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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

TEMPO DE COOPERATIVISMO / PARA UM ANO NOVO MAIS FELIZ


Marcelo Barros(*)


“Considerando que as cooperativas, em suas diferentes formas, promovem a maior participação possível de todas as pessoas no desenvolvimento econômico e social, assim como são cada vez mais um  de progresso e podem ser de grande contribuição para a erradicação da pobreza, a 65ª assembléia geral da ONU proclama o ano de 2012 como ano internacional das cooperativas”.

          Quando a ONU decidiu isso, em 2009, o mundo já vivia a atual crise econômica, ecológica e de civilização. Essa crise foi agravada porque a maioria dos governos quer resolver a crise usando como remédio o mesmo veneno que a provocou: o capitalismo neoliberal. Sem dúvida, diante desse fracasso de governos ricos, a ONU percebe que a economia é um assunto sério demais para que o deixemos somente nas mãos de tecnocratas e políticos pouco comprometidos com a vida de todos. Mesmo se as responsabilidades são diversas e os governos têm uma função essencial na condução dessa realidade, é urgente que todos os cidadãos assumam sua responsabilidade diante do futuro da sociedade e mesmo da vida no planeta. Essa responsabilidade deve nos levar a escolher representantes comprometidos com as melhores causas da humanidade, assim como pede que nós mesmos assumamos nossa parte nessa construção de um mundo novo e mais justo com os empobrecidos do mundo y com a natureza. Uma forma de viver uma economia mais solidária e comunitária é através das cooperativas que ousam se construir a partir das bases e de uma forma mais socialista. Graças a Deus, na América Latina, governos mais ligados às comunidades carentes e empobrecidas, têm favorecido essas cooperativas, sejam de lavradores responsáveis pela agricultura familiar e pela produção de alimentos saudáveis, sejam mesmo nas cidades, onde, como no Brasil e na Argentina, algumas indústrias antes em falência foram assumidas pelos operários em regime de cooperativa.

          Nesse Natal, a presidenta Dilma, continuando um gesto de Lula durante todos os seus oito anos de governo, se deslocou do planalto e foi a São Paulo para participar da celebração de Natal com a associação dos sofredores de rua e catadores de material reciclado na cidade. Ali em meio a famílias pobres e pessoas egressas da rua percebeu o valor da cooperativa de catadores e como essa faz da reciclagem fonte de renda e de vida digna para muita gente.

          Quando no mundo antigo, o termo Igreja foi usado pelas primeiras vezes, seu sentido era de cooperativa de cidadãos. O termo grego ekkesia queria dizer assembléia de cidadãos, mas também associações de trabalhadores. Por isso, como uma lei imperial (A Lei Júlia) proibia cooperativas sociais, o Império Romano considerou as Igrejas cristãs como associações ilegais. O termo comunhão (em grego Koinonia), tão central na fé cristã, pode ser traduzido por participação ou por cooperativa. Esse é o projeto divino para toda humanidade: viver como irmãos/ãs e companheiros/as em uma única cooperativa, a comunidade da vida.

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PARA UM ANO NOVO MAIS FELIZ



          O desejo é uma palavra mágica. Quando desejamos com força interior, emitimos uma energia misteriosa que nos impulsiona para o compromisso de realizarmos aquilo que desejamos. Isso pode ter conseqüências concretas para as pessoas e para o mundo. Nesses dias, há quem diga aos amigos e amigas “feliz ano novo” como mera formalidade. Entretanto, o mundo e nosso continente necessitam muito de que 2012 seja um ano mais feliz e de paz para cada um de nós e para nossa pátria grande. Por isso, quem almeja de coração os melhores votos de ano novo precisa saber como transformar o seu desejo em caminho positivo que construa um futuro novo e melhor.

          Quando eu era menino, as pessoas acreditavam muito no poder do olhar. Diziam que existe o olhar bom que emite energia positiva e existe o mau olhado que provoca problemas. As vizinhas gostavam de contar histórias de uma visita que receberam. A mulher gostou da planta ornamental que havia no terraço da casa. Olhou-a com inveja. No dia seguinte, a planta que estava viçosa e florescente, amanheceu seca e murcha. As antigas culturas e religiões crêem na força da palavra. Em algumas religiões, as palavras curam ou, ao contrário, podem matar. Na Bíblia, vários salmos pedem a Deus que nos proteja das pessoas que, com sua palavra, podem provocar males como doenças e tragédias ecológicas (Cf. Sl 6, 39, etc). Essa cultura de pessoas que amaldiçoam vinha de Sumer, onde havia rituais de Shurpu, maldições comuns em algumas culturas populares que não tinham outra força além da palavra. No tempo da escravidão, um senhor de engenho mandava dizer a um escravo que, naquela noite mandasse a sua filha de menor idade à casa grande. O negro já sabia quais as intenções do senhor. Ele não tinha outro recurso do que a ameaça de uma maldição, principalmente se o senhor acreditasse que o despacho lhe faria mal. De fato, a própria Bíblia diz que a maldição de um empobrecido é ouvida e atendida por Deus (Cf. Eclo 4, 6). No Novo Testamento, a carta de Pedro insiste que temos a vocação de abençoar e não de maldizer. Somos chamados para invocar o bem sobre as pessoas e o universo (1 Pd 3, 9).

          A palavra é eficaz quando nasce no mais profundo do coração e é precedida pela prática da vida. A Bíblia diz que é como uma espada de dois gumes que penetra até as entranhas (Hb 4). Isaías compara a palavra de Deus com a chuva que cai, molha a terra. E não volta ao céu sem ter cumprido sua missão de fecundar e produzir o grão (Is 55). O Mahatma Gandhi ensinava: “Comece por você mesmo a mudança que deseja para o mundo”. Somente pelo fato de desejar, não temos a força para transformar organizações e sistemas do mundo, mas podemos sim colaborar para que se façam as condições necessárias para que elas mudem. Então, que você expresse para os seus e para todos o desejo de um feliz ano novo, através de um verdadeiro compromisso social, solidário e renovador. Então se tornarão verdadeiras em sua vida, as palavras de uma antiga bênção irlandesa: “O vento sopre suave em teus ombros. Que o sol brilhe suavemente sobre o teu rosto, as chuvas caiam serenas onde vives. E até que eu te encontre de novo, Deus te guarde na palma de sua mão”.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.


sábado, 31 de dezembro de 2011

ENTREGA DO ANO


Marcelo Barros(*)



No mundo inteiro, o ano novo é saudado por uma noite de muitas luzes, fogos e festejos comunitários. Em alguns países, as pessoas costumam comer ostras, para que o ano seja aberto como se pode abrir um marisco saboroso. Comunidades tradicionais costumam queimar roupas usadas no ano velho ano para se revestir do novo no corpo e no seu interior. Em regiões tropicais, as pessoas banham-se no mar ou em rios para receber das águas a renovação para esse tempo novo. Todos esses ritos são sugestivos, mas não podem magicamente mudar o rumo das coisas, se nós mesmos não nos renovarmos e não mudarmos o que em nós está envelhecido ou superado. A numeração dos anos depende de nossos critérios. O que diferencia este 31 de dezembro de um 13 de agosto qualquer é principalmente a possibilidade de aproveitar a mudança de estações para nos renovar e acolher a renovação de vida que se oferece a cada um de nós pessoalmente e à sociedade como um todo.

Para ter clareza do que em nós e no mundo deve ser novo, é preciso fazer uma avaliação do ano que passou. Algumas tradições espirituais guardaram ritos de “entrega do ano que passou”. O mercado faz anualmente um balanço das empresas. Grupos de estudo falam em revisão de vida. No plano internacional, 2011 consolidou a crise internacional, aprofundou as dificuldades econômicas e revelou mais do que nunca uma crise civilizatória e ecológica. A conferência de Durban sobre as mudanças climáticas se concluiu sem perspectivas que prometam nada de realmente novo ou melhor. Pouco antes dos ponteiros marcarem o final do ano, o presidente dos Estados Unidos anunciou a retirada oficial de suas tropas do Iraque, deixando aquele país destruído e o seu povo mais dividido, além de chorando a morte de mais de cem mil pessoas, entre as quais muitos civis, crianças e idosos, vítimas da invasão norte-americana. Por outro lado, no mundo inteiro, milhões de cidadãos, principalmente jovens, foram às ruas para protestar contra essa forma de organizar o mundo e principalmente para deixar claro: a economia deve servir à humanidade e não as pessoas serem escravas das finanças. Na América Latina, a recente criação da CELAC (comunidade das nações latino-americanas e caribenhas) representa sim uma esperança nova de integração continental. Nessa conjuntura, cada um de nós se dá conta mais do que nunca: nos parecemos com cristais belos e luminosos, mas muito frágeis. Como diz São Paulo, carregamos dentro de nós um tesouro e ele não é apenas para nós mesmos para ser sempre compartilhado. A poetisa Emily Dickinson esceveu: “O Amor é a pessoa que se deixa mover pela energia da Ressurreição. Ela recolhe em si e no mundo a poeira antiga e canta a Vida que está brotando.”


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

PARA UM NATAL NOVO E FELIZ

Marcelo Barros(*)

          O próprio termo Natal significa nascimento e, portanto, vida nova. O comércio faz das festas natalinas uma incessante repetição das mesmas músicas, mesmos tipos de ornamentação e até os mesmos artigos de consumo. Ao contrário, a festa cristã do Natal não deve ser apenas a repetição de outros natais que já vivemos e sim celebração de uma nova e atual visita divina à humanidade. O Natal não é o aniversário do nascimento de Jesus, visto que ninguém sabe o dia exato em que ele nasceu. Os cristãos antigos transformaram a festa do solstício do inverno na festa do nascimento de Jesus para testemunhar que, através de Jesus, o próprio Deus veio assumir nossa história e trazer ao mundo o seu projeto de paz, justiça e amor.

          Atualmente, o Natal tomou uma dimensão maior do que a celebração cristã. Mesmo entre pessoas não religiosas ou de outras tradições, o Natal se tornou ocasião de confraternização e unidade. Uma vez, em Caracas, na porta de uma mesquita, vi um cartaz, através do qual os muçulmanos desejavam a todos que passassem por ali um feliz Natal. Nessa época, é comum as famílias se encontrarem. Mesmo irmãos que moram longe uns dos outros viajam à casa dos pais para passar o Natal outra vez juntos. As mães e pais têm alegria de preparar a casa para receber os filhos que nesses dias voltam ao aconchego familiar. No âmbito da fé, a celebração do Natal tem este mesmo espírito: preparar a casa e o coração para acolhermos o mistério de amor (que as religiões chamam de Deus) e que se oferece ao nosso alcance.

          Neste Natal, a casa da humanidade está pouco preparada. Uma grave crise de civilização assola o mundo. Em todos os continentes, a pobreza e a injustiça aumentaram. Nas casas, as pessoas enfeitam salas e armam presépios, mas Jesus continua a dizer: “É quando vocês socorrem um pequenino que acolhem a mim” (Mt 25, 31 ss).

          Na América Latina, há muitos sinais de mudanças. Vários países aprovaram novas constituições políticas. Pela primeira vez na história, os mais pobres estão sendo sujeitos ativos de um processo de transformação social e política que não se limita a figuras importantes como o presidente da República ou tal chefe político. O processo envolve grupos e comunidades de pessoas pobres, índios, lavradores e gente de periferia urbana. Em vários países, dificilmente isso teria ocorrido se não tivesse sido preparado pela participação de cristãos nos grupos e movimentos sociais. Apesar de muitos sofrimentos e de contradições inerentes a todo processo deste tipo, para muitos latino-americanos, neste ano, isso significa poder celebrar um Natal novo e renovador.

          Muitos se negam a crer em qualquer novidade e outros torcem o nariz procurando defeitos e erros nestes processos sociais e políticos. O profeta João escreveu: “nós somos as pessoas que acreditam no amor” (1 Jo 3). Este Natal vem como uma interpelação para que cada pessoa se reveja e responda: “Como você está de utopia?”

          O Natal nos chama para revigorarmos em nós a capacidade de crer, esperar e preparar a realização do projeto divino nesse mundo. Esta é a proposta de Jesus. Quando o evangelho nos diz “a palavra se fez carne” (Jo 1, 14), está nos convidando a sermos cada vez mais humanos, como ele, Jesus. Carlos Drummond de Andrade interpretava isso ao dizer que, no Natal, imaginava o verbo outrar que, precisaria ser inventado na língua portuguesa. No Natal, uma das músicas cantadas pelas comunidades eclesiais de base no Centro-oeste foi composta por um lavrador do Pará. Tem como refrão: “Dentro da noite escura, da terra dura do povo meu, nasce uma luz radiante, no peito errante, já amanheceu”.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

PÁTRIA AFRO-LATÍNDIA

Marcelo Barros(*)


         Em todo o Brasil, a partir dessa 5ª feira, as comunidades católicas começam as novenas preparatórias ao Natal. É um tempo no qual a linguagem da fé toma a forma de um apelo mais profundo pela libertação. Na Bíblia, aprendemos que não adianta a libertação apenas social e econômica. Ela deve chegar a ser interior e espiritual. A realidade social é sinal e instrumento desse processo mais profundo que envolve todas as dimensões da pessoa e da comunidade humana. Por isso, como sinais do projeto divino que quer realizar no mundo, Jesus cura as pessoas, faz com que a multidão no deserto reparta a pouca comida que tem e reconcilia as pessoas consigo mesmas e com Deus.

          Desde o sábado 17, cada tarde, durante uma semana, as comunidades cantarão invocações que se concluem sempre pedindo pela libertação. Nosso irmão Reginaldo Veloso traduziu essas antífonas maiores compondo um refrão que, a cada dia, canta: “Vem, ó filho de Maria, vem ó nossa alegria. Quanta sede, quanta espera! Quando chega, quando chega aquele dia?”. As comunidades expressam em uma linguagem religiosa tradicional essa expectativa espiritual pelo reino divino manifestado na vinda de Jesus. Em um estilo mais civil e laical, os povos latino-americanos recordam, no mesmo dia 17 de dezembro, a mesma ânsia de libertação e mais vida para todos. Esta data nos traz dois aniversários importantes. No 17 de dezembro de 1819, em Angostura, foi proclamada a república na grande Colômbia, que unia diversos países do nosso continente. Nessa mesma data, em 1830, falecia ainda jovem o libertador Simon Bolívar, sem ter visto realizado o seu sonho de integração continental e de liberdade para índios e negros de todo o continente. Apesar de que Bolívar não conseguiu realizar a proposta da “pátria grande”, esse sonho permaneceu sempre o ideal profético de todos os verdadeiros patriotas latino-americanos e caribenhos.

          De fato, ao lutar pela integração do continente, Bolívar propôs uma grande Colômbia. Hoje, ele não usaria este nome que recorda o conquistador. Retomaria a idéia da Abya Yala, nome com o qual vários povos indígenas chamavam o conjunto do continente, plural e sem fronteiras que unia povos diversos na comunhão com a mãe Terra.

          O Brasil, colonizado pelos portugueses, teve menos contato com o movimento bolivariano. Entretanto, o general pernambucano Abreu e Lima, filho de um dos heróis da Confederação do Equador, fez parte do exército de Bolívar e participou ativamente das lutas que geraram a libertação da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.

          Atualmente, por vários países do continente, emerge um novo bolivarianismo, baseado na prioridade da educação para todos, na valorização das culturas indígenas e no ideal do bem viver, na convivência com o diferente e na comunhão com a natureza. Há poucos dias, em Caracas, governos da América Latina e do Caribe criaram oficialmente a CELAC, Comunidade integrada dos países latino-americanos e caribenhos, um passo a mais nesse processo de integração continental e de independência frente às grandes potências que antes mandavam nos nossos países. Cada vez mais nos tornamos não mais apenas a Abya Yala dos índios, mas uma grande pátria que podemos considerar afro-latindia, porque congrega em seu seio as comunidades afro-descendentes, os de culturas indígenas e os que se consideram mais latinos, todos unidos em suas diversidades e em sua marcha histórica. A celebração do Natal não é apenas a memória do nascimento de Jesus, mas de sua inserção em nossa história para testemunhar que Deus está com toda humanidade em seu caminho de vida y libertação. Toda experiência libertadora é sinal e testemunho dessa ação divina. Uma história judaica conta que chegou na sinagoga local a notícia: O Messias chegou e está na porta da cidade. Um jovem perguntou ao rabino: “O que ele está esperando?”. O rabino respondeu: “Ele espera por você!”. Cada pessoa humana é chamada a ser o messias, o consagrado de Deus.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

domingo, 4 de dezembro de 2011

CIDADANIA PLANETÁRIA

Marcelo Barros(*)


          O termo parece vir da ficção científica. Entretanto, nos ajuda a compreendermos que não somos apenas cidadãos de um país ou região e sim membros da única família humana que, por sua vez, é parte da comunidade da vida no planeta Terra. O termo universal não pode mais se referir apenas à humanidade. Diz respeito a todos os seres vivos e até a natureza que abrange um universo sideral que estamos apenas começando a conhecer.

          Nesta semana se completam 63 anos em que, no dia 10 de dezembro de 1948, a assembléia geral da ONU assinou a declaração universal dos direitos humanos. Esta primeira declaração diz respeito a direitos individuais de toda pessoa humana. Até hoje, muitos deles são absolutamente ignorados e desrespeitados. Onde existe pobreza extrema – e esta só tem aumentado nos últimos anos – vários dos direitos estabelecidos na carta da ONU são violados. As nações que assinaram a declaração nunca garantiram a todos os seus cidadãos o direito de comer, de ter saúde, de morar dignamente, de se locomover livremente e assim por diante. Muitas vezes, compreendeu-se como sendo democracia o sistema político que dá aos pobres o direito de viver na miséria, morrer na indigência e respeitar a lei da desigualdade social que garante o mundo apenas para uma elite de privilegiados. Há algumas décadas, um famoso ex-presidente do Brasil confessava a amigos: “Se eu governar o país para 20% do povo, me dou por satisfeito!”. A partir da década de 90, a emergência dos movimentos indígenas e populares começou a mudar isso.

          Desde a metade do século XX, a ONU aprovou outros documentos que contemplam direitos especiais: das crianças, idosos, povos indígenas e comunidades tradicionais... Hoje a comunidade internacional fala em “direitos da terra” e também em “direitos do ar” no sentido de que a humanidade não tem direito de depois de poluir o planeta, também encher de lixo e material tóxico o espaço sideral. Calculam-se em mais de 1800 satélites espaciais quebrados e peças de foguetes ou artefatos, soltos pela órbita da terra sem ser desintegrados pela força da gravidade.

          Os direitos coletivos dos grupos, etnias, categorias sociais e gênero são fundamentais porque se a comunidade não é respeitada em seus direitos a viver em sua terra, expressar-se em sua cultura própria e exercer a religião na qual crê, os indivíduos também não terão seus direitos respeitados. Além disso, os direitos básicos à segurança alimentar, saúde, educação e moradia se juntam aos direitos de sonhar, brincar, cantar e principalmente amar. Por isso, podemos dizer junto com Rubem Alves: “Para além de todas as misérias e sofrimentos, o universo tem mesmo um destino de felicidade. O ser humano deve mesmo a cada época e sempre reencontrar e reconstruir o seu paraíso”. Segundo o evangelho, no seu primeiro discurso público, Jesus começou proclamando as bem-aventuranças, isto é, caminhos para que as pessoas empobrecidas, sofridas, famintas de justiça e mesmo perseguidas por causa do projeto de um mundo novo sejam desde já felizes e abençoadas.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

 
 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

FIM DE UM MUNDO

Marcelo Barros(*)


          A proximidade do final do ano leva as tradições espirituais a pensar no que seria a meta da história, o fim para o qual vivemos e lutamos. No tempo antigo, essa idéia tomava a imagem de “fim do mundo”. Vários mitos falam sobre isso. Alguns prevêem um dilúvio que inunda tudo. Outras imaginam que a terra se acabará pelo fogo. A própria Bíblia, inserida na antiga cultura judaica, não escapa desse assunto. No Antigo Testamento, os profetas denominam o “dia do Senhor” o tempo do julgamento final e de um acerto divino sobre a história. Conforme os evangelhos, Jesus tomou esse tema para um de seus discursos (Mt 24, Mc 13, Lc 21). As Igrejas antigas lêem esses trechos do evangelho no começo do “tempo do Advento”, as quatro semanas que antecedem o Natal. Lidos ao pé da letra, esses textos provocam medo e contêm uma ameaça. Há quem interprete as guerras e desastres ecológicos atuais como se tivessem sido previstos na Bíblia. Se tudo está determinado, não há como se defender. Ao contrário, muitos crentes e não crentes sabem que a história tem sua autonomia. A presença divina não é para destruir e sim para renovar. Com seu senso de humor, Vinícius de Moraes dizia em uma de suas canções: “Se é para desfazer, por que é que fez?”. Se, por acaso, Deus nos livre, o mundo vier a sofrer um cataclisma e se acabar, isso acontecerá não por decisão divina e sim por culpa do ser humano que fabrica artefatos nucleares capazes de destruir a humanidade e todo o planeta. A destruição do mundo não é projeto de Deus e não foi isso que as profecias anunciavam. Jesus nunca falou do fim do mundo e sim de um mundo. Ele profetizou não o fim do planeta terra e sim de um tipo de sociedade dominante e decadente que tinha mesmo ser vencida. Para quem, naquela sociedade, era oprimido, o anúncio da destruição daquela velha ordem e a instauração de uma nova realidade mais justa e amorosa só podia ser uma boa notícia. Era um verdadeiro evangelho. Por isso, conforme Lucas, Jesus conclui o anúncio do fim daquele mundo dizendo: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se, ergam a cabeça e se alegrem, porque é a libertação de vocês que se aproxima” (Lc 21, 28).

          Os evangelhos usam as mudanças cósmicas como símbolos de transformações sociais. Dizem que o sol perderá seu brilho, se fará noite em pleno dia, a terra tremerá e haverá uma convulsão planetária. Tudo isso para significar que haverá uma mudança profunda. Conforme os mesmos textos, isso aconteceu na tarde em que Jesus morreu na cruz. Ao entregar sua vida, Jesus pôs fim a um mundo antigo e inaugurou um mundo novo. A renovação de toda a criação começou ali. Ainda não é a instauração definitiva do projeto divino no mundo.

          Podemos crer que essa mudança será inexorável, ainda que atualmente seja imperceptível. O amor divino inspira, mas não realizará essa transformação estrutural do mundo e da sociedade sem ser através de nós e de nossa ação solidária e unida. Por isso, Paulo escreveu aos cristãos de Roma: “Não se conformem com este mundo. Cuidem de se transformar pela renovação de suas mentes para discernir qual é a vontade divina, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12, 2). Essa nossa transformação interior é como semente e base da transformação do mundo.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DAR GRAÇAS É SUBVERSIVO

Marcelo Barros(*)


         Apesar de que, no Brasil, a data nunca se tornou tradição popular, na última quinta feira de novembro, quase todos os países do continente celebram “o dia de ação de graças”, tradição norte-americana desde o século XVII. Em nosso país, a data entrou em vigor, por um por decreto do general Dutra nos anos 40 e foi depois ratificado em 1966 pelo governo militar. Até hoje, é uma celebração mais civil que propriamente religiosa e consta de um calendário oficial com autoridades religiosas e políticas.

          Hoje, o Estado é laical e pluricultural. Isso não significa reduzir a zero quaisquer expressões de fé e sim cuidar da relação justa e fraterna entre todas as tradições religiosas, para que possam contribuir no serviço a toda humanidade. Em si, a laicidade do Estado não desestimula a celebração de um dia de ação de graças, seja a Deus, seja à vida, como cantava Violeta Parra: “Gracias à la Vida que me há dado tanto...”. O importante é garantir as bases autênticas da ação de graças. De fato, muitas vezes, na história, impérios legitimaram seu poder e suas conquistas atribuindo-os a Deus. Na América Latina, sempre em nome da fé, impérios europeus, ditos cristãos, invadiram os territórios dos índios e os escravizaram. Até hoje, governos imperiais se servem da religião para legitimar guerras e conquistas. Bancos põem em suas agências o letreiro: “Nós confiamos em Deus!”.

          Quem confia em Deus não precisa de militares armados como segurança. Não estimula seguros de vida, saúde, casa, carro e de tudo o mais. Há pessoas que fazem seguro até de partes do corpo. O capitalismo é um sistema baseado no medo e na insegurança e não na fé. A única confiança é no mercado. Não tem lugar para gratuidade. Por isso, só confia na contabilidade e não sabe o que é gratidão. Não tem como viver uma verdadeira ação de graças.

          A ação de graças supõe o reconhecimento de que todos dependemos uns dos outros. É na comunidade que crescemos como pessoas e o que temos nunca é apenas individual. Todos os bens da terra, sob certo ponto de vista, são sempre bens comuns. Por isso, só em uma visão socialista e comunitária, há lugar para a gratidão e a ação de graças. A ação de graças supõe uma postura de abertura e ternura em relação à vida, às pessoas e ao mistério de amor que fecunda o universo. É isso que as antigas tradições espirituais sempre procuraram ensinar.

          Na Bíblia, a palavra salmo vem de um termo hebraico que significa louvor. Um dos mais importantes livros bíblicos é o livro dos Louvores (salmos). Poderia se chamar de “palavras do nosso amor”. Os evangelhos mostram que, muitas vezes, Jesus deu graças ao Pai. Sua confiança de que, através dele, Deus atuava no mundo era tão forte que, algumas vezes, ele agradecia a Deus não apenas por fatos que ele havia visto ou vivido e sim por algo que ainda não ocorrera, mas que ele sabia que Deus iria fazer. Assim, quando foi ao túmulo de Lázaro, ele deu graças ao Pai, antes mesmo de ver o seu amigo sair vivo do sepulcro (Cf. Jo 11).

          Nesse espírito, vale a pena sim desenvolvermos uma cultura de dar graças. Não apenas em uma festa anual que parece mais comercial ou institucional do que verdadeiramente existencial. A ação de graças tem de ser a postura de cada dia da vida. Para verdadeiramente dar graças, vamos abrir os olhos para o processo social e político novo que a América Latina está vivendo e que pode tornar o mundo mais justo e mais fraterno.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

TEOLOGIA QUE INTERESSA AO MUNDO

Marcelo Barros(*)


          Por onde passo, escuto a pergunta: “Dizem que a Teologia da Libertação está morta!. É verdade?”. Quase todos se refugiam em um impessoal “dizem”. Poucos assumem que eles/as mesmos/as pensam isso. Há alguns anos, personagens da cúpula católica declararam que a Teologia da Libertação tinha morrido. Disseram isso para expressar que estavam livres de um problema incômodo. Afirmaram a morte desse caminho espiritual mais para desejar que isso aconteça do que por estarem convictos de que fosse real. Entretanto, como, nas últimas décadas, as Igrejas parecem mais conservadoras e mais centradas em si mesmas, alguns concluem que, por isso, não existe mais essa relação entre fé e compromisso social. Por tudo isso, vale a pena recapitular: Chama-se “Teologia da Libertação” toda reflexão que liga a fé e a espiritualidade com o compromisso de transformar esse mundo e servir às causas da justiça, da libertação dos oprimidos e da paz. Nesse ano, estamos justamente celebrando os 40 anos do surgimento desse tipo de reflexão teológica na América Latina. Em 1971 aparecia no Peru o livro “Teologia da Libertação” de Gustavo Gutiérrez, seguido de outros escritos. No Brasil, Rubem Alves e Richard Schaull, professores do Seminário Presbiteriano de Campinas, foram pioneiros nesse tipo de reflexão. Foram perseguidos pela ditadura militar e incompreendidos pela hierarquia de sua Igreja. Na Igreja Católica, Leonardo Boff, Hugo Assman e outros jovens trilharam o mesmo caminho. Desde o começo, a Teologia da Libertação se diversificou em vários ramos e setores. Alguns autores aprofundaram mais a relação entre o compromisso cristão e a economia. Outros pesquisaram como aplicar à Teologia alguns conceitos vindos da análise da realidade, feita pelos socialistas. Homens e mulheres aprofundaram uma leitura da Bíblia a partir da realidade do povo. O que fez de pensadores tão diversos companheiros de uma mesma causa foi o compromisso de sempre tomarem como base a realidade de sofrimento injusto dos empobrecidos para servirem à sua libertação. Eles e elas elaboraram uma teologia que expressa a fé com palavras atuais e de modo a ser melhor compreendida pelo homem e pela mulher de hoje. Pela primeira vez, a teologia passou a interessar a muita gente do mundo inteiro, independentemente das pessoas terem ou não fé religiosa. Muitos jovens e intelectuais passaram a sentir-se ligados à caminhada cristã.

          Na América Latina, durante séculos, o Cristianismo tinha legitimado a política injusta dos poderosos desse mundo. Com algumas exceções honrosas, desde a colonização, a maioria dos padres e pastores foi cúmplice da escravidão dos índios e negros. A Teologia da Libertação transformou isso. Não com discursos sobre a libertação, mas com um novo modo de fazer teologia a partir da realidade e em permanente contato com os movimentos populares. Esse método da teologia da libertação continua hoje vigente nas teologias indígenas, negras e feministas. Também, com toda razão, a categoria pobre e oprimido pode ser usada em relação à Terra e à natureza. Por isso, a Eco-teologia é uma expressão atual da Teologia da Libertação.

         Não tem sentido discutir se, por acaso, a Teologia da Libertação morreu, quando as correntes nela engajadas já realizaram três fóruns mundiais sobre Teologia e Libertação e preparam um próximo. Quem entrar em qualquer livraria mais sortida descobrirá vários livros escritos recentemente a partir dessa corrente. De qualquer modo, é claro, o importante não é a Teologia da Libertação. É a própria caminhada da libertação, hoje, sempre mais atual e necessária não apenas na América Latina, mas para todo o mundo. Quem procura viver a espiritualidade ligada à realidade da vida tem na Teologia da Libertação uma boa ajuda para aplicar à nossa realidade a palavra de Jesus: “Quando vocês virem essas coisas começarem a acontecer, levantem as cabeças. É a libertação que se aproxima” (Lc 21, 28).


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

domingo, 6 de novembro de 2011

SOMOS SETE BILHÕES

Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.com
(irmarcelobarros@uol.com)


          Deu nos jornais: na semana passada, exatamente na 2ª feira, 31 de outubro, nasceu a criança que nos fez completar sete bilhões de seres humanos no planeta terra. Não adianta especular quem foi essa criança e onde nasceu. Simbolicamente, foi escolhida uma menina que nasceu a zero hora do dia 31 nas Filipinas, mas é um dado simbólico e aproximativo. Entretanto, a ONU garante: somos sete bilhões. Basta dizer isso e surgem perguntas: a terra cabe tanta gente? Há alimento para tantas bocas? Como fica a ecologia?

          Evidentemente há problemas e a humanidade terá de tomar decisões importantes. Sem dúvida, o maior problema é que a população mundial cresce, principalmente, em países empobrecidos e onde a situação de alimentação, saúde e condições de vida são precárias. Enquanto no Japão e na França a média de vida ultrapassa os 80 anos, na Uganda, Nigéria e em outros países da África não chega a 48. Neste mundo, mais de um bilhão de pessoas passa fome ou não tem segurança alimentar. Quase um bilhão não tem acesso à água potável suficiente. Dois cidadãos norte-americanos ricos acumulam uma riqueza maior do que quase todos os países da África possuem para produzir, alimentar e cuidar de suas populações. A Terra sofre com o tipo de organização humana que lhe pede de mais a mais recursos para sobreviver e preencher suas aspirações ao consumo. Por quanto tempo, a terra poderá sobreviver como sistema de vida ao modelo de progresso tecnológico do mundo atual?

         Os estudiosos garantem que, sem recorrer a sementes transgênicas e à produção desumana de carne com hormônios, a terra pode alimentar e dar de beber a onze bilhões de pessoas. Já em seu tempo, o Mahatma Gandhi dizia: “A terra tem riquezas naturais suficientes para alimentar a humanidade e todos os seres vivos, mas não basta uma terra inteira para saciar a ganância dos que só visam o lucro pessoal e a ambição”. Em termos de espaço, um cálculo de cientistas revela que se colocássemos os sete bilhões de humanos um junto do outro, todos caberiam na ilha de São Luiz no Maranhão ou na área urbana da cidade de Los Angeles (Cf. Folha de São Paulo, 30/10/2011).

          Temos a consciência de que pertencemos a uma única família humana. Asiáticos, africanos, latino-americanos, europeus ou norte-americanos, temos o mesmo tipo de organismo, as mesmas fragilidades e uma necessidade comum a todos: a de amar e sermos amados.

          Muitos propõem um programa rígido de limitação de nascimentos. Entretanto, isso não é suficiente e profundo. O mais urgente é refazer as regras da convivência social, reformar a ONU para lhe dar poder de defender a justiça internacional e garantir o direito e a dignidade dos países pobres, assim como conceber um modelo de desenvolvimento baseado na justiça eco-social e no respeito à natureza. Formamos com todos os seres vivos uma só comunidade terrena. Quem pertence a alguma tradição espiritual e todas as pessoas comprometidas com a paz e a justiça se sentem chamados/as a colaborar para a construção desse mundo renovado, no qual o direito, a justiça e a paz possam brotar como flores de um jardim bem cultivado.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.


domingo, 30 de outubro de 2011

ENTREVISTA DADA À REVISTA ITALIANA JESUS *


Marcelo Barros
http://marcelobarros.com
(irmarcelobarros@uol.com)


“As raízes de todos os seres vivos estão entrelaçadas. Quando uma árvore é abatida, cai uma estrela do céu. Antes de cortar uma árvore, se deve sempre pedir permissão ao guardião das estrelas”. Estas são as palavras de Chank´in, ancião indígena lacandon, que o teólogo da libertação, o brasileiro Marcelo Barros cita no seu último livro traduzido na Itália: Ecologia e espiritualidade. Nesse livro, a teologia se tona poesia, cântico e hino. E também pranto. Mas principalmente esperança e alegria. É um pensamento vivo e vibrante, capaz de dialogar de forma rigorosa com nossa razão e, ao mesmo tempo, capaz de penetrar no nosso coração e no espírito e falar com a linguagem do amor, da empatia, da comunhão e cooperação sinérgica. “Fazer teologia” – nos mostra Marcelo Barros - não significa assolutamente subir em uma cátedra ou sentar em um banco ou ficar fechado na biblioteca, longe da vida real, mas caminhar juntos no mundo, com alegria e prazer.

Convidado por numerosas associações italianas a apresentar esse livro, Marcelo Barros percorreu recentemente várias regiões da Itália. O seu pensamento e o seu sentir teológico, assim como o de vários outros companheiros, hoje, se concentra em um tema de importância vital para toda a humanidade e para cada pessoa particularmente: a ecologia.

Mas a ecologia – assinala o teólogo do Recife – não significa só o estudo do ambiente ou o respeito da natureza. No sentido mais profundo e como a entende a teologia da libertação, é ecologia o dar respostas às questões sobre o sentido da vida, é ocupar-se da relação entre todas as formas de vida, é o encontro entre a ética, a filosofia, a espiritualidade e o compromisso ambientalista. Enfim, se trata de desenvolver a união de uma intensa experiência individual de contato com a natureza e uma postura crítica e de compromisso na luta pela justiça. Ecologia é a própria forma de viver, pensar o trabalho, o estilo de vida de todo o planeta. Quando falamos de ecologia, pensamos imediatamente no ambiente, mas a ecologia ambiental supõe uma ecologia social, uma sociedade inclusiva, que assuma o fato de que precisa de todos os seus componentes, principalmente daqueles que um sistema social fundado sobre o dinheiro tem marginalizado e excluído. Assim, uma sociedade que considera pessoas como extra-comunitárias, é ela, a própria sociedade que se coloca, paradoxalmente, como “extra-comunitaria”, isto é, ela se coloca fora da comunidade humana que é única e una.

Neste contexto, o que você compreende por espiritualidade?

E’ a capacidade de discernir o Espírito presente em tudo o que existe. É a energia de relação cósmica da qual todos os seres são expressão e que as religiões reconhecem como o amor divino na base dessa grande comunidade que é o universo. Há alguns anos, o grande teólogo Raimon Panikkar inventou o termo ‘cosmoteandrico’. Nós não estamos habituados a unir a espiritualidade e a contemplação com a natureza, com os elementos do firmamento, a terra e a água. Ao contrário, no tempo da colônia, quando os missionários espanhóis quiseram construir a catedral de Cuernavaca no México, tiveram de fazer ao lado uma capela sem teto para os índios, porque estes não podiam orar a Deus sem ver ao menos sobre eles o céu e as estrelas.

Você é um importante membro da teologia da libertação. Um dos “históricos”. Poderia dizer como está hoje esta teologia na América Latina e, em particular, no Brasil?

Nos últimos anos, a Teologia da libertação assumiu uma perspectiva mais mundial. Desde 2003, a Associação ecumênica dos teólogos e teólogas do terceiro mundo (Asett) participa em diversos fóruns mundiais de teólogos/as da libertação, onde se enfrentam temas de amplidão planetária a partir da fé ecumênica e das Escrituras. Hoje, a Teologia da libertação é muito mais ampla e compreende a Teologia feminista, a Ecoteologia, as Teologias indígenas, teologia negras e diversas outras teologias contextuais. No Brasil, depois dos anos 80, a Teologia da libertação manteve o seu compromisso com as comunidades de base, mas se abriu também aos movimentos populares, eclesiais e não eclesiais, como, por exemplo, os movimentos bolivarianos, não eclesiais, mas nos quais estamos inseridos.

Quais são os pontos principais em comum entre a Teologia da libertação e o movimento bolivariano?

O ponto comum fundamental é a opção pelos mais empobrecidos do continente, especialmente os índios e negros. Um outro é a opção pela educação como caminho de libertação, não através da luta armada, mas pelo caminho das eleições normais. Este é um aspecto importante. Por “educação” não compreendemos só a escolarização, que é muito importante e que hoje devemos democratizar. Nos países onde o movimento bolivariano conseguiu chegar ao governo, este processo de democratização está funcionando bem: há mais de três anos, a Venezuela foi declarada pela UNESCO, um país livre de analfabetismo - No Brasil, nós ainda temos 15% de adultos analfabetos. É demais. Mas, devemos compreender educação no sentido mais amplo, como o processo que ajuda as pessoas a se tornarem independentes e a terem um olhar crítico. Paulo Freire dizia que ‘analfabeto é a pessoa que não pode falar, a quem não são reconhecidos os direitos à cidadania, à justiça e à paz’. Também a Teologia feminista foi assumida pela Teologia da libertação. Como homem, eu me considero um teólogo feminista. Estou convencido de que o maior pecado, o mais estrutural dessa sociedade é o sistema patriarcal, do qual nasce também o patriarcalismo religioso eclesial’ imposto em nome da Palavra de Deus.

Como teólogo da libertação, o que pensa do novo Código florestal recentemente proposto e aprovado pela Câmara dos deputados brasileiros que autoriza um maior desflorestamento da Amazônia, com todas as desastrosas conseqüências que isso terá não só para o Brasil, mas para todo o planeta?

É claro que penso que é uma lei péssima. Foi proposta por Aldo Rebelo, que se diz comunista, mas, na realidade, colocou-se a serviço dos latifundiários. No Brasil, essa lei suscitou muitos debates e permitiu crimes ambientais. Se a presidente Dilma Rousseff assinar esta lei (e atualmente, não sei ainda o que ela vai decidir), só nos estados do norte do Brasil, essa decisão causará a perda de mais ou menos 71 milhões de hectares de floresta virgem e a perda da metade das áreas atualmente ainda protegidas. Em nome do chamado ‘capitalismo produtivo’ e dos interesses milionários das multinacionais e dos fazendeiros, a desmatação da Amazônia privará o planeta de um dos seus pulmões mais importantes, representará uma verdadeira tragédia para quatro milhões de famílias que serão expulsas de suas terras (imagine que 1% dos proprietários rurais é dono de quase 50% do território brasileiro), as pequenas e médias propriedades serão diminuídas e se colocará em risco a maior e mais rica rede hídrica da Terra (estima-se que no solo brasilerio, estejam 12% de todas as reservas de água doce do mundo). Por outro lado, no Brasil, estão construindo quase vinte hidro-elétricas no sul e outras no norte. É horrrível. Falam em necessidade energética, mas muitos técnicos mostram que seria mais útil e econômicos projetos menores. Como cristão e teólogo, apoio as organizações dos lavradores e dos indos. Todos os movimentos do campo são contrários a essa lei e os fazendeiros são todos a favor. Então, eu já sei de que parte devo me colocar.

Em seus escritos, você traçou um paralelo interessante e original entre o mundo natural, mondo humano e mundo divino. Assim como na natureza, encontramos a biodiversidade – assim a ‘biodiversidade’ deveria ser o princípio segundo o qual se deve instaurar relações corretas entre os seres humanos, entre os povos e com o próprio mistério de Deus. Você pode esclarecer melhor essa idéia?

Em um recente artigo na revista internacional de teologia, Concilium, falei da ‘biodiversidade’ existente no próprio Deus, uma espécie de hiero-diversidade”. Assim como a vida só existe se houver uma comunhão (não há vida sem conexão das espécies) e quando não há diversidade na natureza, se criam desequilíbrios graves, assim não existe “biodiversidade” entre os seres humanos na sociedade, isto é, interdependência, se criam mal estar social, incompreensão, conflito, injustiça. A própria realidade divina,la ‘estrutura’, por assim dizer, da Vida divina se revela assim: como hierodiversidade. As religiões e as tradições espirituais se fundamentam sobre um só aspecto ou sobre alguns aspectos do Mistério de Deus, mas nenhuma delas consegue chegar a essência completa do divino. Só pelo diálogo e pela acolhida recíproca de cada uma das revelações particulares que as as diversas religiões propõem, só assim, o ser humano pode aproximar-se mais desse mistério divino.

Então, isso significa que todas as religiões são iguais, uma vale exatamente o mesmo que a outra? Nessa perspectiva, não se cai em um relativismo religioso que ensina que qualquer coisa vale?

Em diversas ocasiões, o Dalai Lama tem declarado que a melhor religião, a mais verdadeira é aquela que lhe faz bem, ou seja, aquela que ajuda você a viver melhor a compaixão e a solidariedade. Sem dúvida, isso é uma simplificação. Mas, isso significa que não existe uma religião objetivamente melhor e outra pior. Todas as religiões, enquanto respostas humanas à revelação do amor divino são testemunhas verdadeiras e sinceras de uma particular e pecular revelação divina. Por opção de fé, sou cristão católico, mas como cristão quero aprender sempre das outras religiões.

Como você reage quando se usa a palavra ‘tolerância’ aplicada à religião?

É uma palavra perigosa, em dois sentidos. Normalmente a pessoa tolera o que não pode evitar. Tolerar significa suportar. Nesta linha de compreensão, tolerância não pode ser o modelo de relação entre as religiões. Se, diferentemente, tolerância se compreende como uma atitude de colaboração, respeito e acolhimento recíproco e como colaboração fraterna para enfrentar juntos as grandes causas humanitárias, aí sim, é certo que se pode usar o termo. Em 1992, a Assembléia do Povo de Deus em Quito, no Equador, elaborou o conceito de ‘macro-ecumenismo’, alargando a espiritualidade ecumênica que até então só se usava para o ecumenismo entre Igrejas cristãs. Na América Latina, queremos que as Igrejas cooperem com outros grupos religiosos no enfrentamento dos enormes desafios que tocam a todos os povos do continente. Macro-ecumenismo não visa uma unificação das religiões, assim como o ecumenismo não pretende que haja uma só Igreja cristã. O que se deseja é a comunhão e praticamente a cooperação entre elas.

Você acha que o Concílio Vaticano II esteja superado? As sociedades, o progresso tecnológico, tudo isso está imprimindo à vida atual uma velocidade nunca vista e colocando novos desafios. Diante disso, você concorda com o grupo que sugere que a Igreja Católica está precisando de um novo Concílio?

O Concílio Vaticano II não foi somente a assembléia dos bispos que se reuniu há 50 anos, mas o Concílio é também a experiência concreta dos bispos e das Igrejas e todo o processo que sucedeu ao Concílio na forma de receber e pôr em prática os documentos do Concílio. Houve um primeiro momento de entusiasmo, acolhimento e de grande fermento (sinais dos tempos como o surgimento das comunidades eclesiais de base, a promoção do laicato, abertura aos problemas do mundo). Parecia que, ali, a Igreja conseguiu dar um salto em seu caminho. Depois, a Cúria romana conseguiu imprimir um bloqueio e freou o dinamismo que se tinha iniciado na Igreja. Hoje, a Cúria interpreta o Vaticano II de modo que impeça qualquer mudança. O processo que antes aconteceu de recepção aberta dos documentos conciliares foi sufocado. Penso que João Paulo II comandou este movimento de conservadorismo. Ele fez isso, enquanto mostrava certa abertura ao mundo e, em alguns aspectos, boa capacidade de escuta. Hoje, ao contrário, do ponto de vista teológico e ecumênico, estamos vivendo um inverno, um momento de asfixia.

Conforme você pensa: do que depende este “inverno’ da Igreja Católica?


Esse inverno é fruo do medo, medo do mundo, da vida, da sexualidade, do comunismo, embora, hoje, os riscos sejam outros.


Você é natural da diocese de Olinda e Recife. Conheceu bem e foi um dos colaboradores de Dom Hélder Câmara que todos recordam como um dos bispos mais amados do mundo. O que ainda resta, hoje, da herança de Dom Helder Câmara?

Se você quer saber no Recife, depois de um longo e rigoroso inverno, devido à linha do arcebispo anterior que foi o sucessor de Dom Hélder e fez questão de eliminar toda a linha pastoral do seu antecessor, atualmente, ou seja há mais de um ano, a arquidiocese de Olinda e Recife recebeu um novo arcebispo e as coisas melhoraram. Dom Fernando Saburido é um homem de grande humanidade, aberto ao diálogo. Não toma posições fortes, mas é próximo às pessoas e isso é o mais importante.

Laura Ferrari


* Mantua, 24 de setembro de 2011

Obs: Se quer ver a versão original em italiano, acesse o blog do autor http://www.marcelobarros.com/search/label/entrevistas

 
 

domingo, 23 de outubro de 2011

A PROFECIA DO ENCONTRO DE ASSIS


Marcelo Barros(*)


          Tanto na nossa experiência cotidiana, quanto na tradição bíblica, comumente a profecia surge de quem está à margem das instituições e não de quem tem a função de governá-las. Por isso mesmo, precisamos valorizar a iniciativa profética do papa Bento XVI em convidar líderes religiosos das mais diversas tradições espirituais e até homens e mulheres não crentes para, nesta quinta-feira, 27, viverem juntos um dia de reflexão e de meditação sobre a paz e a justiça, em Assis. O papa fez isso para recordar os 25 anos do primeiro encontro desse tipo, promovido pelo papa João Paulo II. No 27 de outubro de 1986, em Assis, o papa reuniu em um encontro de oração mais de 200 representantes das mais diversas tradições espirituais. Na época, João Paulo II enfrentou pressões dentro do próprio Vaticano contra essa iniciativa. Ele a defendeu explicando que era um modo de motivar as religiões para se empenharem mais pela causa da paz e da justiça, que não é um assunto só social e político, mas profundamente espiritual.

          Agora, no atual contexto da Igreja e do mundo, retomar essa iniciativa deve ter sido mais difícil ainda para o papa Bento XVI. Em um recente pronunciamento à imprensa, publicado pelo Observatore Romano, o próprio secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Bertone, ao explicar o sentido desse encontro interreligioso em Assis, levou mais tempo em falar dos riscos do relativismo religioso e do sincretismo que esse encontro precisa evitar, do que propriamente dos valores positivos do encontro.

          Vamos falar claro: sem dúvida, o ecumenismo e o diálogo entre as religiões dificilmente avançarão a partir apenas de encontros de cúpula, sem participação direta das bases. Também devemos reconhecer: esta forma de encontro proposto pelo papa ainda é muito tímida: os/as representantes das diversas religiões se reúnem no mesmo lugar (a basílica de São Francisco) para orar, mas oram separadamente. Entretanto, seja como for, o gesto do papa em convocar esse encontro e coordenar essa jornada inter-religiosa pela paz e pela justiça é sim uma profecia para as Igrejas e para o mundo atual.

          Em primeiro lugar, não teria sentido o papa convidar os líderes de outras religiões para orar, se ele pensasse que essas religiões não valem nada e que sua oração é inútil ou até errada. Ao convidar pastores evangélicos, patriarcas orientais e chefes de outras religiões, como o Dalai Lama, o grande rabino de Jerusalém, sheiks muçulmanos, líderes de tradições africanas e de outras tradições espirituais, para refletir juntos sobre a paz e estar juntos para orar, o papa faz um gesto de reconhecimento do valor espiritual dessas religiões e testemunha que é importante uni-las a serviço da paz e da justiça. Este dia de encontro de oração em Assis revela que, cristãos e não cristãos, são chamados a viver sua fé em um mundo pluralista e na convivência com outras formas de expressar a fé. Essa convivência não põe em risco nossa identidade, mas ao contrário, enriquece nossa espiritualidade. É esta a profecia contida nesse gesto de Assis. Embora limitado pelas conveniências diplomáticas do poder religioso e ainda tentado pelo medo de ousar mais em nome da fé, esse gesto do papa antecipa a possibilidade de que as tradições espirituais do mundo se unam para trabalhar efetivamente pela paz e pela justiça. Orar pela paz e pela justiça pode levar os religiosos a ajudar a humanidade a compreender que, para vencer as violências, as guerras e as injustiças, precisamos organizar o mundo de outro modo e a partir de outros critérios que não sejam o lucro e a competitividade. A Jornada inter-religiosa pela paz e pela justiça que neste 27 de outubro o papa Bento XVI coordena em Assis nos chama todos nós a sermos, como os líderes religiosos reunidos neste dia, “peregrinos da verdade, peregrinos da paz”.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

domingo, 16 de outubro de 2011

A ONU E A ESPIRITUALIDADE


Marcelo Barros(*)


          Na próxima semana, a humanidade comemora o aniversário da ONU, criada em 1948, para cuidar do diálogo entre os povos e da paz no mundo. Neste aniversário de 63 anos, o presente que a humanidade quer oferecer à ONU é a reforma de seus estatutos e que as Nações Unidas aceitem como membros, não só os governos, mas também a sociedade civil internacional.

          Nestes dias, se completam dez anos da invasão do Afeganistão, realizada pelo governo dos Estados Unidos. O pretexto era a tal guerra preventiva e de que ali se escondia o Al Qaeda. Muitas pessoas inocentes foram assassinadas e o país inteiro destruído. Alguns anos depois, o presidente Bush teve de reconhecer que mentiu ou se enganou. Entretanto, tudo continuou como estava. Até hoje o país é ocupado por tropas estrangeiras. A ONU se pronunciou contra a invasão, mas nada fez para impedi-la. Também não denunciou a ilegalidade da invasão americana no Iraque, nem deixou claro que ao invadir o Paquistão, para assassinar Bin Laden, o presidente Obama se mostrou absolutamente igual ou mais ilegal do que o inimigo friamente massacrado. A recente recusa da ONU em reconhecer o Estado Palestino e assim assegurar a paz no Oriente Médio é mais um fato que revela a urgência de novas regras internacionais para o seu funcionamento e para que possa cumprir bem o seu objetivo de uma comunidade das nações.

          Há quem pense que um assunto como este nada tem a ver com a fé e a espiritualidade. Entretanto, todas as grandes tradições espirituais mostram que Deus tem um projeto divino para o mundo e este projeto é a paz e a aliança (shalon) entre todos os seres humanos. Antigos escritos hindus dizem que o mundo inteiro deve ser uma só sangha, uma única fraternidade humana. Buda ensinava que o mundo deveria ser organizado a partir da compaixão, solidariedade com todos os seres vivos. O Corão propõe organizar o mundo a partir da justiça e da misericórdia. As tradições afro-brasileiras falam no Axé, energia vital de amor, como princípio organizador da sociedade. A Bíblia diz que Deus tem um projeto para o mundo: a organização da humanidade em uma só família humana. O Evangelho diz que Jesus morreu “para reunir na unidade todos os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo” (Jo 11, 52). Paulo escreveu que, na cruz, Jesus aboliu o muro de inimizade que separava os povos e fez de povos diferentes um só povo (Cf. Ef 2, 13 ss). Hoje, a Carta da Terra afirma que, junto com todos os seres do planeta, somos uma só comunidade da vida.

          Nestes dias, os meios de comunicação mostram, em vários países do mundo, manifestações da sociedade civil e principalmente da juventude pedindo outra forma de organizar o mundo. Nos últimos dias, somente nos Estados Unidos, marchas e manifestações pacíficas reuniram mais de 50 mil pessoas. Elas se manifestaram em 53 cidades e fizeram uma caminhada até Washington para protestar contra o fato do governo norte-americano agir, não como representante do povo e sim como mero funcionário dos grupos financeiros internacionais.

          As transformações sociais e políticas, para serem profundas, devem ter como base uma profunda renovação cultural. Sem isso, as mudanças permanecem superficiais. Uma espiritualidade ecumênica e humana, não necessariamente ligada às religiões e sim à sacralidade da vida, ao respeito à natureza e à dignidade de todo ser humano, sem dúvida, serão fermento de um modo de organizar o mundo e a vida de forma mais justa e amorosa. Então, a ONU merecerá parabéns por seu aniversário e por ser sinal e instrumento de uma humanidade renovada.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

UM CINQUENTENÁRIO PERIGOSO

Marcelo Barros(*)


          Para qualquer instituição, todo projeto de reforma soa como ameaça. Até na vida humana, as fases de mudança são épocas de crise e dor. Nestes dias, a Igreja Católica inicia o 50º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II, em Roma, no dia 11 de outubro de 1962. Desta semana até o próximo ano, no mundo inteiro, diversos eventos recordarão aquele evento que deu início a uma renovação da Igreja e a pôs em diálogo respeitoso e construtivo com o mundo contemporâneo. Se a Igreja quer ser fiel ao que, hoje, o Espírito de Deus diz às comunidades e ao mundo, deve prosseguir, com coragem e determinação, o diálogo com a humanidade e o trabalho exigente da sua renovação interna para melhor testemunhar o projeto divino neste mundo.

          Há 50 anos, na Igreja Católica, o apego a tradições dos séculos medievais e modernos, como se existissem desde os tempos evangélicos, era ainda mais forte do que é hoje. Por isso, a maioria dos católicos estranhou quando, na noite de 25 de janeiro de 1959, o papa João XXIII participou de um culto pela unidade das Igrejas cristãs e declarou ao mundo a decisão de convocar um concílio geral que reunisse todos os bispos do mundo para renovar a Igreja Católica em vista de melhor se adequar ao caminho para a unidade com outras Igrejas cristãs.

          João XXIII fazia uma distinção entre a Tradição (com t maiúsculo), memória da fé que vem de Jesus e as tradições (com t minúsculo), costumes que, durante o decorrer dos séculos, foram se juntando como elementos culturais na forma da Igreja ser. Para a renovação, o papa propunha dois critérios: voltar às fontes da fé e, ao mesmo tempo, atualizar o modo de ser e a linguagem da Igreja.

         O Concílio Vaticano II teve quatro sessões e se encerrou em dezembro de 1965. Ofereceu à Igreja e ao mundo 16 documentos que foram referência para a renovação eclesial e para o diálogo com o mundo. Desde esta época, o mundo viveu não apenas uma época de fortes mudanças, mas uma verdadeira mudança de época. Mais de 80% das invenções atuais que parecem normais nas casas e na vida das pessoas de hoje não existiam no começo dos anos 60. Em todo o mundo as sociedades de cultura agrária se urbanizaram. Mesmo quem vive no campo, convive com carro, assiste televisão e, de alguma forma, está dentro de uma cultura urbana. Nesta sociedade, o conhecimento experimental é fundamental. A sociedade se organiza através de uma permanente transformação. Um programa, hoje, atual, dentro de seis meses estará desatualizado. Em todas as ciências a mudança é contínua e progressiva. Dentro de um contexto cultural assim, mesmo uma sociedade religiosa não pode se mostrar simplesmente avessa a mudanças.

          No Evangelho, ao falar sobre a religião, Jesus diz: “Não adianta colocar remendo novo em roupa velha. O remendo repuxa o pano e rasgão fica maior ainda. Ninguém coloca vinho novo em barris velhos porque o vinho novo arrebenta os barris velhos e tanto o vinho como os barris se perdem. Para vinho novo (que é o evangelho), temos de ter barris novos” (Mc 2, 21- 22). No Apocalipse, a única palavra que é escutada diretamente de Deus é: “Eu sou aquele que faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5). Esta palavra de Deus ressoa hoje para cristãos e não cristãos como um novo apelo para nos abrirmos à permanente mudança inspirada pelo Espírito de Deus nas Igrejas e no mundo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

DANÇAR A VIDA


Marcelo Barros(*)


          Em regiões tropicais, não se percebe muito a entrada da primavera que chegou ao hemisfério sul na quinta-feira, 21 de setembro. No entanto, no Centro-oeste, mesmo se as chuvas atrasaram e as queimadas ainda continuaram a ferir o coração da nossa terra, a paisagem começa a mudar. Aqui e ali, as árvores florescem, os cajus começam a dar fruto e o campo verdejante celebram a renovação da vida. Grupos indígenas sobem montanhas para celebrar ritos de cura da terra.

          A primavera é o sorriso da natureza que dança a vitória da vida. Por isso, as religiões antigas expressam sua adoração ao Espírito, não apenas com palavras, mas com dança. Para as tradições hindus, a dança é caminho para a sadhana, integração do ser humano no cosmos. Dançar é expressar o mistério divino, presente em nós, através da libertação do corpo e do espírito. Nas tradições afrodescendentes e indígenas, a dança é elemento de união com Deus. Na Bíblia, a Páscoa significa passos e começou como dança de primavera. Essa festa da natureza é sinal da ressurreição de Jesus, de todos nós e do universo. Vários salmos bíblicos foram compostos para ser dançados. Profetizas como Miriam, irmã de Moisés e Débora, juíza de Israel, expressaram a luta de libertação do povo através de cânticos e danças.

          Mesmo se não sabe, toda pessoa carrega no mais íntimo de si uma dança que é só sua. Já nascemos com essa dança no coração, mesmo se, muitas vezes, a sociedade dominante e algumas tradições religiosas a reprimem. Por isso, muita gente não associa dança com espiritualidade. Entretanto, quando vencemos os preconceitos e permitimos que a energia da dança que está em nosso ser mais íntimo se expresse, estamos trabalhando para nos unificar interiormente. Ao mesmo tempo, como nas tradições mais antigas, ninguém dança sozinho, através da dança comum, colaboramos para que as relações humanas sejam mais afetuosas e o mundo se torne mais lúdico e feliz.

          Atualmente algumas comunidades cristãs e de outras tradições espirituais redescobrem a dança como expressão de espiritualidade. Entretanto, é preciso que essa dança não seja apenas rito externo. Deve despertar em nós uma renovação do nosso ser e possibilitar que nossas comunidades eclesiais vivam, como desejou em seu tempo o papa João XXIII, uma primavera nova de diálogo e abertura a toda humanidade. Essa nova primavera da Igreja e do mundo pode contribuir para que a sociedade atual reencontre caminhos de esperança para a crise civilizacional em que se debate. O próprio diálogo aberto e sincero será como a expressão de uma dança interior e libertadora. Que essa dança de uma vida nova se espalhe pelo mundo, ajude as pessoas a construir uma profunda renovação ética da sociedade e seja sinal e instrumento de união com todo o universo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

AGENDA DO BEM VIVER


Marcelo Barros(*)


          Por toda a América Latina, existe atualmente um conceito que ganha força e plena aceitação. Embora possa concretizar-se de formas diversas formas e nem sempre seja fácil definir, em nosso continente, aumenta cada dia o número das pessoas que buscam o que os índios andinos chamam Kwasay Sumak, o Bem Viver.

          Essa proposta, vinda das comunidades Aymara e Ketchua passou a fazer parte das constituições nacionais da Bolívia e do Equador. Ali se afirma claramente: o objetivo principal do Estado é organizar a vida da sociedade, para que todos os homens e mulheres alcancem o bem viver, ou seja, uma qualidade de vida saudável, respeitadora da natureza e capaz de fortalecer os laços comunitários. Não se trata apenas de melhorar as condições de vida. Não basta viver melhor. Queremos alcançar um estilo de vida pleno, sustentável e feliz.

          Para o final de outubro, o 8º Encontro Nacional do movimento Fé e Política tomará esse assunto como eixo principal. Esse também é o tema geral da Agenda Latinoamericana Mundial 2012: “Bem viver, bem conviver”. Lançada pela primeira vez no contexto dos 500 anos da colonização da América, em 1992, a cada ano, a Agenda Latinoamericana vem se firmando como uma publicação importante. Atualmente, é um dos livros mais traduzidos e vendidos no mundo. No Brasil, é editada pela Comissão dominicana de Justiça e Paz que, junto com outras entidades, a apresentará no Centro Cultural Cara Vídeo (Rua 83, n. 361, Setor Sul), às 19, 30 h dessa quarta-feira, 28.

          A cada ano, mais pessoas do mundo inteiro conhecem e apreciam a Agenda, com o seu formato de livro e a grande quantidade de informações que contém. Além de ser agenda, com calendário e espaço para que cada pessoa escreva seus compromissos, a Agenda contém uma série de artigos, comentários e análises, neste ano, todos sobre o tema do bem viver, bem conviver. Na carta inicial que, a cada ano, introduz o tema geral, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia e profeta dos povos latino-americanos, reflete que, depois de ter, no ano passado, tomado como questão o mistério de Deus, de certa forma, é natural que, neste ano, a Agenda assuma o compromisso de aprofundar o caminho da vida humana. Afinal, quanto mais nos aproximamos verdadeiramente de Deus, mais nos tornamos sensíveis à vida humana e de todo ser vivo.

Em um tempo no qual a sociedade parece ter perdido a referência a valores, a cada ano, a Agenda Latinoamericana nos ajuda a retomar e aprofundar as grandes causas em que cremos. São elas que dão sentido à nossa vida. Dom Pedro Casaldáliga chega a dizer: “Nós somos aquilo que amamos, o que fazemos e o que sonhamos. (...) Somos teimosamente sonhadores”.

A Agenda Latinoamericana Mundial 2012 nos convida a retomar a Utopia possível de uma vida libertada, digna e sustentável na convivência com todos os seres vivos do planeta. Para o mundo atual, mergulhado em profunda crise econômica e de civilização, isso implica em superar a ditadura do mercado, como deus supremo e exige organizar a sociedade de modo que nenhuma pessoa humana, nem a terra, a água e os outros seres vivos sejam maltratados e explorados como meras mercadorias.

Para quem vive a espiritualidade, o conceito indígena do bem viver se traduz em diversas palavras sagradas que, de um modo ou de outro, todas as tradições espirituais cultivam. Os afrodescendentes chamam de axé, a energia vital, os hindus denominam de nirvana, os judeus incluem no conceito de shalom, os evangelhos cristãos usam o termo reino ou reinado de Deus. Não podemos considerar essa meta como algo muito distante e dificilmente alcançável. Ao tomar este tema para este ano, a Agenda Latinoamericana 2012 o coloca no calendário e nos convoca para torná-lo real para ser vivido desde agora. No evangelho, Jesus diz: “O reino de Deus não vai chegar de forma espetacular. Não se poderá dizer: ei-lo aqui ou ali, porque, de fato, o reino de Deus já está no meio de vós. O reino de Deus está em vós” (Lc 17, 20 - 21).