segunda-feira, 25 de maio de 2009

GLOBALIZAÇÃO: PÚBLICO E PRIVADO

Marcelo Praciano


Estão unidos a outras pessoas e a outros povos. Desde que o homem, por necessidades históricas buscou expandir o mercado e encontrar novos solos, seja para explotação ou mesmo somente para produzir as matérias primas que os solos europeus eram incapazes de produzir não ficamos mais isolados no mundo, pois passamos a nos relacionar com outros povos e outras culturas.

No entanto, naquele período histórico o contato era um tanto restrito, devido as dificuldades de comunicação e a distância entre a metrópole e a colônia. Porém, hoje com os meios de comunicação avançados essas dificuldades foram seriamente diminuídas e as distâncias estreitadas. Com todo esse avanço, hoje, vivemos em uma grande “aldeia”, na qual todos estão diretamente ligados: partilhamos de um mesmo avanço tecnológico, de uma mesma cultura consumista, e de um individualismo generalizado. Porém, precisa-se pontuar que nem todos partilham desses mesmos avanços, porque alguns estão às margens desse “processo modernizador”.

A globalização socializou muitos avanços tecnológicos e interesses das grandes potências mundiais. O mercado mundial é dos fatores que tomou dimensões incomparáveis nesse processo, atualmente, multinacionais estão presentes em quase todo planeta. No entanto, a mesma globalização não socializou a fome existente no mundo, o desemprego, as indignas condições de trabalho, as dívidas dos países pobres. Pelo contrário, ela (globalização), por ser controlada pelos grandes países, buscou fortalecer a ordem vigente, na qual os países ricos mantiveram como tais ou aumentaram suas riquezas. Já os pobres ficaram estagnados ou chegaram a níveis de miséria.

Dentro dessa esfera mundial está o público e o privado, diante da globalização se torna difícil definir o que realmente é público e o que é privado. Pois público seria aquilo ou local, onde as pessoas se reuniam para deliberar assuntos do interesse de todos, como se reuniam os gregos nas praças, ou até mesmo para se divertir, como ocorria no passado recente nas atuais grandes cidades do Brasil.

Hoje, as deliberações de assuntos são feitas em repartições “públicas”, nas quais poucas pessoas têm acesso. Enquanto isso as praças continuam existindo. No entanto, a falta de segurança pública impede as pessoas usufruírem desse patrimônio público. Nesse momento o privado assume a função do público, os grandes locais de descontração são os shoppings Centers entre outros.

A invasão cometida pelo privado no público é notória, basta ficarmos atentos para percebermos tal acontecimento: as avenidas públicas estão eivadas de propaganda publicitária que têm o interesse de despertar em nós o espírito consumista fomentado pelo capitalismos globalizado.

Portanto, ao observarmos o público e o privado dentro do mundo globalizado, percebemos que há certa mesclagem de ambos. Pois onde está o privado encontra-se também o público, salvo algumas exceções. Da mesma maneira ocorre com o público que nele está imerso o privado. Só desejo que essa mesma globalização que traz sonhos impensáveis anteriormente, trouxesse também a utopia que um outro mundo é possível: sem guerra, sem fome, sem excluídos. O mundo de todos os humanos seres.

O OLHO DO GIRASSOL

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



Sentada junto à janela escuto o monitor registrando as batidas de um coração vigiado. Lá fora passos vão e vêm, ruídos de ambulâncias, telefones que tocam, pessoas que falam. Enfermeiras apressadas. Médicos preocupados.
Alguém descansa porque seu corpo não está bem. Os barulhos do mundo o perturbaram. É preciso descansar da vida, sem morrer. Lá fora o mundo não consegue parar. Em silêncio, junto à janela ouço seus ruídos.
Um homem canta. Lixa e pinta a parede escurecida. O barulho áspero, o cheiro forte de tinta fresca. Enquanto canta, louva a Deus numa voz arrastada e monótona como o ruído da lixa, indo e vindo, preparando espaços. A espátula toca a parede, às vezes lenta, às vezes rude, sempre constante. O cheiro da tinta se espalha com a música. Entra-me pelos sentidos como o perfume do resedá do quintal de Dindinha que se espalhava pela cozinha onde minha mãe preparava o jantar. “O cheiro do resedá me deixa triste”, dizia ela. Mas, sua tristeza não era por causa dele. Ela já era assim, há muito tempo. O resedá tem o cheiro da minha mãe, a marca da sua melancolia.
Uma porta range como se doesse abri-la. Um assobio circunda a canção, traço fino que esconde a letra, as palavras que falam de Deus, de castigos e bênçãos.
“Deus castiga”, diziam-me, eu acreditava. Um dia, disse à minha mãe: “não tenho medo de Deus, não posso vê-lo”. Zangou-se, castigou-me. Dela eu tinha medo, o castigo estava em sua mão. À noite ela conversava com minha avó. Falava, para ser ouvida, para causar medo: “o girassol é o olho de Deus, lá, no fundo do quintal ele vê tudo, principalmente trela de criança”. Pensei no girassol com seu olho enorme, esquisito, e acreditei nas palavras dela. Comecei a temê-lo.
Uma noite perguntei à minha avó sobre o seu poder. “Ele olha, toma conta, e a gente grande fica sabendo de tudo” respondia, com um sorriso malicioso.
Passei a fazer minhas trelas no oitão, do lado oposto ao quintal. Ali, o girassol não podia me ver. Mas, minha mãe sabia de tudo – sabia que eu brincava com água e com terra, que pintava as bruxas de pano com seu batom e colocava sal de frutas dentro d’água para ouvi-lo “chiar”. Via-me colocar fumo em cachimbos improvisados com flores de romã. Um dia, fumei de verdade no cachimbo da minha avó. Acordei na cama, toda vomitada e tonta como se tivesse andado num carrossel. Palmadas não faltaram e cada vez mais eu tinha raiva do girassol que me via até no oitão.
Diante do meu espanto ninguém me explicava nada e eu ficava certa de que ele era espião e fuxiqueiro. Felicidade, mesmo, era quando um secava e morria. Mas minha mãe explicava, toda misteriosa: “A semente cai na terra e outros nascem”. Sem que ninguém visse, catava as sementes e jogava no quintal da vizinha. Um dia vi um olho enorme se insinuando, por trás da parede olhando pra dentro do quintal. Não tinha jeito. Melhor mesmo era respeitar o girassol.
Foi preciso crescer para saber das coisas – Deus não castiga ninguém, o girassol não via nada, e minha mãe só sabia das minhas trelas porque me espionava. Mas, ainda hoje, quando avisto uma daquelas flores dando voltas no jardim, faço um exame de consciência e um ato de contrição.
A poeira da tinta lixada se deposita no chão, no ar, sobre as plantas do jardim. No meio delas o olho imenso de um girassol desfigurado pela tinta branca. Continuo não gostando dele.
Fecho a janela. O coração vigiado continua bem. Alguém repousa sem saber dos meus cuidados.



Obs: Texto retirado do livro da autora - Olho do Girassol -

CULPA DO TEMPO

Rivkah Cohen


As horas vão passando
e fico comigo pensando
ser tudo
um mau sonho
que nada ficou distante,
apesar de ver
lenços acenando
e meus olhos chorando..

Ah.. o engano!
Entre a realidade
e o sonho,
pelo menos ruim,
sempre optamos!

Tudo
é por culpa do tempo!

Primeiro
nos mostra
um sentindo único
e derradeiro,
depois
temos outra visão..

Já não sabemos
se estamos certos
ou se aproveitamos o momento
para olharmos de perto
e tirarmos novas conclusões,
já incluindo os medos
e as decepções..

É exatamente, nessa hora,
que a razão some,
vai embora
e nos agarramos ao engano
contanto
que não doe tanto,
aliviando a alma que chora..!



Obs: Imagem da autora.

SOBRE A CRISE – PARTE IV

Dasilva

CENÁRIOS DA LUTA POLÍTICA


Neste momento histórico a luta política encontra-se limitada à luta eleitoral entre propostas que não implicam em alternância de projetos. Os políticos já se movem pensando nas eleições de 2010. O objetivo do campo popular é alterar tal situação e intensificar sua intervenção para abrir possibilidades inovadoras. Porque, no terreno da luta eleitoral, o cenário atual é profundamente desalentador. As eleições municipais de 2008 confirmaram a ausência de debate sobre projetos políticos para a sociedade brasileira e o processo despolitizador das campanhas e embates eleitorais.

O forte prestígio de Lula nas massas e sua liderança na classe trabalhadora constituem o principal elemento do cenário sucessório nas eleições gerais de 2010. Qualquer que seja a candidatura a ser apoiada por Lula, desde já, fica evidente que será uma proposta política ainda mais recuada e conciliatória. Ainda que consiga eleger o sucessor, o próximo governo será ainda mais refém da burguesia, especialmente em razão dos efeitos econômicos e sociais da crise.

O que se desenha é uma reprodução piorada das candidaturas que disputaram em 2006. Até agora, não se gesta uma candidatura que expresse o Projeto Popular e existem imensos obstáculos para que isso ocorra. Tal situação, bastante desfavorável deixará organizações, movimentos, lideranças políticas regionais, personalidades, intelectuais sem uma candidatura que os represente.


Existe a possibilidade de que a intensificação da crise altere o quadro político e proporcione condições para uma candidatura que expresse a unidade das forças políticas que compõem o Projeto Popular. Pode aparecer a possibilidade de construir ações que se constituam numa referência não eleitoral aproveitando-se do debate político sobre um Projeto Popular.

Neste momento, tais cenários não são perceptíveis e caminha-se para eleições gerais, no bojo de uma intensa crise, sem uma alternativa que represente o Projeto Popular. Para inserir o Projeto Popular no debate político e a eleição geral de 2010 constitui um momento privilegiado exigirá ousadia, habilidade política e capacidade de perceber a redefinição do quadro político.


Algumas Tarefas para o próximo período

Abre-se a possibilidade de levar ás massas a explicação sobre a crise, seus impactos e as saídas duradouras. Diante disso, será necessário:

1 - Fomentar o debate, em todos os espaços, sobre um Projeto Popular para o Brasil - explicar a crise, sua natureza e as propostas do povo para superá-la.

2 - Dedicar todas as energias para barrar qualquer intento de supressão ou redução dos direitos dos Trabalhadores, pois, o patronato pressionará, cada vez mais, para uma reforma trabalhista e previdenciária de flexibilização de direitos.

3 - Resistir às demissões e falências e organizar os desempregados.

4 - Incrementar a denúncia contra as medidas de criminalização das lutas sociais realizada pelos governos e pela mídia, a serviço das grandes empresas.

5 - Elevar a consciência sobre os problemas ambientais e seu vinculo com o sistema capitalista e pregar a sustentabilidade de qualquer projeto de desenvolvimento.

6 - Assegurar que riquezas, como o petróleo, sejam utilizadas para solucionar os problemas nacionais.

7 - Avançar na solidariedade ativa com os trabalhadores e os povos da América Latina e do mundo.

BISPOS EMÉRITOS

D. Demétrio Valentini (*)


Este assunto merece atenção especial. Fica melhor abordá-lo enquanto ainda não é em causa própria.
Na verdade, está em causa uma situação eclesial de crescentes proporções. Só no Brasil, já são 130 os bispos eméritos, assim identificados porque já deixaram o governo de suas dioceses, por terem atingido 75 anos, idade estabelecida pelo Concílio para que o bispo apresente sua renúncia, ficando ao critério da autoridade eclesiástica o momento de efetivar a demissão.

Se pensamos em países com média de idade superior à existente no Brasil, como a Europa, nos damos conta da dimensão mundial desta causa. São centenas de bispos que já deixaram o governo de suas dioceses, e se encontram nesta situação, indefinida por diversos motivos. Pois se a lei é clara para indicar o momento de apresentar a renúncia, não é nada clara ao definir a nova situação do “bispo emérito”, quando ele chega numa idade em que pela própria natureza as circunstâncias costumam ser muito diferenciadas, dependendo sobretudo do estado de saúde das pessoas.

Diante disto, uma primeira constatação emerge com evidência. Certamente não era este o panorama existente quando a lei foi proposta, cinqüenta anos atrás. A demografia é muito clara ao apresentar o sensível aumento da média de vida nestes últimos anos. Como a lei versou sobre dados demográficos, o bom senso pediria que ela se adequasse aos novos dados. No Brasil, neste espaço de tempo, a média de vida aumentou mais de cinco anos. Portanto, a referência equivalente aos tempos do Concílio seria hoje de oitenta anos, no mínimo.

Mas não é só a idade que está em questão. O bispo carrega uma missão que não se enquadra em número de anos, nem se mede por incumbências administrativas. Se mede antes pela doação integral de sua vida, dure ela quanto durar. Esta missão não se esgota no governo de uma diocese, ao qual ele pode renunciar até antes dos 75 anos, para se dedicar mais intensamente a uma missão que ele intui como prioritária. Basta pensar nos bispos que são chamados a trabalhar na Cúria Romana. Eles deixam de governar uma diocese, sem deixar de serem bispos. Ora, não é só na Cúria Romana que um bispo poderia se dedicar a uma missão específica, própria de sua condição de bispo.

O bispo, desde sua ordenação episcopal até sua morte, é constituído membro do “colégio apostólico”, isto é, do grupo dos apóstolos, as pessoas incumbidas de dar a respeito de Cristo o testemunho fundante da Igreja. “Sereis minhas testemunhas” (Atos 1,8), falou Jesus. Os apóstolos deram testemunho de Cristo até o seu martírio, como selo final de sua fidelidade ao Senhor. Cada bispo também só completa seu testemunho com o selo de sua morte.

Portanto, ele conserva ao longo de toda a vida a missão essencial para a qual ele foi ordenado. Com a renúncia ao governo de uma diocese, ele não renuncia, de modo nenhum, à sua missão vital. Ele não fica descartado, ele não é demitido, ele não é dispensado. Ele continua apóstolo de Cristo, para todos os efeitos.

Esta situação precisa ser melhor administrada pela Igreja, ao ser confrontada com as inevitáveis precariedades humanas que a idade traz a todas as pessoas. A situação atual deixa o desconforto de parecer que a Igreja valoriza mais a administração das dioceses, em prejuízo do testemunho pessoal dos bispos.

Por um lado, é evidente a necessidade de uma lei sábia, que administre esta situação, que não pode ficar só ao arbítrio de cada bispo. Quando da discussão conciliar sobre este assunto, lembro da ponderação do cardeal D. Alfredo Vicente Scherer, comentando a inconveniência de deixar a decisão só ao critério de cada bispo. Dizia ele: “um bispo que tem o bom senso de pedir a renúncia, é aquele que poderia continuar. E quem não pede a renúncia é o que já deveria ter renunciado”.

Está bem, portanto, que não fique ao critério exclusivo de cada bispo. Mas não está bem que o assunto fique sujeito ao arbítrio alheio, submetido a critérios que muitas vezes nada tem a ver com a missão apostólica dos bispos.

O assunto requer uma adequada reconsideração, que explicite melhor a condição eclesial do bispo emérito, garantindo-lhe as condições para que ele continue exercendo, no contexto vital em que se encontra, sua missão apostólica de testemunha radical de Cristo, que continua garantindo a fidelidade eclesial ao Senhor Ressuscitado.


(*) (
www.diocesedejales.org.br)

NÃO SE PODE FECHAR OS OLHOS

Padre Beto
www.padrebeto.com.br



"Como se começa uma guerra, pai?", perguntou Pedrinho, ao chegar da escola. "Bom, meu filho, a coisa é assim... vamos pegar um exemplo... a Inglaterra entra em desacordo com os Estados Unidos por alguma razão..." "Não diga besteira", gritou a mãe da cozinha que atentamente ouvia a conversa do esposo com seu filho, "a Inglaterra nunca vai ter uma desavença com os Estados Unidos! Você não viu como os ingleses são 'empregadinhos' dos americanos!" "E quem está afirmando o contrário? Eu só queria dar um exemplo!", gritou o pai da sala. "Com tuas besteiras você só deixa o menino confuso!", falou a mãe com um tom de deboche. "O que? Eu deixo o menino confuso? Se a educação dele estive só em tuas mãos tudo estava perdido!", argumentou o pai já bem alterado. "O que você disse? Eu te proíbo de dizer seu..." Antes que a mãe continuasse com a briga, Pedrinho saindo para o quarto gritou: "Valeu, pai, agora eu já sei como se inicia uma guerra!"

Um dos grandes desafios da vida em sociedade sempre foi o estabelecimento da paz. Porém, antes de encontrá-la, é necessário que se saiba o que ela, na verdade, significa. Em primeiro lugar, paz exige muito mais que simplesmente ausência de guerra. A origem remota da palavra paz é o indo-europeu "pak", indicando, entre outros significados, o marco posto para fixar limites e evitar invasões. Para os gregos paz, "eirene", significava bem estar. Já em latim, "pax" surgiu da mesma família que "pactum" que expressava uma ordem assegurada por um contrato. Resumindo, paz constitui-se em uma boa convivência, ou seja, em um estado no qual a vida humana pode livremente desenvolver-se. Apesar da pomba ser hoje o símbolo mais conhecido da paz, na antiguidade utilizava-se para representá-la, o símbolo da fortuna (o chifre recheado de frutas e especiarias). Como afirma Sêneca, um pré-requisito para a paz é o bem estar da pessoa humana. Sem prosperidade no sentido amplo da palavra é impossível se falar em paz. Ter paz significa viver uma relação harmoniosa em três dimensões: no relacionamento consigo mesmo, com os outros e com a sociedade. Neste sentido, dou o primeiro passo para viver em paz, quando procuro me interessar por minha condição humana, pela condição das pessoas com quem convivo e quando questiono sobre a situação de minha sociedade. A partir do momento que vivemos o interesse pela vida nestas três dimensões, estamos à caminho da paz. Interessar-se, porém, significa comprometer-se em modificar aquilo que está limitando o desenvolvimento da vida, ou seja, ir contra a todas as barreiras que nos impedem de sermos mais felizes. Justamente aqui compreendemos que não existe paz sem conflito. O inverso da moeda também é verdadeiro: nem todo estado de não violência significa paz. Nós podemos viver em uma sociedade não violenta, mas nem por isso teremos automaticamente a tão almejada paz. Podemos, sim, ter uma "paz de cemitério", onde encontramos silêncio e quietude, afinal todos estão mortos, cada um em seu devido túmulo. A paz dos vivos é solidificada pelo conflito, pela discussão, pelo verdadeiro relacionamento. Neste encontramos a liberdade de tematizar os problemas que enfrentamos e buscar suas soluções. Seja no âmbito individual, nas relações interpessoais ou na vida social, somente o enfrentamento dos conflitos nos leva realmente a encontrar soluções e a um estado de verdadeira paz. Assim, no que se refere à esfera social... Tomás de Aquino tem toda a razão quando diz que a paz se constitui em uma vida social baseada na justiça. Para isso é necessário que a sociedade discuta o que significa justiça social e enfrente os desafios de realizá-la. Se isso não acontece, encontramos sempre duas atitudes: a resignação e a criminalidade. Esta última é uma reação inconsciente ao descaso e perda de valores humanos de uma sociedade. Não podemos esquecer que a criminalidade, a existência de poderes paralelos aos do Estado são reações à ausência de justiça: melhor distribuição de renda, aplicação eficaz das leis, um sistema penitenciário baseado no trabalho e no estudo e não simplesmente na reclusão, um sistema educacional e de saúde que venha atender a toda a população, etc. Não poderemos viver a paz em uma sociedade na qual favelados necessitam do narcotráfico para ter acesso ao dinheiro, creches, diversão, etc. Fundamental é entender que não construímos a paz em uma cidade do interior do Estado de São Paulo protestando contra a guerra no Iraque, mas sim discutindo abertamente a situação de sua periferia, da falta de visão administrativa de nossos governantes, etc. A verdadeira paz surge da consciência política de que "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte... A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé. A gente não quer só comida, a gente quer a vida, como a vida quer..." (Arnaldo Antunes).

SOMOS TODOS DIVINOS

Marcelo Barros (*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)



Todas as tradições espirituais conhecidas no mundo, de um modo ou de outro, insistem na dimensão sagrada do ser humano e mesmo de todo o universo. As religiões afro-descendentes vêem na água, nas árvores e nos elementos da natureza a presença de manifestações divinas que são os Orixás. Quando alguém é tomado por uma destas forças, se reconhece ali a presença divina na pessoa. No cristianismo oriental, os pastores antigos insistiam que o objetivo do ser cristão é receber o Espírito Divino para se viver de sua inspiração e orientação.

Na Bíblia, o livro do Gênesis diz que, no inicio da criação, Deus disse: “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança. (...) Deus criou o ser humano à sua imagem. À sua imagem, o criou, homem e mulher o criou” (Gn 1, 28- 29). Um dia, perguntaram a João Crisóstomo, pastor da Igreja em Constantinopla, (século IV), porque o texto, no inicio, fala em “imagem e semelhança” e depois, só retoma a palavra “imagem”. O pastor respondeu: “Todos somos criados de acordo com a imagem de Deus. A imagem divina é algo que todo ser humano tem impresso no seu ser mais íntimo. Mesmo a pessoa de vida mais errada tem oculto no seu interior esta imagem. Mas, a semelhança é vocação. Devemos e podemos nos tornar semelhantes a Deus. Isso depende de nós”. Este processo de conversão pessoal, os pastores orientais chamavam de “divinização”.

No próximo domingo, cristãos de várias Igrejas celebram a festa de Pentecostes, encerramento das festas anuais da Páscoa e consequência da ressurreição de Jesus: a doação do Espírito Divino a toda pessoa que aceita recebê-lo. Pela energia da ressurreição de Jesus, o Espírito Divino se espalha em todo o universo para “restaurar o que está seco, curar o enfermo, endireitar o encurvado, aquecer o frio e consolar o aflito”.

Para a religião judaica, Pentecostes é a celebração da aliança íntima de Israel com Adonai, iniciada no monte Sinai e vivida através da interiorização da lei divina. Para os primeiros cristãos, Pentecostes representou a vinda do Espírito que fez com que judeus e adeptos de diversas raças e nações, cada pessoa ali presente pudesse compreender, em sua língua e cultura própria, a mensagem do Espírito (At 2). Hoje, mesmo quando somos de um mesmo povo e falamos o mesmo idioma, muitas vezes, não temos a mesma linguagem cultural. Podemos até pertencer à mesma confissão religiosa, mas nem sempre nos compreender. É o Espírito Divino que nos dá a graça de acolher a cultura diferente do outro e entrar em diálogo com o seu modo de ser, de viver e compreender a fé. Um filósofo dizia: “Dialogar é passar ao logos do outro”.

O Espírito Divino habita em nós, não como “um inquilino ou locatário da alma”, porque isso implicaria no dualismo entre Deus e ser humano. Ainda há Igrejas que falam de Deus como um Tu muito separado de nós. Neste caso, é uma divindade a qual devemos agradar para receber benefícios na vida concreta ou, ao menos, para não ser castigados. Ao contrário, Santo Agostinho ensinava que Deus é mais íntimo a mim do que eu mesmo. A presença divina não é mais separável do nosso ser do que dois pólos de um mesmo imã. A espiritualidade hindu tem razão ao sublinhar o caráter de interioridade e de imanência em nós desta presença e atuação divinas. Esta experiência é dom divino. Não é fruto de esforço, mas devemos nos abrir a ela. Se, por acaso, ocupamos nosso ser com uma infinidade de desejos consumistas e dispersões ruidosas, o Espírito em nós não encontra forma para se manifestar.

Para evitar isso, os espirituais organizam suas vidas de forma diferente do modelo comum, vigente no mundo. Mas, se pode viver isso na cotidianidade do emprego, da vida familiar e dos compromissos laicais. Esta dimensão da quietude e do “habitar consigo mesmo” não pode significar nenhum individualismo ou fechamento à experiência do outro e à solidariedade social e política que seria a manifestação profunda e permanente deste amor divino em nós.

O Baghavad Gita, que para os hindus é como o Evangelho para nós, cristãos, exprime em poesia esta experiência essencial:
“Todos os seres estão em mim e eu não estou contido neles.
Entretanto, os seres não se prendem em mim.
Compreende esta forma soberana da unidade:
Alguém que carrega em si os seres todos,.
Mas, neles não se encerra.
Eu sou o ato que os fez ser” (IX, 4- 5).


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
www.empaz.org/

CERTAS COISAS

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com



Onde estava escrito que ela não podia mais agir como uma criança?

Existe alguma norma, diretriz, lei que impede isso?

É proibido se desprender da fantasia real e não se preocupar com as incertezas da vida?

Ela se questionou e preferiu aceitar que todo mundo é meio careta (ela também era apesar de não ser todo mundo).

E por mais que soubesse que aos 20 não se pode voltar ao passado ... ela preferiu ignorar isso por alguns instantes, algumas horas, alguns dias.

Abriu o guarda-roupa e procurou sua camiseta favorita.

Jogou os sapatos de salto e pegou uma sandália rasteira.

Trocou a calça de sarja por um bermudão descolado.

Bagunçou os cabelos.

Correu pelo espaço aberto.

Sentiu o cheiro do campo.

Rolou na grama.

Ficou parada observando as formigas caminharem para um formigueiro.

Viu uma lagarta colorida caminhando em um tronco de uma árvore. Quis tocá-la, no entanto era mais prudente que não o fizesse.

Apanhou um punhado de terra.

Fez uma estradinha no chão.

Tentou fazer um castelinho de areia (mas isso só funciona na praia).

Brincou com um besouro.

Cheirou uma flor.

Atacou uma lata de brigadeiro (ficou engraçada toda lambuzada).

Se empanturrou comendo pipoca.

Arranjou um amigo imaginário.

Fez caretas no espelho.

Bisbilhotou os cremes da avó.

Viu os livros na estante da tia. Quis lê-los mais preferiu não abrí-los. Livros a seduziam e ela não queria correr esse risco.

Subiu numa mangueira.

Ensaiou um grito de Tarzam (saiu fraquinho).

Cantou uma cantiga antiga.

Tomou banho no igarapé.

Entrou molhada dentro de casa.

Ouviu a mãe gritando.

Afagou o cachorro que correu assustado.

Puxou o rabo do gato.

Quis pegar o passarinho que estava parado na janela.

Correu descalça.

Ficou ainda mais suja.

Cansou.

Parou alguns instantes.

Sorriu do estado em que estava.

Sorriu até ficar sem ar.

Respirou fundo.

Pegou as sandálias que estavam no chão.

Arrumou a roupa.

Adotou um andar elegante.

Saiu em disparada.

Voltou pra casa.

Sentou a menina-criança no sofá.

Era hora de voltar a realidade.



Obs: Imagem enviada pela autora.

Clari(ce)dade

Maria Inês Simões - Bauru/SP


Clarice, Clarice o que está por detrás do pensamento Clarice... Responda-me agora que você não é mais ela é it.

Nesta madrugada, você sondava o tempo, observava a chuva e conversávamos em silêncio. “Amanhã será dia de sol?”.
No instante conversávamos. Espera!!! Já não é mais o instante. É o instante depois do instante, depois do instante...
Você ri é? Agora sei obre o instante, Então vamos rir juntas... Seu riso ecoa em meu riso, porque eu ainda sou ela, enquanto vc já é it.

E a culpa e a glória é do instante, que já não é mais instante é assim como você.

Enquanto me observava, eu tentava descobrir o que está por detrás do pensamento.
Parei de pensar... Adormeci. Por detrás do pensamento, com certeza também estão os sonhos, o que mais estiver é segredo, neste instante.

Sonhei com você, e foi por detrás do pensamento.
Você ria, não um riso doido de ela... Mas um riso calmo, daqueles que com o olhar transmite a sabedoria de se ser em instantes eternos.


Obs: Imagem enviada pela autora.

ESTADO DE EMERGÊNCIA?

Edilberto Sena
(
edilrural@gmail.com)


Nos últimos dias estão ocorrendo ondas de decretação de Estado de emergência por causa da cheia dos rios. É em Altamira, Santarém, Aveiro, Monte Alegre e em 25 municípios do Estado do Amazonas. A cheia está grande? Está! Mas segundo informações, ainda não chegou ao nível do ano passado, em Santarém. Lá no Estado do Amazonas, o governador está agitado, vai distribuir 300 reais para cada flagelado.


Uma questão a se refletir é a cheia na Amazônia, é a cheia um flagelado? Não! faz parte da cultura do vargeiro conviver com a enchente. O vargeiro da Amazônia não se assusta com a água grande. Agora se aparece um político ou outra autoridade distribuindo tábuas e alguns trocados, nada mal.

Mas esse alarme todo e botar culpa no IBAMA por falta de madeira e sair dizendo que no Estado do Amazonas a enchente deste ano poderá ser maior do que a de 1902... Ora, o vargeiro sobreviveu bem a de 1953 que chegou a invadir a Lameira Bittencourt em Santarém e certamente foi uma das maiores de todos os tempos na Amazônia. Por que esse barulho todo de algumas autoridades?

Exceto a cidade de Altamira que entrou em estado de calamidade e não foi por culpa da cheia, e sim por causa de barragens ilegais, mal feitas que se tornaram criminosas e seus donos devem ser punidos. Agora essa onda de decretação de estado de emergência ainda no mês de abril, será que tem outra explicação por trás destas palavras? Em anos anteriores, por causa da cheia e de secas jorrou algum dinheiro dos cofres do Estado, do governo federal e dizem alguns, que não foi prestado conta porque por lei, dinheiro de emergência não precisa de prestação de conta. Basta que o prefeito ou governador faça um decreto, declarando que por causa da cheia, ou de um desastre maior se entre em estado de emergência ou calamidade pública. E então chega o dinheiro a ser aplicado pelas autoridades.

Daí os 300 reais do governo do Amazonas, daí as tábuas em Santarém, daí a pressa de prefeitos decretarem estado de emergência. Será que esse interesse tem outro interesse maior do que a solidariedade com os vargeiros? Não se sabe mas que dá para desconfiar dá, não acha?

OPORTUNAS DISTINÇÕES

Dom Edvaldo G. Amaral SDB (*)
dedvaldo@salesianosrec.org.br


Como algumas expressões eclesiais são frequentemente confundidas, sobretudo pelos jornalistas, parece-me oportuno fazer algumas distinções necessárias entre estes termos: Igreja Católica, Vaticano e, com menor freqüência, Santa Sé e Cúria Romana, porque de menor uso. O assunto reveste-se de oportunidade por causa do recente acordo firmado entre a Santa Sé e o Governo brasileiro. São instituições muito interligadas entre si, mas distintas em seu significado teológico e nas funções que exercem.

A Igreja Católica, na qual subsiste a Igreja de Cristo, é constituída pelos fiéis cristãos batizados do mundo inteiro e organizada como sociedade visível, governada pelo Sucessor de Pedro, o Papa e os bispos em comunhão com ele.

A Santa Sé, ou Sé Apostólica, é o órgão supremo de governo da Igreja Católica, que a representa na esfera das relações internacionais e diante dos estados e governos civis. Mantém delegações junto aos governos e órgãos internacionais e recebe embaixadores.

O Estado da Cidade do Vaticano, ou simplesmente Vaticano, é o território onde se localiza a residência do Papa, a igreja de São Pedro e algumas estruturas e serviços da Santa Sé. Mede menos de um quilômetro quadrado, exatamente 0,44 km ² e foi criado pelo Tratado de Latrão entre o governo italiano e a Santa Sé, em 11 de fevereiro de 1929, como estado independente. Goza de exclusiva soberania, com o privilégio da extraterritorialidade dentro da cidade de Roma. Tem serviço de correios, confere cidadania, atualmente a cerca de 400 pessoas, incluindo aí os Cardeais. É sujeito de direito público internacional, sendo representado nas relações internacionais pela Santa Sé, da qual se distingue. Com freqüência, os jornalistas confundem Vaticano com Igreja Católica ou Santa Sé.

A Cúria Romana é o complexo das instituições presididas pelo Sumo Pontífice que servem à Igreja. É composta da Secretaria de Estado, congregações ou dicastérios romanos, os conselhos pontifícios, os três supremos tribunais eclesiásticos (Penitenciaria Apostólica, Signatura Apostólica e Rota Romana) e de outros departamentos, organismos e comissões. Há ainda as instituições vinculadas à Santa Sé, como o Arquivo Vaticano, a Biblioteca Apostólica, os museus vaticanos, a tipografia poliglota, a livraria editora, o jornal “L´Osservatore Romano”, a Rádio Vaticano e o Centro Televisivo.


Todos esses são serviços e organismos, que podem mudar pelo evoluir dos tempos, as vicissitudes humanas e as contingências históricas. Permanece viva pelos séculos a Igreja de Jesus, santa e pecadora, mas vivificada pela força do Espírito, portadora da graça e da santidade, que seu Divino Esposo incessantemente lhe comunica para santificação do mundo pelos séculos sem fim.


(*) É Arcebispo emérito de Maceió.

O ABRAÇO

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


O que me falta te pedir?
Será que é aquele abraço entrelaçado?
Que me aperte com desejo, no domínio completo
De retomar o que sempre foi teu?
Quero colher-te com as mãos, num aperto
que me cinja a tua alma.
Desejo que nesse abraço sintas
O bater do meu coração,
Que em notas cadenciadas
Vai tocar uma canção de amor
Com refrão que me arrasta ao paraíso:
Eu te amo, eu te amo!
Por dentro, teu coração tocado,
Mergulha na melodia e em amor se esparramará
nos laços das veias que te tocam,
na transmissão do pulsar
Latente do meu coração por estar
do lado direito do teu coração
no abraço louco que de ti ganhei!
Dá-me teu abraço!

(mldan, 22/12/2008)

QUANDO ME TORNEI INVISÍVEL

Damares B. Serique
(
damares@bol.com.br)



Não é preciso ficar tão idosa para já sentir o começo disso tudo. Às vezes, ou sempre, as mães têm a percepção de serem indesejadas, receberem um beijo de má vontade, ou sentirem que o que falam está aborrecendo aos filhos pelo silêncio do retorno.


Gente isso é muito sério; parece até que as lembranças dos dias de total dedicação das mães se desvaneceram, isso é falta de consciência, de amor. Honrar pai e mãe através de gestos de carinho e atenção, é um mandamento com promessa de vida longa.

Muitas vezes os filhos fazem um favor como obrigação, uma coisa chata que precisa ser feita para que a "velha" não reclame muito. E como a velhinha do PPS em questão – QUANDO ME TORNEI INVISÍVEL - na hora dos programas como sejam: um passeio, um cinema, um jantarzinho; é chato né levar a mãe? afinal mãe é prá ficar em casa mesmo.....trabalhando....até quando ela não puder mais, aí então ela vai ficar INVISÍVEL!!!

PENSEM NISSO!! ENQUANTO HÁ TEMPO!!

ILUMINAÇÃO

João Batista Pinto
(
melopintoneto@uol.com.br)


Sou aquela afável chama
Descolorida e nua
Em ânsias de ser pura
Em ânsias de morrer.
O que me resta então?
Iluminar numa manhã escura
O teu olhar que muito me alimenta
E me dá forças, meu Deus!
Não deixes de fitar-me um só momento
Não deixes que eu me apague
Enquanto o brilho
Vem mais de ti do que de mim.
Sou uma sonâmbula.
À procura de quê?
Não sei. Talvez de nada.

A CHUVA, O LIXO, O RIO

Vladimir Souza Carvalho (*)


Início da década de oitenta, do século passado, a população do centro urbano de Itabaiana sofreu mais que sobaco de aleijado com a falta de água, que só chegava, quando chegava, nos locais mais baixos, e, ainda assim, altas horas da noite, a desafiar a população a fazer vigília obrigatória. Em muitas ruas, era comum o uso de motor, acoplado a encanação, para conseguir levar a água até a caixa. O DESO, evidentemente, estava atento ... para coibir. Em casa da rua das Flores, o fiscal do DESO pegou um morador, tranqüilamente, com o motor ligado. Ameaçou sapecar multa. O morador articulou desculpas que não foram levadas em conta. Dona Hermelina, professora aposentada, que ficava na janela a ver a banda passar, se meteu na história em defesa do vizinho. Dirigiu-se ao fiscal e perguntou-lhe, assim, de cara, se o cidadão era casado. Ante a resposta positiva, endereçou outra indagação, desta vez, carregada de tanto veneno, que o fiscal ficou tonto. Se a sua mulher não tiver água em casa, como é que ela vai lavar tal coisa? E aí aquele palavrão, que até Jorge Amado ficaria corado, foi pronunciado. O fiscal deu-se por encabulado, deixou a multa para lá e foi embora.


Mas a falta de água era assunto do dia, da semana e dos meses. De um filósofo (e em Itabaiana, até os mudos são filósofos) ouvi que terra boa para morar era Aracaju, por um motivo simples: a mulher do governador mora lá. E, com a sua assertiva, o desafio: quero ver faltar água no lugar onde a mulher do governador mora?!

Trinta e poucos anos depois, vejo Aracaju dentro do rodízio. A água faltou, ou, a água está a faltar. Apesar do mundão de água que o rio Sergipe exibe, água que deixa qualquer açude interiorano com complexo de inferioridade, Aracaju está mergulhada num rodízio. Não há água, mesmo levando em conta que a primeira dama mora na capital. Aliás, a primeira dama só, não, também o governador, seu secretariado e as mais importantes autoridades do Estado. A solução é o rodízio, enquanto a chuva não chega. Ou seja, aparentemente, a solução deve vir do céu. De outro lado, se Aracaju, capital, onde mora a mulher do governador, está assim, imagine o interior, ou o interior mais distante, onde a população está acostumada a ficar com sede e permanecer de boca fechada?

Enquanto isso, me recordo ter lido em algum jornal local, em data bem recente, a notícia de problemas de destruição no rio Poxim. Em outra leitura, a poluição toma conta do rio Sergipe. Fico a lastimar a sorte dos rios. Sem braços, para poder tirar o lixo que o sacodem, sem poder dar um bom cascudo em quem o transforma em monturo, sem boca para gritar e pedir socorro, o rio vai se enchendo de lixo, de lixo, até que um dia, a água, que lhe foi tão abundante e presente, pede licença e se evapora. O rio seca. Não fornece água devida, e, aí, então, o homem, que não cuidou do rio em momento algum, enfim, vai perceber que o rio existe, e, vai ter saudade do tempo em que rio lhe fornecia água.

Coitado do rio Poxim, seja o Mirim, seja o Assu, como coitado do rio Sergipe, incapazes de se defenderem das agressões que o homem comete, a me lembrar as fotos que, da parte do rio que passa em frente ao Parque da Cidade, na nesga de terra, mais precisamente, das suas margens, em processo criminal que presidi na 2a. Vara da Seção Judiciária do Estado de Sergipe. As fotos captavam o lixo nas margens do rio, dando destaque às garrafas de refrigerantes, que, de tantas e tantas, tão disciplinadamente arrumadas e agrupadas, que mais parecia uma foto artística. Quem vai tirar as garrafas do rio? Quem vai limpar a sujeira do rio?

É certo que a cidade, com o seu crescimento, matou os riachos que a cortavam, transformando-os em canais, porque onde uma água verde-escura corre sempre, em meio a muito lixo e muita sujeira. Foi um tento danado do homem que, para habitar a terra, sacrificou os riachos existentes no local onde a cidade foi erguida. Esse mesmo homem, agora, joga lixo nos rios, porque não há mais riacho para matar. O rio Poxim Mirim e o Poxim Assu correm esse risco, a água se tornando rara, a depender, sempre e sempre, das bênçãos de Deus, na remessa de chuvas, que encham o rio e acabem com o problema do rodízio.

A realidade é que o homem, sobretudo o homem público, por ser esta a sua obrigação, não sabe cuidar do rio. Não vejo, nas colunas políticas, que são tantas nos jornais, ninguém se lembrar dos cuidados que o rio – todos os rios – exige e reclama, entre eles, aqueles que se encarregam do abastecimento da população. Não há, acredito, e se há, peço profundas e reiteradas desculpas, nenhuma política de cuidados para com os rios, por parte do Governo, nas três esferas. Algumas escolas, de quando em quando, colocam seus alunos para limpar as margens de algum rio, notícia que a televisão mostra. Só. O mais é indiferença, na repetição da paisagem de imundície que a gente vê nos canais que desemborcam no rio Sergipe. Na ponte, próxima ao Baptistão, que liga a Av. Acrísio Cruz a Rua Cedro, o lixo, embaixo, é tão gritante, que a gente não acredita no que vê. Nas margens do rio Sergipe, adiante, no mesmo canal, quando a maré seca dá para se ver vários e vários pneus atolados na areia, em meio a sacos de plástico que a natureza não dilui. Quem vai retirar tais pneus e tais sacos?

Com a experiência de já ter matado os riachos, a gente vai avançando, agora, para matar os rios, com a vantagem, também, de contar com a aquiescência e omissão de todos. É tão difícil criar um grupo para salvar os rios, os nossos rios, que nos fornecem a água, em percorrer seu leito, em toda a sua extensão, detectar os problemas, para procurar solucioná-los, que o melhor é mesmo deixa-los à própria sorte, como se lhes dissesse, em sentença implacável, virem-se e cuidem-se, porque o homem, inclusive o público, tem outras coisas a fazer.

O certo é que o rio não despertou o cuidado do homem, como se o rio tivesse dentes para mastigar o lixo que nós lhe jogamos. Coitados dos rios, sim, que não sabem se cuidar, sozinhos, mas, coitados mais de nós, que, depois de termos matado os riachos, como já matamos, em breve, depois de assassinar, pela omissão, os rios, teremos, então, enfim, nos impregnado da realidade de não contarmos mais com os rios em atividade.

Ouvi, em palestra, no século passado, em Brasília, que a água e o lixo seriam os dois maiores problemas do século XXI. O lixo desafia a argúcia do administrador, com monturos a céu aberto. Qual dos nossos municípios [sergipanos] dispõe de uma fábrica de reciclagem do lixo? A água, bem, custa crer, a água já está começando a faltar. Contudo, se a chuva cair com abundância, pelo menos, o problema dos rios estará provisoriamente resolvido. Ou melhor, resolvido não, tangido com a barriga, como a gente diz, lá, em Itabaiana.


(*)
vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe

LIBERDADE

Amanda Barros (*)
(mandok_pucca@hotmail.com)


*Preciso me liberar desse passado desastroso e ilusionista no qual algo ou alguém ainda me prende.
*Tenho que apagar essa tatuagem de uma vez por todas, pois é ela que me mantêm presa aos momentos que já se foram.
*Removê-la não é fácil, porém não impossível, e é por isso que mesmo que ela machuque pra sair, aos poucos tenho certeza que desaparecerá pra sempre.
*E desse modo me libertarei a cada pedaço decepado na tatuagem, pois é disso que preciso.... nada a mais.
*Baseado em minha liberdade, está tudo que se define a minha felicidade no momento, então é pra frente que se anda e o que não me mata, me fortalece.


(*) Aluna da 7ª série

terça-feira, 19 de maio de 2009

CARTA ABERTA AO DEP. RAUL JUNGMANN

Mauricio M. Lima
(
mauricio@mauriciolimaadvogado.com)




Prezado Dep. Raul Jungmann,



Sou seu conterrâneo e fui eleitor de Vossa Excelência quando morava em Pernambuco, para onde brevemente espero retornar. Durante muitos anos, fui grande admirador e tinha muito respeito por Vossa Excelência e seu trabalho, quando Ministro e também pela sua ação parlamentar. Hoje, porém, questiono a sua ação parlamentar e a do seu partido, o PPS.


A imprensa divulgou, recentemente, informações de que a equipe econômica do Governo detectou a necessidade de se proceder a modificação nas regras da Poupança. Embora considerada necessária, como se demonstrará logo adiante, o Presidente Lula já manifestou a sua preocupação, determinando que o Ministério da Fazenda e a suaequipe técnica examine o assunto com muita cautela, tendo em vista ter consciência de que é justamente na Poupança onde se encontram as economias adquiridas, na maioria das vezes com tanto sacrifício, por milhões de pessoas pobres e da classe média brasileira.


É que, como noticiado pela imprensa, a queda dos juros, que vem ocorrendo paulatinamente por determinação do Banco Central – defendida praticamente, à unanimidade, pelos brasileiros – tem também o seu lado negativo. De fato, com a redução da chamada Taxa SELIC, a aplicação em títulos públicos, por grandes investidores, deixa de ser atrativa, levando os aplicadores desses Fundos – que garantem a rolagem da dívida interna do nosso País – provavelmente a aplicar na Poupança.


Como isso, a Poupança, cujos recursos ali aplicados, são dirigidos para financiamento de Longo Prazo, principalmente para o financiamento imobiliário, passaria a ter recursos instáveis que poderiam ser sacados a qualquer momento, uma vez que os grandes aplicadores dos títulos públicos, entre outros, pulam de uma aplicação para qualquer outro ativo financeiro que lhes possibilitem maior rendimentos, sem qualquer compromisso a não ser com o lucro.


Observa-se, assim, que a possível alteração das regras da Caderneta de Poupança (talvez reduzindo um pouco o rendimento), embora não seja uma boa coisa, parece dependendo dos estudos da equipe econômica – um mal necessário.


Fiquei surpreso e profundamente indignado ao ouvir e ver, recentemente, a propaganda do seu partido, o PPS, em que Vossa Excelência, a uma certa altura, AFIRMA que o Presidente Lula vai fazer com a POUPANÇA o mesmo que o Pres. Collor fez, isto é, o CONFISCO, que tanto mal causou a todos os brasileiros, principalmente aos pequenos poupadores .


O próprio Collor admitiu publicamente – como foi noticiado pela grande imprensa – que o confisco da Poupança foi um grande erro que cometeu.


Não obstante essa declaração do Pres. Collor, pode-se constatar, à exaustão, uma distância de ANOS-LUZ entre a trajetória e atos do Pres. Lula – comprovados nos 7 anos do Governo Lula –, com a trajetória e atos do Pres. Collor.


As pessoas de boa-fé, honestas, mesmo da oposição, não podem desconhecer o extraordinário trabalho social do Governo Lula, em favor dos mais carentes, dos mais necessitados, nas áreas de educação, saúde, assistência social, entre outros. BASTA SABER LER E CONSULTAR OS ÍNDICES SOCIAIS.


A OPOSIÇÃO, NUM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO COMO O NOSSO, TEM UM PAPEL INDISPENSÁVEL, FUNDAMENTAL MESMO, NA CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA, NA FISCALIZAÇÃO DOS ATOS DO PODER PÚBLICO, NO APERFEIÇOAMENTO DAS PROPOSTAS ORIUNDAS DO EXECUTIVO.


DETÉM, POR OUTRO LADO, IMENSA RESPONSABILIDADE DE FAZER UMA OPOSIÇÃO CONSTRUTIVA, PROPOSITIVA, E NÃO SE LIMITAR A TRAZER AO PAÍS INFORMAÇÕES FALSAS, INFUNDADAS, QUE EQUIVALE EM APOSTAR NO “QUANTO PIOR, MELHOR”, COMO DEFENDIA, PELOS SEUS ATOS E PROPOSTAS, EM TEMPOS PASSADOS, A ALA MAIS RADICAL DO PT, ENTÃO TÃO CONDENADA.


OBSERVO QUE, LAMENTAVELMENTE, O PPS E VOSSA EXCELENCIA, EM VEZ DE PROPOR ALTERNATIVAS PARA SOLUÇÃO DO PROBLEMA, DE MODO A EVITAR – QUEM SABE –, QUE SE TOQUE NAS ATUAIS REGRAS DA POUPANÇA, ESTÁ TRILHANDO NA CONDENÁVEL PRÁTICA DE SE LIMITAR A DENUNCIAR (É MAIS FÁCIL, NÃO SENHOR DEPUTADO?), SEM PROPOR SOLUÇÃO ALGUMA PARA O CASO, O QUE EQUIVALE ÀDEFESA DO “QUANTO PIOR, MELHOR”.


O MAIS GRAVE É QUE TANTO O PPS QUANTO VOSSA EXCELÊNCIA ESTÃO LABORANDO EM REFINADA MÁ-FÉ PORQUE – PARA MIM INEXISTE DÚVIDA ALGUMA – SABEM TÃO BEM QUE O CONFISCO DA POUPANÇA JAMAIS FOI NEM SERÁ COGITADO. AS PESSOAS ESCLARECIDAS DO PAÍS SABEM QUE NÃO HÁ O MENOR INDÍCIO,NEM A MENOR POSSIBILIDADE CONCRETA DE O GOVERNO VIR A ADOTAR A REPUDIADA MEDIDA.


TAL ACUSAÇÃO É APENAS PROPAGANDA ENGANOSA E IRRESPONSÁVEL DO PPS E DAQUELES QUE, COMO VOSSA EXCELÊNCIA, ESTÃO INDUZINDO O POVO – COM FINS ABSOLUTAMENTE ELEITOREIROS, PRATICANDO POLÍTICA COM “P” MINÚSCULO – , A RETIRAR O SEU DINHEIRO DA CADERNETA DE POUPANÇA, O QUE PODERIA SER UMA COISA TEMERÁRIA PARA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.


ISTO É UM DESERVIÇO AO PAÍS. VOSSA EXCELÊNCIA E O SEU PARTIDO, O PPS, NÃO IMAGINAM QUANTOS VOTOS, MERECIDAMENTE, VOCÊS PERDERAM COM ESSA FALSA DENÚNCIA. A MENTIRA – TODOS SABEM - TEM PERNAS CURTAS.


SINCERAMENTE, EU ESPERAVA ALGO MELHOR DO PPS E TAMBÉM DE VOSSA EXCELÊNCIA.

MEUS PÊSAMES.

AMAZÔNIA – AINDA É TEMPO DE SALVÁ-LA


Um apelo da Campanha da Fraternidade de 2007
Sebastião Heber
(shvc@oi.com.br)



A questão ambiental tem sido motivo de preocupação para muitos setores da nossa sociedade. E as nossas riquezas são múltiplas nesse aspecto.

O Brasil é um dos mais ricos países do mundo em termos ambientais: possui em seus 8.511.996km2 cerca de 1/3 das florestas tropicais remanescentes e o maior sistema fluvial do planeta ( no território brasileiro estão situados 2/3 da vasta bacia amazônica, por exemplo). O Brasil possui ainda a parte mais extensa do maior complexo de terras inundáveis ( o Pantanal), a savana que contem a mais rica diversidade biológica ( o Cerrado) e mais mangues do que qualquer outro país. Esta vasta paisagem abriga uma variedade gigantesca de fauna e flora;classificado como o país da “megadiversidade” pelos cientistas, o Brasil tem de 10 a 20 % das espécies conhecidas no mundo, segundo as estimativas. Há um grande número quer só ocorre no Brasil e uma grande quantidade ainda desconhecida pela Ciência. Em nenhum outro país há tantas espécies de macacos, papagaios, anfíbios, peixes de água-doce, vertebrados terrestres ou plantas. A flora brasileira representa 22% da flora mundial. Mas o Brasil é um dos países que apresenta alguns dos centros mais industrializados ( e poluídos ) do mundo, convivendo com focos de miséria e ocupação desordenada. Enquanto a Amazônia brasileira ainda abriga algumas das maiores extensões de floresta, a Mata Atlântica – igualmente rica em diversidade de espécies – tem sido sistematicamente destruída há mais de um século e é, hoje, o segundo bioma florestal mais devastado do mundo.

Embora o Brasil tenha uma das mais rigorosas legislações ambientais do mundo, ela tem demonstrado ser ineficaz no combate à devastação. Aliás, em termos de legislação não aplicada, o nosso país é um belo campeão: por exemplo, a legislação do SUS, é considerada pelos organismos internacionais de saúde, um dos sistemas mais organizados do mundo, e na prática, nós sabemos como funciona. Com relação à legislação ambiental, os problemas incluem : insuficiência de pessoal, dificuldades em monitorar áreas extensas e de difícil acesso e falta de regulamentação das medidas que permita a implementação das disposições legais.

Na Antiguidade, a preocupação com as questões ambientais já se encontram expressas no Pentateuco quando no início da Torá ( os cinco primeiros livros da Bíblia), vemos Deus Criador recomendar a Adão e Eva que preservem o mundo em que os colocou. Noções sobre biodiversidade e a preservação das espécies animais são encontradas quando Noé leva para a sua arca casais de cada espécie animal.É ainda na referida arca onde aparecem os primeiros registros sobre lixo, na medida em que um andar inteiro era reservado para sua disposição.

A proibição do corte de árvores frutíferas pode ser encontrada no livro do Deuteronômio, capítulo 20.

As interrogações sociais que motivaram as pesquisas sobre o Meio Ambiente, certamente tomaram impulso com a obra “Ensaio sobre o princípio da população”, de 1798, do inglês Thomas Malthus. Os problemas populacionais , já na Antiguidade, chegavam a preocupar os governos. O primeiro esforço científico, porem, para estudar essa questão, foi feito por Malthus. Sua posição era de que o crescimento natural da população, em progressão geométrica, sempre excederia o incremento dos recursos de subsistência, que cresciam em progressão geométrica. Esse desequilíbrio, levaria a espécie humana à decadência e até o desaparecimento, se não houvesse uma limitação natural, como epidemias, doenças resultantes da subnutrição e de guerras. Mas a teoria malthusiana não previu as possíveis conseqüências do desenvolvimento tecnológico, como a mecanização agrícola, as novas formas de produção, o surgimento dos novos tipos de alimentos e os progressos da medicina.

Concluo ,com a palavra de D. Luiz Capio, Bispo de Barra, e que tem assumido a missão de lutar contra a transposição do rio S. Francisco. Ele fez a apresentação do livro da Campanha da Fraternidade de 2007.

Diz ele:”A CF – 2007 nos leva para a Amazônia, onde a vida e a natureza , com toda a sua riqueza e biodiversidade ainda sobrevive, apesar das muitas e grandes agressões de todas as ordens que ali acontecem. A Amazônia é o pulmão do mundo, a grande ‘caixa d’água’ que garante o precioso líquido para o consumo humano e animal. Mas, até quando? Se não abrirmos os olhos e assumirmos posturas corretas de preservação da vida , revertendo o quadro da devastação, estaremos transformando esse jardim maravilhoso, dom do Deus da vida, em quintal onde se joga o que sobrou da festa louca daqueles que são responsáveis pelo consumismo desenfreado e pela destruição das fontes da vida”.


Sebastião Heber Vieira Costa. Professor de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 deJulho, da Cairu. É membro do IGHB, da Academia Mater Salvatoris. Colabora nas Paróquias da Vitória e de S. Pedro. shvc@atarde.com.br

TEXTO DE PAULA BARROS

www.pensamentosefotos.blogspot.com



Sinto falta do seu aroma no meu jardim
Do seu brilho no meu céu
Do entralece das minhas palavras com as suas
Suas palavras me adentram, passeiam por mim
Mergulham no meu ser
Bate forte as pernas na minha alma
Molham as meninas dos olhos
Se você cria pontes
E me ligou a você
Não entendo porque não atravessa a ponte até mim
Se você é artesão
E fabrica redes com fios de emoção
Não sei porque não vem se deitar nas redes que tramo
Ah, não entendo
Pisas tão leve
Tem um cheiro inquieto
Uma batida arrítmica do coração
Um pensar anti horário
És um peixe grande
Não consigo pescar
Não cabe na minha rede
Nem no barco
Não gostas de navegar nas minhas águas
Sigo tão acompanhada
Mas enquanto não beija as minhas flores
Nem colhe o meu perfume
Me sinto só
Te expio por cima do muro
Assobio chamando
Sento na tua grama orvalhada
Respiro o imaginário
Sorrio orvalho
Choro pétalas amarelas
Suas palavras me abraçam......


(Só lembrando essa série não é amor...)

Obs: Imagem enviada pela autora ( da internet)

RECOMEÇAR


Rivkah Cohen



Existem momentos
em que ao subir monte acima
poderá fincar tua bandeira.
Um tanto suja,
um tanto rasgada,
mas vê-la tremular sob um céu azul,
muito linda, sempre amada!

Pode até estar nublado,
sujeito a chuvas, mas a verá brilhar
e ganhar esta luta!
Minha mão, por exemplo,
já se fechou em volta ao mastro e meu rosto
ficou até iluminado por algumas estrelas..

Sei que é doído
quando de repente alguém estraga
com suas próprias mãos
tuas mais íntimas histórias!
Coisas que te doeram profundamente
e nunca se aplacaram em tua alma.

Com maldade, com intento,
de tira o mérito de tuas pequenas glórias,
do jeito que estava vendo,
sem o contorcionismo da dor,
sem o cristalino da lágrima..!

Sei que é difícil,
ver teus assuntos,
assim,
de graça,
jogados ao vento,
reconhecer tua voz bem baixinho,
saindo no auto-falante da praça.

Não há de ser nada!
O ar que é deslocado sempre abre uma lacuna
e como nada fica vazio,
-ainda mais de forma suja-
este espaço também será preenchido
e nessa roda sem mim,
outro alguém que nada sabe da história,
revidará por ti.

Por que?
Porque a vida é assim!

Olha, eu já estou subindo,
já posso sentir o vento acariciar meu rosto.
Logo esquecerei meu cansaço
e recomeçarei de novo.
Verei o tremular da minha bandeira
e sem alardear meus planos,
à minha maneira,
reconstruirei meus sonhos!


Obs: Imagem da autora.

DIVAGANDO

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com



E de repente ela esqueceu tudo.

Já não sabia quem era.

Se tinha amigos.

Quem eram seus pais.

Seu irmão.

O que fazia da vida.

Viu os campos se aproximarem.

O céu ficou mais azul.

O ar mais limpo.

Sentiu a calmaria envolver todo o seu corpo.

Esqueceu a rotina.

O dia-a-dia.

Não fez questão de batom, de perfume, de cremes de um pente no cabelo.

Seria ela mesmo.

Pensou.

Pensou.

Rompeu o silêncio.

Sorriu baixinho.

Depois deu uma gargalhada.

Arquitetou mil e umas loucuras.

E concluiu ...

Essa era ela mesmo.



Obs: Imagem enviada pela autora.

TEMPOS E COISAS


Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



As cores não haviam mudado. O cheiro da sala ainda era o mesmo, embora menos forte menos acentuado. Uma mistura de tempos e de coisas: do fumo inglês usado no cachimbo que ainda estava sobre a mesa; do desinfetante colocado para combater os insetos que atacavam os livros; do perfume que ele usava, misturado aos odores da volta, do cheiro do seu corpo na bata de pintor. Tudo continuava igual e se repetia nas lembranças, nos desejos, no desespero da espera, um desespero que já era loucura. Medo de continuar amando, escondendo no amor, a culpa o medo.

Rebeca queria de volta o passado. E ele estava ali, enterrado naquela sala. Os pincéis ainda se encontravam sobre a mesa. Peças de cerâmica, inacabadas, espalhadas por toda parte cobertas de poeira. Um cheiro de tinta velha impregnando o ar. Nada mudara na velha sala. Na triste sala. Na sala escura. Na sala.

O retrato colorido de Moisés abdicara de suas cores primitivas, desbotara. As fotos coloridas acompanharam o tempo. O olhar dele, no retrato revelado há tanto tempo trazia presa a expressão mentirosa que só agora ela conseguia ver. A cor dos olhos se perdera, a mentira ficara. O azul brilhante dera lugar a uma cor indefinida, inexpressiva.

“O que restara dele? De que poderia sentir saudade?” Rebeca refletia: talvez das mentiras que a haviam feito feliz. A verdade a fizera sofrer. Saber de tudo não tornara sua vida melhor. A imagem que recebia dele lhe bastava. Ninguém podia entender que se pudesse amar alguém assim. Mas, ela podia e amava. “O que você encontra nele”? perguntavam. Nem tentava saber o que era, não importava. Mentia com tanta convicção acreditando no que contava, que também ela passou a acreditar. Fazia questão de acreditar.

Jamais quis ouvir qualquer comentário contra ele. Para que saber de coisas que a fariam sofrer? Moisés dizia: “é inveja”. Rebeca acreditava. Mentirosos eram os outros. E os outros não interessavam. Quem a abraçava e beijava, fazia carinho, era ele. Para ela não importava a verdade se a fizesse sofrer. Ser feliz era o que importava. “No teatro é assim”, pensava “atores representam e vivem o que representam. Eu era seu palco, ele o ator que eu amava.”

Rebeca continuou na sala muito tempo, muito tempo ainda. Na parede, ao lado do piano, viu o retrato, pintado por ele, refletido num grande espelho. Ficou confusa diante da imagem duplicada. Só então percebeu, a expressão do olhar que dava ao seu rosto um ar aparvalhado. “Pintou-me como me via” pensou. Descobriu-se na tela como se houvesse aberto a porta de um armário para dar de cara com uma estranha. “Via-me assim?” Sentiu raiva. Quis destruí-lo. Voltou-se, viu-se refletida no espelho parecia uma cópia da tela, a expressão era a mesma. Sobre seu ombro o retrato lhe fazia sombra. Havia naquele rosto um século de zombarias. Não se reconheceu na mulher refletida. “Olha-me como se me pedisse contas da minha alma”.
Enfurecida quebrou o espelho. Pedaços do seu rosto espalhados pelo chão, revelavam sua verdade. Em cada um deles a dor repetida, repetidas as mentiras, os sonhos, a crença espoliada. Pela janela aberta, Rebeca partiu.

A alma perdida soltara as amarras. Perdera-se no mundo. Nos campos verdes dança. A longa saia vermelha, levanta do chão a poeira de muitos séculos. A mulher liberta de sua dor percorre o mundo das mentiras que a fizeram feliz.



Obs: Texto extraído do livro da autora – O Olho do Girassol –

MISSÃO DE PAZ


D. Demétrio Valentini (*)



Vai ficar na história a viagem que Bento 16 acaba de fazer à Terra Santa. Não é por menos. Desta vez foi uma viagem com clara missão de paz, e com a declarada intenção de colaborar na solução do impasse que perdura desde a criação do Estado de Israel em 1948.

Seus antecessores também visitaram a região. Paulo VI lá esteve em 1963, bem no início do seu pontificado. Na época os atuais territórios palestinos estavam sob a responsabilidade da Jordânia. A visita ensejou o encontro com o Patriarca Atenágoras, de Constantinopla, iniciando um processo de reaproximação com a Igreja Oriental que ainda continua. Uma viagem, portanto, mais focada no relacionamento entre cristãos.

João Paulo II também empreendeu uma extensa visita à região, no arco da celebração do segundo milênio cristão.

Agora, Bento 16 dedicou suas atenções inteiramente à causa da paz. Sob este ângulo aparece a dimensão verdadeira desta viagem.

Em primeiro lugar, é de destacar a coragem de Bento 16. Ele já tinha experimentado na própria carne quanto é melindroso se referir a muçulmanos e a judeus. A prudência parecia recomendar que desistisse da viagem. Mas ao contrário, os episódios serviram de nova motivação para enfrentar com franqueza as complicadas questões históricas e geográficas que envolvem aquela conturbada região.

Aliada à coragem, destaca-se a clareza como Bento 16 abordou os temas inevitáveis desta viagem. Ancorado em seu firme propósito de colaborar na solução do conflito que se arrasta há décadas, não hesitou em descer em detalhes bem concretos em suas propostas de paz. Reconheceu, por exemplo, o direito de Israel a fronteiras seguras.

Traçou uma estratégia diplomática muito interessante. Começou pela Jordânia, onde louvou o clima de diálogo e de tolerância existente naquele país árabe. Estas referências serviram para urgir sua implantação também em Israel, para onde Bento 16 em seguida se deslocou, para concluir sua viagem visitando territórios palestinos, sobretudo um campo de refugiados, que são a expressão viva da injusta situação a que o povo palestino foi relegado, desde a criação do Estado de Israel.

Em pleno território palestino, Bento 16 proclamou sem rodeios a urgência da criação de um Estado Palestino, com fronteiras reconhecidas internacionalmente, sob os auspícios das Nações Unidas, a mesma entidade que ratificou em 1948 a criação do Estado de Israel.

Já foram empreendidas tantas iniciativas de diálogo entre israelenses e palestinos, todas fracassadas. Somos facilmente tentados a achar que esta foi mais uma, inútil e frustrada.

Mas, ao lado das necessárias precauções em projetar os acontecimentos desta região que vive em permanente tensão, há fundadas esperanças de que a sincera intenção do Papa surta efeitos positivos, e consiga tirar as negociações do impasse em que se encontram.

A gratuidade do gesto do Papa precisa despertar a consciência de todos os que têm culpa em cartório. Pois a “questão palestina” é fruto de questões mal resolvidas ainda do tempo da segunda guerra mundial. Assim como é a situação de muitos países da África, que ainda continuam pagando a conta de despesas feitas por outros.

A causa da paz, em qualquer lugar deste mundo, interessa a todos. Sobretudo neste lugar tão carregado de simbolismo como é a Terra Santa. Lá também, a paz precisa ser fruto da justiça, como nos lembrou neste ano a Campanha da Fraternidade.


(*) (
www.diocesedejales.org.br)



ENCONTRO DAS COMUNIDADES NA AMAZÔNIA

D. Demétrio Valentini (*)


No próximo mês de julho de 2009, do dia 21 ao dia 25, vai acontecer em Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, o Encontro das Comunidades Eclesiais de base. Será o Décimo Segundo Intereclesial, de acordo com a denominação que explicita o caráter desse tipo de encontro, que reúne as comunidades eclesiais que quiserem participar, por iniciativa de cada uma delas, sendo todas acolhidas por uma determinada diocese católica, que as recebe e se responsabiliza por todo o encontro.


O que chama a atenção deste encontro é o lugar em que se realiza. Desta vez será em plena Amazônia, numa cidade típica das aglomerações urbanas surgidas à beira de rio, como ponto de apoio para o transporte fluvial, como aconteceu com a grande maioria das cidades situadas no território da Amazônia.

Num momento em que as atenções se voltam para a Amazônia, pelos mais diversos motivos, as CEBs escolheram uma cidade da Amazônia para realizarem o seu grande encontro, que costuma servir de referência para a continuidade de sua caminhada. Não existe uma articulação nacional estável das Comunidades Eclesiais de Base. Elas fazem questão de se integrarem, cada qual, em sua própria diocese. Elas querem ser comunidades das Igrejas Locais, das Dioceses. Os seus encontros "intereclesiais" servem de estímulo, de apoio mútuo, de alargamento de sua visão eclesial, de troca de experiências e de incentivo para o prosseguimento de sua caminhada.

Quem mais diretamente se sente envolvida é a Diocese que acolhe o intereclesial. Desta vez, a Arquidiocese de Porto Velho. Ela é o ponto de convergência de diversas dioceses ao seu redor, situadas no Estado de Rondônia, no Estado do Acre, e em parte do próprio Estado do Amazonas, abrangendo as dioceses de Ji-Paraná e Guajará-mirim em Rondônia, Rio Brando e Cruzeiro do Sul no Acre, e Lábrea e Humaitá no Amazonas. Recentemente estes dioceses passaram a constituir um novo Regional, no contexto da CNBB, o "Regional Noroeste".

Solidários com a Amazônia, queremos que o Décimo Segundo Intereclesial se torne uma grande bênção para todos os participantes, mas especialmente para toda a Amazônia.

(*) (
www.diocesedejales.org.br)

SEM RESPOSTA


Walter Cabral de Moura
(
wacmoura@nlink.com.br


Que reserva a nós mortais o destino divino?
se adiante do pequeno espaço de nossa lucidez
é no terreno escuro do incompreendido
que tantas coisas são passadas.

Que reserva a nós mortais o destino divino?
se à frente de nossa curiosa vontade de entender
vigora e baila à solta o desconhecido.

Que fazer desse mistério?
em que lugar colocá-lo?
a que adaptá-lo?

Escura é a dor
escusas as maneiras de escondê-la
que sonho é esse, indolor?
em que caminhos perderam-se
os sons de um passado murmurante?

Por que me voltam aos ouvidos
como um rio inseparável
as notas tristes de uma música passada?

UNIDOS NO MISTÉRIO DO AMOR


Marcelo Barros (*)



Há quem pense que o caminho para a unidade das Igrejas cristãs seja importante apenas internamente para as Igrejas, mas, para o mundo leigo e secular, tem pouca relevância. Não é verdade. Se as Igrejas tivessem conseguido se unir nos Estados Unidos, na época em que o presidente Bush invocava a Bíblia para invadir o Iraque, elas teriam impedido a guerra ou, ao menos, evitado uma mistificação que tornava o conflito por petróleo e poder uma guerra santa. Se, no mundo, as Igrejas tivessem se unido na defesa da Terra e da Água, provavelmente, não teríamos a grave crise ecológica que vivemos. A Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos que ocorre cada ano nos dias anteriores à festa de Pentecostes (na próxima semana, de 24 a 29 deste mês) tem em vista unir as Igrejas no serviço solidário e amoroso à humanidade e ao planeta. É promovida internacionalmente pelo Conselho Mundial de Igrejas que tem sede em Genebra e reúne em uma associação fraterna descentralizada 349 Igrejas. No Brasil, é coordenada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), com apoio da Igreja Católica e de outras sete Igrejas cristãs.

Neste ano, a Semana da Unidade tem como tema um versículo do profeta Ezequiel: “Unidos na tua mão” (Ez 37, 17). O texto bíblico, escrito cinco séculos antes de Cristo, se refere ao projeto divino de unir as tribos de Israel, mesmo diversas e autônomas, na unidade de uma só nação, após a dominação babilônica. O Israel que parecia um depósito de ossos secos, ao receber o Espírito, retomaria a vida e a unidade de um corpo vivo com muitos membros, cada uma com sua função, mas na unidade de um só organismo. Hoje, resta a compreensão que, em Deus, as diferenças entre nós não significam divisões. A diversidade pode ser fonte de enriquecimento para todos, desde que cada comunidade se ponha na mão do mistério maior do amor e se disponha a servir à vida da humanidade e de todos os seres vivos.

Atualmente, o Cristianismo continua dividido entre Oriente e Ocidente. A divisão entre as Igrejas é antiga. No ano 450, já houve uma ruptura entre as Igrejas que aceitaram as decisões do Concílio de Calcedônia e outras que permaneceram pré-calcedonianas. Em 1054, a ruptura entre Igrejas Orientais e a Igreja Latina se tornou oficial. Foi uma ruptura causada por incapacidades mútuas de aceitar as diferenças culturais entre orientais e ocidentais, mas principalmente, por lutas e ambições de poder eclesiástico e político. Infelizmente, isso se deu em nome de Jesus que sempre alertou os discípulos contra a idolatria do poder e pediu que fossem servidores uns dos outros. No próprio Ocidente, as divisões políticas e a decadência do Cristianismo dominado por reis e príncipes levaram às divisões da Reforma protestante (1517), com uma purificação necessária da fé, mas muitos sofrimentos e intolerâncias que se prolongam até hoje. O século XX viu nascer ainda os movimentos e Igrejas pentecostais. Atualmente, o fenômeno que se convencionou chamar de neo-pentecostalismo invade todas as Igrejas, mesmo a Igreja Católica, seus shows missas e seus cantores pop.

Ninguém propõe entre as Igrejas uma unidade centralizada de estrutura ou de organização. A diversidade é um bem. Conforme o Novo Testamento, Igreja deve sempre ser comunidade local e tem direito a ter seu rosto próprio, sua cultura e sua autonomia. O que queremos é merecer o título que aparece em uma carta atribuída a São João: “Igrejas irmãs”.

Sonhamos com o diálogo e a colaboração amorosa entre as Igrejas e também em relação às religiões não cristãs para aprendermos umas com as outras e, juntas, cada qual com sua autonomia e sua forma própria de crer, colaborar pela Paz, Justiça e defesa da vida no planeta.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
www.empaz.org/

CONSUMO POPULAR


Edilberto Sena
(
edilrural@gmail.com)



Numa época em que o mundo todo está em crise financeira, onde Bancos vão à falência, indústrias desempregam trabalhadores, o governo brasileiro decide enfrentar o monstro, favorecendo o consumo popular. Essa generosidade do governo já diminuiu a cobrança de impostos na fabricação de equipamentos domésticos, como geladeiras, fogões e outros. Com isso, esses produtos ficaram mais baratos ao consumidor. O governo foi mais fundo em sua aventura para amenizar os impactos da crise financeira mundial, que como a gripe suína vai invadindo todos os países.

Agora, abriu uma porta de atração no Banco do Brasil para financiamento de fogões e geladeiras, ao custo de 1 e 99% ao mês de juros e com pagamento até 60 meses. Que presente de natal antecipado! Até parece o Banco do Brasil com as lojas de importado 1 e 99. Financiamento assim tão facilitado é coisa rara, especialmente numa época de crise mundial.

Isso é bom ou é ruim? Assim como também esses empréstimos bancários, os micro créditos são bons ou ruins? Como diz o outro, depende! De quê? Depende de o freguês ter com que cumprir o compromisso de pagamento das prestações. E aqui está o perigo. Em geral, quem tem algum recurso já comprou um fogão, uma geladeira, um liquidificador. Quem ainda não tem é porque seu rendimento ainda não é suficiente. Essas pessoas serão as mais freqüentes freguesas desses financiamentos de 1 e 99.

A questão é, e depois de algumas prestações pagas, se faltar dinheiro para continuar o pagamento, o que vai acontecer? Que se saiba, Banco não faz filantropia e o generoso financiamento 1 e 99, promovido pelo governo federal, não é a fundo perdido. Então, esse financiamento barato de geladeira e fogão, assim como esses micro créditos facilitados, pode ser uma armadilha perigosa para os pobres que têm direito a um conforto de uma geladeira, mas cujo rendimento é baixo. O que se ouve é que muitos idosos aposentados estão argolados com os micro créditos.

Certamente quem mais ganha com essa aventura do governo são as lojas de eletrodomésticos., e os donos das fábricas de fogões e geladeiras. Afinal, o governo federal está favorecendo os consumidores ou os fabricantes de eletrodomésticos? É preciso muito cuidado antes de morder mais esta isca do financiamento 1 e 99.

QUE ENTRE OS NOIVOS!


Pe. Eduardo Delazeri
pe.eduardo.delazeri@gmail.com

Um dia o místico e o revolucionário se encontram em um ponto da história, que é na ante-sala do poder, e travaram o seguinte diálogo.

Místico: vocês revolucionários são muito voltados para fora, até parece que estão fugindo de si.

Revolucionário: Vocês místicos é que são voltados para dentro, até parece que estão fugindo do mundo.

Místico: que bom seria se a gente pudesse casar a mística e a revolução.

Revolucionário: É verdade eu até acho que esta mistura daria liga.

Místico: Já estou imaginado a cena, a Mística virá vestida de vida e a Revolução viria vestida de história. Os padrinhos já sei podem ser os movimentos sociais.

Revolucionário: Isso mesmo, e os convidados: seriam os últimos, para ao menos uma vez o mais simples ser visto como o mais importante. Vamos chamar as putas, os gays, miseráveis que moram nas ruas, os catadores de lixo, os aidéticos e toda a turma deles.

Místico: Pois que comece o casamento. Mas não será realizado em nenhuma Igreja, de nenhuma religião, vamos celebrá-lo na catedral da vida, para ser mais real. Que entre os noivos.

Revolucionário: Nós viemos aqui para beber ou para conversar?

Místico: (que é meio quietão, faz pausa. Só olha nos olhos dele.

Revolucionário: (num estalo percebe. Pega na mão do místico e comenta) Já sei. Nós viemos foi para amar não é?

Místico: É. Então é bom tirar os sapatos, assim a gente caminha descalço, pois essa terra que pisamos é sagrada.

Revolucionário: Não vamos tirar a roupa toda. Afinal, foi assim que nascemos.

A mística e a revolução tiveram então um filho, que não pôde ser batizado nem ter nome: chamou-se simplesmente homem-novo, embora fosse mulher.

O SUPREMO

Frei Betto


O bate-boca entre Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, ministros do STF, teve o mérito de nos recordar que o regime republicano é um corpo de três membros, conforme a tripartição de poder delineada por Montesquieu: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Os três exercem funções políticas, com a ressalva de que o Judiciário deveria primar-se pelo apartidarismo. Vira e mexe um dos três é entronizado no purgatório de Dante. O Executivo teve o seu, em 2005, devido ao “mensalão”, cujos bastidores e procedência o PT deveria apurar antes que a Justiça o faça.

O presidente Lula teve a hombridade de, a 12 de agosto de 2005, pronunciar-se nestes termos à nação: “Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país. O PT foi criado justamente para fortalecer a ética na política e lutar ao lado do povo pobre e das camadas médias do nosso país. Eu não mudei e, tenho certeza, a mesma indignação que sinto é compartilhada pela grande maioria de todos aqueles que nos acompanharam nessa trajetória”.

O presidente concluiu por afirmar que, se estivesse a seu alcance, “já teria identificado e punido exemplarmente os responsáveis por esta situação".

Agora o Legislativo, sob o comando do PMDB, encontra-se em plena caldeira do diabo. No Senado, abusos e mordomias, multiplicidade de cargos comissionados, uso indevido de recursos públicos. Na Câmara dos Deputados, a farra das passagens aéreas. Como se o eleitor delegasse poderes também à mulher do deputado, ao filho do deputado, à cozinheira do deputado.

Ora, o eleito é ele, e não a família. Só a falta de ética e decoro público leva um político a supor que seus direitos são privilégios extensivos a quem lhe aprouver.

O Judiciário vive, agora, o seu inferno astral. Os processos são morosos; os recursos, infindáveis; o número de juízes, insuficiente. O direito de advogados e juízes estenderem prazos, apelações, convocação de testemunhas e perícia de provas, transforma um simples processo num cipoal jurídico no qual se movem, lépidos, os réus mais ricos. Os pobres padecem as consequências de uma Justiça que traz os olhos vendados…

A lei é imparcial; sua aplicação nem sempre. Presume-se, até última instância, a inocência de endinheirados, politicos e ex-políticos. Mas não a de pobres coitados que, muitas vezes, induzidos pela miséria, o desamparo, a falta de escolaridade e de trabalho, praticam delitos, como furtar um pote de margarina, e são torturados por policiais, explorados por advogados, ignorados por juízes, enquanto padecem nas prisões.

Como ensinar às novas gerações que a lei não faz distinção de classes e a Justiça é imparcial (daí a venda nos olhos) se quem rouba tostão é ladrão e quem rouba milhão é barão? Se a desigualdade social impede que réus de baixa renda contratem bons advogados, não deveria residir no juiz a garantia da imparcialidade, fazendo o peso da lei recair indistintamente sobre todos que a infringem?

O STF deveria ser o indutor da reforma do Judiciário e dar o exemplo de que, em última instância, a lei prevalece sobre o crime, o direito sobre a força, a defesa do bem público sobre interesses privados abusivos.

Sou filho de magistrado e bem sei que toda categoria profissional articula, em vocabulário próprio, seu dialeto identificador. Padres preferem exortações adjetivas, sindicalistas usam a língua como esgrima, artistas recorrem a metáforas.

Os juízes de nossa suprema corte primam, salvo exceções, por expressões gongóricas, raras no linguajar do comum dos mortais. No entrevero entre Gilmar Mendes, o supremo, e Joaquim Barbosa, o guerreiro, chamou a atenção o vocábulo lhaneza. “Vossa Excelência veio com a sua tradicional gentileza e lhaneza”, ironizou Barbosa. Mendes reagiu: “É Vossa Excelência que dá lição de lhaneza ao Tribunal”.

O vocábulo, derivado do espanhol llano e do latim planus, significa candura. Quem dera que, no futuro, as decisões do STF fossem cândidas com os empobrecidos e duras com aqueles que teriam a obrigação moral de servir de exemplo à coletividade, devido à proeminência de suas posses e funções.

PS: 1º de maio é Dia do Trabalhador, data histórica marcada por sangue, suor e lágrimas. Lamento a sua progressiva despolitização, transformada em showmícios animados por bandas e sorteios. A classe operária jamais chegou ao Paraíso, mas alguns de seus líderes sim, apegados ao poder e às mordomias. O desemprego se amplia à sombra da crise do capitalismo. Onde as mobilizações para reverter essa conjuntura?


Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.


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