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domingo, 6 de novembro de 2011

EVOCAÇÃO DE NATAL

Para Dorian Jorge Freire
João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Onde estão eles,
Os vivos,
Os mortos
E os pássaros azuis?

“Foi a doze de maio lá na França
Era puro e sereno o azul do céu.”
(Hino do Grupo Escolar Modelo Augusto Severo)

Onde estão eles,
Os vivos,
Os mortos,
Em pálidas brochuras escondidos?

“Meu Deus! Que mágoas tão dolorosas...
Flores: Fechai-vos, que eu vou morrer!”
(Auta de Souza)

Alecrim

Cheirando a rosa e manjericão,
Cheirando a cravo
No campo santo.

Onde estão eles,
Os vivos,
Os mortos
E os cajueiros em flor?

“Moças, cantai que a mocidade é breve,
Cordas, vibrai que abril custa a voltar.”
(Ferreira Itajubá)

Rocas.

Jangadas, areal e mar,
Cardeiros e dunas brancas,
Serenatas e luar.

Onde estão eles,
Os vivos,
Os mortos,
Solenes nos seus destinos?

“Deixando a sombra de uma dor suprema
No frágil peito da mulher querida.”
(Gothardo Netto)

Petrópolis,

O grito do ar
E a bola
Descrevendo uma parábola.

Onde estão eles,
Os vivos,
Os mortos,
Perenes no seu passado?

“Mas a alma imortal aos céus se eleva...
Que venha, pois a morte – estou tranqüila.”
(Angelina Macedo)

Tirol,

Os morros brancos
E a velha estrada
Para os sonhos.

“Quem chorará por ti, no esquecimento, quando
Outro sino disser que morreste, dobrando
Às almas que se foram e que não voltam mais?”
(Murilo Aranha)

Em mil novecentos e quarenta e oito
Pisamos o rosto de alguns mortos,
Pisamos no rosto de alguns vivos,
Incineramos alguns ossos,
Queimamos muitas lembranças,
Fizemos uma nuvem de muitas cinzas.
Natal não era mais de sonhos tão antigos,
Mas de sonhos mais novos, mais presentes.
Di Navarro pincelava as paredes do tempo
E Antônio Pinto de Medeiros
Tripudiava sobre ilusões,
Ele que delas viveu nos seus enigmas.
O verbo amar, enxuto, com ênfase,
Cabia nos corações.

“Onde era pássaro
Hoje é uma janela.”
(José Gonçalves de Medeiros)

“Minha primeira arma
Uma russega.”
(José Bezerra Gomes)

Mortos?
Adeus, para nunca mais.

Quando estou só,
Vejo-me ao lado do Potengi
No patamar da Igreja do Rosário,
No Passo da Pátria,
Na Salgadeira.
E de pensamento em pensamento,
“Sur nacelle d’or d’un revê aventure”,
Navego estes meus sonhos,
E o meu coração aporta,
Como um velho barco pirata
Na velha balaustrada do Atheneu.

Onde estão eles,
Os vivos,
Os mortos,
E os sonhos de cada vida?

“De votre souvenir qui respire en mon sein?”
(Nysia Floresta Brasileira Augusta)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

POEMETO Nº 1


João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Como a Utopia é uma utopia
E o navio está em alto mar
O jeito é fumar um cigarro
E ir engraxar os meus sapatos.

domingo, 7 de agosto de 2011

DORIAN JORGE FREIRE

João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Menino!
Onde estão os nosso sonhos?
No meu, no teu coração
Que já não bate?

Mas, mesmo sem bater,
Ele está vivo,
A palmilhar na trilha dos espantos,
Rico de fé, de amores, de ternura.

Menino!
O teu sonho foi bonito,
Comovidas esperanças repartidas
Nos contínuos apelos que fizeste,
Beijando o sal da terra onde nasceste.

domingo, 3 de julho de 2011

LUIZ INÁCIO MARANHÃO FILHO

João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Foste o teu caminho.
Riste o teu riso solto
E no teu tumultuoso viver,
Não olhaste para trás.
Deste o melhor de ti
Ao teu povo

domingo, 29 de maio de 2011

GILBERTO AVELINO

João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Foste o sol e o sal
Na planície salina.
O vento que não varreu os sonhos,
A sombra clara e amena,
A brisa morna e azul,
O espectro da luz do Alagamar.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

WILLIAM COBBETT DE SIQUEIRA COSME

João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


A PRAÇA – a praça
Ainda é do povo,
E o céu dos gaviões
Embora alguns pássaros fugidos
Ainda cantem.

Onde estarão os velhos Brilhantes,
Velhos hunos,
Das serras do Apodi?
Bacamartes
E esteiras de fogo

Em longínquos ninhos,
Como melancólicos pássaros,
Embora já velhos cantaremos,
Esperando no tempo,
O que surgirá.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O MARUJO

João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Certa noite, sonhei que estava em Rogova. Atravessei, como andarilho, terras que me levaram a Naryan Mar. Singrei todo o mar de Barrents e aportei em Lobovka. Em cada porto, amei escandinavas, que me olhavam como se eu fosse alguém perdido na memória. Mas foi na ilha de Hitra que construí, com pesadas dores, o futuro dos deuses. Eu e Odda.

domingo, 26 de dezembro de 2010

CANÇÃO PARA CARMEN COSTA



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Velha dama, velha dama,
Ouço-te orando ao teu Deus
Na grave cadência de um surdo.

                            “Queremos Deus,
                            Homens aflitos!”

Ouço-te também, velha dama,
Em exuberante alegria
Ao som de frenéticos tamborins.

                        “Carmelito, você foi ingrato
                         Fez de mim sapato,
                        Zombou da minha dor...”

Tua voz se transforma ainda
Em profundo e grave lamento,
Na agonia sonora da cuíca.

                     “Você roubou meu sossego,
                      Você roubou minha paz.”

Velha dama, velha dama,
Velha craúna fantástica,
Tua voz é como a voz do mundo,
Uma ária de solene violoncelo.

                   “Quem parte leva saudade
                    De alguém que fica
                   Chorando de dor...”

Velha dama, velha dama,
De eterna mocidade.
Eis-me em postura solene
A beijar as tuas mãos
De muitas vidas.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

FRANCISCO WALFLAN FURTADO DE QUEIROZ



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Disseste a Tânia
- O mar já não existe.
Quando existiu,
Viajaste silencioso
À procura da estrela solitária
Que te levaria a Deus.

Talvez o último romântico,
De aventurosos sonhos,
Deixou gravado em palavras
Para Tânia e para o seu Deus
A sua angustiante dor.

domingo, 14 de novembro de 2010

ANTÔNIO CAMPOS



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Ali, repousa e dorme.
Sonha entre lajedos,
Rochas antigas e polidas,
Cascalhos e cristais.

Seguiu, andarilho da fé,
A ouvir sonatas,
A procurar seu coração perdido,
Encrustado no chão.

Será o seu coração aquele fóssil,
Oculto na ramagem das lembranças,
No calcário fugidio dos apelos?

O espelho do regato lhe diz tudo.
Diz de campos perdidos na memória,
Da flor que adormeceu naquele dia.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

POEMA PSICANALÍTICO



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Elisabeth era impura,
Mas não tinha pecados.
Era simples e substantiva,
Pecados são sempre adverbiais.

Quando lhe nasceram os dentes,
Incisivos e de elegante postura,
Elisabeth, fingindo indolência,
Engoliu os mamilos de sua mãe.

Sem arrependimento,
Ficou a se perguntar,
Entre fria e distraída,
Por que não morrera de véspera?

Em idade ainda imprecisa,
Sentiu a falta de seu pênis
E procurou-o em gavetas e armários
Quase em estado de pânico.

Quando um dia se fez moça
Ficou em cores sua urina
Prenunciando acontecimentos,
Terremotos e catástrofes.

Quando se fez mulher,
Soprou no ouvido de Eva
Qualquer coisa de obscuro
Antes que a serpente se movesse

Ao bordar com suavidade
Um simples ramo de flores
Transformou-se em bailarina
E dançou como um cisne no seu lago.

Certo dia, ao acordar
Em átomos se explodiu
E sob o clarão do mundo,
Nasceram mil cogumelos.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

LUÍS CARLOS GUIMARÃES



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Viajamos juntos à Finlândia
Ao som dos violinos de Sibelius,
Mas a tua alma de poeta
Aboiava na Serra da Acauã.
Bêbados e lúcidos,
Olhávamos o Potengi,
Velhos barcos abandonados,
O côncavo do Baldo,
A eternidade da infância
Como migalhas de poesia.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ZILA MAMEDE



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Despeço-me de mim.
Visto-me de espumas,
Misturo-me submersa
Ao sal, às conchas, aos sargaços,
A ouvir o acalanto de sereias.

O que ficou em minha cidade,
O que ficou de mim,
Em prosaicos queixumes,
Reparto com os meus amigos.

Livre sou, livre estou
Em antigas viagens submersas
E indiferente ao ardente sol,
Hei de curtir as alegres lembranças.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

FERDINANDO COUTO



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Foste o bom e jovem amigo
Das loucas visões de teu destino
Amparadas em ombros de mistérios,
Em busca não se sabe lá de quê.

Juntos caminhamos
Em notívagas passadas
No chão da terra amiga
Com luares e sem luares.

A vida nos separou,
Mas nunca os sonhos,
Velhos sonhos loucos
Nas pisadas madrugadas.

O que é feito de mim,
O que é feito de ti,
O que foi feito da antiga cidade?

terça-feira, 27 de julho de 2010

RIBEIRA



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Sobre o teu chão
De liquens e ferrugem,
Notívago meu vou,

Sustentando nos ombros
Tuas velhas ruínas.

O allegro de chibatas e cavalos
Nas claras manhãs,
De imaginável tempo,
Só de ouvir dizer.

Cansadas minhas pernas, nesse andar,
Contempladas velhas ruas, velhas casas,
Guardo o que me deste, o que colho
Em frondosas mangueiras destruídas.

Repousam mágoas e rosas,
Comoventes retratos,
Vistos em pura fantasia
Nos teus antigos solares.

terça-feira, 22 de junho de 2010

PARLENDA Nº 3



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


CALAFETINHO, CALAFÉ
DO SEU NAVIO,
AS ÁGUAS DO MAR
NÃO SÃO COMO AS LÁ DO RIO.

Que águas são essas
Que nos lavam
Em nossa irremovível infância?

segunda-feira, 24 de maio de 2010

PARLENDA Nº 9



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


PANELINHA DE IOIÔ
FOI AO MAR E SE AFUNDOU.
TESTO, PANELA,
BOLÔ, FEDÔ.

O sem sentido,
O milenar confuso,
A verdade.
Ah! A verdade.
Não sou eu, nem és.
Foi ao mar e se afundou,
Belô, fedô.

terça-feira, 27 de abril de 2010

PARLENDA Nº 8



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


ACORDA, JOÃO!
JOÃO ESTÁ DORMINDO,
NÃO ACORDA, NÃO.


Depois que li
Do velho poeta
Lourival Açucena,
Evangelistas na missa,
O ódio tornar-se amor,
Borboleta em beija-flor,
Eu quero dormir.

Não o sono tranqüilo,
Hóspede reparador
De encantos e de mágoas,
Mas um sono revolto,
De areias movediças,
Imagens em câmera lenta,
Sem medo de nunca acordar.

Acorda, João!
Bão-balalão,
Mataram Simão.
Tão inocente, coitadinho,
Só porque pichava um muro da cidade,
Ele que era só esperança,
Tão autêntico nos seus sonhos,
Sem nenhuma vontade de morrer.

Povos de todo o mundo
Acordai João!

João é um nome,
Senta-se na praça,
Tem mãe e tem pai,
Às vezes medita,
Contempla o infinito,
Diz coisas de louco,
Mas louco não é.

Essa vontade de não acordar,
Essa revolta incontida,
Essa mágoa que transborda
Mistura alguns nomes,
Diz coisas tão tristes
É a essência de João!

Ele que é Rosacruz,
E reza na missa,
Decifra parábolas,
Vira o mundo para o ar,
Sofre dores de barriga
E também dores de amor!

Acorda João!
Acorda devagarinho,
Tome sentido no ar
E diga que ainda está vivo.

Acorda João!
Senão,
O mundo desaba sobre sua cabeça.

terça-feira, 23 de março de 2010

UM BLUE PARA ALBERTA HUNTER



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


De repente se fez o blue
Escorregando rouco na garganta
Como um pássaro, que era alegre,
E ficou triste.
Sincopado, morno, sussurrante
Caiu o som, como uma gota dágua,
Como um salto no ar,
Imitando um saltimbanco que era cego.
O sax, o piston, o clarinete,
A tua voz, o piano,
A tua alma.
So long, my dear, so long,
Eu vou chorar tua canção no ar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

CANTO PARA SUZANA FLORENCE NERY BRIDHEAD



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)

Do fundo do abismo,
O tempestivo amor,
A sombra de outros luares,
A face perdida de Judas,
Uma réstia de sol sem brilho.

Pálida está,
Entre escombros,
A pura alma sacrificada
Por errantes desígnios
À procura da primavera de Deus,
Que se foi em sonatas e em cores.

Resta somente o consolo
De minguados sonhos
Postos numa toalha de linho
De tão suave brancura
Que entorpece a alma.

Minha impura e afável Suzana
Ides como viestes
Sem esquecer no último momento,
Entre rosas brotadas pelos ventos
O beijo que esquecestes no caminho.

Ides, enquanto a amarga lágrima
Presa em comovente anseio
Cristaliza em lembranças consumidas
Em dores, antes que a morte se aproxime.