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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

JÁ SE APROXIMA A REDENÇÃO!

Emanuela Mélo de Souza
emasouza@hotmail.com


Canto: O sertão seco pela chuva a suspirar,
Dos oprimidos geme o peito em oração
“Vem, ó Senhor, nos libertar, não tardes mais,
Junta este povo e realiza a Promissão”.
Refrão: Lá vem, lá vem, já se aproxima a Redenção! (bis)

Voz: E as terras do meu sertão,
as terras que estão rachadas,
vão ver as águas correndo...
as fendas vão se fechando..
a terra vai se embebendo...
as sementes acordando...

Leitor 1: Acaso dentro de mui pouco tempo não será o Líbano transformado em pomar e o pomar não parecerá um bosque? (Isaías 29,17)

Todos: Lá vem, lá vem, já se aproxima a Redenção! (bis)

(Alguém entra com a coroa do Advento sem as velas, mostra-a a todos, colocando-a em lugar de destaque. Enquanto isso a voz fala).

Voz: A coroa do Advento, com suas velas que vão se acendendo em cada domingo, retoma o costume judaico de celebrar a vinda da LUZ na humanidade dispersa pelos quatro pontos cardeais.

Canto: Quando virá, Senhor o dia, em que apareça o Salvador
E se efetue a profecia: “Nasceu do mundo o Redentor”?
Refrão: Orvalhai lá do alto, ó céus, e as nuvens chovam o justo!

(Entra a primeira vela acesa)

Leitor 2: A luz de Cristo que esperamos neste Advento, dissipe toda tristeza e nos dê a alegria de preparar a sua vinda!

Canto: Ó vem, ó vem, Emanuel! És esperança de Israel! Promessa de libertação, vem nos trazer a salvação!
Daí glória a Deus, louvai povo fiel, virá em breve o Emanuel.

Leitor 1: Vem vindo Aquele que sempre vem e a atitude fundamental é vigiar.

Todos: É preparar o nosso coração.

Voz: Na mesma esperança que animou, durante tantos séculos, a caminhada do povo de Deus.

Canto: Daí glória a Deus, louvai povo fiel, virá em breve o Emanuel.

(Entra a segunda vela acesa)

Leitor 2: A luz de Cristo que esperamos, neste Advento, ilumine o nosso caminho e intensifique em nós o desejo de paz e o nosso sonho de justiça!

Canto: Abre as portas, deixa entrar o Rei da glória, é o tempo Ele vem orientar a nossa história!

Leitor 1: Vem vindo Aquele que vem e a atitude fundamental é renovar o coração.

Todos: Para a manifestação da vinda do Senhor.

Voz: Deus vem para refazer conosco a sua Aliança.

Canto: Daí glória a Deus, louvai povo fiel, virá em breve o Emanuel.

(Entra a terceira vela acesa)

Leitor 2: A luz de Cristo que esperamos neste Advento, desperte em nós o verdadeiro sentido de conversão pessoal e comunitária.

Canto: Daí glória a Deus, louvai povo fiel, virá em breve o Emanuel.

Leitor 1: Vem vindo Aquele vem e a atitude fundamental é escutar

Todos: O que nos diz o profeta quando anuncia:

Voz: É tempo de graça e de promessa: toda carne verá a salvação.

Todos: Que nossa voz se una ao gemido do universo.

Voz: Ao clamor que se eleva de todas as criaturas que esperam a redenção.

Canto: Daí glória a Deus, louvai povo fiel, virá em breve o Emanuel.

(Entra a quarta vela acesa)

Leitor 2: A luz de Cristo que esperamos neste Advento, liberte o nosso coração de toda escravidão.

Canto: Lá vem, lá vem, já se aproxima a redenção! (bis)
A voz do anjo sussurrou aos meus ouvidos: “Ave Maria, serás Mãe da Salvação”!
Maria-Igreja vai dizer aos oprimidos que a terra nova já se encontra em gestação!
Lá vem, lá vem, já se aproxima a redenção! (bis)

Leitor 1: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel, o que traduzido significa: “Deus conosco”. (Mateus 1, 23)

Todos: Emanuel: Deus conosco!

Voz: O Menino nasce num cocho

Todos: Para ser alimento do mundo.

Leitor 2: O Menino nasce pobre

Todos: Porque é sacramento de Deus.

Voz: O Menino nasce no coração de todos

Todos: Que querem ter um coração para o outro.

Voz: O Menino foi anúncio aos pobres:

Leitor 1: Naquela região havia pastores, que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: “ Não tenham medo! Eu anuncio a vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Cristo, o Senhor”. (Lucas 2, 8-11).

Canto: Vinde juntar-vos aos pastores, vinde com eles a Belém!
Vinde correndo pressurosos! O Salvador enfim nos vem!
Glória a Deus nas alturas! (bis)

Voz: O Menino mexe no sentimento de todos

Todos: Porque a criança quer ter pousada em nossas vidas.

Voz: O Menino que nasce mexe nas estruturas injustas de uma sociedade egoísta e por isso deve fugir.

Leitor 2: Ele nasce todo dia.

Todos: Também em você, se quiser

Leitor 1: Por isso, a você, FELIZ NATAL!

Todos: A você que espera no Reino!

Voz: A você que sonha com o pouco, que é o muito que falta,

Todos: FELIZ NATAL!

Canto: Noite feliz! Noite feliz! O Senhor, Deus de amor,
Pobrezinho nasceu em Belém, eis na lapa, Jesus, nosso bem!
Dorme em paz, ó Jesus! Dorme em paz, ó Jesus!

Todos: O mundo poderá ser salvo, se o ser humano desfizer a distância que o separa da infância.

Voz: De novo a estrela brilhará, mostrando o perdido caminho da perdida inocência. E eu irei pequenino, irei luminoso, conversando anjos que ninguém conversa.(Carlos Drummond de Andrade)




Obs: Imagens enviadas pela autora.

A celebração foi elaborada para o grupo que estuda Bíblia, para o grupo da Associação Caruaruense de Música (ACAMUS) e para a confraternização dos professores e funcionários do colégio.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

TEOLOGIA E LITERATURA SE ABRAÇAM: A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NA ARTE LITERÁRIA



PARTE V – CONCLUSÃO
Emanuela Mélo de Souza
emasouza@hotmail.com


Estamos conscientes das limitações de nossa reflexão na busca de estabelecer um diálogo entre Teologia e Literatura. Trata-se de um estudo incipiente, simples. Apesar de se tratar de um trabalho elementar, podemos intuir que é possível relacionar Literatura com Teologia. A Literatura pode interessar à Teologia e vice-versa.

Nas três obras que analisamos, sem o rigor da crítica literária e sem a penetração teológica requerida, os três autores contemplados tematizam, cada um conforme seu estilo, Deus, o ser humano e suas relações religiosas.

Fizemos uma leitura teológica da composição de Luiz Carlos da Vila, que não tendo absolutamente a pretensão de fazer teologia, fala do sonho do Mestre, que é a realização do Reino aqui e agora, neste “dia de graça”.

Percebemos que a obra de Adélia Prado é portadora de uma reflexão teológica, pois, com certeza, já em seus primeiros contatos com o Evangelho, na adolescência, não era um mero deslumbramento estético que a invadia, mas uma vocação mística. Em seus escritos nos quais sempre está presente o cotidiano, a autora nos comunica, por meio da beleza das palavras, uma energia espiritual, uma sede de infinito e de permanência. E o Ser que assegura a permanência das coisas ela chama Deus.

O hino Ó Luz gozosa é um louvor ao Verbo de Deus, Jesus Cristo. Neste hino vespertino, o autor anônimo decanta a Luz gozosa, Jesus Cristo, o Filho de Deus. A Teologia contida no hino é explícita e vem revestida dos recursos literários, da beleza da forma, da estética. Identificamos este hino litúrgico como uma valiosa obra teológica e literária da Lírica Grega dos primórdios do cristianismo, que atravessou os séculos e permanece atual pela riqueza de conteúdo e forma.

A Literatura revela e desvela o Transcendente. Na busca da estética, o Sagrado se manifesta. A Literatura possui, como dizíamos no início, “poder teológico”: só a arte e o texto literário têm a capacidade de levar o ser humano o mais fundo possível em seu anelo indizível de plenitude, de respostas às suas indagações, justamente no mais íntimo de si mesmo. A Literatura se caracteriza pela beleza, que a faz harmoniosa, proporcional, ordenada. O desejo de Deus, seja consciente ou não, está inscrito no coração humano. O homem e a mulher não cessam de buscar a Deus, por diferentes caminhos, de diversos modos, inclusive, às vezes, de maneira equivocada. Esta sede de Deus, muitas vezes inconsciente, é também a sede do Transcendente, da Verdade, do Bem e do Belo. Temos saudade de nossa beleza primeira, puro reflexo da beleza de Deus. A Literatura, o passeio por ela pode ajudar o ser humano a vislumbrar a Beleza Suprema, o Sagrado, Deus. Portanto, é pertinente falar-se da Literatura na elaboração da reflexão teológica sobre Deus, é pertinente estabelecerem-se relações entre Literatura e Teologia. E é no terreno antropológico que está o maior interesse da teologia pela Literatura.

BIBLIOGRAFIA


CANALLE, Cecília. Inspiração divina e inteligência humana na obra de Adélia Prado: um estudo sobre sua obra recente. Disponível em: . Acesso em: 18 set.2010.
GELINEAU, Joseph. “Liturgie poétique. Poétique liturgique, in Maison Dieu, 150, 1982, p. 7-21.
MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura: reflexão a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994.
MOURÃO, José Augusto. Literatura e Teologia em Adélia Prado. Disponível em: . Acesso em: 27 set.2010.
PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.
_____________ Oráculos de Maio. São Paulo: Siciliano, 1999.
RAMOS, Félix. Himnos a Cristo en la lírica griega primitiva. Phase, Barcelona, v.221, sept./oct. 1997, p.385-396.
SCHÖKEL, Luis Alonso. La parole inspirée. L’ecriture à la lumière du langage e de la littérature; Col. Lectio Divina 64; Cerf: Paris, 1971.


Obs: Imagem enviada pela autora.
Abraço – Escultura de Ceschiatti (Museu de Arte da Pampulha-BH
Foto de Claudio Costa com solicitação de autorização concedida.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

TEOLOGIA E LITERATURA SE ABRAÇAM: A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NA ARTE LITERÁRIA



PARTE IV – TRAÇOS TEOLÓGICOS EM TEXTOS POÉTICOS:
HINO A CRISTO NA LÍRICA GREGA PRIMITIVA
Ir.Emanuela Mélo de Souza
emasouza@hotmail.com


Luiz Carlos da Vila e Adélia Prado são nossos contemporâneos: nasceram no século XX. Voltamos, agora, no tempo, cerca de dezoito séculos, e encontramos no tesouro da tradição, uma pérola rara, um hino pertencente à era paleocristã, o Ó Luz gozosa.

Todos os povos celebraram suas façanhas nacionais com poesias e cantos. Também o Povo de Deus, desde o princípio, quis recordar a obra salvífica com hinos, como o cântico de Moisés após a libertação do Egito (Ex 15, 1-18). E, no Segundo Testamento, encontramos o Magnificat (Lc 1,46-55), o Benedictus (Lc 1,68-79), o Nunc dimittis (Lc 2, 29-32) e outros dos quais nos fala Paulo (Ef 5,18). Todos cantam a redenção.

Estes cantos cristãos não usam nenhum cânon métrico regular, mas estão escritos numa linguagem solene e de exaltação, conservam o paralelismo de seus membros e são influenciados pela literatura helênica. Eram com frequência cantados, embora continuem na forma de prosa.

No século II, porém, começam a surgir da espontaneidade criadora e da fé entusiasta das assembléias cristãs, formas peculiares de oração como as aclamações, as doxologias e os hinos métricos de caráter cristológico e litúrgico. Tais hinos são mais abundantes no mundo gnóstico que no católico, pois neste houve algumas restrições.

O mais famoso dos hinos é Ó Luz gozosa!(= Φος ιλαρον), que ainda subsiste no Ofício Vespertino da liturgia dos pressantificados da Igreja Grega. Estima-se que este hino seja do século III, mas não se pode precisar com exatidão a sua data. O autor é desconhecido, mas deve ter sido um insigne liturgo. Seu nome o conhece Deus; o mundo o ignora. É bom que o hino seja anônimo. Assim, pertence a todos porque é da Igreja.

O hino Ó Luz gozosa é uma apóstrofe doxológica ao Logos de Deus em perspectiva trinitária; confessa e reconhece a preexistência e a proexistência do Verbo de Deus, Jesus Cristo. A Ele se referem as duas palavras do monograma que se vê sobre as portas de alguns templos gnósticos: Luz e Vida.

Ó Luz gozosa!

1. Luz gozosa da santa glória
do Pai imortal,
celestial, santo: feliz
Jesus Cristo.
2. Vindo o ocaso do sol,
vendo a luz da tarde,
cantamos ao Pai e ao Filho
e ao Santo Espírito de Deus.
3. És digno em todos os tempos
de ser louvado por santas vozes,
Filho de Deus, que nos deste a vida,
pelo qual todo o mundo faz festa.

O hino é litúrgico e foi composto para ser cantado, não por um solista, mas por uma comunidade, e é quase certo que era acompanhado por instrumentos; provavelmente o alaúde, a lira e a harpa.

O autor entra na assembléia e com ela canta, usando a primeira pessoa do plural. O poema consta de três estrofes de quatro versos, escritos em prosa grega, sem métrica. A primeira estrofe abre, e a terceira encerra um círculo que abraça a segunda (A-B-A), forma literária de origem pressocrática. As três entoam o hino litúrgico de louvor vespertino.

A primeira estrofe decanta uma cristologia preexistente, eclesial e gloriosa. As três grandes palavras: Luz, Pai e Jesus Cristo estão postas em relevo por sua colocação destacada: princípio, meio e fim da estrofe. Proclamam bem alto que Jesus Cristo é a Luz do Pai. Sugerem o “Eu sou a Luz” do quarto evangelho como fonte inspiração (Jo 8,12)... Os adjetivos (gozosa, santa, imortal, celestial, santo, feliz) todos tomados do Segundo Testamento, expressam solenidade e exaltação, emoção e alegria. Toda a estrofe é uma vibrante apóstrofe da comunidade a Jesus Cristo, que recebe a oração, o canto, o louvor.

A segunda estrofe sustém uma doxologia trinitária, litúrgica e eclesial. A assembléia confessa sua fé na Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. O poeta cristão dá impressão de que a comunidade sabe que a luz do sol que se põe cede lugar à luz radiante e gozosa do verdadeiro Sol, que é o Filho de Deus, Jesus Cristo. Nesta estrofe se desenham a paz, a serenidade e a quietude das Três Pessoas Divinas, em contraste com a emoção, movimento e júbilo da assembléia, refletidos na estrofe anterior.

A terceira estrofe desenvolve uma cristologia proexistente, passiológica e eucarística. A comunidade cristã alcança o objetivo de sua reunião: cantar ao Filho de Deus seu cântico inspirado, pois Cristo merece que sempre lhe seja feita menção.

O Filho de Deus sendo proexistente, “é para os outros”: dá-nos sua vida, no-la deu na cruz e continua no-la dando na eucaristia.

A hipérbole do último verso é compreensível pelo ambiente de fé exultante que vive a comunidade. O poeta vê o universo em festa, crê na bondade da criação contra a doutrina dos gnósticos e proclama a cristificação do universo.

Em todo o hino, o poeta cristão reflete equilíbrio, moderação e paridade de termos: nomeia a Deus, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Mas, sobretudo ressalta o nome de Jesus ante nossos olhos que o vêem como o Pantocrátor dos ícones.

Todos estes recursos teológicos e literários fazem que este hino seja uma jóia da Lírica Grega dos primeiros séculos do cristianismo.

Eis a adaptação deste texto do século III, feita por Reginaldo Veloso:

Luz radiante

Refrão: Luz radiante, luz de alegria,
//: luz da glória, Cristo Jesus! ://
1. És do Pai imortal e feliz
o clarão que em tudo reluz!
2. Quando o sol vai chegando ao ocaso
avistamos da noite a luz!
3. Nós cantamos o Pai e o Filho
e o Divino que nos conduz!
4. Tu mereces o canto mais puro,
ó Senhor, da vida és a luz!
5. Tua Glória, ó Filho de Deus,
o universo todo seduz!
6. Cante o céu, cante a terra e os mares
a vitória, a glória da cruz!

O Ó Luz gozosa ganhou esta feliz adaptação, que é usada nas celebrações da luz ou lucernário. Obviamente, não é uma tradução literal do antigo hino, mas conserva o sentido do mesmo. No centro do louvor está o Cristo, a luz que não tem ocaso, a luz que nos arranca das trevas da morte. O refrão reforça essa centralidade pascal. A melodia é bastante simples, porém, graciosa e bela. Este hino é apropriado para os ofícios de Vigília do domingo, no Tempo Comum.


Obs: Imagem enviada pela autora.
Abraço – Escultura de Ceschiatti (Museu de Arte da Pampulha-BH
Foto de Claudio Costa com solicitação de autorização concedida.


A PARTE V – Conclusão - será postada no próximo dia 07 de dezembro.

domingo, 21 de novembro de 2010

TEOLOGIA E LITERATURA SE ABRAÇAM: A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NA ARTE LITERÁRIA



PARTE III – TRAÇOS TEOLÓGICOS EM TEXTOS POÉTICOS: LITERATURA E TEOLOGIA EM ADÉLIA PRADO
Ir.Emanuela Mélo de Souza
emasouza@hotmail.com


Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis – MG, a 13 de dezembro de 1935. Leva uma vida pacata naquela cidade do interior mineiro. Em 1958, casa-se com José Assunção de Freitas. Dessa união nasceram cinco filhos. Antes do nascimento da última filha (1966), a escritora e o marido iniciam o curso de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis. Em 1973, envia carta e originais de seus novos poemas a Affonso Romano de Sant’Anna, que os submete à apreciação de Carlos Drummond de Andrade. Em 1976, é publicado o seu primeiro livro, Bagagem, cujos originais são enviados à Editora Imago por Drummond, que considera “fenomenais” os poemas de Adélia Prado.

Hoje, a escritora possui um grande número de obras publicadas individualmente e em parceria; produz poesia e prosa, o que dificulta a seleção de um só texto para analisar literariamente.

O escopo de nosso trabalho, como já dissemos, é buscar uma aproximação entre Teologia e Literatura, e entre Literatura e Teologia, por meio de exemplos concretos, de textos de autores variados. É óbvia a diferença entre a obra de Adélia Prado e as composições de Carlos Luiz da Vila. A escritora tem outra origem, outra formação, outras convicções. “Adélia Prado não faz teologia, mas literatura, na arte de embaralhar o divino e o humano”. Sua obra pode ser percebida como portadora de uma reflexão teológica. Luiz Carlos da Vila não pretendeu fazer teologia, mas em sua composição “Por um dia de graça”, com certeza, ele ajudou a teologia a se expressar.

Voltamos a Adélia Prado, citando José Augusto Mourão. Eis como ele percebe o vínculo existente entre a obra da escritora com a religião católica e com a teologia: o terreno a partir do qual Adélia escreve não são as crenças, mas o íntimo, a experiência, a íntima convicção de que Deus é justo, por exemplo, o que escapa a catecismos, a silogismos e à própria teologia. Se há uma “teologia poética” que atravessa a sua obra, essa teologia é feita do casamento da carne e da palavra.

Consideramos que o texto que segue ilustre bem a afirmação do professor José Augusto Mourão, acima citado:


Domus

Com seus olhos estáticos na cumeeira
a casa olha o homem.
A intervalos
lhe estremecem os ouvidos,
de paredes sensíveis,
discernentes:
agora é amor,
agora é injúria,
punhos contra a parede,
pânico.
Comove Deus
a casa que o homem faz para morar,
Deus que também tem olhos
na cumeeira do mundo.
Pede piedade a casa por seu dono
e suas fantasias de felicidade.
Sofre a que parece impassível.
É viva a casa e fala.

As circunstâncias são fator essencial da vida, não um fator secundário. A circunstância é o lugar onde o humano e o transcendente se encontram. Se o transcendente “se encarna”, mora, pousa nas coisas, então a matéria-prima da arte, porque da vida, é o cotidiano na sua circunstância mais prosaica, ou como Adélia mesma define como sendo a única matéria da poesia: “essa vidinha besta”. É o cotidiano que se abre ao divino.

Adélia não se desterrou do mundo, não se refugiou numa clausura, como o fazem as seitas ou a gnose: o real é o seu assento. A justiça é a sua divisa. O Deus a que fala Adélia não é de fato o deus pagão, onipresente nas forças da natureza, mas o Deus onissensível, que comparece na carne do mundo e do nosso horizonte de expectativa. Adélia não atraiçoa a carne para falar de Deus: a sua fidelidade é encarnada, não é feita de princípios e categorias.

Como diz Cecília Canalle, observação e circunstância são dois alicerces da poética de Adélia Prado, seu material, seu tijolo. A circunstância é o cruzamento do momento e do espaço precisos em que a vida acontece. A escritora se depara com a circunstância e a contempla. Essa experiência de estupor gera outra necessidade completamente humana: a busca das razões, ou seja, compreender aquilo que vê. As coisas do cotidiano, o tempo que flui são marcas da eternidade. Adélia reconhece a eternidade dentro de qualquer aparência; sua obra é a expressão de um conjunto enorme de circunstâncias que a convidam a reconhecer o seu destino.

Possivelmente, uma das características mais significativas e definidoras do ser humano está relacionada à contemplação como de busca de sentido. O ser humano contempla e analisa o que viu. O segundo passo, portanto, da contemplação será o “analisar”, o reconhecer, ou seja, conhecer novamente, agora, extraindo do que vê algo que lhe está além.

Nos poemas que seguem, Adélia Prado retoma um de seus mais frequentes temas: a “ausência de poesia” e consequente súplica para que Deus lhe tire essa aridez: não perceber a conexão entre realidade circundante e transcendência.


Paixão

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra,vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita
caminhando
solta no espaço.


Ausência de poesia

Aquele que me fez me tirou da abastança,
há quarenta dias me oprime do deserto. (...)
Ó Deus de Bilac, Abraão e Jacó,
esta hora cruel não passa?
Me tira desta areia, ó Espírito,
redime estas palavras do seu pó .

Não nos é possível deter-nos em mais escritos de Adélia Prado. Cremos, porém, poder sintetizar o que mais chama a atenção na literatura produzida pela escritora: a dimensão do Transcendente embutida e/ou subentendida em seus textos. Ela trata e retrata as coisas do cotidiano com admiração, entendimento e pureza. Seu olhar único sobre as coisas aparentemente desimportantes do cotidiano revela a perplexidade e encantamento da vida. Sua obra é atemporal, moderna, transformando em lúdico a realidade descrita, fazendo com que os fatos mais corriqueiros ganhem uma densa beleza poética e deixem transparecer a eternidade. O cotidiano é a própria condição da literatura, que na autora, é sempre manifestação religiosa. Adélia Prado não faz teologia, faz literatura. Essa é a sua arte maior: unir o divino e o humano.


Obs: Imagem enviada pela autora.
Abraço – Escultura de Ceschiatti (Museu de Arte da Pampulha-BH
Foto de Claudio Costa com solicitação de autorização concedida.

A PARTE IV será postada no próximo dia 30

domingo, 14 de novembro de 2010

TEOLOGIA E LITERATURA SE ABRAÇAM: A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NA ARTE LITERÁRIA



PARTE II – TRAÇOS TEOLÓGICOS EM TEXTOS POÉTICOS

“POR UM DIA DE GRAÇA” – LUIZ CARLOS DA VILA
Ir.Emanuela Mélo de Souza
emasouza@hotmail.com


Iniciamos com a análise do samba “Por um Dia de Graça”, da autoria de Luiz Carlos Baptista (1949-2008), compositor brasileiro, nascido no bairro carioca de Ramos. Recebeu o nome artístico “da Vila”, a partir de 1977, quando entra para a ala dos compositores da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. Luiz Carlos da Vila ficou conhecido como “Poeta do Samba”. Cantou-se “Por um Dia de Graça”, pelo Brasil inteiro, na campanha das “Diretas já”, e, com certeza, é uma composição que continua sendo lembrada e cantada. Esta canção, que pertence à Música Popular Brasileira possui força significativa, densidade poética e riqueza espiritual. Não é, pois, sem razão, que a encontremos, como também outras canções pertencentes à Música Popular Brasileira, na seleção dos hinos a serem cantados em circunstâncias especiais, no Ofício Divino das Comunidades .

Antes de começar, devemos dizer que a análise que faremos, da composição, na busca de nela encontrar “traços teológicos” ou a dimensão do sagrado, não será, em absoluto, uma crítica literária rigorosa. Estamos conscientes de estar diante de uma expressão artística, que trabalha com a linguagem verbal, uma das manifestações mais heterogêneas quando se fala em cultura ou sociedade.

Por um Dia de Graça


Um dia, meus olhos ainda hão de ver
Na luz do olhar do amanhecer
Sorrir o dia de graça.
Poesias brindando esta manhã feliz,
o mal cortado na raiz
do jeito que o Mestre sonhava.

O não chorar, (ai o não chorar)
E o não sofrer se alastrando,
No céu da vida o amor vibrando,
A paz reinando em santa paz.

Em cada palmo de mão,
Cada palmo de chão,
Sementes de felicidade,
O fim de toda a opressão,
O cantar com emoção
Raiou a liberdade.

Chegou, chegou, ô, ô,
O áureo tempo da justiça,
Ao esplendor de preservar a natureza,
Respeito a todos os artistas.
A porta aberta ao irmão
De qualquer chão, de qualquer raça,
O povo todo em louvação
Por este dia de graça.


O samba “Por um Dia de Graça”, como a maioria dos sambas, teve sua origem no mundo dos subúrbios, nasceu na Vila da Penha (Rio de Janeiro), onde morava Luiz Carlos da Vila. O samba, geralmente, não nasce no Centro, mas nas cercanias da cidade, na periferia. O samba nasce do povo, das classes oprimidas, das bases populares. O samba se origina nas camadas sofridas da sociedade que desejam e esperam dias melhores, que crêem raiará “um Dia de Graça”.

Fixemo-nos no título da composição: “Por um Dia de Graça”. Não conhecemos a vida de Luiz Carlos da Vila: não sabemos a que religião pertencia e se era um fiel praticante. Supomos, porém, que ele não conhecesse a passagem de Lc 4,14-21, que trata do início da pregação de Jesus na sinagoga de Nazaré, o programa de sua atividade, quando ele atualiza o texto de Is 61,1s, - “hoje, esta escritura se realizou para vós” (Lc 4,21) - ao proclamar “um ano de graça da parte do Senhor” (Lc 4,19). E temos certeza de que o compositor não tenha se inspirado neste texto bíblico, que imediatamente me veio à mente, para criar o seu samba.

Voltando à perícope por nós evocada: Lucas destaca a perspectiva do seu texto, falando da proclamação do “ano de graça” (Lc 4,19), ano jubilar a ser celebrado a cada cinquenta anos, no qual “cada um recuperará a sua propriedade” (Lv 25,13). Rompendo com toda injusta desigualdade, o “ano de graça” deveria contribuir para o estabelecimento permanente da fraternidade entre os membros do povo judeu e finalmente da comunhão com Deus.

Luiz Carlos da Vila fala de “um Dia de Graça”, que raiará, crê ele, sorrindo. E o que ele deseja, espera e que crê se concretizará, é assumido não só pela “massa sobrante” da nação brasileira, mas por todos os brasileiros que cantaram esta canção em um dos movimentos de maior participação popular da história do Brasil, a campanha das “Diretas já” (1983-1984). E não só aos brasileiros esta poesia contagia e segue transmitindo uma mensagem: seu alcance é universal e pode ser assumida por pessoas de qualquer parte do planeta.

É belo o modo metafórico como Luiz Carlos da Vila inicia a descrição do suspirado “Dia de Graça” que “seus olhos ainda hão de ver na luz do olhar do amanhecer”. A manhã que surge é presenteada por poesias e o mal é extirpado, desarraigado, como “o Mestre sonhava” e como Ele proclamara na sinagoga de Nazaré. À graça se contrapõe “o mal (des-graça) cortado na raiz”. É Jesus que encaminha a humanidade para uma situação de reconciliação e partilha, que tornam possíveis a igualdade, a fraternidade e a comunhão. É o reinado de Deus, reino de vida, é o sentido último da história humana, cuja presença teve início com a atenção de Jesus pelos esquecidos da História.

E o autor continua desdobrando o sentido do mal (des-graça) que será banido: o chorar e o sofrer não se alastrarão (“Ele vai enxugar toda lágrima de seus olhos” Ap 21,4), pois no céu da vida, vibrará o amor, e a paz reinará. E seguem bem-aventuranças atualizadas, sinais messiânicos poeticamente descritos:

“Em cada palma da mão,
em cada palmo de chão,
sementes de felicidade,
o fim de toda a opressão,
o cantar com emoção
raiou a liberdade”.

“O fim de toda opressão, o cantar com emoção raiou a liberdade”. Sem ter muita consciência, Luiz Carlos da Vila inspira-se no sonho de Jesus, o Reino, que se realiza já na história, começando pelos últimos e sempre onde houver verdade, justiça e amor. O anseio do ser humano é ser feliz, é ser livre. “Raiou a liberdade”: exulta o compositor, retomando o verso do nosso hino da Independência. E não importa sabermos que esta liberdade decantada seja mais utópica que real.

Vale notar que, embora a canção exprima o anseio por uma situação ainda não concretizada, alguns verbos se encontram no tempo passado - “raiou a liberdade, chegou o áureo tempo de justiça”- como se o sonho e o anelo já fossem realidade para todos. E da ciranda do “Dia de graça” são chamadas a participar não só as pessoas “de qualquer chão, de qualquer raça”, mas também a natureza. Há lugar para o cosmos, há sensibilidade ecológica, cuidado com a Terra, nossa Grande Mãe.

E retomamos toda a parte final:

“Chegou, chegou, ô, ô,
O áureo tempo de justiça,
Ao esplendor de preservar a natureza,
Respeito a todos os artistas.
A porta aberta ao irmão
De qual chão, de qualquer raça,
O povo todo em louvação
Por este dia de graça”.


A fraternidade, a irmandade, a ternura com a criação supõem justiça, brotam da justiça. Finalmente, todo o povo é chamado à louvação. As palavras, a poesia, os anelos, os sonhos cedem lugar ao canto de louvor. O autor parece terminar com uma atividade cultual, uma espécie de “cântico novo”, a proclamação da boa notícia da salvação “por este dia de graça”. O autor começa e termina semelhantemente à composição de uma infinidade de textos bíblicos, com uma inclusão: “por este dia de graça”.

Concluindo este breve comentário sobre “Por um Dia de Graça” fica-nos a certeza de que, mesmo sem ser teólogo nem querer discorrer explicitamente sobre a fé, Luiz Carlos da Vila tem algo a dizer sobre o tema do “sagrado” com esta sua composição, na qual se encontram mesclados o humano e o divino. Ousamos afirmar que “Por um dia de graça” contenha mesmo lampejos de Teologia da Libertação, pois esboça, canta e celebra o anelo, a esperança, a utopia da libertação.


Obs: Imagem enviada pela autora.
Abraço – Escultura de Ceschiatti (Museu de Arte da Pampulha-BH
Foto de Claudio Costa com solicitação de autorização concedida.


A PARTE III será postada no próximo dia 23.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

TEOLOGIA E LITERATURA SE ABRAÇAM: A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NA ARTE LITERÁRIA



PARTE I – APROXIMAÇÃO TEOLOGIA-LITERATURA
Ir.Emanuela Mélo de Souza
emasouza@hotmail.com


A Teologia é a ciência da fé. A Literatura é arte: um meio de expressão que busca a comunicação. Não podemos, esquecer, porém, que também a Literatura se configura de modo científico e estruturado. Ambas, Teologia e Literatura, não são ciências exatas, mas ciências abertas, ou seja, passíveis de várias interpretações. O tratado teológico, a verdade de fé permanecem os mesmos, mas a maneira de interpretá-los evolui, muda através dos tempos. O mesmo se diga da Literatura: com certeza, a maneira de interpretá-la não é estática. Teologia e Literatura são produções abertas porque em relação com o mundo real.

Em nossa reflexão, tentaremos ler as obras literárias como expressão de uma busca de sentido que, comumente, se explicita na indagação filosófica, além de se crer respondida nas mais variadas religiões. Entendemos que uma aproximação competente da Literatura, na forma de crítica literária, ajuda ao teólogo (ou ao cientista da religião) numa melhor compreensão de seu objeto de pesquisa, seja a religião, o Sagrado, o Transcendente ou seus termos equivalentes.

Nesse diálogo Literatura-Teologia, distinguiremos três abordagens na mútua relação Teologia-Literatura: 1) a leitura teológica de uma obra literária, que é a maneira como analisaremos o samba Por um dia de graça, de Luiz Carlos da Vila; 2) a percepção do próprio texto literário como portador de uma reflexão teológica, que corresponde ao modo como sentimos a obra de Adélia Prado; 3) e finalmente, a análise poético-teológica do hino Ó Luz gozosa, do século III, pertencente à lírica grega primitiva.


A época em que vivemos reconhece vivamente as múltiplas possibilidades de diálogo interdisciplinar, na busca de aproximação, o mais fidedigna possível, da realidade humana. A Teologia não está isolada, quando, na tentativa de melhor refletir sobre a fé, de maneira rigorosa, científica, inteligível, racional, com seus métodos específicos e suas próprias leis, busca fazê-lo sob vários ângulos, ou seja, valendo-se de outras ciências, utilizando mediações humanas, como a Filosofia, as Ciências Sociais, as Artes e, dentre estas, a Literatura. E no diálogo com essas outras ciências a Teologia não perde a sua identidade.

Por sua vez, do lado da própria Literatura, vem-se construindo uma reflexão que lê a obra de arte como expressão de uma busca de sentido que, comumente, se explicita na indagação filosófica, na busca de uma melhor compreensão da fé e, à sua luz, do homem, do mundo, do universo, da vida.

Aproximar-se de universos diferentes como Teologia e Literatura supõe, antes de mais nada, evitar qualquer redução e confusão entre ambos. A reflexão teológica se situa num horizonte de fé; a obra literária se situa num horizonte artístico. O objetivo da Teologia é a produção do conhecimento de modo científico; a Literatura não visa à produção de conhecimento: a obra literária é gratuita. A Teologia está comprometida com o religioso; o compromisso da Literatura é com a expressão artística, com a beleza, e visa à comunicação entre o emissor (autor), receptor (leitor) e o código (texto). O ponto de intersecção entre Teologia e Literatura é que ambas são aproximações possíveis das reivindicações humanas, das explicações humanas e da condição humana. Sim, tudo o que é humano interessa à literatura e interessa igualmente ao mundo religioso do homem e da mulher. A ligação entre Teologia e Literatura acontece pela mediação da Antropologia, embora o objetivo do autor literário seja fazer literatura, e não desenvolver um tratado antropológico em sua obra.

Talvez pudéssemos falar do “poder teológico da literatura”, a saber, da capacidade que só a arte e o texto literário possuem de nos levar, o mais fundo possível, em nossa ardente busca de completude, de respostas, lá onde o nosso ser habita, ao radical e totalmente diferente, ao “Todo Outro”, a Deus.

A revelação de Deus é sempre mediada pelo humano, o que nos dá a certeza de que estamos diante de uma alteridade. Ora, se a Literatura é uma expressão humana, a revelação pode acontecer por via da Literatura. Assim, o passeio pela Literatura não será supérfluo, mas um desvio necessário para nos encontrarmos com Deus em sua revelação e fazermos a experiência do Deus vivo. A Literatura projeta luz sobre a Teologia: possibilita o ser humano divisar conteúdos até então desconhecidos. Podemos dizer que a Literatura atualiza conteúdos da revelação, oferece significações novas, redescoberta de significados.

Não podíamos deixar de mencionar a importância literária de textos poéticos escritos por místicos cristãos, como São João da Cruz ou Santa Teresa de Ávila, e do valor literário dos textos de oradores sacros, como Padre Antônio Vieira, nos quais encontramos uma feliz síntese entre experiência mística e qualidade literária dos escritos dela decorrentes.

E o que dizer da Sagrada Escritura como obra literária? Sem dúvida, a Bíblia tem muito a ensinar a quem quer que se interesse por narrativa e outros gêneros literários. A Bíblia merece, sem dúvida alguma, uma apreciação estética. No entanto, os estudos da Bíblia como literatura, precisam ir além da análise das estruturas formais e investir numa compreensão mais profunda dos valores, da perspectiva moral contida num determinado tipo de narrativa. Diríamos que, ler a Bíblia, sempre incomodou os teólogos escolásticos acadêmicos por tirar-lhes o chão conceitual, abalar a precisão das formulações dogmáticas, adverti-los de que fazer teologia não é falar sobre o mistério, mas estar diante dele.

Referimo-nos brevemente à possibilidade da aproximação entre Teologia e Literatura e constatamos que a Literatura possui “poder teológico”, posto que a experiência de fé não se faça independentemente das outras experiências humanas e da cultura, mas aconteça sempre em um contexto determinado. É verdade que a Literatura fala do imaginário, mas o faz partindo do real vivido, da experiência. A Teologia utiliza a Literatura para aproximar-se do real vivido, como uma forma de dialogar com o ser humano e as culturas .

A seguir, tentaremos fazer uma leitura teológica de um texto literário cujo autor, Luiz Carlos da Vila, não tendo a pretensão de fazer teologia, toca a dimensão da fé, remete a Deus porque fala da existência humana, da vida. A obra literária de Adélia Prado, que analisaremos rapidamente é portadora de uma reflexão teológica. E o hino litúrgico, Ó luz gozosa, que também será objeto de nossa análise, é uma obra poético-teológica.


Obs: Imagem enviada pela autora.
Abraço – Escultura de Ceschiatti (Museu de Arte da Pampulha-BH
Foto de Claudio Costa com solicitação de autorização concedida.

As referências bibliográficas serão postadas na parte final.

A PARTE II será postada no próximo dia 16.