terça-feira, 28 de julho de 2009

COMÉRCIO TRAVESTIDO DE SERVIÇO

Dasilva, Abril, 2009.



Como de costume, nas férias, fui fazer o exame anual da vista. Para garantir pelo menos uma comparação, marquei dois renomados e recomendados oftalmologistas (para, então, comprar os óculos – oculista é ante-sala de ótica). Uma paciente no consultório, ao me ver rouco, perguntou se era resfriado, pois, conhecia um especialista...

Fazia algum tempo, a rouquidão estava vindo com muita facilidade. Desconfiava do intenso uso ou do mau uso da voz, choque térmico... Diante disso, tive que marcar e esperar a consulta com o clínico geral me recomendou ir ao otorrinolaringologista. Aí começou a via-sacra.

Para mostrar independência, busquei no caderno do convênio particular, um nome que inspirasse confiança. Optei por um nome oriental. No dia marcado, mesmo agendado, amarguei a imensa fila de espera, até ser atendido. O velho médico, com uma rápida olhada, no interior da boca, logo me encaminhou para outro, especialista em videolaringoscopia.

Segui o ritual - busca de vaga, espera longa e até um simpático atendimento, no final da tarde. DVD providenciado e ajustado no gravador, ele fez o filme da minha garganta. A tarefa seguinte foi acertar uma data para o retorno ao otorrino. Depois, da espera com hora marcada, sem sequer olhar o DVD que ele mesmo havia pedido, me encaminhou para uma fonoaudióloga.

A visita marcada com a fono (agora, sou chic, já digo a minha fono!) foi para me dizer que eu deveria, primeiro, ir ao plano de saúde e pedir uma autorização, mediante a qual ela atenderia. Como um carneiro, tomei o costumeiro chá-de-cadeira para no final ser informado que a autorização não seria mais necessária.

Ela parecia experimentada e marcou cinco sessões de meia hora. Depois disso, o plano não cobriria, mas... para clientes antigos ela faria um desconto, por cada sessão além do permitido. No decorrer das sessões, ela percebeu que o problema, além do abuso da voz, possíveis excesso de lactose... era um problema de postura. Ela tinha uma amiga que era craque em RPG.

Como eu também tinha uma amiga que fazia RPG, fiz uma preferência profissional-afetiva. Cobrou a metade do previsto em cada sessão, mas não fazia convênio com planos de saúde porque custavam a pagar e era uma mixaria. O plano de saúde que eu rebolava para pagar porque o SUS é ótimo, no papel, mas não funciona, poderia me atender, mas... o setor ainda estava em fase de estruturação.
A fisioterapeuta percebeu sinais de que algo não ia bem com meu fígado. Lá fui eu para uma entendida em empato... que lendo o diagnóstico do otorrino sobre um possível edema nas cordas vocais, exigiu uma endoscopia. E, lá vai eu, de jejum para um desmaio provocado, para permitir uma fotografia do estômago, por dentro.

Eu que só queria atualizar os óculos, para ajudar na presbiopia, percorri inúmeros consultórios, realizei uma dezena de exames, gastei incontáveis horas de espera, exercitei quase a minha cota de paciência. No final, não tinha nada grave, nem dinheiro prá comprar os óculos e continuo rouco. Não sei se aprendi muito, mas consegui fazer algumas interrogações.

1. Por que obrigam a gente a pagar o SUS se todo mundo sabe que ele não funciona quando a gente precisa.
2. Quanto duraria esse recorrido se a pessoa não pagasse um plano de saúde... em um caso grave, teria o enterro...
3. Por que a gente sempre perde – se atrasa perde a vez, se é pontual espera; para ficar bom tem que arriscar o emprego.
4. Os consultórios não querem saber se você tem tempo, se tem família, se tem dinheiro... a culpa será sempre sua.
5. Se os órgãos do corpo humano estão intrinsecamente integrados por que os serviços médicos se repartem tanto?
6. Aliás, por que um médico não pergunta o que o “especialista” anterior achou e age como se sua parte fosse autônoma?
7. Ficou quase certeza que não é o paciente que precisa do médico; é o sacerdócio do médico que não vive sem doentes.

Não se pode esperar que as pessoas se movam só por ideais, especialmente quando juram que fazem. É justo todo profissional recebe uma recompensa por seus serviços. O difícil de aceitar que muitos médicos façam do serviço à vida, a indústria da doença: indicam amigos, adivinham diagnósticos, prescrevem drogas de certos laboratórios... que, em um ciclo sem fim, vai exigir novos especialistas e novos remédios.

STF versus NAÇÃO BRASILEIRA:

a quem pertence o Poder Constituinte? (Parte I)



Uziel Santana


“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. (Art. 1º, parágrafo único, Constituição Federal)”





A epígrafe acima é indubitável quanto à resposta a ser dada ao questionamento do título deste ensaio: a quem pertence o Poder Constituinte? “Todo o poder emana do povo”. É importante observarmos, de plano, a sintaxe dos termos “Todo” e “o”, na qualificação e referibilidade ao substantivo “Poder”. Isto é, não é qualquer poder que emana e pertence ao povo, mas todo o poder, o poder inteiro, completo, emana do povo brasileiro. E que poder é este a que se refere o dispositivo constitucional em comento? O poder de constituir o Estado Brasileiro através da fundação de uma ordem jurídica que tem como epicentro a Constituição Federal e como círculos complementares de normatividade concêntrica as leis infraconstitucionais. Numa expressão sintética: o Poder Constituinte.

A Constituição da República Federativa do Brasil não deixa dúvidas de que o Poder de constituir o Estado Brasileiro e de fazer as suas leis – essas como expressão formal dos fatores morais e culturais da sociedade brasileira – emana e pertence ao povo brasileiro. Aliás, digredindo – permitam-me – para falar mais tecnicamente, tal poder pertence à Nação Brasileira que, sociologicamente, define-se como o conjunto de pessoas nascidas em um determinado território e que se unem pelos mesmos laços de língua, raça, tradições, hábitos, religião e valores morais, possuindo, assim, o elemento unificador denominado de consciência nacional. Assim, Nação é um conceito atemporal e meta-espacial – isto é, para além do tempo e do espaço – enquanto que Povo é um conceito presencial e local. O Povo é, na verdade, a expressão presente e territorial da Nação, de modo que, falando em termos de Poder Constituinte, a partir do que a Constituição Federal estabelece-nos, o Povo Brasileiro – como expressão presencial e local da Nação Brasileira – é o titular, proprietário inalienável, do poder de constituir a República Federativa do Brasil e o seu respectivo Ordenamento Jurídico, fundando-os a partir de uma Constituição (e a nossa atual é a de 1988, embora com 57 emendas constitucionais!) e inovando-os através das leis infraconstitucionais estabelecidas pelo Poder Legislativo.

Dito tudo isso e demonstrado, argumentativamente, a partir do que estabelece o parágrafo único do art. 1º da Constituição Federal, que não há dúvidas sobre a quem pertence o Poder Constituinte, uma pergunta se apresenta ao leitor: por que, então, a indagação inicial de saber se tal poder pertence à Nação Brasileira ou ao STF (Supremo Tribunal Federal)? E mais: neste contexto, qual, então, a função que a Constituição Federal estabelece para o STF? Pois bem. Vejamos.

Primeiramente, a indagação titular se dá porque, nos últimos tempos, o STF tem sido provocado – por meio de ADI’s (ações diretas de inconstitucionalidade) e ADPF (argüição de descumprimento de preceito fundamental) – a decidir sobre questões que envolvem o complexo ideário sociocultural da denominada consciência nacional, os seus mores maiorum civitatis (aquilo que a sociedade classifica, em termos comportamentais, como o seu “belo”, o seu “bem” e a sua “verdade”) e o seu Poder – o Poder da Nação, da sociedade brasileira – de constituir o Estado e um Sistema Jurídico de acordo com os seus valores e princípios de ordem moral. Mais que isso, o STF tem sido provocado a decidir sobre todas essas questões com implicações de ordem legiferante e mutacional (seja como “legislador” positivo, seja como “legislador” negativo, através da técnica hermenêutica de interpretação conforme) de tal modo que os mais relevantes (e por isso o termo latino mores maiorum) valores morais e padrões éticos de comportamento estabelecidos pela Nação Brasileira na Constituição Federal de 1988 estão sendo objeto de construção e desconstrução “legislativa” por uma corte formada por apenas 11 pessoas do Povo Brasileiro. Assim, se é certo que a atual Constituição, conforme estabelece o preâmbulo constitucional, foi formada e sedimentada em determinados pilares morais e éticos e “sob a proteção de Deus” – porque esta foi a vontade do legítimo proprietário do Poder Constituinte, a Nação Brasileira – também é certo que, hoje, o STF, de modo equivocado e autoritário, ao nosso entender, tem sido levado a desmontar e remontar a estrutura ideológica da consciência nacional que formatou a Constituição Federal de 1988 sem a devida autorização do Povo e da própria Constituição para isso. Claro que tal ocorrência se dá por conta da permissividade do sistema constitucional processual brasileiro que, por via oblíqua, acaba, de certo modo, autorizando que o STF venha a se tornar – de modo ilegítimo, ressalte-se – um poder Legislativo. E nisso reside um grande problema.

Por que estamos a afirmar isso? Porque é evidente que a Nação Brasileira ao estabelecer a Constituição Federal por meio da Assembléia Nacional Constituinte – expressão maior do seu Poder Constituinte Originário – não autorizou a inovação legislativa – especialmente, em temas de alta complexidade moral e ética – por parte de nenhum Poder ou Órgão da República Federativa do Brasil, a não ser o Poder Legislativo da União que pode fazê-lo – tais inovações e mutações constitucionais e infraconstitucionais – por ser o legítimo detentor do Poder Constituinte Derivado. Assim, quando o STF é provocado a decidir sobre temas de alta implicação moral e ética como “Pesquisa e manipulação de Células-Tronco”, “Aborto”, “União homossexual” (e etc.) não o pode fazer ao seu sentir, ao seu livre-arbítrio (por mais “nobre” e politicamente correto que o possa ser), desconsiderando os pilares e mores maiorum estabelecidos pela Nação Brasileira através da Assembléia Nacional Constituinte. Agir, assim, com técnicas interpretativas ampliativas ou que vão, claramente, de encontro aos valores mais relevantes da sociedade é desvirtuar as bases principiológicas do denominado Estado Democrático de Direito (e perceba que este termo técnico-jurídico nos denota que para ser “de Direito” o Estado tem que passar pela via democrática).

Ao STF, diz a Nação através da Constituição, cabe, justamente, ser o guardião dos princípios e preceitos fundamentais que ela, a Nação, definiu no texto constitucional, sem ir além, aquém ou fora dos parâmetros valorativos estabelecidos nesses princípios e preceitos. Não é dado ao STF o poder de constituir uma nova mentalidade, um novo paradigma moral e ético, porque isso cabe, tão-somente, à Nação diretamente ou através dos seus representantes eleitos. É o que estabelece de modo peremptório e definitivo o parágrafo único do art. 1º da Constituição Federal. Infelizmente, no atual contexto de decisões de alta complexidade valorativa como as que citamos anteriormente, os nossos 11 ministros têm se tornado, no dizer do professor italiano Mauro Cappelletti, Juízes Legisladores.

É antidemocrático e manipulador o discurso jurídico de interpretação constitucional quando, como no caso da pesquisa de células-tronco, por exemplo, estabelece-se uma exegese que vai, frontalmente, contra a expressão da vontade da Nação Brasileira que fora estabelecida e estabilizada no texto Constitucional. E aqui não quero nem entrar no mérito da questão – se é certo ou errado – mas na forma, isto é, para haver uma tal alteração da consciência nacional, o Povo brasileiro, diretamente ou via Congresso Nacional, deve sempre ser consultado, seja através de uma nova Assembléia Nacional Constituinte, seja através de Referendo ou através de Plebiscito. Esta é a via democrática de alteração de paradigmas morais e éticos.

Recentemente, o STF – novamente através da Relatoria do Ministro Carlos Ayres Britto – foi provocado a se manifestar, através de ADPF, sobre a validade, na vigente ordem jurídico-constitucional, a respeito da união de homossexuais como entidade familiar. Indubitavelmente, sem também entrar no mérito, questões como essa – assim como o caso do aborto – não podem ser definidas no julgamento de 11 pessoas do Povo Brasileiro. Definitivamente, isso não é democracia. Isso deve ser feito pelo Povo, seja diretamente ou indiretamente, através dos seus representantes eleitos, o que não é o caso dos ministros que compõem o STF.

Infelizmente, vivemos hoje, no Brasil, um ilegítimo fenômeno de judicialização do Poder Constituinte Originário e uma exacerbação e arrogância do ativismo judicial onde a magistratura não se limita a exercer a sua função típica de Poder que é julgar os casos concretos de acordo com os limites morais e éticos estabelecidos pelo documento jurídico mais importante do Sistema, a Constituição Federal, expressão máxima do ideário valorativo da Nação Brasileira.


Uziel Santana (Professor da UFS e Advogado)
http://www.uzielsantana.pro.br/





OS SACRAMENTOS

BATISMO – PARTE I
Tomé


João batizava no rio Jordão. O povo escutava as palavras do João Batista: “Arrependei-vos dos vossos pecados.” As pessoas que ficavam arrependidas iam até João no rio. Elas entravam na água para serem batizadas por ele. O batismo era o sinal de que estas pessoas queriam mudar as suas vidas. A entrada na água era o símbolo de que a pessoa queria que morresse a sua vida passada. A saída da água era o símbolo do seu novo nascimento. Era um símbolo do seu desejo de começar de novo.

O povo, no tempo de João, era formado de muitos pescadores e ribeirinhos. Quantas vezes Pedro e os outros apóstolos ficavam com medo quando caía um temporal em cima deles no seu barco! A água era um símbolo de perigo, da morte. Os povos também compreendiam o perigo dos lavradores e pastores de animais. Eles entendiam no verão, no tempo da seca, tudo morria por falta de chuva. Eles e os animais sofriam até o inverno e a volta das chuvas, quando podiam plantar de novo e quando os pastos se tornavam verdes outra vez.

Quando os primeiros cristãos continuaram a prática do batismo, eles entenderam muito melhor do que nós a importância deste sacramento. Eles entraram na água para morrer à sua vida passada, arrependidos do pecado e do mal. A saída da água era para eles um renascimento à Vida, à Nova Vida em Jesus Cristo. A comunidade toda estava presente para receber o novo cristão como membro e para vesti-lo numa roupa branca, que simbolizava esta Nova Vida.

Para a comunidade cristã, o batismo fazia parte da sua vida. Ela recebia novos membros pelo batismo. Este ato público simbolizava que a comunidade aceitava a responsabilidade de ensinar e cuidar do novo membro. Para o novato, o batismo era o sinal público de que ele tinha morrido à sua vida passada e que aceitou Jesus Cristo como o Senhor da sua vida. O batismo simbolizava para ele a sua libertação do Reino do Mal. E era o fato oficial pelo qual o novato havia entrado na comunidade como membro.

SER AMIGO

rivkahcohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br



Se nada te dói,
por favor, NÃO IGNORE!

Se a pessoa que mais amas, não partiu,
não foi embora,
esse mundo nunca te feriu,
TEU CORAÇÃO NÃO CHORA!

Se tua operação saiu a contento,
saiba ter gratidão, pois não houve
banalidade nesse evento.

Se nunca em algum lugar
foste esquecido, abandonado,
não seja só agradecido, lembra:
TU ERAS
e por conseguinte,
SEMPRE TE SENTIRÁS AMADO!

Se tiveste algum problema
e com o tempo ele tenha se acabado,
tenha consciência
e diga: D'US meu, MUITO OBRIGADO!

Não se concentre só para pedir.
Lendo ou com suas palabras, reze, ore!
E se algo deixou de ser doído,
por favor, Ser Amigo, nunca esqueça,
COMEMORE!



Obs: Imagem da autora.

MISERICÓRDIA

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/




Eu nada sabia dela. Precisava conhecê-la, saber por que era assim. Precisava acreditar na sua presença, saber de sua existência e emprestar-lhe qualidades – defeitos e virtudes. Um sentimento de rejeição me invadia ao julgá-la minha. Eu a achava tão fria, tão insensível, uma coisa que não pertencia a nenhum espaço, nem a si mesma, apenas doía dentro dela mesma. Por que eu sabia que ela doía?
Parecia gente. Criou vida, encheu-se de força e me largou como quem larga as vestes trocadas, esquecendo tudo, todas as intenções, as dores, as virtudes, os prazeres. Não podia me libertar daquela dor. Não a queria. Seus sonhos, eu sabia, iam além da verdade, do real. E se a quisesse? E se me abandonasse?
Mesmo não a querendo, eu a seguia. Ou perseguia, nem sei. Como quem tocaia um malfeitor eu a espreitava dia e noite. Escondida no escuro, vigiava seus movimentos. Passei a ter a astúcia do animal que caça. Farejava, me escondia no escuro, preparava o bote. Tornei-me uma fortaleza onde me aquartelei para espreitá-la. Aos poucos foi se tornando igual a mim, com minhas dores e ansiedades com meus temores. Senti que ela me desconhecia, ignorava o som dos meus passos e da minha voz; tratava-me com indiferença. Não sentia, nem me deixava sentir.
Fui me apagando, sumindo e eu sabia a razão- eu não lhe via o olhar e não poderia me ver existindo nele. Ali poderia estar a resposta que eu queria, a certeza de uma existência. Perdi-me dela. Nossos caminhos se desencontraram.
Não tenho sossego. Não me conheço. Tenho que me trazer de volta para me conhecer e esquecê-la. Subjugada pela tristeza procurei lembrar de outros momentos. Perdi-me em lembranças onde nada havia de mim. Pelos séculos tentei ordenar no tempo alegrias e sofrimentos. Contei todas as árvores do caminho, fiz rolar as pedras da estrada, armazenei água de muitas chuvas, colhi, plantei, morri mil vezes.
Não mais falarei de desespero nem de dor, de sofrimento, da busca do meu não. Encontrei no tempo furtivo e silencioso das plantas uma idéia de tempo que na realidade de nada me serviu. Senti uma solidão de quem morrera. Nem olhava as pessoas para que elas não soubessem do meu sim. Há muito tempo chorava, há muito tempo mesmo. Senti saudades das coisas simples, da minha casa, da minha cama, do meu quintal. Do sono tranqüilo nas noites chuvosas, da cadeira onde descansava o meu passado. Sim, era ali, na cadeira, junto à janela que a menina vinha sempre me encontrar.
Permaneci sentindo saudade das coisas simples. Na cadeira, junto à janela, já não precisava contar as árvores nem deixar rolar as pedras, nem colher as águas da chuva. O mundo não sabia do meu cansaço e as imagens se sucedendo me faziam sentir cada vez mais saudade das coisas simples. Esqueci a angústia da procura. Assim eu me rendi. Reconheci e aceitei a dor.


Obs: Texto retirado do livro da autora - O Olho do Girassol -

SABEDORIA DA HISTÓRIA

D. Demétrio Valentini (*)



Para a Diocese de Jales, o mês de agosto é propício para recordar a história, e continuar tirando as lições que ela nos dá. Ainda mais neste ano, em que a Diocese de aproxima do jubileu de ouro de sua criação.

Permanece válido o provérbio latino, que demonstra o apreço pela história que os antigos já tinham. “Historia est magistra vitae” - “A história é mestra da vida”.

E é mesmo. Basta estarmos atentos ao simbolismo de fatos e datas da história da Diocese, para deduzir alguns recados muito claros, e muito salutares.

A começar, por exemplo, pela data da criação da Diocese de Jales. Ela foi criada pelo Papa João 23, no dia 12 de dezembro, no ano de 1959.

Pareceriam todas referências inexpressivas, se olhadas sem a dimensão histórica. Mas se articuladas entre si pela dinâmica da história, acabam expressando uma mensagem clara e convergente.

A começar, então, pelo dia 12 de dezembro. E´ o dia dedicado a Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina. Criada neste dia, é claro que a diocese se sente, desde o berço, chamada a assumir as feições da Igreja da América Latina, com o peso que esta identificação apresenta com muita evidência. Bem que poderiam ter colocado outra data para o Papa assinar o decreto. Mas foi escolhida esta, com evidente marca eclesial. Depende agora da diocese valorizar a carga simbólica sugerida por esta data.

Outra referência é o ano da criação da Diocese. Foi em 1959. Também ele poderia passar em branco, se lido em desconexão com a história. Mas se queremos situar este ano de 1959 no contexto da Igreja em nosso tempo, salta aos olhos um acontecimento de todo singular, vivido pela Igreja em 1959. Foi naquele ano que o Papa João 23 surpreendeu o mundo com o anúncio da convocação de um Concílio, para renovar a Igreja, reencontrar seus fundamentos evangélicos, e atualizar sua linguagem e sua fisionomia aos tempos atuais.

Pois bem, uma diocese criada no ano do anúncio do concílio, pode muito bem evocar este episódio para fortalecer sua opção pastoral fundada nas propostas de renovação eclesial do Concílio, que suscitaram um intenso processo que ainda continua e precisa ser levado adiante. Isto supõe persistência e discernimento, que encontram sólido fundamento no Concílio Vaticano II.

Aí chegamos à figura do Papa João 23. E´ certamente motivo de honra para uma diocese ter sido criada por decreto assinado por este Papa, que marcou a história da Igreja de maneira tão profunda.

Em João 23 encontramos muitas virtudes que podem servir de referência para a caminhada pastoral da diocese. A começar pela sua abertura e docilidade ao Espírito, que explica a coragem que ele teve de convocar um concílio que ira mexer profundamente com a postura pastoral da Igreja, suscitando reações que ele soube contornar de maneira extraordinária, sabendo se antecipar a elas e desfazê-las antes que tomassem corpo, como aconteceu com a indiferença inicial de alguns cardeais que julgavam imprudente convocar um concílio com estas propostas amplas e corajosas de renovação eclesial.

Quantas lições a aprender. Quantos recados oportunos a história nos oferece, com a credibilidade de sua experiência e com a força dos fatos que ela registra.

Que João 23 abençoe agora a diocese, que ele criou no início do seu pontificado. Ele merece uma estátua, a assinalar o jubileu de ouro da Diocese de Jales.

(*) (
www.diocesedejales.org.br)

VALE MAIS O CORAÇÃO

Padre Beto
www.padrebeto.com.br



No início do universo, Brahma, o grande Deus hindu, julgou os seres humanos indignos de possuírem o fogo divino, o fogo da criatividade. Porém, Brahma se confrontava com um problema: onde escondê-lo dos humanos? Assim, o conselho dos deuses foi consultado e depois de todos os membros discutirem muito, sugeriram que o fogo divino fosse escondido no fundo dos oceanos. Brahma considerou a proposta ruim, pois os humanos aprenderiam a mergulhar como os peixes e encontrariam o fogo. O conselho, então, sugeriu que o fogo fosse escondido no centro da Terra. Brahma se opôs novamente, alegando que os humanos criariam máquinas capazes de escavar a terra e teriam facilmente em mãos a chama divina. No mais alto dos céus, opinou finalmente o conselho. Brahma objetou a idéia, afinal, inteligentes como são, os seres humanos haveriam de criar meios para voar mais alto que os pássaros. Sem mais propostas, o conselho caiu em um profundo silêncio. "Eu sei qual o lugar onde dificilmente o fogo divino será procurado", afirmou Brahma quebrando o ambiente tenso do conselho, "eu irei escondê-lo no coração de cada ser humano!"

O prazer de viver é realmente encontrado a partir do momento que nosso caminhar na existência possibilita a realização de nossas potencialidades, daquilo que há dentro de cada ser humano. Em outras palavras, a nossa satisfação de estar na existência consiste na realização de nosso ser. Apesar dos fatores externos que podem dificultar ou facilitar a realização pessoal, cada ser humano possui a capacidade em si próprio de intensificar seus momentos de felicidade, desde que encontre um estilo de vida, uma profissão, uma atividade, na qual ele possa dar forma ao que possui em potência. Justamente, em nosso interior encontra-se toda a criatividade que transforma o universo e nos preenche de satisfação. Uma das dificuldades que nós, homens e mulheres ocidentais, encontramos, consiste na mentalidade formada pelo modo de produção capitalista. Ao nascermos somos introduzidos em um determinado cosmos sócio-econômico e, automaticamente, levados a procurar nossa realização pessoal através de um determinado relacionamento de posse com aquilo que existe em nosso exterior. Segundo Erich Fromm, desde muito cedo assimilamos uma forma de relacionamento com nosso universo que passa a ser uma postura de vida durante toda a nossa existência. De uma forma inconsciente aprendemos a fazer uma relação direta do ser com o ter e para sermos felizes nos lançamos em uma constante busca do possuir. Através de diversos mecanismos somos convencidos de que quanto maior for nosso poder de compra e aquisição, maior será o nosso valor como pessoa. No mundo capitalista até mesmo a religião acaba reproduzindo teologicamente este tipo de mentalidade: quanto mais tenho, mais próximo estou da graça de Deus.

Assim faz-se necessário possuir bens, títulos, publicidade, relacionamentos e até mesmo pessoas. Esta mentalidade fundamentada na posse acaba se refletindo em nossa própria linguagem, com a substituição, cada vez mais freqüente, do verbo "ser" pelo "ter" acompanhado de seu respectivo pronome possessivo: Eu tenho amigos, esta é minha namorada, minha família, minha rua, minha cidade, meu bairro, meu país, meu mundo... Sem dúvida alguma, o desejo de possuir vem de nossa tendência natural à incorporação. Ao comer ou beber vamos in-corporando um pouco do mundo, ou seja, fazemos com que o universo torne-se parte de nosso corpo, de nosso ser. A mentalidade capitalista intensifica esta necessidade de incorporação tornando-a simbólica e mágica. No universo movido pelo capital adquirimos a crença de poder fazer com que coisas se tornem extensões de nosso ser. Assim, tudo no universo pode ser por nós introjetado, criando a ilusão de que ao tomar posse de coisas estou expandindo meu ser no mundo. O consumo, coração que movimenta o organismo capitalista, é uma atividade de incorporação por excelência. Nós somos à medida que consumimos. Juntamente com o ter, o consumo nos traz a idéia do poder de compra que nos leva ao prestígio e à atenção de todos. O consumo alcança sua extrema forma quando somos levados a "comprar" não somente bens, mas também pessoas e até mesmo Deus. O grande drama do homem capitalista é que a alegria de viver, o prazer de estar na vida não se encontra no fundo dos oceanos, nem no centro da Terra e muito menos no mais alto do céu. Como afirmou, certa vez, Thomas Fuller, "o contentamento é a pedra filosofal que tudo transforma em ouro". Este contentamento, porém, possui muito mais relação com o sentido de nossa vida, do que com nossa conta bancária. "Todas as maravilhas que você precisa estão dentro de você" (Sir Thomas Browne).

PECULIARIDADES DOS ANIMAIS

Edilberto Sena
(
edilrural@gmail.com)



Outro dia passava um gato branco pelo quintal. Pequeno, arrepiado, rosto triste como alguém que sofre do mal de fígado e anda sempre de mal humor. Que pobre bichinho triste, andando desconfiado. O gato em si já é um animal sério, não sorri, higiênico (só faz cocô na terra e cobrindo tudo, mas independente, se não lhe derem comida ele vai procurar. O gato triste que passava pelo quintal estava visivelmente doente e abandonado por quem o criou, bem podia ser perigoso transportador de alguma doença a alguém da vizinhança.

O cachorro, tido como o animal mais amigo do ser humano, é capaz de manifestar sua alegria, sua tristeza e sua raiva, protege o dono da sua casa. Enxotado, sempre volta abanando o rabo, num gesto de perdão. Este também pode se tornar perigoso, se descuidado de tratos pelos donos. Pode transmitir doenças como pira, kalazar e outras doenças.

Esses são alguns dos animais ditos domésticos, como a galinha, o peru e o cavalo, entre outros. Todos usados e não respeitados pelos seres humanos. O peru e a galinha são cultivados para panela e forno e o cavalo, para transporte e carga. Triste sina da galinha que morre para a festa de aniversário, e o peru que mesmo garboso diante de uma perua, morre para a festa de natal dos seres humanos. Já o cavalo, tão elegante, pacífico, fica horas e horas no sol quente amarrado em torno de um capim amassado, com sede, pois o dono só vem buscá-lo para colocar a sela e passear, quando não, para botar cangalha e sacos de produtos para a feira.

Há outros animais que nunca deveriam ser domesticados, ou aprisionados para deleite de insensíveis pessoas, que fazem deles negócio ou simplesmente para contemplá-los. Tome-se o papagaio, o simpático louro verde amarelo. Tão dócil, aprende a falar, assobiar e até a cantar. Come qualquer coisa. O papagaio é lindo e inteligente. Mas tê-lo em casa, cortar as asas para não voar, oferecer alimentos fora de seu cardápio natural é malvadeza pura, é crueldade.

Assim faziam os invasores portugueses ao chegarem ao Brasil, achavam os índios exóticos e logo prendiam um, amarravam e levavam em seus navios para presenteá-lo a alguém de sua estimação. Assim hoje, quem põe um animal em cativeiro, um pássaro em gaiola para seu deleite é cruel. Pensando bem, é mais que um crime, é imoral. Como também o dono daquele gatinho pirento e triste, é imoral, deixá-lo abandonado. Pobre gatinho arrepiado, doente do fígado talvez, mal humorado, cheio de dores talvez, uma criatura de Deus com certeza.

A REVOLUÇÃO DO EDUCAR

Marcelo Barros(*)





Na América Latina, surge um processo social e político novo. Em vários países, como Venezuela, Equador e Bolívia, o povo vota em novas constituições mais cidadãs e democráticas, ao mesmo tempo pela primeira vez, no continente inteiro, povos indígenas se reorganizam e se unem em torno de suas necessidades básicas e do fortalecimento de suas línguas e culturas. Este processo ocorre em meio a muitas contradições e dificuldades. Não poderia ser de outro modo, já que estas mudanças sociais e políticas têm ocorrido não por meios violentos de conquista do poder político, mas por eleições democráticas, ocorridas de acordo com costumes e condicionamentos que vêm de séculos. Obstáculos como o do recente golpe de Estado contra o presidente e o povo de Honduras têm sido como um alerta para muitos outros países. Embora pareça superada a época em que golpes militares eram modas no continente, há militares que querem deixar claro que esta hipótese não pode ser totalmente descartada.

Em meio a toda esta fragilidade, um ponto em comum é que nenhum país conseguirá avançar em justiça e igualdade social sem dar uma prioridade à educação. Não é por acaso que a Venezuela, que, há poucos anos, era campeã de analfabetismo, recebeu da UNESCO e da ONU o reconhecimento de que alcançou a taxa de analfabetismo zero, nos habitantes jovens e adultos. Também o governo de Evo Morales, na Bolívia, consagrou o ano de 2008 a 2009 como o tempo da cruzada da alfabetização em massa. No interior de Valle Grande, há 41 anos, o comandante revolucionário Che Guevara conduzia um grupo de combatentes internacionais para dar a sua vida para transformar as condições sociais e políticas na Bolívia. Ele começou o seu trabalho procurando educar os filhos dos lavradores, atendendo os muitos casos de doença como médico e garantindo aos nativos uma noção básica de higiene. Mas, apesar de ter se dedicado a este trabalho em prol dos pequenos, não foi compreendido pelos lavradores apavorados pelo terror do comunismo e ameaçados pelo exército boliviano, então, fortemente repressor. O comandante e seu pequeno contingente de militantes foram traídos por camponeses assustados. Hoje, quem viaja por aquelas paragens, encontra os mesmos lavradores organizados em grupos de base e lendo suas vidas com mais autonomia e compreensão do mundo. No Equador, embora o governo compreenda que somente a educação não provocará nenhum milagre de transformação da realidade, se não se faz justiça social, sabe também que nenhuma mudança profunda será possível sem passar pela educação de base, alfabetização de adultos e democratização do ensino e da universidade.

No Brasil, é preciso termos consciência de que estamos atrasados. As elites brasileiras nunca se incomodaram em democratizar a educação. Ainda gememos sob a taxa de 15 a 16% de analfabetos adultos ou pessoas que começaram a ser alfabetizadas e deixaram o curso sem conseguir ainda ler as suas vidas e dizer sua realidade. Além disso, os índices de jovens que abandonam a escola no ensino fundamental e no nível médio ainda é muito alto. E as universidades continuam a ser ilhas sem pontes nem barcos que as liguem às ruas do país real e à vida do povo ao qual deveriam servir.

Enquanto a Colômbia, o Peru, a Bolívia e o Paraguai têm boas universidades desde o século XVI, o Brasil começou o curso universitário em Olinda somente no século XIX. Mas, como disse o filósofo Mário Sérgio Cortella, “a primeira universidade de fato é a de São Paulo, que foi fundada em 1934. O próprio Ministério da Educação só existe a partir de 1930” (revista Fórum, junho 2009, p. 8).

No momento atual, o governo brasileiro está fazendo um bom trabalho no que diz respeito à Educação e, apesar das contradições e obstáculos que ainda se põem entre teoria e prática, esperamos que a educação seja cada vez mais democratizada e acessível a todos. O Ministério da Educação tem feito um trabalho excelente e prepara a 1ª Conferência Nacional de Educação para 2010. Os eixos fundamentais do trabalho são garantir a democratização do ensino de qualidade, a competência na gestão das escolas e do ensino, assim como a inclusão social dos mais pobres em todos os níveis da escolaridade.

Este caminho novo e democrático da educação é uma opção pelas crianças que têm mais dificuldade e não por aquelas que já merecem notas melhores. Trata-se de estimular os professores a optarem pelos pequenos e fracos e não pelos estudantes mais capazes, assim como o Estado não deve bonificar ou pagar a mais professores que conseguem melhores notas para suas classes. Não se trata de um campeonato de excelências, nem de concurso de “meritocracia” e sim de educadores que se dedicam ao mais frágil da corrente e sabem que os problemas são mais complexos do que apenas um sistema de notas e conceitos.

Para quem tem fé e busca viver uma espiritualidade ecumênica, a educação é a tarefa que mais nos aproxima dos grandes líderes espirituais da humanidade. Todos foram educadores e, de certo modo, optaram pelos últimos. Jesus Cristo, por exemplo, disse sempre: “Não são os que têm saúde que precisam de médico e sim os doentes. Vão e aprendam o que significa a palavra de Deus: ´Eu quero a misericórdia e não o sacrifício´. Assim também, eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Mt 9, 12- 13).



(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

SANTA CRUZ

Walter Cabral de Moura
(
wacmoura@nlink.com.br)



Uma estranha multidão
tão pouco a satisfaz:
a vitória, um gol a mais
o título de campeão.

Uma Santa multidão
ama e grita e sofre e briga
ri e chora e faz cantiga
e sempre está com a razão.

Uma insana multidão
à espera do redentor
comandante vencedor
novo Dom Sebastião.

Uma Cruz na multidão
velhos, adultos, crianças
não perdem a esperança:
três cores, uma paixão.

EM BELÉM DE CACHOEIRA

UM MEMORIAL AO PADRE VOADOR
Sebastião Heber
shvc@oi.com.br



O Seminário de Belém de Cachoeira está sendo revitalizado por conta da presença do Santo Frei Antonio Galvão. Lá ele estudou e teve que sair às pressas, por ordem do pai, que, em S. Paulo, estava aflito com a Questão Pombalina, por conta da expulsão dos jesuítas. Mas esse lugar encerra mais história. O Cônego Hélio Villas Boas, Pároco de Cachoeira e Reitor do Santuário de Belém, está organizando um Memorial do Padre Bartolomeu de Gusmão, que lá também estudou. O projeto está recebendo a orientação do Instituo Geográfico e Histórico da Bahia, sob a presidência da Professora Consuelo Pondé de Sena.

Nada mais justo do que a conservação dessa memória. O Padre Voador, como se tornou conhecido , nasceu em Santos, em 1685,de uma grande família de doze membros (seis homens e seis mulheres),teve seus primeiros estudos na própria Capitania de S. Vicente. Mas prosseguiu seus estudos em Belém de Cachoeira, Seminário dos Jesuítas, onde teve início a sua profícua carreira de inventor. Por conta da posição geográfica do seminário, havia grande dificuldade no abastecimento de água , que era captada e transportada em vasos, com grande esforço físico. O jovem inventor se sentiu desafiado com o problema. Inteligentemente planejou um sistema e construiu um maquinismo para levar a água do brejo até o seminário por meio de um cano longo. O invento foi logo testado e aprovado com grande sucesso por todos.

Mas a notoriedade dele vem dos testes que fez com balões. Consta que ao observar uma pequena bola de sabão pairando no ar, ele se inspirara para fazer o seu balão. Terminado o curso em Belém, transferiu-se para Salvador, onde ingressou nos Jesuítas. Foi a Portugal, já conhecido e famoso por conta da inteligência e inventos. Em 1702 retorna a Salvador onde dá entrada na patente para o aparelho que inventara anos atrás: “invento para fazer subir água a toda distância e altura que se quiser levar”, expedida em 23 de março de 1707, por D. João V.

Em 1708, já como padre, Bartolomeu embarcou mais uma vez para Portugal, onde logo se matriculou na Faculdade de Cânones em Coimbra.

Na capital portuguesa ele pediu patente para um “instrumento para se andar pelo ar”, que se revelaria mais tarde pelo que hoje se chama “aeróstato” ou “balão”, licença que foi concedida em 19 de abril de 1709. O fato repercutiu na cidade, em todo o Portugal, espalhando-se até para outros Reinos.

Foram muitas as experiências feitas com balões na frente da Corte. Algumas foram frustradas – o balão pegou fogo, havia medo que as cortinas da sala também se incendiassem. Alcançou grande sucesso quando fez voar seu balão que saiu do Castelo S. Jorge indo pousar no Terreiro do Paço.

A concepção e realização do aeróstato de Bartolomeu de Gusmão, mostrou o passo gigantesco que representou sua invenção de onde sairia, mais tarde, a aeronave, sendo ele corretamente considerado como “ o Pai da Aerostação”, tendo precedido em 74 anos os irmãos franceses Montgolfier que voaram em um balão de ar quente em 1783.

Como na vida de outras figuras geniais, a dele foi marcada por contrastes. Além dos seus sermões serem considerados notáveis, foi feito Fidalgo-Capelão da Casa Real, em 1722.
Contudo, intrigas na Corte, levaram-no a cair em desgraça tendo sofrido perseguição por parte da Inquisição.Uma insidiosa campanha de difamação o acusava de simpatizar com os cristãos novos, o que o obrigara a fugir para a Espanha. Lá ele morre em 19 de novembro de 1724, como um simples indigente, recolhido ao Hospital da Misericórdia de Toledo.

O Memorial do Padre Bartolomeu de Gusmão vai reavivar o espírito daquele gênio que viveu nas nossas terras.


Sebastião Heber. Prof. Adjunto da UNEB, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu, do IGHB, do Instituo Genealógico e da Academia Mater Salvatoris.

ABRAJI //

4º CONGRESSO INTERNACIONAL DE JORNALISMO INVESTIGATIVO
Julho 18th, 2009
Paulo Rebêlo)
(
www.rebelo.org)



Experiência e recursos financeiros. Dois fatores aparentemente essenciais para uma boa reportagem investigativa, mas que nada valem se o repórter não tiver força de vontade e fôlego quase juvenil para perseguir a informação que muitos preferem manter escondida.

Este foi apenas um dos muitos desafios debatidos em São Paulo, entre os dias 9 e 11 de julho, no 4º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Organizado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e com apoio e patrocínio do Centro Knight para Jornalismo nas Américas e várias outras instituições, o evento ocorreu na Universidade Anhembi-Morumbi e contou com a presença de quase 500 jornalistas, estudantes e professores de jornalismo, incluindo 62 palestrantes em 50 oficinas.

Os assuntos foram dos mais diversos, dos tradicionais, como narcotráfico e corrupção, à investigação esportiva e cobertura dos bastidores políticos no interior do Brasil. Ideias e reportagens investigativas em economia, tecnologia e meio ambiente também foram amplamente comentadas e discutidas entre os participantes, concedendo um aspecto ainda mais plural e complexo ao que se entende por jornalismo investigativo.

A presidente da Abraji, Angelina Nunes, falou da importância do intercâmbio de ideias e experiências entre os participantes, sejam eles profissionais, estudantes ou aspirantes a uma vaga nas faculdades de jornalismo. Embora tenha se consolidado na agenda do jornalismo brasileiro, o congresso da Abraji deste ano tornou-se ainda mais essencial em virtude das eleições gerais de 2010, quando os eleitores irão votar para presidente, governadores e senadores.

Maria Cristina Fernandes, editora de Política do jornal Valor Econômico, registra uma importância ímpar na cobertura jornalística das eleições e das novas investigações que possam surgir. “A sociedade irá eleger o sucessor de um dos políticos mais populares da história do Brasil e, provavelmente, terão uma mulher entre os candidatos mais fortes à presidência. É também a primeira vez, desde a reabertura democrática, em que o Lula não será candidato”, explicou.

O professor Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight, reafirma a enorme satisfação de conferir e presenciar como a Abraji cresceu nos últimos anos, desde sua fundação em 2002 como um ideal comum entre jornalistas até o sólido e crescente grupo de hoje, cujo sonho de contribuir para um jornalismo de qualidade continua a nortear suas ações. “O 4º Congresso Internacional realizado em São Paulo é a demonstração de maturidade e da eficiência desta organização de jornalistas. E é com muito orgulho que nós do Centro Knight apostamos na iniciativa e continuamos a apoiar”, resumiu Alves.

Entre os palestrantes internacionais levados a São Paulo pela Abraji encontravam-se Mark Horvit, diretor executivo da IRE (Investigative Reporters and Editors); Joe Bergantino o diretor do Centro de Jornalismo Investigativo da Nova Inglaterra, na Universidade de Boston; Ana Arana, International Knight Fellow na Cidade do Mexico; Maria Teresa Ronderos, editora de Internet da revista Semana, da Colômbia; Gabriel Michi, presidente do FOPEA (Forum del Periodismo Argentino); e Kirk Semple, repórter do New York Times.

Como de costume, grande parte do público presente no congresso da Abraji eram estudantes de jornalismo vindos de vários lugares do Brasil, mas principalmente da região de São Paulo. Estudante do último ano de jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo, Camila Rodrigues participou pela primeira vez de um congresso da Abraji. “Já havia participado de cursos separados, mas nunca de um congresso inteiro. As palestras foram interessantes demais e foi ótimo ter espaço para fazer perguntas”, elogiou a futura jornalista de 22 anos.

Vinda da região do Vale do Paraíba, no interior do Estado de São Paulo, a estudante Ticiane Toledo mostrou-se surpreendida com a qualidade dos palestrantes e dos assuntos discutidos durante os três dias de evento. “Um dos pontos positivos foi quebrar o estigma de que jornalismo investigativo está ligado somente às editorias de Polícia e Política. Admito que eu mesma tinha dificuldades de fazer a ligação entre jornalismo investigativo e Esportes, por exemplo”, diz Ticiane.

Ao fim do 4º Congresso Internacional da Abraji, uma reclamação curiosa imperou entre os estudantes de jornalismo: o “excesso” de qualidade, por assim dizer. Com tantos profissionais competentes e temas interessantes, ficou difícil acompanhar tudo, principalmente no caso de palestras simultâneas em salas distintas.

José Roberto de Toledo, um dos diretores da Abraji, ajudou a organizar todos os congressos realizados até agora e explica que a ideia é oferecer muitas possibilidades para os participantes escolherem. “É um modelo comum em eventos deste porte, como ocorre com o IRE, por exemplo. Com a variedade de palestras boas, mais gente se interessa em participar. Acreditamos ser melhor ter mais opções do que ter apenas palestras contadas e escolhidas pelos organizadores”, explica Toledo, frisando que no Brasil, hoje, não há evento jornalístico com tantas possibilidades de participação feito o congresso da Abraji.

A ANDARILHA PENSANDO...

Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)




Será amor? O que é amor? Nunca soube o que é azia. Não por não ter sentido, talvez. Mas por não saber definir. Assim é com o amor. Tá vendo você. Por ausência de suas palavras na minha casa e excesso de palavras na sua, transbordo imaginação. Faltou o vinho naquela festa, aquele rapaz transformou água em vinho. Me faltam palavras suas, transformo ausência em palavras. Todos saboreiam como se bebessem vinho, se embriagam, eu me embriago com a sua ausência, com as suas frases, todos ficam tontos e pensam que é amor. Aquele rapaz falava por parábolas, anos depois muitos não entendem. Falo uma língua que os seres do meu planeta não entendem. Acreditam, veem e sentem o amor. Será isso bom? Esse amor pode atrapalhar um verdadeiro amor? Aquele rapaz falava de amor e ninguém entendia. Eu apenas converso com você, comigo e com Ele, o rapaz simpático, escrevo e pensam que é amor. Se o amor invadir os corações e trouxer mais amor. Que seja amor.Insisto que não é amor. Só transformo imaginação e ausência em palavras. Só isso. No dia que você vier e beber das minhas palavras embriagadas, talvez eu fique lúcida. Nem quero mais que você venha. Pode ser que o barril seque. E a festa se acabe. Fica onde sempre esteve. Eu vou sempre por aí. Adoro viajar.....



Obs: Foto da autora.

TEXTO DE LUG COSTA




Depositei a esperança nos olhos tristes de Maria.
Conformei a minha vontade às palavras sucintas
e repetitivas de seus desejos.
Procurei insistentemente na escuridão dos seus olhos
a chave que talvez abrisse o seu coração.
Maria dos meus desatinos.
Maria sina da minha completa loucura.


( 02.05.2009 – 15:27h – Caxias/MA)

O QUE QUEREMOS MAIS?

Jaime Sidônio
(
psjaime7@hotmail.com)



É preciso contemplar nossa história para descobrir que ela é cheia de bondade, ternura, misericórdia, gratuidade, compreensão, carinho, alegria... que muitas pessoas ofereceram, ainda que nós nem merecêssemos. É linda demais nossa história! Na verdade, não temos direito algum de lamentar-nos da vida. Deus nos ama! O que queremos mais?

A lógica das palavras de Jesus tem uma evidência absoluta: se recebemos gratuitamente, é normal darmos com a mesma gratuidade, sem nos sentir “os tais” por isso, mas tendo sempre a consciência de que, mesmo que tenhamos dado muito, nunca chegaremos a dar como temos recebido. “Vocês receberam de graça, dêem também de graça!” (MT 10,8). Reconciliação é gratuidade de Deus.



NA ACADEMIA...

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com



E de repente ela estava sozinha de novo. ‘Antes só, do que mal acompanhada’ pensou. Homens eram complicados demais, não as mulheres como eles diziam. Davam trabalho. Os ciumentos eram os piores. Aqueles que controlavam a hora, o destino, a roupa. E ela tinha sorte para atrair esse tipo. Estava decidida: ia reatar seu relacionamento com a ‘liberdade’, mas ... conheceu ele.

Foi na academia. Se os machos não resistem ao conjunto pernas e bumbum em uma mulher, ela também não resistia isso no sexo oposto. Deu aquela olhada discreta, e exclamou a uma autoridade divina (Ai, Meu Deus!). Viu a serpente do paraíso em um aparelho de ginástica próximo (a tentação). Não era a maçã da árvore proibida, mas pareceu apetitoso...

Ele ergueu um peso. Ela firmou o olhar nos seus músculos. Ele percebeu. Ela baixou a cabeça envergonhada, se bem que era mais charme. Fazia parte do seu jogo de sedução parecer tímida. Funcionava. Pelo menos sempre funcionou. Ela deixou cair a garrafinha d’agua, que rolou para o lado da esteira. Ele pegou o objeto. Aproximou-se. Entregou pra ela. Sorriu. Ela tirou uma mecha do rosto. Estava muito suada. Ele continuou a observado. Seria ele mudo? Ela decidiu fazer o teste. Agradeceu. Ele era mais lindo assim de perto. Quis agarrá-lo quando viu aquela fileira de dentes brancos. Voltou a invocar a autoridade divina.

- Você é nova aqui?

- Não, mas acho que malhamos em horários diferentes.

- É verdade.Olhou para a mão esquerda. Não era casado. Ficaram calados.

- Você é atleta?

Tudo bem. Foi uma pergunta estúpida, mas foi a primeira coisa que lhe veio a cabeça naquela hora. Ela tinha que arriscar.

- Não. Sou administrador. Vou entender isso como um elogio.

Ela sorriu sem graça.

- Você tem jeito de que trabalha na área de comunicação.

- Hum.

- Jornalista! Acertei?

- Sim. Tenho jeito?

- Está na cara.

- Vou me camuflar melhor da próxima vez.

- Não é pra tanto. É até um charme em você.

- Obrigada.

Nova exclamação a autoridade divina.

- Você é casado? - Disparou certeira.

Ele sorriu.- Não, não. Por quê?

- Não vi aliança. Se bem que hoje muitos homens casados não andam de aliança. Não dá pra dizer se é ou não.

- Vocês mulheres também andam muito liberais. Modernas.

- Certo.

Pausa.

- Tenho namorada.

Balde de água fria. Era bom demais para ser verdade, um homem maravilhoso daquele dando bobeira na academia. Que falta de sorte.

- Hum.

- Ela está aqui.

Ela respondeu mentalmente ‘Não quero ver’. Imaginou uma daquelas mulheres gostosas, saradas, daquelas de arrasar quarteirão.

Uma mulher se aproximou caminhando na direção dos dois. Ela sorriu. Preparava para cumprimentá-la. Não sabia que ela estava ali. Ficou feliz ao vê-la. Muito feliz. Antes que dissesse algo foi interrompida.

- Essa é minha namorada!

- Mãe!?



Obs: Imagem enviada pela autora.

MIRAGEM

CauReb
(
caureb@gmail.com)



Um navio que nunca voltará...
Que talvez nunca tenha existido...
Apenas uma miragem real.

A maré leva toda a dor,
mas as ondas teimam em trazer de volta à praia...

Detestáveis ondas
Que tanto amei um dia...

...que tanto amei um dia...


Obs: Imagem enviada pela autora.

CANSAÇO

Amanda Barros (*)
mandok_pucca@hotmail.com



- Já não agüento mais
sofrer tanto, chorar tanto.

- São tantas coisas
que me afligem, me machucam,
me exaustam.

- Se eu erro, uma, duas, três vezes,
sou punida severamente, se mereço?
Talvez, mas é difícil demais pra mim.

- E quanta pressão, pra tanta coisa.

- E quantas mágoas, quantas lágrimas.

- Que tristeza, que amargura, que fraqueza.

- Me vejo perdida, afundando cada vez mais,
e me sinto a mais perversa pecadora do mundo!

- O que me mantêm viva ainda é a fé, o Deus,
a esperança, que ainda me restam.

- Mas estou muito fraca, não me sinto mais
preparada pra nada, a vida pra mim tá cinzenta,
escura, apagada!

- É uma sensação muito ruim, e que
não gostaria mais de sentir!

- Espero poder renovar minhas forças,
me renovar, renovando assim, a minha vida!!

- Mas, como se diz: Tudo é passageiro.
Passei contigo, peço-te desculpas por
minhas falhas e te perdôo pelas suas...

*Desejo-te ainda toda a felicidade
desse mundo, que consigas realizar
todos os teus sonhos... quanto a mim,
bom, quanto a mim, não sei,
sou imprevisível demais,
mas acho e espero que ficarei bem.
- E até NUNCA MAIS.

- Desculpa se te amo hoje!
- Desculpa se não te amar mais amanhã!!

Desculpa se já é tarde demais...


(*) Aluna da 7ª série

terça-feira, 21 de julho de 2009

SENADO FEDERAL:


'Casa de Rui Barbosa', 'Casa de Prostituição', 'Casa de Corrupção', 'Casa de Renan Calheiros', ‘Casa de José Sarney’ ou ‘Casa de Lula’?
Uziel Santana



O título deste artigo e grande parte do seu corpo frasal é a recomposição do que escrevemos nesta coluna semanal há cerca de dois anos, quando do escândalo “Renan Calheiros”, no Senado Federal. Infelizmente, de lá para cá, nada mudou, só piorou. E não tinha como ser diferente, porque um dos princípios básicos da existência humana é “tudo o que não é curado volta e volta mais forte ainda”. Foi o que aconteceu. Todo o mal imerso no lamaçal das diretorias, dos gabinetes e do plenário do Senado veio à tona. O cheiro exalou de modo avassalador. E a pergunta retórica que nos fazemos é: “será que, agora, finalmente, alguma coisa mudará?” Desoladora é a resposta: “Penso que mínimas coisas mudarão”.

Não é por outra razão que um dos grandes empreendedores deste tipo de vida e política senatorial, o Chefe do nosso Poder Executivo Federal, Luis Inácio Lula da Silva, assim se pronunciou, esta semana, a respeito da Casa Senatorial e dos seus componentes: "Quero fazer Justiça ao senador Collor e ao senador Renan, que têm dado sustentação ao governo em seu trabalho no Senado" (em palanque em Palmeira dos Índios, Alagoas, em 15/07); “Todos eles [senadores] são bons pizzaoilos” e “O Senado só tem gente experiente. Você acha que tem algum bobo no Senado? O bobo é quem não foi eleito. Os espertos estão todos eleitos” (em resposta a questionamentos feitos a ele a respeito da CPI da Petrobrás). É crível vislumbrarmos alguma mudança? Penso que não. O problema não é de política é de moral individual mesmo. Seja como for, sob o fulcro desses últimos acontecimentos, reflitamos a respeito do que foi, do que é e do que pode vir a se tornar o Senado Federal: 'Casa de Rui Barbosa', 'Casa de Prostituição', 'Casa de Corrupção', 'Casa de Renan Calheiros', ‘Casa de José Sarney’ ou ‘Casa de Lula’? Vejamos, pois.

O Senado da nossa República Federativa do Brasil é a mais alta câmara do Congresso Nacional. Foi constituído e instalado, na nossa nação, desde a Constituição do Império de 1824. Inicialmente, o modelo que inspirou a formação e atribuição de funções do nosso Senado foi a Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha, até mesmo porque nós vivíamos, neste momento, ainda, sob a égide do regime monárquico. Mas com o golpe da forma de governo – que a historiografia tradicional insiste em chamar de “Proclamação da República” – de 1891, a nossa casa senatorial passou a ter o mesmo modelo institucional que tem o Senado dos Estados Unidos da América. Isto é, passou a ser o órgão do Poder Legislativo Federal que representa, em tese, os interesses dos Estados-membros componentes desta Federação. De modo que esta se constitui na função precípua do Senado Federal. Este modelo se evidencia pelo fato de que os 27 estados-membros do nosso Brasil elegem, diretamente, através do povo, os seus 3 representantes, num sistema eleitoral em que os senadores são eleitos para um mandato de 8 anos, renovando-se a representação de 4 em 4 anos, alternadamente, por um e dois terços.

Sob o prisma da historiografia da humanidade, na verdade, o Senado remonta a sua origem nas assembléias do Conselho de Anciãos do antigo Império Romano. O Senatus Romano era composto, eminentemente, por cidadãos romanos idosos, das famílias patrícias. Ser idoso – ancião – era um requisito essencial, pois denotava a experiência necessária para servir ao populus romanus. Daí que o termo Senador, vem do latim Senex, que significa velho ou idoso. Seja durante o período da realeza romana, seja nos períodos da república ou do império romano, o Senatus cumpria uma missão essencial na constituição e desenvolvimento do poder político e militar dos Romanos.

No Brasil, sob inspiração semelhante, a nossa casa senatorial – formada pelos “augustos e digníssimos senhores representantes da Nação”, conforme preceituava a constituição de 1824 – já foi constituída por homens de reputação ilibada, vida pública irrepreensível e notável saber jurídico. Exemplo maior disso é que, no período da República Velha (1889-1930), dentre tantos importantes nomes da nossa história política e que honraram a cadeira do Senado Federal, podemos destacar, representando todos esses, o mais importante político e jurista da nossa história: o baiano Ruy Barbosa de Oliveira. Não é sem razão que há unanimidade em se admitir que Rui Barbosa, indubitavelmente, dignificou a história do Senado Federal do Brasil. Tanto é assim que tal alta Casa Legislativa ainda hoje é conhecida como a Casa de Rui Barbosa, tamanha a sua influência política, jurídica e de escritor para a formatação dos ideais senatoriais da nossa nação.

Mas este mesmo Ruy Barbosa que, inicialmente, juntou-se ao movimento de proclamação da República, alguns poucos anos mais tarde, percebendo o erro histórico que havia cometido, brindou-nos com a célebre e conhecida frase: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto". O que poucos sabem é o que ele disse em complementação a esta frase: “Essa foi a obra da República nos últimos anos. No outro regime, o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam e que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade”. Arrependeu-se, pois, Rui, da sua criação política. A partir de tal constatação fico a pensar o que nos diria Rui, ainda mais, a respeito da República e do seu Senado, hoje.

O fato é que, se Rui Barbosa vivesse no contexto atual, penso que atestaria, pragmaticamente, que esta frase dita por ele, no início do século XX, nada mais foi do que uma profecia cumprida nos dias atuais. Penso, ainda mais, que Rui Barbosa, despertando no contexto em que vivemos, olharia para tudo que está acontecendo neste momento e nos perguntaria “O que é esta casa que vocês chamam de Senado Federal? Este órgão que vocês chamam de Senado Federal, hoje, representa o quê na verdade? O que significa ser Senador da República Federativa do Brasil? O que esses homens e mulheres que aí estão pensam e querem?”. Pior para nós seria ter que responder às suas indagações.

Seja como for, se Rui Barbosa me fizesse estas indagações, para a primeira pergunta eu não hesitaria em dizer que esta casa que chamamos de Senado Federal, parece não ser mais uma corte de “augustos e digníssimos senhores representantes da Nação”, muito menos a Casa de Rui Barbosa. Ao contrário, olhando para o caso da CPMF (das suas espúrias e imorais negociatas), para o caso da absolvição do seu ex-presidente, Renan Calheiros, e para os vários escândalos desta era José Sarney eu não hesitaria dizer que o Senado Federal se tornou uma alta “Casa de Prostituição”. E se ele – Rui Barbosa – continuasse e me perguntasse o que o Senado representa hoje, eu teria que dizer que, infelizmente, esta casa parece representar o que de mais odioso e terrível existe na brasilidade e nas instituições nacionais, sobretudo nesta era Lula: a “Casa da Corrupção”. E se ele insistisse e me perguntasse, ainda mais, o que significaria ser Senador da República Federativa do Brasil no contexto atual, eu teria que dizer que, pelo que temos visto, ouvido e vivido, ser Senador, hoje, parece significar ser o mais alto agente promotor da prostituição e da corrupção política brasileira. De modo tal que o ideário de um Senador hoje – olhando para o caso de dois anos atrás, o do Renan Calheiros, e agora os envolvendo os “Sarneys” – é: “estou no poder pelo poder e para aqui me manter eu faço qualquer negócio, porque para mim não existe distinção entre esfera pública e esfera privada; em tudo eu mando e faço como quero”.

E se Rui, por último, perguntasse-me o que esses homens e mulheres que aí estão pensam e querem, eu diria: tudo o que eles querem é a satisfação dos seus próprios interesses e a vitaliciedade no poder. E completaria: “Rui, o Senado que você ajudou a formar, dignificou e honrou e, por isso, foi mais tarde chamado de Casa de Rui Barbosa, hoje, nada mais é do que um espaço político-institucional, onde as pessoas vendem o corpo, a alma e o espírito para quem quer que seja. Hoje, Rui, o Senado Federal tem o designativo que bem merece: a 'Casa dos ‘Pizzaoilos’ do Governo Lula'”. Que lástima! Que tristeza! Até quando será assim?


Uziel Santana (Professor da UFS e Advogado)
http://www.uzielsantana.pro.br

SUCESSÃO EPISCOPAL

D.Edvaldo Amaral
(
dedvaldo@salesianosrec.org.br)





Jubilosa e profundamente eclesial a Mensagem com que Dom José Cardoso comunicou à Igreja, que está em Olinda-Recife, a nomeação feita pelo Santo Padre de seu sucessor, Dom Antônio Fernando Saburido, beneditino, que fora seu Vigário Geral e por cinco anos, seu Bispo Auxiliar.

Na introdução, ele usou a fórmula, com que de costume se anuncia à Igreja a eleição do novo Papa: “Eu vos anuncio uma grande alegria!”: Essas palavras lembram a mensagem dos Anjos aos pastores de Belém: “Evangelizo vobis gaudium magnum” (Lc 2, 10). Entre outras coisas, disse o Sr. Arcebispo, quase resumindo a vida de seu sucessor: “Permanece bem viva em nossa memória a recordação de todos os dons concedidos por Deus ao nosso Irmão Dom Fernando.[...] Consagrou-se totalmente a Deus no mosteiro beneditino de Olinda. Aqui ele exerceu as primícias de seu ministério episcopal como bispo auxiliar. Recordamos ainda a alegria e entusiasmo com que, no ano 2000, Dom Fernando foi aplaudido ao ser constituído Bispo Auxiliar desta Arquidiocese. Mais intensa e vibrante deve ser agora a exultação do povo de Deus ao acolhê-lo como Arcebispo”..

De sua parte, Dom Antônio Fernando ao dirigir ao Arcebispo Dom José Cardoso e arquidiocesanos a Carta Aberta de saudação assim se expressou: “Recebi com emoção a comunicação de que o Santo Padre me nomeou Arcebispo de Olinda e Recife. O primeiro sentimento a me invadir o coração foi de temor e de indignidade. Logo me veio à mente o elenco dos ilustres arcebispos que tive oportunidade de conhecer à frente desta minha Igreja de origem [...] e V. Excia, pessoa que estimo e admiro. Através de V. Excia, gostaria de transmitir a todo o povo da arquidiocese que, humildemente, aceitei o chamado da Igreja em espírito de fé e obediência. O meu lema episcopal “Secundum Verbum Tuum” (Segundo a tua Palavra) me motiva a imitar a Serva do Senhor que corajosamente respondeu SIM ao chamado de Deus, apesar da sua “pequenez”. Conto muito com o apoio e colaboração de todos, para juntos darmos prosseguimento à missão e reforçarmos a construção de uma Igreja ministerial, de comunhão e participação, a serviço do Reino de Deus, especialmente, voltada para os interesses dos mais pobres e necessitados.”

E concluiu: “Uno-me .às vozes de todos(as) e aqueles(as) que agradecem pelo frutuoso trabalho realizado por V. Excia nesses quase 25 anos, à frente dessa Igreja Particular.”

É assim e assim deve ser, a forma com que na Igreja de Jesus, se sucedem os bispos no governo pastoral das Igrejas Particulares, continuando a sucessão apostólica, que vem dos Doze, escolhidos por Jesus para a sua Igreja. Mas alguém poderia perguntar: E Dom Antonio Fernando vai ser igual a Dom José Cardoso, ou a Dom Hélder, ou a Dom Carlos Coelho, ou a Dom Antônio de Almeida Morais, ou a Dom Miguel Valverde? Meus Amigos, eu respondo facilmente a essa indagação:: Ele não vai ser igual a nenhum desses que o precederam nas últimas décadas no sólio de Olinda. Não! E já digo a quem é que ele vai ser igual: Será igual a Dom Antonio Fernando Saburido! Sim, porque cada bispo tem sua própria personalidade, seu próprio modo de dirigir o Povo de Deus, sua maneira peculiar de fazer pastoral no serviço aos irmãos.

O que a Igreja de Olinda-Recife tem que fazer é receber seu novo Arcebispo na fé e na obediência ao Sucessor de Pedro, Cabeça visível da Igreja. Recebê-lo como seu pastor, seu mestre e seu pai na fé.


(*) É arcebispo emérito de Maceió.

CONTO-LHES UM SEGREDO

Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br



Falam muitas coisas.
Cada um tem sua visão
e claro,
tirada da experiência
própria da pessoa.
Mas se de repente,
sem mais nem menos,
um olhar duro,
boca de inquisição
e despejarem tudo..
" A Revelação!".

Existem duas saídas..
Se preparar para ficar louca
ou calmamente, sem receio,
continuarem suas vidas.

Conto-lhes um segredo..
Tenho um compartimento
onde guardo cada opinião,
cada fato que gerou
tal "pronunciamento",
pois na verdade é um relato,
um "como sou" sem fingimentos,
pois pensam falar do outro.

Deixo bem claro!
Não guardo
para agir contra elas,
pois seria regressão.
Mas para ajudar,
para dar-lhes a mão
ao abrirem uma janela.

Quanto ao mais,
com ou sem direção,
vou indo,
sempre em busca da Paz.
E quem quiser
que siga comigo..


Obs: Imagem da autora.

INDECISÃO






Durante muito tempo relutei em voltar. Para mim me bastava fechar os olhos e assim abrir uma porta para dentro de outro mundo. De repente, tudo estava lá, real, vivo à minha frente. Deslizava pelas paredes alcançando a porta e, feito quadros pendurados nas salas e nos corredores as cenas se desenrolavam. Isto, sempre, durante todos aqueles anos decorridos num átimo de tempo e que agora parecia-me uma eternidade. Minha vida era o assunto de uma longa história cheia de lutas, derrotas e desistências. É verdade que algumas vezes pensei em parar de lutar, aguardar que as coisas se fizessem que tudo acontecesse por milagre. Valeria a pena esperar? A única coisa que tenho de real, de verdadeiro é o sonho. Desde que comecei a aprender o mundo, entendi que o homem sem sonhos não é nada. Meus pensamentos destacavam-se um a um em detalhes, sem explicações, um mundo que me parecia obscuro onde eu me reconhecia quase intolerável. Davam-me notícias de um ontem que tenho vontade de esquecer, apagar da minha história jogar num escuro qualquer desses que guardo comigo. E se ficasse no meio do caminho? Como saber a hora certa?



Obs: Imagem enviada pela autora.

A ATUALIDADE DA PALAVRA

Marcelo Barros(*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)




A Bíblia continua a ser o livro mais traduzido e editado no mundo. Ao mesmo tempo, ganha uma infinidade de interpretações que dão origem a centenas de movimentos e Igrejas. Cada texto é passível de múltiplas interpretações, de acordo com o contexto e lugar social a partir do qual é lido. Deus se revela em palavras humanas e culturais e não através de uma doutrina dogmática. Sua revelação ao mundo se dá na natureza e na história. Sendo na história que evolui, tem uma meta. Na Bíblia, encontramos costumes antigos com os quais não concordamos, como guerras sagradas, escravidão de seres humanos, um sistema patriarcal e opressor da mulher, pena de morte e vários outros elementos que faziam parte das culturas antigas. A revelação divina mostrou que estes elementos devem ser superados. Uma vez, o próprio Jesus comentou um destes costumes ao dizer: “Foi por causa da dureza do vosso coração que naquela época era assim, mas este não era o projeto divino original” (Cf. Mt 19, 8). A revelação se dá à medida não que estes costumes viram dogmas, mas que a evolução da história ajuda em sua superação e crítica. Seja como for, através dessa inserção na história e na cultura de um povo, o Espírito vai conduzindo os acontecimentos para um projeto divino de amor e justiça. Para se ler e compreender bem a Bíblia, um bom método é ir descobrindo e seguindo este fio condutor da história que avança para um ponto culminante: a interiorização do Espírito Divino nos seres humanos e no universo, assim como a conseqüente transformação do mundo.

Nesta semana, em toda a América Latina, muitas comunidades lembram que no dia 20 de julho de 1979, há exatamente 30 anos, o frei Carlos Mesters e um grupo de amigos criaram, em Angra dos Reis, RJ, o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), entidade ecumênica e de cunho pastoral, cujo objetivo é devolver ao povo mais pobre a capacidade de ler e compreender a Bíblia, assim como a possibilidade de ligá-la à vida concreta e à caminhada da libertação dos camponeses, dos índios e do povo das periferias urbanas.

Quem conhece de dentro, nas últimas décadas, a história das comunidades eclesiais de base e das pastorais na América Latina sabe a importância que teve a forma de ler a Bíblia desenvolvida pelo CEBI para a caminhada de inserção das Igrejas cristãs no meio dos movimentos populares e no processo social e político, hoje, em curso no continente. Há até quem se pergunte se a evolução política de vários países latino-americanos teria ocorrido, do modo como está se dando, sem a participação ativa das comunidades e do seu modo de ler a Bíblia. O CEBI deu origem ou ao menos inspirou diversos centros e institutos de estudo popular da Bíblia em vários dos nossos países.

Esta leitura da Bíblia que parte da fé e se liga à vida e às lutas do povo é o fruto mais maduro e comum de uma espiritualidade e teologia da libertação. Nunca foi majoritária ou hegemônica em nossas Igrejas, menos ainda nestes tempos de marketing religioso e de todos os tipos de shows missa e cultos eletrônicos, tanto católicos, como evangélicos. Certamente, o melhor fruto do Centro Bíblico (CEBI) no Brasil é o fato de que, apesar de muitas dificuldades e de não poderem contar com o mesmo apoio espiritual e humano que, há vinte anos, ainda recebiam por parte de muitos bispos e pastores, as comunidades eclesiais de base continuam espalhadas em todo o país e perseveram em sua caminhada espiritual.

Nesta semana, em Porto Velho, RO, se reunirão 3500 ou 4000 pessoas, entre cristãos de base, lavradores, pessoas de periferia urbana, negros e índios, além de teólogos e teólogas, assessores das comunidades, bispos católicos, pastores evangélicos, padres, religiosas e convidados internacionais. É o 12º encontro intereclesial de CEBs; um encontro nacional das comunidades eclesiais de base, que, desde 1975, se reúne mais ou menos de quatro em quatro anos e, pela primeira vez, acontece na Amazônia. O tema geral desta vez, como não poderia deixar de ser, é “Ecologia e Missão”. O lema que se desenvolve em vários outros itens é “Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia”. Neste momento de medidas provisórias que entregam a grileiros a possibilidade de ficarem com mais terras e de assegurarem o desmatamento já tão violento, é importante este movimento sobre a defesa da Amazônia e de seu bioma.

O encontro segue o itinerário metodológico do “ver, julgar e agir” e tem como objetivo, não tanto redigir documentos ou realizar ações novas em nível nacional, mas animar e apoiar a caminhada das comunidades de base e de muitas pessoas que, em todo o Brasil, olham com esperança para este encontro.

Os grupos de base ficam felizes em saber que não estão sozinhos e que, apesar de não pretenderem ser uma massa, ou terem a força de marketing de alguns grupos religiosos de hoje, de qualquer forma, recebem uma força afetuosa e espiritual uns dos outros e continuam o caminho da profecia. Viver esta proposta é algo acessível a todos, mas em um mundo como o nosso, não é escolha de multidões. Sem se fechar em pequenas seitas, as “minorias abraâmicas”, como chamava Dom Hélder Câmara, são sinais e instrumentos de um novo mundo possível.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

A MISSÃO

D. Demétrio Valentini (*)



Neste final de semana a Diocese de Jales vive um clima especial de missão, com a realização de mais uma “semana missionária”, desta vez na cidade de Santa Fé do Sul, nas proximidades do Rio Paraná, fronteira com o Estado do Mato Grosso do Sul.

Os efeitos positivos já podem ser comprovados, na alegre expectativa do povo de Santa Fé, que vai acolher missionários vindos de todas as comunidades, envolvendo a Diocese toda.

De novo se comprova como a missão desperta a Igreja, motiva sua ação, e acaba dando finalidade e sentido para a sua existência.

A Diocese de Jales promove, anualmente, estes momentos intensos de missão, para incentivar a diocese a permanecer em “estado permanente de missão”, como recomendou a Conferência de Aparecida.

Mas, por diversos motivos, a dimensão missionária da Igreja permanece em aberto, quanto aos seus objetivos, aos seus destinatários, ao seu conteúdo e ao seu método.

Em que deve consistir a missão da Igreja? Não é fácil encontrar uma resposta exaustiva a esta questão fundamental. O fato é que vem crescendo a consciência da importância decisiva da missão para a vida da Igreja.

Esta consciência progressiva pode ser identificada pela seqüência de fatos e documentos importantes da Igreja em nosso tempo. O Concílio evidenciou a importância da renovação da Igreja. O Sínodo de 1974 ressaltou a evangelização como incumbência prioritária da Igreja. E finalmente em 1991 a encíclica “Redemptoris Missio” apontou a missão como razão de ser da própria Igreja. Agora, Aparecida apresenta uma sínese operativa da vida cristã, em forma de discípulos e missionários de Jesus Cristo.

Falta definir melhor em que deve consistir a missão da Igreja.
No final da Conferência, os bispos da América Latina e do Caribe decidiram empreender uma “missão continental”. Ainda no contexto de Aparecida, pressentindo o desafio de concretizar esta proposta, se dedicou a última tarde de trabalhos para colher sugestões sobre a “missão continental”.

Pode-se dizer que toda a Igreja da América Latina ainda está às voltas, para identificar em que deve, mesmo, consistir esta missão continental.

Algumas constatações já emergiram com evidência, começando pela recomendação de que a missão deve começar dentro de cada país, de cada Conferência Episcopal e de cada Igreja Particular.

Mas existe uma constatação importante a fazer. Está claro que a dimensão missionária faz parte do tema central da Conferência de Aparecida. Mas é preciso entender bem o que nos diz o sub-tema, destinado a precisar e a enfocar melhor o tema.

Pois bem, é no sub-tema – “Para que em Cristo nossos povos tenham vida”, que fica explicitada com mais clareza a dimensão missionária da Igreja. Faz parte da missão da Igreja colocar-se a serviço da vida dos povos.

Em outras palavras, a presença da Igreja na sociedade é parte integral de sua missão. A Igreja precisa das pastorais sociais para dar consistência à sua missão. E as pastorais sociais precisam da inspiração do Evangelho para terem motivação de realizar o seu serviço, que assim amplia o seu horizonte e o seu alcance, pela estreita associação com o serviço de Cristo, que sempre se mostrou impregnado de solicitude pela vida do povo.

Assim fica mais viável, e mais realista, o “estado permanente de missão”, sugerido por Aparecida. Ir ao encontro dos problemas que preocupam o povo, também é fazer missão. Com esta inspiração, ganha motivação a semana missionária que a Diocese está realizando, destinada a fortalecer a atitude missionária que Cristo nos ensina com seu exemplo.


(*) (
www.diocesedejales.org.br)

A VOLTA DE DEUS

Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.




Não chega a ser uma novidade o fato de estarmos assistindo, já há algum tempo, a certo "reencantamento do mundo", isto é, a uma inversão do processo de secularização deslanchado com a modernidade e sua crise. Essa tendência começou a visibilizar-se com a nova consciência religiosa trazida pela Nova Era, o esoterismo, o culto das pirâmides de cristal, o I-Ching, o tarô, o retorno dos anjos e duendes. A razão banida permanecia oculta pelo deslumbramento com um além povoado de deuses maiores e menores, porém fluidos e sem consistência. E o resgate da transcendência sem absolutos expressou-se até mesmo, mais recentemente, em livros de grande tiragem que falavam sobre meninos bruxos e anéis mágicos.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 trouxeram novos e terríveis exemplos para completarem esse panorama. O fanatismo fundamentalista em todos os campos, e não somente no islâmico, semeou o estupor e o medo, mas também trouxe uma mudança de perspectiva para enxergar o mundo. No entanto, ao mesmo tempo em que crescia a aversão da opinião pública ocidental pelo fundamentalismo, assistia-se ao aumento de receptividade para com a atitude religiosa como tal. Não se pode mais dizer que Deus não é um tema atual.

A ideia da incompatibilidade de princípio da secularização com a religião entra decididamente em declínio. E os sintomas do que poderíamos chamar de uma volta de Deus aparecem como sinais visíveis de novos tempos. “Aquilo que muitos acreditavam que destruiria a religião – a tecnologia, a ciência, a democracia, a razão e os mercados –, tudo isso está se combinando para fazê-la ficar mais forte”, escreveram John Micklethwait e Adrian Wooldridge, ambos jornalistas da revista britânica The Economist, no livro “God is back”. Para muitos e bem concretamente para os jovens, como diz o título do livro, Deus está de volta.

A recente reportagem de revista de grande circulação analisa a relação da juventude de hoje com a religião. E a conclusão não deixa de ser surpreendente: os jovens são religiosos. Não como seus pais ou avós, mas de outra maneira, própria, fazendo uma nova síntese entre a experiência da fé e sua expressão. E a internet é um dos recursos que mais intervêm na sede de transcendência do jovem que vai para diante do computador buscar interlocução para seus anseios espirituais.

A modernidade, com efeito, significa uma humanização do divino, a ascensão irreversível da secularidade. Foi um extraordinário progresso para o espírito humano, porque permitiu ao homem, enfim, pensar por si mesmo. Mas a modernidade também comporta um movimento oposto, que eleva e diviniza o humano. A humanização do divino implica o fim das transcendências "verticais", autoritárias, situadas fora e acima do sujeito. Nesse sentido, a modernidade é o reino da imanência.

No entanto, hoje se percebe ser possível, também, nas entranhas da imanência - da razão, do conhecimento e da ciência - pensar algo que a transborda, que a extravasa e a faz autotranscender-se. A força motriz dessa nova transcendência é o amor, que leva os seres humanos a ultrapassar sua interioridade solitária para alcançar o Outro e com ele entrar em relação.

Tal experiência e tal atitude não significam o banimento da razão; ao contrário, dão à ciência estatuto pleno de cidadania quando se trata de pensar esse Deus que volta a ser elemento constitutivo do conhecimento e do pensar humanos. A constatação da volta de Deus traduz, por outro lado, a certeza de que nenhuma sociedade pode sobreviver sem a religião, já que a maioria dos homens considera insatisfatórias as respostas dadas pela ciência às perguntas existenciais sobre a vida e a morte.

Como impulso utópico e como consciência vigilante dos limites, a fé e sua expressão religiosa têm hoje um lugar assegurado na sociedade do conhecimento e na comunidade científica. Deus está de volta e muito concretamente ali onde menos se esperava que estivesse: entre as novas gerações, filhas da ciência e da técnica. É preciso abrir os ouvidos para entender como esses novos crentes percebem o sujeito maior de sua crença.


Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)

CAMINHOS

Malu Nogueira



Corri para o sol,
Subi pelos raios que ele deixou.
Como riscado do caminho,
Esquadrinhei o céu.
Corri nas nuvens cinzas,
Pinceladas de vermelho,
No branco vem o tom alaranjado.
Corri e senti o sol
Correndo de mim.
Lentamente se escondendo,
Se abaixando,
Deixando no céu
Uma explosão de cores,
Que se unem e vem
A mais forte,
No cinza vermelho
Surge um tom acobreado.
No tom alaranjado vislumbro
Riscos nas nuvens
Que queimam o azul celeste
E nessa carreira
O sol correu rápido
E se pôs sobre a plaga terrestre
Borrada de tonos que se misturam
E se acariciam em nuanças
Que o entardecer encobre
E a mata fecha.
E a passarinhada se cala
A noite desce
Para o beija-flor que se recolhe.
Eu não me arisco a correr
Sem ver o sol à minha frente.



(mldan, 13/04/2009)

DIFÍCIL ARTE DE SER MULHER

Frei Betto


Hours concours em Cannes, um dos filmes de maior sucesso no badalado festival francês foi “Ágora”, direção de Alejandro Amenabar. A estrela é a inglesa Rachel Weiz, premiada com o Oscar 2006 de melhor atriz coadjuvante em “O jardineiro fiel”, dirigido por Fernando Meirelles.


Em “Ágora” ela interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a se destacar como cientista. Astrônoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu, desenvolveu um mapa de corpos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrômetro.

Neoplatônica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cristãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquistar a hegemonia cultural.

Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma.

O filme de Amenabar é pertinente nesse momento em que o fanatismo religioso se revigora mundo afora. Contudo, toca também outro tema mais profundo: a opressão contra a mulher. Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a convencer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação feminina.

Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. Sua autoestima é deslocada para o sentir-se desejada; seu corpo é violentamente modelado segundo padrões consumistas de beleza; seus atributos físicos se tornam onipresentes.

Onde há oferta de produtos – TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o merchandising embutido em telenovelas – o que se vê é uma profusão de seios, nádegas, lábios, coxas etc. É o açougue virtual. Hipácia é castrada em sua inteligência, em seus talentos e valores subjetivos, e agora dilacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição.

Segundo a ironia da Ciranda da bailarina, de Edu Lobo e Chico Buarque, “Procurando bem / todo mundo tem pereba / marca de bexiga ou vacina / e tem piriri, tem lombriga, tem ameba / só a bailarina que não tem”. Se tiver, será execrada pelos padrões machistas por ser gorda, velha, sem atributos físicos que a tornem desejável.

Se abre a boca, deve falar de emoções, nunca de valores; de fantasias, e não de realidade; da vida privada e não da pública (política). E aceitar ser lisonjeiramente reduzida à irracionalidade analógica: “gata”, “vaca”, “avião”, “melancia” etc.
Para evitar ser execrada, agora Hipácia deve controlar o peso à custa de enormes sacrifícios (quem dera destinasse aos famintos o que deixa de ingerir...), mudar o vestuário o mais frequentemente possível, submeter-se à cirurgia plástica por mera questão de vaidade (e pensar que este ramo da medicina foi criado para corrigir anomalias físicas e não para dedicar-se a caprichos estéticos).

Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada. Mas o amor é um valor anticapitalista. Supõe solidariedade e não competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não possessão. E o machismo impregnado nessa cultura voltada ao consumismo teme a alteridade feminina. Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo).

Na guerra dos sexos, historicamente é o homem quem dita o lugar da mulher. Ele tem a posse dos bens (patrimônio); a ela cabe o cuidado da casa (matrimônio). E, é claro, ela é incluída entre os bens... Vide o tradicional costume de, no casamento, incluir o sobrenome do marido ao nome da mulher.

No Brasil colonial, dizia-se que à mulher do senhor de escravos era permitido sair de casa apenas três vezes: para ser batizada, casada e enterrada... Ainda hoje, a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não querem compartir, e sim dominar. Eles são repletos de vontades e parcos de inteligência, ainda que cultos.

Se o atrativo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média atual de durabilidade conjugal no Brasil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que carecem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade?

Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjetividade.


Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

Copyright 2009 – FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)