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sábado, 31 de dezembro de 2011

de dezembros e natais


Euza Noronha



tanto fazia
estrelas do amanhã
ou árvores salpicadas de presente
:dezembros
eram sempre painel
de corridas e ausências

um dia
a vida invejou-se dos natais

rompeu
nascedouro de anos
e esperanças

o menino
se fez salvador
de todos os dias

domingo, 4 de dezembro de 2011

norte de minas

Euza Noronha


comendo chão
vai o pai
vai a mãe
vão os filhos

dentro deles
vai a foice
dilacerando o estômago

(enquanto me lambuzo
de chocolate e consternação)

 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

lembrando adélia prado

Euza Noronha


hoje quero pausa
na sofisticação da linguagem

esquecer alexandrinos e Baudelaire
esconder rebeldia rimbaudiana
apagar traços e pretensões

hoje quero cantar o amor
olhando peixes sendo descamados
descalçar pés da longa estrada
e embalar nos braços
o silêncio acompanhado

hoje
quero apenas ser noiva da vida

domingo, 6 de novembro de 2011

gelo & sal

Euza Noronha


se a mente
caminha burguesa
por dormentes quebrados

se a alma
hiberna platônica
entre o gelo e o sal

se o corpo
esconde desejos
em cólicas oblíquas

a vida
vira exposição de motivos
e suicida fervorosa

na
harmonia

do medo

domingo, 23 de outubro de 2011

ciranda feminina

Euza Noronha


fecha os frascos de sonhos
amarra as asas na prudência
e mergulha o dia
em sentidos plurais:

é filha a preencher
as embocaduras da memória

é mãe a lapidar
as savanas das diferenças

é mulher a incinerar
os arquivos da monotonia

no tempo de volta
dos pássaros ao ninho
serena
sobre colchões de poesia

e reinaugura-se essência

:menina

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ecos do silêncio

Euza Noronha


solos de guitarra flamenca
morrem no ar
sementes regadas a rum
germinam no solo

do lado de cá do espelho
a bela adormecida
embebeda-se de sonhos

e dedilha alucinadamente
o fio da navalha

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

HONESTIDADE

Euza Noronha


Tem dias que a vontade é escrever sem compromisso. Falar de amor, de saudades, de sentimentos que fazem de mim o ser comum que sou. Mas assisti a uma cena que me deixou questionadora. E me lembrei de um antigo texto onde falo sobre um tema que é reincidente na minha escrita. Reincidente na vida, para ser mais exata. É a condição humana mais uma vez sendo repensada. Somos nós e o nosso retrato nem sempre pensado porque raramente visto por nós.

Num momento em que estamos todos demonstrando vários sentimentos em relação ao escancaramento da corrupção dos nossos representantes, é preciso também nos colocarmos enquanto agentes deste processo. O termo corrupção tem vários significados em qualquer dicionário. Condicionamos a associá-lo apenas ao servidor público e ao político. Mas a acepção correta da palavra é ato, processo ou efeito de corromper, modificar, adulterar as características originais de algo em causa própria ou de outrem.

Façamos então nosso exame de consciência. Quantas vezes na vida nos colocamos frente a uma situação em que está em nossas mãos mudar o rumo ou a característica de algo a nosso favor ou a favor de alguém que nos interessa? E quantas vezes retrocedemos em nome da nossa própria honestidade? Não estou me referindo aos grandes escândalos, mas a pequenezas como usar de amizades para ganhar uma vaga de emprego, para não enfrentar uma fila, para obter vantagens numa compra qualquer.

Ora, dirão, mas é indecente comparar isto ao rombo bilionário dos cofres públicos. Então eu me pergunto: aquele que é hoje capaz de ser pouco ético em situações corriqueiras terá ética numa situação de poder? Aquele que não se sente prejudicando ao usar de influência para levar alguma pequena vantagem ou é valorizado por sua esperteza, sentir-se-á roubando ao ficar com o dinheiro do estado – que na visão comum é de todos nós e assim sendo é também deste cidadão que está em posição de usá-lo em benefício próprio?

Honestidade é caráter e caráter é formação familiar. Não se aprende a ser honesto na escola. Não há universidade capaz de formar um sujeito honesto. Mas aprende-se na convivência diária lá na primeira infância. Uma criança aprende a mentir quando assiste ao pai ou mãe ou um adulto de sua confiança mandando dizer ao telefone que não está em casa. Aprende a não ser honesta quando escuta qualquer um deles justificar uma falta ao trabalho com uma doença imaginária. Situações comuns, normais e consideradas inócuas em todas as classes sociais. Mas não o serão na formação de uma criança que olha a quem admira e confia como modelo a ser seguido e defendido.

E por aí caminham os ensinamentos que fazem de nós seres exigentes em relação à honestidade do outro, mas completamente paternais em relação à nossa própria. Talvez este seja um bom momento para repensarmos em conceitos como ética, moral e honestidade. E nos lembrarmos que é dever nosso cobrar probidade e honestidade dos nossos representantes, seja no executivo ou no legislativo. Mas é dever precípuo cobrar de nós mesmos, de nossos familiares, de nossos amigos, e até mesmo de desconhecidos, atitudes mais coerentes com a honestidade que pregamos.

Quem sabe assim ser malandro esperto deixe de ser um valor para o brasileiro?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

quartier latin: um dia na história

Euza Noronha


a revolta
transforma neon em fogo
e o sangue volta a arder
nas veias do imperialismo europeu

as chamas
iluminam a velha hipocrisia:
queimam-se panos
que escondem a xenofobia
rasgam-se véus
da falsa democracia racial

do caos
salta uma nova ordem

(enquanto do lado de cá
do atlântico
fecham-se cortinas do iluminismo
e trava-se luta
contra insetos medievais)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

revoada


Euza Noronha


contrariando
o tempo
que salga
areia
apassarinho-me

estilhaço ovo
e desafio vento
a sustentar
meu vôo

(se o hoje
é o caminho
invento a revoada)





segunda-feira, 15 de agosto de 2011

fenomenologia


Euza Noronha


desprevenidos
não ouvimos o som dos trovões
não cobrimos os furos do teto
não fechamos as frestas da porta

: a chuva lavou o tesão

agora
na indiferença batendo portão
na inércia apagando janelas
desenha-se
(atônita)
a indagação:

por que se fez
o buraco na camada de ozônio?


domingo, 31 de julho de 2011

pai

Euza Noronha


quando eu ainda te via
príncipe dos meus contos de fada
botas grandes e negras
roubaram nossas histórias

(trocaram nossas Pérolas Infantis
por Brasil Nunca Mais)

e devolveram-te herói
quando eu apenas queria
teus beijos de sapo

domingo, 17 de julho de 2011

andorinha

Euza Noronha


com olhos de coisa
as páginas me chamam:
senado de ilusões
senhores de bigode
arremetidas de pássaros fálicos

(não sei ler
as entrelinhas das sombras)

caos
queda livre
querer-ser

ponho-me nua
na vontade de vomitar

fecho os jornais

amanhã
serei andorinha

domingo, 3 de julho de 2011

concerto

Euza Noronha


no começo
foram notas
barrocas:

olhos
inventaram
promessas
de sons

depois
o desejo
deu o tom:

lábios
selaram
harmonia
do gosto

línguas
fizeram
o compasso
em sol
caos
stradivarius

e o beijo
se fez sinfonia
(eterna
enquanto
endorfina)

domingo, 19 de junho de 2011

amar: advérbio de modo

Euza Noronha


inevitável
perambular sem rótulo
à beira do pop
escutando blues

inevitável
perder-se no rock
do amor inventado
cazuzando azuis

inevitável
dissociar sem dor
o eu do tu

(só não é inevitável
permanecer casmurro
sonhando capitu)

domingo, 5 de junho de 2011

dia dos namorados

Euza Noronha


como se fosse barco à deriva
navega lembranças
escutando silêncio de gestos antigos:

bocas apaixonadas tecendo beijos em palavras
mãos de carinho borboleteando desejo de ser

o relógio rouba-lhe a memória
joga-lhe o tempo de agora:

dona de casa com velas arriadas
velejando rotina de salaquartocozinha
toalhas brancas pratos e beijos de plástico

quebra pratos
cospe acrílico
rasga cortina

:é dia dos namorados

nua em sangue veste-se de menina
e redesenha-se na madrugada do amor

domingo, 22 de maio de 2011

elos

Euza Noronha


essenciais
não são as rimas
nem a métrica
dos olhos

essenciais
são os elos
que tecidos à maneira de teia
juntam sentidos e sentimentos
e fazem beijar-se
os olhares
diferentes

domingo, 8 de maio de 2011

deserto

Euza Noronha


face mergulhada
em correntezas do passado
abro frestas na memória:

mil e uma tempestades
dos hormônios adolescentes
sonharam no corpo
as areias do deserto
e seu Sheik de Agadir

das lembranças
emerge o tempo e sua razão:
só sente a aridez
quem nunca se fez oásis

domingo, 24 de abril de 2011

lua cheia em dois atos

Euza Noronha


no sertão
a sede emudece a voz
e a lua ilumina a peste
espreitando o golpe final

na rua
a lua brilha matreira
em pupilas dilatadas
pela lâmina do punhal

domingo, 10 de abril de 2011

com-trato

Euza Noronha


se poesia
é sopro de vida

por que então
é cada vez
menos fácil
arrancar do pulmão
a respiração dos versos

e  moldá-la

na meta
ou física
da linguagem
poética

sem quebrar
o contrato
entre o pensar
e o sentir?

 
 

segunda-feira, 28 de março de 2011

ecossonância

Euza Noronha


homens e pássaros
se confundem
nos ninhos
nos frutos
nas dores
entre pássaros
há afeto
pela árvore madura

nos homens
os lucros
apagam o futuro