segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

ZÉ CARRETEL E SEUS PÉS TORTOS

Vladimir Souza Carvalho *


Coloco na mesma mesa Zé Carretel, Zeca Mesquita e Charles Chaplin. É verdade que o último dispensa apresentação. O segundo, os de Itabaiana conhecem, é o maior itabaianense nascido em Maruim. E, Zé Carretel? Bem, era engraxate, filho de escravos, provavelmente libertos com o ato de 13 de Maio. Ou seja, junto com os dois, evidentemente, fica sobrando, ou, pelo menos, confere ao trio uma tonalidade diferente, por não ter sido o maior comediante do cinema, nem desempenhado o papel de Barão de Mauá de Itabaiana.

Mas, há uma linha de similitude entre os três: os pés tortos, ao estilo pé de pato. Todos os três apresentavam o mesmo caminhado, apesar das diferenças, e, aliás, profundas, social, cultural, econômica, que os mantém em locais bem distantes. O caminhado de Charles Chaplin, nos filmes mudos, se igualava ao de Zeca Mesquita, que eu muito vi indo de casa para o cartório. Ao dois se soma o de Zé Carretel, que, no aspecto, justiça seja feita, os superou.

Os pés de Zé Carretel se abriam tanto, ao caminhar – um especialista explicaria melhor –, ficando a apontar para direções tão antagônicas, que a gente, menino – e lá vem eu com minhas recordações de infância -, à míngua de qualquer outro tipo de brincadeira, imitava Zé Carretel. A imitação era simples, porque, à época, tudo era marcado pela simplicidade, e se fazia com o uso do sapato direito no pé esquerdo e do sapato do pé esquerdo no pé direito. Era só trocar os sapatos e sair caminhando, três passos para um lado, três passos para outros, e estava ali, a frente dos que assistiam, crianças também, um outro Zé Carretel.

A brincadeira assim se resumia. É certo que era muito pouco, nem à época, a gente conhecia Charles Chaplin, nem podia imaginar que o proprietário do Cine Popular, do Auto-falante Popular, da empresa de energia elétrica, ou, em miúdos, que Zeca Mesquita tinha os mesmos pés tortos de Zé Carretel. Quem chamava a atenção, pelos pés tortos, era única e exclusivamente Zé Carretel. Marca exclusiva sua eram os pés tortos e a conseqüente imitação tola que fazíamos. Só.

Zé Carretel deve ter sido engraxate a vida inteira. Na década de vinte, por exemplo, montava sua tenda de trabalho embaixo do jenipapeiro, em frente a então Casa Paroquial, ao lado da Igreja. Do outro lado, a feira, e na feira, os seus fregueses. O meu tio-avô, José Ademar de Carvalho, em sua cadeira de rodas, lhe fazia companhia, e foi de Zé Carretel que ganhou jaca mole, na manhã do dia de sua morte, levando muitos a pensar em ter sido a jaca a causa da morte, ao provocar uma congestão. A descrição dos últimos momentos de Ademar levaram o dr. Luiz Carlos Andrade a concluir por um ataque de coração.

Na década de cinqüenta, e aí eu entro na história, alcancei Zé Carretel como engraxate, e, salvo engano, com sua tenda na calçada da farmácia de Oliveirinha, numa das esquinas da Rua das Flores. Tenho a impressão que uma senhora, da mesma cor, bem enfeitada, lhe fazia companhia, mas me falta a certeza, porque a memória não guarda tudo, e, em nível de Zé Carretel, só conservou seus pés tortos, ficando o rosto – que agora procuro – escondido dos meus registros.

Zé Carretel morreu em 27 de fevereiro de 1963, segundo anotação de meu pai em suas cadernetas – que ainda hei de dar à lume todo o acervo inscrito. Com a data em mão, estava o caminho aberto para se verificar, no Cartório do Registro Civil, o nome de Zé Carretel, porque Carretel deve ser um apelido, e é, sem que ninguém possa hoje mais explicar a origem. Mas, dura realidade, do registro consta Jos Carretel, com sessenta e cinco anos, e, demais dados desconhecidos. Se tinha essa idade ao morrer, nascera no ano de 1898, sendo, portanto, um ano mais velho que Nelson Tocha. Como informante, está consignado o nome de Antonio Carlos da Silva. Se, em verdade, era Jos e não José, por Zé ficou.

A falta de dados mata Zé Carretel duas vezes, pela ausência do nome de família, fadado a levar à eternidade, como levou, o apelido, que a ele se incorporou, e, com o apelido deve ter chegado a algum lugar e assim se apresentado. Se, de um lado, finca no terreno do desconhecido a falta de um nome de família, por outro lado, consagra o apelido, a ponto de ser, talvez, um dos poucos itabaianenses a elevar o apelido, no registro de óbito, a condição de sobrenome. Não deixa de ter a sua importância, que outro, pelo que se saiba, ainda não ostentou.


* vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe