domingo, 29 de maio de 2011

DOIS SILÊNCIOS

Aldo CB


De ti, guardo dois silêncios em minha pele. Um vem de teu corpo e reverbera em mim, doma meus sentidos e me faz conjugar verbos em teu ventre. Outro sai de teus gestos e se sacrifica em mim, acalma meus desejos e me torna trilha de teus carinhos. Quando os dois se juntam, resta-me o mergulho em teu olhar, olhos de mar e céu.

SONHOS QUE VOLTAM !


Bernadete Bruto


Comprei, “por acaso”, esse disco no final de uma viagem em julho de 2009,Os Soños que volven!

O CD é uma obra de arte da Susana Seivane, gaiteira da Galicia, no qual apresenta as mais conhecidas canções tradicionais de seu país tocadas por gaiteiros.

Nele vem a letra e história das canções , bem como as fotos da sua infância, que mostra que desde cedo recebeu esse oficio do seu grupo familiar.

As músicas deste CD fizeram parte de momentos especiais e me ajudaram a embelezar alguns recitais para transmitir todos os sentimentos que a poeta queria deixar ao público naquele momento, desde o choro sentido e busca persistente de um coração pelo mundo, expressa pela música “Para Miladoiro”,a alegria pura, divertida e espontânea do“fox–trot”, até a música mais especial de todas denominada:“Pasadoble de San Roque” cujo arranjo nos reporta para um encerramento de história com final feliz e em alguns momentos me fez sentir uma similaridade com nosso frevo e toda alegria do carnaval.

Hoje compartilho esse presente que recebi do divino e recomendo a quem se interessar ser contagiado pelo som das gaitas, desejando que elas tragam a mesma luz, alegria e força por seus caminhos, assim como foram comigo e ainda são para mim.


Obs: Imagens enviadas pela autora:
FOTO 1– CAPA CD SUSANA SEIVANE- PASODOBLE DE SAN ROQUE

FOTO2 – CARTAZ DE DIVULGAÇÃO PRELIMINAR DO PROXIMO LIVRO.

UM ARGUMENTO A FAVOR DA LISTA ABERTA


Betto Santos*


Já se tornaram comuns as críticas ao sistema de eleição proporcional, sobretudo nas eleições para deputado estadual e federal. E mais ainda quando ocorre fenômeno do candidato “puxador”. Foi o que aconteceu com Enéias e agora com o palhaço Tiririca, ambos no estado de São Paulo. Pelo fato do candidato ter uma votação expressiva, os votos que excedem o coeficiente eleitoral são distribuídos para os candidatos da coligação, de forma a fazer o máximo de candidatos terem o mínimo de coeficiente eleitoral.

Um absurdo à representação seria transformar a eleição para a câmara em majoritária, ou seja, entrando os candidatos por ordem de votação, até que se complete o número de cadeira. Os votos dados aos parlamentares mais bem votados seriam perdidos, ao passo que na ponta inferior, vários candidatos de partidos nanicos seriam eleitos com votação inexpressiva. Então, a alternativa mais citada ao sistema atual é a votação proporcional em lista fechada. Que nada mais é do que os partidos indicarem uma lista ordenada de candidatos. Onde o eleitor vota no partido, e, a depender do quantitativo de votos do partido, os candidatos (seguindo a ordem da lista) são eleitos.

O argumento é que nesse sistema o eleitor tem o partido como foco, e pode observar a lista de candidatos que ele vai ajudar a eleger. Mas esse sistema impõe ao eleitor um punhado de candidatos que ele pode não se identificar. Como fazer o eleitor ter essa consciência de partido? Abandonar o voto personalista, e fazê-lo identificar-se com o programa do partido? Se os defensores da lista fechada acham que isso é possível, por que não tentar tal feito com a lista aberta? O eleitor, ao votar, sabe que os dois primeiros números de seu candidato referem-se ao partido e que os outros dois (deputado federal) ou três (deputado estadual) dizem respeito ao candidato em si. A coligação em que o partido está é amplamente divulgada. Todo eleitor sabe quais candidatos majoritários são apoiados pelo seu deputado, e vice-versa. A única diferença substancial entre a lista aberta e a fechada é a ordem de entrada dos deputados. No atual modelo, essa lista é realizada com base no desempenho eleitoral de cada candidato. E não vejo nada mais democrático, no sentido eleitoral, do que isso. Os votos excedentes vão ajudar os candidatos da mesma coligação que estiverem melhor colocados.

Ou seja, o sistema não é falho, nesse sentido. Uma coisa que os defensores das duas formas de eleição proporcional concordam é que o reconhecimento do papel do partido por parte do eleitor é fundamental. Se na visão da lista fechada esse é o caminho chave, na visão de lista aberta também deve ser. Sendo assim, o nosso problema não é de regra eleitoral (nesse caso específico), mas sim de educação política. Temos, a meu ver, o melhor modelo de eleição proporcional, mas com uma deficiência de compreensão. Ou seja, o problema é mais de cultura política do que normativo.


...Pela Primeira Vez...


CauReb


Quando você acredita que já amou demais
Se convence que já sofreu o suficiente
E que viverá sem mais amor
O mundo dá uma volta e lhe apresenta
Àquela pessoa que vai mudar todos os seus conceitos.

Você conclui que esse sentimento é inédito
E isso lhe faz perceber que tudo aquilo que você achava ser amor,
na verdade não era...

Então você se dá conta que está amando
pela primeira vez em sua vida.
Se acha perdida em novos conflitos
E se sente uma jovem menina que não sabe o que fazer.

Mas tudo isso se perde no breve momento
em que, com apenas um olhar e um sorriso
você passa a ter a certeza que ele também
lhe ama pela primeira vez.


(11/04/2011)
 x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
"Se isso é amor, então eu posso dizer
que nunca amei, sendo assim, você
é o meu primeiro amor."
-R.S.-
x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
Obs: Imagem enviada pela autora.


DULCE – DOÇURA E FORÇA


Célia Cavalcanti
(cglcavalcanti@terra.com.br)


Dulce- Doçura e fortaleza!
Bemaventurada Dulce, porque acreditaste!
Bemaventurada Dulce dos pobres!
Escolheste a melhor parte!





“Se eu falasse todas as línguas da terra, mas não tivesse a Caridade, nada seria...”( I Coríntios, 13;1-8) É por isso que hoje, és enaltecida!

Celebramos a vitória do amor de Deus no coração de uma criatura tão frágil, que correspondeu ao amor, ao Seu chamado. Dulce preferiu os mais pobres, os mais sofridos, os mais carentes... Entrou pela porta estreita!

Incrível como num período onde a violência chega ao limite, onde a crueldade das guerras está presente em todos os cantos do planeta, nascem novos santos na Igreja como João Paulo II, Chiara Luce e agora Ir. Dulce. Esses são especiais... Mas e aqueles que conhecemos, que já foram para o "andar de cima", e que temos a certeza que são santos, como um D. Helder e muitos, muitos outros?... Cada um de nós pode citar com certeza absoluta no mínimo três pessoas santas que conheceram e com quem conviveram... Multiplique, e veja que o mundo ainda não está perdido... Os santos podem mudar muita coisa, e eu pecador, posso abraça-los, misturar-me a eles, deixar-me contaminar pela bondade que existe em cada um e vencer o mal.

Alegremo-nos com a nossa santa brasileira e nordestina, Dulce dos pobres!


Sua festa será sempre comemorada a cada dia 13 de agosto.


Beata Dulce dos pobres com o Beato João PauloII

MÃOS BENFAZEJAS

Cláudio do Patrocínio Pereira


Use suas mãos somente
Para o bem realizar
Prove ao irmão amar,
Faça sua mão clemente.

Mão que acaricia.
Aquela que abençoa.
A que o sino entoa,
Mão que faz cirurgia.

Mão que o filho conduz,
Para o caminho da vida
E até a mão sofrida,
Que na bancada produz.

Mão que socorre o doente
Mão que segura a mão,
Na alfabetização...
Também semeia a semente

A que rege a sinfonia
Mão que faz a construção
Na padaria em ação
Faz o pão de cada dia.


Recife, 10 de setembro de 2010.

A CHINA


D.DemétrioValentini *


Nestes dias Bento 16 pediu para rezar pela China. Estabeleceu a festa de Nossa Senhora Auxiliadora, 24 de maio, como dia de oração pela China.

Na política internacional, não se costuma rezar por ninguém. Ao contrário, o que se pratica entre os países é uma rígida concorrência, cada um tentando tirar vantagens dos outros. Aliás, a China vem se mostrando eficiente e ousada no uso desse expediente, aproveitando bem o fato de ter sido admitida, recentemente, entre os países que se comprometem a seguir as normas do comércio internacional.

O problema é a situação interna da China. Ela sabe tirar proveito de suas excepcionais vantagens comparativas, sobretudo pelo número impressionante de sua população. São mais de um bilhão e trezentos milhões de chineses. Com uma cultura milenar que valoriza o trabalho, podemos imaginar quantos estão à espera de um emprego nas novas indústrias que vão se instalando na China, para explorar sua mão de obra barata.

Além deste fato, a China soube integrar e colocar a serviço de sua economia duas dimensões que pareciam contraditórias: a rígida disciplina do regime político herdado do comunismo que ainda permanece, e a abertura econômica proporcionada pelo capitalismo, praticado na China sem respeitar as conquistas sociais obtidas pela classe trabalhadora nos países ocidentais.

A China mistura comunismo de estado com capitalismo de mercado, e tira proveito dos dois. Mantém um rígido controle das demandas sociais da população, e escancara as portas para a chegada de capitais estrangeiros, a quem oferece garantida de salários baixos e rígida disciplina social.

Assim fazendo, a China se torna em fator altamente desequilibrador do comércio internacional. Explorando sua abundante mão de obra, e coibindo avanços sociais, pode facilmente oferecer produtos com preços muito mais baixos do que os provenientes de países que precisam arcar com os custos das justas demandas já consolidadas dos direitos trabalhistas e das obrigações sociais das empresas.

Certamente, a oração que o Papa pediu não é para mudar este quadro preocupante da influência negativa da economia chinesa no mercado mundial. Pois aqui se poderia inverter a afirmação de Cristo para os apóstolos que não tinham conseguido expulsar o demônio teimoso de um pobre menino. “Esta raça de demônios só se expulsa com muita oração”. Com a China é o caso de dizer: esta exploração do trabalho humano só se combate com muita conscientização dos trabalhadores e com a justiça e solidariedade entre os povos.

Mas existem, sim, outras situações da China que nos convidam para a oração, que abre caminho para a aproximação amigável com este grande país, de rica tradição cultural e de enorme potencial humano.

A começar pela esperança que representam os quatro milhões de cristãos chineses, que experimentam de maneira muito peculiar as tensões políticas do regime chinês. Seu número parece inexpressivo. Mas é significativo. O governo chinês reconhece a Igreja Católica como uma das quatro expressões religiosas autorizadas no país. Isto não é nada desprezível, e abre caminho para esperanças que ainda permanecem.

De resto, a relação da China com a Igreja Católica remonta a cinco séculos. Depois de passar longos anos conhecendo a cultura chinesa, o Pe. Matteo Ricci, no século 16, se deu conta que a Igreja deveria assumir as características culturais do povo chinês. Infelizmente não foi compreendido.

Agora o governo chinês pretende ser ele a nomear os bispos. À primeira vista, parece uma evidente intervenção estatal em assuntos internos de uma religião. Mas, quem sabe, por linhas tortas, a história não esteja preparando o caminho para a concretização do sonho de Matteo Ricci. De tal modo que aconteça na China, e também nos outros países, o que o Papa Bento 16 em sua carta aos católicos chineses já recomendou: quando precisam de um bispo, vejam se entre o clero de sua diocese não encontram um padre que possa assumir esta missão. E se não encontram na sua diocese, que procurem nas dioceses vizinhas.

Que boa idéia! Quem diria que o governo comunista da China poderia ajudar a Igreja Católica a dar novos passos no caminho da inculturação do Evangelho, na China e no mundo todo!






CAMINHOS DE LUZ


Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


          Quero voltar sempre aos mesmos lugares, com as mesmas saudades, as mesmas lembranças e a teimosia de um sonho que não me deixa em paz. Quero voltar eu, não essa de agora, cheia de baús, de tapetes mágicos e amarguras recentes. Quero ir em busca da minha inocência, da minha alegria barulhenta, dos meus brinquedos enterrados na areia, das minhas bonecas de pano, afogadas nas águas da chuva, da sombra das mangueiras florindo, do cheiro de goiaba madura, dos caminhos de barro e terra que não me levavam a lugar nenhum. Não quero voltar esta de hoje que já não se reconhece nem consegue se ver nos espelhos da sala.
          As grandes alegrias se transformam em saudade.
          Quero estar sempre voltando. As certezas do presente me crucificam nas angústias do agora.
          Quero ver, quero mesmo ver, alguém ser feliz com o que é. A felicidade é o que foi, tudo aquilo que se transformou no era uma vez...
          O sorriso que deixou alegria, o beijo que despertou desejos, o abraço que se fez carne e habitou entre nós.
          Sombras de sol, passadas miúdas, sorrisos de menina, raios de luar no meio do quintal, ruas estreitas, caminhos escondidos entre sombras e árvores floridas. Sinos de Natal, a melancolia do ângelus, criança adormecida.
          Quero ver alguém ser feliz com o que tem. A gente é feliz com o que deseja ter. O sonho imaginado, desejado, tornado real é pesadelo. O bom do sonho é ser sonho e pronto.
          Para que tornar realidade o que nos faz feliz?
          Não me impeças de voltar nem toques meu coração com as mãos sujas do teu esquecimento.

DUAS ATITUDES GROTESCAS NA CÂMARA FEDERAL


Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


A degradação da ética chega ao baixo nível no Congresso Nacional Brasileiro. A humanidade brasileira sente vergonha da maioria dos políticos que hoje assumem cargo federal eleitos supostamente para servir ao bem comum.

Ontem, durante a votação do novo Código Florestal nacional, um dos deputados, mais sensível e indignado, anunciou em plenário, o assassinato do casal de trabalhadores rurais em Ipixuna do Pará. Um grupo de outros deputados bateu palmas de alegria pelo assassinato do trabalhador rural e sua esposa. Uma cena grotesca, perversa, dentro do plenário da Câmara Federal. Quem se pode imaginar que naquele momento, bateria palmas de alegria pelo assassinato de dois trabalhadores rurais?

Horas depois, outra cena grotesca no mesmo plenário da Câmara nacional. Foi aprovado o novo código Florestal brasileiro, que permitirá isentar de punição os criminosos que derrubaram matas e florestas, para aumentar seus lucros com o agronegócio. Livres estão os que desmataram até beira de rios e igarapés. Isto é, o novo Código Florestal proposto estranhamente por dito comunista deputado, garantirá a destruição de mais e mais florestas.

O mais escandaloso dessa decisão dos tais representantes do povo foi que, Dos 473 deputados votantes, 410 votaram a favor da destruição de florestas e apenas 63 deles votaram não à destruição. Já isso é um escândalo nacional e um crime legalizado, além de também grotesco, como explicar tal absurdo, quando a questão do equilíbrio climático depender em boa parte do cuidado com as florestas na Amazônia?

Outro absurdo para quem se preocupa com a Amazônia, a maioria dos deputados federais do Estrado do Pará votou a favor da destruição das florestas. Para a população em geral e eleitores em especial do Oeste do Pará, é bom que saibam quem da região votou pela destruição de florestas: Beto Faro, José Geraldo e Miriquinho Batista, do Partido dos Trabalhadores, PT; além destes, votaram pela destruição de florestas, o deputado Lira Maia do democratas de Santarém, DEM e o deputado Dudimar Paxiúba, do Partido Social Democrata Brasileiro, PSDB e originário de Itaituba.

A que ponto chegou a falta de dignidade dos representantes do povo sustentados com alto salário e outras modernidades, a custa dos impostos que todos pagam e agora apóiam a destruição de nossas florestas, que aumenta o calor e envenenam os rios, desequilibra o meio ambiente e prejudica os povos da Amazônia. Triste Brasil.


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.

LEGISLATIVAS e PROGRAMAS ELEITORAIS



por


J. A. Horta da Silva
horta.silva@sapo.pt




Nos tempos que vão correndo, pensamentos e promessas são qualquer coisa que nasce do diálogo do “eu” consigo próprio, uma espécie de negócio ilegal, que há muito deixou de se poder analisar à luz da dualidade maniqueísta do bem e do mal, mesmo quando o prometimento é feito a Deus. As promessas são suposições com pouca substância, pois o que conta não é o que se promete, mas o que se faz e o modo como se pratica. No caso dos políticos, estas asserções adquirem uma dimensão grande e complexa, tanto mais que o pensamento dos políticos é ardiloso e as promessas feitas em campanha eleitoral não passam de coisas vãs. Não quero com isto dizer que todos os políticos sejam mentirosos, mas quero afirmar que nenhum político é dono do futuro, facto pelo qual, fazer promessas em época de grande turbulência económica, financeira e política é, no mínimo, uma utopia.

Face à crise, dei-me ao trabalho de ler os programas dos principais partidos concorrentes às legislativas de 2011. Do que li e vi, realço:

      a) O regresso do CDS a raízes democratas cristãs, muito embora esteja em desacordo com as políticas propostas no âmbito das privatizações, nomeadamente Caixa Geral de Depósitos. Contudo, Paulo Portas tem revelado algum sentido de Estado.

      b) O PSD constrói a sua proposta assente em cinco pilares. Destaco no Pilar Cívico e Institucional a redução do número de deputados na Assembleia da República e a extinção dos governos civis, promessas que me agradam. No Pilar Económico, a revitalização das actividades ligadas ao mar (portos, construção naval, pesca, etc.) é importante, mas relembro que a excelente posição estratégica do Porto de Sines só dará frutos se for construída uma infra-estrutura ferroviária de alta velocidade que possa escoar, com rapidez, as mercadorias até ao centro da Europa. O PSD não é claro relativamente à Segurança Social e à diminuição de funcionários públicos, embora pareça coerente no domínio do emagrecimento do Estado. Relativamente a Passos Coelho, não tenho visto postura de estadista, mas sim um desempenho dissimilar, eivado de populismo (ex: imagens de colheita de cerejas).

      c) O PS  dá ênfase à manutenção do estado social, a medidas de apoio à adaptabilidade das empresas e ao dinamismo do mercado de emprego, articuladas com o combate à precariedade laboral e à contratação de jovens e de desempregados. Por outro lado, faz fé numa política de concertação social responsável, embora dificílima com a CGTP Sócrates assume a figura do gladiador que deseja vencer ou morrer, politicamente falando, na arena, atitude que está de acordo com o espírito combativo que sempre mostrou.

      d) O BE propõe a renegociação da dívida, salvar a economia e criar emprego, dando realce ao investimento público, à justiça fiscal, ao reforço da banca pública e ao ataque ao despesismo. Louçã tem a visão de um economista não alinhado com o mercado de capitais e FMI e as suas medidas parecem de difícil execução num mundo global, tutelado por agências de rating e mercados.

      e) O PCP mantém-se agarrado à estatização da sociedade e à luta contra o capital, ignorando a realidade política e económico-financeira ocorrida com o fim da URSS e Jerónimo de Sousa não aprendeu nada com Lula da Silva. Era bom para os trabalhadores e para a economia, que a CGTP tomasse uma posição dialogante na concertação social e contribuísse para o surgimento de consensos tendo, como exemplo, a experiência do que se passa na Auto-Europa, em Palmela.

Paul Krugman, prémio Nobel da Economia e reputado cronista do The New York Times, fez uma análise da crise financeira que perpassa nos Estados Unidos e compara-a com o que se está a passar na Europa, não só com a Grécia, Irlanda e Portugal mas, inclusivamente, com o Reino Unido e diz: «cortar no défice com desemprego alto é um erro; mas se os investidores desconfiam que os políticos não enfrentam os problemas estruturais, deixam de comprar dívida e o défice dispara com os juros…os países europeus que pediram ajuda não vão ser capazes de pagar as dívidas e os planos de austeridade são inúteis e vão agravar a recessão». Dá que pensar!


A DESCOBERTA DA SOLIDÃO

Jaime Sidônio
(psjaime7@hotmail.com)


A solidão nos aproxima de Deus, nos envolve em seu amor, nos ajuda a perceber Sua vontade. Além disso, nos dá clareza de visão e sensibilidade para perceber e acolher os apelos dos irmãos e das irmãs, abrindo-nos e impulsionando-nos a atitudes concretas de solidariedade e fraternidade.

É exatamente essa descoberta que anima nossa esperança na busca do absoluto e suscita em nós a alegria e o gosto de Deus, pois, dizia o contestado místico Meister Eckhart: “Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus”.

GILBERTO AVELINO

João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Foste o sol e o sal
Na planície salina.
O vento que não varreu os sonhos,
A sombra clara e amena,
A brisa morna e azul,
O espectro da luz do Alagamar.

AMIGO


José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Fico com o olhar quase perdido
Num momento de reflexão.
Impossível não se comover
Com a agonia desse rio majestoso,
Sua água densa
Agonizando com o calor,
Seu leito é um depósito da estupidez humana.
Num instante imagino sua revolta,
Sua água pronta pra nos engolir.
Nisso vem à lembrança
Um companheiro-amigo,
Fico como que alheio ao real,
Esqueço que estou acompanhado,
Pois esta em minha boca o gosto do veneno,
Veneno da defesa é claro,
Por haverem devastado seu habitat,
Infelizmente a vítima
Foi um homem inocente,
Guerreiro do mundo,
Pronto a lutar por educação
Para nossos trabalhadores e trabalhadoras,
Homens e mulheres
Aprendendo a escrever sua história de lutas.
Nisso me desespero,
Vejo nossa saúde doente,
Nosso amigo em um leito branco,
Como se o branco não representasse a morte
Em nossos hospitais.
Peço desculpas por parecer estranho,
É que não suporto o cheiro dos antibióticos,
Não posso acreditar
Que nosso amigo
Foi vítima
De uma estrutura educacional excludente,
Mas desde já ele é um vencedor,
Preferiu os perigos do mundo
À uma vida sem compromisso social.
Seus familiares com certeza
Estão como eu,
Apreensivos,
Temerosos,
Preocupados.
Afinal é a vida de um lutador
Que acreditou
Que o seu trabalho
Mudaria esse quadro social de abandono.
Acreditou que a sua esperança
Pudesse ser o alimento
Para nosso povo cansado de sofrer.
Seja forte companheiro,
Vença o veneno da defesa,
Pois a educação
Para essa gente
É um direito maior que qualquer desafio.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

TABAGISMO: QUEIMANDO A VIDA.

Leo Pessini *


Cerca de 5 milhões de pessoas morrem, por ano, vítimas de doenças provocadas pelo consumo de cigarro. Estima-se que em 2020 este número atingirá a marca de 8,4 milhões. Segundo dados da OMS, o número de fumantes jovens vem crescendo em todo o mundo. Na África, existem sete fumantes homens para cada mulher, mas, entre os jovens, a proporção é de um homem para cada 2,2 mulheres. Na Europa, 33,9% dos adolescentes e 29% das adolescentes fumam. Nos EUA, os índices são de 15,6% e 2,2% respectivamente.

É irônico, mas verdadeiro: o cigarro é o único produto que, quando apropriadamente usado, mata seu consumidor. A nossa opção tem de ser pela vida, nunca pela morte! Portanto, diga não ao cigarro!



*Camiliano, pós graduado em Clinical Pastoral Education pelo S. Lukes's Medical Center (Milwaukee, EUA). Professor doutor no programa de mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo (SP) e autor de inúmeras obras na área da bioética, dentre as quais Bioética: um grito por dignidade de viver e co-organizador de Buscar sentido e plenitude de vida: bioética, saúde e espiritualidade.



TEXTO DE LUG COSTA


Existe um olhar que estraçalha a alma:
olhar da despedida,
o olhar do adeus pleno de incertezas de um futuro reencontro.
Existe um olhar que insinua cumplicidade:
confirma encontros proibidos,
dissimula desejos incontroláveis.
Existe um olhar da traição:
revela as verdadeiras intenções,
provoca rupturas profundas e revoltas que atordoam a alma até a sua agonia final.
Existe o olhar que revela a verdade:
diz quem somos,
o que pensamos,
e o que não podemos deixar de ser.
Existe o olhar que transforma:
a dor em êxtase, as incertezas em segurança,
 as perdas em saudades,
é o olhar do amor

( 29/5/2011 - 14:13:41h – Carpina / PE)

PARA VOCÊ …

Marcante
marisia_moura@hotmail.com


          Rocha forte. De ti o granito foi extraído. De ti saiu toda a força, para erguer este imenso monumento humano que és tu.
          Mãos macias, delicadas tocam a dureza do teclado para conseguir melodias suaves, que vão até a alma. Forte no timbre de voz a descrever sutilezas do cotidiano.
          Incapaz de machucar uma flor, mas decidida a pisar forte na defesa dos que a amam.
          Poderia te chamar, montanha russa! Subindo para alcançar o longe e descendo para permanecer com o pé no chão, pois é disto que gostas.
          As vezes faz coisas bobas, para angariar confiança do tímido e tolo como eu...
          Aonde anda tal criatura?
          O que estais a fazer?
          Aqui, bem dentro de mim, pergunto.
          A resposta está aqui:
          - Aqui estou, eis a tua Monstra.

A DIVERSIDADE RECONCILIADA


Marcelo Barros(*)


Quando o presidente Obama foi à televisão se vangloriar de que tinha comandado o assassinato de Bin Laden, quando este, desarmado, via televisão em sua casa, um amigo evangélico norte-americano me contou que um pastor presidente de uma Igreja nos Estados Unidos manifestou-se pedindo do presidente uma ética diferente que respeite a sacralidade da vida e exija justiça, mas não vingança. Quando um assessor comunicou ao presidente esta reação do pastor, este respondeu:

- Esta declaração não terá repercussão porque estes pastores não se entendem entre si. Eu me preocuparia se, ao menos, várias Igrejas se unissem e juntas fizessem um pronunciamento neste sentido. Como isso é impossível, podemos continuar dando as cartas.

Para mostrar que o diálogo e a unidade entre as diferentes Igrejas é possível e é importante como profecia para o mundo, a cada ano, várias Igrejas consagram uma semana à oração e ao diálogo pela unidade dos cristãos. No hemisfério sul, este ano, isso ocorrerá nesta próxima semana e contará com cultos ecumênicos, encontros de oração e iniciativas de diálogo entre as Igrejas. A cada ano, uma federação local de Igrejas escolhe um tema comum. Em geral, estes temas têm sido propostos por Igrejas do mundo dos pobres. Neste ano, o tema escolhido vem da descrição que a Bíblia faz da primeira comunidade cristã em Jerusalém: "Unidos no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42). Mais do que uma descrição da realidade, a unidade da primeira comunidade cristã é uma proposta de vida e um objetivo a ser alcançado por todas as Igrejas. Sempre que se conseguiu atingir este ideal, foi em meio à grande diversidade de culturas e de formas de expressar a fé. No tempo do Novo Testamento, uma parte das comunidades cristãs era de pessoas vindas do Judaísmo, marcadas pela espiritualidade e pela tradição judaica. Na mesma comunidade, havia irmãos e irmãs convertidos de cultos orientais e do mundo cultural grego. Outros grupos internos se diziam discípulos de João Batista, o profeta. Mesmo a partir desta grande diversidade cultural e teológica, havia uma unidade de fé e ação. Isso não foi alcançado através de uma estrutura hierárquica rígida. A organização centralizada cria uniformidade. É unidade de forma, mas não de espírito e de fé. As comunidades dos primeiros séculos não caíram também na tentação do dogmatismo que confunde a fé com as expressões e formulações das quais esta se reveste nas diferentes culturas. Ninguém condenou quem não pensava como a maioria. As cartas de Paulo contém uma teologia e propõem um tipo de espiritualidade. A carta de Tiago contém uma interpretação da fé diversa de Paulo. O evangelho de Mateus dá um testemunho sobre Jesus diferente do que nos é dado em Lucas e João. Esta diversidade não impediu a unidade de fé, nem o diálogo entre as comunidades. Conforme o livro dos Atos dos Apóstolos, esta unidade deve se basear no ensinamento que os discípulos receberam de Jesus, na comunhão da vida, na repartição do alimento e nas orações em comum.

Este ensinamento dos apóstolos sobre o qual se firma a unidade é o testemunho do projeto divino que Jesus trouxe para o mundo. Este projeto se concretiza através do testemunho dos irmãos e irmãs que viram Jesus ressuscitado, presente na comunidade (koinonia) e na solidariedade. O mais importante sinal desta presença divina é a “partilha do pão”, que, hoje, as Igrejas chamam de “ceia do Senhor” ou de “eucaristia”.

Infelizmente, ao se adaptarem às culturas religiosas do Império Romano, as Igrejas se tornaram menos comunidades locais como eram no início e reforçaram mais o aspecto cultual do que o elemento comunitário e social que, nos primeiros séculos, as tinha caracterizado. Hoje, “unir-se em torno do ensinamento dos apóstolos” chama as Igrejas a se constituírem como Igrejas pascais, abertas à missão e capazes de dialogar com o mundo atual. A comunhão fraterna e a repartição do pão recordam que a vocação da Igreja cristã é ser profecia de um mundo novo e de partilha.

Quem vê as Igrejas divididas pode não se dar conta de como esta divisão testemunha contra o projeto divino de ver a humanidade como uma só irmandade. A unidade dos cristãos não é um projeto apenas eclesiástico. Deseja unir as comunidades que crêem em Cristo no serviço solidário para construirmos juntos um mundo de comunhão e de paz. Afinal, segundo o evangelho, na véspera de sua paixão, Jesus orou ao Pai: “que todas as pessoas que crêem em mim sejam unidas, como eu e Tu somos Um, para que o mundo possa crer que tu me enviaste” (Jo 17, 19).


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

JUSTIÇA TARDIA


Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio *


A mídia noticia dois casos de justiça tardia que elevam o nível da esperança nossa de cada dia. Os protagonistas são um jornalista e um padre. O jornalista Antonio Pimenta Neves, réu confesso de assassinato, foi preso após onze anos. O padre Júlio Lancelotti, que lutava para provar sua inocência há quatro anos, foi finalmente inocentado.

Já faz tanto tempo... mas no coração de João Gomide, pai de Sandra, a dor queima viva e hemorrágica como no primeiro dia. Sandra partiu para o haras e ali mesmo, em meio aos cavalos que tanto amava, foi morta com dois tiros nas costas. Pimenta Neves, o ex-chefe e depois namorado, muitos anos mais velho que a moça, não aceitava a ruptura que o fim do namoro traria. Sandra caiu ao chão e seu sangue foi bebido pela terra de Ibiúna.

João Gomide e a mulher lutaram o quanto puderam para ver o assassino da filha preso. Pimenta Neves, influente e com uma boa rede de relações, muniu-se de competentes advogados e conseguiu recorrer uma e muitas vezes até que finalmente na última terça feira foi preso e condenado a pagar indenização aos pais da vítima. Com a saúde abalada, fragilizado pela idade, João Gomide não sente mais ódio nem alimenta desejos de vingança. A falta da filha dói no fundo do peito e pesa como sombra de tristeza sobre sua velhice que imaginava alegre e calma, no convívio familiar. Não deseja mal ao homem que destruiu seu futuro. Apenas se alegra com a justiça acontecida e espera poder viver os anos que lhe restam em paz.

Os moradores de rua e menores infratores de São Paulo conhecem bem o Padre Júlio, anjo da guarda de suas vidas e apóstolo de suas causas desde muito tempo. Nomeado pelo então cardeal Dom Paulo Evaristo Arns vigário episcopal do povo da rua, Padre Júlio podia ser visto uma e outra vez denunciando ameaças de extermínio, acompanhando situações de sofrimento e perigo extremos, agindo aqui e ali para defender os direitos dos últimos excluídos da sociedade.

A notícia de que estava vivendo a dolorosíssima situação de ser vítima de extorsão por um daqueles a quem mais ajudou caiu como uma bomba em meio a todos os que o admirávamos, a ele e a seu evangélico trabalho. Acossado há anos, Pe. Julio finalmente – com apoio de Dom Odilo Scherer, atual arcebispo de São Paulo – procurou a polícia. E do dia para a noite, o sacerdote cuja rotina era trabalhar com o povo da rua e cuidar da mãe idosa que com ele residia, viu-se envolvido em infernal torvelinho de acusações e linchamento moral. Exposto na mídia, desacreditado no trabalho que fazia, vasculhado pela justiça, viveu uma autêntica via-crucis. Com a reputação comprometida e arranhada, sob suspeita de todos inclusive de certos segmentos da Igreja, Pe. Julio recolheu-se a um discreto silêncio.

Em 2007, seus detratores foram inocentados por falta de provas. Porém, há pouco tempo cometeram o erro de novamente procurar o padre para ameaçá-lo. Não sabiam - nem agressor nem vítima – que “no meio da rua havia uma câmera, havia uma câmera no meio da rua”. O delegado, avisado, requereu as imagens e condenou o agressor a sete anos de prisão. Pe. Julio finalmente vê a verdade vir à tona e trazer à luz sua inocência. Sem ódio no coração, espera que agora acreditem nele e em seu testemunho. E sofre a perda da mãe que, idosa, faleceu devido à dor que experimentava pelo sofrimento do filho.

Para João Gomide e sua esposa, que apalpam o vazio da alegre presença de Sandra em sua casa; para Júlio, que declara haver aprendido que não há amor sem dor, o acontecer da justiça, ainda que tardio, traz alívio e esperança de poder viver em paz e sem sobressaltos.

Para nós, fica a lição de que a justiça humana é lenta e morosa e, muitas vezes, tardia. Quem devolverá a João a presença da filha? Quem devolverá a Júlio integralmente a tranquilidade com que exercia seu ministério antes deste episódio? No entanto, quando acontece, traz esperança de que a impunidade nem sempre fique com a última palavra.

Em todo caso, mesmo quando a justiça humana falha, a justiça divina não só não falha como não é apenas retributiva, punindo culpados e resgatando inocentes. Ela é, sim, restaurativa, a todos restaurando pelo mistério sem lógica de um amor incondicional. Mesmo através da dor e da desventura, esse amor brilha e revela nossa fragilidade entretecida com a dignidade de sermos filhos de Deus.


* A escritora é autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

VIDA : UM QUEBRA –CABEÇA


Monique Marie Becher
moniquebecher@hotmail.com


MOMENTOS DE EMOÇÕES
TIRAS DE TRISTEZA
FRANGALHOS DE DECEPÇÕES
TORMENTAS DE PECADOS
PEDAÇOS DE VIDA
VIDAS EM BLOCO
RECUOS AVASSALADORES
VERTIGENS VULCÂNICAS
AMARRAS INVISÍVEIS
GRILHÕES INEXISTENTES
CORDAS ESFARRAPADAS
PRISÃO DOS FATOS
APRISIONAMENTO DOS VOCÁBULOS
AVANÇOS IMPENSÁVEIS
FATIAS DE SOL
PONTAS DE ESTRELAS
FAGULHAS DE PAIXÃO
RECORTES DE SONHOS
POTES DE ESPERANÇA
FLORESTAS DE INFINITO AMOR.

CALEIDOSCÓPIO


Padre Beto
www.padrebeto.com.br


Uma lenda árabe conta que um jovem rapaz e uma moça andavam por caminhos diferentes. Em um determinado trecho, os dois caminhos se cruzavam, o que provocou o encontro dos jovens. Após uma pequena apresentação, os dois resolveram, a partir daquele momento, caminhar juntos. Depois de algum tempo, avistaram uma alta montanha. Para atravessá-la, os viajantes deveriam passar por um túnel. A moça parou à entrada do túnel e disse ao rapaz: "Eu não entrarei com você neste túnel!" "Por que não?", perguntou o jovem. "Você poderia me abraçar e dar um beijo!", respondeu a moça. "Como eu poderia fazer isso?", tentou se defender o jovem, "eu tenho uma mochila nas costas, meu cajado em uma das mãos e na outra minha ovelha!" Mas a moça continuou a manter sua opinião: "Você poderia me pedir para segurar a ovelha, fincar o cajado no chão e jogar a mochila em um canto e então estaria livre para, por exemplo, me beijar". O jovem olhou a moça, com admiração, durante um determinado tempo e finalmente disse: "Que Deus abençoe sua sabedoria!" Logo em seguida os dois entraram no túnel!

Para John Locke o conhecimento surge da experiência. Tudo que a mente do ser humano apreende ou percebe das coisas que o rodeiam são impressões que constroem e modificam a nossa visão de mundo. Percepções da realidade e conclusões sobre esta compõem nosso conteúdo intelectual. Porém, a compreensão dos objetos e situações de nosso universo não é assimilada de forma direta e imediata, mas está sempre condicionada à maneira como vemos o mundo. Nossa compreensão da realidade é permeada de idéias que surgem de nossas experiências particulares, de uma interação muito própria com a realidade. Portanto, nosso conhecimento da realidade não é simplesmente construído através do contato com ela, mas pela forma como vivenciamos este contato. Assim, pessoas diferentes e em momentos diferentes de sua vida poderão ter contatos com uma única realidade e retirar dela conteúdos diversos. Ao assistirmos um filme possuímos uma determinada impressão e retiramos dele uma determinada mensagem. Ao assistirmos o mesmo filme depois de alguns anos, poderemos nos surpreender com reflexões que não eram para nós possíveis na primeira experiência com o filme. O conhecimento da realidade depende da forma como podemos perceber o mundo e esta possui limitações e condicionamentos que influenciam nossa percepção e compreensão: o conteúdo intelectual que possuímos, o momento emocional em que vivemos, as nossas condições físicas, preocupações e compromissos para o amanha, etc.

A nossa compreensão sobre a realidade é sempre influenciada por fatores que a ampliam ou a limitam. A amplitude ou limitação do conhecimento sobre as coisas está sempre relacionada com o poder de ver e sentir o conteúdo do momento presente. Os nossos horizontes, porém, são ampliados não somente pelas novas experiências que fazemos, mas também à medida que compartilhamos nossas idéias com outras pessoas. Cada encontro com outros seres humanos é, portanto, uma troca de visões diferentes da realidade. A vida social nos oferece a oportunidade do diálogo, do momento, muitas vezes conflitivo, de confrontação com formas diferentes de compreensão do mundo. O diálogo permite ampliar nossa compreensão da realidade, pois podemos vê-la e senti-la através da ótica de outras pessoas. Um simples bate-papo com os amigos em um barzinho, uma conversa no almoço com a família, comentários na fila do banco e principalmente a leitura de livros podem se tornar verdadeiros espaços de descoberta da realidade; basta estarmos abertos para transmitir nossas idéias e recebermos as dos outros. Como diz um velho ditado: "Deus não aceita quem se sente feliz indo sozinho para o céu".

 
 

Das flores no meu jardim

Patricia Tenório
http://www.patriciatenorio.com.br
patriciatenorio@uol.com.br

16/05/2011

                                                        Em homenagem a Paulo Freire


Começou a digitar no tempo em que aprendeu a ler.

Juntar letras na máquina, o mesmo que na memória. E a imaginação corria em busca da imagem para cada letra e cada letra vestia toda uma história de si.

Clara não desistiu quando percebeu que, no teclado da máquina, as letras meio apagadas, meio escritas: lembrou-se que lembraria delas ao digitar. Nem mesmo se lembrando, até se esquecendo, foi no esquecimento que viajou distâncias e conheceu um mundo inteiro.

Mundo de letras e lugares e as letras se misturavam em palavras e as palavras cheiravam a jasmim.



Obs: Imagem enviada pela autora.

BULA

Regina Carvalho
reginahcarvalho@hotmail.com


Via de regra,
basta extrair de mim
um pouco de pó
e misturar em água potável,
mas
a minha garantia
é bem pouco confiável.

FICARÁ UMA JANELA


Rivkah Cohen


Pela primeira vez na vida,
abriu janelas, escancarou cortina,
olhou os céus, se arrumou,
se fez bonita e saiu..

Houve quem perguntasse
para onde ia assim tão bela.
Mergulhada em pensamentos
não disse nada ou não viu a quem
esta explicação interessasse.......

Seus olhos estavam onde decidida
fixou sua chegada e sumiu....

Foi deixado um alerta.
Pode ir por lá....!
Quem sabe para se ter cuidado,
um aviso, um sino,
de um certo afago do vento,
vinda de uma janela
lembrando que ainda há tempo
ou por medo de se machucar,
desvie-se dela..


Foto de Antonio Alomars


Obs: Imagem enviada pela autora.



SÉRIE PINGUINS DOS TRÓPICOS

PRAGMATISMOS DA INFÂNCIA
Tassos Lycurgo *
www.lycurgo.org





A ARTE E SUTILEZA DAS PALAVRAS

Vladimir Souza Carvalho *


A atendente, no balcão na empresa área, pede o telefone e o nome de uma pessoa para caso de emergência. Não consigo conter o riso. Imagino uma emergência, lá em cima, durante a viagem. O avião balança e ameaça cair. O comandante aciona um aviso e, no aeroporto, de onde decolou, a empresa área começa a telefonar para as pessoas indicadas pelos passageiros para colocar a par da emergência. Seria essa situação factual?

Não é. Aí ingresso com minha pergunta: é para emergência ou é para aviso fúnebre? A atendente não segura também o sorriso, e, aliás, bonito, o que lhe uma tonalidade de vida. Em verdade, o termo emergência vai ganhar as cores de um eufemismo, para simbolizar outra situação de fato, que, ninguém, lá embaixo, salvo em filme americano, conseguirá resolver. Se for mesmo uma emergência, o passageiro vai receber ajuda quando estiver no paraíso, no que, evidentemente, da ajuda não vai mais necessitar.

Outras companhias evitam a pergunta, para não assombrar o passageiro. Nestas, no cartão de embarque, há, no verso, espaço para, sem a publicidade da pergunta, o passageiro possa anotar o telefone e o nome da pessoa que deve ser avisado de algo fortuito que possa ocorrer. Em outras palavras, do desastre fatal. Só pode ser. O passageiro preenche os dados, mas não o faz automaticamente, ficando a pensar – pelo menos, penso eu – se aquela é a última vez em que escreve o número do telefone e da pessoa da família a ser avisada.

O assunto pode não ser adequado para os que estão sempre empoleirados em avião, mas é uma realidade que a emergência, citada pela atendente, me desperta, na tentativa de dar a matéria um tom ameno, para não assustar o passageiro. Não se pode deixar de bater palma para a inteligência de quem esconde a realidade do desastre e, em conseqüência, da morte, com o lençol da palavra emergência. Para tanto, bato palma.

Outro exemplo vivi um dia deste. No guichê da empresa aérea, fui informado que o avião não desceria em Aracaju, seguindo direto para Salvador, onde, lá para as tantas da noite, se pegaria uma aeronave, de outra companhia, para Aracaju. Perguntei o motivo que pudesse explicar a não descida em Aracaju. Uma chuva violenta, um terremoto, uma guerra civil que tomasse o aeroporto naquele momento. Nada disso. A resposta foi simples: problema operacional. Qual problema, insisti. Problema operacional, me responderam.

Mesmo chateado, achei a resposta inteligente. Problema funcional. Excelente. Aprendi algo a mais, afinal, diariamente, a gente está sempre a se encher de experiência, não há como esconder. O que seria o problema funcional? Quem sabe lá! O homem moderno cria expressões que, educadamente, diz uma coisa com outra forma. Como a senhora que ao ouvir que uma conhecida ia se operar por causa de hemorróidas, corrigiu para melhor, aconselhando a esclarecer que a cirurgia era para corrigir varizes. Não pude deixar de bater palmas. Vivendo e aprendendo. Camões tinha inteira razão. E como tinha.


Publicado no Diário de Pernambuco

domingo, 22 de maio de 2011

TRAÇOS

Aldo CB


Eu te reinvento tantas vezes. Faço tuas curvas entre as minhas, crio montanhas no interior das tuas, fabrico leito de rios em tuas águas, desenho sóis por tua pele, provoco chuvas em tuas entranhas, esboço a aurora em nossos olhares e deixo a solidão em preto e branco. É tarde e viver cansa, as cores precisam adormecer.

ENCANTADA PELA VIDA


Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


EM CADA ABRAÇO
PODERIA ME PRENDER
ACONCHEGADA
OU ME PERDER
A CADA PANCADA
MAS ESCOLHI SOBREVIVER
NO MEIO DE MUITO E NADA
PERMANECENDO POR AÍ
PELA VIDA
ENCANTADA!


Obs: Imagens enviadas pela autora
Fotos = carnaval em Pipa Foto Fatima Brito

DAS COISAS QUE ME FOGEM O CONTROLE *


Betto Santos**


Me foi pedido o número do telefone. Quem me ligaria seria o dono de uma voz já conhecida, mas que não ouvia muito ao telefone. O telefone tocou e, antes que vibrasse pela segunda vez, saquei-o. Lá estava eu, do alto dos meus vinte e tantos anos, perdendo totalmente o controle, de novo.

Será que existe algo mais emocional do que optar por ser racional, por medo de errar novamente? E o que é mais racional do que permitir que essa emoção guie cada um dos nossos passos? Às vezes são tão altas as vozes de fora, que a gente acaba não ouvindo o peito gritando. O meu peito é que gritou alto demais, calando as vozes de fora. Epifania. Compreensão súbita. Era como se estivesse tua imagem estampada em tudo que vejo. E aquela presença permanente no meu pensamento me fez percorrer a extenuante e perigosa trilha que me leva de encontro a ti.

Será que existe burrice maior do que saber todas as respostas? E sabedoria maior que a sabedoria de se deixar enganar? A gente pensa que, com o passar do tempo, aprendemos a pular as rasteiras que nos são passadas. Digo, por experiência própria, que existem tombos que eu adoraria tomar de novo. Me via novamente ansiosa. Tão ansiosa que passei a olhar pros lados, sempre achando ser a tua voz qualquer ruído que me atingisse os tímpanos. As vezes em que acertei são minoria, mas eu aprendi demais, justamente por errar demais.

Os minutos que a gente tem juntos viram dias e semanas em câmera lenta, dentro da minha cabeça. Meu coração está vazio, sem mobília. Mas tudo que eu preciso agora é de espaço pra te construir dentro do meu peito, com as poucas peças que tenho em mãos.

Com quem estou ao telefone? Com a saudade, que há muito não vejo. Ele está chegando, e não parece ter planos de ir embora tão cedo. Eu aguento. Basta que feche os meus olhos e dê play numas poucas horas de filme, e uma mísera foto sem resolução no meu celular. Cá estou eu, do alto do meu sétimo andar, perdendo o controle, de novo.

Tudo acontecia devagar. Tudo que ele fazia parecia, aos meus olhos, acontecer em câmera lenta. Como se dançássemos debaixo d’água.

Nada mudou: continua tudo mudando a todo minuto.


* Ou “Se eu pudesse ver com seus olhos”

REVISITAR O CONCÍLIO


D. Demétrio Valentini *


          Desta vez a assembléia da CNBB apresentou um projeto concreto, a ser executado nos próximos anos: celebrar os 50 anos do Concílio Vaticano II.
          A iniciativa tem muita razão de ser. Trata-se de reviver aquele que foi, sem nenhuma dúvida, o maior acontecimento da Igreja no último século. Mas não só para recordar um fato verificado 50 anos atrás. Mas sobretudo para perceber o que ele ainda tem a nos dizer. Pois este Concílio se propôs renovar a Igreja, retomando as motivações e o impulso de suas origens, e atualizando suas estruturas para estar ao alcance e ao serviço da humanidade em nosso tempo.
          Está claro que hoje a Igreja não se entende, sem levar em conta as transformações suscitadas pelo Concílio. No documento “Tertio Millenio Ineunte”, João Paulo II afirmou com ênfase que o Concílio Vaticano II permanecerá como bússola a guiar a Igreja nos inícios deste terceiro milênio da era cristã.
          Como o Concílio foi um processo que durou diversos anos, e teve seu trabalho mais consistente realizado nas quatro sessões de reuniões com todos os bispos do mundo, de 1962 a 1965, o projeto apresentado na Assembléia da CNBB sugere uma comemoração de quatro anos, tendo como referência prática as quatro sessões conciliares.
          Desta maneira, resulta uma interessante coincidência com o quadriênio que se inaugurou com as recentes eleições na CNBB. A celebração dos 50 anos do Concílio pode se tornar referência prática para cadenciar os quatro anos do mandato dos eleitos nesta assembléia. Este projeto concreto a executar poderá servir de parâmetro para o próximo quadriênio.
          A história deste Concílio destaca, com muita evidência, a figura de João 23. Tanto que logo foi identificado como “o Concílio do Papa João”. Sem ele, com certeza os fatos históricos teriam sido muito diferentes. Sobretudo pela maneira como ele soube motivar e envolver a todos, com o lançamento surpreendente de sua proposta, quando ninguém imaginava que o “papa bom” tivesse a ousadia de convocar um concílio com uma largueza de propósitos por ele apresenados,
          Dada a importância do evento, pessoalmente, já havia identificado a necessidade de recuperar a memória deste grande concílio. E me propus recordar alguns episódios, descrever o espírito que animou todo o processo conciliar, identificar os temas que mais suscitaram interesse, percorrer o itinerário dos seus documentos, perceber as ideias força que inspiraram suas decisões, e assinalar os muitos desdobramentos suscitados por este Concílio, que teve o mérito de suscitar tantas adesões entusiastas e generosas.
          Coloquei estas anotações em forma de pequeno livro que as Edições Paulinas aceitaram publicar, e que já está nas livrarias.
          Então, hoje me permito fazer a todos um convite: vamos “REVISITAR O CONCÍLIO VATICANO II”, percorrendo os dez capítulos que descrevem como foi este grande Concílio do Século Vinte.
          Depois, poderemos retomar a conversa, valorizando os outros livros que esse primeiro inspirou, em forma da coleção “REVISITAR O CONCÍLIO, a ser produzida ao longo da celebração dos 50 anos deste grande evento.


* http://www.diocesedejales.org.br/