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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

CONTEMPLAÇÃO

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Um passo ao longe,
na tarde envolvida num frio abissal.
Acompanha a folha seca levada
pelo vento para além do monte.
Um pássaro rasga o silêncio reinante,
Outros passos repetem-se
E se distanciam sobre as pedras do caminho.
Miséria não se vê sob os bancos desnudos,
Desprezados por viventes escondidos
Em pesados abrigos bem-feitos.
O que fica é a visão perfeita,
Que investiga, sem arrependimento,
a quietude apática, que afugenta
a caminhada dos passantes,
aclimatados para o frio intenso,
estrangulando a voz presa,
Que se queda, em viva tristeza,
Para à tarde que se esvai insensível.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

AVISO DIVERSO

Malu Nogueira


          Fugiu na noite do dia de ontem, para o dia de hoje, do corrente mês e ano, quando a lua estava cheia e iluminava a noite, nessa terra sertaneja, onde o perigo não espreita e nem existe vampiros e sanguessugas, um homem de pele morena clara, medindo mais de metro e vários centímetros de altura, de idade indefinida, olhos paqueradores, sorriso irresistível, cabelo curto, corpo sarado, pés finos e compridos, sem barba, mas com um vasto bigode grisalho. Vestia camisa verde de listras cinza, calça de micro-fibra marrom claro, sapatos na mesma cor, sem cadarços, um cinto também marrom, uma caneta no bolso da camisa.
          Dizem que levou uma pasta verde, de lona, nas mãos e uma provável trouxa de roupa, dado o seu cuidado em andar sempre muito bem arrumado e perfumado.
          Pode-se conhecer melhor por ser moreno, cor de jambo, com todos os dentes, exceto um que perdeu quando adolescente. Também na mão esquerda leva uma aliança do seu casamento; no pulso, um relógio prateado; no pescoço, um trancelim de ouro 750, com medalhas dos seus santos de devoção, um rosário do senhor Padim Ciço e uma pedra para afastar o mal olhado. Na barriga, uma grande cicatriz. Na perna direita, outra cicatriz, de provável briga de rua.
          Quem o pegar, leve direto a sua residência, na rua da família dele, situada em local acessível e de fácil entrada, que será recompensado, generosamente, pela sua desesperada companheira, que o aguarda ansiosamente.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

CANTAR AO ENTARDECER

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Cansei de ouvir mentiras
De viver numa intranqüilidade emocional,
Sob o manto do amor cigarra,
Que canta todo entardecer,
Sem compromisso particular
Ou, como o assum preto,
Que cego de amor não sabe para quem canta
Vem, amor, como o vim vim,
Que feliz canta para seu amor
Num ritmo melodioso
Que balança estrelas
No abandono da entrega sincera da força motriz
Que engata na marcha da paixão
Seguida da primeira, de força e respeito
Numa segunda, levada com encanto
E a terceira, constante e acelerada, é amor,
Só para dois, sem o pecado da leviandade,
Colado na fidelidade das folhas que correm no regato
Das águas de mentes límpidas,
Que doidamente seguem
Na direção do canto das cigarras
Que celebram o amor ventura
No bramido ensurdecedor da paixão
Consumida sob a luz do luar
No afago das mãos que se reconhecem,
Na mistura incondicional dos corpos
De almas que se entendem no cantar das cigarras.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A NOITE

Malu Nogueira


          A noite chegou encobrindo a luz do dia dando passagem à brisa suave e ao brilho das estrelas que, cintilantes, caminham mudando de lugar, como que para atender a tantos desejos a elas feitos na terra.
          Fico a olhar, sentindo o silêncio sepulcral que cerca todo o lugar.
         Nada parece perturbar tanta placidez. Nada se mexe, o céu lindo, claro, cheio de estrelas e um fio da lua que, lá no canto parecendo um balanço suspenso no ar, à espera de uma ninfa para ir de um lado para o outro, embalando os sonhos de quem está a sonhar sem dormir.
          Sonhando com um mundo sem corrupção, mentiras, diferenças sociais, iniqüidades e injustiças.
          Neste sonho, a esperança permeia em todos os momentos, não se afasta, por exemplo, de quando sonha com relações constituídas em bases fraternais, sem mentiras e onde a esperança caminha junto da certeza de que isto é possível, desde que haja respeito, ética e moral para que se gerem boas relações pessoais.

domingo, 30 de outubro de 2011

NAS RUAS

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Recanto de perdição
Também de amores mil
Revolução de passantes
Balcão de trovadores
Porta sempre aberta
Na procura de encantos,
Nos olhares cegos que se cruzam
Seres que se batem
Bocas que não se falam
Mãos que não se tocam
Dias que nascem
Noites que chegam
Na libertação do espaço
Para outro corpo passar.

domingo, 16 de outubro de 2011

ACORDEI

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Acordei e feliz fui olhar
O tempo pela janela das minhas lembranças
Debrucei-me no parapeito da minha dor
Soerguendo os ombros para ver além das brumas
Que encobriam minha visão
E espantada não vi as montanhas das minhas saudades
Nem o azul celeste agrilhoado de estrelas cintilantes.
Só vi o céu cinzento do hoje
Sumiram os rastros que tanto me assombravam!
Nuvens desceram a terra e se misturaram

As minhas lágrimas que assolaram ao meu rosto
Enrugado de pensamentos caóticos.
Uma multidão de amigos se perdeu atrás
Da cortina das minhas retinas,
E lembranças queridas voltaram a minha mente
E transbordaram o tacho das recordações
Encostando o peso delas
Nos meus ombros alquebrados pelos anos
Que balançam meu corpo sofrido,
Pelo transe da passagem da correnteza da vida
Que não me deixou a margem das ilusões.
O meu tempo infantil foi sepultado
Na gaveta do tumulo das lembranças.
Meu ontem assombrou minha vida vivida
Com léguas de saudades
Percorrida nos vagões da inquietude
Nos tambores da juventude
Distante do ouvido da razão.
Perdida na vida sentida.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ANTES

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Antes de o sol brilhar
O vento me trouxe o teu cheiro
A posse deu-se sem trilha.
Antes que eu soubesse o que era viver
Senti que ti queria inteiro.
Antes que acontecesse
Sem justificativa,
O amanhã me chegou
E senti o sol abrasador na pele
E vi o fogo do amor.
Embriagando minha razão,
Deixando-me cativa
Nenhuma explicação me chega,
É como um raio:
Sinto o sentimento a furar-me.
Que não se compreende,
Sente-se,
Vive-se.
Entrelacei-me nele,
Vinguei-me da solidão
Mostrei-me possuída
Pelo sorriso que entontece meu viver
E não se verga nos obstáculos tangidos pelo tempo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

UMA HISTÓRIA

Malu Nogueira

A trajetória de vida de uma pessoa jamais será igual a de outra, mas toda ela converge para um mesmo objetivo: a melhoria de vida, com consciência. São as nuances que fazem diferentes as histórias de vida de cada individuo. Pois, além de sermos dotados de imagem e semelhança com o Criador, temos a diversidade de pensar e colocarmos as idéias, cristalizada na palavra, como mensageiras invisiveis do pensamento.

A sensação de bem-estar íntimo deve ser maior que qualquer outro sentimento de vaidade pessoal. É necessário, além de tudo, força de vontade, e ter em mente a fé, tal qual a música “andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar” como principal impulso ou meta de vida.

Às vezes, é bem mais fácil reclamar, mas, dificil é viver com liberdade e alegria, sem se envolver com coisas menores.

Não há força que desvie o homem do caminho da verdade, que o faça vestir a couraça da traição, da infidelidade. O fato de ter duas vidas num mesmo corpo monopoliza a mente e constrange a alma vestida no corpo maculado.

Aprender a combater o bom combate, sem o odor da iniquidade, sem a mesquinhez do ódio. Escrever a história de vida sem mentiras, pois já se disse que ”não fosse a mentira, ninguém mais viveria, por não poder ser feliz”. Usando a palavra como “fogo a nos devorar por dentro”, porque a história íntima de cada um é narrada no coração e as palavras nada representam.

O siléncio diz tudo, como nos mostra Macos Túlio Cícero, quando disse que a história “mestra da vida de quem fala”, dai porque se deve imortalizar a história com a verdade da ética, da moral, de exemplo a ser seguido. Para S. Kierkergaard “a vida só pode ser entendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.”

Falar e agir com honestidade conquista qualquer pessoa que, carente da simplicidade de coração, aprova um novo tempo. A verdade está na palavra proferida com dignidade, com motivação para descobrir o eu embutido, apenas com a vontade de ser verdadeiro, valorizando a vida, dando um basta a tibieza, transfornamdo nossa história em um fascinante legado aos nossos descendetes e aos nossoa amigos. Não uma história volátil, frouxa, como a canção, que diz: “tudo passou tão depressa, fiquei sem nada de meu, e esquecendo a promessa, você me esqueceu”.

Pois é, a história sem contéudo, fácil pelo tempo, é tragada. A lembrança que se fica são das falácias e das falsidades, sem abrangência espiritual e moral o caminho é desfeito. A história é apagada, quando seria mais sensato modificar a conduta de vida, vivendo a caridade e poder partilhar: “Caminhai enquanto tendes a luz, para que as trevas não se apoderem de vós: pois quem caminha nas trevas não sabe para onde vai" (Jo 12, 35)

E dizer “viver e não ter vergonha de ser feliz”. Sorrir, levar a vida sem visualizar somente as tempestades no horizonte. É colocar em prática as palavras transcritas no livro da vida, com compreensão, sem que se premedite as quedas do cavalo. É acordar e sentir na pele que estar errado, reinventar-se, colher as rédeas da própria vida, com a verdade universal, transparecida no olhar. E, como disse Sancho Pança, “reviva e desperte e mostre aquela galhardia que costumam ter os cavaleiros andantes”.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

ALEGRIA NO ALMOÇO!


Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Passeio os olhos por sobre a mesa,
Forrada com uma toalha de linho branco, bordado richelie e guardanapos de linho em cada prato,
Expõe uma variedade de comidas.
É um típico almoço domingueiro,
Para uma grande família e seus convidados.
A dona da casa, com carinho, rege a distribuição dos pratos.
Aponta para um que está cheio de arroz mexido, cozido no caldo de galinha,
Noutro canto há uma travessa com galinha de capoeira, temperada com coentro, alho, cebola, pimenta de cheiro, pimentão e cominho.
Alguém arrasta os pés, quer espaço para se servir.
Com satisfação, o patriarca estampa um sorriso
Mostrando que, quem ri por último ri melhor:
Sua querida esposa reservou-lhe os melhores pedaços do capão,
Feijão verde, farofa de cuscuz,
Tem também farofa bolão, carne de sol,
Jerimum cozido, macaxeira, charque.
Comida para um batalhão de pessoas!
Uma garota estende a mão, pede um cantinho para colocar seu prato,
Quer sentar-se para comer, degustando com prazer a comida servida pela dona de casa.
Lá no fundo, copos são cheios com ponche de laranja,
Abre-se espaço para servir o peru guisado que estava esquecido em cima do fogão de lenha,
Vê-se alguém enrolado num pedaço de bode,
Tem buchada, pirão de farinha.
Uma cumbuca está o molho de pimenta malagueta.
Um cheiro gostoso sobe e deixa o ar impregnado de uma mistura agridoce,
Hora da sobremesa, que não poderia ser melhor,
Mel de engenho, doce de mamão, com rapadura, cocada de coco,
E mais ponche de laranja. Agora tem suco de graviola, o predileto da dona da vovó.
Os donos da casa passeiam os olhos pela sala.
Todos foram servidos.
Eles podem sentar-se à mesa, ele a cabeceira, ela ao seu lado esquerdo,
Vão almoçar e sentir a mesma satisfação que seus convidados sentiram,
Só que maior, pois deram a eles a ceia partilha,
No amor conjugal, na alegria fraternal de um almoço feliz.




segunda-feira, 22 de agosto de 2011

DEIXA



Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Deixa para trás o que te fez sofrer
Os sonhos que não vieram,
O abrigo que desmoronou.
Deixa de jogar fora o tempo,
No vento que passa,
Na travessura desfeita.
Deixa a vida surgir,
No dia que nasce,
Na luz que entra pela janela.
Deixa a flor se abrir na manhã
Para ser acarinhada pela abelha feliz.
Deixa entrar nos teus ouvidos
O som da gaivota, o berrar do cabrito,
Para amaciar o teu sorriso
E fazer o teu hoje desligar
Na planície encantada das lembranças,
Arrebatadas na calçada das ilusões.
Deixa vir o beijo
Que tua boca quer.
Deixa vir o medo no presságio da dor
Para eu te dar o abraço do meu coração.
Deixa!

domingo, 7 de agosto de 2011

TATUADA

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Meu avesso é você,
O reverso também.
Na contramão tem você,
Na mão também.
No contraditório tem você.
Na afirmativa também.
No exílio deu você.
Na bonança também.
Na morte quero você,
Na carne primaveril também.
Nos sonhos tenho você,
Ao acordar também.
Nas estrelas catei você,
Nos seus olhos também.
Em pensamentos tenho você,
Na realidade também.
As lágrimas derramadas.
Partilhei-as com você,
As alegrias também.
No desespero tive você.
No enlevo também.
No ontem tive você,
No presente também
E no futuro aguardado
Quero estar com você.

domingo, 24 de julho de 2011

DIA DO AMIGO

Malu Nogueira


      É gostoso saber que contamos com alguém em quem podemos confiar, expor nossos problemas, nossas alegrias.

     Numa sociedade, como a atual, marcada pelo consumismo e individualismo, cada vez mais corrompida, em que a família não é mais a célula principal, porém a prevalência é a casta social, a ética não tem lugar e a indiferença e o desamor acompanham, com naturalidade, essas relações interpessoais, devemos fazer amigos sinceros, refletir sobre a necessidade de criar bons relacionamentos, que nos ajudem a espantar a solidão e termos uma qualidade de vida melhor.

    Para mantê-los, precisamos ter sempre uma palavra preciosa, pois assim, multiplicá-lo-emos, além de acalmar os inimigos.

   Ser seletivo nas amizades: conhecer mil, mas só a um aconselhar-se. Não ser tão crédulo nas amizades recentes. Melhor fazer amigos nas tribulações, não quando estiver na opulência, pois essas amizades podem não ser totalmente desprovidas de interesses.

   Para aqueles que têm amigos sinceros e leais, curtam o Dia do Amigo com alegria, espontaneidade e crença na raça humana.

domingo, 10 de julho de 2011

SORRISO

Malu Nogueira


          O que nos atrai, em primeiro lugar, quando olhamos um rosto é o sorriso. Ele é a porta de entrada para uma conversa, um bate papo, um namoro, uma conquista descompromissada, um amor casual.
          Também nos deparamos com aquele tipo de sorriso que não se mostra aberto: às vezes, cortês, noutras, frio e indiferente. Às vezes não há sorriso. Admiravelmente as pessoas se mantêm sérias, dando a impressão de que, se sorrissem, mostrar-se-iam pessoas de pouco siso.
          Quem dá um sorriso sincero, põe a alma na boca e nos transmite fluidos de paz e amizade. Esse tipo de sorriso está escasseando, parece mercadoria em extinção. Isso porque os interesses pessoais sobrepujam sentimentos de sinceridade e cordialidade.
          Devemos ser gentis e cordiais quando esboçarmos nosso sorriso, para que não fiquemos sozinhos e tardiamente, reconheçamos que não fizemos amigos por falta de um sorriso.
          No sorriso silêncio - aquele que esconde, mas mostra cumplicidade - a alma se desvenda e não disfarça a essência desnudada num sorriso de mil cores. Porém, atônitos, vemos que o individualismo ganha adeptos na sociedade contemporânea.
          Precisamos rever nosso sorriso que se encontra estampado nos rostos de crianças inocentes a nos sorrirem em casa, nas praças, nas ruas. Elas sorriem com a alma, com a inocência, expandindo felicidade e flechas certeiras nos corações de adultos empedernidos.
          Devemos voltar a ser como essas crianças, que indiferentes a quem as olha, sorriem de orelha a orelha e não se envergonham desses sorrisos. Podem dizer que são pessoas de pouco siso; porém quem se importa?
          Quanto aos sorrisos que não saem, essas pessoas deveriam respirar fundo e pensar nas coisas belas da vida, no esplendor dela que desabrocha numa mulher de ventre avantajado, num botão de rosa viçosa e perfumada e ver que vale a pena sorrir para a vida.

domingo, 26 de junho de 2011

RUSTICIDADE ADOCICADA

Malu Nogueira


Pai Véi era o único que tinha relógio. Bonito, de algibeira, ele não deixava ninguém tocar. Assim, sem ser questionado, acordava em torno de uma da manhã, dizendo a todos que o dia já ia raiar e que o engenho precisava moer a cana, para fazer rapadura, mel, alfenim e batida.

A casa grande, com alpendre, ladeada por duas majestosas árvores, parecia que nunca fechava as portas, tal o entra e sai de gente.

Os trabalhadores, sem noção do tempo, levantavam-se, muitos ainda cansados do trabalho estafante que praticamente tinham acabado de encerrar, iam para o batente. Os olhos queimando de sono, mas o velho tinha dito que o dia estava raiando, então eles iam ao trabalho, se bem, que estranhassem ver o fifo aceso. Se o dia estava raiando, como explicar o fifo queimando o querosene e clareando o engenho para que eles colocassem os bois para moer cana? Negócio estranho esse, que um dia eles iam entender.

Zé Preto ficou a matutar: A cana escolhida tinha que ser fita, branca e preta, canibatora, ou piojota cortada pelas 4 horas da manhã, lá no sítio Antonico, do outro lado do Riacho dos Poços.Muitas vezes, achava que aquela hora não estava. Pelo seu relógio mental devia ser meia noite.

Os carros de bois transportavam a cana para o engenho.Zé Preto ficava a ouvir o chiado gemedor do atrito do eixo com o cocão num nhem nhem sem fim, quando os burros não faziam esse trajeto. Um dia, Pai Véi vai explicar essa matemática das horas tão compridas.

Os bois, Calunga e Mimoso puxavam o engenho presos à almanjarra pela guia (de corda), entrelaçando-os entre si na ligação das cangas, que os orienta para que circulem na direção certa.

Tem três moendas: a cana moída escorre em forma de liquido, o caldo cai no cocho e é levado para um grande tacho, que está sobre o fogo. São três grandes tachos: o primeiro recebe o caldo da cana, quando é colocada a água de cinza e a cal, para a limpeza do produto; o segundo recebe garapa limpa, o terceiro recebe o mel purificado e desidratado. Quando já está no ponto de rapadura vai para o tacho de cobre. Os outros são de zinco.

Para transportar o conteúdo de um tacho para outro, usa-se a passadeira, que é uma cuia de cabaça presa numa vara, de no mínimo três metros de comprimento.

No tacho de cobre, o mel fica borbulhando. Quando evaporar toda a água, as bolhas ficarem grossas e amarelas, em ponto de mel, é hora de jogá-lo na gamela.

Uma grande pá de madeira é usada para mexer o mel e dar o ponto de rapadura, que será colocada nas formas, constituídas de nove cavidades. A rapadura perfeita, sem artifícios ou acréscimos extras, torna-se a principal sobremesa dos sertanejos. A substituta da carne no prato que só tem feijão e farinha.

A rapadura, depois de batida, é encaixada nas formas molhadas e com as palhetas ela é cortada, ganhando a forma de característica. É a têmpera de rapadura, a porção que não pode passar do ponto, para não virar farofa. É um trabalho artesanal, feito com dedicação e muito cuidado, para evitar acidentes.

No controle de cada espaço do engenho têm-se:

O mestre, com a função mais importante, que é dá o ponto para batida, mel e radura;

O foguista cuida da fornalha, que não pode colocar muito fogo, segundo a orientação do mestre. Ele utiliza o bagaço de cana e madeira.

O tangerino que conduz os bois nos círculos, para que o engenho seja movimentado.

O bagaceiro retira o bagaço de cana e espalha-o para secar, para ser usado pelo foguista.

O meseiro, pessoa encarregada de colocar a cana para ser moída, utiliza uma mesa para colocar a cana que vai para a moenda.

O traçador, quando a cana chega do baixio, com folhas, as limpa e corta-lhe a bandeira.

Os carreiros conduzem as canas do baixio para o engenho, em carro de bois.

O encaixador que mexe a rapadura e a enforma.

E o cambiteiro transporta a cana do baixio para o engenho em mulas.

No baixio, os homens utilizam o facão rabo de galo, com lâmina grande, que corta mais pelo tamanho com um único impulso. Faz-se, com ele, mais corte de cana que com a foice.

E assim, o engenho, reduto de tantos, torna-se abrigo seguro para Zé Branco, Zé Preto, Chico Macaco, Mané Grama, Zé Bonito, Zé Tolete, e outros mais.

Da chaminé fumarenta do engenho, vista por toda a cidade, quando moía, nos meses da colheita, resta hoje, seu esqueleto. A prova inequívoca de que quando o dono adormece o tempo pára, a casa fica sem telhado, tudo se cala e o repouso dessas lembranças fica na mente dos seus descendentes, na memória dos herdeiros. O castelo encantado, sem seu guardião principal. Somente a recordação deixada nos escombros do velho engenho do alto da Boa Vista.

domingo, 12 de junho de 2011

DÍVIDA DE MECA

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


No olhar compenetrado, o enigma não se revela.
Na contemplação singular do peixe capitulado
As gotas da chuva se confundem com as lágrimas
Que descem rosto abaixo
E se perdem na água que escorre e some para o rio.
Na cova da santa, o rosto compungido
Retrata a verdade dos segredos escondidos
Na selva de pedra que não respeita
Sentimentos nem fraternidade.
Então indago:
Meca, vens cá!
Estais com medo?
E Meca nem olhou para quem o chamava.
Correu até onde suas pernas agüentaram.
Furou o mundo e não olhou para trás.
Não quis saber de quem fincava raízes,
Nem de quem escondia a verdade,
Meca optara em sepultar suas lembranças,
Mas, numa das giradas da vida,
Girou sobre si mesmo, recolhendo sua tristeza,
No pensamento, o lugar da sua meninice,
Aonde seu coração chegou a ouvir uma voz que lhe chamava,
Como a lamentar a solidão das ruas que outrora pisara
Um vento frio arrepia sua pele,
Lágrimas confundirem-se com a chuva
Que molha seu coração,
Lava sua alma,
Resgata sua história,
De contos de ninar, de chupeta e carrapeta,
Da palmada da mãe, do irmão travesso,
Içar suas próprias emoções,
Inventadas na solidão da sua mente,
Que tentou soterrar o tempo,
Guardião de sua estirpe sertaneja
De terra barrenta e preás,
De cana de açúcar e acácias de cheiro
De Jerimum, coentro e feijão de corda,
De cedro e manjericão
Dos recantos de sua vida,
Vividos na coruja vigilante
De corisco e Aparício,
De Siqueira e Virgínio,
De Lopes e sua gente,
De tudo que vem de Meca,
Filho de Deus!

domingo, 15 de maio de 2011

SEM VÉU

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Garranchos abrem passagem
Para as folhas verdejantes que surgem
Lacraias, formigas e tanajuras
Mostram-se em alvoroço,
Contemplam em alegria
A chuva fina que chega
Alagando o seio da mata
No ritmo que molha e semeia
Voam juritis e andorinhas
Numa revoada festiva
Pairam acima do aveloz
Giram suas asas molhadas
Sob as águas barrentas do rio
Que num instante veloz
Enche o leito de baronesas
Dádiva almejada
Por caboclos e ribeirinhos
Muge bois, abrem-se os girassóis
Favos de mel escorrem
Dos bicos de xexéus de bananeira
O vento vem com o cheiro de flores de laranjeira
Vibram nas horas ancoradas
Nos raios e trovoadas
Surgidas no horizonte
Das terras, dos campos,
Do verde santo da floresta.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

AMOR NA TRILHA

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Asneira querer um amor assim,
Que se encanta por nuvens furtivas,
Que falseia seus passos em festim
E fustiga sem piedade, em alcovas festivas,
Amor ingrato esse, que se acelera em fantasia,
Na vontade que marca e volta,
Nas travas que balançam a cada borboleta,
Ah, essa partilha me revolta
Na tarde primaveril
Embota o sebo pensante
Onde só fica a carne pulsante
Inerte a dor pueril
Que rompe minha alegria
E agiganta a solidão estendida na minh’alma.
Retiro esse perfume que não me acalma.
Por que me alucina esse amor dissoluto?
Volta.
Entra.
Beija-me nesse querer bruto.

segunda-feira, 21 de março de 2011

REGRESSÃO


Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Compulsando os autos de minha vida
Percebi nas primeiras páginas
Que nasci na repressão
Engatinhei entre tanques e cacetetes
Uma mordaça privou a minha voz
Meus olhos foram vedados,
Meus ouvidos tampados
Para que não decifrassem os sons que vinham do exterior
Cravaram uma bigorna na minha alma
Tentaram embotar minha razão,
Porém um vento suave
Ventilou-me liberdade, que veio
No pensamento anarquista dos hippies
Balancei-me ao som da bossa nova
Nos assustados de noites enluaradas
Nas indiretas que vivi
Superei com diretas já
Recebi com alegria os exilados sobreviventes
Nos caracóis dos meus cabelos
Cantei minha vida
Na procedência de minhas ações
Que resultaram na pessoa que hoje sou
Lúcida no agir
Feliz com o hoje que desfruto,
Sem mordaça, nem açoites.
Só respirando liberdade.

domingo, 6 de março de 2011

PARA SER FELIZ

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Deve-se ser perseverante para obter a vitória,
Manter a dignidade, sem ofensa de suas convicções.
Ter felicidade n’alma para dar felicidade ao outro,
Acordar com amor no coração e passar isto para seu amor
Ter respeito e fidelidade na caminhada conjunta
Cultivar detalhes do amor partilhado
Manter a individualidade sem agressão ao outro
Ter forças para repelir as tentações
Cultuar no coração o amor sacramentado que eleva e equilibra o espírito
Conquistar dia após dia, o amor verdade, dádiva humana,
Sorrir para seu amor, em todos os momentos,
Conquistar seu amor, com pequenos gestos de carinhos,
Dormir e acordar com pensamentos de amor,
Agradecer a vida a felicidade de ter encontrado o amor
Permanecer fiel ao sentimento que uniu seus corações
Envelhecer com a certeza de que continuarão unidos, alem do horizonte,
Afastar tempestades e as agruras que mesclam o amor de tristeza
Afagar com mãos de ternura o amor que entrelaça suas vidas
E ter confiança de que o amor é mais forte do que todos os sortilégios,
Sacudindo as intempéries e as desavenças surgidas.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

FELICIDADE E PAZ

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


O que se precisa para ter felicidade?
Valorizar a paz de espírito?
Comprar momentos e congelá-los?
Nada disso.
Não há dinheiro que compre a felicidade,
Nem o conforto material, significa felicidade.
Isto não traz paz de espírito.
O indivíduo pode sentir-se poderoso,
Dominar um império,
Porém se não tiver paz de espírito,
Não poderá ter satisfação intima
Não conseguirá sorrir ou dormir com tranqüilidade
Porque lhe falta aquilo que dá ao ser humano o diferencial de outros seres.
Esses não pensam e tem paz de espírito para tocar a vida,
Com dias que se sucedem e seguem iguais
E sem perspectivas
Uma vida sem horizontes,
Porém, na sua irracionalidade vivem com prazer
Pois defendem seus espaços com unhas e dentes
Acariciam-se com deleite
Entreolham-se e se reconhecem entre milhares.
Nisso o homem é fraco
Porque não se reconhece como igual a outro homem
E assim perde sua paz de espírito
Tão necessária quanto o ar que respira, o alimenta que lhe dá vida.
Por isto é mister que ninguém destrua a paz de espírito de ninguém.
Deixem que cada ser viva sua vida
Respeite o espaço do outro
E deixe que cada um faça sua história
Sem pisar na história do outro
Ou destrua seus sonhos tão ardentemente perseguidos.