quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Poeta* – Patricia Tenório & O Mundo – IV


Patricia Tenório


02/10/08


Colo meus olhos no teto

Para ler nas notícias

Alguma sombra de outros tempos

Ontem disse Eu te amo

Oh, palavra

Te escondestes nas colunas escuras

Do texto

Para me mostrar que não existe

Ontem hoje amanhã

Apenas um emaranhado

De veias que pulsam

E pulsam

E pulsam

Não me encontro nelas

Só na desconfiança

Que a ti pertenço

No silêncio dos teus cantos

No sibilar desta língua

Que me bebe inteira

Sorve, passeia, costura o signo

Retorna ao primeiro instante

Atravessa a ponte que nos une

Desemboca no mar do sentido

Possibilidades

Nexo

Rimas

E as cartas dO Poeta



Il Poeta


02/10/08

Traduzione: Patricia Tenório



Fisso attenta il tetto

Per leggere fra le notizie

Qualche ombra d’altri tempi

Ieri ti ho detto “Io te amo”

Oh, parola

Ti sei nascosta tra le colonne scure

Del testo

Per mostrarmi che non ci sei

Ieri oggi domani

Soltanto un groviglio

Di vene che pulsano

E pulsano

E pulsano

Io non mi trovo in loro

Solo nella sfiducia

Di che a te appartengo

Nel silenzo di tuoi canti

Nel sibilare di questa lingua

Che me beve intera

Sorbe, passeggia, cuce il segno

Ritorna al primo istante

Attraversa la ponte che unisce

Sbocca nel mare dei sensi

Delle possibilità

Nesso

Delle rime

E delle lettere d´Il Poeta

__________________________________

* Partecipante da Trimestrale di Poesia Arte e Cultura dell´Accademia Internazionale Il Convívio, Itália, Outubro – Dezembro de 2010




LUZ, CÂMARA, AÇÃO...


Paula Barros


2012 vai entrar em cena. Um grande espetáculo. Precisa de cada um de nós para atuarmos. Os papéis vão mudando ao longo do ano. De protagonista a coadjuvante. De diretor a plateia. Estamos em cena, escrevendo a própria história, dirigindo os atos, assistindo, aplaudindo, vaiando, se emocionando, faxinando, reciclando....somos versáteis. Somos um e somos muitos. Que venha 2012. O nosso papel vamos construindo ao longo dos dias. Talvez alguns de nós, ou dos nossos vão sair de cena. Outros vão entrar neste espetáculo que continua, que se reinventa a cada dia. 2012 vem propondo muita luz e muita ação, inspiração e determinação, ou calmaria, que assim seja, e que a gente não esqueça ele vai estrear, mas cada um de nós é a grande estrela deste espetáculo chamado Vida. Luz, câmara, ação....2012 estreia, os aplausos serão para nós.

Desejo a cada um muitos momentos de felicidades, de realizações, de paz, de saúde e tudo mais de bom. E caso apareça momentos de dificuldades, desejo serenidade, discernimento e tranquilidade para resolver ou saber lidar.


Obs: Imagem enviada pela autora.

UMA VIÚVA

Regina Carvalho
reginahcarvalho@hotmail.com


Uma viúva
ando entre vivos,
deslizando e frágil.
Com olhos apenas
para o que não vejo,
testemunha ocular
de um século de poeira,
raspo o sarcófago
com os dedos nus
e tudo ao meu redor
não é o que parece

PROCURA SER FELIZ

Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br



Vai!
Olha dentro das igrejas,
em meio ao chafariz,
pergunta para as estrelas,
mas..
PROCURA SER FELIZ!
Vai!
Tira essa máscara de tristeza,
a vida já vai longe..
Olha!
Passou por ali!
Não deixa ficar distante!

Vai agora
que estou te olhando!
Tudo na vida é por um triz
e se não aproveitar
         quando está passando
vai ser triste sim!
Tantos estragam suas vidas,
fazem verdadeiros rombos,
depois acham muito estranho
quando deparam com as feridas!
Não sei se estás me escutando,
mas aproveita!
Pega a direita ou a esquerda,
mas VAI!
Olha! A Felicidade já está se virando.. está se virando..


Obs: Imagem enviada pela autora.


O MOMENTO DA MUDANÇA


Ronaldo Coelho Teixeira


Cada um de nós já sentiu o momento da mudança. Podemos não tê-lo percebido, mas o sentimos. E quando ele chega não importa a idade. O que acontece é que geralmente estamos atarefados demaioucentrados em outras questões, o que nos faz ignorá-lo na maioria das vezes.

O momento da mudança é muito importante. É o nosso organismo/psiquê avisando que algo já morreu e que é necessário substituí-lo. Pode ser o simples ato infantil de, numa certa faixa etária, perceber que aquele brinquedo tão desejado já não tem mais espaço nas nossas brincadeiras. Ou o amor que sentimos por alguém num determinado período da adolescência, e que precisamos sufocá-lo. Ou ainda, na fase adulta, a terrível e temida necessidade de se mudar de emprego ou até mesmo de profissão.

Instinto. Este é o principal fator que nos faz perceber esse crucial momento. Mas, do Século XX para cá, uma grande parte de nós o traz morto dentro de cada um. Porque com o desenvolvimento industrial e científico, temos sido levados a produzir tanto que a nossa vida parece ter ficado robotizada. E um dia parece não oferecer tempo suficiente para que possamos fazer tudo o que devemos.

Desde jovens, a cobrança por “um lugar ao sol” é muito grande. Temos que estudar, fazer cursos profissionalizantes e trabalhar, enfrentando uma competição agonizante e interminável. Pois as novidades tecnológicas inundam os quatro cantos do planeta, feito um tsunami de avassaladoras e obrigatórias informações, do qual não conseguimos fugir.

Não há escapatória. Terminamos atropelando aos outros e a nós mesmos. E, nesse atropelo, o instinto, que necessita de alguns minutos de paz e serenidade para ser percebido, passa ao longe.

Mas o momento da mudança vem. Sempre. Ele geralmente se revela também por uma carga excessiva de angústia ou de desilusão, feita a agonia indefinível que precede uma tragédia iminente.

E ele chega pra nos dizer que algo precisa ser mudado. Que aquele panorama ou ponto de vista já não nos serve mais, como uma roupa que ficou pequena e que por isso precisamos abandoná-la. Ele vem para que nós mesmos possamos escapar da morte em vida, renascendo com a sua força no caos cíclico e eterno da mutação de todas as coisas.


Obs: Texto retirado do livro do autor – Surtos & Sustos



A VIDA TE ESPERA LÁ FORA

Vilmar Locatelli
 vlocatelli@hotmail.com



Onde está a razão
De viver a esmo
A tropeçar no ermo do existir?
Começar é fácil
É só deixar os instintos...

Fluidos dançarem sorrateiros
Na busca cabisbaixa da ânsia do prazer
Ao encontro com o seu nada.

Divagando entre os desejos
Só lampejos de gente
Que se contenta
Com a frase feita de mel..
Na ilusão candente
Da paixão que traz

E só buscar no abrigo do teu silêncio
A farsa para inventar um personagem
Capaz de amar,sorrir e esquecer

E ainda amanhecer convicto
Que o ímpio foi derrotado
E mesmo sem querer
Ocupar o lugar que sempre foi seu:
Atrás de um imenso e oculto universo
Disfarçando as cores e o sabor amargo de si

Desculpas...
Por não ter aprendido a devolver amor
Pela vida que te espera lá fora.



DA PRISÃO, DA ALGEMA E DA DÚVIDA

Vladimir Souza Carvalho *


          Eu estava lá e vi. O africano foi preso, pela Políce, no enorme sítio onde a Torre Eiffel se ergue. Primeiro, foi dominado, o policial lhe segurando por detrás. Depois, algemado, para enfim ser conduzido a sede policial ali mesmo instalada. O que fazia o africano? Vendia bugingangas (óculos, exemplares diminutos da torre, leques e similares), ao lado de outros colegas do ramo, que conseguiram se livrar do cerco, debandando do local. Apesar da pátria francesa ter legado ao mundo civilizado a idéia de liberté, egalité e fraternité, a algema foi utilizada no campo de um ato que, entre nós, no máximo, se constituiria apenas numa minúscula infração administrativa, traduzida na venda não autorizada ou venda em local não permitido.

          Já tinha presenciado a cena da fuga no ano passado, em Barcelona. Este ano, vi, em maior dose. No começo de La Rompla, sol inclemente das 14 horas, uns quinze africanos, com seus sacos nas costas, se livrando da polícia, a dificuldade de todos entrarem nas grutas do metrô ao mesmo tempo. Depois, no retorno ao hotel, nos subterrâneos do metrô, vi muitos deles sentados, a espera do tempo passar, a fim de, talvez, retornar ao campo de venda, na esperança de faturar alguns parcos euros.

          O registro dos dois fatos não objetiva abrir discussão jurídica, porque não conheço a legislação francesa e espanhola, nem tampouco nenhuma norma acerca da venda de lembranças aos turistas que pisam em solo francês e espanhol. E, ademais, o espaço [do jornal] é curto justamente para o recado ser breve. O que me balança o coreto se liga a presença do africano na Europa, na sua luta pela sobrevivência. Evidentemente que para a Police francesa prender e algemar deve estar amparada por normas que assim garantem sua atuação, sem necessidade, mais tarde, de, civilmente, o Estado responder por qualquer tipo de abuso de autoridade, ante o uso de algemas, da mesma forma que a policia de Barcelona se sustenta em algum tipo de lei para coibir tais vendas em lugares públicos.

          De qualquer forma, me lembrei de casos gigantescos – não diminutos mosquitos, mas acentuados elefantes – que o Judiciário brasileiro tem engolido, ao permitir que o assassino confesso, condenado em primeira e segunda instâncias, permaneça solto, enquanto se utiliza de todos os tipos de ação possível para ir esticando a discussão, justamente para não cumprir a pena, ou, por obra e graça da legislação, a redução de uma pena grande para quase nada, o que dá ao condenado a possibilidade de logo logo estar em liberdade.

          São eles, os europeus, com seu rigorismo, ou somos nós, com excesso de liberalidade, que estamos certos? A pergunta é oportuna, e o leitor, melhor do que eu, encontrará resposta. Ou, pelo menos, terá no seu cotidiano uma dúvida a mais.


Publicado no Diario de Pernambuco.



sábado, 31 de dezembro de 2011

DAS ESTRADAS


Aldo CB
aldocblog@gmail.com


“Assim somos,
acontecimentos da mesma matéria, barro moldado ao longo de estradas
 e aprendizados.”


E continuamos juntos como molejo do destino. E por continuarmos juntos, podemos sonhar juntos: algumas pétalas, alguns tropeços. Nosso sentido é caminhar.
Nem todos prosseguiram conosco: uns partiram; uns não voltam; outros, saudade. É o exercício da vida a derramar em nossos olhares o renovar, o renovar-se.
Sigamos juntos a solidificar o destino por estarmos juntos. E juntos ajudemos a saciar a sede e a fome dos que carregam a sede e a fome.
Brindemos e entoemos cânticos em louvor ao que mais de humano temos em nós, ao que nos aproxima das divindades. Façamos festas nos menores lares, nas pequenas praças, nos lugarejos mais ermos, nas cidades esquecidas e em cada um de nós.
Busquemos os gestos. E se o gesto se faz, a mão se estende. Assim somos, acontecimentos da mesma matéria, barro moldado ao longo de estradas e aprendizados. Sigamos a compartilhar nossos desalentos e sorrisos, nossas forças e tropeços. Aprendamos os passos: se um desafina, ele afinará conosco os instrumentos para o próximo concerto. Somos nós a contar a história, a fazê-la.
Se a mão se estende, o gesto se faz. Feitos do mesmo sonho, matéria de nosso barro, do pó da estrada. Compartimos o que restou de nossas fraquezas. E nossas vozes já afinadas entoam loas ao que somos, ao que podemos ser. Organizemos as festas, ocupemos os palcos.
Mão e gesto se fundem e a estrada somos nós a cantar, a sorrir, a moldar o barro de nosso existir. Tropeçamos juntos, mas também nos erguemos unidos. É de outra matéria que somos feitos, dos corações pungentes, dos capazes de renascer.
Permaneçamos próximos, pois os tempos só reafirmem o viço das mãos que se estendem e são o gesto. E que nosso continuar se torne um reencontro com todas as possibilidades do ser, da leveza de ser e estar. Juntos.


Uma LUZ no meio de tantas luzes


ANGELA BORGES


E ele se fez luz e habitou entre nós.
Luz que ilumina nossos passos
       Que incendeia corações
       Que norteia muitas ações.

        LUZ que tem luz própria
que por si só se basta
sem ser um basta a ninguém.
LUZ que só ama
no meio de luzes que desamam
LUZ que promove a paz
Cercada de luzes que odeiam
LUZ que se solidariza
junto a luzes tão perversas
LUZ que anima e guia
LUZ que sufoca tantas luzes
LUZ que reflete a paz
A LUZ do MENINO JESUS.


ANO NOVO


Apolônia de Morais Pereira
apoloniapereira@hotmail.com


De repente, o ano se acaba... De repente...
     O que fizemos de bom em 2011?
Vale a pena uma retrospectiva! Um "balanço...!"
     Não tememos o 2012, apesar de tantas perspectivas negativas que são comentadas, apresentadas. Sabemos que Deus é o SENHOR de tudo e de todos. E é o mesmo Pai Bondoso e Misericordioso. Nós é que precisamos nos voltar sempre mais para ELE, entregar-nos confiantes e deixar-nos conduzir pelo ESPÍRITO que fala no nosso mais íntimo , orientando-nos, guiando-nos.
     Confiemos e vamos adiante até o fim da nossa caminhada!
            FELIZ ANO NOVO! Todas as Bênçãos e Graças!

CARTÃO DE NATAL


Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com




TODOS PRECISAM DE ESPELHOS PARA SE LEMBRAR QUE SÃO


Betto Santos*



Na discussão sobre identidade existem pontos fortes, como: afinal, quem somos para nós mesmos? O que consideramos como sendo nosso “centro” enquanto indivíduos? Em certo instante, descrevemos nossos antigos “eus” como pessoas que se julgavam diferentes pelo afastamento do comum que exibiam, como se a distorção refletisse, de maneira inexplicável, uma mudança em quem éramos. Pois o fato é que embora apenas ocupemos nossos corpos, frequentemente somos levados a nos definir a partir destes, permitindo que nossas personalidades, valores, paixões e ações sejam definidas por características externas como peso, calvície, espinhas e outros elementos que, a rigor, jamais deveriam moldar nossa percepção de nós mesmos - mas que o fazem por sabermos que assim julgamos o próximo. E assim, percebemos que a luta para ajustarmos com aquilo que vemos no espelho – uma batalha que vai muito além da vaidade e com a qual todos podemos nos identificar em maior ou menor grau, é tola, mas ainda sim é necessária para nos lembrar quem somos.


Obs: Imagem enviada pelo autor.



UM PÉ NA FESTA E UM PÉ NA ESTRADA


Dasilva


1. O clima de Natal e Ano novo nos invade, reavivando a ânsia de saciar a necessidade de pão, de superação, de beleza e de poder. Essa inquietação que nasce da carência das mínimas condições de existência, da busca esperançosa de reconhecimento, da vontade represada de festejar, da curiosidade inerente à nossa incompletude... e de muitos sonhos, nos tornam mais fragilizados e sensíveis. Esse tempo e uma conjunção de fatores é uma das oportunidades de ouro aguardadas e, até estimuladas, por aparatos midiáticos, religiosos e mercadológicos.

2. Então, não é se estranhar que seja também um momento oportuno para missionários, mercenários e mercadores, de todos os credos e latitudes, para veicular suas mensagens, bem intencionadas ou inconfessáveis, e conseguir atrair prosélitos, militantes e clientes. A rigor, "nada haveria de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acreditasse em seu sonho, se observasse a vida, se comparasse suas observações com seus castelos no ar e se trabalhasse para a realização de seu sonhos - se existir contato entre sonho e vida... tudo bem”.

3. Aliás, as tarefas permanentes da vida só se realizam quando se agarram nas "ondas" , nas várias conjunturas históricas. Embora se deseje que a racionalidade da vontade oriente as ações, sua realização só acontece quando, pessoas e grupos, "surfam" na "outra racionalidade" que vem da situação, da emoção, do subjetivo, do imaginário. Alguém que se pretenda consciente, daria sinais de incompetência se combatesse ou ignorasse o tempo do real, ao imaginar um cenário de pureza de propósitos. A vida só se dá na tensão e na contradição do concreto.

4. Sabemos que a primeira condição da cura é admitir o fato da doença. Cercado de todas as "enfermidades", o senso popular prefere viver e ser feliz, agora, mesmo sabendo que pode dever ou iludir-se. Já a grandeza da "consciência" é transmitir conhecimentos acumulados e ajudar a extrair "saídas" duradouras para as inquietações dos oprimidos. Assim, quem sonha com uma nova ordem social não pode esquecer que "ficar longe do povo é uma forma de ficar contra ele"; que "partir da porta que o povo oferece" é condição para ajudá-lo a chegar onde ele precisa.

5. Cantemos e exultemos! HOJE é o dia que fez o Senhor de todas as convicções. Somos peregrinos da Pátria onde o choro será apenas de alegria; nos alimentamos da justeza do resgate da vida fraterna, sempre. Longe de sair do "paganismo" do mercado, em todos os espaços, a ordem é mergulhar, de cabeça, no mundo que nos rodeia, sem deixar ou, quem sabe, até para reafirmar nossa "fé na vida, fé no povo, fé no que virá... pois, nós podemos tudo, nós podemos mais, vamos lá fazer o que será!" Boas festas e viva esse meio que é fim e que é começo!

NO PRINCÍPIO ERA O TEMPO


Djanira Silva



          Quando jovens, vivemos por antecipação – é o vestido para a próxima festa, a viagem sonhada, projetos de vida os mais mirabolantes.
          O tempo passa e com ele as inconsequências da juventude, as crenças exacerbadas na felicidade, momentos em que o imaginário se apossa da consciência fazendo-nos acreditar num mundo mal começado.
          A velhice chega e dá o golpe de misericórdia, Carrasco cego executa sua missão. Tentamos recolher os restos mortais dos sonhos e dos desejos que se desfizeram com o tempo ou se desintegraram com as decepções.
          A princípio o futuro é um presente dos sonhos que nos acena com o que desejamos realizar. Daí por diante, o passado será sempre presente.
          Rolam e giram os ponteiros, não precisamos deles, eles passam sem nós. Perseguem, no entanto, nossos passos.
          Quando sentimos saudade, exumamos o passado. As emoções nele contidas nunca mudarão. Ameaçador, o futuro avança para se destruir na realidade do agora, se enterrar na angústia do passado, das esperanças, numa metamorfose da saudade. Como um refúgio corremos para trás, voltamos, não para sonhar mas para nos vermos dentro do sonho. Tentamos enfrentar a morte que vem chegando disfarçada de velhice. Então, sofremos de um medo terminal do futuro porque já não temos como construir saudades, apenas senti-las.
          Num acesso de bom senso, resolvo viver o momento. Quero me livrar da síndrome do futuro. Encontro no agora, o porto seguro, a certeza o consolo de que viver o presente é uma fórmula que ajuda a esperar a morte.


MENSAGEM DE NATAL – 2011 / NO RITMO DE MARIA / UM ESPAÇO PARA CRISTO


D. Demétrio Valentini *


“Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: ... nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lc 2,10-11)


A todos os diocesanos, Feliz Natal!

Também neste ano Deus nos garante motivos verdadeiros para celebrar com alegria o mistério do Natal do Senhor.
Olhando o mundo, tivemos muitos acontecimentos em 2011, que revelam o agravamento de uma crise que não se limita à dimensão econômica, mas é muito mais profunda.
São “sinais dos tempos” , que nos alertam para a urgência da mudança de rumos, que a humanidade é chamada a empreender.
Independente da consistência desses fatos e de suas repercussões imediatas, eles apontam para a necessidade de buscarmos os caminhos de Deus, e colocar-nos em sintonia com sua vontade, para que o mundo reencontre os rumos de sua sobrevivência, na harmonia com a natureza, e na justiça e fraternidade entre todos os seres humanos.
Neste ano a humanidade chegou a sete bilhões. Como nos tempos de Belém, pareceria não haver lugar para mais ninguém!
Mas ao contrário, é bem vindo Aquele que vem nos apontar os caminhos da partilha, da solidariedade, da responsabilidade e do amor fraterno.
Em meio a tantos acontecimentos, nossa Diocese teve a alegria de perceber a importância especial do Concílio Vaticano Segundo, que recordamos na nossa romaria, e que retomaremos com toda a Igreja no próximo ano.
Como os pastores, vamos ao encontro do Salvador que Deus nos envia, para acolher sua presença e viver de acordo com seu Evangelho.
Com os renovados votos de um Feliz Natal e abençoado Ano Novo!


* Bispo Diocesano de Jales


NO RITMO DE MARIA
D.Demétrio Valentini


     A liturgia sempre garante para o quarto domingo do Advento, o evangelho da anunciação a Maria. É tão belo e comovente, que nunca nos cansamos de meditar sobre ele.

O centro do diálogo do anjo Gabriel com Maria, era o nascituro, que seria chamado Filho do Altíssimo, porque concebido por obra do Espírito Santo no seio de Maria.

Mas o fio condutor da narrativa é a figura de Maria, destinatária da mensagem divina, feita protagonista dos planos de Deus.

Lido este Evangelho sob o prisma de Maria, identificamos sua postura, que serve de inspiração e modelo a todos os cristãos.

Diante da inesperada saudação do anjo, diz o Evangelho que Maria se colocou a pensar sobre o significado da saudação.

Diante de Deus, nossa primeira reação também deve ser esta: pensar. Ao longo do Evangelho se reitera que esta era a postura normal de Maria. “Ela guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração”

Quando o anjo abriu o jogo, e anunciou que ela seria a Mãe do Salvador, ela então passou a perguntar. “Maria perguntou ao anjo como se fará isto?”

Primeiro pensou, depois perguntou.

A fé não dispensa a razão. Ao contrário, quanto mais usarmos a razão humana, para perguntar, visando compreender, tanto melhor acolhemos o mistério de Deus, que quis se revelar à humanidade.

Só depois de pensar e de perguntar, é que Maria decidiu e falou, como serva, pronta e disponível para empenhar sua vida a serviço dos planos de Deus.

O tempo de advento deveria propiciar a todos a mesma experiência de Maria: pensar nos projetos de Deus, perguntar pelo seu verdadeiro sentido e alcance, para então decidir e falar.

Maria nos dá o exemplo perfeito de como acolher o mistério que Deus nos revelou através do seu Filho Jesus Cristo.


UM ESPAÇO PARA CRISTO
D Demétrio Valentini


Chegamos ao Natal deste ano de 2011. Para que ele encontre ressonância em nossa vida, é preciso garantir um espaço para acolher o mistério de Cristo em nossas mentes e corações.

Seria pouco demais limitar-nos à dimensão bucólica da noite de natal, sem desmerecer seu encantamento. Pois de fato, o nascimento de Jesus em Belém da Judéia, .carrega o mistério tão grande da encarnação de Deus em nossa humanidade, com todas as conseqüências que derivam deste mistério tão denso, cuja apresentação se reveste de tanta beleza humana. .

Quando o rei Davi pensou em construir uma casa para a arca da aliança, que ainda estava guardada numa simples tenda, o profeta Natã se apressou em adverti-lo dos equívocos que poderiam advir da construção de um tempo para abrigar a arca de Deus. Pois o que Deus queria, de verdade, era habitar, nem em tenda nem em palácio, mas no coração de cada pessoa humana.

Estas advertências fizeram depois parte dos embates maiores que Cristo precisou enfrentar com os oficiais da religião, justamente a respeito do templo.

Depois São Paulo iria de vez expressar os verdadeiros planos de Deus, dizendo: “Não sabeis que sois templos de Deus, e que o Espírito do Deus habita em vossos corações?”

Pois bem, no natal o que Deus procura nem é tanto ser acolhido nos presépios que preparamos para o Menino Jesus. Mas na vida de cada um de nós. Lá existe lugar para Cristo, que não compete com ninguém, mas cuja presença impregna de sentido verdadeiro a vida de toda pessoa humana que vem a este mundo!



 

“OUTRO MUNDO É POSSÍVEL”, urgente e necessário.


Dom Sebastião Armando Gameleira Soares *



O texto profético nos remete ao capítulo 11, sendo ainda mais espetacular. Às vésperas do Natal nos é dado antever a maravilha do propósito de Deus: o povo é chamado à alegria; a glória de Deus se revela na beleza do mundo transformado; as pessoas se fortalecem e se levantam do desânimo porque sentem a proximidade da salvação de Deus; as pessoas sentem-se restauradas em sua integridade e a natureza se refaz (v.5-7); os caminhos do povo serão sem perigo, a alegria será companheira, “a dor e os gemidos cessarão”... Que poema maravilhoso! Dele vem a inspiração para nossa prática de gente que deseja ser fiel a Deus. A Comunhão Anglicana diz que nossa missão é proclamar a Boa-Nova por gestos e palavras. Anunciamos o Evangelho para que as pessoas se convertam e aceitem os valores e critérios de vida de Jesus. Daí nasce a Igreja, pela fé, o batismo e a convivência comunitária pela qual nos fortalecemos uns aos outros. E a Igreja é para nos levar à solidariedade mediante serviços de amor a quem necessita, à luta para transformar as estruturas injustas da sociedade e ao esforço por zelar pela conservação e expansão da vida na terra. A Igreja é para servir o mundo, trabalhando pela transformação da sociedade em nome de Jesus, pela força de Seu Espírito, para a glória de Deus.


* Bispo da Diocese Anglicana do Recife – DAR



E SE JESUS VOLTASSE A NASCER NA BEIRA DO RIO ARAPIUNS...


Edilberto Sena *


Amanhã será aniversário de Jesus de Nazaré, 2 mil e 12 anos. É natal. Para os cristãos, uma grande festa religiosa, só igualada à festa da Páscoa da ressurreição, do mesmo Jesus Cristo. E para o mundo todo, hoje, com sete bilhões de seres humanos, onde apenas cerca de um bilhão e 300 milhões crêem que Jesus é Deus, o que pode significar o fato desse homem, chamado Emanuel, ter nascido numa cidadezinha perdida do Oriente Médio, hoje em guerra genocida?

Sua presença na terra mudou o mundo? Certamente que sim, pois a partir dele, a humanidade aprendeu que é possível alguém amar sem pedir troca, perdoar sem acompanhar com vingança. Para os Seguidores do Jesus de Nazaré, certamente a certeza é ainda maior, que a vida tem sentido e futuro. Que há um Deus que não castiga, por ser misericordioso.

Jesus nasceu em Belém, terra do pão, cresceu em Nazaré onde viveu até os trinta anos. Ali amadureceu sua vocação rebelde, ao descobrir que a vontade de Deus era ir além das regras e dogmas da religião oficial. Em três anos, inculturado a seu povo e seu tempo, falava em parábolas, linguagem popular, era bem entendido pelo povo simples. Amava os marginalizados, expulsava demônios e curava doentes, além de perdoar os pecadores.

Mas, rebelde que era, ficava indignado com as autoridades, chamava-as de víboras, hipócritas. Não suportava ver os doutores da lei enganando o povo, impondo leis falsas de salvação, criando ritos religiosos que não libertavam os humilhados. Herodes, Caifás, Saduceus, Fariseus, eram os sepulcros caiados, limpos por fora e podres por dentro. Pois bem, amanhã é aniversário deste Deus que aceitou se tornar ser humano igual a nós, menos no pecado, para poder revelar o real caminho de libertação de ontem, de hoje e do futuro.

Mas, que tal atualizar esta memória? E se Jesus decidisse nascer de novo e crescer, agora aqui na Amazônia, à beira de um rio, várzea, ou terra firme, como seria o comportamento de Jesus na Amazônia? Qual seria seu discurso e seu testemunho, ao ver o contínuo desmatamento com grandes fazendas, plantações de soja, e serrarias lotadas de toras de madeira? Como reagiria o mestre ao ver os planos de construção de 38 grandes barragens de rios para hidroelétricas, promovidos pelo governo federal?

Que diria ele ao saber que existem no Brasil 15 milhões de pessoas ricas, muito ricas e 50 milhões de pessoas vivendo na miséria literal? Vendo ele doenças epidêmicas como malária e dengue atingindo tantos pobres ribeirinhos, indígenas e pobres, vivendo em insalubres bairros de periferias? Ficaria Jesus indiferente?

Ficaria Ele preocupado apenas em salvar as almas? Ou seria um profeta mais indignado hoje do que foi na Palestina? Seria ele um Deus assistencialista, ou tomaria atitudes mais firmes diante do descaminho que segue a população da Amazônia? Essas indagações parecem obvias olhando seu comportamento nos três anos de missão pública na Palestina. No entanto, elas procedem porque, ao subir de volta para junto do Pai eterno ele disse a seus seguidores – “agora são vocês que darão testemunho de mim em todos os cantos do mundo”.

Então, ao celebrar amanhã o aniversário dele, seus seguidores não podem ficar apenas cantando o Noite Feliz, ou se comovendo diante do presépio. O mundo hoje, a Amazônia hoje, precisa de testemunhos fortes, rebeldes e coerentes com o mestre que é representado. Feliz Natal, mais uma vez!


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.


MENSAGEM DE NATAL


D. Gilberto Pastana


SÉRIE “VISITANDO OS PRESÉPIOS FAMILIARES”



Obs: Imagens enviadas pelo autor.

de dezembros e natais


Euza Noronha



tanto fazia
estrelas do amanhã
ou árvores salpicadas de presente
:dezembros
eram sempre painel
de corridas e ausências

um dia
a vida invejou-se dos natais

rompeu
nascedouro de anos
e esperanças

o menino
se fez salvador
de todos os dias

A VOLTA DE JESUS


Frei Betto *


Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2010. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.

Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Na porta de um teatro, estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século 1, sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros, como fariseus e saduceus.

Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.

Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.

Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs...

Roubaram um carro defronte da faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.

O delegado inquiriu-o:
- Nome?

- Jesus.

-  Jesus de quê?

-  Do Pai e do Espírito Santo.

O delegado ditou ao escrivão:

- Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.

A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi liberado.

Saiu pela avenida, de olho nas vitrines das lojas. Todas repletas de enfeites de Natal. Tentou avistar um presépio, os reis magos, uma imagem do Menino Jesus... Viu apenas um velho de barba branca, gordo, com a cabeça coberta por um gorro tão vermelho quanto a roupa que vestia. O menino nascido em Belém havia sido substituído por Papai Noel. A festa religiosa cedera lugar ao consumismo compulsivo e à entrega compulsória de presentes.

Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:

-  Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar...

Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da natureza!

Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro catador o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.

Tarde da noite, viu defronte de uma igreja. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo. A Missa do Galo se iniciava. Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração do nascimento de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas e se fartarem com a ceia natalina.

Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade. Pelas calçadas, sacos de lixo estufados de embalagens para presentes, caixas de papelão, ossos de frango e peru, cascas de ovos... Observou os moradores de um prédio reunidos no salão do andar térreo. Comiam vorazmente, estouravam garrafas de espumantes, trocavam presentes, abraços e beijos. Nada ali, nenhum símbolo, que lembrasse o significado originário daquela festa.

Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o catador, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias da salame e um refrigerante.

-  É pra você comemorar o Natal – disse o homem.

Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:

- Ei, cara, tem o que aí?

- Pão, salame e refrigerante.

- Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.

Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.

- Se não importa de beber no mesmo gargalo...

- Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher.  Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.

- Você não tem família?

-Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.

- Esta noite de Natal não significa nada pra você?

-  Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela, puxando o lenço de dentro da bolsa.

A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:

- Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?

-  Não sei... O que você acha?

- Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.

-  Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?

- No meu coração, ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.

- E o que diria a ele?

- Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?

- Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.


* Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org


Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)


UM SIMPLES MENINO


 Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com




Certa vez, nasceu, um simples menino nascido de maneira simples, e que um dia de jeito simples iria simplesmente falar de amor. E já chegou falando, não em palavras, mas em gestos, pois poderia ter nascido num palácio, mas nasceu no mais humilde dos lugares. Caminhou, cresceu e pregou, no gesto simples. Na palavra mansa a retidão de amar, amar a Deus e ao seu semelhante como a si mesmo. Complicado? Não! Mas poucos seguem o que ele disse, muitos falam em nome dele, outros dizem até serem seu representante, mas nos gestos e maneiras, quanta distância... Guardam da verdade... Difícil? Não. Ele só falou de amor, complicado amar? Desejar o bem? A mensagem foi tão simples. Não faça aos outros, o que não queira que façam contigo, viva e deixe viver, não discrimine, não persiga, não cause dor ao seu irmão, não precisa, para compreender isso, ser associado a nenhuma organização religiosa, se preferir, tudo bem, mas não precisa, pois onde duas pessoas estiverem reunidas em seu nome, lá ele estará e aonde tu escolheres para fazer tua prece, lá ele estará também, porque não há lugar que esse amor não possa entrar e frutificar. Basta simplesmente um passo no sentido do amor.


Obs: Imagem enviada pelo autor.

“Reveillon”


Ina Melo
inamelo2004@ig.com.br


“Paris, cidade onde o amor,
 está em todos os lugares, em
todos os sonhos,
esquecimentos e recordações.
 Amo Paris com a força e a fúria
 das tempestades”.

     As luzes da aeronave piscam avisando que em breve estaremos aterizzando no Aeroporto Charles de Gaulle. Ouço vozes distantes: apertem os cintos. A temperatura está baixa e o tempo é bom.
     Desperto lentamente. As brumas do pensamento vão se despedaçando. Assumo o meu lado mágico e aventureiro. Retorno a Paris, desta vez para realizar um sonho de três décadas: ver a passagem do século. Começa o desembarque. Levanto a gola do mantô e sigo para o terminal de bagagens. Olho e não vejo ninguém conhecido. Isto me agrada.
     Deixo o passado para trás e fico a espreita do que acontecerá. O céu azul e um sol esplêndido cobre a manhã gelada. É assim nesta época do ano Apanho um táxi. Através dos vidros embaçados vejo a paisagem. Tento ordenar os pensamentos e traçar planos.
      Hoje é dia de ajustar o fuso-horário, organizar agenda e outras coisas. O percurso é longo. A cidade está vestida para as festas de fim de ano. Muita gente nas ruas. Todos vieram passar o “Reveillon do Século" na mais bela e luminosa cidade-mulher do mundo, Paris!
     Chego ao hotel. À minha espera, uma garrafa de champanhe dentro de uma cesta de rosas. Junto um cartão de boas vindas de uma amiga querida que partiu para a Provence. Acho bom. Prefiro Paris só para mim.
     Vou rever a paisagem da minha paixão. Faço um brinde solitário ao sonho. Que bom poder realizá-lo! Agradeço a Deus mais esta dádiva. Vou almoçar no Ritz famoso restaurante preferido da eterna Coco Chanel, Hemingway e tantos outros artistas do passado. Depois caminharei pelos arcos do Louvre, onde deslumbrarei meus olhos pelas vitrines.
     Aqui o tempo passa rápido. Roupas pesadas roubam à leveza da mulher. De repente chove. Um grande temporal lavando todos os pecados, derrubando árvores seculares, destruindo jardins. Que pena! Ainda assim, amo Paris, apesar da fúria das tempestades!
     Revisito os museus. Assisto a um concerto em “Saint. Séverin”. Entro num Bistrô e degusto ostras com vinho branco. Volto para o hotel. O banho quente com sais perfumados refaz a mulher e a desperta para a vida. Terei uma noite solitária e feliz. Acordo cedo, abro as cortinas. O céu está azul, sinal de frio.
     Na Biblioteca Nacional, François Mitterrand, lugar de reflexão e paz, reencontro com os luminosos espíritos do passado na exposição em homenagem a Marcel Proust, escritor que soube descrever tão bem os encantos de uma sociedade fútil, alegre e de amores fugidios. Amor e Paris estão sempre interligados.
     No “Bateaux-Mouche” deslizando pelo Sena sob um sol frio de inverno, vejo passar a cidade e seus monumentos. A França agradece a loucura dos seus reis. Tudo aqui é monumental. A chuva continua a cair. Enfrento os ventos fortes e vou à “Montmartre.” Crepes e Sidra para aquecer o coração.
     È tarde, estou gelada. Retorno ao apartamento, o silêncio é profundo. Volto a ser a mulher tropical coberta de sol o ano inteiro. Espumas mornas e champanhe. Banho que faz bem a libido do corpo e da alma. A música suave desperta em mim a saudade. A cama macia é um convite ao prazer. Que faço? Revivo amores de ontem e de hoje. Misturo-os com sonhos repletos de erotismo e reencontro a mulher apaixonada. Adormeço.
     Eis que chega o grande dia. Desço para o café. Aprovo a imagem refletida no espelho. Estou ótima. Como se o amor de ontem tivesse sido real. É a felicidade comigo mesma. A cidade está feérica. Nunca vi tanta gente em Paris.
     Vou à Notre Dame e faço a última prece do século. O silêncio da manhã é sepulcral. Acendo velas para homenagear os entes queridos que partiram e reencontro em pensamento os que ainda estão comigo. As pessoas flutuam pela imensa Nave num respeito admirável. A música sublime parece que vem dos céus. Dialogo com Deus. Agradeço a realização do sonho. O que é um sonho? Para que vale? Estou só, longe da família, dos amigos. Choro lágrimas de saudades, mas estou feliz.
     Deixo a Igreja renovada. Enterrei os pecados e mágoas do passado. Entrarei no milênio leve e purificada com muito amor, sonhos e desejos a realizar. Vou ao “Champs Elysées,” onde o mundo todo passa. Hoje não estarei só. Encontrarei amigos, vamos almoçar no Bistrô Romano. Ficamos até tarde. A felicidade é leve e alegre como o vinho.
     Eis que chega a grande noite. Partimos em direção ao “Champs de Mars.” Somos um grupo de brasileiros, alguns maduros, outros jovens, todos com o mesmo espírito de festa e alegria. Estou vestida de dourado para abraçar o novo ano. Infelizmente, o pesado mantô cobre todo o brilho do sonho. Botas altas me protegem do frio.
     Cada um leva champanhe para festejar. Faremos um piquenique noturno às margens do Sena, junto à Torre Eiffel. Falta pouco para o novo porvir. É inesquecível para quem vivenciou tal aventura. Não só de turistas vive Paris. O francês também está nas ruas, com seus familiares e amigos.
     E a festa continua. Abrimos à primeira garrafa. Brindamos à vida, ao amor e a loucura de estarmos em Paris. Sentimos falta da música. As orquestras estão nos “Champs Elysées.” Nós brasileiros somos musicais. Pequenos grupos cantam em diferentes idiomas. Nós também cantamos. São quase meia-noite! Com a taça de champanhe na mão, reflito sobre o sonho. Todos olham para o grande relógio esperando o encontro dos números que marcam os minutos e segundos para a chegada do novo século.
     Os ponteiros juntam-se num abraço infinito. Fogos espocam no ar. A noite se ilumina, como se o sol também estivesse tomando parte da festa. Choro cascatas de lágrimas, leves e felizes. Erguemos as taças brindamos ao novo século O espetáculo é indescritível. Só um artista poderia externar toda a beleza do momento.
     O mundo se abraça com fraternidade, esquecendo dores e mágoas, na esperança de um porvir melhor. Brindo aos meus queridos distantes. Que saudade do aconchego quente e carinhoso da família. Em compensação os amigos e o calor da multidão me aquecem. Champanhe com lágrimas, boa mistura de felicidade.
     A festa continua. Estamos no século vinte e um. É tarde, chegamos atrasados para o jantar, o garçom mal humorado reclama. Nós rimos e fazemos de conta que não entendemos. O local está animadíssimo. Todos cantam, dançam e se embriagam. Estou feliz e agradecida. A viagem foi difícil e tumultuada, mas tudo aconteceu. Eu vi a passagem do século em Paris! Dezembro de 1999.


Obs: Imagem enviada pela autora.