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sábado, 31 de dezembro de 2011

TODOS PRECISAM DE ESPELHOS PARA SE LEMBRAR QUE SÃO


Betto Santos*



Na discussão sobre identidade existem pontos fortes, como: afinal, quem somos para nós mesmos? O que consideramos como sendo nosso “centro” enquanto indivíduos? Em certo instante, descrevemos nossos antigos “eus” como pessoas que se julgavam diferentes pelo afastamento do comum que exibiam, como se a distorção refletisse, de maneira inexplicável, uma mudança em quem éramos. Pois o fato é que embora apenas ocupemos nossos corpos, frequentemente somos levados a nos definir a partir destes, permitindo que nossas personalidades, valores, paixões e ações sejam definidas por características externas como peso, calvície, espinhas e outros elementos que, a rigor, jamais deveriam moldar nossa percepção de nós mesmos - mas que o fazem por sabermos que assim julgamos o próximo. E assim, percebemos que a luta para ajustarmos com aquilo que vemos no espelho – uma batalha que vai muito além da vaidade e com a qual todos podemos nos identificar em maior ou menor grau, é tola, mas ainda sim é necessária para nos lembrar quem somos.


Obs: Imagem enviada pelo autor.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E VICE-VERSA

Betto Santos*


-A gente tenta seu delegado.

Eu nunca entendi por qual motivo as pessoas simples referem-se a elas mesmas como “a gente”. Eles acham que são mais de um? Pobre nenhum é mais de um. Pobre é pobre e vice-versa. Sou assim, arrogante, porém compreensivo.

-Era dia de jogo, seu delegado, jogo da seleção! Jogo da seleção a gente não perde, não é? O senhor vê. Eu nem ia pro bar aquele dia, mas convidaram né, convite a gente não recusa, seu delegado.

-Tinha mais alguém?

-Não senhor, seu delegado.

Eu já sabia, mas tive que perguntar.

-Então, seu delegado, a gente...

-Espera ai, tinha mais alguém junto?

-Não senhor, seu delegado.

A gente já sabia, digo: EU já sabia. Minha esperança era que ele parasse com a tal gente que ele achava ser. Mais uma dessas e a veia que liga meu coração ao dedão do pé arrebentaria.

-Então a gente...

-QUE GENTE PORRA? – cuspi por tudo; assustei o homem.

-a gente que estava lá no bar, seu delegado, aquela gente que começou o tumulto.

-ah, ok. Prossiga.

-então...

-Não, não prossiga coisa nenhuma...

Sou delegado desde que posso me lembrar, tenho experiência; sei trabalhar. Não tenho nome, tenho sobrenome, e dois! Souza Gonçalves. Delegado Souza Gonçalves. Alguns ousam perguntar por um primeiro nome, rio e digo: Souza, Gonçalves Souza, e vice-versa.

-O senhor causou o tumulto, quebrou um copo na cabeça do dono, e ainda teve a coragem de espancar um policial do meu departamento...

-O senhor vê, não tenho culpa.

-A única coisa que o senhor tem no momento é culpa – assim que disse tomei nota que deveria começar a tomar nota de minhas frases de impacto.

-Não mesmo, o senhor vê; a gente estava lá vendo o jogo, tranquilinho, aí, o senhor vê; eu perdi o dia que disseram quem o tal de Dunga tinha convocado.

-Também não sei, mas qual a ligação disso com o fato de você ter agredido pessoas?

-Então, sabe o wagner love?

-Sim, atacante. Ex-palmeiras.

-Foi convocado.

-Não pode!

-O senhor vê. A gente leva uma surpresa dessas na hora do jogo; e, além disso, seu delegado: É CENTRO-AVANTE TITULAR!

Liberei o homem, não posso fazer nada. O Love já é demais. Mandei colocar uma faixa na frente da delegacia escrito “fora Dunga”. Sou assim compreensivo, porém arrogante. E vice-versa


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

HISTÓRIA DE DOIS ALICATES, ALGUNS VINHOS E MEL, MUITO MEL.

Betto Santos*


A principio caminhava apressadamente, então vi que o perigo era verdadeiro, acelerei ainda mais o passo. Carregava comigo diversas sacolas, tinha passado no supermercado e comprado mantimentos para a festa que daria na noite. Notei quando sai do supermercado que ele estava me observando. Sou atlético, no sentido “maratonista”. Meus braços são fracos, portanto não me envolvo em brigas. Quando saí e ele veio atrás, pensei que talvez estivesse enganado e ele não quisesse nada comigo. Agora eu começava uma leve corrida, não tive coragem de olhar para trás. Quando jovem ganhei uma maratona, duas horas e cinquenta minutos correndo, velocidade padrão, sem oscilar. Arrisquei olhar pra trás, e não foi surpresa ver que o homem estava a uns quinze metros de mim, acelerando o passo. Nas três sacolas tinha, respectivamente, uma corda e dois alicates, um rolo de papel higienico e alguns vinhos, e na última: Mel, muito mel. Comprei para fins particulares, não vem ao caso agora.

O homem acelerou ainda mais o passo e se aproximava. Sem devaneios joguei a sacola com um rolo de papel higienico e alguns vinhos no chão para ficar mais leve, acelerei. O homem agora gritava alguma coisa, não entendi nada, pois trespassava o vento com o rosto, e além desse barulho, só ouvia meus passos. Não pensei em tentar entender o homem, estava preocupado demais com minha fuga. Nunca tinha feito nada pra ninguém; entretanto, teve aquela vez... Mas não! Não era motivo pra alguém me matar. Morte, pensar nisso me assustou, me fez suar. Não costumo suar durante minhas corridas, sou atlético, preparado fisicamente. Não para fugas desesparadas, mas preparado. Arrisquei olhar para trás novamente. Um homem alto, forte por sinal. Usava algum tipo de uniforme. Talvez eles tenham algum tipo de organização assassina, pensei eu. Acelerei o máximo na minha corrida, larguei outra sacola, a da corda e dos alicates. Mas não larguei em direção ao chão. Joguei para o alto, quando a sacola caiu, acertou o homem na cume da cabeça. Sagaz da minha parte, apesar de ter sido sem pensar. Ganhei mais alguns metros e o homem alguns galos.

Tinha mais uma sacola, não podia largar. Foi quando o homem se irritou e começou a atirar. Atirar pedras, pois não tinha uma arma, ou não queria usar. Quando acordei, ainda sentia a dor e o sangue do tijolo que me acertara no crânio. Abri os olhos e ele estava ajoelhado sobre mim com um sorriso nos lábios. Disse então palavras que nunca esquecerei.

-Trabalho no supermercado, aqui está seu troco.

Tinha virado uma questão de honra pra ele, entregar-me o troco que eu havia esquecido. Para mim a questão era fugir. Não tenho culpa de ser assustado. Acordei dois minutos depois, ainda sentindo o soco que o homem me dera. Sim, ele trabalhava no supermercado e só queria me entregar o troco, mas eu tinha acertado uma sacola com dois alicates e uma corda na cabeça dele. No minimo, é uma justificativa pra eu desmaiar duas vezes. Enfim, tinha perdido duas sacolas e estava ferido, mas ainda tinha o mel. Muito mel.


domingo, 4 de dezembro de 2011

FILME DE TERROR TRASH:

Betto Santos*


O ônibus parou de repente, de repente demais. Um pneu tinha furado. O velho acusou o motorista. Disse “esses motoristas não sabem desviar das coisas”. Talvez no tempo dele os motoristas fossem capazes de desviar de objetos pontiagudos nas ruas. Havia certa sintonia no ônibus. Mas não notaram, nenhum deles notou. O velho resmungava alguma coisa para o cobrador. Algumas pessoas eram notáveis, faziam-se notar. Algumas eram também expulsáveis, pediam para serem expulsas, não com palavras; como o velho. Um menino, quando o ônibus parou de rompante, voou longe. Caiu deitado ao lado do motorista, deu um sorriso e voltou correndo pelo corredor. Repetia esses movimentos desde que o ônibus havia parado, correndo incessantemente.

O velho agora falava que já deviam ter providenciado um ônibus para levá-lo até seu destino. Um halterofilista, ou alguma coisa muito próxima disso, estava sentado atrás do velho. Parecia calmo, até dar só um tapa na nuca do velho, que desmaiou em câmera lenta, deitando a testa no banco da frente. O homem que acertou o velho tinha um ar de não estar satisfeito com os braços e suas ações, pois falava baixinho “olha o que vocês fizeram!”, repetidamente, o garoto corredor ouviu e parou de correr assustado. O cobrador também ouviu e arriscou falar “já está chegando um ônibus reserva”. Ninguém se manifestou, estavam assustados com o “braço de rinoceronte”.

Uma mulher grávida tentou acordar o velho desmaiado, o braço direito do halterofilista levantou vagarosamente, a mulher saiu segurando a barriga assustada em direção ao motorista. Estavam parados em uma estrada de chão. O motorista havia sumido. Tudo estava nebuloso como em um sonho. As pessoas começaram a sumir. O velho levantou e gritou para o homem musculoso: “você não pode matar um homem morto!”.

De repente todos começaram a notar, estavam mortos, ninguém sobreviveu ao acidente. Não fosse por isso o halterofilista levantou, agarrou o velho pela gola e falou, mas não abriu a boca. Suas axilas que falaram “ah podemos!”. Os braços tinham vida e mandavam no dono que estava pedindo desculpas com os olhos.

Então ele acordou. Tinha sido apenas um pesadelo. Suas axilas não falavam e seus braços o obedeciam, pensou o “quase” halterofilista “Edgar, braço de PVC”. Ouviu alguém chamar e respondeu:

- Já vou, mãe!
- Que mãe, rapaz!?
Era a axila direita.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

DIA BONITO


Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Bonita, vamos sair pra ver a lua
Mas isso só se o dia estiver bonito
Pois eu quero me perder por tua rua
E me achar na beleza de teu infinito

Eu quero estar no teu olhar pequeno
Ser aquela lágrima que não caiu, que não brotou
Talvez por defesa, talvez por engano
Ou por falta de tempo... ou falta de Amor

Vamos sair e ver e sentir o quão bonita é a vida
O quão belo se é e se pode ser
O quão de quantos "quãis" você quiser
Vamos ser bobos pra não perder a rima

Um dia sem pressa de se viver
Onde iremos esculpir nosso amanhecer
Onde excessivamente grave é vida

E assim, sem medo, sem cautela, sem dever
Escreveremos no chão de nosso ser:
Um Bonito, uma Bonita


* http://bettosantos.blogspot.com

Obs: Imagem enviada pelo autor.

 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O ATOR

 

Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.


* http://bettosantos.blogspot.com

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

JORGE, LURDES, E UM ERRO

Betto Santos*


Não acredito em horóscopo. Não acredito também em coisas materiais. Minhas descrenças são tão normais quanto às de qualquer cidadão do século vinte e um.

Estava tudo combinado, iria ao apartamento da Lurdes comer a sua famosa torta de espinafre. E foi lá que o problema aconteceu:

-Tente entender, Jorge.

Olhei pra trás pra ver com quem Lurdes estava falando; comigo não era. Meu nome é Horácio, ou coisa parecida.

-Que houve? Perdeu algo?

-Quem é Jorge, Lurdes?

Aí foi a vez dela de se apalpar e olhar para todos os lados do apartamento:

-Jorge é você. Mas Lurdes quem é?

Então nós dois olhamos para todas as arestas do cubo. Cubículo, cubo, cubano. Surpresa! De repente não era mais um apartamento, tampouco AP, tampouco abreviação semelhante. Era um cubo. Eu não era mais Jorge, nem sabia se havia sido algum dia, era um cubano – como o charuto – magro (de fato), bronzeado, e com um chapéu de palha. Lurdes era alguém; ainda tentava acreditar nisso. Mas, contudo, todavia, entretanto, porém, e, aliás: Lurdes nem era Lurdes, tampouco era gente. Era holograma. Isso explicou o brilho nos olhos dela, pensei que era amor, era tecnologia.

-Três dimensões para Jorge, o cubano!

As palavras saíram de mim, mas não pela boca, e sim pela garganta. Dei-me um tapa e com muito esforço falei:

-Três dimensões para Horácio, o cubano! – cubano eu era, e nada podia fazer sobre isso; mas Horácio minha mãe que pôs.

Uma dimensão era de mentiras; outra, era de confusão. A última não era de nada, mas, se não fossem três não seria 3D; entretanto, tinha uma torta, de espinafre, e, famosa. Comeu metade. Poucas calorias, pois não sabia que Fidel tinha morrido e cuba agora era cuba-libre..

No cubículo tinha TV. No Brasil surgiam mulheres, com codinome de: melancia, jaca, melão. Em cuba agora tinham a: mulher rúcula, mulher alface, e a mulher amendoim.

Horácio estava enlouquecendo. Estava sendo atacado por milhares de marimbondos, ligou para Fidel; não-morto Fidel, e perguntou: Fidelito, e agora? A resposta nunca veio.

Jorge era Horácio. Lurdes era falsa. O erro? Ter começado essa história.


domingo, 6 de novembro de 2011

ACREDITAR

Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Lutar pelo amor é viver cada instante
É achar cada detalhe
O momento mais importante
É sonhar e querer ser feliz

Por que algo me diz?
Se pela madrugada
A ânsia de um beijo
Cala toda voz
E quando estamos a sós
O desejo contraria toda vontade
Por uma saudade até então já sentida

Desfrutemos o amor...
Entrego meu coração a você?
Onde estará a paixão da minha vida?

Lutar pelo amor
É ser aprendiz
É ir além e conquistar
Aquilo que sempre se quis

É desfrutar do que há de melhor
Daquilo que virá com o tempo
É viver o sentimento eterno
A todo e qualquer momento
E que ele seja sincero, puro e verdadeiro


* http://bettosantos.blogspot.com


Obs: Imagem enviada pelo autor.

domingo, 30 de outubro de 2011

O DELÍRIO DE ONIPOTÊNCIA DO NARCISO CONSUMISTA


Betto Santos*


Eu tudo quero e tudo posso. Ser feliz, desejo supremo de todo ser humano, é apenas questão de vontade e coragem. Não ter medo de ser feliz, esta é a expressão mágica no país de todos. Aproveitar tudo, viver tudo a que tenho direito. Mais que isso: tudo que desejo. Meu desejo é a medida da realidade. O negócio é chegar lá, lá onde me espera o objeto do meu desejo. E o que aprendi e o que sei é que vale tudo: tudo por dindim, tudo para que o outro me veja e confirme minha existência, tudo pelos 15 minutos de celebridade, que no meu caso serão eternos. Ser sempre o que o outro quer, já que o outro é a medida da minha existência, já que é o outro quem valida o que sou. Ser é ser o outro e à margem do outro que me vê e me valoriza eu sou apenas a sombra do apagão, um zero. Nada.

Se Caetano Veloso canta que Narciso acha feio o que não é espelho, eu vou além, muito além, e afirmo que Narciso é o próprio espelho, que Narciso é uma criação do outro. O outro é o Big Brother, a mídia, o olhar invejoso do vizinho que quer meu carro importado porque odeia o que tenho e o que tenho é o que sou. O outro é o chefe a quem presto vassalagem para ser o que ambiciono: o executivo sem alma, o astro da mídia, a prostituta que se chama acompanhante ou modelo, o deus do futebol com quem me identifico quando visto sua camisa e majestosamente desfilo pelas ruas como se fosse ele. Se ele me toca, ou rabisca um autógrafo no guardanapo de papel onde o nome dele e o meu se imortalizam, sinto-me como se a mão de Deus sobre mim descesse. É quando sei que sou onipotente. Eu tudo posso. Eu tudo quero.

Sou the hollow man, o homem vazio, o homem oco do poema de Eliot. Não me procurem onde não estou e nunca estive: dentro de mim, pois sou pura forma aparente. Sou o reflexo de uma avenida em cujas margens vislumbro outdoors e clipes publicitários, vitrines que semelham templos onde adoramos o Deus mercadoria, massas errantes rolando por ruas anônimas à procura do que todos procuram: um quinhão de fama, um farelo de notícia que prove ao mundo e antes de tudo a mim próprio a existência dentro de mim anulada. Sou o homem vazio, o homem oco que é pura aparência. Dentro de mim há apenas poeira, um deserto sem água, trapos recobrindo minha nudez vazia e uma angústia sem norte, uma ansiedade sem objeto, um desejo de fuga sem destino, o vazio carente de algo que o preencha.

Mas tudo posso, essa é a voz sedutora do clipe publicitário que me persegue e cativa em tudo que ouço e me cerca. Ela escorre geladinha na garrafa de cerveja. Ou é na bunda deslumbrante da loura gostosa que bebe nos meus braços? Ela me faz crer que sou o dono do banco, não o correntista esfomeado entre o desejo de consumo e a taxa de juros. Ela transfigura minha solidão num harém onde as mulheres mais lindas e inacessíveis estão à distância de um travesseiro na minha cama, dóceis e servis como as mucamas dos engenhos de açúcar coloniais. Eles sobrevivem, os engenhos e seus senhores onipotentes, os engenhos e a escravaria moída pela máquina que sem alma tudo tritura; eles sobrevivem no tipo de capitalismo brutal que criamos, na mídia com seu circo de horrores cotidianos.

Sou onipotente pilotando meu carro que é uma máquina de guerra. Dentro dele viaja submissa a mulher que eu quiser, escrava do meu desejo. Dentro dele, miro com desprezo a massa anônima pendurada no estribo do ônibus, espremida nas janelas de veículos ferventes à luz do verão. Dentro dele, vejo de relance a massa de trabalhadores espremida em trens como se fosse sardinha enlatada. Dentro dele traço a fronteira entre dois Brasis atados mas divididos, cada vez mais se defrontando com surda ferocidade. Um país de todos, mas desiguais. Dentro dele, acelerando como um guerreiro em combate, atropelo o pedestre, ultrapasso sinais vermelhos, excedo todas as velocidades porque a potência do meu carro é instrumento da minha onipotência. Dentro dele estou acima da lei porque a lei e todos os códigos inventados pela sociedade são apenas o que acelero e compro.

Os valores e direitos humanos? Digam-me quanto custam, pois tenho o poder de comprá-los. Amor, delicadeza, ética, respeito, civilidade, compaixão, humildade!, tudo isso soa como palavra tão vazia quanto o vazio que dentro de mim transporto. Como disse, não me procurem onde não sou e estou. Sou pura aparência produzida pelos poderes aos quais servilmente rendo minha liberdade, um sentido de humanidade e beleza que nunca provei nem me apetece. O que não suporto é a solidão, a hora fatal em que preciso mirar-me não no espelho do outro, não no espelho que é o outro, mas no espelho da parede do banheiro que habito, no espelho da minha casa sem humanidade. Nesses momentos irrompe e me sufoca a solidão dos desertos áridos, a angústia sem corpo e forma, a insatisfação sem repouso.

Como explicar essa insatisfação permanente, esse movimento sem pausa, se tudo compro e tudo tenho no shopping que é o templo onde venero meus deuses e realizo minha figuração do céu na terra, céu que é aliás o único, pois que sou eterno? Os publicitários, voz da minha consciência, inventaram a terceira idade e assim aboliram a velhice. Eu, que tudo posso, fui além deles: desinventei a morte e me fiz eterno. Eu sou o outro e sou eterno. Mas por que não paro de me doer? Por que sou a droga sem a qual não suporto o mundo nem me suporto? Por que esse vazio que vai de dentro para fora de mim quando o espelho não é o da mídia, mas o da parede do meu banheiro?




Obs: Imagem enviada pelo autor.

domingo, 23 de outubro de 2011

EU NÃO SEI


Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Os dias despencam
aos pedaços. Logo será janeiro.

Posso farejar o amarelo das amendoeiras
de então

e a praia, os bares, a ferrugem, nossas costas
e braços liquefeitos. Tanto faz a solidão,

a companhia: tudo são doenças tropicais,
incuráveis. O verão virá, forasteiro,

no vôo tonto, nupcial dos cupins
em volta das lâmpadas. Janeiro

está próximo, pressinto seu peso, a alegria,
o tremor, a sezão, o óleo,

a girândola veloz dos relógios
a nos golpear no ventre. Girassóis

em bando assestarão suas lâminas
em direção aos táxis

enquanto os rios, erráticos, desaguarão
à porta dos edifícios

E foi te perdendo que cresci tanto... e eu não sei
se eu quero mais te encontrar.


* http://bettosantos.blogspot.com


Obs: Imagem enviada pelo autor.

domingo, 16 de outubro de 2011

TIMÃO, OS SENTIMENTOS, E SUA SOLUÇÃO

Betto Santos*


Soluçando, Timão esbraveja, ainda com o primeiro quarteto de seu soneto amassado nas mãos, que dizia:

“Olhe para o céu
E conte as estrelas
Se é que pode contá-las
Assim será meu amor”

TIMÃO: -Pensei que se andasse em linha reta chegaria em algum lugar. Mas como andar em linha reta em um lugar tão escuro, e eu estando tão absurdamente perdido?

AMOR: -Faz perguntas demais, Timão. Pois é nesse lugar escuro que vais passar a eternidade, andando em círculos. Não sei se achais o suficiente, mas estais, não sei até quando, em minha companhia.

TIMÃO: -Como pode me iludir desse jeito? As promessas que ouvi ao chegar eram, como sempre, falsas!?

AMOR: -Tolo! Tudo se resume à escolha. Cada um é responsável pelo seu destino.

Timão dá as costas ao Amor e não sabe mais o que pensar, quando se senta ao seu lado o Medo.

MEDO: -Tudo bem, vou te fazer entender. Eu, modéstia à parte, sou a melhor forma de mudar o destino. Todas suas escolhas foram manipuladas por todos nós, mas em especial por mim. Medo da sua companheira Solidão, Medo do sofrimento, Medo de tudo acabar antes mesmo antes de ter começado. Mas você não soube me usar de forma eficaz. Posso ser muito útil se for inteligente, sabia? Mas não! Apenas cavou sua própria cova. Chega a ser triunfante pra mim. Agora eu já criei todos os fantasmas. Mas não se culpe tanto, o passado daquela por quem perdeste a Sanidade era um oásis de temores, só bastou um leve soprar seu, quer dizer, meu.

TIMÃO: -Eu não vou ser castigado por Medos e nem fantasmas do passado! Nem que eu tenha que me embriagar na Fonte do Esquecimento, e abandonar-te pra sempre!

Assim Timão falou encarando o Amor, que apenas piscou com os dois olhos, num gesto de compaixão. Às lágrimas, e sem saber se o que falou ao Medo era verdadeiro, Timão sentou-se e fez mais uma alteração em seu quarteto:

“Olhe para o céu
E conte às estrelas
Que eu me juntei aos desistentes
E me entreguei à Dor”


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Cego e sem nenhum sentido atendendo às necessidades de seu corpo, Timão cambaleia centro da sala e sente o mundo girar. Tenta se esconder, e não pensar em nada... Mas chega a conclusão da inevitabilidade.

E assim, de um golpe só, toma de grandes goles, como um regresso do deserto, toda a sua dor. Começa então a não sentir suas pernas. Seus músculos ficam em espasmos frenéticos, e Timão cai de joelhos.

Agora já não consegue nem mais chorar, e passa a vislumbrar um lugar melhor para si e para todos os seus sentimentos. Fica esperando o sono chegar, esse sono tão especial, esse sono profundo. Sono sem pesadelos, sono pra não mais acordar.

Em meio àquela fervura de emoções, Timão fita o espelho, e olhando aquele corpo agonizante, ele não se contém e solta o seu mais sincero sorriso que já vira em seu semblante. Em sua mente só lhe ocorre um pensamento: o que é a dor pra quem não sente?




Obs:  Imagem enviada pelo Autor.(Retrato do Dr. Paul Gachet, Van Gogh)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ACRÓSTICO PARA TODAS AS COISAS PERECÍVEIS

Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Profundo semblante sossegado
Envolto negro véu soturno
Renovo perceptível fado

De porcelana pele pálida
Enevoada sublime visão
Repouso em sono plácido

Angústia? Alma lavada, limpa!
Sossegada eterna glória
Utopia real encontrada
Amor seu nome e memória

Visto que todos os de verdade
Incumbência comum, desvelo.
Dádiva da divina bondade
Almejando para si o mesmo


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Nota: Os acrósticos são formas textuais onde a primeira letra de cada frase ou verso formam uma palavra ou frase.

* http://bettosantos.blogspot.com

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O HOMEM DO FUTURO, 2011

Betto Santos*


“O Homem do Futuro” é o mais novo filme brasileiro e mistura comédia e ficção científica. Sem erro, o melhor nacional de 2011, até então. Wagner Moura interpreta Zero, um cientista e professor de física concentrado em um projeto científico que acaba por se tornar uma máquina do tempo. Assim, ele volta ao ano de 1991, época em que foi humilhado por Helena (Alinne Moraes), o amor de sua vida. Ao voltar 20 anos, ele tem a chance de mudar o que aconteceu e fazer diferente. Mais tarde, se dá conta de que mudar o passado pode não ser tão simples assim.

Cláudio Torres, depois do péssimo “A Mulher Invisível”, mostra que seu último projeto foi um erro de percurso. Dirigindo e assinando o roteiro deste longa-metragem, ele demonstra muita perspicácia em caminhar numa história de várias dimensões, além de domínio da técnica e linguagem cinematográfica (notem no início do primeiro ato o uso de sons de sinos e batidas de relógio no extracampo, por exemplo). Diferente da maioria das produções brasileiras, “O Homem do Futuro” segue uma linha mais reflexiva, apesar das pinceladas cômicas, nunca partindo para o humor burro e preguiçoso, tão comum no nosso cinema.

O roteiro ainda toma o cuidado de nos situar na sua lógica interna. Torres é ciente de que produções como “De volta para o futuro”, de Robert Zemeckis (que inclusive, é sutilmente homenageada), podem confundir o espectador. A dinâmica e a vontade de ousar dentro dessas “possibilidades temporais” que faz o filme de Claudio Torres ter um ritmo acertado e seguro o bastante para revisitar situações e sub-tramas sem se tornar repetitivo em momento algum.

No que diz respeito à produção, ela se mostra sempre competente, desde os figurinos até os efeitos especiais utilizados. A direção de arte fez um trabalho fantástico para nos situar nas diferentes dimensões em que o roteiro se desenrola. E a trama é envolvente na maior parte do tempo. Em concordância com o tema, a trilha sonora diegética foi bem representada com “Tempo Perdido”, da Legião Urbana. E ainda, Wagner Moura conduz o filme de forma irretocável, e não só pelo fato de protagonizar. Sua atuação é precisa.

Cheio de segurança, “O Homem do Futuro” se diverte bagunçando todos os paradoxos temporais (bagunçando, mas nunca se enrolando!) e acaba surpreendendo na hora de criar esse conflito, que parece obvio até certo ponto (mas não é). O filme faz um verdadeiro ode ao passado. Graças a ele somos quem somos hoje e seremos no futuro. Negá-lo é anular quem você é. É um prazer ser conduzido por Torres nessa importante descoberta feita por Zero


Obs: Imagem enviada pelo autor.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O VÁCUO SENTIMENTAL DE DIÓGENES DE SÍNOPE


Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Por cinco anos de dor constante
Retorcida no profundo abismo
Na concebida escuridão, antes,
Em outro tempo [No egoísmo!].

Jogando-me nas paredes e nos espinhos
Fugindo em desespero, na cólera,
Temendo o espelho. Longe de ser lúcido

Espelhos espinhos; longe de ter,
Longe de ser só, retorcido em si,
Distorcido em dó, vagando em que?
Destinado ao pó, solo em si.

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Tem uma história sobre os deuses gregos... Eles estavam entediados, então inventaram os serem humanos. Mas continuavam entediados, então inventaram o amor. Então já não estavam mais entediados, então decidiram tentar o amor para si mesmos. E, finalmente, inventaram o riso, para que pudessem suportar o amor.
Vendo que estavam sem saída, inventaram o tempo e a poesia. Tudo ia bem, até que um dia um deus poeta e com fama de paciente decepa seu próprio abraço, propositadamente. Ao ser questionado, ele responde: “Queria sentir em meu corpo uma dor maior do que a que sinto em meu coração”. Então, inventaram o cinismo.





segunda-feira, 19 de setembro de 2011

MAIS DO MESMO NUMA CRÔNICA


Betto Santos*


          Começo esta crônica avisando que o final já é conhecido por todos, e que qualquer semelhança é mera coincidência, porém, qualquer coincidência é pura semelhança.

Tudo começou num dia em que acordei, mas isso é irrelevante, pois, este dia poderia ser qualquer um,afinal, acordar é um dos meus hábitos de praxe. Foi um dia no qual eu realmente sabia o que iria acontecer.

Inevitavelmente, após acordar, eu me levantei, para assim executar meus afazeres daquela manhã, que, aliás, foram feitos quase automaticamente, pois são habituais. Sentei-me no sofá e li , no jornal de hoje, as notícias do jornal de ontem, da semana passada e de 2 anos atrás. Após terminar a leitura, tomei o mesmo café que venho tomando por anos. Depois de tomar o mesmo banho de sempre e vestir a mesma roupa de muito tempo atrás, pus-me a caminho do trabalho, onde exerço a mesma profissão desde recém -formado, no mesmo escritório.

          A caminho do trabalho, me peguei pensando em asneiras, como a utilidade dos insetos pra a existência do planeta, ou o programa televisivo que vi na noite passada, no qual foram exibidas as mesmas coisas do programa da semana passada, e do mês passado... Mas mesmo que as inutilidades povoassem minha mente, pensei em não pensar (como é difícil).

          Ao chegar no trabalho, dirigi-me à minha mesa, e lá fiquei, perdido em pensamentos por toda a manhã. Após comer a mesma comida que como desde o meu primeiro horário de almoço naquele emprego, e a reunião da tarde, onde eu e meus colegas discutimos as mesmas coisas da última reunião, e da anterior, e da outra, e de todas as outras. Voltei à minha mesa, para me perder nos pensamentos da tarde, nessas horas eu desejava ser, apenas, dono de um botequim.
Tarde da noite estava novamente em casa. Jantei a mesma comida de ontem e anteontem e fui pra cama esperar a hora de voltar à minha eterna prisão conformista que me assombra dia após dia.




Obs: Imagem enviada pelo autor.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

QUINAS E MUROS


Betto Santos*


Lembro que na infância enrolavam panos nas quinas da mesa da sala de jantar para que eu não batesse com a cabeça nelas. Lembro de visitar lugares que hoje me parecem normais e sentir-me ameaçado pela vastidão deles. Traçava linhas imaginárias que, uma vez transpostas, me colocariam ante o misterioso e convidativo território desconhecido. Dava medo, ao mesmo tempo em que era impossível resistir aos encantos dessa jornada exploratória. Nem sabia o que queria – às vezes, até mesmo inventava motivos para avançar – mas sempre estava na caça ao tesouro.

Os lugares que visitei durante a infância hoje chegam a parecer claustrofóbicos, em novas visitas. As quinas não estão mais protegidas, muito menos está a minha cabeça, que trafega na velocidade do pensamento pelos mais sinuosos caminhos. Mas o conforto das linhas imaginárias, associado à inércia causada pelo medo do desconhecido, me faz parar de procurar. Medo de bater, ocorre. Bater, ás vezes, batemos, inclusive. No entanto, os anos passam e nem tantas coisas mudam.

Por vezes é preciso trafegar no território desconhecido pra aprender que ele é tão previsível quanto o quintal de casa. A única certeza que se tem é a de que a próxima esquina pode guardar, sim, aquilo que motivava a transposição das linhas imaginárias. E isso jamais está em nosso quintal. Na época eu não sabia, mas desconfiava: um dia eu seria maior do que as paredes do quintal de casa.



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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SONHOS E FUTUROS



Betto Santos*


Prever o futuro é moldá-lo com atitudes, inspiradas nos mais ousados sonhos. Não consigo lembrar de cabeça o nome de alguém que realizou seus sonhos sem ter, para isso, passado por todo tipo de obstáculos. E eu me encontro frente a uma antiga muralha que há anos se coloca em meu caminho. Paredes escorregadias de limo que não se deixam ser escaladas. Obstáculo. O que há do outro lado? Não sei. Mas não é do meu feitio ficar aqui, parado.

Digo isso porque há muito tempo conclui que não existe nada mais valioso do que um objetivo em mente. Um sonho, por que não? O sonho nada mais é do que uma realidade que pode assumir qualquer tamanho e forma que a gente conseguir imaginar. Se meus pensamentos conceberem uma jornada sem fim, sem objetivo aparente, ou até mesmo sem sentido, seria uma grande auto-traição não realizá-la. Não fomos dotados da capacidade de sonhar por acaso.

A dor no peito daqueles que tiveram medo é infinitamente maior que a dor de quem tentou e caiu.




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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

EQUILÍBRIO



Betto Santos*


Eu já caí, de tanto olhar pro céu. O que me protegeu de espalhar minha cabeça pelo meio-fio da calçada foi o fato de eu sempre andar no meio da rua. Os carros que vêm na minha direção não passam de velozes e barulhentos fantasmas que meus inimigos vivem inventando para me testar. Eles conhecem meus medos melhor do que eu.

Eu já me perdi, de tanto olhar pros lados. O que me fez chegar onde estou foi a companhia desejada das pessoas que me são mais importantes, jamais permitindo que eu entalhasse na areia pegadas solitárias. Encontrei caminho e refúgio nas esquinas que a multidão esqueceu de ver, enquanto tentava trazer o horizonte pra mais perto. O tempo passa sozinho, e não há nada que possamos fazer para assumir seu controle.

Eu já petrifiquei minhas pernas, de tanto viver o passado. Minhas amarras foram soltas pelo súbito empurrão que você me deu. Me dóem os pés, dor essa que ignoro toda vez que minhas solas encontram novo chão. Os fantasmas, de repente, somem, e a estrada dos meus dias se desenrola em minha frente como um tapete vermelho. Basta que haja equilíbrio. E esse equilíbrio não se dá de olhos fechados, muito menos se olhando por onde anda.

Enxergo o auge da minha vida como o equilíbrio na agulha. Qualquer passo descuidado trará o chão para um brusco encontro com a minha face distraída. Não sei o meu próximo passo, mas vivo meus dias e noites em função de fazer com que os meus pés toquem sempre o caminho que eu construí.

A gente faz o nosso caminho, e é normal que ele seja estreito e sinuoso. Ninguém consegue andar em linha reta por muito tempo.




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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

FASE



Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Eu vivia em uma redoma.
Desconhecia a parte ruim.
Não sabia o que era tristeza, não assim
Até poderia, mas não assim

Até que chegou a hora de meu grande companheiro dar adeus.
Se foi cedo demais.
Então uma tempestade se fez e alagou com todo meu jardim.
Eu chorei e chorei.

Lembro o quanto foi afanoso me erguer novamente.
Mas eu fui mais forte, acabei superando, quase sempre.
O meu corte virou cicatriz.
Não odeio essa fase, afinal cresci.
De repente abri os olhos e percebi
Que um dia a vida acaba independentemente
Dos planos, dos cuidados especiais.
O tempo passa, a pele enruga
E o que foi já não é e nem voltará a ser.

A brisa me traz fotos cerebrais
Que eu tirei dos bons e maus momentos que vivi.
Então eu corro mais
Mas nada disso aponta para dias melhores
Não significa que serei forte mais uma vez
Eu odeio essa fase


* http://bettosantos.blogspot.com
Obs: Imagem enviada pelo autor.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O MERCOSUL NAS MÃOS DO CONGRESSO PARAGUAIO



Betto Santos*


O Congresso do Paraguai nunca esteve disposto a aprovar a entrada da Venezuela no Mercosul como membro pleno enquanto Hugo Chávez estiver na presidência. A posição foi confirmada pelo presidente do parlamento paraguaio, senador Miguel Carrizosa, do partido opositor Pátria Querida. O senador assegurou que o problema não é a Venezuela e sim Hugo Chávez.

Após a aprovação do Congresso brasileiro, no ano passado, o Paraguai é o único país do Mercosul que ainda não deu sinal verde à incorporação da Venezuela ao bloco como membro pleno. Na visão do Parlamento paraguaio, não é conveniente aceitar um país cujo presidente reduziu a democracia a sua dimensão pessoal, defendendo a reeleição indefinida, a clausura de meios de comunicação, a ingerência em assuntos internos de outros países e a aliança com o Irã, representando um grande risco para o Mercosul.

Desde o ano passado, o Senado do Paraguai sequer voltou a discutir a entrada da Venezuela no Mercosul. O governo do presidente Fernando Lugo retirou o pedido do Parlamento para evitar uma derrota no Senado. Dos 45 senadores paraguaios, apenas 17 se manifestaram a favor da incorporação plena do país ao Mercosul na última votação. É importante notar que esse veto parcial advém exclusivamente do Congresso. O Governo, que tem tendências de esquerda, pressiona os senadores pela aprovação da Venezuela. Interessante que o, no Paraguai, o Executivo não tem grandes dificuldades de governabilidade. Mas essa pauta provocou uma ruptura entre Executivo e Legislativo, inclusive com alguns aliados.

Essa atitude do Congresso paraguaio é admirável. Uma demonstração de responsabilidade supranacional. Muito diferente da política adotada pelo Brasil. Um país que não reconhecia o Estado de Honduras, em favor da democracia, no entanto aprova Hugo Chaves e recebe Mahmoud Ahmadinejad. Não convém ao Mercosul incorporar plenamente a Venezuela, porque Chávez iria tentar transformar um projeto econômico em político. O presidente tentaria controlar o bloco política e ideologicamente. Quem diria?! A política paraguaia nos ensinando o que é divisão de poderes e o significado de responsividade.

Mas parece que o ímpeto do novo ministro da defesa, Celso Amorim, é canalizado em prol do governo chavista. Nas suas primeiras declarações, Amorim já sinaliza forte interesse em convidar a Venezuela para o bloco. É o que posso chamar de miopia política. Lamentável para um quadro tão gabaritado tal posição.

Só vejo duas possibilidades para evitar um mal maior para o Mercosul: ou Chaves, em decorrência de sua saúde debilitada deixa o poder, ou o Paraguai se mantém firme em sua posição. A primeira hipótese não me agrada, pois não é interessante torcer contra a saúde de ninguém, além disso, dificilmente ele perderia influência num novo governo. Iria pairar assim como faz o companheiro Fidel, em Cuba. A segunda hipótese é a mais realista. Sendo assim, a torcida pela sanidade da política paraguaia continua. Não sei até quando os congressistas paraguaios suportam a pressão. Mas, num ministério tão rotativo como o da Defesa, espero que dure até a próxima crise na caserna brasileira e a chegada do próximo ministro.


Obs: Imagem enviada pelo autor.