terça-feira, 26 de janeiro de 2010

TEXTO DE WALTER CABRAL DE MOURA

(wacmoura@nlink.com.br)


Metade de mim queria ser
um andarilho
um menestrel de estrada
pra fazer balada
pra cantar toada.
Viveria ao léu
ao lado de Deus
teria sempre o céu
em meus olhos.
À família e aos amigos diria:
vou partir, não sei se volto, adeus.

Metade de mim queria ser
um poeta vagabundo
a errar pelo mundo:
parar à sombra de um arvoredo
ouvir de perto a passarada
ter a vida como um brinquedo
e não temer nada, nada
nem maldade dos homens
nem bicho dos matos.

Mas a outra metade, ai de mim, diz:
fica, é loucura tal aventura
esse prato de feijão
nem sempre terás lá nas matas
em uma noite sem lua, bem fria
ou num dia de calor, ao meio-dia
é bem certo que vais querer voltar.

Procura estudar, trabalhar, te aquietar
pois boa romaria faz
quem em casa fica em paz
andar por aí, para quê? que insano!
encontra teu lugar, e com luta
progride ano após ano.

E só a morte trará
a paz a essa disputa
mas se a morte é um descanso
prefiro viver cansado
mesmo sem saber dizer
pra onde vou, pra que lado.

HAITI: REMOVENDO ENTULHOS

D. Demétrio Valentini (*)


Passada uma semana do terremoto no Haiti, ainda continuam os esforços para socorrer vítimas, e salvar vidas que ainda se encontrem sob os escombros.

Em meio ao desmantelamento da infra-estrutura, os esforços se concentram agora no atendimento às necessidades básicas de água, comida e remédios para a sobrevivência de milhões de pessoas afetadas pela tragédia.

Ela despertou comovente solidariedade em todo o mundo. Como sempre, em momentos assim, o difícil é encontrar os caminhos para que a solidariedade chegue aos necessitados. Os governos estão se dando conta que há providências a serem tomadas por eles, sem delongas e da maneira a mais expedita possível.

A campanha lançada pela Cáritas Brasileira, a pedido da CNBB, oferece segurança a todos os que desejam colaborar, pela maneira como ela se realiza nas comunidades, pela garantia da destinação correta dos recursos arrecadados, e também pela estratégia de fazer chegar logo os recursos, para entregá-los a quem está no local, com a possibilidade de identificar as providências mais urgentes e adequadas.

A campanha da Cáritas Brasileira está articulada com a Cáritas Internacional, que já enviou representantes para o Haiti, para colaborar diretamente com a Cáritas local. Para facilitar o apoio às vítimas, a Cáritas reforçou sua ação a partir da República Dominicana, país vizinho ao Haiti, na mesma ilha.

A campanha deve prosseguir. Também para este final de semana, a CNBB recomenda que se façam coletas nas celebrações das comunidades. Pois na medida que a situação se estabilizar, vão emergindo com mais clareza as providências a serem tomadas para a reconstrução.

Neste sentido, cresce a consciência de que é preciso repensar mais em profundidade, à luz da história, as causas que trouxeram tanta pobreza para o povo haitiano. O terremoto está interpelando as consciências. Assim como é indispensável remover escombros, para que as vidas não fiquem sufocadas, é importante remover preconceitos históricos, que continuam abafando a dignidade do povo haitiano, e impedem que ele percorra o caminho da liberdade, da justiça, do desenvolvimento, da própria soberania, para que ele mesmo assuma com respeito e competência o seu destino, no convívio pacífico com as outras nações.

O Haiti foi o primeiro país latino americano a conseguir sua independência, ainda em 1804, com a inesperada “revolta dos escravos”, que infligiram contundente derrota às forças da França. Portanto, a independência do Haiti brotou da consciência de liberdade do seu povo valoroso. Em seguida, foi capaz de ajudar a outros países latino americanos a também buscarem sua independência, colocando como condição que abolissem a escravidão, coisa que Bolívar esqueceu de fazer depois que conseguiu seus intentos políticos.

Esta postura altaneira do povo haitiano lhe custou um preço histórico muito caro. A França derrotada conseguiu impingir contra o país uma pesadíssima dívida, cujo pagamento foi comprometendo a economia do Haiti por longas décadas. O atrevimento do valente país em contrariar a ordem mundial estabelecida na base da supremacia da Europa e da raça branca, foi motivo para represálias em forma de boicote econômico, que foi arruinando sua incipiente economia. De 1915 a 1934 o Haiti foi dominado pelos Estados Unidos, que só se retiraram depois que conseguiram o pagamento das dívidas com o City Bank, e autorização para estrangeiros adquirirem propriedades no país.

Continuando a lembrar a triste sina deste pobre povo, não se pode esquecer os longos anos de ditadura sob títeres apoiados pelos Estados Unidos, com o falso pretexto de assim impedirem a penetração do comunismo.
O mundo não está inocente diante do Haiti. Há uma reparação a ser feita agora, em vista das injustiças praticadas contra um povo que teve a ousadia de ser livre e a coragem de pensar um mundo com dignidade e justiça.


(*)
www.diocesedejales.org.br

ALMA ESTRANHA

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


Reciclada componho-me, recomponho-me, desintegro-me, renasço. Paro nos limites de mim. Não me encontro, não me reconheço. Sou uma estranha em minha própria estrada.
Por que sou esta mentira? Não nasci da terra onde me plantaram. Nunca pude falar de ausência, de fé, solidão e dor. Estou sempre atrasada. Preciso descansar de mim, do meu esquecimento, dos olhos que caminham à minha frente mostrando-me estradas de faz de contas.
Nunca estou disponível. Quando adormeço não sei para onde vou. Passageira clandestina, no sonho embarco sem destino.
O que me ensinaram de mim não me importa. É tão pouco e nem sei se é verdade. Nunca me disseram quem me descobriu ou me inventou.
A alma que tenho, parede opaca, sem luz sem cor, muda de mim a cada século , lembrança emparedada.
Estarei sempre voltando, nunca nas raízes.
Que mistério se esconde nestes mundos? Aqui cheguei sem nome. Revelo-me quando me pronuncio. Para entender a canção preciso cantá-la conhecer a serpente para saber-lhe o veneno.
Como explicar um mundo que nasceu da palavra saída das trevas?
Preciso me revoltar, a mansidão me cansa. Quero contender com a idéia fria, a palavra vazia, o pensamento subjugado. Sem revolta serei sempre uma coisa, apenas coisa, submersa num subterrâneo de metáforas e trevas. Sequer posso me transformar, me apagar, renascer.
Escondo-me a cada sofrimento, feito as estrelas diante do sol.
Para te esperar pus o vinho na taça, o nome, a palavra, a vida revelada.
Entro no teu ventre, concebo-me no teu sangue.



Obs: Texto retirado do livro da autora – Morte Cega –

IMPOSIÇÃO DO ESCURO




Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br



Olho pela janela
e vejo aves iguais voando junto
e realmente é assim
em tudo nesse mundo!
A gente se afiniza
ao que o nosso coração entende
como real,
concreto,
justo!
Cheia de arranhões
e machucados profundos
me indigno
com a aceitação do absurdo!
Morre uma pessoa,
u'a senhora,
u'a mulher..
É sangue brasileiro!
Isso dói em mim!
Ignore quem quiser,
mas não me peça para agir assim!
Se as tribunas não foram ocupadas
por pessoas indignadas
pela morte do Engenheiro,
TRÊS DIAS DE SEQÜESTRADO;
se até Ronaldinho teve pressa
e compreensivelmente emocionado,
pediu por sua vida
e ela nem mais existia!
Pedido ao léu.
Nenhuma informação..
Mídia?
Políticos?
O governo silencia?
Seria aceitação?!
Acham mesmo
que o motivo verdadeiro
seja a "ocupação" de Israel?
Mas o atentado primeiro
se deu em 22 de fevereiro!
Só em maio Israel foi declarado Estado!
Quantos feridos!
Quantas mortes!
Estão a favor disto?!
Então batam palmas,
pois não será só Nairob, Madri
Nova Iorque, Moscou,
Beslan, Bali,
mas o mundo inteiro!!!
Quantas e quantas almas
vão pagar por deixarem legalizar
"esse direito"?!
Não me conformo!
Não aceito!
Menos um,
menos dois,
menos quantos
membros da família?
No ontem foi ele..
Alguém, com certeza, ainda chora
a morte do Engenheiro!
No hoje foi ela..
menos uma voz.
Meu espírito se une
aos que querem claridade,
evolução, aos que têm sentimento,
aos que buscam Paz, entendimento, alegria!
Olha..
não me iludo,
ai de quem não se manifesta
e aceita ficar subjugado
a luz por uma fresta,
a imposição do escuro!
Olho
pela janela
e vejo
aves iguais
voando junto..

Obs: Imagem da autora.

FESTAS DE FIM DE ANO COMO SINAL E SONHO – PARTE III

Dasilva


8. O natal é convocação clara (Vinde!) e exigente para a nova ordem social, cujo centro é a partilha do pão. Só quem trabalha, quem vigia (sábios da periferia) e quem se dispõe (Vamos a Belém = casa do pão!) vai ver, celebrar e seguir o sinal dos tempos.

9. A nova era começa fora da cidade dos homens. Nessa sociedade não há lugar para a esperança. Só quem precisa ou se doa pela causa da justiça pode querer o mundo novo onde lobo e cordeiro se abraçam e onde não se chora senão de alegria.

10. O ano novo é o apelo para a mudança. Em geral, toda pessoa quer mudar de vida, de preferência por uma interferência caída do céu. Daí, tantas simpatias. Só que mudar, tanto é alegria, como aventura que exige entrega total, ativa e comprometida.

11. O tempo avança inexorável. O rio continua o mesmo porque muda. Quem não muda, desaparece. O medo de mudar, de tão resistente, se quebra como o vidro. Muros e armaduras – físicas e imateriais – protegem o patrimônio, mas aprisionam a felicidade.

12. Só depois de mudar se saboreia as vantagens da mudança. Vê-se que a segurança não passa de velharias - tralhas, crostas, espaços inúteis ocupados, becos sem saída... Renovação é liberdade, novidade, novos prismas, desafios, criatividade...

13. O entusiasmo de final de ano pode gerar o impulso para esse salto na imensidão da vida nova e solidária a ser construída. Diante dessa decisão, baseada em convicção, alguns se fecham, outros se diluem na moda de plantão, outros mudam por fora.

14. A mudança se alimenta de sonho, sem ilusões. A centelha que ainda fumega, no íntimo dos humanos, reacende nesse clima de fim de ano. E não sabendo que existe o impossível, sua sensibilidade pode ir lá fazer o que será para realizar a esperança.

TESTEMUNHAS DE UM PROCESSO

Marcelo Barros(*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)



De vez em quando, a imprensa mostra cenas de julgamento e chama a atenção para o fato das testemunhas de defesa do réu entrarem em contradição ou prestarem depoimentos que não se harmonizam. Diariamente, isso está acontecendo em um plano mais amplo e estrutural quando se vê a divisão entre as religiões da humanidade. Em um plano mais concreto e próximo, o mesmo ocorre com as Igrejas cristãs. Apesar de que todas as Igrejas e religiões querem ser testemunhas de que Deus é Amor e Salvação para a humanidade, há muito tempo, elas se desentendem. Assim, dão ao mundo sinais de divisão ou de profunda indiferença uma em relação à outra. No caso do Cristianismo, até os nomes das Igrejas revelam certa auto-suficiência e mesmo orgulho espiritual. Uma se chama Igreja Católica (que significa Universal). É um nome muito antigo que ela possui antes da maioria das divisões. Entretanto, muitas vezes, pastores e fiéis se referem à sua Igreja como sendo “a Igreja”, como se não existissem outras. Outras confissões cristãs se chamam “evangélicas”, como se só elas o fossem. Ortodoxa é um termo grego que significa verdadeira. As Igrejas orientais, ao se chamarem assim, parecem subtender que as outras são heterodoxas, isto é, falsas. As Assembléias de Deus que, neste ano, completam cem anos de missão no Brasil, carregam um nome bíblico que vem do livro do Êxodo e deveria ser o nome de toda Igreja cristã. Nem falo de Igrejas mais novas com nomes pomposos e prédios mais ricos ainda que praticam a crença de que a prosperidade é sinal da bênção divina, como se alguém fosse pobre por não ser abençoado ou amado pelo Pai de amor maternal.

Há cem anos, na Ásia, as populações que eram objetos da missão cristã disseram aos missionários: “Primeiramente, vocês se entendam entre vocês e depois venham nos anunciar o Cristo”. Assim, provocaram a primeira grande conferência do Conselho Mundial das Missões que se realizou em Edimburgo (Escócia). Este evento é considerado o início do movimento ecumênico contemporâneo que resultou no Conselho Mundial de Igrejas, associação fraterna e igualitária de quase 350 confissões cristãs que se reúnem como irmãs para dar um só testemunho do amor divino pela humanidade e de que vale a pena crer no evangelho de Jesus Cristo.

A cada ano, desde 1908, no hemisfério norte de 18 a 25 de janeiro e entre nós, povos do Sul, na semana de maio, anterior à festa de Pentecostes, realiza-se a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Neste ano, o tema geral da semana é justamente esta questão de como dar testemunho do Cristo no mundo atual tão dividido e ferido por tantas injustiças. “Vós sereis testemunhas dessas coisas” (Lc 24, 48) e uma palavra de Jesus ressuscitado aos discípulos e discípulas, hoje, acolhida no mundo inteiro como programa de vida.

Ao ler sobre isso, há quem pense que este assunto interessa apenas a padres e pastores/as. Na realidade, atualmente no Haiti, é esta unidade entre as Igrejas e também entre outras religiões que asseguram a consolação e a força de esperança que podem manter vivos os sobreviventes da tragédia que se abateu sobre aquele país irmão. Ali, pessoas apavoradas não se sentem com o direito de enterrar seus mortos porque pensam que o Vodu não permitiria. Seria necessário, antes, fazer a cerimônia de passagem no próprio local da morte. Como fazer isso a milhares e milhares de mortos e em circunstâncias de risco para a saúde de quem está vivo? Está sendo importante que autoridades do próprio Vodu, junto com líderes de outras religiões ajudem as pessoas a compreenderem que a opção pela vida exige a pressa do sepultamento. E isso não desrespeita as tradições ancestrais tão fundamentais para quem já é pobre social e economicamente.

Por sentir que este assunto é importante para toda a humanidade e tem repercussões sérias com relação à paz entre os povos, no dia 20 de dezembro de 2006, a assembléia geral das Nações Unidas assinou uma resolução para promover o diálogo, a compreensão e a cooperação entre as culturas e entre as religiões em prol da paz. Proclamou que este ano de 2010 deve ser o Ano Internacional de Aproximação das Culturas. Recomendou que, no transcurso deste ano, se organizem atividades apropriadas, relativas ao diálogo, à compreensão e à cooperação entre religiões e culturas, sempre em função da paz do mundo.

Que a própria fé e a espiritualidade seja um instrumento amoroso deste diálogo e desta busca de comunhão com todos os seres humanos e entre eles e todos os seres da comunidade da Vida que forma o planeta Terra.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

CARGA DESNECESSÁRIA

Padre Beto
www.padrebeto.com.br


Era uma vez um burro que gostava de ajuntar espigas de milho, feixes de capim, restos de lixo e todo o tipo de bugigangas. Ele era muito apegado a todas as coisas que possuía e as acomodava em caixas que eram amarradas em cima de seu dorso. Assim, o burro carregava tudo consigo para onde fosse e chamava a atenção de todos. Com o tempo, as caixas foram se sobrepondo, a pilha foi ficando enorme e pesada e suas caminhadas tornavam-se cada vez mais dificultosas. Certo dia, o animal estava fazendo um passeio pela floresta e, passando perto de um rio, acabou atolando-se na lama, graças ao enorme peso de sua carga. Já quase todo coberto de barro, o burro, finalmente, foi se questionando sobre o sentido de carregar tanto peso chegando à conclusão que sua vida era mais importante que todos os entulhos que possuía em suas costas. Sentimentos negativos, fatos desagradáveis ou experiências desgostosas se manifestam como verdadeiras feridas em nossa memória. O fato de possui-las não deve deixar de ser uma preocupação, pois a memória contribui muito para a construção de nossa identidade. Em todo momento podemos remexer em imagens, diálogos, sentimentos que estão arquivados em nossa memória, assim nos (re-) definimos pelo passado, pois nele encontramos nossas raízes e o registro de quase todos os nossos passos. Se sofremos de amnésia, ou seja, se nossa memória é "deletada", ficamos totalmente desorientados, pois nos faltam informações básicas: de onde viemos, o que fizemos e o que construímos até agora. Porém, mesmo possuindo uma boa memória, não estamos livres de problemas. Muitas vezes, nas conversas com amigos ou com familiares, em casa, no barzinho ou no trabalho costumamos recordar os momentos vividos juntos. Nestas conversas marcadas pela nostalgia não somente relembramo! s as boas experiências ou interessantes passagens, mas temos a oportunidade de constatar que as lembranças sobre os mesmos fatos não se coincidem totalmente. Detalhes que recordamos não ficaram na memória dos outros e vise versa. Muitas vezes, temos até a impressão de que cada um está falando de situações diferentes. Estas diferenças na narração dos fatos mostram que a memória constrói as imagens do passado com impressões individuais e subjetivas e não como se fosse uma câmera de vídeo. Em primeiro lugar, existe um processo seletivo por parte de nosso cérebro que escolhe a cada momento aquilo que será guardado em nossa memória. Por ter a memória um papel central na visão e compreensão de quem somos, desenvolvemos a capacidade do esquecimento. Além deste crivo do cérebro, todo o material "salvo" é modificado pela nossa fantasia, nossos desejos e com o tempo acaba se misturando também com conteúdos fictícios. Este processo de escolha e "maquiag! em" do material armazenado na memória é um fabuloso mecanismo de def esa para a nossa própria sobrevivência, ou seja, uma proteção de nossa psique. Se fizermos uma análise crítica do material existente em nossa memória, descobriremos, com muita facilidade, que ele é formado, em sua maioria, de momentos agradáveis e positivos. O cérebro se incumbe de "criar" um material na memória que nos estimule a viver e a não perder o impulso vital de desenvolvimento. Nosso sistema nervoso central molda nossas posturas de vida de acordo com as situações que enfrentamos. Se a situação não foi muito grave e dramática, mas mesmo assim desagradável, ela cai no esquecimento rapidamente e não pode mais ser um peso para o nosso ser. Apesar do complexo processo químico que atua na atividade da lembrança de nosso cérebro ser ainda desconhecido para a ciência , uma revista científica alemã publicou no ano passado que o esquecimento possui substâncias parecidas com aquelas encontradas na maconha. As vítimas, porém, de situações muito tr! aumáticas recebem do cérebro outro tratamento. Estas situações são salvas na memória de traumas, diferentemente da memória do dia-a-dia. As situações traumáticas não podem ser lembradas quando desejamos, elas são despertadas por ruídos, imagens, etc. Por isso que os traumas nos atormentam, pois eles não podem ser facilmente dominados. De qualquer forma, nós seres humanos não somos máquinas que assimilam as situações com exatidão. Cada pessoa interpreta os momentos conforme seu horizonte de experiências. Cada memória deste mundo é algo único. Com a exceção das situações fortemente traumáticas, nós podemos ajudar nosso cérebro a "deletar" aqueles momentos que só servem de peso para nossa caminhada. As experiências negativas devem nos ensinar a viver, mas não podem se tornar companheiras desagradáveis de viagem. "Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo" (Buda).

ZILDA ARNS: DOUTORA EM HUMANIDADE

Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e

Ciências Humanas da PUC-Rio.



Onde mais poderia a morte ter colhido esta mulher, qual fruta madura e túrgida de sumo e sabor? Onde mais poderia ter feito sua passagem para a vida em plenitude na qual sempre acreditou e pela qual deu o melhor de suas energias? Que outro poderia ter sido seu destino? Que morte pousaria melhor selo nesta vida que foi condição para que tantos e tantas tivessem direito à vida ou pelo menos a uma vida mais humana?

Onde mais poderia estar essa doutora em medicina e pedagogia? Atendendo nos consultórios desinfetados e imaculadamente limpos, onde os pacientes abastados pagam polpudos cheques pelas consultas? Nas salas de aula das universidades que enchem os peitos de medalhas, as biografias de prestígios e honrarias?

Onde mais poderia ser encontrado o corpo chegado ao termo de seus dias desta viúva e mãe de cinco filhos, avó de vários netos? Em casa, no sossego do lar, gozando alegremente da companhia dos seus, rodeada do carinho dos familiares e amigos? Em ambiente higiênico e confortável, recebendo os cuidados que já poderia esperar aos 75 anos quando tantos se recolhem e já não mais exercem as atividades antes desempenhadas?

Não quando se trata da Doutora Zilda Arns, catarinense de Forquilhinha que cinco anos após enviuvar e deixar o cargo público que exercia no governo da cidade onde vivia, no estado do Paraná, recebeu telefonema do irmão, o então cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, como um chamado de Deus: fazer um projeto de combate à mortalidade infantil. Tratava-se de ensinar às mães das camadas mais pobres da população a salvar a vida de seus filhos que morriam como moscas, dizimados pela diarréia e a desidratação com a confecção de algo tão simples como o soro caseiro.

Como ela mesma declarou em entrevista no ano passado à revista Época, naquele momento sentiu que Deus a preparara durante a vida inteira para aquela missão. Naquela noite, em vez de dormir, pensou e redigiu o projeto integral do que foi depois a Pastoral da Criança, que tem salvado alguns milhões de vidas, baixando os níveis da mortalidade infantil no Brasil em proporção surpreendente. Por isso foi exportado a vários outros países, onde a injustiça e a opressão da fome e das condições inumanas de vida ceifavam gerações de crianças e a esperança de povos inteiros.

Hoje uma rede internacional de mães e agentes sociais salvam vidas através do soro caseiro, da multimistura, combatendo desnutrição, diarréia, desidratação e infecções primárias que não permitiam que tantas vidas se desenvolvessem e crescessem. Com sua imponente estatura loura, seu passo nobre, sua palavra segura, a Doutora Zilda comandava esse exército do bem e da paz, visitando os projetos e as comunidades, dando palestras para conscientizar governo e Igreja local, assessorando estados e nações.

Três vezes indicada ao Premio Nobel da Paz, por três vezes não o recebeu. O reconhecimento de sua vida de doação e entrega generosa lhe viria por outro inesperado caminho. No miserável e castigado Haiti, onde parece que todas as catástrofes e penúrias se conflagram, Zilda Arns se preparava para dar uma conferência aos religiosos do Caribe. O terremoto que se abateu sobre a sofrida terra haitiana e vitimou a tantos, inclusive ao cardeal de Porto Príncipe, a soterrou sob escombros.

Onde mais poderia estar esta apóstola da paz e da justiça senão entre os seus? Onde mais terminaria sua jornada incansável pela vida senão ali onde a vida era mais agredida e se encontrava mais combalida e frágil? O dom da vida de Zilda Arns foi consumado de forma total e sem retorno aos mais pobres e sofridos de toda a terra neste momento: as crianças haitianas.

Esperemos que pelo menos no Brasil receba o reconhecimento que merece pelo muito que por ele tem feito. Atenção, senhoras e senhores: a Doutora Zilda pede passagem.

Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)


Copyright 2009 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

VENTO

José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Vem assim rapidamente
Em um sopro refrescante
Tranqüilo, cheio de paz,
Brisa contagiante,
Transparente e sinuoso
Balançando as ramas,
Embalando os sonos,
Remexendo as águas.



(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

TEXTO DE PAULA BARROS





( mpaula26@hotmail.com)



Saboreio nuvens Pôr do sol pertinho do céu Pinta as brancas nuvens De tons laranjas, sabor mimo Me movo parada As nuvens passam Pôr do sol tranqüilo Raios em minha alma Tintas pintam Céu, nuvens brancas, meus olhos Pôr do sol em mim Saboreio nuvens Laranjas, vermelhas Sabor algodão doce


Obs: Imagens da autora.

CARROÇAS DE BOI SEM REGRAS DE TRÂNSITO


Edilberto Sena
(
edilrural@gmail.com)


Em Nova Dheli, capital da Índia, país emergente mais adiantado que o Brasil, existe um fenômeno semelhante ao de Santarém, na Amazônia. Lá o trânsito convive com o mais moderno e o mais antigo meio de transporte. Vai desde os modernos Toyotas, aos triciclos pedalados e motorizados, motos, os bois sagrados e os pedestres aos milhares. Mas poucos acidentes, devido à cultura cuidadosa dos indianos. Em Santarém, por outro lado, se misturam modernos Mitisubishis e Vans,com ônibus descarregando fumaça de dióxido de carbono, caminhões baús, milhares de motos e mais de 300 carroças de bois e cavalos, em ruas estreitas, mal asfaltadas ou sem isso, motoristas que param em cima de faixa de pedestre, deixando a vida insegura de quem anda pelas ruas de Santarém, além dos freqüentes acidentes nas ruas.
O mais antigo meio de transporte, o das carroças de bois e cavalos, já tem sua associação dos carroceiros, o que é bom e até acabam de ganhar um presente de papai Noel político, R$ 30.000,00 que dá para construírem sua sede social. Um presentão que provavelmente será cobrado retorno nas eleições de outubro próximo. Surpreende que oEstado libere R$ 30.000,00 e não exija algum critério de uso, ter sede e nem colocar as corroças em condição de andar no trânsito é muito direito e pouco dever. Imagina-se que vão exigir prestação de conta ao final do gasto e pronto.

Os carros de boi e de cavalo andam dia e noite na cidade, sem nenhum sinal de trânsito. Se um automóvel andar na rua à noite com um farol apagado será logo multado. Já os carros de boi não possuem nem uma tinta luminosa e andam na rua com os mesmos direitos dos veículos motorizados. Sem sinal luminoso eles são um perigo a mais no trânsito louco da cidade.

É urgente que o serviço de trânsito exija algum tipo de sinal nas traseiras dos carros de boi e cavalo para o bem da sociedade e dos próprios carroceiros. É direito deles ganhar renda familiar com tal transporte, mas é dever se adequar ao bem estar do trânsito da cidade. É um milagre que mais acidentes não tenham ocorrido ainda. Comparar Santarém com o trânsito de Nova Dheli dever ser também estímulo para um mínimo de ordem também nos transportes não motorizados.

SACRAMENTOS : RECONCILIAÇÃO – PARTE II

Tomé


O projeto de Deus para os homens

Na Bíblia está claro que o projeto de Deus é unir todos os homens nele. Jesus disse que Ele nos queria unidos em um só rebanho, sendo Ele o único pastor. Ele pediu ao Pai na última ceia, na véspera da sua morte, que fôssemos um, como Ele é um com o Pai, que fôssemos um nele (Jo 17:20-21). São Paulo entendeu isso quando escreveu que nós formamos um só corpo com Cristo (1Cor 12:27). O papa Pio XII chamou à nossa união O Corpo Místico de Cristo.


Arrependimento

O arrependimento é um desejo de consertar o mal feito pelos nossos pecados. É o querer de nos reconciliar com as pessoas ofendidas, de fazer as pazes. É a vontade de apagar o passado e de começar de novo.

O pecador ofendeu a Deus que o ama infinitamente. Ao pedir perdão a Deus, o pecador lhe mostra o arrependimento pelo desejo contrito de retirar todo pecado da sua vida. Mas o pecador também ofende a si mesmo. Ele ofende um templo do Espírito de Deus e deve sentir vergonha por ter caído. Ele tem que aceitar a si mesmo como uma pessoa fraca. Tem que sentir que precisa da ajuda da sua família, dos outros, e de Deus para se “pôr em pé” de novo.

Há mais neste processo. O pecador ofendeu a sua família. O seu lar cristão. A Igreja doméstica deve ser um lugar de amor, harmonia, e confiança. Ele traiu esta harmonia e confiança. Se o pecado for público, ele deu mau exemplo aos outros e sujou o nome da sua família. Para consertar ou reparar o dano feito, ele deveria querer se reconciliar com os membros da sua família - não só um a um, mas sim, todos juntos, como família.

Enfim, o pecador ofendeu também a sua comunidade, o Corpo de Cristo, e tem que se reconciliar com ela, com todas as pessoas ofendidas. Vê-se que esta reconciliação não é pouca coisa. Ela é muito importante e muito difícil, porém faz parte do projeto de Deus.

Para nos reconciliar com todas as pessoas ofendidas e feridas, a nossa força é pouca demais. Precisamos realmente do poder de Deus. Este poder também faz parte do seu projeto. Podemos receber este poder de várias maneiras, mas a maneira mais completa é pelo sacramento da reconciliação. Este sacramento nos dá a esperança de que os outros serão curados também das feridas. Ele nos dá a coragem de procurar nos reconciliar com todos e de iniciar uma reforma de nossas vidas.

Vê-se agora que o sacramento não é um ato isolado de um pecador confessando os seus pecados, agora reservado a um padre. O perdão recebido do padre está no nome da comunidade de fé - do Corpo de Cristo - com as palavras: “Eu te perdôo os pecados no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.” Isto é o primeiro passo no caminho de nos “re-unir,” de nos “re-conciliar” com os outros após uma divisão que criamos. Este sacramento é a ação pela qual a comunidade de fé se cura, reconciliando os seus membros entre si pelo poder do Santo Espírito.



Pecado

Não se sabe em qual parte da história cristã iniciou e cresceu uma confusão sobre pecado. Ainda que a Igreja sempre tenha ensinado que o pecado se achava na nossa vontade livre, nos nossos motivos, na prática do sacramento, confundiu-se um ato com a intenção. Atos podem ser bons ou maus, construtivos ou destrutivos, mas nenhum é um pecado - nem o pior deles. Temos uma vontade livre para aceitar os valores do Reino de Amor ou os valores do Reino do Mal. Pecado se acha na razão atrás da nossa escolha.

As cartas no Novo Testamento nos chamam a aceitar o amor como o nosso primeiro valor. Elas pedem que façamos de nossa meta o amor a Deus e aos outros - de amar como Jesus nos ama (Jo 15:12). Mas podemos fechar o coração a este mandamento e aceitar os valores do mundo. Assim, estaríamos aceitando os valores do mal, “porque tudo o que há no mundo não vem do Pai - os maus desejos do corpo humano, a cobiça pelas coisas e bens e o orgulho pessoal vêm do mundo” (1Jo 2:15). Deus mostrou no seu projeto para a sua criação que a raça humana deveria ser o gerente deste mundo - que o mantivesse, que o preservasse, que servisse para o bem de todos. Infelizmente todos nós estamos inclinados aos maus desejos, à cobiça, e ao orgulho pessoal.

Consequentemente, indo à igreja pode ser um pecado para mim se eu for para demonstrar a minha devoção, para me mostrar em minha roupa cara, ou para angariar votos para alguém na próxima eleição. A parábola do fariseu e do publicano nos ensina isso. Um deles voltou para casa justificado. (Lc 18:10-14). Atos maus - aborto, homicídio, roubo, mentiras - não são pecados, mas podem ser frutos do pecado. Em seguida veremos isso mais de perto.

AS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS – PARTE II

D.Edvaldo Amaral (*)
(
dedvaldo@salesianosrec.org.br)



A atual constituição está comemorando vinte anos de vigência. Tendo sido aprovada em redação final a 22 de setembro, só a 5 de outubro foi promulgada. A única explicação, que se pode dar para tão longo intervalo entre aprovação e promulgação, é a data do aniversário em 6 de outubro de Ulisses Guimarães, Presidente da Assembléia Constituinte, que a apresentou à nação com o gesto que ficou célebre. O especialista político Octaciano Nogueira opina que durante esse período, constituintes alteraram o texto aprovado e acredita até que o instituto das medidas provisórias tenha sido inserido nesse intervalo. Essas medidas provisórias foram uma dádiva ao Executivo. Elas são,, nos regimes parlamentaristas, instrumento excepcionalíssimo, que no Brasil se tornou meio ordinário que o executivo tem de legislar sobre qualquer assunto, nem relevante, nem urgente. O próprio Nelson Jobim, atual ministro da defesa, admitiu recentemente ter participado de alterações no texto já aprovado.

O mesmo especialista assevera que a constituição de 1988, por um lado, é das piores que o Brasil já teve, a mais extensa e detalhista. Basta dizer que, no artigo 192, § 3º, chegou à insanidade de fixar os juros anuais em 12%! Por outro lado, ela é a carta dos direitos e garantias individuais. Nenhuma outra havia dado ao cidadão, ao trabalhador, direitos sociais e políticos como esta. É a mais liberal de todas no que diz respeito aos direitos políticos; por isso, pode-se afirmar também que nesse ponto é perfeita, a melhor que já tivemos.

Daí, merecer o título que lhe deu o presidente Ulysses de “constituição cidadã”. No seu texto, diz o cientista político Valter Pereira, o fato marcante que se nota é a elevação dos direitos sociais a status de mandamento constitucional. Com ela, continua ele, o ordenamento jurídico ordinário foi compelido a garantir a universalização da saúde, da educação e a preservação do meio ambiente, mesmo que a qualidade desses serviços ainda esteja longe do ideal constituinte. Na Carta de 1968,. o município ganhou abrigo na concepção federativa, o Ministério Público recebeu status de poder independente, a administração pública ficou mais transparente e as relações de capital e trabalho tiveram significativas melhorias.

Um certo constituinte, de fechada barba preta, que votou contra esta constituição na votação final, agora, de barba grisalha, afirma com a autoridade de supremo mandatário da nação: “Fizemos uma Constituição extremamente avançada, que estabeleceu compromissos radicais com os direitos individuais de todos os cidadãos. E a principal razão disso foi a participação popular” – menos a de seu partido, o PT... E conclui, como não podia deixar de ser: “como jamais houve na história deste país!”

Os fundadores dos Estados Unidos em 1787, em Filadélfia, temendo a reação de alguns estados federados ausentes, criaram a expressão genial We the people – “Nós, o Povo”. Os nossos constituintes de 1968 adotaram a expressão “Nós, representantes do povo...” Também o nome santo de Deus, que aparece em quase todas as constituições, mesmo nas que estabelecem separação entre Igreja e estado, como a nossa, está no preâmbulo da constituição cidadã.

O já citado cientista político Octaciano Nogueira contabiliza que nesses 20 anos a Constituição de 1988 já recebeu 62 emendas. Mais que qualquer outra. A de 1824 durou 65 anos e recebeu uma única emenda. A republicana, de 1891, durou 65 anos e teve apenas uma emenda também. Já a de 1934 durou três anos e recebeu três emendas. A de 1937 teve 20 emendas em seus oito anos de vigência. A Carta de 1946, com o restabelecimento da democracia, durou até 1965 com dez emendas. E a do regime militar, de 1967, teve inúmeras emendas com os chamados Atos Institucionais até a atual, de 1988. “Mas se não fossem as emendas no tocante aos assuntos econômicos, o texto original de 1988 teria inibido o crescimento do país, freado os ganhos de produtividade das empresas e desencorajado os investimentos externos. Em suma, teria remetido a economia brasileira para o século XIX,” diz uma revista de circulação nacional.

“A Carta de 20 anos atrás foi escrita quando o PT ainda acreditava numa sociedade sem classes”...– resume o constituinte Delfim Neto.


(*) É arcebispo emérito de Maceió.

LAPADA

Vladimir Souza Carvalho (*)


Em mãos o livro HISTÓRIA DOS SABORES PERNAMBUCANOS, de Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti (Recife, Fundação Gilberto Freyre, 2a. edição, 2009, 359 pp.), - gentil oferta de seu esposo, o dr. José Paulo Cavalcanti Filho, ele, também, autor do livro ADEUS PENDERAMA E OUTROS ESCRITOS (São Paulo, Ateliê Editorial, 2007, 216 pp.), - onde, logo no começo, encontro referência a uma lapada de cachaça (p. 24) dentro da abordagem dos pratos típicos da zona sertaneja.

O que me desperta o interesse é o termo lapada, que me fez recordar, com saudade, aliás, a figura de José Antonio de Moura, motorista de táxi na praça de Itabaiana, indo e vindo a Aracaju diariamente, durante anos e anos, conversador, animado e às vezes, mal criado, em cujo veículo, em tempos idos, muito viajei, cujo apelido, além de esconder o nome, foi marca registrada: Lapada.

De Lapada, mais velho que eu uns cinco anos, mais ou menos, me recordo desde criança, morando ou trabalhando na casa de Francisquinho Tavares, na Praça da Matriz, pai de Zeca do Crediário. Papai, tivesse por aqui, poderia explicar melhor, porque foi dele que ouvi uma história interessante, protagonizada por Lapada, quando ainda era rapaz novo. Na casa de Francisquinho Tavares, egresso de velhos tempos, agregada a família, morava uma filha ou neta de cativos, já em idade avançada. Teria ela encomendado a Lapada à compra de uma pasta dental. Lapada, propositadamente, adquiriu uma pasta de creme de barbear e passou para a boa velhinha, cujo apelido está registrado nos cadernos em que meu pai anotava as datas de morte, ou seja, Uil, falecida em 22 de agosto de 1969. A velhinha usou o creme de barbear como se fosse pasta de dente, até que, inconformada com o sabor, reclamou a alguém da família, circunstância que proporcionou a divulgação da presepada de que estava sendo vítima.

Morando, quando juiz de direito das comarcas de Nossa Senhora da Glória, e, depois, de Campo do Brito, na Praça da Santa Cruz, durante uns quatro anos, bem próximo a praça de táxi ali situada, vi Lapada com constância. Helder era bem pequeno, e, numa cena de correr pelos canteiros da praça, pensou que Lapada, que lhe deu algum psiu, em tom fechado, fosse o guarda, isto é, o guarda da praça, passando a temê-lo, até que o medo acabou quando ganhou uma espiga de milho cozido, oferenda que foi reiterada em ocasiões posteriores, os dois no batente da porta.

Lapada era estouvado, de explosões momentâneas, ocasião em que fechava a cara, dando a entender que se encontrava irritado, deixando da boca escapar muita peste. Em uma dessas ocasiões, ia de Aracaju a Itabaiana com um aero-willys bem fuçado. Foi parado pela Polícia Rodoviária Federal, sob a alegação de que estava a mais de oitenta quilômetros por hora. A sua reação foi imediata. Entregou a chave do carro aos policiais, dizendo: tome, se esta égua der mais de quarenta, é de vocês. E saiu, calmamente, caminhando na beirada da rodovia.

Lembro-me de Lapada na condição de goleiro do Itabaiana. Lembrança vaga. Sim, goleiro. Mas, há muito tempo. Acho, sem certeza absoluta, que Lapada substituiu Lima, quando esse foi jogar no Confiança, na década de sessenta do século passado. O que me ficou na mente é que, na narração dos locutores de rádio, quando o Itabaiana jogava em Aracaju, é que o goleiro do Itabaiana tinha o nome de Moura. Ora, quem é esse Moura se o goleiro do Itabaiana era Lapada? Mas, era Lapada mesmo, cujo apelido talvez não tenha soado bem para ser divulgado, sobretudo em se tratando de um time do interior, razão que deve ter inspirado alguém da diretoria a divulgar, na escalação do time, o seu sobrenome. Foi rápida a sua passagem como goleiro.

Com Lima, aliás, também ocorreu a mesma coisa. O apelido, em Itabaiana, era Enfinca, ou Infinca. Conheci, menino, uma senhora da rua, bastante nova e maltrapilha, com a cara de Odete Lara quando moça, com esse apelido, a pedir esmola nas ruas. Não sei se o apelido de Lima – que está bem vivo e pode falar melhor que eu – tem alguma conexão com essa mulher, que habitava as ruas de Itabaiana da década de cinqüenta do século passado. A diretoria do Itabaiana, em jogo em Aracaju, passou para a imprensa a escalação do time, usando o nome de Lima, seu sobrenome, Manoel Lima, salvo engano, a fim de evitar a divulgação do apelido. Só que, no caso de Lima, - que foi goleiro, e dos bons, por muitos anos, jogando no Confiança, principalmente, em um dos melhores times deste, e, depois, no Sergipe, onde quebrou a perna, chegando a retornar ao Itabaiana, - o apelido foi abandonado, o que não ocorreu com Lapada, que de, dono de bar, que pertencera a Antonio Lima, na Praça da Matriz, trabalhou algum tempo como motorista em Carmópolis, em serviço ligado a Petrobrás, para, depois e enfim, envergar a vestimenta de motorista de táxi, no trajeto diário Itabaiana-Aracaju e vice-versa.

Lapada, com seu gênio estouvado, não passaria incólume pela vida. Teve a infelicidade de aparecer uma doença danada, da gota serena de forte, como ele poderia ter reconhecido e proclamado, que lhe tirou o sossego, em um tratamento contínuo e permanente, cuja notícia circulava, até que, minando-lhe as forças, muito tempo depois o levou para o Cemitério das Almas de Itabaiana, acompanhado o sepultamento por uma multidão de amigos e conhecidos. Não fui ao seu enterro. Tinha audiência naquela tarde, que se prolongou, audiência da qual não consegui me livrar. Enviei cartão para a viúva, recebendo, depois, um bonito santinho, divulgado na missa de sétimo dia, que tenho guardado em algum livro.

Lapada é termo que encontro, com certa freqüência, no romance ROLIÚDE, do pernambucano Homero Fonseca (Rio de Janeiro, Editora Record, 2007, 238 pp). Significa, em nível de dicionário (Michaelis), o mesmo que lapa, que é igual a bofetada, lambada, ou seja, chicotada ou pancada com objeto flexível, paulada, sova, dose ou gole de bebida alcoólica, pedaço comprido de alguma coisa. Quem batizou José Antonio Moura com tal apelido deve ter tido bons motivos, pela conduta de Lapada, que o filho não reiterou, senão teria sido chamado de Lapadinha. Lapada foi o primeiro e único, portanto, apelido que bem sintetiza sua conduta, quando ainda menino.

Quando a história dos motoristas de táxi e de outros veículos de Itabaiana for escrita, começando pelo pioneiro João de Balbino, que, quando convocado para uma viagem, de importante que era, almoçava na cabeceira da mesa, o nome de Lapada estará em uma posição confortável, ao lado de pessoas sisudas, como Azer da Saboaria, e outras, mais folclóricas, como Zé de Melquíades que animava o carnaval de sujo com suas fantasias extravagantes; como Manoel de Jason, cujo caminhão quase não saia do lugar, sendo vencido, na velocidade, pelo carrinho de Gabriel professor; e, também, como Mamão Verde, na adoção da cor verde ao seu veículo, o que redundou no apelido que nunca o deixou em paz, entre outros. E aí, quem sabe, outras tiradas de Lapada poderão vir a lume na caracterização perfeita do seu gênio.

HISTÓRIA DOS SABORES PERNAMBUCANOS foi apenas um pretexto para a gente matar a saudade de Lapada, que, ressalte-se, talvez não tivesse conhecimento do significado do termo que lhe deram por apelido. Acredito no talvez

(*)
vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe

A CONVERSÃO DE S. PAULO E O ECUMENISIMO

Sebastião Heber
shvc50@gmail.com



Amanhã, dia 25 de janeiro, é dedicado na liturgia católica, à Conversão de S. Paulo, chamado de “o apóstolo dos gentios”, exatamente por causa de sua missão de expandir o cristianismo para fora dos muros do judaismo. “Saulo , Saulo, por que me persegues”, é o grito que ecoa nos Atos dos Apóstolos, na ocasião do seu chamado especial e misterioso a militar como Apóstolo de Cristo.

É conhecido o lugar considerável tido por ele na elaboração do pensamento cristão. Na pessoa dele encontram-se simbolizadas três culturas – a judia, a grega, a romana- que marcarão a difusão do cristianismo. Conforme a tradição, ele nasce entre os anos 5 e 15 da era cristã, em Tarso na Ásia Menor, filho de uma família judia , zelosa e ele próprio fora fariseu, portanto, tendo recebido uma sólida formação rabínica em Jerusalém, fala a língua grega e também tem o privilégio de ser cidadão romano.

Ele não teve a chance de conhecer pessoalmente o Cristo. Em Jerusalém, ele faz parte, inicialmente, daquele grupo judeu dentre os mais hostis aos cristãos e os persegue sem poupá-los. Ele assiste e aprova o apedrejamento de Estevão, o primeiro mártir cristão.Ele estava, exatamente,em Damasco, pelo ano 38, com a missão de perseguir os cristãos. E é nessa ocasião que é lançado por terra por uma força invisível e há o apelo à conversão com o apelo a se tornar um dos mais ardentes discípulos de Cristo.O essencial de sua missão vai se realizar ao longo de três grandes périplos, entre os anos 44 e 58, por terra e por mar, e ainda pela quarta viagem que irá conduzi-lo ao cativeiro em Roma no ano 59.

A hostilidade dos judeus, mas também dos judeus cristãos, dos quais ele faz parte, o conduz rapidamente a se consagrar àqueles que parecem estar distantes do cristianismo, os pagãos, que os judeus chamavam de “os gentios”.

Ele teve um papel decisivo na grave controvérsia que afetou a comunidade dos primeiros dias. A grande pergunta era: os pagãos que se convertem ao cristianismo devem ou não passar pelos rituais judeus, isto é, para só depois serem cristãos. Paulo foi decisivo nesse momento, mostrando o novo estado de coisas que a Verdade do Evangelho trazia.

Alem da obra teológica que ele deixou através de suas epístolas, o balanço de sua ação missionária é considerável. Ele multiplicou e consolidou as Igrejas da Ásia Menor (Galácia e Éfeso) e contribuiu para fazer penetrar o cristianismo no mundo ocidental evangelizando as grandes cidades da Grécia (Filipos, Tessalônica, Corinto) e, sobretudo, em Roma, onde morre, provavelmente em 67, um pouco após Pedro. Os dois são venerados conjuntamente e são considerados como “colunas da Igreja”, de acordo com Clemente, o terceiro Papa após Pedro, pelo ano 95.

As epístolas de Paulo que são chamadas de “corpo paulino”, e se revestem de uma importância particular aos olhos dos cristãos e dos estudiosos, pois é lá que se encontra exposta a teologia dele.Suas treze epístolas, designadas pelos nomes de seus destinatários respectivos, são classificadas não pela ordem cronológica, mas pelo tamanho, isto é, da maior para a menor. Dentre as epístolas, há aquelas chamadas “do cativeiro” ( Filipenses , Colossenses, Filemon). As epístolas chamadas “pastorais” são as de Timóteo e de Tito. Eles são assim chamadas pois dão instruções aos jovens pastores responsáveis pelas comunidades cristãs. A epístola aos Hebreus, certamente não pertence a Paulo, talvez a um discípulo e é considerada mais uma homilia do que uma epístola propriamente dita.

Paulo está associado à perspectiva ecumênica da Igreja Católica por essa dimensão de univesalidade que trouxe ao cristianismo nascente.A Igreja de S. Paulo Fora dos Muros, em Roma, é considerada como o túmulo desse Apóstolo. É lá que a Igreja toma iniciativas ecumênicas. Foi lá que o papa João XXIII anunciou o Concílio Vaticano II. Foi esse Papa que tomou, oficialmente, posição em favor do movimento ecumênico. Antes dele, Roma havia manifestado uma certa desconfiança e reticência a esse movimento que nascera em seio protestante. Mas houve na história do ecumenismo católico algumas ilhas de inovação que abriram caminhos para um futuro diálogo. O Pe. Portal, associado a um anglicano, o Lord Halifax, organizou os encontros de Malines, na Bélgica (1921-1925) entre católicos e anglicanos, presididos pelo Cardeal Mercier.Também o padre beneditino belga, D. Lambert Beaudouin, com a fundação do mosteiro de Chevetogne (1925) e o Pe. Dumont, dominicano francês, criaram dois centros abertos ao diálogo com as igrejas orientais. Em 1937, o padre francês Congar com o livro Cristãos Desunidos, foi a primeira expressão de uma teologia ecumênica católica.Em 1960 o Papa João XXIII criou o Secretariado para a União dos Cristãos , encarregado das relações ecumênicas com as igrejas não romanas. Tudo isso influiu diretamente no Concílio Vaticano II concebido como um meio de atualizar a mensagem do Evangelho para os nossos dias e aberto a uma perspectiva de aproximação entre as Igrejas Cristãs.

O Documento de Aparecida fala na influência de uma cultura materialista na qual estamos imersos e nas conseqüências de um egoísmo inerente a essa cultura.O cristianismo sempre mais unido poderá responder, de forma mais efetiva, às necessidades e desafios do nosso tempo.


Sebastião Heber. Prof. adjunto da UNEB, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris.

TEXTO DE LUG COSTA


Seria oportuno suscitar
de novo as interrogações, perplexidades,
neste momento em que retomamos
o diálogo interrompido
ao longo de tantos anos.

Sem o medo do confronto,
buscando a transparência da alma,
em nossas buscas e intenções
enfrentemos-nos na arena de nossa fragilidade:
enfrentemos-nos nos olhos.

Abrir o coração,
dissipar os ressentimentos e “medos”,
entregar as últimas resistências,
sanar as feridas com palavras de perdão,
partilhar as alegrias,
(re)construir a verdadeira amizade.


(07.03.2007 -17:15:04h – Carpina/PE)


Obs: Imagem enviada pelo autor

...ladras & cobras...

Maria Inês Simões - Bauru/SP



qualquer semelhança terá sido mera formatação

este é só mais um poema que vem sem inspiração
só um texto que fala de pobreza e conspiração
que bom seria se "elas" fossem diferentes
fossem a poesia e respeitassem as gentes

falo das ladras

ladras de vida... ladras de fantasia
ladras de grupos... ladras de harmonia
ladras do sossego... ladras do dia-a-dia
ladras... da paz e da vida-poesia

em tudo são cobras

cobras em demagogia
cobras em profissão
cobras em desunião
cobras em patifaria
cobras em desunião
cobras que nem cão

que ladram... que mordem
praticam a desordem
destroem vidas
como se fossem brinquedos
riem de seres humanos
após praticarem a maldade
pensam que sabem tudo
não sabem de nada, só falsidade
e delas vou contar um segredo
a justiça da vida as esperam
vivem sua eterna maldição
como cobras rastejar pelo chão
como ladras em si mesmas prisão

UMA ENDECHA PARA CATHERINE NICAISE ELISABETH LEROUX

João Batista Pinto
(
melopintoneto@uol.com.br)


Pobre Catherine Nicaise Elisabeth Leroux,
Cinqüenta e quatro anos de serviços,
Uma medalha de prata,
Vinte e cinco francos
E o direito a algumas missas.

Por que Flaubert não contou
Tua história,
Teus amores,
Teus sonhos,
Desilusões e descrenças?

Só te deixou
A rigidez monástica
Muitas nódoas e nódulos nas mãos.

Eu não te vejo assim.
Jamais te verei assim.
Vejo-te alegre e hígida,
A chorar e a sorrir
Algum antigo amor
Esquecido e desbotado
Entre forragens e begônias.

Pobre Catherine Leroux!
Os sonhos morreram,
Mas ainda tens nas mãos
Vinte e cinco francos
E um sino que toca.

SOLUÇOS E PERDAS…

(resomar)



Na poeira das pretensões a vida se apaga e o percurso trilhado delira em vão...
Há mágoas e sonhos afogados...
Há riscos que não foram dedilhados...
Há sobretudo um colorido enlouquecido nas mãos feridas e famintas...

Alheio aos rumos da solidão a revolta borbulha na alma tentando calar um crepúsculo que vacila nos degraus rachados de acenos e dor...
Como renovar a ternura se os muros esmagaram o eco de tua voz?
Como transbordar em labirintos se o gorjeio dos pássaros interrompido rumina em circunstâncias impossíveis de serem (re)construídas?

Na porta caída convicções abaladas,
gritos desesperados,
sentimentos confusos,
momentos gravados entre lágrimas e desejos...

Na espera de abrigo a ruptura brusca do ser escuta o eco de palavras atravessadas, perdas e abandono...
No vazio da paisagem o olhar se entrega aos ritmos dos desencantos...

Não é a tua ausência que reclamo, mas a força inexistente de tua presença desarticulando a razão...
Não é o medo de sangrar que questiono, mas a canção inacabada que soluça no amor...
Não é a escuridão que esbarra no mistério das pulsações, mas o discernimento abalado...
Não é a saudade que me consome, mas a essência do coração que sobrevoa e já não consigo enxergar o tempo disfarçado na vulnerabilidade de fracassos...

No transitório do anonimato resta a eternidade no brilho da melancolia...
Na inquietude de extremos a tentativa do desafio na superação e na ousadia da poesia que se derrama no solo esmagado, na chama persistente que se recusa parar na metade do caminho...
Na paixão do confronto a liberdade articulada na consciência do inesperado...


16.01.2009 – 10:23h

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O SANGUE DO HAITI

E A IMOLAÇÃO DA DRª ZILDA ARNS
Sebastião Heber
shvc50@gmail.com



O rabino americano Harold Kushner, tendo passado por um trauma pessoal, escreveu o livro intitulado “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”. Quando seu filho Aaron completara três anos, começou a apresentar sinais de uma doença estranha. Médicos famosos deram os nomes mais complicados todavia, garantindo que ele teria vida normal. Mas a surpresa viria com o diagnóstico final. A doença se chamava “progéria” e consistia no envelhecimento precoce. A via-sacra se estendera até os catorze anos. De um primeiro momento de indignação natural, de muitos “por que eu” ou de “como Deus permitiu que isso acontecesse comigo”, ele chegara à conclusão que “não é Deus que causa a tragédia, a doença, o sofrimento. Um terremoto não distingue entre pessoas boas e más, nem o câncer, nem o derrame cerebral, nem a progéria. Existe uma aleatoriedade no universo e a natureza é moralmente cega”.

Esse livro me transportou para a recente realidade do Haiti, onde multidões têm sofrido os frutos da catástrofe que assola o país. Exatamente esse país tão pobre e que é um símbolo libertário na América Latina e Caribe. Ele é o primeiro país a abolir a escravidão negra e nem por isso deixa de ter uma história trágica marcada por miséria, guerras civis, furacões, doenças, aids.

O romancista haitiano Jacques Roumain, é autor da considerada obra-prima da literatura do Haiti, Les gouverneurs de La Rosé (Os donos do Orvalho) e teve seu poema traduzido por outro poeta, o brasileiro Manuel Bandeira: “O Haiti é uma esponja empapada de sangue”.

A Ilha Hispaniola , como era chamada no início,foi visitada por Cristóvão Colombo em 1492. Já no fim do
século XVI, quase toda a população nativa havia desaparecido, escravizada ou morta pelos conquistadores.A parte ocidental da ilha, onde hoje fica o Haiti, foi cedida à França pela Espanha em 1697. No século XVIII, a região foi a mais próspera colónia francesa na América, graças à exportação de açúcar, cacau e café. Após uma revolta de escravos, a servidão foi abolida em 1794. A Revolução Francesa repercutiu lá reascendendo nos haitianos o ardor da independência. Dessa forma, o Haiti foi sede da maior rebelião negra da História. Em 1801, o ex-escravo Toussaint Louverture tornou-se governador-geral, mas, logo depois, foi deposto e morto pelos franceses. O líder Jacques Dessalines organizou o exército e derrotou os franceses em 1803. No ano seguinte, foi declarada a independência e Dessalines proclamou-se imperador. Após período de instabilidade, o país é dividido em dois e a parte oriental - atual República Dominicana - reocupada pela Espanha. Em 1822, o presidente Jean-Pierre Boyer reunificou o país e conquistou toda a ilha. Em 1844, porém, nova revolta derrubou Boyer e a República Dominicana conquistou a independência.

Mais de 80% de sua população vive abaixo da linha de pobreza. Só 20% falam o francês- os demais falam o creole, que é uma mistura de francês antigo, espanhol e dialetos africanos.

Há atualmente (isto é, antes da catástrofe) 70% de desempregados. Quanto à religião, 64% são de católicos, 23% de protestantes e, de acordo com as estatísticas, 5% estão ligados aos cultos vodus. Mas, na verdade, esse culto impregna a população refletindo a ligação com os cultos de matriz africana.

Desde a sua independência, o Haiti teve 16 presidentes depostos ou assassinados. Em 1915, os Estados Unidos invadiram o país e só se retiram em 1934. Em 1957 começa a era do famoso François Duvalier que a partir de 1964 se torna presidente vitalício e feroz ditador – fica no poder até à morte em 1971 sendo substituído pelo seu filho.
Por solicitação da ONU, a presença brasileira se manifesta lá através das forças armadas. De um lado ela é estimada pela população, de outro, contestada aqui com o argumento, como o de Gabeira, que seria melhor levar para lá sementes e não soldados.
De qualquer forma, a primeira nação das Américas a abolir a escravidão clama por ajuda.

A presença da Drª Zilda Arns nesse momento de catástrofe foi simbólica. Representou uma imolação, uma comunhão com os mais pobres, a quem ela dedicara toda uma vida através da Pastoral da Criança. Seus méritos foram reconhecidos por Salvador, quando ela, por proposta do Vereador Silvoney Sales, recebeu o título de Cidadã de Salvador.
São muitas as merecidas mensagens apresentadas no site dela. Destacamos essa que tem como título: “Uma perda para o mundo”.

“O mundo ficou mais triste ao perder essa estrela para o céu do Senhor. Contudo, O romancista haitiano Jacques Roumain, é autor da considerada obra-prima da literatura do Haiti , Les gouverneurs de La Rosé ( Os donos do Orvalho) e teve seu poema traduzido por outro poeta, o brasileiro Manuel Bandeira: “O Haiti é uma esponja empapada de sangue”.

O romancista haitiano Jacques Roumain, é autor da considerada obra-prima da literatura do Haiti , Les gouverneurs de La Rosé ( Os donos do Orvalho) e teve seu poema traduzido por outro poeta, o brasileiro Manuel Bandeira: “O Haiti é uma esponja empapada de sangue”.

O romancista haitiano Jacques Roumain, é autor da considerada obra-prima da literatura do Haiti , Les gouverneurs de La Rosé ( Os donos do Orvalho) e teve seu poema traduzido por outro poeta, o brasileiro Manuel Bandeira: “O Haiti é uma esponja empapada de sangue”.

Pessoas como Drª Zilda nos são dadas por empréstimo. Cumprida a missão precisa voltar aos braços do Pai Celeste. E sua missão foi cumprida, a semente foi plantada e os frutos são inúmeros - nos já os vemos pelo mundo a fora. Descanse em paz aquela que tanto semeou a paz, a esperança e a caridade. Nós cristãos precisamos olhar para o céu e agradecer a Deus pelo exemplo de entrega desta santa guerreira.Vá com Deus e vele por nós”.

Sebastião Heber. Professor Adjunto de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris.

ZILDA ARNS, A MÃE DO BRASIL

Frei Betto


Pode-se repetir que ninguém é insubstituível, mas a dra. Zilda Arns, vítima do terremoto que arruinou o Haiti, era sim uma pessoa imprescindível. Nela mostrava-se imperceptível a distância entre intenções e ações. Formada em medicina e movida por profundo espírito evangélico – era irmã do cardeal Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo –, fundou a Pastoral da Criança, alarmada com o alto índice de mortalidade infantil no Brasil.

Em iniciativas de voluntariado se podem mapear dois tipos de pessoas: as que, primeiro, agem, põem o bloco na rua e depois buscam os recursos; e as que se enredam no cipoal das fontes financiadoras e jamais passam da utopia à topia.

Zilda Arns arregaçou as mangas e, inspirada na pedagogia de Paulo Freire, encontrou, primeiro, os recursos humanos capazes de mobilizar milhares de pessoas em prol da drástica redução da mortalidade infantil: mães e pais das crianças, de 0 a 6 anos, atendidas pela Pastoral, transformados em agentes multiplicadores.

Ela, sim, fez o milagre da multiplicação dos pães, ou seja, da vida. Aonde chega a Pastoral da Criança, o índice de mortalidade infantil cai, no primeiro ano, no mínimo 20%.

Seu método de atenção às gestantes pobres e às crianças desnutridas tornou-se paradigma mundial, adotado hoje em vários países da América Latina e da África. Por essa razão ela se encontrava no Haiti, onde pagou com a morte sua dedicação em salvar vidas.

Trabalhamos juntos no Fome Zero. No lançamento do programa, em 2003, ela discordou de se exigir dos beneficiários comprovantes de gastos em alimentos, de modo a garantir que o dinheiro não se destinasse a outras compras. Oded Grajew e eu a apoiamos, ressaltamos que apresentar comprovantes não era relevante, valia como forma de se verificar resultados. Haveria que confiar na palavra dos beneficiários.

Em março de 2004, no momento em que o governo trocava o Fome Zero pelo Bolsa Família, ela me convocou a Curitiba, sede da Pastoral da Criança. Em reunião com José Tubino, da FAO, e dom Aloysio Penna, arcebispo de Botucatu (SP), que representava a CNBB, debatemos as mudanças na área social do governo. Expus as tensões internas na área social, sobretudo a decisão de se acabar com os Comitês Gestores, pelos quais a sociedade civil atuava junto à gestão pública.

Zilda Arns temia que o Bolsa Família priorizasse a mera transferência de renda, submetendo-se à orientação que propõe tratar a pobreza com políticas compensatórias, sem tocar nas estruturas que promovem e asseguram a desigualdade social.

Acreditava que as políticas sociais do governo só teriam êxito consolidado se combinassem políticas de transferência de renda e mudanças estruturantes, ações emergenciais e educativas, como qualificação profissional.

Dias após a reunião, ela publicou, neste espaço da FOLHA, o artigo “Fôlego para o Fome Zero”, no qual frisava que a política social “não deve estar sujeita à política econômica. É hora de mudar esse paradigma. É a política econômica que deve estar sujeita ao combate à fome e à miséria”.

E alertava: “Erradicar os Comitês Gestores seria um grave erro, por destruir uma capilaridade popular que fortalece o empoderamento da sociedade civil; por reforçar o poder de prefeitos e vereadores que nem sempre primam pela ética e pela lisura no trato com os recursos públicos. O governo não deve temer a parceria da sociedade civil, representada pelos Comitês Gestores.”

O apelo da mãe da Pastoral da Criança não foi ouvido. Os Comitês Gestores foram erradicados e, assim, a participação da sociedade civil nas políticas sociais do governo. Apesar de tudo, o ministro Patrus Ananias logrou aprimorar o Bolsa Família e o índice de redução da miséria absoluta no país, conforme dados recentes do Ipea. Falta encontrar a porta de saída aos beneficiários, de modo a produzirem a própria renda.

Zilda Arns nos deixa, de herança, o exemplo de que é possível mudar o perfil de uma sociedade com ações comunitárias, voluntárias, da sociedade civil, ainda que o poder público e a iniciativa privada permaneçam indiferentes ou adotem simulacros de responsabilidade social.

Se milhares de jovens e adultos brasileiros sobrevivem, hoje, às condições de pobreza em que nasceram, devem isso em especial à dra. Zilda Arns, que merece, sem exagero, o titulo perene de Mãe da Pátria.

Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.

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SOLIDARIEDADE AO HAITI

D. Demétrio Valentini (*)


Ainda continuamos surpresos e abalados com a violência da tragédia que se abateu sobre o Haiti. O terremoto foi devastador. Só aos poucos será possível contabilizar as vítimas, e avaliar os estragos causados.

Tanto mais urgente se apresenta agora o desafio da solidariedade, para um país que já vivia em condições de extrema precariedade.

O apelo precisa ser respondido sobretudo pelo Brasil, em vista de duas vinculações especiais que neste episódio ligam nosso país com o Haiti.

A primeira delas é a presença do contingente do Exército Brasileiro, no comando da Força de Estabilização das Nações Unidas a serviço da manutenção da ordem no Haiti, desde 2005.

A segunda é o falecimento da Dra. Zilda Arns, que estava no Haiti em missão de ajuda humanitária, e que acabou morrendo vitimada pelo terremoto.

Este fato envolve todo o episódio com motivações impregnadas de valores humanos e sentimentos cristãos. A própria tragédia, surpreendendo a todos, acabou dignificando o testemunho de uma pessoa que dedicou toda a sua existência a serviço da vida humana, sobretudo dos mais frágeis, de que o povo haitiano é um exemplo singular.

Mártir é aquele que morre dando testemunho de sua fé. A Dra. Zilda não podia concluir de maneia mais clara o seu testemunho de caridade, do que morrendo no cumprimento de uma missão que ela abraçou com extrema tenacidade e competência, ao longo de toda a sua vida.

Com a Dra. Zilda faleceram, ao lado dela, outros quatro soldados brasileiros, integrantes do nosso Exército. Eles também se tornaram heróis, que testemunham o caráter humanitário e a postura de dignidade e de respeito que caracterizou a presença da Tropa Brasileira no Haiti, como as autoridades e o povo daquele país souberam muito bem reconhecer e valorizar.

Há dois anos, a Cáritas realizou sua assembléia no Haiti, como expressão da solidariedade de todos os países latino americanos para com o país mais pobre do continente. Parecia uma premonição da solidariedade efetiva que agora somos chamados a exercer com urgência, para socorrer as vítimas e recompor as condições mínimas de sobrevivência do povo haitiano.

A Cáritas Brasileira já se coloca a campo, para promover uma campanha nacional, fazendo apelo a todas as comunidades, para que sejam generosas em socorrer agora nossos irmãos que passam por situação tão difícil.

Mas a situação do Haiti interpela o mundo inteiro. Este país, de diversas maneiras, sentiu o peso das adversidades produzidas pelo sistema econômico e financeiro mundial. Uma medida sensata e justa seria agora o perdão imediato de toda a dívida externa do Haiti, que corresponde a 30% do seu pobre orçamento.

A responsabilidade que a comunidade mundial conferiu ao Brasil, confiando-lhe o comando da Força de Estabilização, confere agora ao nosso país a autoridade para propor e reivindicar tal medida, como gesto mínimo de solidariedade internacional.

Pensando na Dra. Zilda, nos quatro soldados brasileiros, no arcebispo da capital que também morreu sob os escombros da sua igreja, e nas milhares de vítimas anônimas deste pobre e querido país, sentimos a dor cortando nosso coração.

Que ela se traduza na participação efetiva na campanha que agora é lançada, e nas reflexões que toda tragédia humana nos leva a fazer. Também para nos perguntarmos por que o Haiti, o primeiro país a conseguir no passado sua independência, no presente se encontra em situação tão precária e tão injusta.

(*) (
www.diocesedejales.org.br)

APRENDER A PENSAR...

Nelly Barros
gioie@terra.com.br


Quando era bem menina ainda, lembro-me que ouvia os mais velhos conversando e dizendo: "vc precisa pensar bem" ou "ele faz tudo sem pensar" "se tivesse pensado isso não acontecia" e ia por aí... O "pensar" sempre como o herói da história e na sua ausência, o fracasso e o insucesso, quase uma espécie de castigo. Sem saber que já estava pensando, pensava o que seria pensar? Desde entâo, me acostumei a ir para um cantinho qualquer, longe do barulho, me sentar e fechar os olhos, apertando bem para "fazer escuro"... Não era para ver, eu estava ali para aprender a pensar ! No início, ouvia os barulhos das pessoas, os passos, as risadas, mas com o passar do tempo, acostumei-me a gostar dessa distância, dessa espécie de retiro que eu inventara. Ali sentada, eu me sentia numa espécie de abrigo e podia inventar e viver o que eu quisesse, numa liberdade que os grandes não sabiam dar. Podia até voar! Assim fui aprendendo a calar, a gostar do silêncio e ao mesmo tempo, sem me dar conta, fui descobrindo um mundo interior muito bonito,fui descobrindo a "minha casa", o lugar onde "eu" morava e onde eu sempre gostaria de estar...

mas..


Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


A gente se perde em pensamentos,
devaneios,
carrega-se um momento
que faz questão de voltar,
como todo arruaceiro
só para machucar!

Vem o perfume, o cenário,
não apenas para reprisar,
mas......
aval......
but.......
como parte do nosso documentário!

Queria esquecer a dor, o queixume,
deixar para lá,
mas vai chegando e......
vem demonstrando que......
É..............
já não consigo evitar!

Esquecer?
Apagar?
Ah, como eu queria!
Que bom seria não lembrar,
mas.....
aval.....
but......
simplesmente não dá!



Obs: Imagem da autora.

AS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS – PARTE I

D.Edvaldo Amaral (*)
(
dedvaldo@salesianosrec.org.br)


Desde sua independência, o Brasil teve sete constituições, à diferença dos Estados Unidos, que desde 1787 tem uma única, com sete artigos e várias emendas. Das constituições brasileiras, três foram outorgadas, se considerarmos a Emenda de 1969 como uma verdadeira Carta Magna, promulgada pela Junta Militar, que governava interinamente o país e promulgou o AI-5.

Outorgada foi a primeira, de 1824, que Pedro I, dissolvendo a Constituinte por julgá-la incompetente, deu ao país, recém-libertado (1822), uma constituição “digna dele”, o imperador. Nela, criava-se o Poder Moderador, atribuído ao monarca, acima dos três poderes, legislativo, judiciário e executivo, num regime parlamentarista. Estabelecia-se a religião católica como religião oficial do estado e herdava-se da Coroa portuguesa o “direito do padroado”, pelo qual o imperador indicava os candidatos ao episcopado e sustentava o clero, mediante as chamadas “côngruas”. Haveria ainda o direito do “exequatur”, pelo qual alguns governantes europeus permitiam em seus territórios a divulgação dos documentos pontifícios. Não consta que no Brasil tal privilégio tenha sido jamais exercido. Nem por Pedro I, nem por Pedro II, um exemplo de democrata, apesar do caso dos dois bispos perseguidos em seu governo, Dom Vital Maria de Oliveira de Olinda e Dom Macedo Costa, do Pará. Estabelecia eleições indiretas, com o voto dos proprietários de certo nível de renda.

A segunda constituição brasileira foi a de 1891, que elegeu o alagoano Deodoro da Fonseca Presidente da República, legitimando apenas um fato real. Inspirada no liberalismo americano (daí o nome “Estados Unidos do Brasil”), estabelece o presidencialismo, a separação entre Igreja e estado, naturalmente (e felizmente...) deixando o catolicismo de ser religião oficial, acaba com o direito do padroado, deixando livres a Igreja e seus pastores. Estabelece o voto não-secreto, acima de 21 anos, vetado às mulheres, analfabetos, soldados e religiosos.

A terceira foi a de 1934, no primeiro governo de Getúlio Vargas, que reproduz o modelo liberal anterior, confere mais poder ao governo central, estabelece voto obrigatório e secreto a partir dos 18 anos, direito de votar às mulheres, já instituído pelo código eleitoral de 1932. Cria a Justiça eleitoral e a Justiça do trabalho.

A quarta constituição, de 1937, foi outorgada por Getúlio Vargas e estabeleceu o regime do Estado Novo, à imitação do modelo nazi-fascista europeu. Institui a pena de morte (jamais executada no Brasil), suprime a liberdade partidária, anula a independência dos poderes e autonomia federativa (proibidas bandeiras, escudos e hinos dos estados), eleição indireta do presidente da República, com mandato de seis anos.

A quinta constituição foi a do governo Dutra, em 1946, com restabelecimento de todos os direitos individuais, extinguindo a censura e a pena de morte e estabelecendo a autonomia dos estados e a eleição direta para presidente da República, com mandato de cinco anos. Em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, por exigência dos militares, veio a emenda que instituiu o parlamentarismo, logo abolido pelo plebiscito de 1963.

A sexta, de 1967, foi promulgada por um Congresso manietado, sob o governo do General Castelo Branco, institucionalizando o regime militar instalado em 1964. Criou o bipartidarismo (só ARENA e MDB) e eleições indiretas para Presidente da República. Com a Emenda Constitucional de 1969, outorgada pela junta militar na enfermidade do Presidente Costa e Silva, incorporou o AI-5, dando ao governo poder de fechar o Congresso, cassar mandatos, suspender direitos políticos e plena liberdade de legislar em matéria política, eleitoral, econômica e tributária.

Durante o período da abertura política, várias emendas foram corrigindo esses excessos até a promulgação da nova Constituição.

(*) É arcebispo emérito de Maceió

VOLTANDO AO PASSADO

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



A mulher sorriu lembrando da menina que era dona do sol, da terra, dos pássaros, dos frutos maduros, da chuva miúda que dava água às plantas, das flores silvestres que enfeitavam o chão e suportavam as secas e as grandes chuvas, enfim, um mundo plantado na alma e que o tempo não conseguiu apagar.
Viu-se novamente a criança, e, de um pulo, desceu as escadas. Correu para a rua, esgueirou-se pela várzea, desapareceu por entre as árvores, estava no caminho da serra.
Sentiu vontade de se deitar no chão e abraçar o mundo. Ficou quieta como um camaleão mudando de cor. Confundia-se com a terra e quando chegou em casa a mãe reclamou: parece que andou se espojando no chão, o vestido está que é terra só.
Como era bom aquele cheirinho de mato verde esmagado, a terra macia deslizando por entre os dedos, longe de tudo, dos ralhos da mãe, da gritaria dos irmãos dos roncos de sinhá Maria.
A mulher acordou. Olhou à sua volta, sentiu uma saudade danada de grande. A serra já não era pequena, parecia velha e cansada feito ela.
O pensamento espalhou-se por toda a rua.
O vento andava pelo mundo e trazia os lamentos da serra: assim como você, também envelheci. Conheci outras meninas que por aqui passaram, amores que nasceram por entre os galhos das minhas árvores, no esconderijo das minhas pedras.
A mulher precisava das lembranças para continuar viva. Elas estavam na várzea, no caminho da cachoeira, nas ladeiras, por todos os caminhos.
Lembrou da mãe. Viu seu corpo velado no meio da sala. Olhos fechados, fisionomia serena. Quem dera ainda seus lábios se abrissem para reclamar, passar-lhe pitos, fazer reclamações. Quem dera.
Agora, ali sentada, compreendia que não fora a mãe quem morrera. Fora ela, ela menina, ela adolescente, que partiram dentro dos olhos fechados para sempre.
Quem a consolaria de não ser mais criança?



Obs: Texto retirado do livro da autora – Do Quintal para o Mundo -