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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

CENAS DIÁRIAS


I – SEM DESVIO

Maria Inez do Espírito Santo


Humaitá, Rio de Janeiro, 2007.

Diariamente indo e vindo de casa até o trabalho, percorro dois quarteirões dos mais movimentados do bairro. No trajeto, a Cobal, um conglomerado de lojas de alimentos, restaurantes, com dois parques de estacionamento, lojas de roupas, de flores, de material fotográfico, de decoração, vídeo-locadora, salpicados ao redor, colorindo a região e trazendo aromas gostosos e outros tantos muito desagradáveis, ao mesmo tempo.

Como quase tudo no Rio de Janeiro, a Cobal é mal cuidada. Suja, não tem tempo suficiente para se refazer do desgaste intenso que sofre, atendendo ao público, que se reveza em solicitações múltiplas, de manhã até a madrugada. O odor acre que persiste no ar, mesmo após a “limpeza” diária, revela o não cumprimento das normas de higiene dos códigos de postura oficiais.

Não é incomum ver-se ratos rondando caixas de mercadorias ou perambulando entre os canteiros do pátio externo, em busca de alimentos. Por repugnante que seja, isso não chega a espantar a freguesia. Nem o lixo acumulado na rua ao lado, por onde os caminhões de abastecimento entram e saem, incomoda a ponto de provocar indignação que gere providências dos comerciantes.

Na verdade, “a gente se acostuma a tudo - como diz a Françoise Sagan - até com a dor”, embora eu concorde com Marina Colasanti, quando diz: “A gente se acostuma, mas não devia”.

Tendo a Cobal como portal do insólito, passemos para a segunda quadra. Há ali, naquela pequena região, duas escolas públicas, quatro escolas particulares, várias clínicas médicas, algumas clínicas de atendimento psicológico, pelo menos dois laboratórios clínicos, um grande centro de serviço municipal, diversos escritórios, dois centros budistas, dois centros culturais, uma escola de teatro, e é claro, alguns ambulantes e um lavador de carros que utiliza a calçada como oficina, tendo inclusive instalação de luz puxada de um poste da rua e criando ali uma lagoa permanente.

Pois, atualmente, tenho encontrado, todos os dias, nesse quarteirão, nos horários mais variados, perto de uma dezena de crianças e jovens, provavelmente moradores de rua, dormindo pelas calçadas, em situação de miséria e desamparo que ressaltam aos olhos mais distraídos. Estendidos no chão, cobertos por panos e enrolados uns nos outros como “bicho-de-monte”, parecem tão exaustos que resistem aos ruídos urbanos diurnos e mesmo ao passar constante dos transeuntes.

Para que as crianças circulem a caminho das escolas, precisam usar a rua, já que as calçadas se tornaram as camas dessas pessoas, seus sanitários, seu reduto.

Mesmo assim, nenhuma providência é tomada. É como se ninguém estivesse vendo o que de fato está acontecendo a nosso redor.

Fico pensando no que se ensina nessas escolas, o que se trata nessas clínicas, o que se prepara nesses escritórios e de como é possível conciliar os valores que alicerçam esses serviços, com o descaso e a impotência frente a um quadro tão flagrantemente denunciador da nossa doença social.

Na frente da Cobal, outros tantos meninos, mulheres com crianças e até homens adultos, cercam os passantes, pedindo ou exigindo esmolas e ajuda. Desses, a gente que passa, normalmente se esquiva, foge até. Cada dia maior o contingente, torna a ajuda individual impossível de surtir algum efeito bom.

Mas os que ali à frente estão adormecidos, desamparados e indefesos pelo sono, esses que já transformaram as calçadas em dormitórios, sanitários, quase covas, nos paralisam quando, ao contrário, tal situação deveria provocar em nós uma nova atitude.

Todos os dias, por isso mesmo, chego muito triste a meu trabalho. Por mais que acorde com o céu azul, por mais que queira recomeçar do zero cada etapa, me estristece confrontar-me com a miséria material de alguns de meus semelhantes e com a miséria moral que já se estende a todos nós, que pactuamos com isso.

Não falo aqui, é preciso deixar claro, de afastar de nossos olhos o quadro aflitivo, tirando daqui pra ali o que possa nos ser desagradável de ver. Falo de acordar, dentro de nós, nossa parte indigente, que já não tem mais vontade de mudança, que não tem mais desejo de viver. Acordá-la e cuidar bem dela, em primeiro lugar.

A partir daí será mais fácil nos unirmos, em busca de soluções (os que entre nós ainda não tiverem virado estátua de sal) para irmos ao encontro desses seres humanos, que aí estão, refletindo nosso próprio abandono.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

FALANDO CLARO

Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com



Ver, na primeira página de um grande jornal, uma manchete em tom irônico é, no mínimo, desanimador, pra quem sonha um mundo melhor.

Não bastasse os programas de televisão que alimentam as perversões, estimulando o que temos de menos nobre em nosso caráter ( cobiça, deslealdade, crueldade, desrespeito à privacidade alheia etc), convivemos (e muitos consomem) com revistas e filmes que além de nada acrescentarem em termos de criação, ainda distorcem nossa percepção da realidade e fomentam e banalizam a miséria humana, em todas as formas que esta possa tomar.

Mas de tudo isso, que é explícito, mas me incomoda a ironia. Porque contra essa é mais difícil lutar, exatamente pelo espaço não definido que ela ocupa.

Hoje o jornal diz que o criminoso visita o Rio mais uma vez. A décima nona! E é a palavra visita que me chama a atenção.

Além de dar destaque a uma pessoa que nada fez de bom pela sociedade (e, pelo contrário, apenas destruiu), enquanto se nega diariamente espaço para noticiar iniciativas culturais, educacionais e promotoras de saúde e bem-estar para a comunidade, mostrando assim o que sobressai nesse nosso mundinho sórdido, a chamada daquela notícia ainda confunde valores afetivos já quase agonizantes, hoje em dia. Porque visita, no meu tempo (e é verdade que meu reino não é desse mundo, me desculpem) era alguém que esperávamos com prazer e a quem recebíamos com carinho.

Ironizar ao noticiar o absurdo de dinheiro que é gasto com o processo criminal de levar e trazer um preso, é tratar-nos, aos leitores de forma dúbia. Como se fosse uma brincadeira falar desse assunto. Como se nós concordássemos, tacitamente, em entrar nessa brincadeira!

A imprensa tinha, antigamente é claro, o compromisso de informar. E informando, formava nos leitores a opinião crítica.

Hoje, ler jornal exige uma capacidade de seleção tão exaustiva para encontrar matéria de qualidade, quanto frustra a expectativa de buscar, no noticiário, informação idônea.

Para mim, uma sociedade ideal seria aquela em que todos os adultos assumissem, espontânea e naturalmente postura de educadores, de fala clara e conduta exemplar. Assim se poderia esperar a formação de novas gerações mais sábias e mais felizes. Mas quando o que se vê, em todos os setores, são adultos descompromissados com o amanhã, só se pode imaginar que logo, logo voltaremos, de fato, à barbárie.

E, na comunicação, a ironia pode ser um condimento poderoso, potencializador do que há de pior nas relações humanas: o mal entendido.

domingo, 4 de dezembro de 2011

MIGRAÇÃO

Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com


No início era uma luz. E foi essa luz que me fez desejar ficar aqui.
Depois foram surgindo espaços para os olhares ao redor e eu descobri a mata.
O verde só foi crescendo e, fazendo cortina para o dia, me permitiu encontrar os pássaros resistentes, que, mesmo na cidade, insistiam em ser até mesmo gaviões, além de andorinhas, gaivotas, rolinhas e pardais. Ficamos quase íntimos. Juntos recebemos cigarras, vimos brotar, no frio concreto das paredes do prédio, singelas flores coloridas e deixamos ir e vir até um periquito australiano, mensageiro de esperança. Tudo verdade.
Um dia, depois do massacre da obra ao lado, que me obrigou a me ensurdecer mais que com os dois fluxos das ruas que eu desenhei rios, para parecerem mais suaves, de repente, acenderam 12 holofotes e puseram três moços bonitos e bobos, num outdoor, olhando um telefone celular, como cenário para minha vida. Estarrecedor!
Bem que eu quis espernear. Até escrevi para os jornais. Mas de nada adiantou eu lembrar que o dia que não acaba nunca, estendido pela luz artificial excessiva, expulsa os pássaros, que não tomam aditivos e precisam dormir para voar no dia seguinte...
Durante esse tempo, felizmente, assisti também, emocionada, a professora do CIEP em frente preparar a horta com seus alunos. Depois os vi colher, mas não voltaram a plantar. Todo dia eu olho, com a esperança que o ciclo recomece... Em vão, até agora.
Segunda-feira passada, eu estava almoçando quando ouvi os estampidos. Eram freqüentes e foram muitos e cada vez mais fortes. Eram tiros, descobri perplexa.
A varanda virou território fronteiriço e eu me abriguei no espaço virtual, para entender o que se passava, nas notícias filtradas pela tela. Horas de espanto, mal estar, impotência.
Liguei para o paciente adolescente, que não viesse. Liguei para a nora, que não deixasse sair minha neta e me pus a ocupar-me dos interiores, para esquecer que lá fora, era a guerra.
O estudo de geografia nunca me pareceu muito útil, mas sei o suficiente para compreender que a Ladeira dos Tabajaras fica do outro lado do Humaitá. E a bússola de minha sensibilidade me mostra que a desmedida, que o incontrolável, que o insuportável, que a vida-como-ela-é fica do lado de lá, bem em frente. E que pode descer, entre tiros, granadas, vigiada ou não por helicópteros e me lembrar que está na minha hora de partir.
Dessa vez os pássaros voaram em bando, assustados pelas explosões que não respeitavam seus lares.
Sofri mais uma vez por eles, que vão ser obrigados a migrar, para poderem sobreviver.
Eu também.
Que ao menos possamos abrir nossas asas a favor dos bons ventos e que sejam eles nossos guias.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

PÁTRIA

- ALI, DE ONDE VIM -
Maria Inez do Espírito Santo


          Chico canta o "Cotidiano" e vem, de suas múltiplas origens, me dizer que, mesmo na delicadeza e na simplicidade, se pode ser muitos, o tempo todo.
          Mestre da arte de vadiar pelos diversos seres que o habitam, me leva, sua voz, a minhas pequenas pátrias, a minha insistente busca de afinidades, no desejo obstinado de encontrar compatriotas.
          Cresci estrangeira - numa casa "portuguesa com certeza" que tinha cheiro e cor de muito antes, de além mar, e que foi, a um só tempo, esteio e estranheza, já que, lá fora, no chão, na argila ou na lama onde fui gerada, tinha vala negra e menininho barrigudo, sem calça e de pé no chão... E se me sufocou, sempre, o calor da temperatura-ambiente, simultaneamente só crescia, em mim, o fogo da vontade de me consumir em envolvimentos e aproximações.
          Agora, o Chico canta o rio e o barco Paciência... E lá estou eu, atirada um ano atrás, no Rio Amazonas, buscando quem era, quem sou. Achei. Voltei cheia de mim. Quis mais que nunca a proximidade. Quis, mais que sempre, orgulhar-me da flama e da chama, ainda quando elas representem dor e até morte.
          Fui outrora de uma terra onde brotava esperança.
          Depois fui de uma outra, onde germinava coragem.
          Fui dedicação e fui esquecimento... principalmente esquecimento de mim mesma.
          Minha pátria, nesse exato momento, tem pouco mais (ou menos) de 30m² e hoje, enquanto escrevo, abriga vinho português, queijo francês, envolvidos pela magia indígena brasileira e, por isso mesmo, traz interiorização universal.
          Estou indo... cada vez menos só... a caminho da construção de meu destino. Mas vou sozinha.
          Se reconheço hinos e flâmulas nos parceiros de momentos sublimes, choro minha estrangeira e inadequada dor de ser só eu mesma, depois que tranco a porta e consigo me perder, até num banheiro em que nem tenho espaço p'ra me virar.
          Tive pátria, um dia, quando subi a montanha do orquidário Guinle, na Petrópolis da minha infância, e me senti livre, aspirando o perfume do mato e da terra e, quando, gritando minha alegria, provoquei desconforto a minha volta. Aquela terra era minha! Ao menos naquele ínfimo instante em que eu e ela nos misturamos essência pura!
          Encontrei minha pátria outra vez, perto do céu, inebriada com a altura e a beleza da neve brilhante ao sol. Era eu que estava ali e eu era, a um só tempo, aquilo tudo!
         Tive pátria, no país de meus avós, e chorei por aquele encontro, misturando as águas de riachos para tentar levar D. Pedro de volta a Inez de Castro, num momento eterno, que eu pude reter com minha respiração. E na grande cambalhota cósmica que a terra do Vale do São José do Rio Preto me mostrou, tanto tempo antes. Senti a paisagem e soube que sempre fora assim.
         Perdi minha Pátria tantas vezes também!
         Uma vez foi quando, na Escola, menina ainda, me disseram que as águas que rolavam de meus olhos eram deselegantes e eu, chorando na hora da festa, era, portanto, um pária.
          Depois, virando adulta, quando minha emoção foi chamada de "stress". Acho que "esgotamento nervoso" é mais ou menos como embarque sem passaporte. Você fica retido na alfândega, porque não tem o reconhecimento externo para entrar nem sair, de nenhum lugar.
          Mas Pátria, mesmo, eu própria me senti, por inteiro, quando pari meus filhos, com enorme dor e prazer extasiante. Pátria sangrenta e poderosa, de onde saíram três criaturas fortes e cheias de Vida que eu, terra fértil, favoreci eclodir.
          E mais Pátria ainda fui, ao ver jorrar de meus seios, até então quase imperceptíveis, alimento quente e confortante. Ao vê-los, minhas crias/criaturas, saciadas e em paz. Ao ver-me nutriz - terra boa. Como quando se perderam e se encontraram, em mim, os companheiros que confiaram em minhas sendas. Que bom poder ser porto seguro! Que bom ser a terra mater/pater - pátria! Que bom conter e dar prazer!
          E a experiência de poder ser terra à vista?
          Que bonito o olhar que recolho, quando penso ser quimera e me posso me ver como Terra Prometida!
          Um dia, esse meu corpo foi pouco p'ra tanto querer - virei instituição. E soberba e pretensiosamente (só hoje sei) fui me tornando Escola. A Vida, como comprometimento, me ofereceu o mote: que fosse Viva a destinação que eu ia dar a minha história. E foi.
          Depois de, nem posso enumerar quantos, momentos de profunda emoção, eu sabia que minha pequena-ilimitada pátria tinha ficado guardada dentro de muita gente. E pude libertá-la dos grilhões de tempo e de espaço.
          Hoje, sou quase velha. Disfarço bem, mas vou me encaminhando p'ra uma nova passagem. Procuro quais serão as próximas etapas. Cada vez mais lentamente, é verdade. Quem vê não diz, porque quem vê não sabe de um tempo em que fui intangível.
         A Pátria de hoje é fortalecida diariamente pelos desenganos, tanto quanto pelas surpreendentes pequenas alegrias: ora é um passarinho que canta um mio, ora uma criança que confirma: "Aqui encontrei amor"; ora um amigo antigo que acena solidariedade e compaixão; ora um desencontro novo que vira desafio.
          Minha pátria hoje, sem notícias de tevê ou de jornal, resume-se a afetos e a eles decidi me jogar por inteira. Vivo de poucos sorrisos, irrigo-me de lágrimas inevitáveis e sonho abraços.
          Minha pátria chega, às vezes, em encontros nunca vividos. Pode ser, como agora, na música do Chico, ou no "Assédio" do Bertolucci; mas se o filme "O Paciente Inglês" falou tão profundamente em mim é porque, com certeza, tenho irmãos e parceiros, onde quer que eles estejam.
          Acabei por descobrir que, nesse chão mesmo, que tem nome e território demarcado como Brasil - e não é à toa - mora meu fogo interior e tenho ido à procura dele.
          Tem horas que ele aparece na vela, que teimo em acender, ritualmente, p'ra pedir e agradecer - agradecer e pedir - num exercício sem fim de desejar e merecer... Outras vezes a chispa me pega no meio do sono e acordo tendo a certeza de ter sido visitada. Acolho a presença que me surpreende e acolho-me, na capacidade gratificante de ser ancoradouro.
          No céu, encontro a luz e ela me diz –“Sossega! Tudo isso é muito maior que você!"
          Sou, nessa hora, parte de um todo que me envolve com tal segurança e tranqüilidade, que posso saber exatamente de onde vim
          São pátria também e são território e pertencimento os fugazes e eternos momentos de Encontro a dois. Delicio-me e peço que durem. Que parem todos os relógios, que pare meu coração-bomba/ritmada, que pare o ar, que eu possa saber que sou e que já não estou sozinha.
          Que eu possa esquecer que estive perdida, que eu possa despreocupar-me de ir lá fora e encontrar guardas da alfândega que vão querer saber:
                                          - Por quê?
                                          - P'ra onde?
                                          - P'ra quê?
          Coisas a que eu, agora, só posso responder com um balanceio de cabeça, que aprendi contemplando os passarinhos.

domingo, 6 de novembro de 2011

MENINA DE SION – PARTE I


Maria Inez do Espírito Santo


1956 - Petrópolis
Quando eu e minhas irmãs, devidamente escovadas e lustradas, acompanhadas por nossa mãe, fomos recebidas solenemente, no Parlatório, por Mère Carmélia, a subdiretora do colégio, para uma entrevista preliminar de matrícula, conseguimos surpreender a religiosa por nossa ingenuidade, que ela chamou de inocência e pelo que parabenizou minha mãe. Não sei precisar o teor da conversa que tivemos, nem seu tom, mas ela percebeu que não tínhamos a mais mínima idéia sobre como nascem os bebês e todas essas coisas que, àquela época, eram considerados assuntos muito picantes. Assim, com menos de 8 anos, após essa “prova” fui aprovada com louvor, para ingressar no Colégio Notre Dame de Sion de Petrópolis.

Mesmo sem entender muito bem porquê estava mudando de escola, deixando minha primeira escola onde eu era especialmente querida, achei aquela novidade muito importante. Afinal estávamos indo para a melhor escola feminina da cidade, que fora recomendada pelas religiosas do Colégio Santo Antonio, de Duque de Caxias, que eram tão amigas de meus pais, que chegavam a se hospedar em nossa casa, quando vinham à cidade para os encontros religiosos.

Já se vê por aí que eu tinha uma família bastante tradicional e católica praticante. Não espanta, então, que nós três – as Espírito Santo (este é nosso sobrenome) – passássemos a ser chamadas por Mère Rosalina de “A Santíssima Trindade”, quando ela irradiava a chegada dos pais, na hora da saída, a cada final do dia.

Éramos quase vizinhas do colégio, podendo ir e vir a pé de nossa casa, na rua Buenos Aires, até a rua Benjamin Constant. Por isso, talvez, senti uma intimidade afetuosa com o novo colégio, tão logo superei o mal estar das adaptações e compreendi os novos códigos. Perceber que não ganhar parfait não queria dizer ficar sem café e sim não alcançar a nota máxima, indicativa de perfeição; que jersey era o nome como os agasalhos eram chamados ali e que a palavra não se referia ao material com que eram feitas as roupas de baixo; e que circulação era o direito de sair da aula para ir ao banheiro, sem precisar pedir à professora, autorização automática garantida pela posse daquela madeirinha, que devíamos portar ao andar pelo corredor, foi questão de poucos dias e alguns espantos.

Lembro-me que subindo as rampinhas dos jardins que ladeavam as imagens centrais de Notre Père e Père Marie cumpria um ritual muito especial, ao ir acompanhando o balançar singelo das pétalas das papoulas dos canteiros, que ali valsavam qual borboletas de papel de seda. Hipnotizada pela delicadeza das flores ia sendo tomada por tal encantamento, só comparável ao do prazer de ficar nas pontas dos pés para tocar a campainha da enorme porta de entrada da secretaria. Esta uma conquista bastante simbólica, que só foi se confirmando: a cada ano ia ficando mais fácil alcançar a maçaneta dourada.

Posso ainda ouvir o som grave do alarme, hoje, quando aqui estou, 54 anos depois, hóspede da Casa das ex-alunas de Sion, tentando trazer, das arcas tantas da minha memória multifacetada, composta por alguns flashes fortemente coloridos, tão ressaltantes quantos outros preto e branco ou de tonalidade gris, amarelecidos pela fumaça do tempo, as mais significativas recordações.

Ah, as cores! Elas foram sempre um bonito símbolo do colégio: entrei grenat, fui orange, depois me tornei verde e, quando, na classe de admissão, era bleu lisrè, pus-me a questionar as regras e os hábitos do cotidiano do colégio e foi por aí que acabei pedindo para deixar o Sion. Minha reivindicação causou consternação geral e um mal estar muito grande, já que eu sempre fora uma excelente aluna, muito participante e ativa. O fato é que, já desligada da escola, fui, mesmo assim, a mestre de cerimônias da entrega das medalhas daquele ano, uma honra quase absurda, devida principalmente a meu desembaraço e a minha boa voz, de que a festa não podia abrir mão de uma hora para outra.

Ironias da educação daquele tempo, não menos incoerente do que a atual...
Mas a vida no Sion me trouxe, também, muitos preciosos hábitos: a disciplina para o estudo, a organização pessoal, o interesse por novos conhecimentos, a concentração nos rituais religiosos.

Na capela do colégio, numa determinada Semana Santa, em recolhimento e meditação, tive uma das primeiras experiências de transcendência de minha vida. A luz tremeluzente da lamparina, o cheiro de incenso e a realidade comum ficou muito distante, enquanto parte de minha energia sobrevoou meu corpo e tudo o que de mais havia ali, para se integrar, por um tempo impossível de mensurar, a um todo, que naquela situação podia ser chamado de Deus.

São também das Semanas Santas as lembranças das procissões, à noite, pelos corredores escuros, velas pingando em nossas mãos, a cera quente derretida escorrendo pelos cortes mal unidos dos cones de cartão branco, que carregávamos compenetradas. A excitação de brincar com fogo impedia levar a oração muito a sério, mas era bonito ver a enorme fila luminosa serpenteando pelos largos espaços, descendo escadarias, entre cânticos e orações penitentes.

Num Natal daquele tempo, eu e meus irmãos fomos encarregados de conduzir o Menino Jesus, na missa solene. Admitiram até que meu irmão (um menino!) participasse do grupo. E olhe que meninos naquela época só apareciam por ali para prestigiar as próprias irmãs em dia de festa de encerramento, ou como simples fiéis, nas missas dos domingos. Num outro ano, cantei num coral infantil preparado exclusivamente para a Missa do Galo e fui escolhida para ser a solista que anunciava, triunfante: - Jesus Nasceu! Com que orgulho fui soltando pouco a pouco minha voz, que vinha sendo afinada cuidadosamente, nos ensaios diários, junto ao piano da capela.

O interessante é que essas “participações especiais” aconteciam em plenas férias, quando só estavam no colégio umas pouquíssimas internas, vindas de lugares distantes. Eu nunca consegui entender porquê elas não iam para suas casas, se não havia aulas.

domingo, 30 de outubro de 2011

PROJEÇÃO E REFLEXÃO V


Maria Inez do Espírito Santo

Olhar para Fora e Olhar para Dentro


Continuando a reflexão sobre a possibilidade de reconstrução, lembrei-me do excelente filme “A Vida dos Outros”, ainda em cartaz, no Rio.

Súbito me veio a conecção entre as personagens dos dois filmes: a menina de “Desejo e Reparação” e o policial de “A Vida dos Outros”. Nos dois, o voyerismo os faz cativos. Nos dois, a possibilidade de destruição do outro. E, com isso evidentemente, nos dois, o risco da própria destruição.

A diferença entre as duas situações se estabelece exatamente porque o policial, a um determinado momento, escolhe libertar o invejado e libertar-se a si próprio do poder destrutivo da inveja que sente. Optando pelo melhor aspecto da admiração, ao invés de destruir, ele se desconstrói e, a partir dali, consegue se reconstruir, livre internamente, ainda que submetido a pressões externas.

Nos dois filmes aparece o fato de haver um livro que narra o passado.

Em “A Vida dos Outros” o autor do livro reconhece publicamente, através de um agradecimento em dedicatória simples, mas decisiva, na edição que publica, a grandeza do homem que optou por salvar-lhe a vida, abrindo mão de ser uma farsa poderosa, para tornar-se, no anonimato, um verdadeiro ser humano.

Em “Desejo e Reparação” o voyerismo da menina a aprisiona de tal forma que a impede de se descolar do objeto de admiração (a irmã), levando-a a precisar destruí-lo e a destruir-se também, conseqüentemente, aprisionada que se mantém. Até porque a menina é tão somente a ponta do iceberg de um grupo familiar adoecido, que vive uma vida de simulacro, numa aristocracia decadente, pretensamente liberal, mas hipócrita, falsamente moralista e preconceituosa.

Voltando à questão de se a literatura pode vir a ser um instrumento de reparação, “A Vida dos Outros” me leva a confirmar minha opinião de que não é de reparação que se trata. Naquele filme, o que o autor do livro narra é a verdadeira história, sem precisar inventar um final menos cruel, que garanta a ilusão de felicidade a qualquer dos envolvidos no drama ocorrido. E ele o faz, possivelmente como tentativa de reconstrução de valores, após um tempo em que, a destruição real do muro de Berlim, significou a própria desconstrução de uma Alemanha esquizofrênica, e o início de um caminho de construção de uma nova identidade nacional.

domingo, 23 de outubro de 2011

PROJEÇÃO E REFLEXÃO


Onipotência e Delírio
Maria Inez do Espírito Santo


Li em algum lugar que o filme “Desejo e Reparação” trata da literatura como instrumento possível de reparação.
O título original “Atonement” tem mais a ver com expiação, que quer dizer cumprir a pena, remir a culpa. Reparar, por outro lado, quer dizer restaurar.
No filme em questão, excelente, do ponto de vista técnico, derivado de um livro do qual não posso falar, já que não li, mas que quase posso afirmar que segue um padrão literário desses que garante certo ritmo promotor do envolvimento do leitor com a história, a questão da culpa e da possibilidade de expiação é tratada de tal forma, que nos deixa a liberdade de arriscar expor nossa própria opinião.
Para mim, a autora, já idosa, ao escrever aquela história autobiográfica, com um final feliz, refazendo, como sempre fez (desde a infância) a realidade, está apenas reforçando seu delírio de onipotência. Pode ser até uma tentativa (vã) de se redimir da responsabilidade de ter destroçado vidas, mas não chega de forma alguma a ser reparação. Até porque é impossível reparar alguma coisa que se destruiu para sempre.
Voltando ao primeiro parágrafo deste texto, e à alusão de que essa função, reparadora, possa ser atributo da literatura, discordo mais uma vez. Talvez se possa pensar a linguagem como instrumento de reconstrução. Mas, mesmo assim, o efeito seria subjetivo e o processo interno até lá, bastante trabalhoso, como em toda boa reconstrução, aliás. Naquela história, o sofrimento que a mulher se impõe, tornando-se enfermeira na guerra, é mais uma forma de imitar os passos da irmã, a quem ela passou a vida invejando e tentando controlar. Não há, de fato, elaboração da culpa. Só atuação.
Embora o filme não chegasse a me emocionar, devo confessar, afinal, que apenas o fato de me fazer pensar em tudo isso, lhe atesta algum valor mais significativo.

domingo, 16 de outubro de 2011

PROJEÇÃO E REFLEXÃO III


Por Entre as Frestas
Maria Inez do Espírito Santo


Dificilmente eu poderia imaginar a possibilidade de considerar uma mesma coisa óbvia e ao sutil, simultaneamente. Mas é assim que defino o filme “Conversas com Meu Jardineiro”.

Sem dúvida trata-se de um roteiro aparentemente previsível. Mas, pensando agora, momentos depois de assisti-lo, eu diria que o enredo é tão fácil de prever como a seqüência natural da própria vida. É como se estivéssemos assistindo às cenas através da cerca de nosso jardim, ali, na casa do vizinho.

Aliás, é isso que o filme mostra: o tempo que passa, prenhe de possibilidades, mesmo quando tão limitado. Enfim, até aí tudo quase beirando o monótono e sem emoções extraordinárias. Diálogos de uma simplicidade quase tosca, não parecem necessitar de tão bons atores quanto são Daniel Auteuil e Jean Pierre Darroussin.

As locações também não se prodigalizam para chegar a extasiar ninguém. Afinal o campo é sempre belo para quem sabe olhar e, da cidade grande, o filme traz, tão somente, o cenário vulgar, detendo-se basicamente em cenas de interiores.

No entanto, quando se sai do cinema, muitas coisas que não foram ditas estão acordadas dentro da gente e, isso sim, é o que o faz muito especial.

Ouvir um homem dizer voluntariamente “a esposa” ao invés de “minha esposa”; ver outro refazer a horta da mãe morta, mesmo quando não pretende comer os produtos, ou replantar as roseiras que um dia foram símbolo para alguém amado; olhar o mar apenas, apenas olhar o mar; repetir a cada ano a mesma programação de lazer, sem precisar usar a novidade como aditivo para dar sentido ao passeio; parar o dia de trabalho no meio somente para dar uma boa notícia, mesmo a quem não se admira muito; reconhecer o olhar da morte e ir se “plantando”, pouco-a-pouco, num ensaio para a integração maior com a natureza são alguns dos sinais de um caminho que o filme traça com delicadeza capaz de conter a mais sutil das mensagens

Sob os pontos banais de um bordado comum, ressaltam matizes quase imperceptíveis, porém brilhantes, que vão desenhando, lentamente, aquilo que é essencial. Pois não é por acaso que o mesmo jardineiro que ensina que se deve ter sempre à mão uma faca e algum barbante para ocasiões difíceis, chama de emendar o movimento de duas pessoas em direção a reconstrução de uma relação amorosa.

“Conversas com Meu Jardineiro” é um convite a voltarmos o olhar para os detalhes mínimos. Talvez para que possamos soltar, todo dia, o peixe já pescado e vê-lo nadar, em liberdade, conservando sempre suas cores e forma mais belas em nossa lembrança, esse reservatório de sabedoria, continente das experiências já vividas.

 
 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

PROJEÇÃO E REFLEXÃO II

Maria Inez do Espírito Santo


O Ser Humano Bom é um Ser Humano Livre

          A recomendação para assistir o filme cujo título em português talvez seja “Estamos Bem Apesar de sua Falta” (ou alguma coisa parecida com isso) me foi feita com tanta convicção que, antes mesmo de segui-la, saí fazendo a propaganda da fita. Talvez porque me disseram que era filme de chorar. E eu gosto de chorar no cinema. O escurinho acolhe bem as lágrimas, certamente, mas a verdade é que pegar carona numa história que não é minha e derramar-me um pouco para equilibrar melhor o pote sempre tão cheio, me agrada. Ou, quem sabe, a tradução de uma dor alheia, que desperte o sentimento de afinidade me emocione agradavelmente e me permita aliviar o coração. Um pouco de tudo isso, provavelmente...
          Então, quando já ouvira outros bons comentários sobre o filme, lá fui eu. Primeiro dia do ano, sessão da tarde, sozinha, com o cafezinho introdutório do ritual que prezo tanto, passadinha na livraria pra garimpar sebos e paquerar pequenos objetos de desejo e vários pacotinhos de lenço na bolsa, olhos sem rímel para não sair mascarada e uma quase certeza de já saber de que tratava a história.
          De fato, era sobre a trama familiar (como eu deduzira). E foi nesse emaranhado de diferentes linhas de vida que o personagem central, um menino de lindos olhos, foi tecido. E nem podia ser diferente, já que o destino de todos nós tem sempre esse mesmo pano de fundo. Assim, entre adultos e crianças enredados em grandes limitações emocionais, intelectuais e materiais, assisti o pequeno herói ir tendo que dar conta de sua imensa sensibilidade, de sua observação e sua atenção penetrantes, de sua inteligência aguçada e de uma capacidade de amorosidade precocemente amadurecida, que produzia nele uma atitude de comprometimento com cada momento que vivia. Acompanhá-lo, passo a passo, suspiro a suspiro, se não me fez chorar, foi me envolvendo doce e completamente.
          Assim, de tal forma estávamos perto, ali, que, também eu, (como ele) não pude condenar o egoísmo dos que não o enxergavam. Nem pude, tampouco, torcer para que ele simplesmente desse as costas àquele mundo. Andei pelas beiradas dos telhados com ele, quase segurando-o pelas costas, mas, me contendo por saber bem que, quando o abandono é total, é só no limite que a vida parece ter algum sentido. Que, só quando se pode soltar as amarras, tal como na experiência do nascimento ( e, dizem, na da morte) é possível vislumbrar a grandiosidade de se sentir vivo.
          Pois é disso que, a meu ver, trata o filme: do nascimento de um ser humano livre.
          Na saída, pareceu-me ver a confirmação de minha conclusão, no título original. Ali, a palavra italiana “libero” dá ao título um outro sentido: estar bem, mesmo solto. E o último diálogo do menino com seu pai, quando esse lhe propõe a posição de libero no futebol, prenuncia essa libertação.
          – Libero também pode ser bom – o menino consente.
          É um lindo filme para o início do ano. Sorte minha, ter me dado esse presente! Pensar sobre isso estimula a que paremos de avaliar tudo que nos falta e que nos prejudica e consideremos a possibilidade do vôo solitário, que pode nos levar até nosso âmago, onde está o único verdadeiro tesouro que não podemos dispensar.
          Passando adiante a recomendação para assistirem o filme, acrescento: é uma história que mostra o processo de individuação de um ser humano. Processo esse que só se dá na liberdade, mesmo quando esta é conseguida com muito sofrimento, a partir do que pode ter sido vivido como abandono.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

PROJEÇÃO E REFLEXÃO I

Maria Inez do Espírito Santo

Entre “Leões e Cordeiros”, salvar o Brilho no Olhar


          O apelo de um filme que reúne Robert Redford e Meryl Streep é irrecusável para mim. Mesmo sabendo, pela crítica dos jornais, que o filme “Leões e Cordeiros” não foge ao modelito norte-americano, prefiro me ater às boas lembranças que as interpretações desses dois atores me trazem.
          Vou. E não me arrependo.
          Há quem saia do cinema comentando detalhes sobre a aparência física de meu velho galã, reclamando cuidados de que nem percebo a falta. Para mim o filme tem outra importância, muito maior, que transcende até mesmo seu inegável aprisionamento no estilo simplista dos EEUU fazerem cinema.
         A mim, o que me importa é que em duas horas de filme eu pude me lembrar de um tema fundamental na minha vida: o do brilho nos olhos. Isto mesmo: olhos que faíscam expressando desejo intenso e interesse apaixonado por idéias e projetos.
          Enfim, penso que esse é um filme sobre encanto e desencanto. Faz-nos pensar em tudo com que um dia sonhamos e em como nos deixamos ir levando para o lado oposto, muitas vezes.
          A figura central é um mestre e a Educação, ali, é a fala da esperança.
          Escrevi, em minha monografia de pós-graduação, que chamei “Em Defesa de um Estilo Próprio de Ser... Professor” sobre as características que tornam um professor num mestre; que o fazem, de fato, um Educador.
          Pelas entrelinhas (e aí é preciso saber ler nelas) esse filme trata de questões presentes em todo nosso mundo ocidental contemporâneo. E também de outras, velhas conhecidas do ser humano, em toda sua história. Destaco entre estas últimas, a vaidade, parente próxima da onipotência e da arrogância.
          Então, fico pensando que o verdadeiro mestre é justamente aquele que pode perceber o brilho dos olhos de seus alunos, interpretando-o não somente como admiração por sua (do mestre) capacidade e desenvoltura, mas sabendo que, se essas qualidades existem, elas são apenas detonadoras de outros atributos muito mais importantes (porque em potência de eclosão) dos próprios estudantes.
          Em outras palavras: a vaidade às vezes nos impede de ver o potencial do outro, independente de nossa participação em sua vida. E em Educação isto é mortal.
          Estimular é poder ver, no brilho do olhar do outro, a chispa da Vida, que ali pulsa e que o confirma, também, ser criador e não mero espectador passivo. Na sociedade do espetáculo, em que vivemos, isso faz toda diferença.
          Estimulados pela competição ferrenha desde a infância e imersos nela, na barbárie da vida adulta, corremos o risco de nos centrarmos de tal forma em torno de nosso próprio umbigo, que vamos perdendo as dimensões dadas pelas diferenças, capazes de estimular a ampliação de nossa visão e trazendo novas perspectivas, que enriquecem o pensamento, favorecendo que cultivemos uma forma mais sábia de viver.
         Qualquer posicionamento fundamentalista (mesmo em roupagens discretas) se baseia em uma forma estreita de pensar, geradora de hostilidade, de fantasias paranóicas, causadas pelo medo das diferenças (e da grande semelhança, que existe nelas).
          Tudo isso me evocou o filme, porque está ali, para quem quiser ir ver e correr o risco de se lembrar.
          Mas, por hoje, deixo aqui um lembrete: o que nós não podemos é deixar que se apague, em nós, essa luminosidade que brota espontânea, frente à mestra maior, que é a Vida, tão generosa, que nos oferece sempre o direito ao livre arbítrio.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

PASSE ADIANTE! (PARTE II)


Maria Inez do Espírito Santo


          Em “Linha de Passe” as pessoas aparecem com suas cores mais cinzentas, manchadas por camadas superficiais de descontinuidade. Tirando raros momentos em que ensaiam um tentativa de brincadeira (um bate-bola entre os irmãos, uma festinha de aniversário, por exemplo) o filme retrata crianças, jovens e adultos ressentidos e irresponsáveis e delirantes, sem dar prosseguimento suficiente a nenhuma cena, a ponto de não desenvolver suficientemente a apresentação de um perfil sequer, de forma a permitir surgir alguma empatia por parte da platéia.
          Não há nenhum momento de alegria espontânea, nem mesmo quando o que aparece é torcida de futebol. Da mesma forma, não há relação verdadeira entre os personagens do filme. Eles convivem, dividindo só espaços, comida e insatisfação. Não dialogam, não buscam soluções em conjunto, como se estivessem mesmo em campos separados por uma linha divisória intransponível.
          Isso me faz lembrar de uma criança, um paciente meu, que me ensinou, com suas descobertas nas brincadeiras na ludoterapia, com a caixa de areia, a diferença entre guerra e esporte. Durante meses ele construiu guerreiros e estabeleceu lutas infindas. Aos poucos, após exercitar exaustivamente a tentativa de equilibrar as forças entre os opostos, ele foi transformando os lutadores em jogadores de futebol. Aí ele disse que nos esportes os campos estavam previamente marcados, para serem respeitado; havia regras e sempre se podia recomeçar, ganhando ou perdendo; ao final da disputa os adversários não eram inimigos. Na guerra, ele me alertou, vale tudo.
          Será, então, que é só o nome do filme que está errado? Ao invés de “Linha de Passe” o filme deveria se chamar “Cabo de Guerra” , como aquela brincadeira em que uma corda é puxada dos dois lados, até que um deles consiga derrubar o adversário. Seria mais apropriado esse nome?
          Mas Passe é também o nome dado pelos espíritas a um processo de “limpeza” de aura, nos fazendo voltar, assim, à idéia de atravessamento de dois campos – nesse caso o físico e o espiritual. E o espiritual, no filme aparece também, apenas pelo aspecto do fanatismo e do desencanto.
          Tem mais ainda: os lacanianos falam de passe quando se trata da autorização de clinicar, que o próprio analista se dá, ao se julgar apto, num determinado ponto de seu processo de formação. E clinicar é algo que exige um delicado e extremo cuidado com o campo do Outro. Um estar-com que não invade, nem se permite invadir, mas que se disponibiliza à mutualidade. Exercício da mais verdadeira convivência; de experiência compartilhada e reciprocidade, nos ensinou Winnicott.
          Trazendo tudo isso para o filme, lembro de seu final e aí mais me decepciona o trabalho desses cineastas. Os protagonistas terminam todos à deriva, em vitórias falsas e temporárias, em derrotas terríveis, em solidões, em abandonos, em perdição, como se não houvesse para a “tríade pobreza-família-busca dos sonhos”, de que fala a crítica elogiosa, nenhuma esperança de verdadeira travessia para um estar melhor no mundo.
          A mim, me parece que seria mais autêntico se nossos cineastas ousassem pensar em suas próprias “Linhas de Passe”, avaliando se a tal desesperança não está muito mais na “elite” cultural e social, que representam de fato, que no povo das periferias urbanas, que conhecem de camarote, ou por trás das câmeras.
          Enfim, o que sei é que não aceito esse passe. Deixo essa bola no chão.
          E, assim, considero libertado o elefante de sua sina compulsória e infame de falso beijador.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PASSE ADIANTE! (Parte I)


Maria Inez do Espírito Santo


          Quando eu era criança existia uma brincadeira assim:
         - Passe adiante, senão vira elefante!.
          E a gente ia passando: informação, tapa, bala, o que quer que fosse...
          Fui ver “Linha de Passe” na estréia, há uma semana, e confesso que, desde então, não conseguindo escrever a respeito, fiquei me sentindo meio o elefante: pesada, sem saber onde colocar num mundo tão minimalista, alguma coisa muito grande que senti e não identifiquei na hora, ou a que não soube dar nome imediatamente.
          De verdade, eu queria gostar do filme, como gostei de “Central do Brasil”, também do Walter Salles. Fui preparada pra isso. Mas, infelizmente, não foi suficiente querer.
          Agora, tentando escrever aqui, lembrei, de repente, do elefante que fui ver no templo indiano Arunachaleswar Shiva, em Tiruvanamalai. Disseram-me que o tal elefante beijava nossa testa, com sua tromba. Mas, o que vi e senti está registrado em meu diário daquela viagem: “o tal elefante, que “beija” a testa é um pobre diabo maltratado, mantido preso pela pata acorrentada, mas triste que aqueles dos circos mambembes do Brasil”. Na ocasião eu nem quis receber o “beijo”, que custa algumas rúpias, é claro, como existe um preço também para a autorização de fotografar o prisioneiro sagrado.
          Pois é um elefante assim, que preciso libertar com esta página. Voltemos, pois ao filme e ao meu impasse.
          Gostei das interpretações. Sandra Corveloni, não trouxe por acaso de Cannes o prêmio de Melhor Atriz. É boa mesmo! Os rapazes e o menino, que fazem papéis de seus filhos são muito bons também. Houve quem questionasse a qualidade da fotografia. Para mim, que não sou tão exigente com aquilo de que não entendo o suficiente, as imagens me pareceram muito boas.
          Mas a questão é que, de emoção, eu entendo, certamente. E o filme não consegue deixar brotar a emoção na gente. Mexe, remexe e não aquece o suficiente para permitir germinar coisa alguma .
          Onde o destempero? Penso que a grande falha pode estar no roteiro; e na direção, certamente. O filme dura só 1:50h, mas parece ter 3h de duração, tão desconfortável fica suportar alguma coisa que se arrasta, anuncia que pode chegar o tempo todo e não acontece afinal.
          E não pensem que é por lentidão ou por excessiva representação do cotidiano que isso ocorre. Fui ver “Luz Silenciosa”, um filme quase bergmaniano, quase um documentário e não consegui desgrudar os olhos da tela e fui caminhando tão passo-a-passo com as cenas, que, no último momento, foi fácil e enlevante passar para a magia que é oferecida como culminância. Perfeito exemplo de passagem!
          A pretensão em “Linha-de-Passe” parece semelhante, em relação aos dois planos: da extrema realidade para a linguagem metafórica das últimas cenas. Só que a gente não acerta o passo com o filme e acaba ficando de fora, sem entrar no simbolismo pretensioso e atropelador dos quadros finais.
          Não sei como o título foi escolhido. Mas na tentativa de compreender melhor todo o processo, resolvi pensar no termo Passe.
          De origem direta do francês, anteriormente vinda do latim, a palavra pode significar muitas coisas em português, todas elas de alguma forma ligadas à idéia de transposição. O dicionário fala em licença, autorização, permissão e ressalta o sentido a que o título do filme faz alusão: passe no esporte (no caso, o futebol) é o ato de passar a bola ao companheiro da mesma equipe.
          Será que Daniela Thomas e Walter Salles pretenderam mostrar esse passe contínuo de responsabilidade que se faz em nossa sociedade com as questões sociais? Pode ser uma possibilidade. Alguma coisa como “a bola rola...”
          Mas se foi essa sua intenção, o defeito é que parece que eles conhecem muito pouco dos pobres e da realidade de suas vidas. Ao invés de personalidades, pintam caricaturas, talvez porque seja como eles vêem esse mundo.
          Quando assisti “Terra Estrangeira” (dos mesmos diretores) tive uma sensação parecida. Talvez porque aquele tema estivesse ligado a questões menos distantes de suas próprias vidas, eles conseguiram chegar um pouco mais perto, sem exagerar nas tintas, como fizeram agora, por desconhecimento da aquarela ou por certa cerimônia com um material “estranho”. Mesmo assim, ao ver “Terra Estrangeira”, tive a impressão de estar assistindo a um arremedo de “Bonnie and Clyde”. O precioso tema do não-pertencimento estava ali, mas foi borrado por uma série de interferências e influências, que não me permitiram entrar na história, o que me deixou com a sensação empobrecida de mera espectadora. Bem diferente aconteceu com o filme americano, quando me senti arrastada pelas fugas de Warren Beatty e Faye Dunaway, torcendo com tal força pelo amor deles, que quase atravessei a linha divisória entre o Bem o Mal e com a morte dos protagonistas, morreu um pouco, ao final, a minha ilusão de que fosse possível conciliar o inconciliável.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O MENINO QUE COLECIONAVA BORBOLETAS


Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com


A primeira delas pousou em seu berço logo de manhãzinha. Era da cor da noite misteriosa: azul-escuro, grande, poderosamente bela. Chegou com os primeiros raios de luz e nem dá pra precisar se era mesmo uma borboleta ou talvez pudesse ser uma daquelas mariposas da noite, que as crianças chamam de bruxa.

Veio voando vagarosa, pousou nas dobras do cortinado e logo se infiltrou, habilidosa, com um fechar breve das asas, quase um passo de dança. Então, reabriu-as em par, majestosa e se manteve, ali, qual beija-flor, bem em frente ao rosto do bebê adormecido.

No mesmo instante, o menino abriu os olhos e, fascinado, esticou as mãozinhas em direção àquele movimento leve e colorido, que o hipnotizou imediatamente. Do rádio da cozinha chegava o som de uma música ritmada, que guiou os dedinhos da criança, fazendo-os mexer, como se houvesse, em suas pontas, fios invisíveis ligando-as ao abrir e fechar daquelas duas pétalas opacas e aveludadas, que sustentavam, no ar, a borboleta. Tudo tão em sintonia, tão harmonioso e extasiante, que se registrou nele, inexplicavelmente, como uma fragrância muito antiga, exótica, penetrante e inesquecível.

Durante muitos dias outras tantas mariposas, perfeitamente iguais à primeira, visitaram aquele quarto e ali se duplicavam, refletidas no espelho em frente à cama do menino. Foi de tanto admirá-las e brincar com elas, que seus olhos foram se acendendo, ele começou a rir e aprendeu, um dia, a gargalhar.

Cresceu nosso principezinho e os jardins por onde andou lhe ofereceram muitas outras descobertas. Entre folhas e pedras, poças d’água e pererecas, ia vendo formigas e passarinhos. Mas de tudo a sua volta ressaltavam-lhe as flores e as borboletas, que julgava seres de uma mesma espécie, ora quase imóveis, ora valsantes, como dançarinas exímias, presas ao solo ou soltas no ar.

Um dia, na Escola, lhe ensinaram sobre as lagartas. Os colegas estranharam o processo da metamorfose, mas não ele, que já nascera entendendo de casulos e solidões.

Assim, iniciou sua primeira coleção: uma caixa de sapatos, folhas selecionadas da amoreira afrodisíaca e a espera... O que ele nunca soube dizer ao certo é se a sensação de liberdade se iniciava quando ele encontrava a lagarta rastejante e a protegia, estimulando a que se tornasse depressa em borboleta, ou se era quando abria a tampa da caixa e, erguendo aquele útero de papelão no ar, dava à luz o ser alado.

Foi com os suspiros de alívio e prazer que se desprendiam de seu peito, ao absorver tão expansiva experimentação do espaço, que ele aprendeu a cantar. Assim, naturalmente, sua voz passou a embalar os primeiros e ainda cambaleantes ensaios do voar de cada borboleta nova. Era como se fosse através de sua voz que elas iam cada vez mais longe, realizando sua verdadeira vocação de anjos. Por um frágil momento o sopro do cantor e o vôo ficavam ligados por uma conexão etérea, que reavivava sua percepção da antiga fragrância, enebriando-o.

De vôo em vôo, o menino se descobriu um homem. Elevado pela voz e pelo ritmo de seu corpo, preso, por filamentos rigorosamente tênues, à perplexidade frente ao encanto: um artista.


Então, já não lhe bastava a contemplação. Desejou recriar aquela identidade una de que já participava, compondo diversas e infindáveis formas com diferentes borboletas. Mas de tão dolorosa que lhe foi essa passagem e do custo de tamanha necessidade de observação e astúcia, ele ao mesmo tempo foi se tornando, na vida, um curador. Compensava, cuidando dos outros, a sua própria dor e a via transfigurar-se em satisfação e contentamento. Ao mesmo tempo, cantando os vôos, mantinha intangíveis o puro prazer e a fantasia.

Algumas vezes quase se apegou a algumas borboletas, às suas asas multidinâmicas, aos seus tantos desdobramentos, como o das fadas! Desejou reter-lhes para além da cor, o tênue do encanto, o efêmero do prazer, o não capturável da possibilidade...

Daí inventou de criar mandalas. Foram mandalas sem fim, caleidoscopiadas, formadas de minúsculas partículas da película de milhares de asas recolhidas, agora, de borboletas sem vida. Já não lhe bastavam os vôos. Mas no deslumbrante tecido que ia crescendo, entre as invisíveis linhas divisórias de cada pedacinho, começava a se desenhar a insatisfação.

Dia a dia em nova procura, a cada momento num novo encontro, foi conhecendo o inalcançável da perfeição e, com ele, o desencanto. Buscando desesperadamente na memória, o sonho perdido, ela lhe devolve aquele primeiro momento mágico: - a luz filtrada pelo véu, o movimento de algo que lhe captura os sentidos, a vertigem, a perda da sensação de estar ali, tudo se confundindo, agora, com a impossibilidade do prazer completo, que se pode chamar de gozo ou de ilusão.

Entre sonhos, delírios e pesadelos, um dia, ao acordar, ele se descobre cego e não se espanta, nem se desespera. Porque, agora sente que está ali, bem próximo, a seu alcance, o vôo perdido.

Tateando, chega até a janela e a escancara. Recebe a primeira brisa da manhã acariciando-lhe os cabelos e pensa, com saudades, nos carinhos que não conheceu.

Voltando à mesa onde estivera trabalhando durante tanto tempo, acaricia delicadamente o enorme vitral composto com as asas recolhidas. Lembra-se, sem esforço, de cada cor, cada tonalidade, cada recorte, mas não mais consegue encontrar o inebriante no contato.

Vai esticando cautelosamente até a janela, a tessitura, como se fora uma rara e preciosa partitura e, ao se aproximar do parapeito, começa a sentir os primeiros raios do sol brincando em suas mãos, já não tão jovens. Suspira profundamente, como que enamorado.

Vai soltando pouco a pouco sua mandala e percebe que ela não cai... Ao mesmo tempo, pontos de luz começam a abrir canais diante de seus olhos e, de repente, lhe são devolvidas, envoltas num enorme flash, todas as cores possíveis e cambiáveis. Então ele vê: são de novo os vôos, que recomeçam... Centenas de borboletas multicores, frágeis e vigorosas, graciosas bailarinas, desprendem-se umas das outras, desfazendo a trama, desamarrotando as asas e partem, lentamente espaço afora, confundindo-se com o todo e sendo, já, elas próprias, a paisagem distante.

Por último surge, à sua frente, a grande borboleta azul, mariposa ou bruxa; rodopia uma dança de despedida e se afasta, fechando, com a dignidade de uma deusa, o magnífico cortejo.

Durante todo aquele dia, o homem mantém a janela aberta. E chora, silenciosa e confortavelmente, muitas vezes.

Depois, vai dormir um sono de menino, sabendo que acordará menos só.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

LER A VIDA



Maria Inez do Espírito Santo


          Meu neto acaba de descobrir o segredo da leitura formal. Sozinho. Lendo a vida. Como aconteceu com minha filha mais nova. Como acontece às vezes, com algumas crianças, mas não com os adultos. Por quê?
          Fui ver “O Leitor” – mais um filme com Kate Winslet. Meu Deus! Como trabalha essa jovem mulher! Vários filmes com ela estão sendo apresentados simultaneamente. E é sempre tão bom seu desempenho! Isso acrescentado a sua beleza é realmente um presente para a platéia. Em “O Leitor” ela está magnífica! Como magnífico, como sempre, está Ralph Fiennes, meu “Paciente Inglês” inesquecível...
          Agora, de volta a minha vida nem tão bela, nem tão talentosa, penso sobre leitura. Que é mais que juntar letrinhas, mais que decifrar códigos escritos, mas tem a ver, sim, com aproximar, dar sentido, compreender...
          Essa história me levou a pensar na leitura através da sinestesia, pela interligação entre os vários sentidos, transformada em registro pelo afetivo, ouso dizer.
          As primeiras aulas de leitura que o filme mostra são através do conhecimento erótico do próprio corpo. Da mesma maneira como foi para todos nós, um dia, alfabetizados, inicialmente, pelos cuidados exercidos pela função materna (nem sempre pela própria mãe), em nossos códigos corporais....
          Na verdade, tudo começa, na tela, com um abraço de compaixão. Algo muito simples, mas capaz de estabelecer imediatamente um contato essencial.
          Depois, através dos pequenos, triviais e depois intensos, profundos encontros corporais, os amantes vão desenvolvendo, pouco a pouco, a confiança suficiente para estarem apenas juntos: lendo, ouvindo, imaginando e também fazendo amor: com cuidado, com esmero, com requinte!
          E então, alguma coisa se rompe. O código oficial dos costumes padronizados põe em questão tudo o que foi construído à parte, de forma particular, preciosa e genuinamente.
          Na segunda parte da história, ficamos todos submetidos às regras da linguagem formal. Porque assim, também, ficam os protagonistas. Aí, tudo parece diferente, assustador, torpe, absurdo, inverossímel!
          Não quero contar o filme. Mas, em mim, ficou a sensação do que Edgar Morin diz em “Meus Demônios”, quando afirma que uma pessoa pode passar a vida inteira agindo certo, mas que será sempre impiedosamente julgada por um único erro que tenha cometido.
          No caso de “O Leitor” fiquei pensando em como todos nós corremos o risco de ter atitudes “nazistas” ao querermos excluir, sumariamente, tudo o que não podemos compreender ou integrar.
          No fim da história, uma nova tentativa de leitura se inicia. Existe ali um homem buscando aprender a “reler” sua própria vida, através do mistério do compartilhar seus sentimentos.
          Retornando, então, ao início desse texto, suponho que talvez por isso os adultos não consigam aprender a ler espontaneamente. Porque o caminho dos sentimentos genuínos, que possibilita a sinestesia, assusta de tal forma, que nos faz recuar, de vergonha e medo, frente a qualquer dificuldade de compreensão de novos códigos.
          Há que fazer o caminho de volta!



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

D’ARTAGNAN



Maria Inez do Espírito Santo


          - Um por todos e todos por um!

          Esse o grito do compromisso de união, que aprendi com a história “Os Três Mosqueteiros”. Aprendi, também, que os três mosqueteiros acabaram sendo, em verdade, quatro. Mas o nome do grupo não mudou com a chegada do mais um.

          Três é o número da transformação. É com a chegada do terceiro ponto que se cria o espaço interno. Entre a dupla, pode apenas existir uma linha, rota única. O triângulo se delineia com o surgimento do terceiro ponto, que permite novas e infinitas combinações.

          Mas do que é que eu estou falando, afinal?

           É que implico com o final esticado e/ou arrumadinho de alguns filmes (geralmente os filmes do tipo americanóide). Gosto mais quando o diretor deixa à história e a nós, espectadores, consequentemente, algum espaço para que possa surgir o que não é tão óbvio.

            Vi dois bons filmes nos últimos dias. Mas aos dois faltou o espaço vazio, no final. Ou sobrou informação e cobertura. Todas as lacunas preenchidas, senti, nas duas fitas, uma certa intoxicação do enredo. Excesso. Necessidade nada criativa de contar a história para além do final, cujo tempo pertence (e como tal deveria ser respeitado) à própria narrativa.

          O primeiro - “Foi Apenas um Sonho” segue o modelo de outros tantos filmes que já buscaram revive as questões dos anos 50 e as consequências da mudança de costumes, que, iniciada àquela época, veio permitir a homens e mulheres externarem suas insatisfações, destampando o caldeirão fervente de desejos reprimido, de hipocrisias e dissimulações, tão habituais e aparentemente normais, até então. É um bom filme, com ótimos atores e algumas cenas bem interessantes. Mas quando, no fim, tudo já mostrado e dito, o diretor continua, repetindo o desgastado modelo “quadro negro”, exagera na dramaticidade e faz perder, em qualidade, a dimensão trágica, importantíssima pra despertar reflexão. O corte que te deixa com a angústia é fundamental para a elaboração.

          Por mim, o filme terminaria quando April (Kate Winslet) sobe as escadas da casa, já determinada sobre que atitude vai tomar. O que vem depois é desnecessário, quase piegas. Mesmo os dois diálogos dos casais amigos são explicitação demasiada daquilo que se pode concluir da trama, dispondo de um mínimo de sensibilidade e reflexão.

          “Quem quer Ser um Milionário?” – o grande campeão de muitos Oscar – também é, inegavelmente, um bom filme. Não tão bom quanto “Cidade de Deus”, é preciso reconhecer. Mereceríamos ter ganho aquele Oscar, quando foi sua vez! O grande sucesso deste filme de agora só confirma que estávamos no caminho certo e eu creio que o trilhamos com mais competência.

          Ainda assim, com ritmo e qualidade impecáveis, desde as primeiras cenas “Quem quer Ser um Milionário” envolve a gente num turbilhão de sentimentos de repulsa, compaixão, empolgação, surpresa. E esses sentires mixados não nos dão muito tempo para reflexão. Criam o ritmo idêntico ao de um programa de auditório de televisão, similares, atualmente, no mundo todo. Mais que a verdadeira Índia, como diz o menino da história, mostrada em tempo real é, a nossa época, de valores tão contraditórios e contaminados, que está desnudada ali.

          Se o filme não fosse tão bem feito, talvez a gente pudesse ser mais crítico durante a sessão. E isso não chegou a acontecer comigo, durante boa parte do desenrolar da história, tão na torcida eu me coloquei. No entanto, o desconforto me pegou, em cheio, à medida em que a trama foi terminando.

          O que quero dizer, então, é que, no mínimo, não concordo com o final. Para mim, a última resposta dada no programa, tinha que ser errada. A necessidade de transformar o favelado num milionário e, como se não bastasse, de fazer das últimas cenas uma apoteose bollywoodiana desmerecem todo o intricado processo e os símbolos usados durante o filme. Porque nunca houve, ali, um terceiro mosqueteiro, ninguém poderia saber seu nome certo. Durante toda a vida daqueles meninos, sempre que havia a possibilidade do trio se constituir como tal, algum deles era expelido do conjunto, de uma forma ou de outra.

          Maktub! - o que está escrito – a sina que o filme aponta - é que o rapaz e a moça, findas as dificuldades, vão ficar juntos, ser um casal. E eu creio que poderia ser assim, sem precisar adicionar a “mágica” da super fortuna, como envoltório superlativo. Por quê? Pois justamente o que de mais bonito o filme nos oferece, é a idéia de que as respostas certas estão o tempo todo em nossas próprias vidas. E que para encontrá-las, basta estarmos atentos, ler nas entrelinhas e acreditar no que vemos, sem medo de errar. E isso é única verdadeira riqueza que podemos possuir: chave de toda sabedoria - poder reconhecer o que sempre foi inscrição.

          Por outro lado, e não menos real, a história nos mostra que o que há de mais terrível nas relações humanas é a impossibilidade de se encontrar equivalência perfeita no sentimento do outro, ainda quando este outro seja um nosso irmão de sangue. Difícil admitir, mas, em nenhum momento, as três crianças, que se tornam três jovens sobreviventes, se relacionaram, de fato, como “três mosqueteiros”, porque faltou a dois deles ter incorporado o lema da parceria irrestrita. O herói da história, apenas ele, teve sempre comprometimento com a lealdade, a sinceridade, a compaixão. Mas, e talvez por isso mesmo, esteve sempre só.

          Enfim, aí estão, em cartaz, os dois filmes, para quem quiser conferir minhas reflexões.

                 Sei que muita gente os tem achado excelentes e fico até constrangida em ser a que estraga o prazer fácil e aparentemente gratuito de uma avaliação mais superficial. Sem dúvida é bem mais cômodo comprar a massa do bolo pré-misturada, ou até mesmo comprar o bolo já pronto. Mas, nesses casos, nem você participa da magia da transformação de elementos diversos num novo produto, nem sentirá o gosto inigualável do que é genuíno e único.

          Sair da forma, prosseguir no processo de transformação contínua, exige enfrentar que as partes da trama nunca se encaixam numa combinação exata. É onde permanece algum espaço vazio, que algo de novo pode surgir.