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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

2011: QUEM PAGA A CONTA?


D. Demétrio Valentini *

          O ano de 2011 se retira de cena. Parece com pressa de passar adiante a tocha da história. Quer se ver livre de compromissos, que ele deixa como herança para os anos que vêm pela frente, com a carga pesada que preanunciam.
          De fato, o ano de 2011 pareceu mais destinado a anotar compromissos na agenda, do que a cumpri-los.
          Basta ver alguns deles, agendados para o Brasil.
          De imediato, no mês de junho de 2012, a “Rio+20”, o novo encontro das Nações Unidas sobres os desafios ambientais, na seqüência da “Eco 92”, de vinte anos atrás.
          Para 2013, desta vez em julho, o encontro mundial da juventude,no Rio de Janeiro, evento que já cunhou a imagem de uma juventude que quer retomar o seu protagonismo, resgatando valores que nunca perdem sua importância.
         Depois, 2014 será o ano da copa do mundo, que para nós é simplesmente a de futebol . Ela foi imaginada como uma espécie de convite geral a todos os países do mundo para virem, e verem, como está o nosso Brasil. O que iremos mostrar, e o que ficará escondido?
          Para o Rio de Janeiro, a ladainha de eventos continua, com o compromisso de acolher ainda os jogos olímpicos.
          Tudo somado, quantos compromissos colocados na conta de outros anos, enquanto o 2011 se despede. Ele também se deparou com diversos eventos, mas a grande maioria deles, ainda inconclusos, aguardando um desfecho definitivo. Para conferir, basta recordar alguns.
          O ocidente insuflou tanto a guerra civil na Líbia, até conseguir que Kadafi fosse morto. E agora, a que serviu derramar tanto sangue? Quais eram os interesses de tantas partes envolvidas?
          As populações árabes surpreenderam com suas manifestações massivas, clamando por mudanças, sacudindo arcaísmos, postulando abertura para valores da modernidade. E o que resultou de prático até agora?
          Bin Laden foi morto, numa cena de descarada vingança, que nos entristece como raça humana. Será que serviu alguma coisa para diminuir o ódio que fomenta radicalismos cegos e impiedosos?
          O Papa declarou abertamente sua decepção com a crise de fé que atinge especialmente o continente europeu, onde o cristianismo plasmou a primeira civilização com sua marca registrada . Será que estamos acertando as providências para estancar esta hemorragia que ameaça debilitar ainda mais a “cultura cristã”?
         Mas sobretudo no ano 2011 irrompeu de novo, com virulência multiplicada, a crise que se abate sobre a Europa, que já causou estragos em todo o “primeiro mundo”, e que mostra ser muito mais profunda do que uma simples crise econômica. Na verdade, ela é uma crise de civilização, de um sistema que está mostrando seu esgotamento. Repensar um novo projeto de civilização não é tarefa simples, nem de um ano só. Provavelmente, as mudanças mais significativas e mais profundas só serão tomadas sob forte pressão dos fatos, como é de praxe acontecer na história.
          Mas de uma coisa não podemos duvidar: a crise vai bater à porta do Brasil. Por enquanto, ainda temos algumas receitas tradicionais, que neutralizam os seus sintomas. Não vai demorar muito para nos depararmos com suas causas mais profundas e estruturais.
           Aí fica a pergunta, nada indiscreta: quem vai pagar a conta das mudanças a serem feitas? Certamente não dá para fazer como em outros tempos: capitalizar os lucros e socializar os prejuízos!
          No acerto das contas, o primeiro critério é a justa proporcionalidade. Em todo o caso, é bom começar o novo ano o alerta bem ligado!



sábado, 31 de dezembro de 2011

MENSAGEM DE NATAL – 2011 / NO RITMO DE MARIA / UM ESPAÇO PARA CRISTO


D. Demétrio Valentini *


“Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: ... nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lc 2,10-11)


A todos os diocesanos, Feliz Natal!

Também neste ano Deus nos garante motivos verdadeiros para celebrar com alegria o mistério do Natal do Senhor.
Olhando o mundo, tivemos muitos acontecimentos em 2011, que revelam o agravamento de uma crise que não se limita à dimensão econômica, mas é muito mais profunda.
São “sinais dos tempos” , que nos alertam para a urgência da mudança de rumos, que a humanidade é chamada a empreender.
Independente da consistência desses fatos e de suas repercussões imediatas, eles apontam para a necessidade de buscarmos os caminhos de Deus, e colocar-nos em sintonia com sua vontade, para que o mundo reencontre os rumos de sua sobrevivência, na harmonia com a natureza, e na justiça e fraternidade entre todos os seres humanos.
Neste ano a humanidade chegou a sete bilhões. Como nos tempos de Belém, pareceria não haver lugar para mais ninguém!
Mas ao contrário, é bem vindo Aquele que vem nos apontar os caminhos da partilha, da solidariedade, da responsabilidade e do amor fraterno.
Em meio a tantos acontecimentos, nossa Diocese teve a alegria de perceber a importância especial do Concílio Vaticano Segundo, que recordamos na nossa romaria, e que retomaremos com toda a Igreja no próximo ano.
Como os pastores, vamos ao encontro do Salvador que Deus nos envia, para acolher sua presença e viver de acordo com seu Evangelho.
Com os renovados votos de um Feliz Natal e abençoado Ano Novo!


* Bispo Diocesano de Jales


NO RITMO DE MARIA
D.Demétrio Valentini


     A liturgia sempre garante para o quarto domingo do Advento, o evangelho da anunciação a Maria. É tão belo e comovente, que nunca nos cansamos de meditar sobre ele.

O centro do diálogo do anjo Gabriel com Maria, era o nascituro, que seria chamado Filho do Altíssimo, porque concebido por obra do Espírito Santo no seio de Maria.

Mas o fio condutor da narrativa é a figura de Maria, destinatária da mensagem divina, feita protagonista dos planos de Deus.

Lido este Evangelho sob o prisma de Maria, identificamos sua postura, que serve de inspiração e modelo a todos os cristãos.

Diante da inesperada saudação do anjo, diz o Evangelho que Maria se colocou a pensar sobre o significado da saudação.

Diante de Deus, nossa primeira reação também deve ser esta: pensar. Ao longo do Evangelho se reitera que esta era a postura normal de Maria. “Ela guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração”

Quando o anjo abriu o jogo, e anunciou que ela seria a Mãe do Salvador, ela então passou a perguntar. “Maria perguntou ao anjo como se fará isto?”

Primeiro pensou, depois perguntou.

A fé não dispensa a razão. Ao contrário, quanto mais usarmos a razão humana, para perguntar, visando compreender, tanto melhor acolhemos o mistério de Deus, que quis se revelar à humanidade.

Só depois de pensar e de perguntar, é que Maria decidiu e falou, como serva, pronta e disponível para empenhar sua vida a serviço dos planos de Deus.

O tempo de advento deveria propiciar a todos a mesma experiência de Maria: pensar nos projetos de Deus, perguntar pelo seu verdadeiro sentido e alcance, para então decidir e falar.

Maria nos dá o exemplo perfeito de como acolher o mistério que Deus nos revelou através do seu Filho Jesus Cristo.


UM ESPAÇO PARA CRISTO
D Demétrio Valentini


Chegamos ao Natal deste ano de 2011. Para que ele encontre ressonância em nossa vida, é preciso garantir um espaço para acolher o mistério de Cristo em nossas mentes e corações.

Seria pouco demais limitar-nos à dimensão bucólica da noite de natal, sem desmerecer seu encantamento. Pois de fato, o nascimento de Jesus em Belém da Judéia, .carrega o mistério tão grande da encarnação de Deus em nossa humanidade, com todas as conseqüências que derivam deste mistério tão denso, cuja apresentação se reveste de tanta beleza humana. .

Quando o rei Davi pensou em construir uma casa para a arca da aliança, que ainda estava guardada numa simples tenda, o profeta Natã se apressou em adverti-lo dos equívocos que poderiam advir da construção de um tempo para abrigar a arca de Deus. Pois o que Deus queria, de verdade, era habitar, nem em tenda nem em palácio, mas no coração de cada pessoa humana.

Estas advertências fizeram depois parte dos embates maiores que Cristo precisou enfrentar com os oficiais da religião, justamente a respeito do templo.

Depois São Paulo iria de vez expressar os verdadeiros planos de Deus, dizendo: “Não sabeis que sois templos de Deus, e que o Espírito do Deus habita em vossos corações?”

Pois bem, no natal o que Deus procura nem é tanto ser acolhido nos presépios que preparamos para o Menino Jesus. Mas na vida de cada um de nós. Lá existe lugar para Cristo, que não compete com ninguém, mas cuja presença impregna de sentido verdadeiro a vida de toda pessoa humana que vem a este mundo!



 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

MANCHETES DE NATAL

D. Demétrio Valentini *


          Pelas manchetes dos grandes jornais, ficamos sabendo das notícias importantes do dia. Assim ao menos parece. E se não for verdade, a própria manchete vira noticia. Vira verdade, porque divulgada pelos grandes meios de comunicação. A versão do fato vira o fato.
          Quais serão as manchetes dos grandes jornais no Natal deste ano? Ou dizendo de outra maneira, o que convém divulgar no Natal, para que se torne notícia importante?
          Que Jesus nasceu em Belém, parece manchete já desgastada. Ao menos já não ajuda para causar impacto positivo no mercado.
          Mas não deixa de ser interessante a diferença de critérios para classificar a importância das noticias. Pois o “Evangelho”, como “Boa Notícia”, continua produzindo manchetes. E quais seriam estas manchetes, para termos neste Natal um noticiário consistente?
          O próprio Jesus nos dá as dicas.
          Tomemos o relato de Lucas, o “repórter” que melhor descreveu os acontecimentos relativos ao nascimento de Jesus em Belém de Judá. Segundo ele, a maior notícia do mundo tinha passado desapercebida aos olhos dos escribas e sacerdotes de Jerusalém, e também dos habitantes de Belém.
          Todos estes tinham dormindo tranqüilos na noite de Belém. Perderam a maior manchete, de validade permanente em todos os tempos. E assim deixaram de ser protagonistas da maior notícia que o mundo até hoje pode receber, formulada de tantas maneiras, mas todas elas contendo esta verdade tão importante: “De tal modo Deus amou o mundo, que enviou o seu Filho Unigênito, não para condenar o mundo, mas para salvar o mundo!”.
          Pois bem, quais são as manchetes sugeridas pelo próprio Jesus, ele mesmo vítima do silêncio da grande imprensa?
          Segundo a reportagem de Lucas, João Batista, intrigado com a falta de notícias a respeito daquele que ele mesmo tinha apontado como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, mandou dois dos seus discípulos para perguntar a Jesus: “És tu aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro?”
          Percebemos como a falta de notícias tinha produzido uma angústia tão grande em João, que entrou em crise de fé.
          Ainda de acordo com Lucas (Lc 7, 19-23), Jesus não desfez a crise de João. Só deu pistas para ele próprio sair da crise. E aí encontramos as verdadeiras manchetes sugeridas por Jesus. Lucas insiste em dizer que, “nesta hora, Jesus curou de doenças e de enfermidades a muitas pessoas, e fez muitos cegos recuperarem a vista”.
          Depois, em cima dos fatos, propôs as manchetes a serem levadas a João: “Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os surdos ouvem, os paralíticos andam, os leprosos são limpos, os mortos ressuscitam, e a Boa Notícia é anunciada aos pobres. E feliz quem não se escandaliza de mim”.
          Pois bem, que salvador é este que perde tempo com os estropiados da vida?
          Na verdade, as pequenas ações, sinais verdadeiros da chegada do Reino de Deus, ainda continuam fora das manchetes oficiais.
          Mas com certeza, se fizermos pequenos gestos de bondade e de misericórdia, mesmo que não sejam divulgados, estaremos também participando do maior evento da história, e com Jesus seremos protagonistas do seu reino, que não vem de forma ostensiva, mas se mostra por pequenos sinais, que estão ao nosso alcance.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

DIOCESE EM ASSEMBLÉIA

D. Demétrio Valentini *


          Neste próximo domingo a Diocese de Jales estará em assembleia. Junto com os padres, as irmãs e os seminaristas, estarão presentes os representantes leigos das comunidades, indicados pelos conselhos de pastoral. E cada pastoral, movimento e organismo, contará com dois representes. Assim, estará bem desenhado o rosto da diocese, na constatação da diversidade de seus membros, e na afirmação de sua unidade.
          A assembléia começará com a celebração da Eucaristia, no Santuário da Trindade, transmitida pela Rádio Assunção, no horário tradicional em que a emissora da Diocese transmite todos os domingos a Eucaristia presidida pelo bispo.
          Faz parte do ritmo da Diocese, ter a cada quatro anos, um momento especial como este, culminando todo um processo participativo de reflexão, que fundamenta as decisões a serem tomadas oportunamente, em sintonia com os grandes consensos que a assembléia possibilita.
          Portanto, a assembléia reflete uma dinâmica que faz parte do cotidiano da vida da Diocese.
          O ritmo de quatro anos expressa a sintonia que a Diocese procura ter com a vida da Igreja no Brasil. A cada quatro anos a CNBB renova suas diretrizes, que depois cada diocese procura implementar.
          Desta vez a assembléia se realiza de maneira mais tranqüila. Acontece que no ano passado a Diocese celebrou seu jubileu de ouro, comemorando os 50 anos de sua implantação. O jubileu envolveu profundamente toda a Diocese. Ela viveu um ano todo em clima de assembléia, culminando com a aprovação do novo Plano Diocesano de Pastoral.
          Assim, o trabalho da assembleia deste ano ficou bem mais suave. Pois se trata, na verdade, de atualizar o plano, cuja aplicação ainda se encontra no início. Mas vale a pena fazer esta atualização, pois sempre aparecem novos desafios, que precisam ser enfrentados, como já vem se destacando uma indicação insistente deste ano, apontando a urgência de um trabalho mais organizado com a juventude.
          E assim, as outras pastorais todas podem identificar novos apelos e novas metas a serem atingidas. Alem do mais, assim se retoma o ritmo de quatro anos, que vem servindo, há mais tempo, de referência prática.
          Desta vez a assembléia coincide com o anúncio já feito de diversas transferências de padres, envolvendo mais da metade deles. Este também é outro assunto muito importante, que precisa sempre ser bem conduzido pelo bispo, ajudado pelo Conselho de Presbíteros. Foi impressionante a abertura de espírito, e a prontidão demonstrada por todos os padres, cada qual dispondo-se colaborar com a diocese, em qualquer lugar ou função que lhe fosse designada.
          Este bonito testemunho de disponibilidade tem repercussões muito positivas na assembléia, sobretudo incentivando os leigos a assumirem com generosidade sua missão de cristãos, atuando tanto no seio das comunidades, como no contexto social onde estão inseridos.
          E´ com esta garantia, do bom caminho andado no ano do jubileu, e do testemunho da disponibilidade dos padres, que a Diocese espera realizar uma boa assembléia neste domingo.
          Que Deus confirme nossas esperanças.




 
 

domingo, 4 de dezembro de 2011

PARTILHA DE RESPONSABILIDADES

D. Demétrio Valentini *


          A Diocese de Jales celebrou no ano passado o jubileu de ouro de sua criação, ocorrida em 1960, em plena época do Concílio Vaticano II. Um dos frutos desta celebração foi a aprovação do seu plano de pastoral, que está servindo agora de referência para acolher as recomendações das Diretrizes Gerais da CNBB.
          Junto com a atualização do plano de pastoral, neste final de ano a diocese está passando por um processo de mudanças no atendimento pastoral, que envolve a maioria dos seus presbíteros.
          Este processo está culminando agora, com a tomada de decisões, feita pelo bispo, com o aval do Conselho Presbiteral.
          O fato mais relevante, sem dúvida, deste processo de mudanças foi a pronta e generosa disposição de todos os presbíteros, de assumirem o que fosse mais conveniente para o conjunto da diocese.
          Dada a preciosidade do testemunho, vale o registro do “comunicado” oficial, endereçado aos próprios presbíteros, para que fossem eles os primeiros a terem a confirmação das mudanças. Segue o texto do “comunicado”:

          “Através deste comunicado, venho me dirigir a todos os presbíteros da Diocese, informando-os a respeito das mudanças, pensadas em conjunto, e confirmadas agora em reunião do Conselho de Presbíteros.
          Aproveito a oportunidade para agradecer a pronta disponibilidade que todos manifestaram, dispondo-se a colaborar com a Diocese para as funções que fossem convenientes.
          Manifesto a esperança de que este gesto generoso de todos, sem nenhuma exceção, vem fortalecer nossa comunhão eclesial, nossa disposição para a entre ajuda, e o diálogo construtivo que nos anima para levar em frente com alegria a missão que Deus nos confiou em favor da Diocese.
          Passo a enumerar as diversas mudanças, efetuadas a partir da conversa pessoal com cada um, e com o aval do Conselho Presbiteral que acaba de fazer sua reunião, e pediu para que as decisões fossem informadas primeiro a cada presbítero, como é a intenção deste comunicado”.

          Segue então a relação das vinte mudanças decididas, sobre um total de trinta e cinco funções.
          O “comunicado” conclui mencionando a próxima reunião diocesana do clero, onde o diálogo em torno das mudanças poderá continuar e se aprofundar:

          “Na próxima reunião do clero, terça-feira, teremos oportunidade de conversar mais longamente sobre este momento especial que a Diocese está vivendo.
          Agradeço a todos os leigos que manifestaram seu desejo de colaborar na definição das mudanças, e peço a todos a mesma compreensão que os padres tiveram, e desde já solicito o apoio fraterno para cada padre, que peço para acolher com alegria e confiança, como enviado pelo Senhor”.

          Quando pensamos na Igreja, e nos perguntamos por que ela prossegue com sua identidade e missão própria, um dos segredos que explicam sua caminhada, são fatos como estes, que só se entendem à luz da graça de Deus.
          A partir deste clima de comunhão e de partilha de responsabilidades, os leigos nas comunidades podem perceber melhor o valor da presença dos ministros que estão no meio deles para servi-los em nome de Cristo. E ficam relativizadas eventuais opiniões contrárias às decisões tomadas. Pois emerge com evidência a importância da atitude de fé, à luz da qual se compreende melhor o alcance deste clima de serviço fraterno que os padres concretizam de maneira especial nas comunidades.


* http://www.diocesedejales.org.br/portal/

terça-feira, 29 de novembro de 2011

REALIDADE E MIRAGEM / REINO E REPÚBLICA

D Demétrio Valentini *


          Com este domingo, iniciamos um novo tempo litúrgico, que vai nos levar à celebração do Natal. Na verdade, para a liturgia, começa um novo ano, ao longo do qual celebramos os diferentes enfoques do mistério de Cristo.
          Na passagem de um ano para o outro, aparece com insistência o enfoque relativo ao fim dos tempos, culminando com a aparição gloriosa do Senhor julgando as nações de toda a terra.
          Como as cenas se referem a um tempo meta-histórico, para se referir a elas se usa um gênero literário próprio, denominado “escatológico”, pois trata dos “últimos tempos”, como sugere a palavra grega “éscaton”.
          Aí reside o desafio. Mesmo usando uma linguagem com evidente carga de fantasia, resulta uma descrição muito semelhante aos fatos reais, que a história pode comprovar. Então, precisamos discernir o que tem consistência histórica, e o que é “escatológico”, usado intencionalmente para se referir a fatos que não cabem dentro do contexto da realidade humana.
          Um exemplo bem claro encontramos nos evangelhos, quando trazem as profecias de Cristo sobre o fim do mundo. Usam a destruição histórica de Jerusalém, acontecida no ano 70 de nossa era, para com ela descrever, de maneira aproximada, a destruição final do mundo.
          Assim, um fato histórico, a destruição de Jerusalém por Tito, serve de moldura para imaginar o fim do mundo. O que devemos fazer? Separar os fatos das fantasias.
          Quando o evangelho relata o cerco de Jerusalém, se refere a fatos da história: “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, ficai sabendo que sua destruição está próxima.. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para as montanhas, os que estiverem na cidade, afastem-se dela” (Lucas, 21, 20...). Esta parte tem clara conotação histórica, e aconteceu de fato, quando o exército romano devastou complemente a cidade de Jerusalém. .
          Mas logo em seguida, o evangelho envereda para o gênero literário escatológico, ao advertir que “haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas...(Lc 21, 25..). Aí já é fantasia. Por mais que imaginemos o bonito espetáculo da ciranda das estrelas dançando com o sol e a lua como prelúdio do fim do mundo, sabemos que é uma linguagem figurada, aliás muito solene e bonita, mas que remete para uma realidade que não conseguimos expressar adequadamente por palavras humanas.
          Talvez ajude uma comparação. Quando olhamos para uma cadeia de montanhas, as primeiras à nossa frente podem ser bem dimensionadas em seu tamanho real. As que estão no fundo, podem até parecer menores, mas se sobressaem às primeiras, é porque são maiores do que elas.
          Para falar de um assunto maior, usamos realidades menores.
          Como o assunto é tão recorrente nestes dias, até o fim do mundo nos ajuda a situar melhor as questões relativas ao Código Florestal. Há algumas “montanhas” à nossa frente, isto é, algumas constatações evidentes, que precisamos dimensionar bem, para termos uma idéia mais aproximada do tamanho da questão. Por exemplo: as terras usadas para agricultura, no Brasil, representam só 38% do território nacional. Portanto, 62% do território nacional nem é atingido pela agricultura! E mais: dos 38% das terras agricultáveis, só 27% são usadas pelos pequenos agricultores, que representam 88% dos estabelecimentos rurais. 12% das propriedades, neste país de histórica concentração fundiária, ocupam 73% das terras agricultáveis.
          Os que insistem em achar que provocamos o fim do mundo se o Código Florestal garante aos pequenos agricultores uma proteção especial, para viabilizar sua importante função de proteger o meio ambiente e de produzir alimentos, não está se dando conta da finalidade do Código Florestal, e demonstra não distinguir a realidade da fantasia.
          A sobrevivência dos pequenos agricultores não é um risco para o meio ambiente, mas uma garantia de que a natureza será bem cuidada, e a terra será fecunda para a vida de todos.

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REINO E REPÚBLICA
D. Demétrio Valentini *


          Na semana que nos leva de um ano litúrgico a outro, continuamos nossa reflexão sobre o Reino de Deus e a República humana. Agora enfatizando mais o significado da República, e seu sentido no contexto do Reino de Deus.
          Com as diversas comparações usadas por Jesus para falar do Reino de Deus, fica claro que o Reino não é alheio à realidade. Ele a respeita, mas tem a força de transformá-la por dentro, não contrariando sua natureza, mas levando-a a desabrochar suas potencialidades.
          Portanto, o Reino não é alheio à Republica. Quem se sente animado a participar do Reino, e a agir de acordo com sua inspiração, se volta para a realidade, e procura a maneira adequada de nela interagir.
          Pois bem, na semana passada nos defrontamos com uma realidade muito importante, com nome bem concreto: a nossa “República Federativa do Brasil”.
          Se queremos ser coerentes com a realidade do Reino, precisamos encontrar a maneira adequada de participar da vida republicana. O cristão se sente participante do Reino, mas também cidadão da república.
          Porém, com uma diferença: na esfera do Reino, lidamos com o absoluto, contamos com verdades definitivas, apelamos para a obediência e para a comunhão de pensamentos e de vontades.
          Na vida republicana lidamos com o relativo, com o precário, com o provisório, com o limitado, e não podemos invocar sobre estas realidades a mesma postura que adotamos na vivência do Reino. Na República não convém, por exemplo, invocar o nome de Deus! O melhor é cumprir, na prática, a sua vontade.
          No Reino se escuta e se obedece. Na República se pensa e se decide. Quando aplicamos à República os mesmos procedimentos do Reino, acabamos desrespeitando a República, mas também traindo o Reino, pois ele aposta, não na imposição, mas no convencimento.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

APELO AOS SENADORES

D. Demétrio Valentini *


          Nestes próximos dias os Senadores terão a responsabilidade de votar o novo Código Florestal, que deverá em seguida retornar à Câmara dos Deputados, para finalmente chegar às mãos da Presidente Dilma, para o seu veto ou sanção.

          Depois da Constituinte de 1988, talvez esta seja a lei mais importante a passar pelo Parlamento. Na verdade, são muitas suas implicações práticas, na tarefa comum de cuidar do meio ambiente, e na incumbência de regular nosso convívio com a natureza.

          Não é de estranhar que ela tenha suscitado tantas discussões, e provocado posicionamentos radicalizados.

         A votação cabe agora ao Senado. Manifestamos nossa confiança na sabedoria, no equilibro e bom senso dos Senadores.

          Este o nosso apelo!

          No que se refere à Floresta Amazônica, é mais do que evidente o tratamento especial que ela merece no contexto deste Código Florestal. Dada sua importância e preciosidade para o mundo inteiro, a Floresta Amazônica merece não só um destaque especial neste Código, mas ela precisa de eficaz presença do Estado para urgir a efetivação de todos os dispositivos legais que já foram estabelecidos, e que devem se completar com as disposições deste Código, de tal modo fique garantida a manutenção de mais de 75% de toda a Floresta Amazônica.

         Apelamos aos Senadores para que sinalizem bem claramente esta urgência da ação fiscalizadora do Estado, para que não se frustrem os objetivos de toda a proteção legal já estabelecida para a Amazônia. Lá, o grande problema não é a falta de lei, mas a falta de quem a aplique.

         Igualmente, a discussão deste Código fez emergir, com clareza, a salutar disposição de reconhecer as “áreas consolidadas”, como realidades portadoras de acúmulo histórico positivo, que se traduz agora em situações a serem respeitadas, e reguladas sabiamente, para conciliar os objetivos do meio ambiente com os interesses de ordem social. Que os Senadores legislem com sabedoria a respeito destas áreas consolidadas, para garantir ao mesmo tempo direitos adquiridos e precauções ecológicas.

          Dada a diversidade de biomas existentes em nosso país continental, se apresenta igualmente aos Senadores a responsabilidade de levar em conta estas diferenças regionais, para não aprovar uma lei que ignore esta diversidade, e acabe se tornando inadequada e perversa. Que sejam valorizados, para a formulação desta lei, dispositivos que já expressam tradicionalmente situações diversificadas, como é a medida diferenciada dos módulos fiscais.

          Mas o apelo maior, e mais insistente, se refere à indispensável proteção que merecem os pequenos agricultores, tal o peso que acaba caindo sobre eles, se não forem aprovados dispositivos legais para sua proteção.

          A este respeito, uma primeira advertência se faz necessária: os pequenos agricultores não estão todos incluídos na definição fluida de “agricultura familiar”. Pois há muitos pequenos agricultores que por motivos diversos não estão incluídos nesta categoria oficial de “agricultura familiar”.

          Seria muito longo elencar aqui as razões em favor dos pequenos agricultores. O certo é que eles merecem, no contexto do Código Florestal, um capítulo especial, que lhes assegure a proteção, e os incentive a serem os melhores parceiros no cuidado com o meio ambiente, e ao mesmo tempo continuem sendo os maiores produtores de alimentos colocados à mesa dos brasileiros. Os pequenos agricultores são um verdadeiro patrimônio imaterial do país. Por tudo isso eles merecem uma proteção especial.

         Este o apelo aos Senadores, na votação desta importante lei que interessa a todos.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A IGREJA CADENCIANDO O PASSO

D. Demétrio Valentini *


          Na recente reunião do Conselho do Sínodo da América, realizada no final de outubro em Roma, ficou formalizada a proposta de realizar mais um sínodo especial para o continente americano, à semelhança do primeiro, realizado em 1997.
          A data para este novo sínodo, que por enquanto está só no estágio de proposta, seria o ano de 2.017. Portanto, daqui a seis anos!
          Pode parecer estranho uma instituição como a Igreja anunciar eventos tão distantes do momento presente. Certamente isto demonstra confiança no futuro, e segurança de planejamento, com a certeza de contar com o tempo a seu favor, seja para preparar, como para realizar estes eventos.
          Mas desta vez, um provável novo sínodo para a América precisa esperar tanto tempo, porque a Igreja já tem sua agenda bastante comprometida nos próximos anos. Sobretudo em termos de sínodos. Pois no ano próximo, durante o mês de outubro, acontecerá o já programado sínodo ordinário sobre a nova evangelização e a transmissão da fé. Um tema muito oportuno, sem dúvida, dadas as profundas mudanças em curso na sociedade, especialmente no que se refere à identidade religiosa e sua continuidade nas novas gerações.
          Antes ainda de realizar esse sínodo previsto para o ano que vem, já está sendo anunciado um “sínodo especial”, a se realizar em 2.015, quando se completarão 50 anos da conclusão do Concílio Vaticano II. Como as discussões hoje, em torno do significado, da abrangência e da real consistência deste Concílio, estão aumentando, tanto maior vai se tornando a expectativa deste sínodo especial previsto para 2.015. Se já o sínodo especial de 1985, realizado para avaliar os desdobramentos depois de 20 anos do Concílio, produziu uma significativa inflexão no discernimento de quais teriam sido seus temas centrais, mais ainda agora, depois de 50 anos da conclusão do Vaticano II, pode-se esperar questionamentos muito profundos, a serem feitos não só ao Concílio, mas sobretudo à caminhada subseqüente da Igreja a partir dele.
          Outra iniciativa muito interessante acaba de ser anunciada pelo Papa Bento 16: ele vai convocar um “ano da fé”, a se realizar de 11 de outubro de 2.012, e a se concluir com o Domingo de Cristo Rei, em 2.013.
           Além disto, não é nada irrelevante que o sínodo do próximo ano vai se realizar no mês de outubro. Isto é, no mês do aniversário da abertura do Concílio, acontecida em 11 de outubro de 1962.
          Agora, percebemos que há uma trama, unindo estes eventos. A grande referência para todos eles, é o Concílio! Para quem se dá conta da importância que teve este Concílio, que alguns querem agora relativizar e diminuir, ela fica comprovada na prática, pela maneira como a Igreja vai tomando suas decisões e fazendo seus planos.
          A referência ao Concílio, clara ou velada, é a comprovação mais tranqüila e insuspeita, da envergadura deste Concílio. Mesmo depois de 50 anos, ele continua cadenciando os passos da Igreja.
          Assim se comprova, na prática, a sentença de João Paulo II, feita por ocasião da passagem do milênio:
          “Sinto ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa”.
          Os fatos se impõem a si próprios. Ainda mais quando se trata de evento tão amplo e complexo, como foi o Vaticano II. A celebração do seu jubileu nos dá uma nova oportunidade para comprovar sua grandeza.


domingo, 6 de novembro de 2011

CÓDIGO FLORESTAL:

ESCONJURANDO EQUÍVOCOS E PRECONCEITOS
D. Demétrio Valentini *


         Os debates em torno do Código Florestal estão proporcionando uma safra abundante de manifestações, onde por vezes emergem equívocos, que precisam ser esclarecidos, e preconceitos, que convém desfazer.

          Um primeiro equívoco se refere à suposição de que não se deve mexer na atual legislação florestal, pois toda mudança seria um “retrocesso”. Ora, é bom saber que a legislação em vigor é fruto de uma “medida provisória”, de 1996, (MP nº 1511) que foi sendo reeditada sucessivamente, e nunca foi aprovada pelo Congresso. Por isto, em vez de exigir que não se mexa no atual código florestal, o certo é analisar o assunto, uma vez por todas, para se identificar os motivos que levaram esta lei a patinar tanto, e nunca sair de sua condição de “medida provisória”.

          Em vez de desautorizar o Congresso, achando que ele não tem a incumbência de legislar sobre este assunto, o certo é urgir a responsabilidade dos congressistas, sem nos eximir de acompanhar o debate e de apresentar nossas sugestões.

          Ainda no contexto da medida provisória de 1996, se nos perguntamos por que ela trouxe tantos atritos e insatisfações, um dos motivos evidentes está nas disposições sobre a largura das matas ciliares. O código anterior, que datava de 1965, estabelecia cinco metros para rios de até dez metros de largura, e cem metros para rios acima de duzentos.

          Lei de 1986 (7803/86) multiplicou estas medidas por seis, tanto na ponta de baixo como na ponta de cima, de tal modo que todo pequeno rio de até dez metros de largura deveria ter trinta metros cada lado de mata ciliar, e para rios mais largos de cem metros deveriam ter uma proteção de seiscentos metros de mata ciliar. Entretanto, a medida provisória a que nos referimos, passou a excluir toda essa área já multiplicada por seis, do cômputo de 20% que cada imóvel deve ter de vegetação nativa. Estudos da EMBRAPA, dentre outros (ex.: Esalq/USP), mostram que isso passou a tomar aproximadamente outros 20% do imóvel rural ( 17%). Portanto, se dobrou de um dia para outro as obrigações. Seria o mesmo que dobrar o valor do imposto de renda de uma só vez.

          Ora, basta um mínimo de conhecimento e de vivência concreta de agricultura, para perceber os graves problemas trazidos por esta decisão autoritária e injustificada. Podemos dizer que, no mínimo, faltou bom senso para o legislador. Bastaria este episódio, para de uma vez por todas o Congresso tomar a iniciativa de redigir um outro Código Florestal, que não reincida em propostas disparatadas.

          Outro equívoco, que acaba assumindo ares de preconceito, se refere à relação entre agricultura e meio ambiente.

          Sobretudo pela maneira como foram tratados os pequenos agricultores. Eles pareciam ser vistos como inimigos do meio ambiente. Chegou-se a uma espécie de “criminalização” dos pequenos agricultores, como se eles fossem os responsáveis pela degradação ambiental.

          Costuma-se citar os milhões de hectares de terras degradadas, e ninguém lembra o esplêndido trabalho de correção dos solos, que antes não eram produtivos, e graças ao trabalho sábio e competente dos agricultores agora se transformaram em terras férteis, aumentando ainda mais o patrimônio do país.

          Muitos agricultores foram acusados de crimes ambientais, e multados severamente, em episódios em que os agentes do Estado usaram de prepotência contra pessoas simples, com atitudes que nem nos tempos da ditadura militar se via.

          Ora, uma lei florestal sábia tem todo o interesse em ter os agricultores como aliados na preservação do meio ambiente, eles que estão cotidianamente em contato com a terra, por quem sentem um carinho todo especial.

          Há outros equívocos que também deveriam ser exorcizados. Como a pretensão de impor medidas iguais para situações tão diferentes, como é, por exemplo, a situação da floreta amazônica, que merece um tratamento todo especial.

          Mas este novo código só terá legitimidade se levar em conta as incidências sobre os pequenos agricultores, que são mais afetados por esta lei que os atinge tão diretamente.

          Para ir ao encontro desta necessidade, a CNBB resolveu propor algumas emendas, visando a situação peculiar dos pequenos agricultores. Esperamos que o Senado as acate. Inclusive porque são eles que produzem a maioria dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros.


domingo, 30 de outubro de 2011

PASSADO E MUDANÇA DE ÉPOCA


D. Demetrio Valentini *


          Temos pela frente uma data simbólica. Será no próximo ano, mais precisamente no dia 11 de outubro de 2012, quando se completarão 50 anos da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II.
         Como ponto de interesse crescente, os holofotes vão se concentrando nesta data.
          O Papa Bento VI acaba de convocar um “ano da fé”, e como moldura histórica colocou para sua abertura o dia 11 de outubro de 2012, e para sua conclusão o domingo de Cristo Rei, em novembro de 2013.
          Ao mesmo tempo, durante o mês de outubro de 2012, mês do jubileu do Concílio, será realizada a décima terceira sessão ordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema girando em torno da nova evangelização, com enfoque sobre a transmissão da fé.
         Por sua vez, outras instâncias da Igreja estão se mobilizando em torno desta data. A CNBB já manifestou seus planos de dedicar quatro anos para celebrar o jubileu do Concílio, recordando as quatro sessões anuais de sua realização na década de 60.
         Está em andamento um amplo processo de reflexão sobre o alcance histórico deste evento singular que a Igreja viveu há 50 anos atrás. Acabam de se realizar diversas “jornadas teológicas” na América Latina e no Caribe, em vista da realização, no próximo ano, de um grande “congresso teológico latino americano”, a ter lugar no Brasil, começando no dia 12 de outubro, aniversário do início do Concílio.
        Percebe-se como esta data é referência central de todas as iniciativas. Pela diversidade de procedências, vai ficando claro que o Concílio pode ser apropriado por todos, como fato revestido de legitimidade, acontecimento já atestado pela história. Isto justifica a tentativa de recuperar seu verdadeiro significado, e perceber como sua validade ainda perdura.
          Neste sentido, recuperar a memória de um acontecimento verificado há meio século atrás se apresenta como um salutar desafio a confrontar com as fáceis tendências de esquecer o passado e abraçar a moda do último verão, neste tempo de “mudança de época”, que caracteriza a sociedade de hoje.
         Para muita gente, um acontecimento de 50 anos já está mais do ultrapassado, e não desperta nenhum interesse em analisar sua consistência.
          Como Marta, parecem estar nos advertindo que já faz muito mais do que quatro dias que tentaram sepultar o Vaticano II! Acontece que o Concílio não morreu.
          Mostrar que nem tudo muda, nesta época de tantas mudanças, é interessante e salutar. Nesse ponto, dá para esperar convergências surpreendentes, que podem ser bem integradas, assim esperamos. Pois a celebração de um evento ocorrido há meio século atrás, ajuda a perceber que, de fato, é bom termos medidas mais estáveis e duradouras, para verificar o alcance dos passos que a história vai dando, ainda mais numa época como esta, com seu dinamismo de mudanças rápidas. Os que vivenciam mais convictamente esta dimensão conservadora, acabam nos ajudando, desta vez, a valorizarmos um fato já transcorrido há um bom tempo, mas que ainda conserva seu valor.
          Quem sabe, como primeiro fruto desta disposição de reviver um acontecimento passado, seja a disposição de colocar-nos todos de acordo que convém ponderar bem os valores apontados pelo Concílio Vaticano II.
          Assim, poderemos valorizar a história, e ao mesmo tempo perceber que ela não nos amarra ao imobilismo, mas ao contrário nos impulsiona a avançar. Assim, no Concílio podemos identificar um passado que continua no presente, e um presente que se fundamento nas lições do passado.


domingo, 23 de outubro de 2011

AINDA OS MUROS


D. Demétrio Valentini *

          A visão do muro que separa o México dos Estados Unidos permanece gravada na retina. Tão logo não desaparecerá. E´ como selecionar uma imagem para servir de tela permanente do computador.

          O pior é que o muro permanece não só na retina, mas na realidade. Tão fácil este muro não vai cair. Assim como muitos outros muros vão continuar existindo. Alguns parecem ter a vocação da muralha da China. Vão se integrar na própria realidade, como se fizessem parte natural dela.

          Então fica a questão, nada irrelevante. Como conviver com os muros. Pois precisamos aprender a contorná-los, como o rio contorna a montanha.

          Os muros não conseguem deter a vida, que não se limita a fronteiras abertas para o comércio e para a livre circulação de pessoas. A vida tem outros valores. Quando obstaculizados, parecem crescer e se firmar de maneira surpreendente.

         Não precisamos esperar que os muros desapareçam, para despertar em nós energias novas e valores insuspeitados. A vocação humana continua nos desafiando para a convivência fraterna neste pequeno planeta que nos aponta para a infinitude do universo.

          Um padre que há muito tempo trabalha nas proximidades da fronteira do México com os Estados Unidos, passou a enxergar o muro de maneira diferente. Sem o muro, milhões de mexicanos, com certeza, passariam para o outro lado. Mas quem disse que não é possível ficar no México, e fazer daquele país um lugar onde se pode viver com alegria e desenvolver as esplêndidas potencialidades deste país, tão abençoado por Deus, apesar de tão próximo aos Estados Unidos!

          Isto é, os muros podem inverter seu sinal, e despertar para desafios salutares e providenciais, como o fortalecimento da identidade própria de cada país, e a valorização de suas características humanas e culturais. Verdade é que não precisamos construir muros para isto. Mas se eles foram construídos, vamos tirar deles o proveito que podem nos proporcionar.

          Mas o muro suscitou em Tijuana uma realidade comovente, patrocinada pelos padres e irmãs da Congregação de São Carlos. Foram fundados pelo bispo italiano D.João Batista Scalabrini, com a finalidade específica de acompanhar e apoiar os migrantes. Naquele tempo eram migrantes que demandavam aos milhares da Europa para o continente americano. Agora, esses padres e irmãs se dedicam a acompanhar as novas ondas migratórias, que inverteram as rotas antigas, e demandam em direção à Europa e aos Estados Unidos.

          Pois bem, eles intuíram que Tijuana era um ponto estratégico para a sua benemérita missão. Construíram duas casas de acolhida, uma para mulheres, assumida pelas Irmãs, e outra para homens, assumida pelo Padres. Diariamente, cada casa acolhe em média 120 migrantes, procedentes em sua maioria dos deportados, que os Estados Unidos se encarregam de despejar em território mexicano, centenas por dia.

          O que impressiona é o contraste que os migrantes experimentam. Despejados com frieza, são acolhidos com muito respeito pelos padres e irmãs. Podem pousar à noite, recebem roupa limpa, fazem sua refeição, recebem pessoalmente seu travesseiro e o cobertor para se abrigarem na cama que lhe é destinada. São colocados em contato com suas famílias. Assim podem melhor redefinir seu rumo, e buscar a saída para a sua situação.

          Tentavam uma fantasia enganosa. Acabam descobrindo uma riqueza diferente, que podem encontrar dentro de si próprios. Não há muros que detenham a vocação humana para a sua realização pessoal e o relacionamento fraterno com todos.


domingo, 16 de outubro de 2011

MUROS QUE DIVIDEM

D.Demétrio Valentini *


          Na semana passada, Tijuana, no México, foi sede do Congresso Eucarístico Nacional. Cidade situada no extremo noroeste do México, na divisa com os Estados Unidos, de fronte à cidade americana de San Diego, Tijuana tem diversos motivos para merecer um destaque especial.

          A partir de agora, com certeza, pode acrescentar mais um, muito positivo, pela exímia organização deste Congresso, realizado com esmero, e agraciado por dias de clima agradável, que tornaram Tijuana ainda mais acolhedora e hospitaleira, além de mostrar a consistência da religiosidade do seu povo, que se revelou de maneira esplêndida no Congresso Eucarístico.

          Mas o fato de estar às portas dos Estados Unidos, faz com que a cidade se veja às voltas com a complexa problemática da migração, que nos últimos anos se agravou, aumentando o número de vítimas, muitas delas perdendo sua vida na tentativa justamente de buscar sua sobrevivência além fronteiras.

          Se já para o país inteiro do México é um desafio conviver com a proximidade dos Estados Unidos, precisando ao mesmo tempo resguardar sua identidade nacional, e manter um relacionamento adequado com a potência americana, muito mais esta tensão é vivida por uma cidade, como Tijuana, que se defronta abertamente com a realidade do outro país, que se escancara do outro lado da fronteira, tão próxima, e ao mesmo tempo tão inacessível.

          Desta maneira, acontece que a cidade acaba vivenciando uma problemática que não é só dela, mas de todo o país. E mais. Uma cidade como Tijuana acaba, na verdade, carregando o encargo de explicitar problemas que são de todos os países, que fazem parte do desequilíbrio existente entre situações tão contrastantes, que se traduzem em desigualdades gritantes, que se mostram à vista em regiões fronteiriças.

          Já ao sair do aeroporto de Tijuana, quem chega recebe logo um baque, mais violento do que um soco no rosto. Pois em frente ao aeroporto já começa a fronteira que separa os dois países. O muro parece ameaçar quem dele se aproxima. Como se não bastasse o muro antigo, já enferrujado, foi construído outro atrás dele, mais alto, mais resistente, encimado de espesso arame farpado. A mensagem é clara e contundente. E´ proibido passar, é perigoso se aproximar.

          Com certeza, este muro não vai cair tão facilmente. Porque suas causas vão durar muito tempo. Elas não se encontram aí na fronteira. Estão inseridas na dinâmica interna da economia mundial, que produziu desigualdades tão gritantes, que se mostram à vista em alguns pontos críticos, onde as diferenças se traduzem em tensões que precisam ser contidas com firmeza, que facilmente descamba em violência.

          Esta problemática difícil levou a Igreja do México a escolher Tijuana como sede do Congresso Eucarístico. No meio desta problemática complicada e difícil, de separação e exclusão, era importante colocar, com serenidade e coragem, a mensagem de reconciliação e de paz que o sacramento da Eucaristia continua testemunhando, independente das situações em que nos encontramos. O lema do Congresso Eucarístico não deixava dúvidas: “Eucaristia, mesa fraterna para a reconciliação e a paz”.

          Diante do muro, com sua prepotência de imposição e de fatalidade, era necessário abrir o horizonte da esperança, fundada na força diferente do Evangelho. As palavras de São Paulo aos Efésios pareciam endereçadas de propósito para o contexto vivido por este Congresso Eucarístico: “Cristo é a nossa paz. De ambos os povos, fez um só, tendo derrubado o muro de separação e suprimido em sua carne a inimizade.” (Ef. 2,14)

          Como conciliar a utopia cristã com a dura realidade dos muros que ainda permanecem de pé, é um desafio que Tijuana enfrentou neste Congresso, e que certamente merece oportunamente outras reflexões.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CÓDIGO FLORESTAL: AS RAZÕES DOS PEQUENOS

D.Demétrio Valentini *


          Na tramitação por que passa agora o novo Código Florestal, a CNBB vem se concentrando, sempre mais, na questão dos pequenos agricultores, enquadrados ou não na categoria de “agricultura familiar”. Na constatação de sua real situação, a CNBB encontra as razões de advogar para eles um tratamento adequado, de tal modo que não se inviabilize sua permanência no campo, e sejam integrados nas responsabilidades ambientais.

          E´ muito importante dispormos de dados, que nos possibilitem perceber as incidências dos dispositivos que forem aprovados no novo código.

          De acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas, extraídos do Censo Agropecuário 2006 do IBGE, no Brasil existem cinco milhões e cem mil estabelecimentos rurais. Destes, quatro milhões e quinhentos mil, isto é, 88%, são pequenos estabelecimentos, com até quatro módulos rurais. Este número de pequenos estabelecimentos rurais proporcionalmente tão elevado, quase 90% do total, ocupa só 29% da área ocupada pela agricultura no Brasil.

          Salta logo aos olhos a realidade fundiária brasileira: muitos pequenos, todos juntos, possuem pouca terra, ao passo que poucos grandes, eles sozinhos, possuem grande extensão de terra.

          Para quem se propõe legislar, o primeiro alerta está aqui: não vamos tratar da mesma maneira quem está em situação tão diferente em torno de um elemento tão central na agricultura, como é o tamanho de terra que podemos usar.

          Uma primeira prova de bom senso reside aqui. Por motivos óbvios, que se poderiam multiplicar, os pequenos merecem tratamento especial.

          Mas vamos a mais dados, que nos mostram melhor a realidade.

          Dentre os pequenos, há diferenças muito grandes a serem observadas. Entre eles se incluem desde os pequenos estabelecimentos produtivos, mais típicos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, até os agricultores de semi subsistência, muito mais numerosos, muitos deles vivendo em situação de extrema pobreza. Estes não têm nenhuma possibilidade de arcar com compromissos financeiros decorrentes do novo Código Florestal.

          Os pequenos estabelecimentos rurais produtivos chegam aproximadamente a quinhentos mil. Ao passo que os pequenos estabelecimentos de semi subsistência somam aproximadamente três milhões. Calculando a média de três pessoas por estabelecimento, chegamos a uma população de aproximadamente dez milhões de agricultores em situação de extrema precariedade.

          Para fechar as contas da pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, é importante termos presente que o Censo Agopecuário identificou um grupo de aproximadamente um milhão de pequenos agricultores que por um motivo ou outro, não se encaixam na agricultura familiar, não são incluídos no Pronaf, mas contribuem com uma expressiva produção agrícola.

          Existe muita garra e tenacidade atrás dos números das estatísticas. E deveria existir muita lucidez e honestidade em redigir leis que incidem tão diretamente sobre uma camada da população que é tão expressiva e importante para o equilíbrio social e econômico do país.

          Na complexa realidade envolvida no Código Florestal, a CNBB intuiu que seu compromisso histórico está na defesa dos pequenos agricultores, que são grandes benfeitores do Brasil. Em vista disto, está elaborando uma série de emendas, que encaminhará ao Senado, para serem incluídas no texto do novo Código Florestal. Elas contemplam a situação específica dos pequenos. De tal modo que o novo Código Florestal brasileiro não seja um instrumento para fustigar os pequenos com suas implicâncias, mas ao contrário se torne um estímulo e uma referência positiva a animar a todos na causa comum de preservar o meio ambiente e de garantir a sobrevivência de todos.