domingo, 24 de abril de 2011

ENTENDIMENTO


Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


NÃO HÁ MAIS
LUGAR A CHEGAR...
OBJETIVOS A CUMPRIR
METAS A ALCANÇAR
POSSO AGORA RELAXAR
TER O PRAZER DE APROVEITAR
E SIMPLESMENTE FLUIR


Obs: Imagem enviada pela autora
FOTO CARNAVAL EM PIPA

QUANTAS VEZES…


Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Quantas vezes em meu leito
Chorarei minha morte
Quantas vezes viverei em corpo
Estando morto em alma

Quantas vezes minha calma
Será ocultada pelo meu desespero
Quantas vezes os meus desejos
Viverão as sombras dos meus medos
Quantas vezes...

Quantas vezes terei receio de sorrir
Terei medo de chorar
Quantas vezes serei vencido sem lutar
Perder, o que ainda nem conquistei
Só por não tentar
Por minha capacidade ser incapaz de poder
Quantas vezes terei medo do meu próprio ser?


* http://bettosantos.blogspot.com

HOSANA! BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR!


Célia Cavalcanti
(cglcavalcanti@terra.com.br)


Hoje revivemos a gloria de Jesus aclamado pelo povo nas ruas de Jerusalém… Exatamente por ser uma exaltação do povo, foi passageira... Logo em seguida esse mesmo povo grita: Crucifica-o!
Eu também sou povo.
Quantas vezes grito “Hosana!”
Quantas vezes:” Crucifica-o!”
Essa certeza do quanto somos frágeis e vulneráveis nos coloca na realidade e nos prepara a ressurgir com Cristo na sua Páscoa.


Obs: Imagem enviada pela autora


Acesse o vídeo abaixo ESTAIS AÍ, SENHOR

PÁSCOA: SINTONIA E COERÊNCIA


D. Demétrio Valentini *


A celebração da Páscoa tem ressonâncias muito antigas. A própria data é indicada pelo calendário lunar dos judeus, que determinava a Páscoa para o primeiro sábado após a lua cheia do mês de “nisan”, que corresponde, aproximadamente, ao nosso mês de abril. No caso deste ano, a lua cheia caindo no domingo dia 17, a páscoa fica para o sábado dia 23.

A Campanha da Fraternidade sobre a vida no planeta evoca o contexto que deu origem à celebração pascal. Os primeiros ritos pascais eram ligados à celebração da vitória da vida sobre a morte, expressa pela exuberância da primavera, em que a vida retoma vigor, após os rigores do inverno que parecem sufocá-la.

A páscoa recebeu depois uma conotação histórica bem definida, com a saída do povo hebreu do Egito. Ela foi claramente marcada pelo contexto pascal. A partir daí, o povo hebreu assumiu a páscoa como expressão de sua identidade, e como recordação de sua passagem da escravidão para a liberdade.

Como sabemos, neste contexto histórico Jesus inseriu a celebração de sua memória, integrando ao mesmo o rito antigo da festa judaica no novo significado que a páscoa passava a ter, a partir de sua morte e ressurreição.

Cabe aos cristãos recolherem este significado profundo, que é inesgotável na sua potencialidade de inserir no mistério pascal de Cristo todas as dimensões da vida humana.

Mas o contexto da Campanha da Fraternidade deste ano nos sugere a integração fecunda que é possível fazer, das três dimensões da páscoa. A começar pela dimensão cósmica, que foi acentuada pelas reflexões feitas em torno da vida em nosso planeta.

Somos chamados a cultivar uma espiritualidade que poderíamos chamar de ecológica, captando as mensagens que o universo nos transmite, com sua maravilhosa harmonia.

De fato, a Campanha nos ajudou a perceber a estreita ligação de nossa vida humana com a natureza. Ela não se limita a garantir o ambiente favorável à nossa existência. Somos parte da natureza. Em decorrência disto, podemos identificar nossa situação privilegiada, que nos permite situar-nos com perspectivas transcendentes à natureza, e assumir conscientemente nossa condição humana.

O gesto de Cristo, de moldurar seu testamento no contexto da celebração histórica da páscoa judaica, nos dá um profundo ensinamento, de quanto é importante colocar-nos na dinâmica da história humana, se queremos inserir-nos dentro dela, e fazer parte da trajetória verdadeira da epopéia humana.

Assim fica claro o recado da páscoa deste ano. Ela nos convida a sermos pessoas integradas, seja no contexto da natureza, como na trama da história, e também na coerência da fé que abraçamos.

As três dimensões são indispensáveis, e se fortalecem mutuamente. Cabe a cada pessoa escolher as motivações que melhor podem acionar a integração das diferentes dimensões.

Mas é inegável que a figura de Cristo serve de exemplo perfeito de integração vital. Mais que ninguém, sabia captar os encantos da natureza, de onde tirava suas belas parábolas. Ele conhecia profundamente a história do seu povo, e sabia expressar o significado dos seus episódios. E sobretudo, soube dar um significado novo aos ritos antigos, colocando neles os símbolos da entrega de sua vida por amor a toda a humanidade.

A páscoa é um convite para a integração de nossa vida no grande concerto do universo, na caminhada da história humana, e no testamento sempre renovado do mistério de Cristo.




MENSAGEM DE PÁSCOA 2011

“Não tenhais medo... Ele ressuscitou!” (Mt 28, 5)
A todos os Diocesanos,

Feliz Páscoa!

Com alívio e alegria, chegamos à Páscoa deste ano de 2011. Venho desejar que todos a celebrem com intensidade.

Desta vez, podemos de novo comprovar quanto é fundamental o Mistério Pascal de Cristo, à luz do qual é possível situar a vida humana com todos os acontecimentos que nos envolvem.

Com a presença de Cristo ressuscitado, espantamos o medo, e nos alegramos com sua vitória sobre o sofrimento e a morte.

Neste ano foram muitos os fatos que nos assustaram por suas trágicas conseqüências., a começar pelos fenômenos da natureza, que vieram comprovar as recomendações da Campanha da Fraternidade, de cuidar com amor da criação que Deus confiou às nossas mãos.

Mas a persistência de tragédias humanas, marcadas pela violência e pela banalização da vida, mostra quanto é urgente recuperar valores que possibilitem a convivência justa e pacífica entre todas as pessoas.

Esta é uma Páscoa para ser celebrada com prontidão de espírito e disposição de ânimo.

Ajudados pela Campanha da Fraternidade sobre a vida no planeta, podemos recuperar melhor as três dimensões históricas da Páscoa.

Ela começou como celebração da vitória natural da vida terrena, que se recupera a cada primavera.

Assumiu depois forma histórica, com a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, nos garantindo que a intervenção de Deus na humanidade pode ser comprovada por todos os que buscam os sinais de sua presença.

E finalmente a Páscoa se completou com o Mistério Pascal de Cristo, que na sua profundidade acolhe toda a nossa vida, com a certeza da ressurreição.

Celebremos, pois, a Páscoa de Cristo, e caminhemos neste ano à luz de sua ressurreição.

Com os renovados votos de Feliz Páscoa,
D. Demétrio Valentini
Bispo Diocesano de Jales


SABER E COMPREENDER

Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com


          Depois que se está caindo de saber alguma coisa, torna-se cada vez mais indispensável mobilizar recursos que não se limitem a repetir números e teorias. Chegou a hora de tentar compreender.
          Compreender é bem diferente de saber. Saber alguma coisa é sempre multidisciplinar, pressupõe uma atitude acadêmica e não abre mão de estatísticas e que tais. Saber é, por definição, eximir-se por abstração, tornar impessoal um fenômeno ou um feixe deles. Saber rende entrevistas, livros muito vendáveis, nomes em destaque, respeitabilidade e certo charme midiático. Saber é duro, frio e multifacetado como um labirinto em cujos corredores ninguém se perde, porque traz marcados os passos e aponta direções de forma nítida. Um labirinto sem Minotauro.
          Compreender vem por outra via. Às vezes nem é a posteriori, como no caso do saber, é simultâneo. E é um labirinto passível de perdição. Pode inclusive dispensar os saberes, o que nem sempre é conveniente, mas pode. Compreender é, no primeiro momento, para uso interno, mas quase sempre mobiliza e frutifica em ações. Compreender é muito arriscado. Usando um exemplo concreto, é como um trem que descarrila e só se entende exatamente qual a razão encostando a cabeça no chão, ao lado dos dormentes, e vendo o ponto exato onde se deu o desencontro; passa-se o dedo no lugar do desnível e se percebe o grau do impacto, o jeito melhor de evitar que se repita e outros pequenos detalhes, partes de um todo que vão muito além do saber puro e simples.
          Compreender não é respeitável no sentido oficial do termo. Compreender é querer ir adiante. Ter vontade de ser aquilo que se resolveu compreender. Estar ali presente, inteiro, e deixar desprotegido o coração. Compreender dispensa desdobramentos constrangedores, entrevistas de telejornal, depoimentos de pessoas na hora em que estão sofrendo; dispensa formulários e presença da mídia, porque acontece em silêncio, sem precisar exibir o óbvio nem repetir o que todo mundo vai perceber. Compreender é sempre pelos cinco sentidos, sem falar nos sete da sensibilidade mais fina. Por isso dispensa pronunciamentos oficiais e aguça a empatia, a intuição, o sentir com, o ver com olhos de ver.
          Não é que o saber seja inútil. Longe disso. Mas ele vale muito mais, humanamente falando, quando ajuda a compreender, tem interesse e existe em função da compreensão. Há quem ignore isso. Há quem negue isso – e aí já entra a malícia humana – e finja se escandalizar com essa ideia. Mas é que sem a compreensão, o saber é quase nada na ordem natural das coisas, à qual pertencem o bem-estar, o desejo humano, a paz interior e outros bens infungíveis.
          Saber que não visa compreender é como mudar de assunto quando não interessa continuar uma conversa. Saber assim produz apostilas, ensaios, monografias, livros e publicações especializadas; anais de congresso e seminários. Se ninguém no entanto precisar desses dados para compreender melhor alguma coisa ligada a gente, eles serão certamente consumidos pelo fogo frio da inutilidade que arde invisível em milhares de estantes, bibliotecas e depósitos de papel esquecidos pelo mundo. Um fogo cujas chamas podem congelar os que têm o saber como meta final e se encerram em uma crosta de arrogância e presunção que deixa o coração vazio.




ESTRADINHAS NO QUINTAL (OU MENINA TAMBÉM BRINCA DE CARRINHO)


Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


Era assim toda tarde.
Sempre que o sol esfriava os dois saiam para o quintal, para brincar debaixo das àrvores.
Quando os outros meninos sumiam ou estavam ocupados com outros afazeres, ela fazia companhia para o irmão e seus carrinhos.
Em poucos minutos o chão do quintal ganhava centenas de estradinhas que levavam para todos os lugares que a imaginação permitisse, só não para a lua, afinal ninguém nunca foi de carro a lua (ou foi?).
Às vezes ela ia meio que contra-vontade, reclamando baixinho ‘porque sempre eu? Porque ele não brinca sozinho? Melhor porque ele não procura algo pra fazer?’, mas quando ela via aquela carinha, seu jeito tão inocente ela acabava cedendo e descobria que era divertido estar com ele.
Eram os arquitetos do quintal, os construtores de estradinhas, os viajantes de mil e um lugares.
Não somente dois irmãos brincando, mas duas pessoas construindo sonhos e planos para depois do banho, como assistir televisão ou comprar bombons na esquina.
Ela sempre ouvia que meninas não brincavam de carrinho, que meninas brincavam com meninas e com as suas bonecas, mas isso pouco importava pra ela, o importante era que ela visse o tempo passar, se divertisse não importasse como.
Seu irmão era mais que um irmão era um companheiro que no seu jeito de menino fazia ela dar boas risadas.


***


É engraçado escrever sobre nossas brincadeiras com terra, vendo ele tão gigante como é e eu tão franzina.
Acho que me transformei em uma das minhas bonecas, já que fiquei tão pequenina e meu irmão esticou.
As coisas se inverteram.
Brinco de escrever e ele de ouvir música.
Não vamos para a lua, mas para lugares onde nos esperam nossas realidades, mesmo assim vez ou outra ainda compartilhamos do nosso faz-de-conta.


Obs: Imagem enviada pela autora.

SEM VOLTA


Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


Salva-me, nestes momentos obscuros, uma pequena luz que ainda teima em permanecer acesa – a sombra da lamparina que iluminou a minha infância e desenhou minha inocência no branco das paredes.
Folheio minha alma e as páginas queimadas pelo tempo ameaçam se desfazer com a dor de mais uma lágrima, chorada por lembranças, que nunca terminam de morrer.
Nunca te disse nada. Guardei por tanto tempo um amor que deveria ter dito, um grande amor feito de pequenas coisas, de sentimentos leves e simples que eu poderia ter transformado em verdade.
Ventos parados, águas turvas, caminhos destorcidos. Só a luz da lamparina permanece acesa, maculada, mergulhada numa penumbra onde a infância me parece irreal.
Nunca te disse nada e nada é tanta coisa...
Quem apagará esta escrita desconhecida que nunca consegui decifrar? Chorar não é resposta, é pergunta. Uma pergunta que me faço quando os silêncios se digladiam desesperados no castigo das esperas.
Sei que não há volta. Infelizmente sei.
Quem acreditará na dor deste silêncio?

SERÁ DE PARTO, OU SIMPLESMENTE DE AGONIA ESSA DOR DA MÃE TERRA?

Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


Sistemas fluviais do Oeste do Pará: potenciais e desafios, esta é uma das questões que parte da sociedade regional levanta e quer estudar nestes dias. Quais as riquezas potenciais e quais desafios? Os que querem fazer este estudo, calculam que futuramente com certeza a água será um problema.

Não se precisa esperar pelo futuro. Da forma como estamos tratando os rios, lagos e igarapés na região, não se precisa esperar pelo futuro. Já hoje está sendo um grave problema social e ambiental. Pelo menos dois motivos indicam essa gravidade.

Um, é a irresponsabilidade com que tantas pessoas poluem as fontes de água, ao mesmo tempo a falta de leis e fiscalizações de órgãos supostamente responsáveis por isso, que deveriam punir rigorosamente os criminosos que desmatam beira de igarapés, criam piscinas particulares, represando fontes de água e até fazem criação de porcos e búfalos sem preocupação com as águas. Basta dar uma olhada nos igarapés que circundam as comunidades urbanas e rurais e basta olhar a quantidade de plásticos e outras sujeiras lançadas aos rios.

O contraste é tão grande, que quando se anda pela floresta e encontra um igarapé ainda virgem, transparente se tem a imediata vontade de cair na água, banhar-se prazerosamente e beber daquela água sem receio de prejuízo. O mesmo já não se pode fazer as beiradas de rios próximos das cidades e comunidades.

Outro motivo dessa situação problemática das águas é a sanha perversa do governo brasileiro que quer a todo custo construir centenas de hidrelétricas na bacia amazônica. Quer transformar água em mercadoria, num crime hediondo contra as populações amazônicas e todo o bioma regional.

Diante de tal plano perverso, surpreende o comportamento da grande maioria dos políticos e autoridades da região que aprovam, ou se calam diante, por exemplo, do plano da Eletronorte querer construir, só na bacia do rio Tapajós, dez grandes barragens. Um exemplo de apoio irresponsável é o caso do prefeito e câmara de vereadores de Itaituba, quando receberam a oferta de um tal Zico 10 de esporte. Mas as autoridades de Aveiro, Belterra, Santarém, Trairão e demais prefeituras do Oeste do Pará, ou aplaudem ou se calam diante dos planos da Eletronorte.

O rio Tapajós está ameaçado de ser transformado em mercadoria a serviço de grande empresas, em detrimento das populações da região, numa agressão irreversível à natureza. Isso é um grave problema e poucos estão encarando esta realidade e reagindo. Por isso, os que promovem o estudo sobre os sistemas fluviais do Oeste do Pará precisam levantar este grave problema de hoje e não do futuro.

O hino na Campanha da Fraternidade está interrogando: “Nossa mãe terra geme de dor, será de parto, ou simplesmente agonia?” Ou juntos se enfrenta agora esse crime, ou será tarde amanhã.


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.

lua cheia em dois atos

Euza Noronha


no sertão
a sede emudece a voz
e a lua ilumina a peste
espreitando o golpe final

na rua
a lua brilha matreira
em pupilas dilatadas
pela lâmina do punhal

CRIANÇA, ENTRE LIVROS E TV

Frei Betto


Foi o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, um dos mestres de meu irmão Léo, também terapeuta, que me despertou para as obras de Glenn e Janet Doman, do Instituto de Desenvolvimento Humano de Filadélfia. O casal é especialista no aprimoramento do cérebro humano.

Os bichos homem e mulher nascem com cérebros incompletos. Graças ao aleitamento, em três meses as proteínas dão acabamento a este órgão que controla os nossos mínimos movimentos e faz o nosso organismo secretar substâncias químicas que asseguram o nosso bem-estar. Ele é a base de nossa mente e dele emana a nossa consciência. Todo o nosso conhecimento, consciente e inconsciente, fica arquivado no cérebro.

Ao nascer, nossa malha cerebral é tecida por cerca de 100 bilhões de neurônios. Aos seis anos, metade desses neurônios desaparecem como folhas que, no outono, se desprendem dos galhos. Por isso, a fase entre zero e 6 anos é chamada de “idade do gênio”. Não há exagero na expressão, basta constatar que 90% de tudo que sabemos de importante à nossa condição humana foram aprendidos até os 6 anos: andar, falar, discernir relações de parentesco, distância e proporção; intuir situações de conforto ou risco, distinguir sabores etc.

Ninguém precisa insistir para que seu bebê se torne um novo Mozart que, aos 5 anos, já compunha. Mas é bom saber que a inteligência de uma pessoa pode ser ampliada desde a vida intrauterina. Alimentos que a mãe ingere ou rejeita na fase da gestação tendem a influir, mais tarde, na preferência nutricional do filho. O mais importante, contudo, é suscitar as sinapses cerebrais. E um excelente recurso chama-se leitura.

Ler para o bebê acelera seu desenvolvimento cognitivo, ainda que se tenha a sensação de perda de tempo. Mas é importante fazê-lo interagindo com a criança: deixar que manipule o livro, desenhe e colora as figuras, complete a história e responda a indagações. Uma criança familiarizada desde cedo com livros terá, sem dúvida, linguagem mais enriquecida, mais facilidade de alfabetização e melhor desempenho escolar.

A vantagem da leitura sobre a TV é que, frente ao monitor, a criança permanece inteiramente receptiva, sem condições de interagir com o filme ou o desenho animado. De certa forma, a TV “rouba” a capacidade onírica dela, como se sonhasse por ela.

A leitura suscita a participação da criança, obedece ao ritmo dela e, sobretudo, fortalece os vínculos afetivos entre o leitor adulto e a criança ouvinte. Quem de nós não guarda afetuosa recordação de avós, pais e babás que nos contavam fantásticas histórias?

Enquanto a família e a escola querem fazer da criança uma cidadã, a TV tende a domesticá-la como consumista. O Instituto Alana, de São Paulo, do qual sou conselheiro, constatou que num período de 10 horas, das 8h às 18h de 1º de outubro de 2010, foram exibidos 1.077 comerciais voltados ao público infantil; média de 60 por hora ou 1 por minuto!

Foram anunciados 390 produtos, dos quais 295 brinquedos, 30 de vestuário, 25 de alimentos e 40 de mercadorias diversas. Média de preço: R$ 160! Ora, a criança é visada pelo mercado como consumista prioritária, seja por não possuir discernimento de valor e qualidade do produto, como também por ser capaz de envolver afetivamente o adulto na aquisição do objeto cobiçado.

Há no Congresso mais de 200 projetos de lei propondo restrições e até proibições de propaganda ao público infantil. Nada avança, pois o lobby do Lobo Mau insiste em não poupar Chapeuzinho Vermelho. E quando se fala em restrição ao uso da criança em anúncios (observe como se multiplica!) logo os atingidos em seus lucros fazem coro: “Censura!”

Concordo com Gabriel Priolli: só há um caminho razoável e democrático a seguir, o da regulação legal, aprovada pelo Legislativo, fiscalizada pelo Executivo e arbitrada pelo Judiciário. E isso nada tem a ver com censura, trata-se de proteger a saúde psíquica de nossas crianças.

O mais importante, contudo, é que pais e responsáveis iniciem a regulação dentro da própria casa. De que adianta reduzir publicidade se as crianças ficam expostas a programas de adultos nocivos à sua formação?

Erotização precoce, ambição consumista, obesidade excessiva e mais tempo frente à TV e ao computador que na escola, nos estudos e em brincadeiras com amigos, são sintomas de que seu ou sua querido(a) filho(a) pode se tornar, amanhã, um amargo problema.


Frei Betto é escritor, autor de “Maricota e o mundo das letras” (Mercuryo Jovem), entre outros livros. http://www.freibetto.org


Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

DUELO


Gerson F. Filho


Então o clamor se desnudou.
E o sorriso assim se perdeu,
Como antagônico naufragou.
Mesmo opondo-se morreu.

Paradoxo não me abrace!
Odeio amando essa agonia,
Que sempre surge no dia,
Na luz da noite o disfarce.

Prumo! Dê o seu momento.
E se for por um argumento?
Que me abrace a solidão.

Amei toda a controvérsia.
Para fugir da dependência,
Esqueci por aí meu coração.



Obs: Imagem enviada pelo autor.

A PAIXÃO DE CRISTO


      Retalho do Romance “A Última Ponte”


                 J. A. Horta da Silva
                      horta.silva@sapo.pt






Os temas sagrados foram objecto recorrente da pintura renascentista, cujas características básicas se centravam em redor da simetria dos conjuntos, das dobras e redobras dos panejamentos, no tom exibicionista de certas personagens, na elevada qualidade do vestuário usado, inclusive, por gente cuja habitação não passava de um tugúrio feito de pedra e adobe, etc. Os pintores flamengos seguiram, com frequência, estas tendências, mas o retábulo “A Paixão de Cristo”, supostamente atribuído a um célebre pintor flamengo do séc. XVI, que Arnaldo e Inês¹ foram analisar, não satisfazia o gosto do Renascimento.

A cruz encontrava-se descentrada do conjunto e as traves eram troncos de árvore selvagem com nós exsudando seiva. O Crucificado tinha compleição frágil, tez morena e fácies triangular, que apresentava uma expressão de compaixão magoada e estava tombada, sobre o peito, levemente inclinada para a direita. A cabeleira escura descia para os ombros cobertos por madeixas ensopadas de sangue e, ao redor da cabeça, havia uma coroa de espinhos cravados na carne, de onde jorravam fios de sofrimento feitos de enxovalho e, no topo da cruz destacava-se, numa tabuleta jocosa, a sigla “I.N.R.I.” que, supostamente, quereria dizer “Jesus de Nazaré; Rei dos Judeus”. O corpo estava dilacerado por chagas que se perpetuaram até aos nossos dias, cinzeladas pela expressão mais humana que alguma vez uma divindade proferiu: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste». As cordas que suportavam o corpo amarrado à cruz estavam manchadas pelo suplício de outros e as mãos abertas e pregadas no madeiro, exibiam os cravos como símbolo do hierático cilício suportado, cordas e cravos que não impediam a flexão das pernas, não obstante os pés estarem poisados e pregados, um sobre o outro, a uma peanha.

Num abraço largo à cruz, havia uma mulher morena e bonita, de cabelos negros e desgrenhados, que parecia querer esconder-se do horror por detrás de um corpo transido de amargura. Usava um véu verde e uma túnica acastanhada feitos de tecidos rústicos, cingida na cinta por um cordão que lhe realçava o busto. Não tinha cara de mãe, mas tinha a face salpicada pelo sangue do martírio e as mãos abertas e voltadas para cima, como quem deseja colher, numa árvore, o fruto que lhe pertence, impulso sentimental próprio de quem sabia o que é a angústia em toda a sua dimensão e esquecera que a dor que lhe ia na alma era reflexo de emoções e sentimentos que não indultam nem garantem a paz eterna, porque esta mulher devia ser Maria de Magdala mais conhecida por Madalena. A túnica caía de forma ondulada até roçar o chão, engolindo os pés que Jesus lavou e beijou num acto de humildade e amor.

Atrás de Maria Madalena, numa posição sesga, encontrava-se um homem que contrastava na forma luxuosa de vestir. Estava cabisbaixo e ajoelhado num só joelho, como quem deseja esconder o rosto em sinal de respeito e talvez de embaraço. O embaraço, a vergonha e a culpa são emoções sociais, e não deixa de ser possível admitir que um rico não se tivesse sentido bem entre os pobres e pudesse ser negativamente emocionado. Tinha roupa luzida, calças de folhos azuis e amarelos, camisa creme com colarinhos de sobra, casaca púrpura almofadada nos ombros e uma capa ocre e vermelha dobrada sobre o joelho flectido. A posição em que se encontrava não deixava ver mais do que uma barba cuidada que pendia para a terra ultrajada, solo que se formou por apodrecimento de um morro feito de pedra friável, barro, martírio e ossadas com cheiro a tortura. Também não se descortinava a cor do cabelo que, a atender à barba, seria castanho, pois estava escondido sob um turbante roxo, escolhido a condizer com o acto. Segundo testemunhos itinerantes, o Messias deu-se a amizades que envolveram pescadores, publicanos, prostitutas, essénios e outros, pelo que é de admitir que este homem seja José de Arimateia, que disponibilizou um túmulo para que o acto fúnebre não terminasse em vala comum.

E como encaixaria, no conjunto, a Virgem Maria? Seria de admitir que estivesse chegada à cruz, como Maria Madalena, quem sabe se ao lado de Marta, irmã de Lázaro, aquele a quem Jesus prolongou a vida. De facto, naquele lugar sórdido, estiveram muito mais mulheres do que homens. Quase todos os discípulos desertaram à excepção de João, mas as mulheres foram mais corajosas, sabe-se lá por que razão. Mas, na posição oposta a Madalena, mas mais afastadas da cruz, podia ver-se, lado a lado, duas outras mulheres em meditação. As suas túnicas e mantos tinham cores palidamente azuladas e debruo singelo. Exibiam a cabeça tapada e a face semi-oculta e compungida, personagens que se afiguravam ser Maria Cléofas e Maria Salomé, irmãs da Virgem Maria, que pareciam elevar as mãos à cara, como quem deseja tapar o horror que lhes feria a alma. Mas, se os observadores não tinham certezas sobre estas personagens, o mesmo não se podia dizer de quem estava entre o publicano e Maria de Magdala, numa posição oposta a Cleófas e Salomé.

É difícil conceber uma cena do Calvário com um homem bem mais novo do que Jesus, sem pensar em João, que viveu, passo a passo, os Passos da Paixão para os narrar por escrito, como nenhum dos outros evangelistas canónicos o fez. João foi representado por alguns pintores como uma figura loira, de cabelos lisos e compridos, imberbe e de feições angélicas, mas o jovem deste painel nada tinha de árico e muito menos de andrógino e não era credível que este retábulo pudesse estar imbuído da metáfora gnóstica, como fez Da Vinci em “A Última Ceia”, pintada no refeitório do Convento de Sta. Maria delle Grazie em Milão. A face desta personagem era riscada por traços de Jesus, o que permitia inferir que pudesse tratar-se de um parente próximo e porque não dizer, de um dos seus irmãos. Tem cabelo preto, crespo e curto e barba do mesmo timbre, aparada em forma de pêra, que lhe moldava o queixo e se ligava ao buço por arcos que contornavam os cantos da boca e dissimulavam a rigidez da face, contraída de sufoco e mágoa. Olhava para o destino com uma expressão de respeito e de admiração, sob um céu de nuvens violáceas e negras que ocultavam a luminosidade, como se o Sol decidisse retirar-se por força de respeito solene. João, Tiago ou outro, devia estar ainda pouco seguro da incumbência do Irmão de fé ou de sangue que, antes de morrer, disse para a Mãe: «Mulher...eis aí o teu filho» e para ele «filho, eis aí...a tua Mãe». Estava vestido com uma túnica avermelhada e baça, manchada de pó, que caía a direito, mostrando os pés metidos em sandálias de casca de palmeira, pelo que a sua figura não excedia nada daquilo que é inequivocamente terreno. Perante tais circunstâncias, todos aqueles que gozam da plena capacidade dos seus sentidos, comportar-se-iam de modo semelhante e, talvez por isso, esta personagem não aparentava estar à altura de alcançar um lugar de destaque, nem na história nem na religião, como a não teve José, que também não esteve no Calvário, nem se sabe como morreu, nem tão pouco os seus outros filhos, que não se sabe como viveram.

De um modo ornamental, exótico e supérfluo, a cena descrita passa-se tendo por pano de fundo a cidade de Jerusalém, sumida entre cômoros com forma ameloada, rascunhos de um gosto nórdico mal apreendido de entre as aspirações clássicas do Renascimento, facto que nega a possibilidade de o mestre responsável pela pintura ter estado alguma vez no Gólgota e, por maioria de razão, pudesse ter contemplado Jerusalém, de longe ou de perto. Mas este retábulo, para além de abandonar as características renascentistas tinha, como novidade, o abandono da pompa e, pior do que isso, uma interrogação esmagadora relativamente à ausência da Virgem Maria, facto que não devia estar ligado à incapacidade de o pintor a conseguir representar…
_________________________

¹ Narradores do romance “A Ultima Ponte”


Horta da Silva (2006) – Romance “A Última Ponte”

EXPECTATIVA


Laudi Flor
laudiflor@gmail.com


Quando iniciei a carreira de advogada, uma de minhas primeiras batalhas judiciais enfrentadas, dizia respeito à tese defendida pelas Centrais Sindicais que afirmavam ser “ a expectativa o melhor direito”. Na época, alegavam que se um empregado foi informado através da mídia de um determinado aumento em seu salário, ainda que aquele aumento não se transformasse em lei, o servidor teria assegurado o direito, pois viveu calcado em uma expectativa. Trocando em miúdos : aquele que esperou, contou, fez planos e não realizou aquilo que planejou, por ser isento de culpa não poderia ser decepcionado.A tese prosperou em alguns Tribunais mas em outros não!

Pois bem, as expectativas de coisas boas, de dias melhores, de emoções positivas fazem um bem danado ao espírito, ainda que essa expectativa seja frustrada por esse ou aquele obstáculo. Ela é infinita enquanto permanece impregnada em você.

Segundo o dicionário expectativa é:

1. Expectação; espera.

2. Esperança baseada em supostos direitos, probabilidades ou promessas.

3. Esperança.

4. Probabilidade

Fazer das pequenas coisas uma promessa de coisas positivas, desejar, sonhar, criar a esperança dos bons momentos antes mesmo que eles aconteçam, é essencial a existência humana. Os floreios anteriores aos acontecimentos podem eventualmente se frustrar mas de outro modo podem eternizar o doce que há nas coisas comuns e assim valer por uma vida inteira.

Contou-me uma amiga que ao comprar um bom vinho já fica no aguardo do momento em que vai saboreá-lo. Assim,prepara-se com uma boa música, uma roupa bonita e confortável, deixando tudo à meia luz para curtir cada cada gole como se tivesse uma agradável companhia e como se aquele gole fosse o último. A expectativa da degustação do vinho a faz viver intensamente o momento, ainda que a degustação seja solitária.

Muitas vezes nos pegamos criando expectativas de coisas desagradáveis, que mais parecem assombrações:Doenças, derrotas, discórdias e esquecemos que podíamos ter antecipado os acontecimentos em nosso favor, pensando e agindo de forma esperançosa. Não quero dizer que o pensar positivamente possa fazer com que você sempre seja um ganhador mas pode facilitar as coisas, clarear sua alma e tornar tudo mais fácil. Enfim a expectativa de coisas boas, aderindo a tese das Centrais Sindicais é o melhor direito!


Obs: Imagem enviada pela autora

 

O RISO DIVINO


Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)


“Ri melhor quem ri por último”, diz o povo. Os cristãos crêem que a ressurreição de Jesus é o ato pelo qual a vida vence a morte e o amor se revela mais forte do que todo poder do mundo. Antigos pais da Igreja grega diziam que a ressurreição é o riso divino sobre a maldade do mundo. A cultura ibérica que formou o Catolicismo na América Latina não favoreceu esta imagem de uma divindade alegre e bem-humorada. Ao contrário, as devoções são todas baseadas em imagens dolorosas e penitências sofridas. Já houve até quem escrevesse que os evangelhos mostram Jesus a chorar, mas nunca dizem que ele riu. Ao contrário, Luis Bunuel, no seu filme clássico La Voie Lactée, o mostra rindo e contando piada à mesa com os discípulos. Nisso, ele se assemelha ao Pai que, na Bíblia, pode ser visto como Deus que gosta de dança, da beleza da música e da arte (basta ver Prov 8, 22 e vários Salmos que incluem danças e cânticos de festa). Nos anos 70, Chico Buarque dizia que Deus é “um cara engraçado que gosta de brincadeira”. Já Woody Allen conclui que Deus tem grande senso de humor, mas quando olha o mundo como está, não encontra muitos motivos para rir.

Seja como for, Evangelho significa boa notícia de alegria. No Judaísmo, existe uma festa anual chamada “A Alegria da Lei”, na qual os rabinos e fiéis dançam com os textos sagrados nas mãos e bebem para comemorar a alegria da salvação. A festa da Páscoa e a celebração da ressurreição de Jesus são próprias do Cristianismo, mas antes mesmo da Bíblia ser escrita, no hemisfério norte, a primeira lua cheia da primavera era festejada com danças que imitavam a ressurreição da natureza que se renova (em hebraico, o nome para passo é Páscoa). Hoje, precisamos recuperar um estilo de fé alegre, confiante e otimista. Nossa confiança no futuro não vem tanto de uma fria análise da realidade que é cada vez mais complexa e dolorosa, mas de uma certeza de que somos chamados a fazer com que o amor vença as forças negativas do egoísmo, seja econômico, seja cultural e a vida triunfe sobre a morte em todos os seus aspectos.

Uma vez, nos anos 80, celebrei a Páscoa em meio ao sofrimento terrível de lavradores ameaçados de morte, por fazendeiros inescrupulosos e pistoleiros contratados para amedrontá-los. Estávamos cantando Aleluia e proclamávamos que se Jesus ressuscitou, o mundo ainda tem salvação. De repente, alguém gritou no meio do povo: “Como podemos cantar ressurreição e vida em meio a tanta dor e perigo de morte?”. Lembrei-me do salmo no qual os israelitas, escravos na Babilônia, se perguntavam: “Como cantar os cânticos do Senhor em uma terra de opressão?” (Sl 137). Respondi: “Cantamos ressurreição e vitória, não porque desconhecemos a cruz e a morte presentes atualmente neste mundo, mas porque cremos que a energia da ressurreição já está atuante em nossas dores e podemos, sim, retomar com mais força o projeto de vida em plenitude que a ressurreição de Jesus nos aponta”.

Hoje, a grande tentação é a do marasmo. Se olharmos em volta, podemos desanimar ao ver que ideologias sucumbiram, utopias parecem adormecidas e não se vê um projeto claro de futuro para o nosso país e para o mundo. A sociedade aparenta acomodamento e as organizações sociais se mostram fragmentadas. A celebração de uma nova primavera para as religiões e para o mundo sinalizam que mudar isso é possível. Para quem crê, a Bíblia aponta um projeto de transformação radical do mundo e de nós mesmos (“Venha a nós o teu Reino). A ressurreição de Jesus inaugura uma proposta ou projeto de vida nova para cada ser humano e para o mundo. Se abrimos os olhos e o coração, veremos que, mesmo em meio a muitas contradições, há alguns sinais de que algo novo está nascendo e crescendo. Os fóruns sociais, como encontros da humanidade revelam que o altermundialismo (“um novo mundo é possível!”), cada vez mais, se espalha mais pela humanidade. De países irmãos da América do Sul, o bolivarianismo nos chama a uma nova pátria grande e os povos indígenas, que pareciam vencidos, hoje tomam um protagonismo novo em todo o continente e com voz ativa na própria ONU. Mesmo se o Brasil ainda sobrevive sem um projeto social e político claro, a não ser um mero crescimento econômico, pouco atento à sustentabilidade da vida no planeta, precisamos retomar o diálogo da sociedade e dos grupos em função do que acreditamos e queremos para o nosso país. Para as Igrejas cristãs, é tempo de retomar a proposta dos bispos católicos, reunidos em Medellín, na Colômbia, em 1968: “Que se apresente em todo o continente o rosto de uma Igreja pobre, missionária e pascal (podemos compreender isso como uma Igreja que caminha e evolui aberta a mudanças); uma Igreja comprometida com a libertação de toda a humanidade e de todo ser humano em sua integridade” (Med 5, 15).


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

CRUZ: SUPLÍCIO OU ESPERANÇA?


Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio


A novidade da revelação cristã de Deus exige um ser humano novo, uma nova criatura. Sendo revelação de um mistério, só pode ser captada pela fé. Por isso, quando os Evangelhos apresentam Jesus, seus atos e palavras, eles o fazem de maneira misteriosa e velada.

Aqueles que no tempo de Jesus detinham o poder religioso e a interpretação oficial da verdadeira religião, declarando-a única e legítima, interpretaram Jesus como alguém que agia movido pelo espírito de Belzebu, e não pelo Espírito Santo. Consequentemente, por ser interpretado assim, Jesus devia morrer. Esse conflito o levou à condenação e à morte.

É aí que se levanta a grande questão que interpela a teologia e coloca a fé em cheque. O acontecimento da condenação e morte de Jesus é que vai pôr o selo definitivo na questão sobre sua natureza divina e sobre a identidade do Deus da revelação. Jesus é preso, acusado, condenado, torturado e morto. E diante de sua morte, seus seguidores silenciam e se dispersam, deixando-o sozinho. Fracassado e abandonado, ele e seu projeto são expostos à execração pública, aparentemente fracassados e destruídos. E não somente as testemunhas se calam. Deus também se cala. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que não suportou ver o povo sofrendo no Egito e no cativeiro da Babilônia, que mantinha com Jesus de Nazaré diálogo permanente e amoroso, de Pai para Filho, em profunda intimidade, retira-se e silencia diante da tragédia por que passa o Filho bem-amado.

A cruz de Jesus é o sinal de seu amor fiel à causa do reino de Deus. Não se pode separar a morte de Jesus do resto de sua vida. O martírio de Jesus toma seu sentido pleno como consequência dramática e coerente de sua mensagem e de sua obra; a cruz é o símbolo de sua absoluta fidelidade ao Pai. É, portanto, inseparável das perseguições e conflitos que a precederam; dos critérios, opções e atitudes de Jesus; do conteúdo de sua pregação.

Porque Jesus revelou o Deus verdadeiro; questionou a decadência religiosa e as deformações do discurso oficial sobre Deus; fez publicamente dos pobres e pecadores os preferidos de sua solicitude; combateu os ídolos de sua sociedade; questionou seus falsos valores; Jesus desatou o conflito que o levou à cruz. Portanto, para o cristão, o sofrimento – ou seja, as cruzes da vida - são a sequela coerente do seguimento fiel de Jesus Cristo. Frequentemente certa devoção cristã separou a cruz do resto da vida de Jesus. Isso fez com que a cruz fosse também dissociada da vida cristã em sua cotidianidade. Na verdade, ela está sempre presente, já que seguir Jesus é tornar-se interpelação e contradição no meio do mundo.

Em seu aspecto sombrio e negativo, a cruz nos ensina que o mal estará sempre presente enquanto dure a história. Por mais que o combatamos, sempre reaparece de novas maneiras. Sua persistência é uma trágica realidade. Sua oposição aos valores do Reino de Deus é constante. Por isso, é capaz, hoje como sempre, de trazer para a Igreja e sua missão duros fracassos.

A cruz nos ensina que a conversão do mundo contém a dimensão profunda de uma luta contra o mal (o pecado), expresso hoje em formas concretas: a corrida armamentista, todas as espécies de ameaças contra a vida, a corrupção do amor, a exploração do homem pelo homem, a fome, a miséria, o materialismo e todas as formas de injustiça, a agressão à natureza e ao planeta colocando em risco mortal o futuro da vida.

A Paixão e morte de Jesus de Nazaré, encarnação da inocência e do bem, recorda-nos hoje em dia que os inocentes e justos da terra, os fracos, os pobres e os desamparados continuam sendo crucificados. Pela cruz, a paixão de Cristo é a paixão do mundo, e a paixão do mundo é a paixão de Cristo.

Mas a paradoxo é que a cruz é decisivamente também sinal de esperança. Apesar da presença do mal, sobrepondo-se a ele, a cruz é sinal de esperança certa no reino, de sua eficácia e de sua vitória definitiva sobre todas as formas de pecado.

O paradoxo da cruz consiste em que o que em primeira instância parece um fracasso - a morte de Jesus e o fracasso da causa do reino; a perseguição e a derrota dos bons e o aparente triunfo do mal - por causa do poder de Deus que ressuscita Jesus dentre os mortos, transforma a cruz em fonte de nova vida e de libertação total, e constitui o começo irreversível da destruição do mal em sua raiz.

O mal, para ser superado, requer redenção. A perseguição e a cruz são a dimensão redentora da fidelidade. Ali onde os meios humanos são impotentes para atacar as raízes de todos os males e de todas as injustiças, o sofrimento e as cruzes que acompanham a vida cristã incorporam tudo aquilo que sofrem os discípulos à perseguição e ao martírio do Mestre, Jesus de Nazaré. Assim "completamos o que falta à paixão de Cristo em benefício de seu Corpo, a Igreja" (Col 1,24).

A cruz é o sinal da esperança cristã, porque nos ensina que na história o mal, o egoísmo, a injustiça, não têm a última palavra. A última palavra na história é do bem, da fraternidade, da justiça e da paz encarnados e testemunhados por Jesus e confirmados por Deus Pai na Ressurreição de Seu Filho.


Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


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ONDE OS ADULTOS – PARTE II


Maria Inez do Espírito Santo


Trago perguntas dentro de mim, desde que ouvi as primeiras notícias, que preciso passar adiante, para que pensemos juntos, se existem respostas ou se, ao menos, existem hipóteses, que nos levem à proximidade de soluções:

- numa escola em horário de aulas, com pelo menos um professor por classe, por que será que o socorro externo veio a pedido de um aluno – o pequeno Alan - que, mesmo ferido e em estado de choque, conseguiu correr em direção a sua casa e encontrou o policial que, atendendo ao pedido desesperado da criança, entrou na escola, encerrando de vez a trajetória macabra do assassino?

- se o monstruoso criminoso mirava apenas em determinadas crianças, que ele selecionava, perfilava e exigia que se voltassem para a parede, que se ajoelhassem, conforme uma encenação delirante toda sua, por que nenhum professor tentou defender os alunos, ficando provavelmente imóveis e paralisados frente ao massacre? Não causa espanto que não haja nenhum adulto ferido nesse episódio?

- por que mesmo ao ouvir os sons de disparos (tão conhecidos dos cariocas residentes em qualquer bairro, das zonas norte, sul ou oeste, convenhamos) e ao topar com crianças saindo correndo das salas, aconteceu de professores tentarem barrar-lhes a passagem e só perceberem do que se tratava, ao ver sangue empoçado no caminho?

- como, num prédio com salas de aulas dispostas em 3 andares, disparos que foram ouvidos pela vizinhança da escola, não provocaram por parte dos adultos da Escola, nenhum movimento efetivo de pedido de socorro externo imediato?

- se seu intuito fosse apenas exterminar jovens (e os mais expressivos, como dizem as primeiras conclusões) e já pretendendo suicidar em seguida, por que o jovem Wellington que morava em frente a duas outras escolas públicas, em Sepetiba, não teria feito isso ali mesmo, na vizinhança próxima, e escolheria justamente fazê-lo no lugar onde estudou por alguns anos de sua juventude?

- por que ele falou em histórico escolar, quando se dirigiu a uma funcionária, antes de entrar nas salas de aula da escola? A que história poderia estar se referindo?

- por que as escolas públicas, que, da mesma forma que as particulares, impõem aos pais que acatem integralmente seus regulamentos, exigindo documentos e informações detalhadas sobre os alunos, e que representam o poder oficial de aprovar, desaprovar, repreender, suspender e até expulsar alunos, não são obrigadas a garantir sua segurança, mantendo, por exemplo, porteiros alertas, que verifiquem quem entra e quem sai dos prédios, durante todo o tempo do horário de aulas, pelo menos?

- por que parece tão absurda, aos nossos governantes, a sugestão, que foi feita por muitos, de haver detector de metais nas portas das escolas (mesmo quando se sabe de inúmeros casos de alunos e até funcionários portando armas brancas ou de fogo), se esta prática é comum no embarque rodoviário, na portaria de bancos e até em alguns prédios urbanos?

Houve um tempo, anos depois de minha experiência como fundadora e diretora de escola particular, em que fui coordenadora de um CAT do SESI. Havia toda uma escola - de educação infantil à ensino médio, funcionando em três turnos - sob minha responsabilidade. Escolhida para o cargo, após três longos meses de seleção, senti-me, ao assumi-lo, profundamente responsável e muito orgulhosa de poder colaborar com o processo de Educação, numa comunidade tão necessitada desse trabalho, como era a de Bonsucesso (Rio-RJ). Mas, durou apenas 50 dias, aquela tentativa de cumprimento de minhas funções. Logo entendi que a direção daquele CAT, com a cumplicidade acovardada e talvez conveniente da direção do SESI, estava submetida às ordens do tráfico local. Surpreendi uma ex-aluna, sobrinha de um conhecido traficante e sua reconhecidamente sua representante, frequentando diariamente o turno da noite da Escola, num comportamento flagrantemente suspeito. E ela permanecia por ali, circulando livremente, nos horários entre as aulas, de forma totalmente irregular, com a conivência de uns e o “faz de conta que não estou vendo” da maioria dos professores. Ao tentar encontrar explicações para isso, buscando impedir a continuidade dessa prática, fui avisada de que corria riscos pessoais com minha atitude. O mais estarrecedor é que o aviso veio da direção da casa e não dos traficantes, diretamente. Passei a ser hostilizada pelos meus superiores e a pressão só aumentou quando decidi promover reuniões de pais, chamando os moradores da comunidade para um trabalho conjunto de prevenção, através do desenvolvimento de valores em Educação. Essa amarga experiência me levou a pedir demissão do cargo, para não participar indiretamente daquela conspiração, após relatar o ocorrido em documento que protocolei no SESI, antes de me retirar definitivamente, e para o qual nunca obtive resposta.

Volto a essas recordações, por conta de analisar a questão da segurança dos alunos nas escolas. Poder-se-ia dizer, em defesa dos professores e funcionários burocráticos que não lhes cabe cuidar dessa área. Estariam ali apenas para ensinar. Mas o que é possível ensinar, quando não se educa, concomitantemente? Esta é minha pergunta. E Educação não implica cuidado integral?

Se vivemos num mundo extremamente violento, em um centro urbano (como tantos outros) visivelmente adoecido (porque, de há muito, os sintomas sociais apontam para sociedades psicopáticas e não mais neurótica, como nos tempos de Freud) e não percebemos, nem registramos os sinais emitidos pelo ambiente em que vivemos, estamos, também psicóticos e passíveis de, a qualquer momento, ter, também, nosso surto espetacular, na tentativa de sair de tanto sofrimento sufocado.

Por isso aquele corpo precisa continuar insepulto. E, por isso, talvez, a Vida tenha forjado mais essa tragédia.

O Prefeito Municipal fala em escola aberta à comunidade, para justificar a falta de um porteiro, à porta das instituições de ensino públicas. O Governador do Estado trata de transformar em herói aquele que simplesmente cumpriu seu dever de policial. Os diversos Secretários, Ministros e até a Presidente da República exibem suas consternações e sofrimentos, buscando resguardarem-se de envolvimentos maiores com a responsabilidade social do fato. Os professores pedem policiamento para as escolas, que sufoque as consequências da deseducação de que fazem parte, mesmo que não tenham consciência disso. Os pais estão, de há muito, totalmente desorientados, porque perderam o lugar de intocáveis - como orientadores únicos, que eram no passado - e padecem de todas as dúvidas reais que o advento da Psicologia trouxe (pra bem e pra mal), sem conseguir ainda encontrar novo perfil para suas funções. E, desamparadas, as crianças crescem com medo e vão se conformando em serem abandonadas e solitárias, reagindo ora agressivamente, ora se submetendo à agressividade dos outros. Assistentes sociais e psicólogos são chamados para trazerem unguentos que possam minorar a dor emocional e médicos dedicam-se à luta contra a morte iminente e ao tratamento do males físicos das vítimas. Policiais investigam os rastros aparentes do criminoso, para tentar fazer seu trabalho, sabendo que não poderão aprisionar, nesse caso, nenhum culpado, que possa ser apontado como réu, num inesquecível tribunal de júri. E, enquanto isso for a notícia da hora, os jornais e a televisão faturarão alto, informando, mas ao mesmo tempo explorando a miséria humana.

Mas cadê o flautista? Num mundo infestado de ratos, (como em Hamelin) só mesmo ele poderá vir a impedir que os nossos aspectos monstruosos se multipliquem e se agigantem.

QUE A NOSSA PÁSCOA PERMANEÇA!


Nelly Barros
gioie@terra.com.br


Não tem sentido se não for assim. Uma permanente defesa da Vida, uma firme adesão de corpo e alma ao Bem, à Verdade, ao que soma, ao que traz Alegria, à palavra amiga, à construção do melhor, mesmo que às vezes ele pareça distante, quase utópico... Não podemos permanecer caídos, mesmo quando o peso é grande e o cansaço parece que chegou ao limite... Nesses momentos especiais, só há uma saída: “orai sem cessar”. Quem já viveu momentos de grande dor, já experimentou o poder da oração, da urgência de fazer silêncio, de deixar que a alma se aninhe qual criança no colo do Pai. A alma vai-se acalmando, aos poucos tudo vai voltando à paz e ressurgimos, com o ânimo renovado. Que essa Páscoa permaneça, que a nossa fé na ressurreição não se reduza a um período do ano, mas seja o “motor” , o motivo da nossa canção, a razão da nossa alegria!!!!

FELIZ PÁSCOA! E QUE ESSA PÁSCOA PERMANEÇA!!!!


(Páscoa de 2011)




 
Obs: Imagens enviadas pela autora.

O Paraíso mora na outra esquina

(Independente ou morte)?

Patricia Tenório
http://www.patriciatenorio.com.br
patriciatenorio@uol.com.br

27/03/2011


Termino de ler O Paraíso na outra esquina, de Mario Vargas Llosa. Trata-se da biografia romanceada da revolucionária francesa Flora Tristán em paralelo com a de seu neto, o artista plástico Paul Gauguin.

Com ritmo lento, próximo ao monótono, Llosa, com uma linguagem na maior parte de confidências, desvela a história da mulher Flora e do homem Gauguin, suas fraquezas e virtudes, a força propulsora que os move, apesar dos caminhos (aparentemente) diversos que tomam. Sinto como se Gauguin tivesse sido privilegiado pelo escritor peruano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. O escritor que, por ser ele mesmo engajado nas lutas sociais de seu país, até mesmo tendo concorrido à presidência, poderia ter emprestado à personagem Flora Tristán a mesma poesia, a mesma delicadeza com que envolve e nos seduz em Paul Gauguin. O espírito revolucionário de Flora é sobrepujado pela liberdade selvagem de Gauguin, que nos apresenta as cores vivas e vibrantes especialmente do Taiti e nos convida a despir das camadas civilizatórias que nos embotam e fazem seguir um comportamento massivo e repetitivo dos seres considerados normais.

Mas o que é ser normal? Nos tortuosos caminhos percorridos tanto por Flora quanto por Gauguin, procuraram sempre estar de acordo com suas próprias consciências, com suas próprias paixões.

Existe um livro, honesto (ele não se propõe a mais do que isso) de Daniel Pennac, que nos apresenta os direitos do leitor:

“1 – O direito de não ler.

2 – O direito de pular páginas.

3 – O direito de não terminar um livro.

4 - O direito de reler.

5 - O direito de ler qualquer coisa.

6 - O direito ao bovarismo.

7 – O direito de ler em qualquer lugar.

8 – O direito de ler em voz alta.

9 - O direito de calar.” ([1])

Llosa chegou a me desestimular da leitura até quase o final do livro quando, então sim, através do encadeamento de tempos narrativos diversos, de me pôr numa espécie de bruma entre o que é sonho e o que é real, induz a uma dinâmica e empatia com os personagens, acelerando o ritmo percebido, me fazendo sair de uma maneira positiva da leitura.

A meu ver, a história de Flora Tristán poderia ter sido mais aprofundada e dada ênfase a liberdade dessa mulher que, para aquele tempo, escolheu o seu destino. Sinto uma espécie de caricatura no momento em que o romance com Olympia Maleszewska, o grande (e talvez único) amor da vida de Flora, é pincelado e tolhido de maiores detalhes (míseras cinco páginas).

Flora escolheu um caminho que mesmo hoje é repreendido pelas mulheres ditas modernas: a solidão. É certo que existiam outros elementos em cena (“A união operária”, etc), e concordo que ela se doou ao extremo por uma causa, excluindo de viver de maneira plena com alguém que amava para poder lutar por todas as outras mulheres e trabalhadores desvalidos semelhantes a si. Mas qual o problema de estar só? De ser só?

Lembro de uma discussão que tive com colegas de minha filha de dezesseis anos. Elas me chocaram ao afirmar que seu maior desejo era casar com um homem rico que as sustentasse. Não por precisarem financeiramente, mas para não trabalharem, não lutarem por um ideal. O que está acontecendo com essas meninas? E o que me apavora é conhecer mulheres adultas que pensam exatamente da mesma maneira. Para onde foi a luta de Flora Tristán, Simone de Beauvoir, Simone Weil, Isadora Duncan… e tantas e tantas outras mulheres que, juntamente com homens também especiais, revolucionaram o mundo em favor dos excluídos – leiam-se mulheres, negros, índios, homossexuais, judeus, mulçumanos, árabes… e todos os rótulos que tentaram pregar em nossas caras feito máscaras impossíveis de arrancar?

Não estou aqui para julgar a vida dos outros nem para ser feminista ou machista, mas por ter sido contaminada pela luta libertária de uma Flora tão incompreendida – inclusive por mim no início da leitura –, quando na busca incessante da dignidade, plenitude, do olhar no espelho e poder ver um ser humano.

Mas não entrei neste livro totalmente desarmada quanto aos personagens – e talvez por isso a fluidez da leitura não tenha chegado à sua potência máxima. Principalmente em relação a Paul Gauguin. Após ler de maneira apaixonada Cartas a Théo([2]), de Vincent Van Gogh, percebo que Van Gogh me induziu a ficar ao menos cismada com seu amigo-inimigo de Arles. Mario Vargas Llosa teve como grande trunfo, para mim, apresentar um Paul Gauguin nu e verdadeiro, mostrar o outro lado das Cartas de Vincent Van Gogh a seu irmão Théo, o lado mais humano de dois seres geniais, Vincent e Paul, e que dificilmente poderiam permanecer juntos sem abocanharem e/ou reprimirem o talento um do outro.

Termino de ler O Paraíso na outra esquina, de Mario Vargas Llosa. Como escritora, leitora e pessoa saio maior, apesar e principalmente por causa das divergências, por aprender até mesmo com o que não gosto, com o diferente, com uma possibilidade de mim mesma que, em alguma encruzilhada da vida me foi perguntado se “O Paraíso é aqui?” e o tentei encontrar na “outra esquina”.

__________________________________________

(1) Como um romance, Daniel Pennac, L&PM, pág. 126.

(2) Cartas a Théo, de Vincent Van Gogh, L&PM, especialmente da página 308 à página 318, onde trata do acidente de automutilação de Van Gogh.



Obs: Imagens enviadas pela autora: Fotos de Flora Tristán e Paul Gauguin

TEXTO DE PAULA BARROS


www.pensamentosefotos.blogspot.com
(mpaula26@hotmail.com)


Estou voando nas tuas asas. É verão, com ar de primavera, cheiro de flores no ar. Gosto dos rasantes que você dá, sinto frio na espinha, me agarro nas tuas asas e sigo.

Vamos beirando sempre o horizonte, lá onde ele se encontra com o mar. É tão distante.

Você faz muitas acrobacias, vira de ponta a cabeça, bate as asas mais forte. Me segura! Tenho sempre medo de cair. Quando escorrego, fico estatalada no chão, meio morta, meio viva, e choro. Sempre choro.

Por enquanto estou aproveitando os voos, e hoje pensei na queda, mas deixa prá lá. Voa mais alto, vai, sim, bem alto. Ah, sorrio com o vento soprando meus olhos, fazendo cócegas nos meus cabelos. Gosto de sentir tuas asas me levando


Obs: Imagem enviada pela autora.

AINDA BEM!


Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Será que um pai
precisa mesmo
dizer para o filho
que o ama?
Acho tão sem propósito isto,
mas..
melhor pensando
nas decisões de um governo
em diminuir os proventos
dos aposentados!!!
É mais que necessário!
Talvez um grito!
E pior, de desespero!
Afinal,
não foi lembrando
todo um passado
de dor,
de sacrifício!
E pensar
que foram atitudes
tomadas por filhos!
É.. esqueceram
seres que deveriam
ser amados
e no outono de suas vidas,
resguardados,
protegidos..
Não entendo mais nada!
Como querem
erguer uma casa
se a fundação
é relegada, esquecida?
E quando vierem
as tempestades,
os ventos,
as chuvas de granizo?
Ainda bem
que meu pai
foi para a eternidade
sem presenciar isso..



Obs: Imagem da autora