sábado, 31 de dezembro de 2011

DAS ESTRADAS


Aldo CB
aldocblog@gmail.com


“Assim somos,
acontecimentos da mesma matéria, barro moldado ao longo de estradas
 e aprendizados.”


E continuamos juntos como molejo do destino. E por continuarmos juntos, podemos sonhar juntos: algumas pétalas, alguns tropeços. Nosso sentido é caminhar.
Nem todos prosseguiram conosco: uns partiram; uns não voltam; outros, saudade. É o exercício da vida a derramar em nossos olhares o renovar, o renovar-se.
Sigamos juntos a solidificar o destino por estarmos juntos. E juntos ajudemos a saciar a sede e a fome dos que carregam a sede e a fome.
Brindemos e entoemos cânticos em louvor ao que mais de humano temos em nós, ao que nos aproxima das divindades. Façamos festas nos menores lares, nas pequenas praças, nos lugarejos mais ermos, nas cidades esquecidas e em cada um de nós.
Busquemos os gestos. E se o gesto se faz, a mão se estende. Assim somos, acontecimentos da mesma matéria, barro moldado ao longo de estradas e aprendizados. Sigamos a compartilhar nossos desalentos e sorrisos, nossas forças e tropeços. Aprendamos os passos: se um desafina, ele afinará conosco os instrumentos para o próximo concerto. Somos nós a contar a história, a fazê-la.
Se a mão se estende, o gesto se faz. Feitos do mesmo sonho, matéria de nosso barro, do pó da estrada. Compartimos o que restou de nossas fraquezas. E nossas vozes já afinadas entoam loas ao que somos, ao que podemos ser. Organizemos as festas, ocupemos os palcos.
Mão e gesto se fundem e a estrada somos nós a cantar, a sorrir, a moldar o barro de nosso existir. Tropeçamos juntos, mas também nos erguemos unidos. É de outra matéria que somos feitos, dos corações pungentes, dos capazes de renascer.
Permaneçamos próximos, pois os tempos só reafirmem o viço das mãos que se estendem e são o gesto. E que nosso continuar se torne um reencontro com todas as possibilidades do ser, da leveza de ser e estar. Juntos.


Uma LUZ no meio de tantas luzes


ANGELA BORGES


E ele se fez luz e habitou entre nós.
Luz que ilumina nossos passos
       Que incendeia corações
       Que norteia muitas ações.

        LUZ que tem luz própria
que por si só se basta
sem ser um basta a ninguém.
LUZ que só ama
no meio de luzes que desamam
LUZ que promove a paz
Cercada de luzes que odeiam
LUZ que se solidariza
junto a luzes tão perversas
LUZ que anima e guia
LUZ que sufoca tantas luzes
LUZ que reflete a paz
A LUZ do MENINO JESUS.


ANO NOVO


Apolônia de Morais Pereira
apoloniapereira@hotmail.com


De repente, o ano se acaba... De repente...
     O que fizemos de bom em 2011?
Vale a pena uma retrospectiva! Um "balanço...!"
     Não tememos o 2012, apesar de tantas perspectivas negativas que são comentadas, apresentadas. Sabemos que Deus é o SENHOR de tudo e de todos. E é o mesmo Pai Bondoso e Misericordioso. Nós é que precisamos nos voltar sempre mais para ELE, entregar-nos confiantes e deixar-nos conduzir pelo ESPÍRITO que fala no nosso mais íntimo , orientando-nos, guiando-nos.
     Confiemos e vamos adiante até o fim da nossa caminhada!
            FELIZ ANO NOVO! Todas as Bênçãos e Graças!

CARTÃO DE NATAL


Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com




TODOS PRECISAM DE ESPELHOS PARA SE LEMBRAR QUE SÃO


Betto Santos*



Na discussão sobre identidade existem pontos fortes, como: afinal, quem somos para nós mesmos? O que consideramos como sendo nosso “centro” enquanto indivíduos? Em certo instante, descrevemos nossos antigos “eus” como pessoas que se julgavam diferentes pelo afastamento do comum que exibiam, como se a distorção refletisse, de maneira inexplicável, uma mudança em quem éramos. Pois o fato é que embora apenas ocupemos nossos corpos, frequentemente somos levados a nos definir a partir destes, permitindo que nossas personalidades, valores, paixões e ações sejam definidas por características externas como peso, calvície, espinhas e outros elementos que, a rigor, jamais deveriam moldar nossa percepção de nós mesmos - mas que o fazem por sabermos que assim julgamos o próximo. E assim, percebemos que a luta para ajustarmos com aquilo que vemos no espelho – uma batalha que vai muito além da vaidade e com a qual todos podemos nos identificar em maior ou menor grau, é tola, mas ainda sim é necessária para nos lembrar quem somos.


Obs: Imagem enviada pelo autor.



UM PÉ NA FESTA E UM PÉ NA ESTRADA


Dasilva


1. O clima de Natal e Ano novo nos invade, reavivando a ânsia de saciar a necessidade de pão, de superação, de beleza e de poder. Essa inquietação que nasce da carência das mínimas condições de existência, da busca esperançosa de reconhecimento, da vontade represada de festejar, da curiosidade inerente à nossa incompletude... e de muitos sonhos, nos tornam mais fragilizados e sensíveis. Esse tempo e uma conjunção de fatores é uma das oportunidades de ouro aguardadas e, até estimuladas, por aparatos midiáticos, religiosos e mercadológicos.

2. Então, não é se estranhar que seja também um momento oportuno para missionários, mercenários e mercadores, de todos os credos e latitudes, para veicular suas mensagens, bem intencionadas ou inconfessáveis, e conseguir atrair prosélitos, militantes e clientes. A rigor, "nada haveria de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acreditasse em seu sonho, se observasse a vida, se comparasse suas observações com seus castelos no ar e se trabalhasse para a realização de seu sonhos - se existir contato entre sonho e vida... tudo bem”.

3. Aliás, as tarefas permanentes da vida só se realizam quando se agarram nas "ondas" , nas várias conjunturas históricas. Embora se deseje que a racionalidade da vontade oriente as ações, sua realização só acontece quando, pessoas e grupos, "surfam" na "outra racionalidade" que vem da situação, da emoção, do subjetivo, do imaginário. Alguém que se pretenda consciente, daria sinais de incompetência se combatesse ou ignorasse o tempo do real, ao imaginar um cenário de pureza de propósitos. A vida só se dá na tensão e na contradição do concreto.

4. Sabemos que a primeira condição da cura é admitir o fato da doença. Cercado de todas as "enfermidades", o senso popular prefere viver e ser feliz, agora, mesmo sabendo que pode dever ou iludir-se. Já a grandeza da "consciência" é transmitir conhecimentos acumulados e ajudar a extrair "saídas" duradouras para as inquietações dos oprimidos. Assim, quem sonha com uma nova ordem social não pode esquecer que "ficar longe do povo é uma forma de ficar contra ele"; que "partir da porta que o povo oferece" é condição para ajudá-lo a chegar onde ele precisa.

5. Cantemos e exultemos! HOJE é o dia que fez o Senhor de todas as convicções. Somos peregrinos da Pátria onde o choro será apenas de alegria; nos alimentamos da justeza do resgate da vida fraterna, sempre. Longe de sair do "paganismo" do mercado, em todos os espaços, a ordem é mergulhar, de cabeça, no mundo que nos rodeia, sem deixar ou, quem sabe, até para reafirmar nossa "fé na vida, fé no povo, fé no que virá... pois, nós podemos tudo, nós podemos mais, vamos lá fazer o que será!" Boas festas e viva esse meio que é fim e que é começo!

NO PRINCÍPIO ERA O TEMPO


Djanira Silva



          Quando jovens, vivemos por antecipação – é o vestido para a próxima festa, a viagem sonhada, projetos de vida os mais mirabolantes.
          O tempo passa e com ele as inconsequências da juventude, as crenças exacerbadas na felicidade, momentos em que o imaginário se apossa da consciência fazendo-nos acreditar num mundo mal começado.
          A velhice chega e dá o golpe de misericórdia, Carrasco cego executa sua missão. Tentamos recolher os restos mortais dos sonhos e dos desejos que se desfizeram com o tempo ou se desintegraram com as decepções.
          A princípio o futuro é um presente dos sonhos que nos acena com o que desejamos realizar. Daí por diante, o passado será sempre presente.
          Rolam e giram os ponteiros, não precisamos deles, eles passam sem nós. Perseguem, no entanto, nossos passos.
          Quando sentimos saudade, exumamos o passado. As emoções nele contidas nunca mudarão. Ameaçador, o futuro avança para se destruir na realidade do agora, se enterrar na angústia do passado, das esperanças, numa metamorfose da saudade. Como um refúgio corremos para trás, voltamos, não para sonhar mas para nos vermos dentro do sonho. Tentamos enfrentar a morte que vem chegando disfarçada de velhice. Então, sofremos de um medo terminal do futuro porque já não temos como construir saudades, apenas senti-las.
          Num acesso de bom senso, resolvo viver o momento. Quero me livrar da síndrome do futuro. Encontro no agora, o porto seguro, a certeza o consolo de que viver o presente é uma fórmula que ajuda a esperar a morte.


MENSAGEM DE NATAL – 2011 / NO RITMO DE MARIA / UM ESPAÇO PARA CRISTO


D. Demétrio Valentini *


“Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: ... nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lc 2,10-11)


A todos os diocesanos, Feliz Natal!

Também neste ano Deus nos garante motivos verdadeiros para celebrar com alegria o mistério do Natal do Senhor.
Olhando o mundo, tivemos muitos acontecimentos em 2011, que revelam o agravamento de uma crise que não se limita à dimensão econômica, mas é muito mais profunda.
São “sinais dos tempos” , que nos alertam para a urgência da mudança de rumos, que a humanidade é chamada a empreender.
Independente da consistência desses fatos e de suas repercussões imediatas, eles apontam para a necessidade de buscarmos os caminhos de Deus, e colocar-nos em sintonia com sua vontade, para que o mundo reencontre os rumos de sua sobrevivência, na harmonia com a natureza, e na justiça e fraternidade entre todos os seres humanos.
Neste ano a humanidade chegou a sete bilhões. Como nos tempos de Belém, pareceria não haver lugar para mais ninguém!
Mas ao contrário, é bem vindo Aquele que vem nos apontar os caminhos da partilha, da solidariedade, da responsabilidade e do amor fraterno.
Em meio a tantos acontecimentos, nossa Diocese teve a alegria de perceber a importância especial do Concílio Vaticano Segundo, que recordamos na nossa romaria, e que retomaremos com toda a Igreja no próximo ano.
Como os pastores, vamos ao encontro do Salvador que Deus nos envia, para acolher sua presença e viver de acordo com seu Evangelho.
Com os renovados votos de um Feliz Natal e abençoado Ano Novo!


* Bispo Diocesano de Jales


NO RITMO DE MARIA
D.Demétrio Valentini


     A liturgia sempre garante para o quarto domingo do Advento, o evangelho da anunciação a Maria. É tão belo e comovente, que nunca nos cansamos de meditar sobre ele.

O centro do diálogo do anjo Gabriel com Maria, era o nascituro, que seria chamado Filho do Altíssimo, porque concebido por obra do Espírito Santo no seio de Maria.

Mas o fio condutor da narrativa é a figura de Maria, destinatária da mensagem divina, feita protagonista dos planos de Deus.

Lido este Evangelho sob o prisma de Maria, identificamos sua postura, que serve de inspiração e modelo a todos os cristãos.

Diante da inesperada saudação do anjo, diz o Evangelho que Maria se colocou a pensar sobre o significado da saudação.

Diante de Deus, nossa primeira reação também deve ser esta: pensar. Ao longo do Evangelho se reitera que esta era a postura normal de Maria. “Ela guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração”

Quando o anjo abriu o jogo, e anunciou que ela seria a Mãe do Salvador, ela então passou a perguntar. “Maria perguntou ao anjo como se fará isto?”

Primeiro pensou, depois perguntou.

A fé não dispensa a razão. Ao contrário, quanto mais usarmos a razão humana, para perguntar, visando compreender, tanto melhor acolhemos o mistério de Deus, que quis se revelar à humanidade.

Só depois de pensar e de perguntar, é que Maria decidiu e falou, como serva, pronta e disponível para empenhar sua vida a serviço dos planos de Deus.

O tempo de advento deveria propiciar a todos a mesma experiência de Maria: pensar nos projetos de Deus, perguntar pelo seu verdadeiro sentido e alcance, para então decidir e falar.

Maria nos dá o exemplo perfeito de como acolher o mistério que Deus nos revelou através do seu Filho Jesus Cristo.


UM ESPAÇO PARA CRISTO
D Demétrio Valentini


Chegamos ao Natal deste ano de 2011. Para que ele encontre ressonância em nossa vida, é preciso garantir um espaço para acolher o mistério de Cristo em nossas mentes e corações.

Seria pouco demais limitar-nos à dimensão bucólica da noite de natal, sem desmerecer seu encantamento. Pois de fato, o nascimento de Jesus em Belém da Judéia, .carrega o mistério tão grande da encarnação de Deus em nossa humanidade, com todas as conseqüências que derivam deste mistério tão denso, cuja apresentação se reveste de tanta beleza humana. .

Quando o rei Davi pensou em construir uma casa para a arca da aliança, que ainda estava guardada numa simples tenda, o profeta Natã se apressou em adverti-lo dos equívocos que poderiam advir da construção de um tempo para abrigar a arca de Deus. Pois o que Deus queria, de verdade, era habitar, nem em tenda nem em palácio, mas no coração de cada pessoa humana.

Estas advertências fizeram depois parte dos embates maiores que Cristo precisou enfrentar com os oficiais da religião, justamente a respeito do templo.

Depois São Paulo iria de vez expressar os verdadeiros planos de Deus, dizendo: “Não sabeis que sois templos de Deus, e que o Espírito do Deus habita em vossos corações?”

Pois bem, no natal o que Deus procura nem é tanto ser acolhido nos presépios que preparamos para o Menino Jesus. Mas na vida de cada um de nós. Lá existe lugar para Cristo, que não compete com ninguém, mas cuja presença impregna de sentido verdadeiro a vida de toda pessoa humana que vem a este mundo!



 

“OUTRO MUNDO É POSSÍVEL”, urgente e necessário.


Dom Sebastião Armando Gameleira Soares *



O texto profético nos remete ao capítulo 11, sendo ainda mais espetacular. Às vésperas do Natal nos é dado antever a maravilha do propósito de Deus: o povo é chamado à alegria; a glória de Deus se revela na beleza do mundo transformado; as pessoas se fortalecem e se levantam do desânimo porque sentem a proximidade da salvação de Deus; as pessoas sentem-se restauradas em sua integridade e a natureza se refaz (v.5-7); os caminhos do povo serão sem perigo, a alegria será companheira, “a dor e os gemidos cessarão”... Que poema maravilhoso! Dele vem a inspiração para nossa prática de gente que deseja ser fiel a Deus. A Comunhão Anglicana diz que nossa missão é proclamar a Boa-Nova por gestos e palavras. Anunciamos o Evangelho para que as pessoas se convertam e aceitem os valores e critérios de vida de Jesus. Daí nasce a Igreja, pela fé, o batismo e a convivência comunitária pela qual nos fortalecemos uns aos outros. E a Igreja é para nos levar à solidariedade mediante serviços de amor a quem necessita, à luta para transformar as estruturas injustas da sociedade e ao esforço por zelar pela conservação e expansão da vida na terra. A Igreja é para servir o mundo, trabalhando pela transformação da sociedade em nome de Jesus, pela força de Seu Espírito, para a glória de Deus.


* Bispo da Diocese Anglicana do Recife – DAR



E SE JESUS VOLTASSE A NASCER NA BEIRA DO RIO ARAPIUNS...


Edilberto Sena *


Amanhã será aniversário de Jesus de Nazaré, 2 mil e 12 anos. É natal. Para os cristãos, uma grande festa religiosa, só igualada à festa da Páscoa da ressurreição, do mesmo Jesus Cristo. E para o mundo todo, hoje, com sete bilhões de seres humanos, onde apenas cerca de um bilhão e 300 milhões crêem que Jesus é Deus, o que pode significar o fato desse homem, chamado Emanuel, ter nascido numa cidadezinha perdida do Oriente Médio, hoje em guerra genocida?

Sua presença na terra mudou o mundo? Certamente que sim, pois a partir dele, a humanidade aprendeu que é possível alguém amar sem pedir troca, perdoar sem acompanhar com vingança. Para os Seguidores do Jesus de Nazaré, certamente a certeza é ainda maior, que a vida tem sentido e futuro. Que há um Deus que não castiga, por ser misericordioso.

Jesus nasceu em Belém, terra do pão, cresceu em Nazaré onde viveu até os trinta anos. Ali amadureceu sua vocação rebelde, ao descobrir que a vontade de Deus era ir além das regras e dogmas da religião oficial. Em três anos, inculturado a seu povo e seu tempo, falava em parábolas, linguagem popular, era bem entendido pelo povo simples. Amava os marginalizados, expulsava demônios e curava doentes, além de perdoar os pecadores.

Mas, rebelde que era, ficava indignado com as autoridades, chamava-as de víboras, hipócritas. Não suportava ver os doutores da lei enganando o povo, impondo leis falsas de salvação, criando ritos religiosos que não libertavam os humilhados. Herodes, Caifás, Saduceus, Fariseus, eram os sepulcros caiados, limpos por fora e podres por dentro. Pois bem, amanhã é aniversário deste Deus que aceitou se tornar ser humano igual a nós, menos no pecado, para poder revelar o real caminho de libertação de ontem, de hoje e do futuro.

Mas, que tal atualizar esta memória? E se Jesus decidisse nascer de novo e crescer, agora aqui na Amazônia, à beira de um rio, várzea, ou terra firme, como seria o comportamento de Jesus na Amazônia? Qual seria seu discurso e seu testemunho, ao ver o contínuo desmatamento com grandes fazendas, plantações de soja, e serrarias lotadas de toras de madeira? Como reagiria o mestre ao ver os planos de construção de 38 grandes barragens de rios para hidroelétricas, promovidos pelo governo federal?

Que diria ele ao saber que existem no Brasil 15 milhões de pessoas ricas, muito ricas e 50 milhões de pessoas vivendo na miséria literal? Vendo ele doenças epidêmicas como malária e dengue atingindo tantos pobres ribeirinhos, indígenas e pobres, vivendo em insalubres bairros de periferias? Ficaria Jesus indiferente?

Ficaria Ele preocupado apenas em salvar as almas? Ou seria um profeta mais indignado hoje do que foi na Palestina? Seria ele um Deus assistencialista, ou tomaria atitudes mais firmes diante do descaminho que segue a população da Amazônia? Essas indagações parecem obvias olhando seu comportamento nos três anos de missão pública na Palestina. No entanto, elas procedem porque, ao subir de volta para junto do Pai eterno ele disse a seus seguidores – “agora são vocês que darão testemunho de mim em todos os cantos do mundo”.

Então, ao celebrar amanhã o aniversário dele, seus seguidores não podem ficar apenas cantando o Noite Feliz, ou se comovendo diante do presépio. O mundo hoje, a Amazônia hoje, precisa de testemunhos fortes, rebeldes e coerentes com o mestre que é representado. Feliz Natal, mais uma vez!


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.


MENSAGEM DE NATAL


D. Gilberto Pastana


SÉRIE “VISITANDO OS PRESÉPIOS FAMILIARES”



Obs: Imagens enviadas pelo autor.

de dezembros e natais


Euza Noronha



tanto fazia
estrelas do amanhã
ou árvores salpicadas de presente
:dezembros
eram sempre painel
de corridas e ausências

um dia
a vida invejou-se dos natais

rompeu
nascedouro de anos
e esperanças

o menino
se fez salvador
de todos os dias

A VOLTA DE JESUS


Frei Betto *


Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2010. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.

Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Na porta de um teatro, estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século 1, sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros, como fariseus e saduceus.

Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.

Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.

Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs...

Roubaram um carro defronte da faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.

O delegado inquiriu-o:
- Nome?

- Jesus.

-  Jesus de quê?

-  Do Pai e do Espírito Santo.

O delegado ditou ao escrivão:

- Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.

A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi liberado.

Saiu pela avenida, de olho nas vitrines das lojas. Todas repletas de enfeites de Natal. Tentou avistar um presépio, os reis magos, uma imagem do Menino Jesus... Viu apenas um velho de barba branca, gordo, com a cabeça coberta por um gorro tão vermelho quanto a roupa que vestia. O menino nascido em Belém havia sido substituído por Papai Noel. A festa religiosa cedera lugar ao consumismo compulsivo e à entrega compulsória de presentes.

Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:

-  Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar...

Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da natureza!

Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro catador o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.

Tarde da noite, viu defronte de uma igreja. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo. A Missa do Galo se iniciava. Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração do nascimento de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas e se fartarem com a ceia natalina.

Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade. Pelas calçadas, sacos de lixo estufados de embalagens para presentes, caixas de papelão, ossos de frango e peru, cascas de ovos... Observou os moradores de um prédio reunidos no salão do andar térreo. Comiam vorazmente, estouravam garrafas de espumantes, trocavam presentes, abraços e beijos. Nada ali, nenhum símbolo, que lembrasse o significado originário daquela festa.

Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o catador, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias da salame e um refrigerante.

-  É pra você comemorar o Natal – disse o homem.

Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:

- Ei, cara, tem o que aí?

- Pão, salame e refrigerante.

- Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.

Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.

- Se não importa de beber no mesmo gargalo...

- Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher.  Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.

- Você não tem família?

-Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.

- Esta noite de Natal não significa nada pra você?

-  Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela, puxando o lenço de dentro da bolsa.

A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:

- Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?

-  Não sei... O que você acha?

- Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.

-  Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?

- No meu coração, ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.

- E o que diria a ele?

- Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?

- Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.


* Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org


Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)


UM SIMPLES MENINO


 Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com




Certa vez, nasceu, um simples menino nascido de maneira simples, e que um dia de jeito simples iria simplesmente falar de amor. E já chegou falando, não em palavras, mas em gestos, pois poderia ter nascido num palácio, mas nasceu no mais humilde dos lugares. Caminhou, cresceu e pregou, no gesto simples. Na palavra mansa a retidão de amar, amar a Deus e ao seu semelhante como a si mesmo. Complicado? Não! Mas poucos seguem o que ele disse, muitos falam em nome dele, outros dizem até serem seu representante, mas nos gestos e maneiras, quanta distância... Guardam da verdade... Difícil? Não. Ele só falou de amor, complicado amar? Desejar o bem? A mensagem foi tão simples. Não faça aos outros, o que não queira que façam contigo, viva e deixe viver, não discrimine, não persiga, não cause dor ao seu irmão, não precisa, para compreender isso, ser associado a nenhuma organização religiosa, se preferir, tudo bem, mas não precisa, pois onde duas pessoas estiverem reunidas em seu nome, lá ele estará e aonde tu escolheres para fazer tua prece, lá ele estará também, porque não há lugar que esse amor não possa entrar e frutificar. Basta simplesmente um passo no sentido do amor.


Obs: Imagem enviada pelo autor.

“Reveillon”


Ina Melo
inamelo2004@ig.com.br


“Paris, cidade onde o amor,
 está em todos os lugares, em
todos os sonhos,
esquecimentos e recordações.
 Amo Paris com a força e a fúria
 das tempestades”.

     As luzes da aeronave piscam avisando que em breve estaremos aterizzando no Aeroporto Charles de Gaulle. Ouço vozes distantes: apertem os cintos. A temperatura está baixa e o tempo é bom.
     Desperto lentamente. As brumas do pensamento vão se despedaçando. Assumo o meu lado mágico e aventureiro. Retorno a Paris, desta vez para realizar um sonho de três décadas: ver a passagem do século. Começa o desembarque. Levanto a gola do mantô e sigo para o terminal de bagagens. Olho e não vejo ninguém conhecido. Isto me agrada.
     Deixo o passado para trás e fico a espreita do que acontecerá. O céu azul e um sol esplêndido cobre a manhã gelada. É assim nesta época do ano Apanho um táxi. Através dos vidros embaçados vejo a paisagem. Tento ordenar os pensamentos e traçar planos.
      Hoje é dia de ajustar o fuso-horário, organizar agenda e outras coisas. O percurso é longo. A cidade está vestida para as festas de fim de ano. Muita gente nas ruas. Todos vieram passar o “Reveillon do Século" na mais bela e luminosa cidade-mulher do mundo, Paris!
     Chego ao hotel. À minha espera, uma garrafa de champanhe dentro de uma cesta de rosas. Junto um cartão de boas vindas de uma amiga querida que partiu para a Provence. Acho bom. Prefiro Paris só para mim.
     Vou rever a paisagem da minha paixão. Faço um brinde solitário ao sonho. Que bom poder realizá-lo! Agradeço a Deus mais esta dádiva. Vou almoçar no Ritz famoso restaurante preferido da eterna Coco Chanel, Hemingway e tantos outros artistas do passado. Depois caminharei pelos arcos do Louvre, onde deslumbrarei meus olhos pelas vitrines.
     Aqui o tempo passa rápido. Roupas pesadas roubam à leveza da mulher. De repente chove. Um grande temporal lavando todos os pecados, derrubando árvores seculares, destruindo jardins. Que pena! Ainda assim, amo Paris, apesar da fúria das tempestades!
     Revisito os museus. Assisto a um concerto em “Saint. Séverin”. Entro num Bistrô e degusto ostras com vinho branco. Volto para o hotel. O banho quente com sais perfumados refaz a mulher e a desperta para a vida. Terei uma noite solitária e feliz. Acordo cedo, abro as cortinas. O céu está azul, sinal de frio.
     Na Biblioteca Nacional, François Mitterrand, lugar de reflexão e paz, reencontro com os luminosos espíritos do passado na exposição em homenagem a Marcel Proust, escritor que soube descrever tão bem os encantos de uma sociedade fútil, alegre e de amores fugidios. Amor e Paris estão sempre interligados.
     No “Bateaux-Mouche” deslizando pelo Sena sob um sol frio de inverno, vejo passar a cidade e seus monumentos. A França agradece a loucura dos seus reis. Tudo aqui é monumental. A chuva continua a cair. Enfrento os ventos fortes e vou à “Montmartre.” Crepes e Sidra para aquecer o coração.
     È tarde, estou gelada. Retorno ao apartamento, o silêncio é profundo. Volto a ser a mulher tropical coberta de sol o ano inteiro. Espumas mornas e champanhe. Banho que faz bem a libido do corpo e da alma. A música suave desperta em mim a saudade. A cama macia é um convite ao prazer. Que faço? Revivo amores de ontem e de hoje. Misturo-os com sonhos repletos de erotismo e reencontro a mulher apaixonada. Adormeço.
     Eis que chega o grande dia. Desço para o café. Aprovo a imagem refletida no espelho. Estou ótima. Como se o amor de ontem tivesse sido real. É a felicidade comigo mesma. A cidade está feérica. Nunca vi tanta gente em Paris.
     Vou à Notre Dame e faço a última prece do século. O silêncio da manhã é sepulcral. Acendo velas para homenagear os entes queridos que partiram e reencontro em pensamento os que ainda estão comigo. As pessoas flutuam pela imensa Nave num respeito admirável. A música sublime parece que vem dos céus. Dialogo com Deus. Agradeço a realização do sonho. O que é um sonho? Para que vale? Estou só, longe da família, dos amigos. Choro lágrimas de saudades, mas estou feliz.
     Deixo a Igreja renovada. Enterrei os pecados e mágoas do passado. Entrarei no milênio leve e purificada com muito amor, sonhos e desejos a realizar. Vou ao “Champs Elysées,” onde o mundo todo passa. Hoje não estarei só. Encontrarei amigos, vamos almoçar no Bistrô Romano. Ficamos até tarde. A felicidade é leve e alegre como o vinho.
     Eis que chega a grande noite. Partimos em direção ao “Champs de Mars.” Somos um grupo de brasileiros, alguns maduros, outros jovens, todos com o mesmo espírito de festa e alegria. Estou vestida de dourado para abraçar o novo ano. Infelizmente, o pesado mantô cobre todo o brilho do sonho. Botas altas me protegem do frio.
     Cada um leva champanhe para festejar. Faremos um piquenique noturno às margens do Sena, junto à Torre Eiffel. Falta pouco para o novo porvir. É inesquecível para quem vivenciou tal aventura. Não só de turistas vive Paris. O francês também está nas ruas, com seus familiares e amigos.
     E a festa continua. Abrimos à primeira garrafa. Brindamos à vida, ao amor e a loucura de estarmos em Paris. Sentimos falta da música. As orquestras estão nos “Champs Elysées.” Nós brasileiros somos musicais. Pequenos grupos cantam em diferentes idiomas. Nós também cantamos. São quase meia-noite! Com a taça de champanhe na mão, reflito sobre o sonho. Todos olham para o grande relógio esperando o encontro dos números que marcam os minutos e segundos para a chegada do novo século.
     Os ponteiros juntam-se num abraço infinito. Fogos espocam no ar. A noite se ilumina, como se o sol também estivesse tomando parte da festa. Choro cascatas de lágrimas, leves e felizes. Erguemos as taças brindamos ao novo século O espetáculo é indescritível. Só um artista poderia externar toda a beleza do momento.
     O mundo se abraça com fraternidade, esquecendo dores e mágoas, na esperança de um porvir melhor. Brindo aos meus queridos distantes. Que saudade do aconchego quente e carinhoso da família. Em compensação os amigos e o calor da multidão me aquecem. Champanhe com lágrimas, boa mistura de felicidade.
     A festa continua. Estamos no século vinte e um. É tarde, chegamos atrasados para o jantar, o garçom mal humorado reclama. Nós rimos e fazemos de conta que não entendemos. O local está animadíssimo. Todos cantam, dançam e se embriagam. Estou feliz e agradecida. A viagem foi difícil e tumultuada, mas tudo aconteceu. Eu vi a passagem do século em Paris! Dezembro de 1999.


Obs: Imagem enviada pela autora.



NUNCA DIGAS ADEUS AO NATAL


Conto


por


J. A. Horta da Silva
Ex-Director do INETI (Coimbra)
(horta.silva@sapo.pt)

Há muito que Zé Francisco se habituara a passar o Natal na companhia das memórias. A mulher desaparecera no tempo do PREC, embrulhada de corpo e alma numa bandeira vermelha vertida em símbolo da liberdade, deixando para trás a adolescência de Luís e Manuela. A liberdade é uma ambição social que desperta na primavera da vida adulta, imbuída do desejo de se ser dono da própria existência, e morre no ocaso da maturidade, quando a luta pelo aconchego se impõe por entre os interstícios da solidão. Xico tinha os olhos humedecidos pelo orvalho da mágoa, quando a campainha da porta tocou e, ao abri-la, deu com Guida, a sua neta mais velha. Margarida olhou o avô e, com ar comprometido, seguiu-lhe os passos até ao escritório, cujas paredes estavam atapetadas por uma enorme exposição fotográfica. Francisco jurara que daria uma descompostura a Guida mas, naquele momento, a neta afigurou-se ser a pessoa capaz de lhe aveludar a dor da ingratidão. Espinosa estava certo. «Uma emoção forte só se combate com outra emoção forte» e tornar a ver Guida, era uma emoção fortíssima:

     - Vou ao Luxemburgo passar o Natal com os meus pais e venho desejar-te boas-festas – disse sorrindo para o interior da alma que retribuiu do mesmo modo. Desculpa não ter aparecido mais cedo, mas ando perdida com o trabalho que me distribuíram na faculdade. Com quem vais passar a consoada?
     - Comigo mesmo! Será que não estou bem acompanhado? – Retorquiu Francisco, deixando correr o braço ao sabor do tempo expresso naquela gigantesca composição fotográfica.
     - As recordações não são companhia avô, são o sudário do passado e nelas não há futuro. Por que não refizeste a vida? Tenho ouvido tanta história a teu respeito.
      - E que histórias são essas?
      - Desabafos que nem sempre consegui deixar de escutar. A mãe acha que não refizeste a vida porque não admites que a avó tenha morrido e tens esperança de a voltar a ver. O tio Luís diz que tiveste uma vida dupla, razão pela qual a avó te deixou. Tiveste amantes? – Perguntou Guida, concentrando-se num conjunto de fotos sobre a Gruta da Natividade em Belém, a Via Sacra e a Igreja do Calvário em Jerusalém, uma fortaleza medieval em Acre, um congresso no Technion, em Haifa e retalhos de lazer boiando em gigantescos blocos de sal no Mar Morto. – Quem é a mulher que está contigo nas fotografias?
      - Como vai a tua pesquisa sobre pintura flamenga? – Ripostou Francisco, mudando o rumo da conversa, enquanto revia passagens da sua vida com Lisa.
     - Ando perdida, mas um colega alertou-me para um conjunto de artigos de um tal José Oliveira, que era tido como conceituado especialista na matéria. Não o conheceste?
     - Ouvi falar dele durante algum tempo! Quando voltares, podemos desenvolver esforços para o encontrar. Tens os artigos contigo?
     - Já os pedi na biblioteca, mas ainda não os arranjaram.

Francisco sempre olhou para as religiões como um capítulo da História. Tinha um enorme apreço por alguns místicos, nomeadamente Thomas Merton, aceitava que os monges pudessem conviver com o sagrado quando se entregavam à meditação, mas continuava a afirmar que Deus existe como criação humana. «A alma de um monge pode ser uma variante da gruta da natividade, mas Xico sabia que o Natal não eclode pela via da razão» tanto mais que em questões de fé, a verdade usa brincar com a ciência. «Sempre que alguém dá um passo em frente no sentido de desvendar racionalmente os eventos, a verdade dá um passo atrás conservando invariável a dimensão da ignorância». E por tudo isto, Francisco saiu desiludido da Gruta da Natividade. O que vira e ouvira não encaixava com a concepção que tinha do presépio e da estrela que guiou os Magos, que nunca se soube que tipo de fenómeno astronómico poderia ser: conjugação de planetas, passagem de um cometa, aparecimento de uma supernova, interrogações que persistem em amalgamar-se com simbolismos comerciais, como o Pai Natal e a árvore das prendas. Por estas e demais razões, Xico sempre se deu mal com a surpresa. Tudo o que de bom lhe aconteceu foi planeado ao ritmo do conta-gotas, uma espécie de singularidade que perseguia a sustentabilidade do raciocínio à boa maneira das pedras eversivas insertas na eternidade estrutural das pontes romanas.

Na véspera de Natal não queria ver ninguém. Sempre assim procedeu, mas depois de tanta insistência resolveu, contrariado, dar-se à curiosidade de ver quem tocava à campainha com tão abnegada insistência. Quando Francisco assomou à porta, um sufoco de voz ficou suspenso em olhares lucilantes que desaguavam numa bátega de ternura enxertada de abraços e lágrimas penitentes, uma espécie de tributo sobre os afectos em relaxe. Luís, Manuela, Guida e demais gente estavam postados na sua frente, envoltos numa manifestação de afecto que não se esgotava no fervor do sangue que a selava. Uma espécie de “fénix invisível” encurtava o tempo e a distância, enchendo o ar de um incenso repleto de agradável surpresa. No avesso da imagem, filhos, genros e netos apareciam de mãos dadas para abrir a porta que dá acesso à felicidade inserta nos labirintos da alma humana. E foi deste modo, que a casa do velho Xico abandonou o luto para se transformar num lugar de convívio, pleno de incenso de vida. A chávena de chá, que Francisco preparara para tomar como ceia de natal, deu lugar a uma mesa engalanada com misturas de várias culturas. E no calor da alegria, Guida interrompeu a amálgama das conversas cruzadas para perguntar ao avô:

     - Por que é que não me disseste que eras o autor dos trabalhos sobre pintura flamenga, que me foram recomendados na universidade? Fala verdade…

     - Poucos são aqueles que acreditam no que digo, excepção seja feita aos que estão nos painéis fotográficos do escritório – replicou Xico, para acrescentar com ironia – o que me admira é ter uma neta que se esquece que, nesta mesa, está plantado um olival, dado que o meu nome é José Francisco de Oliveira – asserção que redundou numa gargalhada colectiva.

E por estes desacertos e coincidências, desprovidos de racionalidade e plenos de afecto e de emoção, Francisco lembrou-se que a religião e a ciência nunca foram amigas e que a bíblia é um livro recheado de metáforas que ajudam a distinguir os bons e os maus caminhos, motivo de sobejo para que aquela casa se tivesse transformado, naquela noite, numa Gruta da Natividade. E nada do que aconteceu tinha a ver com matemática, física, astronomia e demais ciências, mas tão-somente com solidariedade, amor e um pouco de arte também.



MENSAGEM DE NATAL


Jaime Sidônio


Querido irmão,
Querida irmã,


“Então é Natal!” Jesus nasceu na gruta de Belém! Contemplemos o presépio. O presépio é norma para a fé: é a porta de entrada para a casa onde Deus mora. É o acesso para O conhecer e O reconhecer.

A pequenez delicada de Deus respeita a liberdade humana. O amor é vulnerável, expõe-se à rejeição, pois não pode se impor; senão não seria amor. Mas quando acolhido na sua impotência, dá “o poder de se tornar filhos e filhas de Deus” (Jo 1,12).

Como Maria e como os pastores, somos convidados a contemplar e a tocar, com eles a Palavra da vida, o Verbo feito carne, que habitou entre nós (Jo 1, 14).

“Assim, - diz São Paulo escrevendo a Tito – a graça de Deus se manifestou trazendo a salvação para todas as pessoas” (Tt 2, 11).

Com o coração cheio de gratidão pela ação amorosa de Deus em nossa história, particularmente, por nos ter mostrado seu rosto em Jesus Cristo, revelado no mistério da encarnação, desejo a você um Natal repleto de bênçãos e luzes, e um Ano Novo marcado pela ação carinhosa de Deus em sua vida.

Com carinho e gratidão,


SÓ MAIS UM ANO


José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com



Já notaram como há muito esta estampada uma imprensão de que os anos estão passando cada vez mais rápidos? Pura ilusão da modernidade que nos enche de trabalho, de problemas e de raros momentos de lazer, o que acaba nos dando a sensação de que nos falta tempo. O que nos falta na verdade é uma melhor organização e utilização do tempo, só isso.


Pois bem, mas o certo é que, rápido ou mesmo no seu curso normal, mais um ano se vai e já nos preparamos cheios de esperança para mais um ano cheio de realizações, esse é o jargão habitual, queremos sempre nos apegar aos sonhos e esquecer, por instantes, a realidade vivida que é cheia de dificuldades, pelo menos para a maioria.
Mas em fim, é chegado o momento de incluirmos em nossas orações o pedido de mais saúde, menos violência, mais emprego, melhores oportunidades, moradia e etc. E esquecemos, por alguns minutos, que somos responsáveis, às vezes, por esse quadro de abandono em que se encontra boa parte de nossa população brasileira. Nossos representantes políticos chegam ao poder através do nosso voto, então, nesse caso, somos responsáveis sim.
Mas deixemos isso e vamos, com um olhar cidadão, expor o que queremos, de fato, para o ano que se aproxima. E o que eu quero mesmo? O básico, comida o ano inteiro, que não me falte saúde e nem coragem para trabalhar, que meus filhos possam dar valor ao mínimo que lhes dou, que meu casamento seja duradouro, que Cristo possa ser encarado como salvador e não como o crucificado ou como aquele que nasceu pobrezinho. Quero que ele seja visto como Rei, como homem que lutou e não se acovardou diante das injustiças. Quero poder ter meus direitos respeitados, mas desde que eu seja cumpridor dos meus deveres. Quero poder entender que a vida é somente um ciclo e que, por ser assim, eu preciso aproveitar, me divertir, ser feliz. Aí você pode estar se perguntando, mas como fazer tudo isso e ser feliz se faço parte das mazelas sociais do Brasil. Verdade, não tem como. Mas podemos começar a lutar para essa realidade mudar, precisamos estar unidos, fazer parte de algo, sair do anonimato e, mesmo que pobres, ser verdadeiramente cidadãos.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

FELIZ NATAL!!


Laudi Flor
laudiflor@gmail.com




Quando sinto o cheiro de tinta fresca, volto a ser criança porque lembro que minha mãe sempre pintava a casa que morávamos justamente no mês de dezembro, na época do Natal, feito isso, ela arrumava a árvore e tudo era festa.
Na noite de Natal, os nossos sapatos novos, ficavam ao lado da cama a espera dos presentes que seriam carinhosamente colocados ali, durante a madrugada.
Recordo que eu e meus irmãos aguardávamos ansiosamente a data da visita do Papai Noel, e ele (Papai Noel), sempre aparecia guiado pelas mãos de meus pais, que com sacrifício nos presenteava com o que existia de melhor no comércio: bonecas da estrela, patins, estojo de lápis decorado, caminhões, e outros mimos.
Tenho boas lembranças dos Natais da minha infância, a festa na Igreja Presbiteriana, o lanche farto, o presépio, as peças encenadas pelas crianças, os hinos entoados, enfim...
Poderia abrir um parêntesis e falar de tanta coisa relacionada ao Natal, mas, a lembrança resgatada pelo cheiro de tinta fresca, me trouxe a memória, os bons momentos que agora compartilho com o querido leitor (a), desejando a você querido amigo, um bom Natal, um feliz Natal, muito amor e paz, pra você.. Pra você. \o/


Obs: Imagem enviada pela autora.

NATAL


Lug Costa


O Natal foi o tempo em que
a resposta de libertação de Deus ao grito do povo oprimido
se encarna o Menino-Deus no seio da Virgem Maria,
inquietando o poder dominador de Herodes,
e demonstrando como na fragilidade de uma criança
trás em si o poder salvador de Deus à face da terra.

O Natal é o tempo em que
as pessoas estão preocupadas com o acúmulo de bens materiais,
com a aparência física narcisista,
com as festas e baladas,
com a qualidade das comidas e bebidas,
com os presentes sedutores das vitrines.

O Natal será novamente o tempo em que
os homens e mulheres de boa vontade
se esforçaram para construir um mundo novo:
de justiça, paz e verdadeira fraternidade.
Então o Menino-Deus não precisará mais nascer
porque a humanidade haverá compreendido
que o Natal transcende ao tempo, é eterno.
Eterno é o amor – Natal.
Eterno é o acolhimento – Natal.
Eterno é a simplicidade – Natal.
Eterno é Deus – Deus-Menino-Natal.


(25.12.2011 – 00:15h – Caxias)

ENTREGA DO ANO


Marcelo Barros(*)



No mundo inteiro, o ano novo é saudado por uma noite de muitas luzes, fogos e festejos comunitários. Em alguns países, as pessoas costumam comer ostras, para que o ano seja aberto como se pode abrir um marisco saboroso. Comunidades tradicionais costumam queimar roupas usadas no ano velho ano para se revestir do novo no corpo e no seu interior. Em regiões tropicais, as pessoas banham-se no mar ou em rios para receber das águas a renovação para esse tempo novo. Todos esses ritos são sugestivos, mas não podem magicamente mudar o rumo das coisas, se nós mesmos não nos renovarmos e não mudarmos o que em nós está envelhecido ou superado. A numeração dos anos depende de nossos critérios. O que diferencia este 31 de dezembro de um 13 de agosto qualquer é principalmente a possibilidade de aproveitar a mudança de estações para nos renovar e acolher a renovação de vida que se oferece a cada um de nós pessoalmente e à sociedade como um todo.

Para ter clareza do que em nós e no mundo deve ser novo, é preciso fazer uma avaliação do ano que passou. Algumas tradições espirituais guardaram ritos de “entrega do ano que passou”. O mercado faz anualmente um balanço das empresas. Grupos de estudo falam em revisão de vida. No plano internacional, 2011 consolidou a crise internacional, aprofundou as dificuldades econômicas e revelou mais do que nunca uma crise civilizatória e ecológica. A conferência de Durban sobre as mudanças climáticas se concluiu sem perspectivas que prometam nada de realmente novo ou melhor. Pouco antes dos ponteiros marcarem o final do ano, o presidente dos Estados Unidos anunciou a retirada oficial de suas tropas do Iraque, deixando aquele país destruído e o seu povo mais dividido, além de chorando a morte de mais de cem mil pessoas, entre as quais muitos civis, crianças e idosos, vítimas da invasão norte-americana. Por outro lado, no mundo inteiro, milhões de cidadãos, principalmente jovens, foram às ruas para protestar contra essa forma de organizar o mundo e principalmente para deixar claro: a economia deve servir à humanidade e não as pessoas serem escravas das finanças. Na América Latina, a recente criação da CELAC (comunidade das nações latino-americanas e caribenhas) representa sim uma esperança nova de integração continental. Nessa conjuntura, cada um de nós se dá conta mais do que nunca: nos parecemos com cristais belos e luminosos, mas muito frágeis. Como diz São Paulo, carregamos dentro de nós um tesouro e ele não é apenas para nós mesmos para ser sempre compartilhado. A poetisa Emily Dickinson esceveu: “O Amor é a pessoa que se deixa mover pela energia da Ressurreição. Ela recolhe em si e no mundo a poeira antiga e canta a Vida que está brotando.”


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.


É NATAL EM BAGDAD E FALLUJAH


Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio *



Quando o profeta Isaías olhou para a mulher do rei, sua rainha, e viu que estava grávida, sentiu o Espírito de Deus apossar-se dele e proclamou em nome de Deus o sinal que via antes de todos: “ ...o mesmo Senhor vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.“ O sinal predizia um futuro de paz para Israel. E o profeta continuaria mais adiante a dizer: “ O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz... Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.”

Muitos séculos depois, enquanto esperava ansiosamente o Messias que viria libertá-los, o povo recebeu outro anúncio, não de um profeta, mas de um anjo: Gabriel. E viu em outro menino, nascido de Maria, essa criança abençoada por Deus que traria paz e alegria sem fim para o povo. A jovem mulher virgem e grávida era Maria de Nazaré, esposa do carpinteiro José, e seu filho, o Santo que de seu seio puro nascera, seria chamado Jesus, Yeoschuá, que quer dizer Deus salva. E o rei, o único rei em todo esse episódio, era Deus mesmo. Ele , e ele apenas, libertaria o povo de seu pecado. E a comunidade creu e se alegrou e louvou a Deus. Jesus de Nazaré, o príncipe da paz, foi reconhecido e proclamado Filho de Deus!

Hoje, o anúncio do profeta Isaías e do anjo Gabriel se faz ouvir novamente. Algo, um broto de vida nova e de esperança nasceu e espera-se que cresça no sofrido Iraque. A retirada das tropas norte-americanas aconteceu. A bandeira da potência estrangeira foi enrolada e guardada. O Iraque não é mais um país ocupado, mas livre. E a liberdade emerge machucada, ferida, mas real, dos escombros que dão testemunho de uma ocupação longa e incessante.

Como já foi dito, trata-se de uma vitória de Pirro. Mais uma vez, os Estados Unidos concluem uma guerra sem ganhá-la, por não conseguir impor sua plena vontade ao país que ocuparam. Os soldados norte-americanos, embora não saiam do Iraque como saíram do Vietnam, cruelmente derrotados, saem. Desta vez, eles primeiro arrasaram o Iraque durante uma década de bombardeios constantes. Agora saem silenciosamente.

A bandeira arriada inicia um processo que deverá acabar até 31 de dezembro. A saída das tropas marca o fim da guerra que deixou um saldo de milhares de mortos: 4.500 estadunidenses e mais de 100 mil iraquianos, e fragilizou ainda mais a precária infraestrutura do país.

Não se pode dizer que haja vitória ou derrota clara com o fim da guerra do Iraque por parte de um lado ou de outro. O Iraque apresenta dúvidas sobre se vai conseguir levar adiante de forma sadia seu processo político. Os EUA saem uma vez mais sem vencer mas – infelizmente, parece – sem aprender de todo as lições da história.

No entanto, o fato de poder viver livremente em seu próprio território, sem estar mais sob o jugo de uma potência estrangeira, sem mais pavor de sair às ruas e ser metralhado por soldados ou atingido pela explosão de uma bomba, já é uma grande coisa. E a partir daí, se houver vontade política e ajuda de outros, poderá ser o caminho para uma nova era feita de paz e concórdia capazes de triunfar sobre o ódio e da violência.

Para o Iraque, combalido pela cruel ditadura de Sadham Hussein durante tantos anos e agora por uma guerra sangrenta, é Natal. Pois isso é o Natal: a chegada da liberdade, da paz, da possibilidade de vida e vida em plenitude. Que Bagdá e Fallujah celebrem com a alegria que lhes for possível.

Quanto a nós, que cremos que essa paz e essa alegria nos foram dadas em um menino envolto em faixas e deitado em uma manjedoura, fica a ação de graças e a lição. Ação de graças porque a paz encontra caminho para uma vitória, ainda que tímida, em alguma parte do mundo. E a lição de retirar-nos dos “Iraques” nossos de cada dia, sendo agentes de paz e não de guerra; de concórdia e não de violência; de alegria e não de desolação.

Hoje, como sempre, o Príncipe da Paz nos é dado na pessoa de um menino frágil. Que Ele reine em nós, em nossas casas, em nossa vida. FELIZ NATAL!


* Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco). http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


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