segunda-feira, 2 de maio de 2011

DO DOMINGO, SUGESTÕES

Vladimir Souza Carvalho (*)


Divido o domingo em duas partes absolutamente desiguais. A primeira vai do amanhecer até às 17 horas. A segunda, a partir daí. É justamente dessa segunda que não gosto. Não gostar é pouco. Em verdade, me causa tristeza. É como se, de repente, fosse carimbado na cara com uma depressão que não encontro explicação. Fico imaginando se liga aos finais de domingo, quando tinha de preparar a mala para voltar, de Itabaiana à Aracaju, na noite ou na segunda, pela madrugada, nos tempos de estudante. Não sei, mas desconfio.

De real e concreto é que não gosto do final do domingo. A música do Fantástico também ajudou a contribuir para o meu estado espiritual, de silêncio, absoluto silêncio, quando a noite do domingo vai chegando, a avenida ficando vazia, e a perspectiva da segunda-feira se abrindo. Talvez o domingo represente a véspera das viagens que fazia quando era juiz federal para Maceió, e, agora, o deslocamento até Recife. Talvez. A resposta está bem escondida em algum lugar de minha cabeça, em comportamento do qual devo ter perdido a chave.

Depois, a noite do domingo parece que foi marcada para se ficar em casa. Nem aniversário no domingo à noite tem graça. É a sina do domingo, dia em que ninguém mais casa. Antigamente, em Itabaiana, casamento que se prezasse era no domingo. Agora, não. O domingo foi relegado ao plano tão inferior que só eleição se marca para o domingo, porque a tristeza do final de tarde se casa bem, muitas vezes, com o resultado apurado. Brincadeira minha, claro.

Fico pensando numa solução para dar ao domingo, do final da tarde em diante, outra conotação. Posso formar uma comissão para receber sugestões e apontar, depois, em relatório, as melhores e, entre as melhores, uma lista de três que poderiam ser invocadas para a execução mais imediata. Sugestão para tornar o domingo alegre, afastar a depressão do final das suas tardes. Não sei se vai funcionar.

A de mais prática até agora se resume numa alteração dos dias da semana. O domingo receberia, na pia batismal, outro nome. Quem sabe se o problema não estará no nome? Ou então, diminuir o tamanho do domingo. O domingo iria até às 17 horas. A partir daí, não seria mais domingo. Mas um período intermediário entre o domingo e a segunda-feira, que poderia receber uma outra denominação. Véspera da segunda-feira, por exemplo.

Ou então, esticar o domingo para a segunda-feira e decretar feriado permanente na segunda-feira. Para tanto, em lugar de uma comissão para receber sugestões, organizo uma equipe para pegar assinaturas na rua a fim de enviar um pedido, com milhões de assinaturas, para o Congresso Nacional. Só espero que, vitorioso o projeto, não tenha, no final das tardes de segunda-feira, a mesma tristeza que hoje o final da tarde do domingo me causa. E se tiver, a gente avança na terça-feira, com outro projeto. E, assim sucessivamente, até que final de tarde de véspera de dia de trabalho deixe de me causar tristeza.


(*) vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Diário de Pernambuco