Betto Santos*
robertosantos@mail.com
A palavra bela
A palavra dita pra revelar o sentimento
A palavra que enaltece a alma e enobrece o ser
Que coroa o que a fala e o que a ouve
A palavra por trás da ação
A ação contida na palavra
O verbo conjugado no infinito
Um verbo que não precisa ser conjugado
A palavra muda
A palavra não dita que descobre o espírito
Faz estremecer e estremece por si só
A ausência da fala
O verbo que se conjuga mudo
Que se cala por trás da ação
Que se oculta no sentimento corrente
A palavra certa
A palavra errada
A construção do universo e a queda do império
A palavra vaga, a palavra solta
A palavra que castiga e consola
Que alimenta e desnutre
Que se faz verbo pra ser conjugado
Que se faz maldição ao ser dita
A palavra única:
A palavra amor
* http://bettosantos.blogspot.com
Obs: Imagem enviada pelo autor (imagem do mundo surreal de Salvador Dalí)
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
APENAS NO CARNAVAL
Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com
No carnaval
As pessoas pegam suas fantasias
Vestem-se
Ou despem-se na rua
Numaeuforia imensa
Tão nua...
Folia de alguns dias
Que durante o ano
Deixam suspensas...
Sujeitas ao que entendem
Como realidade crua
Sem ver que o cotidiano
Também tem suas quimeras
Muitas primaveras e alegrias!
Recife, 27 de fevereiro de 2011
Obs: Imagem enviada pela autora (Foto na vidraça da entrada do meu trabalho)
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Bernadete Bruto
CÓDIGO FLORESTAL
D. Demétrio Valentini *
Se há um assunto que precisa ser bem pensado é o Código Florestal. Ele implica com o meio ambiente. Mas implica também com a viabilidade da agricultura. E em decorrência, com a produção de alimentos e com a sobrevivência de milhões de agricultores.
A abordagem deste assunto requer equilíbrio e bom senso. E´ necessário levar em conta o conhecimento científico e as advertências da ecologia sobre a preservação do meio ambiente. Mas é preciso igualmente levar em conta os grandes avanços tecnológicos da agricultura, que possibilitam agora colocar em outros termos a preservação ambiental.
Por isto, o Código Florestal não pode se abrigar debaixo de uma bandeira única. Seja ela bandeira dos ecologistas Ou bandeira do agronegócio. Ou bandeira dos agricultores familiares. Ele precisa atender ao mesmo tempo a todas as demandas legítimas dos diversos reclamos que devem encontrar audiência num novo Código Florestal, que leve em consideração o conjunto dos aspectos a serem devidamente contemplados.
Uma das evidências que salta aos olhos, e precisa ser levada em consideração, é a grande diversidade de solos existentes no território brasileiro. Um Código Florestal sábio e adequado precisa ter como ponto de partida esta diversidade, que não pode ser impunemente padronizada. Precisa ser um código que comporte adequações e averiguações de circunstâncias. O assunto tem semelhança com os biomas. Demorou tanto para dar-nos conta da diversidade de biomas existentes no Brasil. O retrocesso real seria agora um Código Florestal que ignore esta diversidade.
Outra evidência é o avanço tecnológico na agricultura, já amplamente assimilado, sobretudo a grande diferença que faz o plantio direto, pelo qual se evita a erosão.. Há certos dispositivos do atual Código Florestal que demonstram completo desconhecimento desta nova técnica, que veio revolucionar o cultivo de grãos em nosso país.
Com o plantio direto fica mais do que superada a prescrição de não utilizar para a agricultura os solos que tenham 45 por cento de inclinação. Os agricultores que constatam esta distorção se irritam justamente, e passam a desacreditar da validade do atual Código. Na verdade, se aplicados estes dispositivos, ficariam inviabilizados milhões de pequenos empreendimentos agrícolas, provocando um problema social inútil e de grandes proporções, que precisa ser evitado a todo custo, em última análise pela responsabilidade da Presidência da República.
Tive o cuidado de fazer uma breve pesquisa. No pequeno município denominado Sul Brasil, no Oeste Catarinense, na região de Chapecó, o Prefeito empreendeu um amplo programa de preservação do solo, em vista da viabilização da agricultura, atividade de quase todos os 3.500 habitantes, num território de 114 quilômetros quadrados. Pois bem, em todo o pequeno município foram encontrados 83 veios de água, que formam “sangas”, que demandam aos córregos Pesqueiro e Burro Branco, que delimitam o município. De comum acordo, a prefeitura incentivou os agricultores a preservarem as margens, numa largura de dez a doze metros, em vez dos 30 que o Código prescreve. A solução, incentivada pela Prefeitura que forneceu gratuitamente o arame farpado para as cercas, ficou de bom tamanho, e os agricultores de Sul Brasil continuam, como brasileiros imbatíveis, cultivando com competência e com amor a terra que os acolhe e responde com generosidade ao seu nobre trabalho.
Esta foi a solução para Sul Brasil. Cada município precisa encontrar a sua. E quem quiser opinar sobre o Código Florestal precisaria primeiro passar pelo teste de distinguir entre “fonte”, “vertente”, “sanga”, “córrego”, “riacho” e rio.
Se fosse urgir a aplicação do atual Código, ficaria inviabilizado não só o município de Sul Brasil, mas grande parte do Oeste Catarinense, e muitas outras regiões do País. O debate em torno das mudanças a serem introduzidas no novo Código Florestal exigem competência e responsabilidade.
* http://www.diocesedejales.org.br/
Se há um assunto que precisa ser bem pensado é o Código Florestal. Ele implica com o meio ambiente. Mas implica também com a viabilidade da agricultura. E em decorrência, com a produção de alimentos e com a sobrevivência de milhões de agricultores.
A abordagem deste assunto requer equilíbrio e bom senso. E´ necessário levar em conta o conhecimento científico e as advertências da ecologia sobre a preservação do meio ambiente. Mas é preciso igualmente levar em conta os grandes avanços tecnológicos da agricultura, que possibilitam agora colocar em outros termos a preservação ambiental.
Por isto, o Código Florestal não pode se abrigar debaixo de uma bandeira única. Seja ela bandeira dos ecologistas Ou bandeira do agronegócio. Ou bandeira dos agricultores familiares. Ele precisa atender ao mesmo tempo a todas as demandas legítimas dos diversos reclamos que devem encontrar audiência num novo Código Florestal, que leve em consideração o conjunto dos aspectos a serem devidamente contemplados.
Uma das evidências que salta aos olhos, e precisa ser levada em consideração, é a grande diversidade de solos existentes no território brasileiro. Um Código Florestal sábio e adequado precisa ter como ponto de partida esta diversidade, que não pode ser impunemente padronizada. Precisa ser um código que comporte adequações e averiguações de circunstâncias. O assunto tem semelhança com os biomas. Demorou tanto para dar-nos conta da diversidade de biomas existentes no Brasil. O retrocesso real seria agora um Código Florestal que ignore esta diversidade.
Outra evidência é o avanço tecnológico na agricultura, já amplamente assimilado, sobretudo a grande diferença que faz o plantio direto, pelo qual se evita a erosão.. Há certos dispositivos do atual Código Florestal que demonstram completo desconhecimento desta nova técnica, que veio revolucionar o cultivo de grãos em nosso país.
Com o plantio direto fica mais do que superada a prescrição de não utilizar para a agricultura os solos que tenham 45 por cento de inclinação. Os agricultores que constatam esta distorção se irritam justamente, e passam a desacreditar da validade do atual Código. Na verdade, se aplicados estes dispositivos, ficariam inviabilizados milhões de pequenos empreendimentos agrícolas, provocando um problema social inútil e de grandes proporções, que precisa ser evitado a todo custo, em última análise pela responsabilidade da Presidência da República.
Tive o cuidado de fazer uma breve pesquisa. No pequeno município denominado Sul Brasil, no Oeste Catarinense, na região de Chapecó, o Prefeito empreendeu um amplo programa de preservação do solo, em vista da viabilização da agricultura, atividade de quase todos os 3.500 habitantes, num território de 114 quilômetros quadrados. Pois bem, em todo o pequeno município foram encontrados 83 veios de água, que formam “sangas”, que demandam aos córregos Pesqueiro e Burro Branco, que delimitam o município. De comum acordo, a prefeitura incentivou os agricultores a preservarem as margens, numa largura de dez a doze metros, em vez dos 30 que o Código prescreve. A solução, incentivada pela Prefeitura que forneceu gratuitamente o arame farpado para as cercas, ficou de bom tamanho, e os agricultores de Sul Brasil continuam, como brasileiros imbatíveis, cultivando com competência e com amor a terra que os acolhe e responde com generosidade ao seu nobre trabalho.
Esta foi a solução para Sul Brasil. Cada município precisa encontrar a sua. E quem quiser opinar sobre o Código Florestal precisaria primeiro passar pelo teste de distinguir entre “fonte”, “vertente”, “sanga”, “córrego”, “riacho” e rio.
Se fosse urgir a aplicação do atual Código, ficaria inviabilizado não só o município de Sul Brasil, mas grande parte do Oeste Catarinense, e muitas outras regiões do País. O debate em torno das mudanças a serem introduzidas no novo Código Florestal exigem competência e responsabilidade.
* http://www.diocesedejales.org.br/
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D. Demétrio Valentini
ALÉM DAS PALAVRAS
Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com
Ninguém no mundo dos homens pode se considerar de todo amadurecido antes de perder alguma coisa ou pessoa que tenha representado muito em sua vida – um amigo, um amor, uma crença, uma certeza ou – como agora se tornou tão frequente, com os últimos acontecimentos da política – uma ideologia pela qual lutou e sofreu. É uma certeza dura e fria, que se adquire depois que muitas outras certezas se foram.
Uma grande perda faz com que a gente se perca um pouco de si mesma. É como se nos tirassem um pedaço, um lugar próprio, um alicerce. Como uma árvore sem raiz, uma construção sem fundamentos de repente. Grandes amigos são parte de nós, e quando Caetano diz que a amizade é superior ao amor, sabe o que está dizendo: perder um amor é um verdadeiro trauma, mas em geral o tempo se encarrega de amenizar esse sofrimento. Ver desaparecer um grande amigo, no entanto, daqueles fraternais, com que se conta pra qualquer ocasião, daqueles difíceis de encontrar, mas que às vezes nos são concedidos, é uma dor que nunca mais tem fim. E quando se perdem ideais que nos davam força e razão de lutar e viver, a vida parece vazia.
Ninguém deseja perdas, por menores que sejam. Mas a vida se encarrega de provê-las, e elas acontecem e nos afetam. Essa inevitabilidade, essa impotência diante do irremediável nos transforma, para o bem ou para o mal, em pessoas diferentes. O resultado final depende em cada um, de como elabora e consegue lidar com os golpes que a vida desfere. Depende das reservas subjetivas e da qualidade do caráter do perdedor.
Os livros de auto-ajuda nos recomendam uma atitude positiva diante da vida, e de tanto repetir isso ficamos sugestionados. Mas nem todos podem ganhar. A vida real não manda cartão de boas festas nem respeita o pensamento positivo. A vida real não tem a menor educação; golpeia quem encontra pela frente sem nenhuma razão e sem pedir desculpas. Sem aviso prévio desilude, pratica injustiças gritantes, arranca da gente filhos, pais ou amores. É cúmplice de juízes malignos, ídolos desmascarados, homens e mulheres violentos e crueis.
Meu palpite é que talvez seja mais produtivo pensar sobre como melhorar a realidade que nos cerca. É melhor promover mudanças do que embarcar em palavras que, por mais bonitas que sejam, são vazias como bolas de encher
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Dade Amorim
AMIZADE
Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com
Quando foi que começou nossa amizade? Não sei...
Não te parece engraçado que sempre queremos lembrar o dia e o momento exato de certos acontecimentos importantes em nossos relacionamentos?
Contudo, quando se trata de amizades, nada disto ocorre, e apenas há lembrança de momentos vagos e inesquecíveis através de anos...
No presente lembras o passado, recordando essa ou aquela data pelos acontecimentos importantes ocorridos junto a pessoas, porém não tens motivos para precisar o dia exato em que começastes a ser amigo de alguém...
E mais, talvez no início não tivesses intenção, ou não previstes que algum dia poderias desenvolver um sentimento, com aquela pessoa que hoje tens como grande amiga...
Estive pensando em tudo isto e, bem, não importa se o relacionamento é de cinco, dez, vinte anos ou de uns poucos dias...
O importante é que neste mesmo tempo se construiu a confiança, o respeito, a tolerância, o carinho.
Hoje te envio meu grande abraço!
Que a vida te seja sempre sorridente!
Lembra-te que sempre que sorrires se apaga uma tristeza e se acende uma esperança!
Muitas pessoas entrarão e sairão de tua vida, mas só as verdadeiramente amigas deixarão marcas em teu coração!
Para governar-te, usa a cabeça; para portar-te junto aos outros, usa teu coração.O receio é apenas um aviso de perigo.
O que perde dinheiro, perde muito;o que perde um amigo, perde muito mais;o que perde a fé, perde tudo.
As pessoas jovens e bonitas são acidentes da natureza, porém as pessoas adultas e leais,são obras de arte.
O ontem é história, o amanhã um mistério! E o hoje é uma dádiva e por isto o chamamos presente...
Obs: Imagem enviada pela autora
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Dannie Oliveira
UM DOMINGO SEM COR
Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/
Esta tarde que não é de janeiro, nem de setembro, nem de tempo algum, é uma tarde de um domingo surdo, mudo, cego, silencioso e triste. Lá fora, o barulho do vento ressoa como batidas de um tambor nos ruídos terminais de um coração agonizante.
Nem chuva, nem sol, nem frio nem quente. Apenas domingo, um túnel infinito que me transforma em sombra.
Tudo é silêncio neste dia estranho. Não sei de onde vem esta tristeza pesada, estas nuvens escuras este som distante de sinos se esvaindo num perfume sutil de resedá.
Sinto saudade, saudade de mim. Dos olhos que viram o amanhecer da serra, das nuvens brancas de frieza e névoa, cobrindo as árvores nas manhãs de abril.
Sinto saudade de mim, do vigor do corpo, dos passos ligeiros a procurar caminhos. Das mãos inquietas a traçar roteiros, dos lábios virgens no primeiro beijo.
Sinto saudade de mim nas noites quentes na varanda aberta, lua nascendo sobre os pés de oiti e das manhãs de outono, quando o sol chegava como um doce amante aquecendo os lençóis da minha cama.
Espero que a noite chegue e a madrugada afugente este domingo amargo que fugirá como um morcego cego.
Não posso adormecer sem sufocar minha alma no pesadelo das lembranças. Finjo que não me conheço para não sofrer. Preciso me esconder de mim e da frieza de uma tarde sem cor.
Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega
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Djanira Silva
QUEM FAZ AS COISAS APRESSADOS, OU ESTÁ COM FOME, OU ESTÁ COM MEDO!
Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com
Por que será que o governo federal está com tanta pressa em iniciar uma meia licença ilegal de obras para a usina de Belo Monte?
Legalmente não existe meia licença e por isso, o Ministério Público Federal já interpôs mais um pedido de liminar na justiça para impeder essa violação da Constituição Nacional.
O Ministério de Minas e Energia está nervoso e quer impor o fato consumado, dando a licença para as empresas construtoras desmatarem 290 hectares de floresta para o chamado canteiro de obras. Como a dizer ao grande público que os trabalham se iniciam de qualquer jeito e depois, se ajusta com lei, paga-se multa, se houver, o fato estará consumado, a usina será construída na lei ou na marra.
Mas por trás dessa pressa arrogante pode estar um comportamento de medo, do governo federal, ou do ministro de minas e energia, seu Lobão. É que está crescendo, a cada dia a reação da sociedade contra esse desastre amazônico e planetário. Não está aumentando essa reação só nos povos do Xingu e da Amazônia, mas do Brasil e do estrangeiro.
Foram 500.000 abaixo assinados a dizer à presidenta que não se pode cometer tal absurdo em nome do PAC econômico.
Têm chegado a ela e seus ministros críticas contundentes de cientistas, pesquisadores, atingidos por outras barragens, povos indígenas, organizações populares, coordenação da Igreja Católica, através da CNBB, como também de organizações internacionais que lutam em defesa do equilíbrio climático e da mãe natureza. Tudo isso, além dos 10 processos contra a construção da usina e que aguardam decisão da justiça federal.
Há sinais de que a presidenta Dilma está acuada. De um lado, o pessoal do Ministério de Minas e Energia a serviço do grande capital das mineradoras e das empreiteiras, que apressa a licença ilegal, sem se importar com que diz a lei ambiental; também o IBAMA, responsável pelo zelo com o meio ambiente, produz decisões contraditórias e favorece a pressa de instalação. Do outro lado, a presidenta sabe que sua imagem pode ficar na história como a ditadora que impôs à sociedade brasileira de hoje e do futuro um desastre irreversível ambiental, econômico, cultural e genocida.
Assim, a tal licença meia sola pode hoje dar início à limpeza do terreno, ou pode não, já que o juiz federal deve dar uma sentença ao pedido de liminar do MPF ainda hoje; assim se for iniciada nesta manhã poderá ser paralisada logo mais. As pressões se avolumam contra o plano da construção. Dentro em pouco se saberá se vence o Lobo, ou se ele está blefando e se vencerá o cordeiro da justiça.
* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.
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Edilberto Sena
desfecho
Euza Noronha
de tanto
embebedar-se
de sementes
regadas
em fio de navalha
o poeta
milagrou:
madurou frutos
onde a bela adormecida
planta bananeira
e flores de plástico
de tanto
embebedar-se
de sementes
regadas
em fio de navalha
o poeta
milagrou:
madurou frutos
onde a bela adormecida
planta bananeira
e flores de plástico
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Euza Noronha
O SONHO DE NABUCODONOSOR
Frei Betto *
Os países ricos do Ocidente, cuja democracia se baseia no poder do dinheiro, não têm princípios, apenas interesses. Acusam Cuba de ser uma ditadura que não respeita os direitos humanos por não admitirem o caráter socialista daquela Revolução que, há mais de 50 anos, resiste às agressões do maior império econômico e bélico da história da humanidade.
No entanto, tecem loas à China. Fazem vista grossa ao regime escravocrata de mão de obra barata, onde se fabrica tudo aquilo que, no Ocidente, exigiria pagar salários mais altos, reduzindo a margem de lucro das empresas ocidentais. Inúmeros produtos em oferta em nossas lojas, embora grifadas por marcas originárias do Ocidente, são “made in China”.
Para governos como o dos EUA, do Reino Unido, da França e da Alemanha, o fato de um ditador como Hosni Mubarak ocupar, por 30 anos, o poder no Egito, não tem a menor importância. Desde que sirva a seus interesses geopolíticos numa região explosiva. Vale para Mubarak o que John Foster Dulles dizia do ditador Anastácio Somoza, da Nicarágua: “É um filho da p., mas é nosso filho da p.”
De olho no petróleo, os governos ocidentais sempre respaldaram os governos tirânicos do mundo árabe. Negócios, negócios, princípios à parte. Qual potência europeia rompeu com uma das tantas ditaduras militares que assolaram a América Latina nas décadas de 1960 e 1970?
O Ocidente nunca se incomodou com a ausência de eleições periódicas nos países árabes, a opressão da mulher, a perseguição aos homossexuais, o luxo nababesco dos governantes frente à miséria da grande maioria da população. Quantos ditadores africanos engordam os cofres dos bancos europeus?
Agora os EUA estão como o rei da história de Hans Christian Andersen: nu, despido de sua arrogância supostamente democrática, de sua prepotência imperial. E o pior, colocado entre a cruz e a caldeirinha: se Mubarak permanece, a Casa Branca sustenta uma ditadura e despreza o clamor do povo egípcio. Se é derrubado, há o risco de o Egito se transformar, como o Irã, numa nação islâmica, hostil a Israel e aos propósitos ocidentais.
Narra a Bíblia que o profeta Daniel (2, 31-36) foi convocado para interpretar um sonho que tanto inquietava o rei Nabucodonosor, da Babilônia: “Era uma grande estátua, alta e muito brilhante. Ela estava bem à frente de Vossa Majestade e tinha aparência impressionante. A cabeça era de ouro maciço; o peito e os braços eram de prata; a barriga e as coxas, de bronze; as canelas de ferro e os pés, parte de ferro e parte de barro. Vossa Majestade contemplava a estátua quando, sem ninguém jogar, caiu uma pedra que bateu exatamente nos pés de barro e ferro da estátua, quebrando-os. Em segundos, tudo desmoronou. Ferro, barro, bronze, prata e ouro ficaram como palha no terreiro em final de colheita, palha que o vento carrega sem deixar sinal. Depois, a pedra que tinha atingido a estátua se transformou numa enorme montanha que cobriu o mundo inteiro.”
A pedra, no caso do mundo árabe, é a ânsia popular de democracia entendida como justiça social e paz. O que pensa um iraquiano vendo seu país há anos dominado por tropas ocidentais que tratam os habitantes como escória da humanidade? O que pensa um afegão vendo aviões ocidentais bombardearem aldeias, matando crianças, mulheres, idosos, sob a desculpa de se tratar de um refúgio talibã?
A pedra é a cultura religiosa, muçulmana, que grassa naqueles países, e que nada tem a ver com o suposto cristianismo do Ocidente. Em nome de Deus e de Jesus, o Ocidente subjugou, durante séculos, a África, a Ásia e a América Latina. Escravizou habitantes, extorquiu riquezas, transferiu para a Europa preciosidades arqueológicas, como a Pedra de Roseta – hoje no Museu Britânico -, fragmento de uma estela de granodiorito do Egito antigo, cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios. Sua inscrição registra um decreto promulgado em 196 a.C., na cidade de Mênfis, em nome do rei Ptolomeu V.
O pensamento islâmico não distingue a fronteira entre religião e política. Esta deve ser monitorada por aquela. E a autoridade religiosa é encarada, como ocorria no Ocidente medieval, detentora do poder político.
Para tal conjuntura, o Ocidente só conhece uma resposta: armas, guerras, ocupações, subornos e ditaduras. Porque é incapaz de empreender o diálogo interreligioso, de reconhecer o direito daqueles povos à autodeterminação, de pautar-se por princípios e não pela voracidade obsessiva do mercado por lucro.
Se o fundamentalismo islâmico incute em jovens a mística do martírio, introduzindo uma forma de terrorismo incontrolável, o fundamentalismo do mercado incute nos ocidentais a convicção de que igrejas e mesquitas devem ceder lugar aos shopping centers, templos de consumismo e miniaturização do paraíso na Terra.
Eis a pergunta que, esta semana, se repete em Dakar, no Fórum Social Mundial, e exige resposta urgente: Um outro mundo é possível?
* Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org
Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
Os países ricos do Ocidente, cuja democracia se baseia no poder do dinheiro, não têm princípios, apenas interesses. Acusam Cuba de ser uma ditadura que não respeita os direitos humanos por não admitirem o caráter socialista daquela Revolução que, há mais de 50 anos, resiste às agressões do maior império econômico e bélico da história da humanidade.
No entanto, tecem loas à China. Fazem vista grossa ao regime escravocrata de mão de obra barata, onde se fabrica tudo aquilo que, no Ocidente, exigiria pagar salários mais altos, reduzindo a margem de lucro das empresas ocidentais. Inúmeros produtos em oferta em nossas lojas, embora grifadas por marcas originárias do Ocidente, são “made in China”.
Para governos como o dos EUA, do Reino Unido, da França e da Alemanha, o fato de um ditador como Hosni Mubarak ocupar, por 30 anos, o poder no Egito, não tem a menor importância. Desde que sirva a seus interesses geopolíticos numa região explosiva. Vale para Mubarak o que John Foster Dulles dizia do ditador Anastácio Somoza, da Nicarágua: “É um filho da p., mas é nosso filho da p.”
De olho no petróleo, os governos ocidentais sempre respaldaram os governos tirânicos do mundo árabe. Negócios, negócios, princípios à parte. Qual potência europeia rompeu com uma das tantas ditaduras militares que assolaram a América Latina nas décadas de 1960 e 1970?
O Ocidente nunca se incomodou com a ausência de eleições periódicas nos países árabes, a opressão da mulher, a perseguição aos homossexuais, o luxo nababesco dos governantes frente à miséria da grande maioria da população. Quantos ditadores africanos engordam os cofres dos bancos europeus?
Agora os EUA estão como o rei da história de Hans Christian Andersen: nu, despido de sua arrogância supostamente democrática, de sua prepotência imperial. E o pior, colocado entre a cruz e a caldeirinha: se Mubarak permanece, a Casa Branca sustenta uma ditadura e despreza o clamor do povo egípcio. Se é derrubado, há o risco de o Egito se transformar, como o Irã, numa nação islâmica, hostil a Israel e aos propósitos ocidentais.
Narra a Bíblia que o profeta Daniel (2, 31-36) foi convocado para interpretar um sonho que tanto inquietava o rei Nabucodonosor, da Babilônia: “Era uma grande estátua, alta e muito brilhante. Ela estava bem à frente de Vossa Majestade e tinha aparência impressionante. A cabeça era de ouro maciço; o peito e os braços eram de prata; a barriga e as coxas, de bronze; as canelas de ferro e os pés, parte de ferro e parte de barro. Vossa Majestade contemplava a estátua quando, sem ninguém jogar, caiu uma pedra que bateu exatamente nos pés de barro e ferro da estátua, quebrando-os. Em segundos, tudo desmoronou. Ferro, barro, bronze, prata e ouro ficaram como palha no terreiro em final de colheita, palha que o vento carrega sem deixar sinal. Depois, a pedra que tinha atingido a estátua se transformou numa enorme montanha que cobriu o mundo inteiro.”
A pedra, no caso do mundo árabe, é a ânsia popular de democracia entendida como justiça social e paz. O que pensa um iraquiano vendo seu país há anos dominado por tropas ocidentais que tratam os habitantes como escória da humanidade? O que pensa um afegão vendo aviões ocidentais bombardearem aldeias, matando crianças, mulheres, idosos, sob a desculpa de se tratar de um refúgio talibã?
A pedra é a cultura religiosa, muçulmana, que grassa naqueles países, e que nada tem a ver com o suposto cristianismo do Ocidente. Em nome de Deus e de Jesus, o Ocidente subjugou, durante séculos, a África, a Ásia e a América Latina. Escravizou habitantes, extorquiu riquezas, transferiu para a Europa preciosidades arqueológicas, como a Pedra de Roseta – hoje no Museu Britânico -, fragmento de uma estela de granodiorito do Egito antigo, cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios. Sua inscrição registra um decreto promulgado em 196 a.C., na cidade de Mênfis, em nome do rei Ptolomeu V.
O pensamento islâmico não distingue a fronteira entre religião e política. Esta deve ser monitorada por aquela. E a autoridade religiosa é encarada, como ocorria no Ocidente medieval, detentora do poder político.
Para tal conjuntura, o Ocidente só conhece uma resposta: armas, guerras, ocupações, subornos e ditaduras. Porque é incapaz de empreender o diálogo interreligioso, de reconhecer o direito daqueles povos à autodeterminação, de pautar-se por princípios e não pela voracidade obsessiva do mercado por lucro.
Se o fundamentalismo islâmico incute em jovens a mística do martírio, introduzindo uma forma de terrorismo incontrolável, o fundamentalismo do mercado incute nos ocidentais a convicção de que igrejas e mesquitas devem ceder lugar aos shopping centers, templos de consumismo e miniaturização do paraíso na Terra.
Eis a pergunta que, esta semana, se repete em Dakar, no Fórum Social Mundial, e exige resposta urgente: Um outro mundo é possível?
* Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org
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Frei Betto
INEVITÁVEL
Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com
Meu propósito é aquele passo adiante.
Onde quer que este sol se ponha,
Onde quer que este sol se levante.
Sendo assim se houver dúvida relevante;
Despirei minhas memórias eu teu favor.
Não ocultarei de ti nenhum impulso.
Porque ainda teus abraços me aquecem.
Porque todos os beijos ainda clamam,
Entre meus lábios que nunca esquecem.
Então segui procurando na tua ausência
As medidas das distâncias do amanhã.
Ainda que tudo seja apenas simples sonho.
Pois criando a expectativa imponderável;
Há de se tentar sempre uma alternativa.
Mesmo sendo o destino certo e inevitável
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Gerson F. Filho
TEOLOGIA, FEMINISMO E FILOSOFIA
Ivone Gebara *
A teologia feminista é parte de uma revolução cultural que ainda está em seus primeiros passos
O feminismo do século 20 foi precursor de mudanças significativas não apenas nas relações sociais e políticas entre mulheres e homens, mas igualmente na filosofia e na teologia, embora de formas bastante diferentes.
A teologia, desde a Antiguidade, quase sempre se caracterizou por um pensamento monoteísta com base filosófica transcendente, ou seja, uma base racional fundada numa visão metafísica da existência de um ser superior que seria o Outro de todos os seres criados. Esse Outro, Deus, entretanto, não fugia de uma concepção antropológica a partir dos parâmetros masculinos, revelando assim seus limites ontológicos.
As filosofias do século 19 e 20 retiram o Deus metafísico de seu Ser transcendente, decretando a morte da metafísica. Esse movimento de desalojamento de Deus da habitação do Ser e de sua realocação sempre além do Ser evitou, para alguns, o seu aprisionamento conceitual e a defesa absoluta desse modelo de divindade como verdade única. Dessa maneira, inaugurou-se uma visão diferente do ser humano que serviu de forma particular ao feminismo assim como a uma crítica sobre o uso político das imagens de Deus.
As feministas não apenas continuaram a desalojar Deus dos céus e das essências e existências perfeitas, mas revelaram sua cara histórica masculina, assim como suas preferências históricas. Segundo uma referência crítica da metafísica, pode-se dizer que o ser em si, o ser transcendente e imanente, para além de todos os seres tinha de certa forma um dublê masculino terrestre representado pelas autoridades políticas e religiosas. Elas sempre determinaram os rumos da política e da religião, da moral e dos costumes, das guerras e da paz. Fizeram com que o ser perfeito metafísico se imiscuísse em questões de regionalismo partidário e impusesse normas públicas e privadas de comportamentos para os fiéis que deveriam obedecer a sua vontade e amá-lo acima de tudo.
As mulheres foram um foco importante e um sustentáculo da política de submissão, visto que a cultura patriarcal lhes havia designado um lugar social de dependência em relação às figuras masculinas e, por conseguinte, de dependência de seus corpos em relação a uma pretensa vontade divina.
Um Deus contrário à emancipação feminina
O feminismo na teologia desenvolveu-se a partir da segunda metade do século 20 inicialmente em alguns países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos. As teólogas tomaram consciência do quanto o Deus criador e todo-poderoso era cúmplice do bloqueio masculino de suas reivindicações sociais, políticas e religiosas assim como expressão da opressão e dominação sexual que viviam. O Deus anunciado em sua cultura e cultuado nas igrejas não era aliado da emancipação feminina. Ao contrário, era usado como um entrave para as conquistas das mulheres. A opressão feminina e a manutenção dos privilégios masculinos eram legitimadas por uma ideologia religiosa que naturalizou certos papeis sociais e funções biológicas e as elevou às expressões da vontade divina para a humanidade.
Diante da constatação crescente da dominação do ídolo divino masculino sobre suas vidas, as teólogas feministas começaram a introduzir a metodologia da suspeita e da desconstrução de conceitos teológicos (Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, Pecado, Bem e Mal, Encarnação, Redenção etc.) para verificar-lhes a origem e a pertinência em relação à experiência histórica e feminina. Estendeu sua investigação para os textos da Bíblia considerados Palavra de Deus e denunciaram o mau uso do texto em vista da execução de políticas que favorecem a uns e desfavorecem a outros. Percebeu o quanto a chamada transcendência era regionalista, masculina e sexista e aliada dos poderes de manutenção dos povos na ignorância e na alienação. A grande massa, salvo exceções, aprendeu doutrinas cristãs universais abrindo mão de sua capacidade de pensar. Tornou-se beligerante e sectária na defesa de suas verdades religiosas. O feminismo teológico convida a pensar de novo as próprias crenças e a situá-las a partir das necessidades dos diferentes grupos e dos diferentes tempos.
A teologia feminista desenvolveu-se na América Latina, África e Ásia a partir da década de 1980. Seu campo de atuação social é limitado. As teólogas feministas não são aceitas nos espaços institucionais dominados pelo clero e por pessoas convencidas da superioridade da imagem patriarcal de Deus. Uma das batalhas atuais importantes das teólogas feministas na América Latina é em relação ao poder religioso que domina os corpos femininos. Por isso, introduzem a questão da dominação sexual na teologia, falam dos corpos destroçados pelo abuso sexual, sua redução a um produto do mercado, sua culpabilização religiosa como instrumento de manutenção da mesma lógica de dominação.
A teologia feminista é parte de uma revolução cultural dos séculos 20 e 21, uma re-volução que ainda está em seus primeiros passos. Se persistir nessa luta de desnudamento de certos conceitos religiosos em favor da dignidade feminina, estará sinalizando um novo momento criativo na história das religiões, visto que as mulheres estarão expressando dentro das diferentes tradições religiosas sua experiência, seus valores e sentidos.
* Filósofa e teóloga, feminista e escritora
A teologia feminista é parte de uma revolução cultural que ainda está em seus primeiros passos
O feminismo do século 20 foi precursor de mudanças significativas não apenas nas relações sociais e políticas entre mulheres e homens, mas igualmente na filosofia e na teologia, embora de formas bastante diferentes.
A teologia, desde a Antiguidade, quase sempre se caracterizou por um pensamento monoteísta com base filosófica transcendente, ou seja, uma base racional fundada numa visão metafísica da existência de um ser superior que seria o Outro de todos os seres criados. Esse Outro, Deus, entretanto, não fugia de uma concepção antropológica a partir dos parâmetros masculinos, revelando assim seus limites ontológicos.
As filosofias do século 19 e 20 retiram o Deus metafísico de seu Ser transcendente, decretando a morte da metafísica. Esse movimento de desalojamento de Deus da habitação do Ser e de sua realocação sempre além do Ser evitou, para alguns, o seu aprisionamento conceitual e a defesa absoluta desse modelo de divindade como verdade única. Dessa maneira, inaugurou-se uma visão diferente do ser humano que serviu de forma particular ao feminismo assim como a uma crítica sobre o uso político das imagens de Deus.
As feministas não apenas continuaram a desalojar Deus dos céus e das essências e existências perfeitas, mas revelaram sua cara histórica masculina, assim como suas preferências históricas. Segundo uma referência crítica da metafísica, pode-se dizer que o ser em si, o ser transcendente e imanente, para além de todos os seres tinha de certa forma um dublê masculino terrestre representado pelas autoridades políticas e religiosas. Elas sempre determinaram os rumos da política e da religião, da moral e dos costumes, das guerras e da paz. Fizeram com que o ser perfeito metafísico se imiscuísse em questões de regionalismo partidário e impusesse normas públicas e privadas de comportamentos para os fiéis que deveriam obedecer a sua vontade e amá-lo acima de tudo.
As mulheres foram um foco importante e um sustentáculo da política de submissão, visto que a cultura patriarcal lhes havia designado um lugar social de dependência em relação às figuras masculinas e, por conseguinte, de dependência de seus corpos em relação a uma pretensa vontade divina.
Um Deus contrário à emancipação feminina
O feminismo na teologia desenvolveu-se a partir da segunda metade do século 20 inicialmente em alguns países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos. As teólogas tomaram consciência do quanto o Deus criador e todo-poderoso era cúmplice do bloqueio masculino de suas reivindicações sociais, políticas e religiosas assim como expressão da opressão e dominação sexual que viviam. O Deus anunciado em sua cultura e cultuado nas igrejas não era aliado da emancipação feminina. Ao contrário, era usado como um entrave para as conquistas das mulheres. A opressão feminina e a manutenção dos privilégios masculinos eram legitimadas por uma ideologia religiosa que naturalizou certos papeis sociais e funções biológicas e as elevou às expressões da vontade divina para a humanidade.
Diante da constatação crescente da dominação do ídolo divino masculino sobre suas vidas, as teólogas feministas começaram a introduzir a metodologia da suspeita e da desconstrução de conceitos teológicos (Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, Pecado, Bem e Mal, Encarnação, Redenção etc.) para verificar-lhes a origem e a pertinência em relação à experiência histórica e feminina. Estendeu sua investigação para os textos da Bíblia considerados Palavra de Deus e denunciaram o mau uso do texto em vista da execução de políticas que favorecem a uns e desfavorecem a outros. Percebeu o quanto a chamada transcendência era regionalista, masculina e sexista e aliada dos poderes de manutenção dos povos na ignorância e na alienação. A grande massa, salvo exceções, aprendeu doutrinas cristãs universais abrindo mão de sua capacidade de pensar. Tornou-se beligerante e sectária na defesa de suas verdades religiosas. O feminismo teológico convida a pensar de novo as próprias crenças e a situá-las a partir das necessidades dos diferentes grupos e dos diferentes tempos.
A teologia feminista desenvolveu-se na América Latina, África e Ásia a partir da década de 1980. Seu campo de atuação social é limitado. As teólogas feministas não são aceitas nos espaços institucionais dominados pelo clero e por pessoas convencidas da superioridade da imagem patriarcal de Deus. Uma das batalhas atuais importantes das teólogas feministas na América Latina é em relação ao poder religioso que domina os corpos femininos. Por isso, introduzem a questão da dominação sexual na teologia, falam dos corpos destroçados pelo abuso sexual, sua redução a um produto do mercado, sua culpabilização religiosa como instrumento de manutenção da mesma lógica de dominação.
A teologia feminista é parte de uma revolução cultural dos séculos 20 e 21, uma re-volução que ainda está em seus primeiros passos. Se persistir nessa luta de desnudamento de certos conceitos religiosos em favor da dignidade feminina, estará sinalizando um novo momento criativo na história das religiões, visto que as mulheres estarão expressando dentro das diferentes tradições religiosas sua experiência, seus valores e sentidos.
* Filósofa e teóloga, feminista e escritora
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Ivone Gebara
DOIS DEDINHOS DE PROSA
Jacinta Dantas
jacintadantas@bol.com.br
De longe, passeando pela praia, percebi que ele estava compenetrado. Sentado no banquinho de madeira, parecia extasiado, completamente entregue às maravilhas que o lugar lhe proporcionava. Coloquei-me ao seu lado, e, respeitando seu silêncio, fiquei ali, ouvindo o som das ondas que vinham e voltavam, num compasso que mais parecia um canto de paz. Nossos olhares se cruzaram e pensei que no seu olhar havia nostalgia, como se recordasse tempos passados vividos de alegria, dor, tristeza, euforia...
Interrompi o silêncio com um sorriso. Carinhosamente ele me estendeu a mão num gesto de desejar que o dia fosse bom. O alvorecer para ele começara muito cedo e eu ali, atrapalhando aquela contemplação do passado. Sentimento que se desfez a partir do cumprimento de bom dia. Em dois dedinhos de prosa, já sabia seu nome – Sr. Bento – nome imponente do homem que viveu mais de 50 anos no mar e do mar, no oficio de levar e trazer pessoas, produtos e o que mais precisasse sair ou voltar para a Praia de Jabaquara, fizesse chuva ou fizesse sol, lá estava ele, remando, na lida diária.
Trabalhou de sol a sol, e, como barqueiro, teve o mar como companheiro e parceiro na luta do dia-a-dia para prover o sustento da família. Tempos difíceis de dias em que só dava para comer uma única vez. De um jeito jocoso, afirmou não concordar com o refrão da música, imortalizada na voz de Bete Carvalho, que diz: no tempo do “dérreis” e do vintém se vivia muito bem [...] Sem medo de errar, e, com jeito de quem reconhece a beleza das coisas boas da vida, enfatizou que agora é que se vive muito bem, complementando que o tempo de hoje é muito melhor, pois é nele – no tempo de agora – que sua vida acontece.
E ficamos ali, proseando. Em poucos minutos de conversa orgulhosamente ele foi contando que criou 10 filhos e agora, na sua família, tem advogado, professor, funcionário público graduado, médico e até uma bisneta que mexe com o mar (a profissão da bisneta ele não soube dizer). Fez questão de se levantar e, apoiado em sua bengala, convidou-me para caminhar. Caminhamos juntos, lado a lado à beira mar e chegamos a uma Igrejinha. Tirando o chapéu, fez o sinal da cruz e logo foi dizendo que a Igrejinha de São João fora construída por ele. Depois corrigiu dizendo que não a fez sozinho. Um amigo seu também participou de frente na construção – mas ele foi o cabeça que comandava o pessoal – e tudo fora realizado em forma de mutirão, enfatizou.
Do alto de seus 87 anos, acenando com o chapéu e voltando o olhar para o céu, relembrou vários amigos que já partiram para a morada de Deus, inclusive o companheiro na construção da Igrejinha. No rosto, os sulcos, marcas esculpidas pelo tempo, vão remodelando seu olhar diante da vida. Já não há mais a correria, pois esse mesmo tempo, segundo ele, agora corre a seu favor.
Voltei para a pousada feliz com a intensidade daquele olhar que reverencia o céu e o mar. Quanta sabedoria acumulada em suas experiências eu poderia explorar. Dos instantes que passamos juntos ficou a dimensão do encontro com o outro no encontro comigo mesma. Ficou, também, a experiência de vivenciar o dia com alegria, valorizando o que se conquista de bom no caminho feito. E, na despedida, senti saudades de outro velho que também já partiu. Meu velho pai, que com o ofício de carpinteiro, como o bom José, deu sua contribuição para a formação da pessoa que sou hoje. Então percebi que a nostalgia era minha.
Obs: Imagem da autora.
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Jacinta Dantas
A MÍSTICA DA REVELAÇÃO
Jaime Sidônio
(psjaime7@hotmail.com)
A grande experiência mística se realiza no encontro com Jesus, que veio revelar o rosto do Pai. Essa foi a experiência não de uma doutrina, mas do encontro com uma pessoa viva e real. Os apóstolos e todos que com ele se encontraram experimentaram seu amor, seu carinho, sua ternura. Fizeram uma experiência real. “Aquilo que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e o que nossas mãos apalparam: - falamos da Palavra, que é a Vida” (1Jo 1,1). Ouvir, ver, tocar, é experiência real, sensível. “E a Palavra se fez homem e habitou entre nós” (Jo 1, 14).
A experiência mística de Jesus com o Pai foi uma experiência linda. Jesus se sentia possuído pela força e pelo amor do Pai. “O Pai e eu somos um” (Jo 10,30). “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14, 10). “[...] para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21). Na força de Deus se vence o medo. Aí está o segredo da coragem de Jesus. Por causa de sua experiência mística com o Pai, Jesus tornou-se um apaixonado pela vida. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E sabemos que não há mística sem paixão pela vida. O grande ideal de Deus, a Sua meta é a vida. “Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13). Em Jesus, Deus deu a vida por amor. “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).
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A grande experiência mística se realiza no encontro com Jesus, que veio revelar o rosto do Pai. Essa foi a experiência não de uma doutrina, mas do encontro com uma pessoa viva e real. Os apóstolos e todos que com ele se encontraram experimentaram seu amor, seu carinho, sua ternura. Fizeram uma experiência real. “Aquilo que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e o que nossas mãos apalparam: - falamos da Palavra, que é a Vida” (1Jo 1,1). Ouvir, ver, tocar, é experiência real, sensível. “E a Palavra se fez homem e habitou entre nós” (Jo 1, 14).
A experiência mística de Jesus com o Pai foi uma experiência linda. Jesus se sentia possuído pela força e pelo amor do Pai. “O Pai e eu somos um” (Jo 10,30). “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14, 10). “[...] para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21). Na força de Deus se vence o medo. Aí está o segredo da coragem de Jesus. Por causa de sua experiência mística com o Pai, Jesus tornou-se um apaixonado pela vida. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E sabemos que não há mística sem paixão pela vida. O grande ideal de Deus, a Sua meta é a vida. “Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13). Em Jesus, Deus deu a vida por amor. “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).
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Jaime Sidônio
CALDEIRÃO: UM ESTILO DIFERENTE DE EDUCAR – PARTE VIII
Luiz Moura
(lmoura.pe@uol.com.br)
Havia no Caldeirão, uma escola sistemática? Preocupava-se o beato em contratar um professor ou professora, ou, pelo menos, preocupou-se a comunidade em enviar seus filhos para as escolas da vizinhança, com a finalidade de, ao menos, aprender os rudimentos escolares? Ou apenas os conselhos do beato eram suficientes? São questões a que não se pode responder assim com tanta facilidade. Não há saturação de dados capaz de dar uma pista segura, há, ao contrário, dados contraditórios. Num trabalho datilografado de uma equipe de alunos, encontra-se a seguinte afirmação: não havia escolas; o beato achava que seus ensinamentos eram suficientes para que todos vivessem na santa paz, no sítio Caldeirão. Deve-se levar em conta que o beato era analfabeto e que, desse modo, não havia interesse em estabelecer escolas na comunidade. A leitura e os rudimentos da matemática não acrescentavam nada ao caráter místico da comunidade, que devia viver em busca das coisas do céu. Tudo isso não passa de hipótese que mereceria uma investigação cientifica mais apurada. De outro lado, há um dado que afirma a existência de professoras na comunidade e também de escolas, embora de estilo diferente.
Marina (uma professora) chegou acompanhada de uma família de sua cidade que vinha morar no Caldeirão. Mesmo sem a permissão de seus pais, veio em busca de sua missão. Marina, jovem, contava apenas com 21 anos, era loira, de olhos azuis, com beleza de corpo e de espírito. Veio cumprir sua missão: alfabetizar as crianças e os adultos do Caldeirão. A escola não era conforme o modelo convencional: sua sala de aula eram as sombras das árvores. Adultos e crianças levavam consigo a Carta do ABC nos airé ou bairé (uma espécie de sacola a tiracolo em desuso no sertão,hoje) e nas horas de descanso estudavam atentamente.
A experiência cotidiana faz gerar o saber-dizer, o saber-pensar, o saber-partilhar, o saber-fazer, o saber-trabalhar e o saber-criar. Assim deve ser a função da educação: ajudar as pessoas a viver um mundo que se transforma, criar um futuro promissor e inventar possibilidades. A criatividade do beato e da comunidade faz gerar uma forma de superar a seca e suas conseqüências; cria um clima de paraíso terrestre, baseada na experiência de mútua cooperação.
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Luiz Moura
QUANDO O CARNAVAL CHEGAR
Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)
Em várias regiões do Brasil, a expectativa do Carnaval é a de uma festa de liberdade e confraternização, mesmo se, cada vez mais, a sociedade do consumo é dominada pelo comércio de drogas, bebidas e exploração humana. Tradicionalmente, comunidades religiosas criam alternativas espiritualistas para preencher os dias de Carnaval. Ao contrário, grupos de tradição afro-descendente organizam blocos de Afoxé. Participam do Carnaval na comunhão do Espírito. Isso é importante e positivo porque a festa é uma dimensão fundamental da fé. Quem ama louva e quem louva festeja. Uma sociedade massificante faz espetáculos. Uma comunidade faz festa. No espetáculo, espectadores pagantes apreciam um show. Mesmo se interagem, continuam sendo platéia. Na festa, ao contrário, todos são atores e protagonistas. A festa cria envolvimento afetuoso e revela que cada um depende de todos, na construção de um corpo comum. Por isso, a verdadeira festa, mesmo se não tiver nada de explicitamente religioso, é profundamente espiritual. Alguém já comparou um desfile de escolas de samba ou de bloco de carnaval de rua com uma grande liturgia. É claro que o atual desfile carnavalesco está organizado como espetáculo. Nele, há elementos negativos como o espírito de competição, uma exploração do corpo humano como objeto de comércio, além da eventualidade de drogas, abuso de bebidas e até violência. Mas, se até em celebrações religiosas no templo, os profetas bíblicos denunciaram o risco do exibicionismo dos sacerdotes, a hipocrisia de fingir santidade e a pouca relação entre culto e justiça, não é de estranhar que em uma festa considerada mundana, tenhamos de lutar contra elementos negativos.
Em um mundo que favorece o desamor e provoca tantos casos de depressão, é urgente retomar o verdadeiro espírito da festa. Roger Schutz, fundador e prior da comunidade ecumênica de Taizé, se perguntava: “Se o espírito da festa desaparecer do mundo, como sobreviverão as comunidades?”. Há quem ligue a fé e a espiritualidade com uma excessiva seriedade e ar de tristeza. No velho catolicismo ibérico, predominam imagens do Senhor Jesus, amarrado no tronco de torturas e coroado de espinhos. A figura de Maria é principalmente a de Nossa Senhora das Dores. E os santos parecem todos grandes sofredores. Não se trata de negar que, muitas vezes, esta vida é mesmo um vale de lágrimas. Mas, temos de encontrar a forma de ser felizes. Jesus disse que veio ao mundo para que a nossa alegria seja completa (Cf. Jo 16 20 ss). Conforme o evangelho de Mateus, sua primeira palavra pública foi um convite a sermos todos felizes, bem-aventurados. Na tradição cristã, uma abadessa beneditina medieval, Santa Mectildes nomeava Jesus como seu “companheiro de brincadeiras”. E até hoje, no Catolicismo popular, existem grupos de folia nos quais os foliões não são os do Carnaval de agora, mas os devotos do Divino ou dos Santos Reis.
A festa pode ter também uma dimensão profética de antecipar o dia da vitória final contra todos os elementos negativos do mundo. No começo dos anos 70, Cacá Diegues fez um filme chamado “Quando o Carnaval chegar”. Os atores eram, entre outros, Chico Buarque, Maria Bethânia e Nara Leão. Em plena ditadura militar, o filme tomava o Carnaval como símbolo da festa da libertação do povo e da vitória contra a censura e as repressões. Até hoje, muita gente lembra disso ao cantar a melodia do Chico: “Quem me vê assim, parado, distante, parece que eu nem sei sambar. Tou me guardando pra quando o Carnaval chegar”.
A ONU consagrou 2012 como o ano da valorização das culturas africanas e do reconhecimento da dignidade das pessoas e comunidades afro-descendentes. Neste último mês, no norte da África, povos desarmados e principalmente jovens, através da internet, conseguiram derrubar regimes ditatoriais fortemente armados e violentos. Ao menos na Líbia, a repressão foi muito violenta e muita gente está sendo morta. Mas, da parte do povo, há uma insistência nas manifestações pacíficas, mas radicais: as pessoas só voltarão para casa quando se sentirem representadas por governos democráticos e respeitadores da dignidade humana. Também no Brasil, as comunidades afro-descendentes têm se organizado e conquistado alguns direitos. Quem sabe, neste Carnaval, possamos recuperar destas sabedorias tradicionais a forma de fazer festa como celebração da vida e acolher o outro como companheiro de caminhada para o grande Carnaval do reinado divino no mundo.
(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
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Marcelo Barros
O FIM DAS CERTEZAS
Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio
Nossa época é um tempo feito de incerteza, de insegurança: a respeito da própria identidade, de uma posição estável e sólida na sociedade, da visão de mundo que realmente é a minha. Segundo Zygmunt Bauman, isto é um passivo antes que um ativo, um peso que constrange o movimento. E Bauman especifica aquilo que chama de líquido e aparece em todas as suas obras. Não é tanto o líquido da água pura e cristalina, que lava e desaltera, mas um líquido pegajoso, viscoso, que gruda na pele e do qual não se consegue ficar livre.
A “viscosidade” de que fala Bauman vai significar um novo” habitat” para aquilo que entendemos como verdade, certeza, crença, identidade. A disputa sobre a veracidade ou falsidade de certas crenças é sempre simultaneamente a discussão sobre o direito de alguns de falar com autoridade o que alguns outros devem obedecer. A disputa, na verdade, é sobre o estabelecimento ou reafirmação das relações de superioridade e inferioridade, de dominação e submissão entre os detentores das crenças.
Por isso o que é ou não certo, o que é ou não verdadeiro hoje se pluralizou... e os filósofos disputam isto, construindo não uma teoria da verdade, mas uma teoria das verdades, no plural. E porque a pluralidade das verdades cessou de ser instigante e contestável radicalmente, será cedo deixada para trás. E devido à possibilidade de diferentes crenças poderem ser não apenas consideradas e julgadas verdadeiras simultaneamente, mas serem de fato verdadeiras, a teoria da verdade situada no centro da atenção do pensar contemporâneo parece haver perdido muito de sua função de disputa com relação ao status de conhecimento não só filosófico mas transdisciplinar, relativo a várias áreas do saber.
Um dos grandes desafios da tardo modernidade em que vivemos, talvez sem precedentes, seja a diversidade e pluralidade em que estamos mergulhados, diversidade esta situada no interior de uma fraca, negligente e impotente institucionalização de diferenças, com suas resultantes de fugacidade, maleabilidade e curta sobrevida.
Se antes o desafio para a questão da identidade era como construí-la consistentemente e dar-lhe uma forma que recebesse reconhecimento universal, hoje o problema da identidade emerge sobretudo da dificuldade de sustentar qualquer identidade por um prazo mais longo, da virtual impossibilidade de encontrar uma forma de expressão da identidade que tenha uma boa chance de ser reconhecida por toda a vida, e a resultante necessidade de não abraçar nenhuma identidade muito estreitamente, a fim de poder abandoná-la da maneira mais rápida possível.
A medida do pensar e do conhecer não é mais o logos, mas a imagem fugaz e brilhante que cativa a vista e impacta sensorialmente o ser humano, impedindo uma interpretação e uma assimilação livre e profunda daquilo que vê e recebe como estímulo para poder realizar sua síntese própria.
Não é à toa que no universo bíblico o sentido humano privilegiado para viver plenamente é o ouvido, a escuta. O ver está sempre sob suspeita, pelos grandes riscos que corre de ser idolátrico. O deserto, lugar de conversão por excelência para o povo bíblico e, por isso mesmo, o lugar da escuta absoluta, é o lugar onde a verdade pode manifestar-se, livre dos riscos de um ver banalizado e fechado, idolátrico. O que está circunscrito a meu campo de visão pode ficar confinado aos meus limites e ser, portanto, manipulado por mim. A escuta é propiciada pelo Espírito que, sopro divino vivificante, se comunica livremente e não se deixa agarrar nem dizer de onde vem nem para onde vai.
A verdade que emerge dessa escuta se deixa, então, encontrar, em experiências profundas de sentido que a fé denomina experiência de Deus e que não seriam objeto de reflexão apenas da teologia, mas também de todas as ciências que se dizem humanas e se interessam pelo destino do ser humano neste mundo e neste momento histórico.
A religião reduzida a um mero ato humano, natural, sem transcendência não daria conta deste desafio. Explica-se humanamente e aí se esgota. Há que voltar às fontes, ou seja, à Palavra Reveladora cuja origem misteriosa ensina ao ser humano qual sua verdadeira origem, sua autêntica morada e se manifesta como verdade que emerge das entranhas da história para brilhar epifanicamente na alteridade do rosto do outro.
Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco). http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/
Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
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Maria Clara L. Bingemer
QUARTA LIÇÃO: NA EMERGÊNCIA DA MORTE, A VIDA SE URGENCIA
Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com
Foram as borboletas quem me pressagiaram a quarta lição. Cercaram-me em bando no caminho e quase me levantaram no ar, como à mãe de Poronominare. Tão mítico que a beleza tanta me surpreendeu.
Depois ficaram por aqui, entrando e saindo pela casa, querendo me dar um recado que eu não conseguia traduzir. Sabia que era de transformação, mas a sutileza dessas flores aladas me enternece de tal maneira que, ao tentar pensá-las, sinto como se tudo fosse muito pouco...
Ocorre que o dia seguinte me trouxe histórias: as histórias dramáticas que eu temia ouvir tão próximas. Vieram doídas, mornas ainda das lágrimas e das muitas dores. Ao final da tarde, a frase título apareceu translúcida:
No encontro com a Morte, a Vida se urgencia.
Foi depois disso que chegaram estes textos pelo correio eletrônico. E eu entendi, então, que era para compartilhá-los, já que vinham prenhes deste significado que as borboletas anunciaram.
Os dois autores pertencem à mesma família. Ambos perderam muitos entes queridos. Os dois se juntam e me trazem a quarta lição. Aí está:
Um depoimento de luz e esperança!
por Janimary Guerra Pecci
Ainda me pego imaginando (e é cedo para parar de imaginar) como anda o dia a dia das famílias que perderam muitos dos seus entes queridos... Como e onde estão encontrando forças para se refazerem emocionalmente? Que troca de luz e esperança estão realizando entre os que ficaram por aqui? Ah... Como eu desejo contar, a todas as famílias friburguenses que passaram Pelas experiências de perdas, um pouco do que EXISTE em nossa especial família GUERRA.
Assim vivenciamos a nossa tarde do último domingo, dia 6 de fevereiro de 2010. Na casa do Tião Guerra e da Mariane Canella, todos fomos acolhidos... Chegávamos aos poucos, trazendo as contribuições para o lanche comunitário, íamos nos abraçando de forma serena, longa, carinhosa... Um abraço ainda sufocado, afinal de contas era o nosso primeiro encontro, após o dia 12 de janeiro de 2010. As palavras eram poucas, mas o calor, este era por demais intenso, imenso! Junto deste calor humano, o clima era de muita paz! As crianças brincavam de um lado para o outro, as pessoas arrumavam a mesa, alguém enchia as garrafas de café, outro estourava a pipoca... O cheirinho no ar era o mesmo de quando ainda pequena sentia ao lado dos muitos primos e tios... Era cheiro de FAMÍLIA, de UNIDADE, de INTIMIDADE. Nessas horas, a gente sente vontade de exclamar: Meu Deus, como é maravilhoso ter uma família, como é divino cultivar os laços da simplicidade, da união, da esperança, da fé, enfim, dos verdadeiros valores! Nossa família é assim... Espero que muitas outras sejam assim, também.
Na sala, no quintal, os instrumentos começam a ser espalhados, começam a tomar vida, as crianças pegam uns e outros, produzem os sons daquela festa que nunca terá fim... Nós, os adultos, timidamente, vamos ensaiando algumas músicas, relembrando melodias... Nossa família Guerra é assim: sobram talentos para teatro, música, arte, criatividade, boas loucuras e ousadíssimos voos. E neste contexto, mais uma vez, a maior expressão que pode sair de minha boca é: GRAÇAS A DEUS!
Chegam os primos mais esperados, Samuel, Paloma e os filhos e a Sani, além da matriarca vovó Maria, estamos todos juntos... Não falta ninguém, pois pela nossa fé, mesmo os que mudaram de esfera, estavam conosco... O anfitrião puxa a fila das homenagens e deste primeiro fio, um belíssimo novelo de lã vai se enrolando ou desenrolando, sei lá, é difícil de explicar, só dá pra sentir. A roda, no quintal, é imensa, uns pedem a palavra, relembram momentos que jamais serão esquecidos, choram, convidam a todos para uma oração... Outros pegam livros de histórias e as contam, enfatizando as mensagens das entrelinhas, muitos vamos revezando as canções... Nossa reunião é uma festa que se traduz em CELEBRAÇÃO DA VIDA! É claro que, em meio a tanta emoção, entrega e transparência, muitos dos guardanapos (que seriam utilizados no lanche) foram passados de mão em mão para enxugarem as lágrimas. E, em meio a tanto amor, nesta tarde de domingo, realizei uma experiência de família jamais vivida até então: descobri ou redescobri que chorar junto, dividir a dor e a alegria, escutar o outro, apoiar os mais sofridos é, inexplicavelmente, algo MARAVILHOSO!
Depois de tantas homenagens aos nossos que se foram, a partilha dos quitutes mineiros (nossa família é de lá) continuou, num 2º tempo. E lá pelas 22h, sem termos sentido o tempo passar, alguns começaram a se despedir, outros ainda permaneceram e não tive notícias de quem saiu por último... Mas, independente da hora em que cada um deixou aquela casa tão especial, o que importa dizer é que estávamos encerrando um encontro o qual, confesso, não gostaria que acabasse nunca. Acho que todos sentiram também assim... Parecíamos todos tão protegidos... E é por ter nascido nesta família que, até o fim de minha vida, serei grata a Deus! Não tenho dúvida de que ainda vivenciaremos inúmeros encontros pela frente, mas pelo menos, este primeiro, eu não poderia deixar de compartilhar com vocês, meus irmãos friburguenses!
(escrito em homenagem a toda a família Guerra, de Conselheiro Paulino, na saudade especial dos seus oito entes queridos que se foram no dia 12/01/2010, vítimas de soterramento no Loteamento do Barão. São eles: a matriarca Erotides Guerra (Tidi), a filha Sara, o genro Renato e os netos Carolina, Luiz Guilherme, Victor Hugo, Maria Victória e Manoela
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FICHA LIMPA
Odete Melo de Souza(*)
FICHA LIMPA deveria ser a identidade de todos os cidadãos e cidadãs.
Em qualquer circunstância, idade ou desempenho, o homem idôneo apresenta tranquilamente a sua FICHA LIMPA, isto é, sua vida exemplar como salvo conduto para ingressar em alguma atividade que garanta a sua sobrevivência.
O Governo Federal sabiamente lançou a Lei da FICHA LIMPA que nas eleições passadas vetou a candidatura a cargos eletivos de pessoas envolvidas em processos judiciais.
E numa feliz resolução, o nosso dinâmico governador Eduardo Campos sancionou a Lei que proíbe contratação de alguém para a administração pública, com pendência na JUSTIÇA.
Esta acertada iniciativa do chefe maior do nosso Executivo, além de mostrar sintonia com o aprimoramento ético da sociedade brasileira, se espelhou também na já existente Lei da FICHA LIMPA.
Uma pessoa pode não ter sido condenada judicialmente, porém, se o seu nome constar de processos, não merece a autentica confiança da sociedade e do próprio Governo. Há dúvidas sobre a mesma!...
Pois, como diz a sabedoria popular, quando se fala alguma coisa, “ou é, ou foi, ou está para ser.”
Portanto, o candidato ou candidata a qualquer cargo, seja publico ou privado, deve ser uma referência de probidade e competência, comprovada em sua vida e diagnosticada pelos seus concidadãos.
Assim, a nova Lei da FICHA LIMPA representa para o nosso Pais, nosso Estado e todo o povo brasileiro um audacioso avanço que devemos exaltar, aplaudir e estimular sua exata aplicação.
PARABÉNS BRASIL!... PARABÉNS PERNAMBUCO!... Por esta tão avançada medida administrativa.
Esperamos que a Lei da FICHA LIMPA seja rigorosa e promissoramente aplicada!...
(*) Autora do livro - Retalhos do Cotidiano.
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Odete Melo de Souza
TEXTO DE PAULA BARROS
www.pensamentosefotos.blogspot.com
(mpaula26@hotmail.com)
A vida acontece a todo instante, bem pertinho da gente. Podemos ser o observador, podemos ser o protagonista, destes momentos chamados vida.
Ela acontece em cada esquina, em cada rua, em cima ou embaixo das pontes e viadutos, na sala de trabalho, de reunião, no parque de diversão, nos hospitais....ela está acontencendo.
Com música, com sorrisos, com choros, com aplausos, com pancadas......ela está vibrando. Se dizendo viva, se dizendo vida.
Mas nós temos pressa. Queremos mais um pouco. Queremos ir mais além. Apreender um pouco mais, ganhar mais do mais, comprar....e a vida pede tão pouco. Pede um pouquinho de atenção. Mais um pouquinho de tolerância. De paciência. De calma. Ela diz a todo instante para diminuirmos o ritmo. Para sorrirmos mais. Olharmos o outro nos olhos. Escutar o que ele tem para dizer. Falar um pouco da gente.
Mas não dá. Temos hora. Estamos sempre atrasados. E se chegamos na hora, nos estressamos para cumprir o horário, os outros atrasaram, e tudo vai se atrasando. E o sangue vai fervendo.
A vida grita para pararmos. Dá os sinais. Liga o pisca alerta. Mas nós nem respiramos direito. Estamos ficando enrijecidos. Dores no corpo. Órgãos fragilizados. Estamos estressados. Cheios de compridos. Caixinha com dia e horário. Para não falharmos, não esquecermos.
A música toca e passamos sem nem percebermos.
Obs: Imagem enviada pela autora (Um cantor numa rua de Lisboa)
(mpaula26@hotmail.com)
A vida acontece a todo instante, bem pertinho da gente. Podemos ser o observador, podemos ser o protagonista, destes momentos chamados vida.
Ela acontece em cada esquina, em cada rua, em cima ou embaixo das pontes e viadutos, na sala de trabalho, de reunião, no parque de diversão, nos hospitais....ela está acontencendo.
Com música, com sorrisos, com choros, com aplausos, com pancadas......ela está vibrando. Se dizendo viva, se dizendo vida.
Mas nós temos pressa. Queremos mais um pouco. Queremos ir mais além. Apreender um pouco mais, ganhar mais do mais, comprar....e a vida pede tão pouco. Pede um pouquinho de atenção. Mais um pouquinho de tolerância. De paciência. De calma. Ela diz a todo instante para diminuirmos o ritmo. Para sorrirmos mais. Olharmos o outro nos olhos. Escutar o que ele tem para dizer. Falar um pouco da gente.
Mas não dá. Temos hora. Estamos sempre atrasados. E se chegamos na hora, nos estressamos para cumprir o horário, os outros atrasaram, e tudo vai se atrasando. E o sangue vai fervendo.
A vida grita para pararmos. Dá os sinais. Liga o pisca alerta. Mas nós nem respiramos direito. Estamos ficando enrijecidos. Dores no corpo. Órgãos fragilizados. Estamos estressados. Cheios de compridos. Caixinha com dia e horário. Para não falharmos, não esquecermos.
A música toca e passamos sem nem percebermos.
Obs: Imagem enviada pela autora (Um cantor numa rua de Lisboa)
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Paula Barros
A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
Paulo Rebêlo
(www.rebelo.org)
Sempre que tragédias ocorrem, como essa reprise de novela da Globo por qual passa o Rio de Janeiro com as chuvas, é comum a gente pensar nos entes queridos e em famílias inteiras que morreram.
Talvez pela ausência de religião ou de sensibilidade, ou ambos, sempre me pego pensando é nas pessoas que se foram sem ter morrido. De gente que saiu da sua vida, embora continuem vivos, mesmo sem saber como e onde.
Não precisa nem ser tiozinho careca e buchudo, mas até entre os mais jovens deve haver uma infinidade de pessoas interessantes e paixões perdidas que ficaram pelo caminho sem nos darmos conta.
Você conhece alguém (finalmente!) interessante de verdade e em pouco tempo se tornam amigos ou amantes, mas em tempo ainda mais curto cada um segue o seu caminho e, numa época quando nunca foi tão fácil se comunicar e mandar mensagem 24h por dia, a gente só sabe se ela casou ou trocou de cidade quando muda o status do Facebook.
Pelo menos eles estão vivos, será? E as pessoas e paixões que não temos notícias há anos, por onde andam? Será que nenhum deles se foi com as chuvas? Ou quem sabe se foi muito antes disso e você não ficou sabendo?
Em geral, ninguém morreu, mas é quase como se tivesse. Porque de um certo dia em diante, a probabilidade de vocês se reencontrarem é a mesma de ganhar na mega sena. É até matematicamente possível, mas você vai contar com isso?
É um conforto mental quando as pessoas somem e a gente, pelo menos, sabe onde elas foram parar, se estão felizes ou não.
Contei uma vez e conto de novo: cheguei num dos meus restaurantes preferidos da madrugada e não encontrei o garçom que me servia há tantos anos. Mas ele estava feliz, pois deixou recado dizendo ter juntado umas economias, sacado o FGTS e realizado o sonho de abrir um restaurante em Frei Miguelinho, município de 14 mil habitantes no interior de Pernambuco, de onde ele havia saído há 25 anos para tentar a vida no Recife.
Óbvio, ninguém garante que ele será feliz para sempre, embora padres (e Hollywood) insistam em continuar rogando essa praga na hora do casamento.
Mas, enquanto alguém não trouxer uma nova notícia, o meu jornalzinho mental terá em boas condições de temperatura e pressão aquele garçom de Frei Miguelinho e tantas outras pessoas que, embora distantes, nos pareçam estar bem.
São pessoas que apareceram no meio da estrada, obras do acaso, deixaram sua marca e um dia precisaram ir embora por um motivo ou outro. Mas continuam vivos não apenas de carne e osso, mas de sentimento também. E as demais que se foram e se trancaram sem aviso?
Verdade, algumas realmente deixam o aviso de "não me procure nunca mais" ou "risque meu nome da sua agenda". Pensando bem, hoje ninguém usa mais agenda. Elas dizem "vou lhe bloquear no MSN".
Num passe de mágica, é como se nada tivesse acontecido.
A gente tenta respeitar, mas... veja bem, meu bem. Às vezes temos um relacionamento de dois, cinco, dez anos, mesmo que seja uma amizade colorida ou algo sem compromissos, ninguém passa tanto tempo saindo (ok, ou transando) com outra pessoa sem que haja um mínimo de coesão sentimental.
Queremos saber se você está bem, mesmo que você não queira saber se nós também estamos. Não importa se você não se importa mais.
Não adianta dizer que não temos o direito, porque não há nada escrito sobre isso na Constituição. Nem na Bíblia. Nem naqueles cartões de aniversário que você me deu de presente, nem nas cartas que lhe enviei, nem nos guardanapos daquele bar onde a gente se encontrava às quartas-feiras e nem naquele disquete velho de 5 ¼ que você esqueceu de propósito dentro de um livro meu.
Mesmo que não signifique que vamos voltar a ser amantes, que vamos casar, que vamos ser amigos novamente, que vamos voltar no tempo para consertar o que estava errado, na verdade não precisa significar nada.
Só queremos ter a sensação ou a hipótese presumida de que uma pessoa que significou tanto, durante um tempo em nossa vida, e talvez signifique outro tanto ainda hoje, não esteja enterrada sem a gente saber, não esteja apanhando do marido, não esteja com câncer terminal, não esteja passando necessidades, não esteja infeliz ou esteja feliz na base do Rivotril. Então se depois de um tempo, meses ou anos, acaba essa amizade ou relação e todo mundo simplesmente some do nosso Google Maps, por mais mágoa ou raiva que possa existir, é sempre com pesar que fico pensando se ela encontrou o príncipe encantado dela, se amadureceu, se está feliz no trabalho, se está feliz consigo mesmo, se está saindo com as amigas ou se está apenas contando os dias esperando o sol nascer.
Evidente, se oportunidade houvesse, iríamos querer nos reencontrar, abraçar, quem sabe até sumir por um fim de semana inteiro. E depois iríamos nos perguntar: por que não trocamos sequer um e-mail? Carta? Pombo correio? Sinal de fumaça? Que tal daqui por diante a gente fazer isso?
Geralmente fica tudo por isso mesmo porque seria muito duro ver que ela está feliz do outro lado, com outra pessoa.
Mas seria igualmente muito duro ver que está infeliz.
Porque às vezes alguém está infeliz por um punhado de responsabilidade sua, mesmo quando você não tem culpa de não conseguir amá-la como ela (ou você) gostaria.
É quando a ignorância de outrora torna-se tão mais cômoda e a gente prefere não perguntar. E deixar tudo como está. Ausente, mas sempre presente.
Obs: Imagem do autor.
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Paulo Rebêlo
ÚLTIMO ESCRITO
Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br
Deixo sobre a mesa
o último escrito,
que com certeza,
avidamente será lido
como quem busca mais detalhe
desse grito.
O dinheiro?
Esse nada compra
e é o primeiro que engana,
não dá para confiar!
Jóia..
Ah, se tivessem o brilho
do sol que no horizonte desponta,
jamais deixariam de usar..!
Da casa,
só terei saudade da varanda,
onde a luminosidade me encanta
e me dá asas para voar.
Não levo nada comigo
podem ficar tranqüilos
e parem de procurar,
pois tudo está
onde um dia estragará.
Só uma coisa,
antes que me vá,
quando descobrirem que as pessoas
são os maiores tesouros
que se deve cuidar,
já se foram todas as pedras,
todos os ouros,
sem ter como alcançar.
Aqui me despeço
e lhes entrego meu escrito.....
Quanta claridade!
Essa luminosidade!
Quanto bri.........
Obs: Imagem enviada pela autora (Foto de Raphael)
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Rivkah Cohen
FELICIDADE NO LABORATÓRIO
Ronaldo Coelho Teixeira
http://ronaldo.teixeira.zip.net/
ronteixeira@bol.com.br
A tão sonhada e perseguida felicidade também já faz parte das pesquisas de acadêmicos de grande parte do planeta. E o mais incrível é que ela vem sendo estudada cientificamente há mais de 30 anos, gerando mais de 3.000 pesquisas, estas que vêm sendo alvo de debates entre diversos estudiosos. Uns que defendem este tipo de avaliação e outros que o condenam, afirmando que a felicidade é algo não-palpável e subjetivo e, por isso, impossível de ser medido.
Um exemplo desse trabalho acaba de ser divulgado. Trata-se da pesquisa da ONG inglesa The New Economics Foundation que apontou o povo do arquipélago de Vanuatu, no Pacífico Sul, como o mais feliz do planeta. Uma população basicamente subdesenvolvida, pois vive da agricultura de subsistência, não tem acesso a água potável, somente 3% possui telefone fixo e a mortalidade infantil é o dobro da brasileira. O Brasil ficou no grupo dos “mais ou menos felizes”, ocupando a 63ª posição. Enquanto a Ucrânia situou-se entre os “mais infelizes”, com a 174ª colocação. Essa pesquisa levou em conta apenas três fatores: expectativa de vida, bem-estar e extensão dos danos ambientais causados pelo homem em cada país.
Outro exemplo é o do World Value Survey, de Michigan nos Estados Unidos. Na sua pesquisa realizada em 2004, os nigerianos foram eleitos os mais felizes, um país africano marcado pela miséria, pelo analfabetismo e pela corrupção. O Brasil ficou em 15º lugar dentre 65 países avaliados. Adotando métodos variados, essa pesquisa partiu de perguntas simples sobre o estado geral de felicidade de uma pessoa num instante qualquer, e indo até ao acompanhamento sistemático das atividades dessa pessoa por várias semanas.
Para Ruut Veenhoven, professor de Condições Sociais para a Felicidade, da Universidade Erasmus de Roterdã, na Holanda, a felicidade geral de uma pessoa deve ser analisada em três níveis. O macro, que revela as características da sociedade em que ela vive e onde se avalia riqueza, justiça e liberdade. O médio, que está diretamente ligado ao grau de autonomia e respeito que a pessoa goza junto às instituições. E, por último, o micronível, que se manifesta nas capacidades pessoais, tais como habilidades técnicas e intelectuais, além das independências emocional e financeira.
Apesar das eternas controvérsias sobre essas pesquisas, de tudo fica um aviso aos povos ditos “civilizados”: o consumismo, a pressa e o sedentarismo, somados à destruição contínua do meio ambiente, ao contrário de nos trazer felicidade, cada vez mais afasta-nos dela. Porque se já não podemos voltar a ser o “bom selvagem” de Rousseau, por outro lado seguimos no rumo certo para nos tornarmos os últimos bárbaros hightechs na decadência já anunciada desta civilização.
Obs: Texto retirado do livro do autor – Surtos & Sustos
Imagem enviada pelo autor
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