínio sobre aquilo que somos e fazemos. Ninguém possui razões e argumentos para discordar se não possui conhecimento da situação. Ninguém conhece realmente se não aprende a raciocinar por si mesmo. Por isso, a coisa mais difícil no mundo é fazer o que queremos. Apesar de aprendermos desde cedo que é fácil fazer simplesmente o que desejamos e que necessitamos de regras para restringir a nós mesmos, a coisa mais difícil no mundo é fazer o que queremos. Para fazermos o que desejamos devemos ter a maior espécie de coragem: assumir a autoria de nossos atos. Esta coragem, porém, é o sintoma de verdadeira autonomia, maturidade e caminho de auto-realização. Ninguém é verdadeiramente feliz se não tiver a sensação de poder usar sua capacidade racional e de agir por si mesmo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A LAGARTA E A BORBOLETA



Padre Beto
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“Bom dia”, disse a borboleta à lagarta pousando no galho de uma árvore. “Você sabia que somos irmãs?” A lagarta levantando lentamente a cabeça olhou para a borboleta com certo espanto e respondeu: “Irmãs? Você deve estar enganada. Nós não somos nada parecidas!” “Não somos parecidas agora”, explicou a borboleta, “mas, daqui há algum tempo, você passará por uma transformação e se tornará muito semelhante a mim. Você poderá então voar e conhecerá novos mundos!” “Voar? Conhecer novos mundos?”, continuou a lagarta, “isso para mim é impossível!” “Tenha um pouco de paciência”, aconselhou a borboleta, “daqui há algum tempo, você poderá se alimentar do néctar das flores, ser livre para ir e vir e terá muitas cores em sua vida!” “Que eu poderei me alimentar do néctar das flores posso até imaginar, mas ser livre, possuir asas e cores tão bonitas como as suas, não posso realmente acreditar. Você está perdendo seu tempo ao tentar me iludir”, respondeu resignada a lagarta. A borboleta sorriu compreensiva com a falta de crédito da irmã e se despediu dizendo: “Muito bem, faça sua experiência de lagarta e um dia nos encontraremos novamente!”

Para o filósofo dinamarquês, S. Kierkegaard, o mundo e a vida não possuem um propósito determinado. Nós não somos como lagartas programadas para se tornarem borboletas. O único fato explicável e concreto sobre a vida humana é que somos indivíduos que possuem a habilidade de fazer escolhas. Justamente estas escolhas oferecem à vida um propósito. Em outras palavras, nós é que construímos o sentido da vida. Nada está imposto e pré determinado. A vida possui inúmeras forças escondidas, as quais só podemos descobrir e determinar seu valor vivendo, ou seja, fazendo nossas experiências. Somente descobrindo o poder que possui em determinar o sentido da vida, o ser humano pode passar de lagarta para borboleta. Para isso, a escolha mais significativa na vida é o que Kierkegaard chama de um “salto de fé”, ou seja, dizer sim à vida fazendo a escolha de que ela é o que mais importa. Ter fé na vida, ou seja, acreditar que ela seja um espaço maravilhoso de experiências de crescimento nos dá condições de encontrar um sentido para a vida que verdadeiramente nos enriqueça. Para o filósofo dinamarquês, não importa muito no que acreditamos, mas de que forma acreditamos. Por acreditar em Deus, por exemplo, o ser humano pode se tornar um alienado, um derrotado ou alguém capaz de vivenciar uma verdadeira transformação e saborear uma revolucionária auto-realização.

O ser humano pode, ao fazer a escolha pela vida, se realizar basicamente em três dimensões. Todas elas são importantes e nos complementam como pessoas humanas. Desde que nascemos, vivenciamos a auto-realização “estética”. Nesta, o ser humano está despertado para experiências hedonistas, em busca de prazer imediato e gratificação instantânea. Na necessidade da auto-realização estética vivenciamos somente o presente, limitando o significado de nossa existência à experiência momentânea. Nós aprendemos que a vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada. Viver os momentos de uma forma a buscar o prazer momentâneo não é algo necessariamente ruim, porém uma falha comum nesta busca de auto-realização é a tendência de perceber o momento presente com superficialidade. A maioria das pessoas que permanece na busca estética de auto-realização procura o prazer em uma pressa tão consumista que passa por ele rapidamente sem saboreá-lo com profundidade.

Sem abandonar a primeira, podemos viver a auto-realização “ética”. Nesta, o ser humano se encontra comprometido com princípios universais e padrões morais para guiar seu comportamento ampliando o significado da vida. Aqui encontramos os valores e os grandes ideais que nos levam a abdicar de um prazer atual e momentâneo para alcançarmos um bem maior. Quem ama uma pessoa ou sonha com uma sociedade mais justa e fraterna para todos conhece muito bem o sabor desta auto-realização.

Por fim, o ser humano pode se despertar para uma auto-realização “religiosa”. Nesta, descobre-se não o sabor de uma coisa ou idéia, mas do próprio movimento de transcender. A realização pessoal não está mais nos limites da existência, mas possui horizontes infinitos. O ser humano descobre que o dom da vida é eterno e alcança uma grande liberdade em viver. Como afirma Kierkegaard, quem possui o hábito da oração não tem o poder de mudar a Deus, mas possui a chance de mudar a si próprio.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A SÍNTESE ENTRE BUDA E A CORUJA



Padre Beto
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Certa vez, um jovem perguntou a Buda: "O que mais te surpreende na humanidade?" Com a franqueza de sempre, Buda respondeu: "Os homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver o presente nem o futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido!"

A coruja é uma ave que tem excelente audição, uma enorme capacidade de enxergar no escuro e é capaz de girar a cabeça até três quartos da rotação total, o que permite a ela observar melhor as coisas que estão acontecendo ao seu redor. Graças a estas qualidades, a coruja é considerada por muitos povos o símbolo do saber filosófico. O ato de filosofar começa com a observação atenta da realidade e principalmente das ações humanas. Justamente o hábito tão simples, porém muitas vezes raro, de pensar sobre nossas ações as caracteriza como "humanas" e nos dá a garantia de uma vida mais autônoma e feliz. O ato humano se diferencia dos outros acontecimentos, pois ele não é simplesmente provocado, mas realizado, ou seja, nele encontramos uma razão, uma intenção como origem do fazer. Um ato é, por definição, um evento que se faz acontecer por uma consciência. Portanto, a essência de nossas ações está em sua racionalidade, na capacidade que possuímos de pensar. Para que um ser humano alcance sua autonomia é necessário que ele aprenda a pensar naquilo que faz, deixa de fazer ou pretende realizar. Quantas vezes vivemos sem saber, sem refletir sobre nossas ações e acabamos vivendo da forma que não desejamos. Aristóteles escreve em sua obra "Ética a Nicômaco" que a ação possui dois elementos fundamentais: o fim (telos) e a deliberação (bouleusis). Portanto, pensar sobre nossos atos significa, em primeiro lugar, refletir sobre os fins que pretendemos alcançar e sobre as escolhas que devemos fazer para alcançá-los. Todos os seres agem em vista a um fim, porque são movidos pela necessidade e desejam chegar a um estado de satisfação. O que diferencia os seres humanos de outros seres vivos é a consciência do desejo, a adequação deste com a realidade e a escolha de como e quando agir para atingi-lo. Uma ação humana torna-se satisfatória a partir do momento que a escolha que leva ao ato surge da combinação entre intelecto (nous) e desejo (orexis). O segredo para uma verdadeira autonomia é atingir um grau de consciência sobre nossos desejos e realizá-los através de nossos atos. Fazendo de nossa ação uma síntese entre a razão e o desejo nos tornamos sujeitos de nossa história e damos a esta o sentido que sonhamos. "Somos, no fundo, a transformação que queremos para o mundo" (Gandhi).

Tornar-se verdadeiramente autor de suas ações significa analisá-las também na perspectiva do bem e do mal. As ações são boas ou más, segundo seus fins e seus meios. Dormir depois do almoço pode ser muito bom, se a intenção é o repouso, a recuperação das energias, mas pode ser muito mau, se desejamos fugir do cumprimento de um dever. Analisar nossas ações implica saber confrontar as conseqüências de nossos atos, o "finis operis", com nossas íntimas intenções, o "finis operantis". Dar dinheiro a alguém é uma ação materialmente neutra. Este ato pode ser expressão de generosidade, de verdadeira partilha, quando o dinheiro irá ajudar outro ser humano a conquistar sua dignidade e autonomia. O ato de dar esmola, porém, pode gerar dependência de quem pede e servir a fins discutíveis, como satisfazer nosso orgulho ou tranqüilizar nossa consciência. Os nossos atos só são bons se a própria ação, o fim e as circunstâncias forem verdadeiramente bons.

Pensar sobre nossas ações significa deixar claro nossas responsabilidades. Estas, porém, devem estender-se ao que está em nosso alcance, em nosso "poder fazer". Ninguém deve cobrar de si próprio o impossível, aquilo que não pode realizar. Em contrapartida, não é aconselhável escapar à responsabilidade deixando de agir. Muitas vezes queremos camuflar nossa omissão com o discurso da neutralidade. Mas se pensarmos bem, toda neutralidade é ilusória, pois nosso envolvimento é fatal a partir do momento que tomamos consciência dos fatos. De qualquer forma, somente através do hábito de pensar sobre seus atos e agir com reflexão é possível atingir autonomia, evitar erros, ter paz de consciência e viver a ética pregada por Jesus Cristo: a unidade e harmonia entre ato exterior e a disposição interior. Segundo seu ensinamento, não é possível contentar-se nem com uma boa intenção sem agir, nem com o agir sem a disposição que se precisa ter. "Nada de esplêndido jamais foi realizado, exceto por aqueles que ousaram acreditar que algo dentro deles era superior às circunstâncias" (Bruce Barton).





domingo, 7 de agosto de 2011

A MUDANÇA DE PERCEPÇÃO


Padre Beto


Certa vez, um homem ouviu falar que em uma terra distante existia uma chama mágica que transformava tudo a sua volta. Com grande entusiasmo, o homem viajou vários dias e finalmente conseguiu acender uma tocha naquela chama mágica iniciando depois o caminho de volta a sua terra com a esperança de obter, através da magia da chama, o sucesso em sua vida. Em um determinado trecho do caminho, porém, chovia e fazia muito frio. Um mendigo que estava na estrada pediu ajuda para acender com sua tocha uma fogueira e poder se esquentar. O homem quase recusou; afinal, como utilizar uma tocha tão mágica para um objetivo tão banal. Mas acabou cedendo e o mendigo acendeu a fogueira podendo, assim, se esquentar. Quando o homem chegou a sua casa colocou a chama no centro de sua sala de estar e, feliz com sua conquista, conseguiu dormir em paz, pois o seu sucesso individual estava garantido. Durante a noite a tocha caiu no chão e o fogo se espalhou pela casa destruindo-a totalmente. O homem caiu na miséria.

A felicidade plena é uma ilusão. O que o ser humano é capaz de alcançar em sua existência são graus de satisfação que sejam mais intensos que os graus de frustração. Em todo momento possuímos um grau de satisfação e simultaneamente um grau de frustração. Em outras palavras, a cada dia temos situações que nos dão alegria e prazer e situações que nos causam tristeza e desprazer. Quando estamos felizes significa que as situações prazerosas possuem um grau tão intenso que não percebemos as situações frustrantes. O contrário é também verdade, quando nos sentimos infelizes significa que as situações de frustração são mais intensas que as situações prazerosas. O fato é que as duas, situações prazerosas e frustrantes, sempre estão simultaneamente presentes em nossa vida. Quando nos sentimos infelizes e desejamos modificar uma situação, o primeiro passo é mudar a nós mesmos. Ninguém consegue transformar uma situação sem mudança de postura e principalmente de concreta atitude. Mas para mudar a nós mesmos e, portanto, as próprias posturas e atitudes, é necessário modificar a nossa percepção. São as nossas percepções que, nos chamados “momentos infelizes”, nos levam a acentuar o nosso foco sobre as situações frustrantes deixando de perceber as pequenas situações prazerosas. Como também é a nossa percepção que, nos chamados “momentos felizes”, nos impede de ver as pequenas situações frustrantes que, se não corrigidas a tempo, poderão nos levar mais tarde a momentos infelizes. Mudar a si mesmo significa, antes de qualquer coisa, mudar sua percepção. Esta mudança começa com um exercício muito simples: nos questionarmos sobre o significado das coisas que estão a nossa volta e porque necessitamos delas. Muitas vezes, nos importamos com coisas e pessoas que na verdade não deveriam ter grande importância em nossa vida e nos esquecemos de outras coisas e pessoas que são fundamentais. Deixamos de nos perguntar o que significa, na verdade, coisas que pertencem a nossa vida como família, amizade, cultura, dinheiro, bens de consumo, religião, a alimentação que temos à mesa, a atividade profissional que desempenhamos. Pior ainda, não somente não nos perguntamos o que tudo isso significa, mas deixamos de nos questionar qual o lugar dessas coisas em nossa vida. Este exercício começa com as coisas mais próximas que tomamos contato. Mudar a percepção é perguntar o que significa o café da manhã e o que estou me alimentando através dele; o que significa a pessoa que está ao meu lado e qual o seu lugar em minha vida; o que significa dirigir no trânsito e porque desejo sempre ultrapassar o carro que está a minha frente; qual o sentido do meu trabalho, que importância possui meu patrão ou meu empregado e se existe em nossa relação não somente cordialidade, mas também justiça. Enfim, o exercício sobre o significado e o valor das coisas deve ser constante. Experimente fazê-lo apenas por um dia. A partir do momento que fazemos constantemente este exercício de nos perguntar o significado e o valor das coisas e pessoas que nos circundam, a nossa percepção começa a mudar e entramos em um processo de revisão de conceitos como de mudança de posturas e atitudes diante destas coisas e pessoas. Viver significa antes de qualquer coisa perceber. Mas vivemos de forma consciente a partir do momento que buscamos o significado das coisas e as colocamos em seus devidos lugares. Caso contrário, continuaremos pagando nossos impostos e pedindo a Deus que nos proteja da criminalidade ou nos cure de uma doença ao invés de cobrar do Estado segurança e tratamento de saúde. Sem a mudança de percepção continuaremos a comprar vídeos piratas e a criticar nossos políticos de corrupção, continuaremos a nos iludir de que o amor elimina a solidão e que a morte nunca atingirá as pessoas que queremos bem e nem a nós mesmos.

domingo, 24 de julho de 2011

INTELIGÊNCIA, SABEDORIA E BONDADE


Padre Beto


Um discípulo aproximou-se de seu mestre e perguntou: "Lendo as Sagradas Escrituras, me dá a impressão que nos tempos passados as pessoas podiam encontrar-se diretamente com Deus. Por que nós hoje não conseguimos ouvi-lo tão claramente? Por que não conseguimos mais fazer uma experiência tão direta com Deus?" O mestre pensou um pouco e disse: "Talvez, por que hoje ninguém possui a disposição de curvar-se o suficiente!"

Segundo a teologia cristã, Deus se revela na história humana em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Muito já foi escrito sobre o mistério da Santíssima Trindade, sobre a comum unidade deste Deus único que se manifesta em três pessoas. Porém, uma das reflexões mais interessantes encontra-se na teologia de Pedro Abelardo. Para o filósofo medieval, cada uma destas pessoas da Santíssima Trindade representa um atributo divino. O Pai corresponde à potência, a força que cria e gera a vida. O Filho representa a sabedoria, a Palavra de Deus encarnada, vivida, transformada em experiência visível. O Espírito Santo, por sua vez, apresenta-se como a bondade, o espírito que nos torna capazes de fazermos a experiência do amor, da doação, da compreensão verdadeira do outro e de todo o universo. Compreendendo a Trindade desta forma, encontramos um caminho de sintonia com Deus que se desenvolve não através de uma simples mentalização, mas principalmente de uma possível experiência vivencial. Alcançar uma sinergia com Deus significa aprofundar os atributos divinos que encontramos em nosso próprio ser. Nós fazemos uma verdadeira experiência de Deus a partir do momento que intensificamos nossa potência, preenchemos nossa existência através de uma vida de sabedoria e em nossos relacionamentos desenvolvemos a concreta bondade.

O encontro com Deus se realiza primeiramente quando o ser humano é sensível o suficiente para sentir dentro de si mesmo o pulsar da vida. Todo ser humano possui em si uma força criadora e criativa, através da qual não somente a sobrevivência torna-se possível, mas a transformação, a expansão e o desenvolvimento da vida. Esta potência vital se desdobra nas mais diversas capacidades que o ser humano descobre dentro si, potencialidades estas que o fazem capaz de imaginar um mundo feliz concretizando-o através de seus atos. Aristóteles já afirmava que a felicidade é o objetivo da potência que nos movimenta, de nossa força vital. O encontro com Deus se realiza concretamente, quando o ser humano torna-se consciente de seus dons e, sem medo, deixa-os fluir em puro desenvolvimento. Quando deixamos de sentir medo da vida e abandonamos a falsa modéstia acreditando em nossa criatividade e em nossa capacidade de realizar, nos aproximamos de Deus-Pai. "Uma chama poderosa seguiu-se a uma pequena faísca" (Dante Alighieri).

Ao mesmo tempo nos aproximamos de Deus quando aprendemos a administrar nossa força vital e nossas capacidades, ou seja, quando buscamos uma vida de sabedoria. Em outras palavras, o ser humano caminha em direção da satisfação de viver a partir do momento que aprende a utilizar um dos maiores dons que possui: a inteligência. A sabedoria implica o uso de nossa capacidade racional desenvolvendo-a em duas dimensões. A primeira se constitui na busca de enriquecer nossos conhecimentos, ou seja, na consciente busca da verdade das coisas e da vida (bios theoretikós ou vita contemplativa). Para esta dimensão é necessário que possamos rapidamente adquirir um hábito muito simples: a leitura. Desligar a televisão e abrir um livro. O segundo caminho para o uso da atividade racional é a análise de nossas experiências de vida transformando-as concretamente para melhor (bios praktikós ou vita activa). No final de cada dia, deveríamos nos esforçar em fazer um balanço crítico de nossos atos: qual foi o resultado deste dia, o que realizamos de bom, o devemos fazer para que o dia de amanhã seja melhor que o dia de hoje. Pertence a este exercício da inteligência a administração de nossa força vital compreendendo quando devemos descansar e quando devemos realmente entrar em ação. "A verdade é o melhor solo sobre o qual a beleza pode germinar" (Christopher Morley).

Por fim, nos aproximamos de Deus quando cultivamos em nós a bondade, ou seja, quando colocamos nossa força vital e nossas potencialidades a serviço de nossos semelhantes e do bem comum. Bondade significa em última instância ser pelo desenvolvimento da vida. Nela está implícito a compreensão de que encontramos verdadeiramente o sabor de viver quando fazemos algo de concreto para que outras pessoas possam caminhar em busca de sua felicidade. "Parece-me que o bom cidadão deve preferir as palavras que salvam às palavras que agradam" (Demóstenes).

A experiência de Deus é algo muito concreto e depende de nossa capacidade de "curvar-se", de olhar para dentro de nós mesmos: a consciência de nossa verdadeira força vital, o desenvolvimento de nossas potencialidades, a boa administração de nosso tempo e a bondade através de nossos atos. "O homem é absurdo por aquilo que busca, grande por aquilo que encontra" (Paul Valéry).

domingo, 10 de julho de 2011

O MURO E O SABUGUEIRO


Padre Beto
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Um garoto observava um pequeno pássaro em um sabugueiro. Depois de "brincar" por algum tempo com as folhas e as sementes da árvore, o pequeno pássaro voou para um grande e imponente muro e tranqüilamente começou a limpar o bico deixando, no muro, uma semente de sabugueiro. Anos se passaram e o garoto tornou-se adulto. Um dia, retornando ao bairro de sua infância, o homem notou a presença de um sabugueiro que havia se desenvolvido junto ao velho e não mais imponente muro. Neste, o sabugueiro havia provocado uma enorme rachadura, através da qual as crianças podiam passar de um quintal para o outro. Com um pedaço de carvão, o homem escreveu no muro ao lado do sabugueiro a seguinte frase: "O grande feito de um pequeno pássaro!"

Todas as coisas possuem seu "ser" na existência, porém, quem confere a elas um determinado valor e significado é a razão humana. Em outras palavras, o homem conhece todas as coisas e estabelece o lugar destas em seu universo. Assim, construímos o mundo sob a nossa perspectiva humana. Por isso, Jean-Paul Sartre procura fazer em sua filosofia uma distinção entre o "ser em si" e o "ser para si". O "ser em si" é o que as coisas são, no momento, independentemente do valor e significado que depositamos nelas. Uma pedra, uma árvore ou um pedaço de madeira são objetos que estão perdidos no tempo e no espaço. Mas, diante do ser humano são ordenados e valorados de acordo com sua mentalidade. A partir desta intervenção humana, a árvore, a pedra e a madeira tornam-se partes de um jardim. A construção deste jardim é possível graças ao que Sartre chama de "ser para si", ou seja, a capacidade de ver o que ainda não existe, o que o ser poderia ou deveria estar sendo. Nesta capacidade de ver o que não existe encontra-se o sentido da própria existência humana. Nossa existência constrói o universo modelando-o conforme o compreendemos. Portanto, para Sartre, a existência vem antes da essência. Em outras palavras, o ser humano existe, encontra-se consigo mesmo na dialética da vida, na dinâmica com seu universo, analisa o seu viver e depois define a si próprio. Ao encontrar uma definição do que ele é compreende o que falta, o que ainda não existe. Para a nossa consciência humana, o ser das coisas é também aquilo que ainda não são e aquilo que ainda não é já pertence à constituição das coisas que estão sendo. Por isso temos a visão de que o universo humano é incompleto. O nosso universo não é perfeito, pois possuímos sempre uma visão mais perfeita do que as coisas são no momento. Esta percepção do que não existe demonstra que nós, seres humanos, somos essencialmente orientados para o futuro. O ser humano, na verdade, se constitui sempre em um projeto, um projeto de si próprio. Nós somos sempre aquilo que ainda não somos. Em outras palavras, nós não nos deixamos reduzir pelos fatos. O ser humano não é apenas o que está sendo, mas também aquilo que deseja ser. "É indispensável conhecermo-nos a nós próprios; mesmo se isso não bastasse para encontrarmos a verdade, seria útil, ao menos para regularmos a vida, e nada há de mais justo" (Blaise Pascal).

Deste desejo quase que impertinente de ser mais e da tentativa constante de realização daquilo que não existe surge o que chamamos de liberdade humana. Os animais são movidos pela realidade na qual se desenvolvem. Eles são incapazes de serem críticos de seu universo e transformá-lo conforme desejam. Ao contrário dos outros animais, o ser humano está condenado à liberdade, pois possui em si o desejo de realizar aquilo que ainda não existe, mas que já está em sua imaginação. "O sonho é a tentativa de satisfazer um desejo" (Sigmund Freud). Com esta capacidade racional de analisar sua realidade, o ser humano acaba sendo totalmente responsável por si mesmo. Ele carrega uma total responsabilidade sobre aquilo que é, pois em suas mãos está a possibilidade de, pelo menos tentar, se tornar o que na verdade deseja ser. Muitas vezes encontramos imensas barreiras que nos impedem de realizar o que gostaríamos de viver, mas basta a busca da tentativa para que o ser humano venha a ter a satisfação de não estar preso às circunstâncias. "A força de vontade dos fracos chama-se teimosia" (Marie Von Ebner-Eschenbach).

Na dinâmica de autoprojetar-se, o ser humano pode diminuir sua responsabilidade sobre o que ele é criando para si ilusões ou justificativas para a situação atual. A fuga de nossos desejos e sonhos, na verdade, significa a conformação ou acomodação com a ordem vigente. Esta acomodação, porém, nega a nossa própria condição de pessoa: pensar a realidade e construí-la de uma forma que possibilite o melhor desenvolvimento da vida. Se analisarmos nossa condição antropológica de pessoa humana, ou seja, ser que pensa e transforma, chegaremos à constatação de que viver saudavelmente como ser humano significa mergulhar no movimento construtivo de nossa insatisfação diante das situações e ativamente direcionarmos nossa transcendência. "Eu nunca cometo pequenos erros enquanto eu posso causar terremotos" (Raul Seixas).

domingo, 26 de junho de 2011

SER E NÃO-SER


Padre Beto


Uma amendoeira crescia esplêndida e suntuosa. Orgulhosa de si mesma, a árvore contemplava diariamente seus galhos e suas folhas. Um certo dia, um pequeno pássaro pousou em um de seus galhos e colocou seu ouvido no tronco da amendoeira constatando a existência de alguns vermes. O pequeno pássaro, então, fez um furo na grande árvore e começou a retirar os vermes que encontrava. A amendoeira ficou extremamente irritada, pois aquele mísero pássaro estava estragando a superfície lisa de seu tronco. Além do mais, o pássaro não se relacionava bem com os papagaios coloridos que davam um tom exótico aos galhos da amendoeira. Assim, a suntuosa árvore expulsou o pequeno pássaro. Os vermes foram crescendo, procriando dentro da amendoeira e formando uma enorme legião. Lentamente devoraram o interior da grande árvore que um dia foi derrubada por uma ventania.

A pessoa humana, segundo Johann Gottlieb Fichte, vive e se desenvolve em um constante caminhar dialético. Ao olhar para si mesmo, todo ser humano pode constatar aquilo que é no momento e como está sua vida. Através deste olhar encontramos um determinado conteúdo, certos aspectos que compõem, no agora, o nosso eu e a nossa existência. Desta forma, podemos sempre categorizar e valorar a "fase" em que vivemos, ou seja, o resultado da soma de diversas dimensões: vida pessoal, profissão, relacionamentos, etc. Porém, neste exercício de auto-análise sobre a vida, a pessoa humana pode também constatar aquilo que ela não é e a situação na qual não está. Em outras palavras, o conteúdo de nosso ser e de nosso existir pode nos mostrar também aquilo que nos falta. A constatação do "não-ser" pode ser amarga, mas nos leva a perceber a importância daquilo que é ausente. Justamente a falta de alguma coisa ou de alguém, nos leva ao reconhecimento do verdadeiro valor desta coisa ou deste alguém. O preso conhece o significado da liberdade e o doente compreende o significado da saúde. Sem dúvida alguma, a percepção desta antítese da vida, ou seja, daquilo que não nos é oferecido, depende do grau de conhecimento e criticidade do ser humano e da insatisfação decorrente desta. Nós podemos, por exemplo, ter a sensação de estarmos satisfeitos, ao encontrarmos uma justificativa que nos obrigue a aceitar a vida como ela, no momento, se encontra. "Foi Deus que quis assim", "este é o meu destino", "a vida é assim", "eu tenho que carregar esta cruz", são frases que expressam a necessidade de uma explicação "lógica", como também de consolo, para situações que não nos satisfazem. Nós podemos também nos acomodar com a atual situação da vida, por não sabermos o que podemos alcançar, o que nos é de direito ou o que a vida pode nos oferecer. "Ninguém sabe o bastante para ser um pessimista" (Norman Cousins).

Por fim, a dialética da vida humana se completa com a síntese da tese com a antítese, ou seja, do conteúdo atual da vida com sua falta. Na relação do "ser" com o "não-ser" vamos em busca de um ser completo, de um ser realizado, de um ser absoluto. Por isso estamos em constante transcendência em busca de completarmos aquilo que somos e realizarmos aquilo que nos falta. Esta transcendência é possível graças à fusão entre a constatação daquilo que alcançamos, daquilo que somos, e o reconhecimento da imperfeição, do não-ser. Por isso sentir-nos realmente incompletos, não satisfeitos, não integrados em nossa atual realidade não significa necessariamente algo negativo. Pelo contrário, a visão de nossa imperfeição é a possibilidade de mudança, a oportunidade para a transformação. Afinal, nós, seres humanos, não somos como os animais que vivem em pura harmonia com seu habitar, mas peregrinos, andarilhos, que estão em constante busca da casa, da harmonia, em outras palavras, do ser em sua completude. Nós podemos nos perceber assim, porque somos capazes de ver o que realizamos até agora, mas também porque somos capazes de constatar o que ainda não fizemos. Na constatação daquilo que não sou, é possível a minha transcendência, uma significativa transformação. "Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância" (Sócrates).

Não viver a dialética do "ser e não-ser" significa viver na ilusão de ser perfeito ou na condenação do não-ser. Assumir a dialética da vida significa abrir os olhos para as lacunas de nossa sociedade, para a situação de injustiça social, para as falhas da democracia e os mecanismos destrutivos da economia. Viver na dialética da vida significa estar sempre aberto para o indeterminado, para a surpresa, se aventurando diariamente na construção daquilo que desejamos ser. Viver na dialética do "ser e não-ser" é assumir que não existe uma antropologia, mas uma "antropogênese". Em outras palavras, não existe o ser humano acabado e condenado. Na dinâmica da vida, o ser humano se forma e se trans-forma criando a si próprio e ao mundo. "Para ensinar há uma formalidade a cumprir. Saber" (Eça de Queiroz).

domingo, 12 de junho de 2011

A POLÍTICA COMEÇA COM AS ELEIÇÕES


Padre Beto


Um pequeno pássaro construiu, em um galho de uma árvore, um ninho e colocou seus ovos. Depois de alguns dias, o pequeno pássaro percebeu, para seu grande desespero, a presença de uma cobra que, lentamente, se dirigia em direção ao ninho. Voando aos ziguezagues, sem saber o que fazer, o pequeno pássaro já via a vida de seus futuros filhotes praticamente destruída. Um macaco percebendo a situação disse ao passarinho: "Não se preocupe, eu vou afastar a cobra atirando pedras!" O pássaro, então, respondeu: "Não faça isso, você pode, com as pedras, atingir meus ovos e assim destruí-los!" Um elefante estando por perto viu o desespero do pequeno pássaro e tentou prestar alguma ajuda: "Eu vou balançar a árvore com minha trompa e fazer a cobra cair." O passarinho disse imediatamente: "Não faça isso, ao balançar a árvore meus ovos podem cair no chão!" Foi então que o pequeno pássaro teve uma grande idéia. Se os grandes da floresta não podem me ajudar os menores com certeza poderão. O pássaro voou velozmente para um formigueiro e explicou a situação às formigas. Imediatamente a árvore encheu-se de formigas que se amontoaram por cima da cobra. Esta entrou em desespero, caiu ao chão, se chacoalhando e cheia de picadas fugiu para bem longe.

Em um sentido amplo, política significa todo jogo de influências dentro das relações humanas. Ao vivermos em sociedade somos influenciados por determinadas pessoas e exercemos influências sobre elas. Este jogo é inevitável e se desenvolve, na maioria das vezes, de forma inconsciente. Foi neste sentido que Aristóteles definiu o homem como um ser essencialmente político. O simples fato de existir em um determinado grupo provoca a transformação do mesmo, pois minha presença, independentemente de minha vontade, o influencia de alguma forma. Em um segundo nível, política constitui-se no exercício "consciente" deste jogo de influências. Neste nível, procuramos alcançar determinados objetivos e para isso traçamos estratégias procurando convencer nossos semelhantes da importância do que desejamos. Esta forma de política pode ser exercida em nosso microcosmo, como família, grupo de amigos ou bairro, como também em nosso macrocosmo, ou seja, em nossa sociedade. Dependendo da forma como influenciamos no macrocosmo, possuímos um determinado regime político. Em nosso caso, podemos participar de forma livre dos jogos de influência da nossa sociedade, o que significa que vivemos em uma Democracia. Segundo a definição clássica de Abraham Lincoln, "democracia é o governo do povo, com o povo e para o povo". Democracia é, primeiramente, o poder "do povo" de se auto-governar (of the people). Mas, quem é na verdade o povo? Em uma democracia o povo constitui-se na maioria. As decisões da maioria devem determinar os rumos da organização de uma sociedade e as minorias são obrigadas a se adequar a estas. Democracia, porém, não significa uma ditadura da maioria. Portanto, é necessário que esta tenha tolerância, permitindo assim que as minorias exerçam o direito de divulgar suas idéias e talvez algum dia terem a chance de se tornarem maioria. Este aspecto nos leva à outra dimensão da democracia: o poder em uma democracia é exercido para o povo (for the people), ou seja, para o Bem Comum de todos. Os representantes do povo devem criar condições para que todo ser humano possa se desenvolver como pessoa, independentemente de suas crenças, ideologias, sexo, religião ou opções políticas. Isso só é concretizado a partir do momento que vivenciamos o último aspecto da democracia: a democracia é exercida pelo povo (by the people). Exercer este poder não significa simplesmente participar de uma eleição, mas a partir dela, acompanhar os trabalhos de seus representantes. Tanto a maioria como as minorias devem procurar saber "o que" e "como" os políticos realizam seus serviços tanto no Executivo como no Legislativo. É necessário se ter a consciência de que um político eleito não é um vencedor que merece honras, mas alguém que acabou de se tornar um empregado do povo e de assumir uma grande responsabilidade. O povo deve ter a consciência de que as realizações destes homens e mulheres não serão "presentes" ou "concessões" à população, mas sim obrigações que possuem diante delas. Em nosso país, os políticos são muito bem pagos para trabalhar com eficiência por uma sociedade que deve, com urgência, tornar-se cada vez mais justa e humana, uma sociedade que tenha uma saúde preventiva, um ótimo sistema educacional, professores bem remunerados, policiais bem pagos e bem equipados, ruas limpas e sem buracos, praças que possam ser freqüentadas sem medo. Infelizmente, estamos ainda um pouco longe para que a nossa democracia se torne um governo do povo, com o povo e para o povo. O exercício da democracia é, porém, uma questão de prática. Para esta é necessário que compreendamos que o jogo de influências, ou seja, a política, começa a partir das eleições. Em outras palavras, todo ano é ano político. Somente com mais participação, movimentação popular, incansáveis debates sobre nossa realidade, fiscalização e controle de nossos políticos atingiremos uma consciência verdadeiramente democrática e uma sociedade que permita o desenvolvimento da vida de todos.

domingo, 29 de maio de 2011

CALEIDOSCÓPIO


Padre Beto
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Uma lenda árabe conta que um jovem rapaz e uma moça andavam por caminhos diferentes. Em um determinado trecho, os dois caminhos se cruzavam, o que provocou o encontro dos jovens. Após uma pequena apresentação, os dois resolveram, a partir daquele momento, caminhar juntos. Depois de algum tempo, avistaram uma alta montanha. Para atravessá-la, os viajantes deveriam passar por um túnel. A moça parou à entrada do túnel e disse ao rapaz: "Eu não entrarei com você neste túnel!" "Por que não?", perguntou o jovem. "Você poderia me abraçar e dar um beijo!", respondeu a moça. "Como eu poderia fazer isso?", tentou se defender o jovem, "eu tenho uma mochila nas costas, meu cajado em uma das mãos e na outra minha ovelha!" Mas a moça continuou a manter sua opinião: "Você poderia me pedir para segurar a ovelha, fincar o cajado no chão e jogar a mochila em um canto e então estaria livre para, por exemplo, me beijar". O jovem olhou a moça, com admiração, durante um determinado tempo e finalmente disse: "Que Deus abençoe sua sabedoria!" Logo em seguida os dois entraram no túnel!

Para John Locke o conhecimento surge da experiência. Tudo que a mente do ser humano apreende ou percebe das coisas que o rodeiam são impressões que constroem e modificam a nossa visão de mundo. Percepções da realidade e conclusões sobre esta compõem nosso conteúdo intelectual. Porém, a compreensão dos objetos e situações de nosso universo não é assimilada de forma direta e imediata, mas está sempre condicionada à maneira como vemos o mundo. Nossa compreensão da realidade é permeada de idéias que surgem de nossas experiências particulares, de uma interação muito própria com a realidade. Portanto, nosso conhecimento da realidade não é simplesmente construído através do contato com ela, mas pela forma como vivenciamos este contato. Assim, pessoas diferentes e em momentos diferentes de sua vida poderão ter contatos com uma única realidade e retirar dela conteúdos diversos. Ao assistirmos um filme possuímos uma determinada impressão e retiramos dele uma determinada mensagem. Ao assistirmos o mesmo filme depois de alguns anos, poderemos nos surpreender com reflexões que não eram para nós possíveis na primeira experiência com o filme. O conhecimento da realidade depende da forma como podemos perceber o mundo e esta possui limitações e condicionamentos que influenciam nossa percepção e compreensão: o conteúdo intelectual que possuímos, o momento emocional em que vivemos, as nossas condições físicas, preocupações e compromissos para o amanha, etc.

A nossa compreensão sobre a realidade é sempre influenciada por fatores que a ampliam ou a limitam. A amplitude ou limitação do conhecimento sobre as coisas está sempre relacionada com o poder de ver e sentir o conteúdo do momento presente. Os nossos horizontes, porém, são ampliados não somente pelas novas experiências que fazemos, mas também à medida que compartilhamos nossas idéias com outras pessoas. Cada encontro com outros seres humanos é, portanto, uma troca de visões diferentes da realidade. A vida social nos oferece a oportunidade do diálogo, do momento, muitas vezes conflitivo, de confrontação com formas diferentes de compreensão do mundo. O diálogo permite ampliar nossa compreensão da realidade, pois podemos vê-la e senti-la através da ótica de outras pessoas. Um simples bate-papo com os amigos em um barzinho, uma conversa no almoço com a família, comentários na fila do banco e principalmente a leitura de livros podem se tornar verdadeiros espaços de descoberta da realidade; basta estarmos abertos para transmitir nossas idéias e recebermos as dos outros. Como diz um velho ditado: "Deus não aceita quem se sente feliz indo sozinho para o céu".

 
 

domingo, 15 de maio de 2011

DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA


Padre Beto
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Certa vez, um camponês entrou em um restaurante à beira da estrada para almoçar. À mesa ao lado estavam alguns jovens da cidade. Quando o almoço foi servido, o sitiante fechou por alguns minutos os olhos e juntou as mãos fazendo uma pequena oração. Os jovens começaram a debochar da atitude do sitiante e um deles resolveu provocar o camponês: "Na sua casa todos fazem assim? Provavelmente todos vocês rezam para tudo, não é?" O sitiante, que neste meio de tempo já saboreava seu almoço, com muita calma e serenidade, respondeu ao jovem de sorriso cínico: "Não, nem todos em casa rezam para tudo..." O jovem resolveu continuar a conversa perguntando: "Não? Quem não tem o costume de rezar?" "Bem...", respondeu com um sorriso o sitiante, "por exemplo, meu burro, minha vaca e meu porco. Estes começam a comer sem fazer uma única oração!"

Ao contrário do que muitos podem pensar, tornar-se religioso significa vivenciar essencialmente uma rebelião. Aquele que toma consciência de Deus e com Ele inicia um relacionamento qualitativo transforma-se automaticamente em um rebelde. Rebeldia no sentido de não conseguir mais se conformar com o estado das coisas. Religião consiste em uma "não-conformidade" e, portanto, a necessidade de transcendência. O ser humano se torna verdadeiramente religioso quando sente um desejo crescente de vivenciar uma mudança radical em sua vida, mudança esta que o leve à essência de sua existência, de seu viver. Neste sentido, ser religioso não significa a simples conformidade com regras e preceitos de uma determinada religião oficial ou o ato de pertencer uma igreja como se pertence a uma organização ou sociedade. Pertencer a uma igreja e seguir seus preceitos é muito fácil e muitas vezes o fazemos por medo ou busca de segurança, o que na verdade expressa uma postura anti-religiosa. Apesar de provocar obrigatoriamente uma mudança externa, o tornar-se religioso desenvolve-se no nível da consciência entre Deus e o ser humano.

A religião deve, também, nos conduzir a uma verdadeira liberdade. Ela não pode ser um tóxico, pois sua função é a possibilidade da consciência e não da inconsciência. A consciência, por sua vez, é naturalmente rebelde, pois nela inclui o pensamento, a criticidade, o raciocínio, a franqueza, em outras palavras, a individualidade. Uma verdadeira religião deve nos levar à coragem de sermos autênticos. Ser religioso, não é imitar alguém, mas buscar ser você mesmo. Depois de nossa existência, Deus não irá nos perguntar se fomos iguais a Moisés, Jesus, Buda ou Maomé, mas sim se fomos capazes de sermos nós mesmos, se fomos capazes de amar a vida e nossos semelhantes de acordo com nossa maneira de ser.

A verdadeira religião não é algo mecânico, algo que fazemos porque esperam que se faça. Se alguém segue as regras de uma religião para conviver com sua sociedade ou porque foi condicionado a isso, ele poderá ir regularmente à igreja, fazer suas orações, seguir os rituais, mas tudo será vazio e praticamente nada se transformará em sua vida. Se a vivência religiosa não estiver em seu coração, tudo será morto e mecânico. Fazer exatamente como está escrito, sem nenhum erro, pode estar perfeito, mas estará morto. Religião é algo que acontece entre você e sua existência concreta. Não é um mecanismo de convivência social e muito menos tradição, pois religião não pode ser emprestada. O ser humano deve conquistá-la, terá que se arriscar. A religião não pode ser barata ou falsificada. Ela não é consolo, é um desafio. Deus desafia o homem a um crescimento. A religião deve agitar o ser humano e não fazer com que ele se acomode; ela deve transformá-lo em um aventureiro, em alguém que tenha coragem, pois a verdadeira religião é um fator vivificante e não anestésico. Tornar-se membro de uma igreja muitas vezes funciona, pois a sociedade irá pensar que somos pessoas religiosas. Não se pode esquecer que Jesus não foi assassinado por homens maus, por criminosos, mas sim respeitáveis rabinos. Na verdade foi morto, ou pelo menos conduzido à morte, por homens religiosos. Isso porque Jesus com sua verdadeira religião, com sua maneira autêntica de ser, questionava o poder formalista dos religiosos da época. Eram pessoas que não podiam aceitar os ensinamentos do Cristo, pois teriam que renunciar as tradições e caminhar para uma nova consciência, não para a criação de uma nova religião, mas para um caminho verdadeiramente religioso. Não importa qual religião seguimos, esta nunca será uma verdadeira religião se nos servir como um narcótico com preceitos formais e vazios, cantos emocionais e momentos de fuga da realidade, como um consolo para os sofrimentos da vida. "Mostre constantemente ossos de camelo a um homem e ele não poderá reconhecer um camelo vivo quando estiver diante de um" (provérbio árabe).