segunda-feira, 27 de setembro de 2010

UM REBENTO DE ESPERANÇA



Vilmar Locatelli
( vlocatelli@hotmail.com)


Das entranhas brota o remendo
inquieto no tempo
procura o sol
e dança com a brisa fresca da manhã

Vai tomando as cores do verde
e o lustro das folhas
iluminam nos olhos
silêncio e mistério

O banho da água
deixa as gotas
fluidamente acariciarem
tua beleza

Entre os pingos da chuva
o cheiro da flor que insistente
desabrocha sem permissão
multicor audaciosa

Brota sem medo rebento!
Venha acontecer o verde
Nesta paisagem indiferente

A tua irmã água não ficará indefesa
o teu sol não vai ferir o ser
as espécies se multiplicarão
a colher das tuas raízes
o sal e o suco da vida.

As sementes serão plantadas
e nos vales secos brotará vibrante
um tempo novo.

Nas veias destes humanos
correrá a seiva verde
de uma esperança presente
Amarão o mar
cantarão uma cantiga de ninar
à pequena flor
que ensinará para o mundo
que ainda é possível
ser gente.

CARTA PASTORAL DOS BISPOS SOBRE ELEIÇÕES 2010 *



Dom Sebastião Armando Gameleira Soares **
sgameleira@gmail.com


“Eis que eu sou contra os que profetizam sonhos mentirosos,
Diz o Senhor, e os que contam,
e com as suas mentiras e leviandades fazem errar o povo.”
Jeremias 23,32


Vivemos mais um período eleitoral em nosso país. Há mais de duas décadas o povo brasileiro tem tido a possibilidade de eleger seus representantes. Com avanços consagrados na Constituição de 1988 e ao longo dos anos desde então, outras formas de participação popular se desenvolveram no monitoramento da atuação dos representantes e governantes, na decisão direta sobre temas polêmicos (através de plebiscitos ou referendos), e na concepção e implementação de políticas públicas (através de várias formas de consulta, fóruns e conselhos).

As igrejas cristãs brasileiras tiveram uma contribuição importante neste processo, mesmo quando tal contribuição não se estendeu à maioria de seus membros. Através de seus meios institucionais de expressão da voz da igreja, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil tem sido parte integrante destas iniciativas, permanentemente. Somos uma Igreja presente e atuante, que apesar de ser uma pequena parcela do Corpo de Cristo em nosso país, tem tido o privilégio de contar com irmãos e irmãs, bispos, clérigos e leigos, comprometidos, conscientes e atuantes na busca da justiça, da paz e do amor que encarnam os principais valores do Reino de Deus.

Este ano, elegeremos pessoas nos níveis federal e estadual, tanto na esfera executiva como legislativa. É hora de fazermos um balanço da atuação e das realizações dos que foram eleitos no último pleito. É hora de projetarmos nossas aspirações para o presente e o futuro e identificarmos responsavelmente aquelas forças políticas e pessoas que têm a credibilidade, a capacidade e o compromisso para viabilizar essas aspirações. O aperfeiçoamento democrático para o qual a Igreja tanto tem contribuído acaba de consagrar o instituto da idoneidade para os candidatos, através da chamada Ficha Limpa. Apesar de todas as conquistas das últimas décadas de vigência democrática, ainda há muito o que fazer para aproximar o que o país pode oferecer ao conjunto de seus cidadãos e cidadãs e o que de fato está a seu alcance, em termos de direitos, reconhecimento, bens e serviços. Não há democracia sólida sem justiça e liberdade para todos. Não há liberdade política autêntica sem palpáveis mudanças que permitam vida digna para todos. As eleições, sabidamente, não proporcionam respostas imediatas para essas questões, mas permitem duas coisas muito importantes: o debate público de temas, problemas e interesses que expresse a pluralidade de posições e mesmo os conflitos que marcam toda sociedade humana; e a escolha de projetos e pessoas cujas propostas e perfil se ajustem às aspirações da maioria.

Ainda é muito forte em nosso país uma atitude que privilegia o debate e as escolhas ligadas ao poder executivo. As candidaturas presidenciais e para os governos estaduais tomam quase todo o tempo de discussão, e as legislativas são apresentadas mais em função do apoio dado aos candidatos ao executivo do que em termos das plataformas de atuação dos representantes no legislativo. Nossa Igreja gostaria de insistir com seus membros, neste pleito, que dêem a devida atenção aos dois processos: nossas escolhas para o executivo darão a direção geral que queremos para nosso país e nossos estados, mas são as escolhas para o legislativo que darão conteúdo e meios de viabilização dos projetos apresentados pelos candidatos à Presidência e ao Governo dos Estados. Lembremos que o poder legislativo é a instância originária das leis que devem ser cumpridas pelos agentes públicos. É preciso que usemos de sabedoria, responsabilidade e agudo senso de justiça e verdade para não perdermos a oportunidade de elegermos representantes que estejam à altura de nossos valores e desejos. Que recusemos as vantagens fáceis, os presentes, os apertos de mão sorridentes de pessoas que após eleitas já demonstraram que não cumprem seus compromissos. Apliquemos em nossas escolhas o critério da Ficha Limpa e evitemos reconduzir políticos que não foram sérios na gestão da coisa pública. Que saibamos discernir entre os novos candidatos e candidatas, aquelas pessoas que de fato possuem experiências de serviço à população, especialmente aos muitos pobres, marginalizados e vítimas de preconceito e discriminação.

As eleições de 2010 são muito importantes como avaliação de um governo que serviu dois mandatos, no nível federal, dos governos estaduais que ora se encerram, mas também para avaliar a performance de nossos legisladores e legisladoras. Não percamos essa oportunidade que nossa matriz republicana nos oferece de selarmos nossa liberdade política com escolhas sérias e bem informadas. Leiamos, acompanhemos os debates, discutamos em nossas paróquias e missões, convidemos candidatos para debater conosco, de diferentes partidos e posições, sem pre-concepções. E decidamos de forma livre e responsável: o destino de milhões está ali, na ponta dos nossos dedos, na urna eletrônica. O voto é o único instrumento inalienável que temos para construir uma sociedade política madura e voltada para o bem comum.

Brasília, 16 de Setembro de 2010.

* A Carta foi assinada pelos bispos da IEAB – Igreja Episcopal Anglicana do Brasil


** Bispo da Diocese Anglicana do Recife – DAR
www.dar.ieab.org.br

REFLEXÕES DE UM ELEITOR INDIGNADO

Frei Betto


Miro a propaganda eleitoral na TV, ouço-a no rádio. E me pergunto: em que galáxia habito? Fico a me perguntar se o desfile mórbido de candidatos difere muito da apresentação dos gladiadores prestes a disputar o direito à vida no Coliseu de Roma.

São tantas besteiras, tantas promessas inconsistentes, tantas ofensas à língua pátria, que chego a preferir um passeio pelo zoológico, onde se pode apreciar, de jaula em jaula, a variedade do animais, sem o incômodo de escutar tanta bobagem.

Claro que incontáveis aparelhos de TV e rádio desligados no horário eleitoral significam um recado óbvio: reforma política já! Como não virá imediatamente, tudo indica que, de novo, a partir de 2011 veremos a nossa representação política – nas Assembleias Legislativas, na Câmara dos Deputados e no Senado – integrada por figuras respeitáveis, competentes, éticas, ombro a ombro com o besteirol: políticos eleitos, não pelo que representam como promotores do bem comum, e sim pela fama na mídia, no esporte, na esbórnia, na exuberância das nádegas e no escracho geral.

Pobre Brasil! A culpa é de quem? Do eleitor? Discordo. A culpa é dos partidos que aceitam filiações irresponsáveis, funcionam como legenda de aluguel, abrem as portas aos arrecadadores de votos, meros candidatos-iscas para robustecer a bancada partidária no Poder Legislativo. Não importa se o eleito não fala lé com cré. Importa é ter amealhado votos em quantidade.

Isso revela algo muito grave: os partidos cada vez menos representam uma parte ou segmento da sociedade. Representam a si mesmos. Viraram clubes políticos destinados a beneficiar seus sócios. Vivem descolados da base social, gabam-se de não ter ideologia, apenas interesses e, em tudo que fazem, buscam, em primeiro lugar, reforçar o próprio poder. E funcionam na base da ação entre amigos, pois quem se elege trata de nomear quem não se elegeu para um cargo público bem remunerado.

O Brasil precisa, sim, urgentemente, de uma reforma de seu sistema político. Não basta mudar as regras do jogo. Faz-se necessário modificar a atual cultura política, fundada no compadrio e nepotismo (como pode uma ministra incorporar familiares na máquina do governo?), no tráfico de influências, no uso dos recursos do Estado para benefício próprio.

Quem se faz representar em nosso poder legislativo? A elite, o agronegócio, os lobbies de armas e bebidas alcoólicas, da devastação da Amazônia e da abertura irresponsável do país ao capital estrangeiro. Esta é a minoria da população, poderosa, mas minoria.

Quem representa os sem terra e os sem teto? Quem representa os que padecem a falta de saúde e educação? Quem representa os povos indígenas, as pessoas com necessidades especiais, os jovens e idosos? Quem representa os movimentos populares?

Introduzir uma nova cultura política é criar mecanismos de controle civil do poder público, de modo a inibir a corrupção, punir os que agem ao arrepio das leis e combater tudo isso que, na estrutura socioeconômica brasileira, favorece e fortalece diferentes formas de desigualdades.

A revogabilidade de mandatos, mormente em casos de corrupção comprovada, deveria figurar como princípio pétreo em nosso sistema político. Por que permitir que uma mesma pessoa possa, indefinidamente, candidatar-se, perpetuando-se na política? Ninguém deveria ter o direito a mais de dois mandatos sucessivos na mesma função.

Para avançar rumo à democracia participativa, o Brasil precisa reformular seu sistema de comunicação, de modo a possibilitar o acesso dos setores populares à livre expressão; promover plebiscitos e consultas populares; adotar o financiamento público de campanhas eleitorais; criar mecanismos de controle social das políticas econômicas e do orçamento. Por que não há representação sindical na direção do Banco Central?

Como falar em democracia se, em plena campanha presidencial, apenas quatro candidatos têm direito a participar dos debates na TV? E os demais? Foram legal e legitimamente indicados por seus partidos. Não importa que sejam partidos nanicos. Uma democracia não se faz sem isonomia. O eleitor tem o direito de conhecer as propostas de todos que são oficialmente candidatos a funções executivas.

Desde o fim da ditadura, em 1985, a democracia se aprimorou muito no Brasil. Contudo, não se julga um país pela perfeição de suas leis, e sim pela aplicação dessas mesmas leis. A aprovação da Ficha Limpa demonstra que a sociedade civil organizada e mobilizada pode mais do que ela mesma crê. É hora de não apenas ouvir o que têm a propor os candidatos, mas de os movimentos sociais e congêneres apresentarem a eles suas propostas e sugestões.

Autoridade é o povo, de quem os políticos são meros servidores.


Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org
– twitter: @freibetto.


Copyright 2010 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

O FATO RELEVANTE



D. Demétrio Valentini *


            Nestas eleições um fato novo está acontecendo. Fato verdadeiramente relevante. Mas que não precisa ser publicado na grande imprensa. Aliás, o fato relevante consiste exatamente nisto: o povo já não se guia pelos “fatos relevantes” publicados pela mídia. A grande imprensa perdeu o poder de criar a “opinião pública”.
            A “opinião pública” não coincide mais com a “opinião publicada”.
            O povo encontrou outros caminhos para chegar às suas próprias opiniões, e traduzi-las em suas opções eleitorais.
            Já houve eleições que mudaram de rumo por causa do impacto produzido pela divulgação de “fatos relevantes”, tidos assim porque assim divulgados pela grande imprensa.
            Agora, a grande imprensa fica falando sozinha, enquanto o povo vai tomando suas decisões.
            Bem que ela insiste em lançar fatos novos, na evidente tentativa de influenciar os eleitores, e mudar o rumo das eleições. Mas não encontram mais eco. São como foguetes pífios, que explodem sem produzir ruído.
            A reiterada publicação de fatos, que ainda continua, já não encontra sua justificativa nas reações suscitadas, que inexistem. Assim, as publicações necessitam se apoiar mutuamente, uma confirmando o que divulga a outra, mostrando-se interdependentes mais que duas irmãs siamesas, tal a impressão que deixam, por exemplo, determinado jornal e determinada revista.
            Esta autonomia frente à grande imprensa, se traduz também em liberdade diante das recomendações de ordem autoritária. Elas também já não influenciam. Ao contrário, parecem produzir efeito contrário. Quando mais o bispo insiste, mais o povo vota contra a opinião do bispo.
            Este também é um “fato relevante”, às avessas. Não pela intervenção da Igreja no processo eleitoral. Mas pela constatação de que o povo dispensa suas recomendações, e faz questão de usar sua liberdade.
            Este “fato relevante” antecede o próprio resultado eleitoral, e pode se tornar ponto de partida para um processo político muito promissor. O povo brasileiro mostra que já aprendeu a formar sua opinião a partir de “fatos concretos”, que ele experimenta no dia a dia, dos quais ele próprio é sujeito. Já passou o tempo das falácias divulgadas pela imprensa, onde o povo era reduzido a mero expectador.
            Em tempos de eleições, como agora, fica mais fácil o povo identificar em determinadas candidaturas a concretização da nova situação que passou a viver nos últimos anos. Mas para consolidar esta mudança, e atingir um patamar de maior responsabilidade política, certamente será necessário trabalhar estes espaços novos de autonomia e de participação, que o povo começou a experimentar.
            Temos aí o ponto de partida para engatar bem a proposta de uma urgente reforma política, e também de outras reformas estruturais, indispensáveis para superar os gargalos que impedem a implementação de um processo democrático amplo e eficaz.
            O fato novo, a boa notícia, não consiste só em saber quem estará na Presidência da República, nos Governos Estaduais, e nos parlamentos nacionais e estaduais. A boa notícia é que o povo se mostra disposto a tomar posição e assumir o seu destino de maneira soberana e responsável.


* http://www.diocesedejales.org.br/

ADEUS FICHA LIMPA, ATÉ AS CALENDAS GREGAS!



Maria Lioza de Araújo Correia
lioza@uol.com.br


Para quem acredita em mandinga ou bruxaria, o julgamento da chamada "Lei da Ficha Limpa", pelo pleno do Supremo Tribunal Federal, atualmente composto por dez ministros, pareceu mesmo coisa feita ou mandada fazer. Cinco a cinco, batido, justo. De fato, a coisa ficou esquisita.

Com efeito, a referida lei nasceu de uma proposta elaborada pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que reúne mais de 40 entidades da sociedade civil. Para se ter uma idéia, foram enviadas ao Congresso Nacional, no dia 29 de setembro de 2009, cerca de 1 milhão e 500 mil assinaturas, o que demonstra a insatisfação da população brasileira quando o assunto é corrupção na política. Daí surgiu a Lei Complementar nº 135, de 4 de Junho de 2010 (a conhecida Lei da Ficha Limpa), que altera a Lei Complementar no 64, de 18 de maio de 1990, que estabelece, de acordo com o § 9o do art. 14 da Constituição Federal, casos de inelegibilidade, prazos de cessação e determina outras providências, para incluir hipóteses de inelegibilidade que visam a proteger a probidade administrativa e a moralidade no exercício do mandato.

Os excelentíssimos senhores ministros do STF que votaram contra a aplicação da referida Lei da Ficha Limpa ao caso concreto posto sob suas apreciações, sustentaram a alegação desfavorável à vigência imediata daquela Lei, defendendo a tese de que só poderia entrar em vigor um ano após a sua publicação, o que, segundo o entendimento da metade dos julgadores, preservaria a segurança jurídica das próximas eleições e salvaguardaria a confiança da população no Poder Judiciário, especialmente naquela Suprema Corte. Sob essa assertiva, rechaçaram com veemência o clamor das ruas e a vontade expressa em 1 milhão e 500 mil assinaturas de brasileiros indignados com a corrupção dos muitos políticos que continuam atuando na política e candidatos à reeleição de seus mandatos.

Diante da frustração e da perplexidade geral com o inusitado, porém no fundo já esperado, resultado do julgamento da Lei da Ficha Limpa, algumas entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, através de seu presidente, Ophir Cavalcante, em reunião do Colégio de Presidentes das Seccionais daquela entidade, afirmou que: "a decisão do Supremo Tribunal Federal, de suspender a proclamação do resultado do julgamento do recurso que trata da aplicação da Lei da Ficha Limpa para essas eleições, após o empate em 5 votos a 5 entre os ministros, "é a pior das soluções possíveis". Para Ophir, os ministros devem solucionar urgentemente o impasse antes do pleito eleitoral de 3 de outubro próximo, e não adiá-lo até o preenchimento da vaga do 11º ministro daquela Corte. "Isso seria deixar a solução da questão para as calendas gregas, gerando imensa insegurança jurídica no país."

Todavia, para surpresa geral, o ex-governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, autor do recurso levado ao pleno do STF para ser julgado sob a égide da Lei Complementar nº 135, em razão dos flagrantes indícios de muita sujeira em sua ficha política que o conduziram à barra dos tribunais a fim de tentar a reeleição após haver renunciado para evitar sua cassação política por oito anos, o citado ex-governador, vendo-se diante de um resultado controverso e inconclusivo, renuncia mais uma vez, afastando por mais oito anos o perigo possível, mas não provável, como de fato ficou demonstrado, de ser condenado pela última instância da Justiça, o STF.

Em face do inusitado empate nos votos proferidos pelos ministros do STF, um grande sentimento de alívio deve ter experimentado o ex-candidato, enquanto uma grande frustração e enorme insegurança para a população delineou-se no horizonte político, perante o fantasma da impunidade a pairar ameaçadoramente sobre a sociedade brasileira, a qual, se não fez ecoar novamente o clamor das ruas, interrogando ao ex-governador: renunciou, por que? por que renunciou?, é, precisamente, porque o povo sabe o motivo das renúncias, tanto da primeira como da segunda, resultando claramente patenteada a culpa no cartório do ex-governador Joaquim Roriz.

E agora? "Vai ficar tudo como dantes no quartel de Abrantes?" Não será possível. Por isso, diante da atitude audaciosa e afrontosa do ex-governador para com a Justiça, a sociedade e as instituições, que se viram enxovalhadas pelo pouco caso demonstrado para com todas elas, o pleno do STF vai novamente se debruçar para definir o que já devia ter sido definido, tendo em vista o que ficou configurado em mais uma renúncia do ex-governador, embora legalmente permitida, entretanto, moralmente ilícita e condenável, vez que significa o respaldo da impunidade para os crimes de corrupção eleitoral e política, sobejamente condenados através de um milhão e quinhentas mil assinaturas contra a permanência dos políticos que os praticaram.

Poderiam os ministros do STF, ultrapassando a letra fria da lei, ter caminhado no sentido de penetrarem no espírito vivo e edificante que intrinsecamente deve conduzir a lei à realização da Justiça? Ou estão eles agrilhoados à escravidão da norma, cumprindo-a rigorosamente, mesmo em detrimento da justiça que é o fim precípuo da lei? É difícil o cidadão comum compreender essa primazia da lei em prejuízo da justiça.

Ora, é sabido que o STF é a última instância para onde acorrem os necessitados de justiça. Lá reside a última palavra a favor ou contra a esperança de justiça da sociedade. Portanto, é dali que se espera que a lei seja feita para o homem e não o contrário, o primado da lei pela lei. Assim, a lei deve existir em função das pessoas e não as pessoas em função da lei. Esse princípio foi proclamado pelo próprio Jesus Cristo ao contestar os escribas e fariseus que cumpriam a lei judaica ao pé da letra, mas descumpriam a justiça e a compaixão.

Na próxima quarta-feira, 29 de outubro, o Supremo Tribunal Federal irá se reunir, para deliberar sobre a Lei da Ficha Limpa. Segundo o presidente da OAB, "a renúncia do candidato Joaquim Roriz ao governo do Distrito Federal não significa que a missão do Supremo Tribunal Federal de julgar a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa tenha sido encerrada. Quando é admitida a repercussão geral, como ocorreu no caso da Lei da Ficha Limpa, o STF deve ir até o fim no julgamento, até para definir qual a tese jurídica a ser aplicada nos demais recursos que tratam da mesma matéria".

Assim, em que pese a perda de objeto do recurso pela renúncia do ex-governador Joaquim Roriz a candidatar-se para as próximas eleições, o presidente da OAB afirma ainda que: "o STF tem a obrigação, enquanto guardião da Constituição, de definir qual a melhor interpretação para o caso". E reafirma a importância da conclusão do julgamento sobre a Lei da Ficha Limpa, a fim de que seja priorizada a segurança jurídica para a sociedade para o pleito do próximo dia 03 de outubro.

Na verdade, pela renúncia, o ex-governador Joaquim Roriz, conseguiu safar-se, mais uma vez. O mesmo não ocorrendo com o STF, que, mesmo tendo ignorado o clamor das ruas, agora terá de se pronunciar definitivamente sobre a Lei da Ficha Limpa, podendo-se concluir que, por portas travessas, a famigerada renúncia terminou servindo à causa da Lei da Ficha Limpa e deixou os senhores ministros numa tremenda "saia justa", da qual eles terão de se livrar, para continuarem honrando a toga que vestem.

CARTA AO PRESIDENTE LULA



Maria Lioza de Araújo Correia
lioza@uol.com.br


Presidente Lula,

Estou muito preocupada com as notícias infamantes que estão correndo pelo país, especialmente na mídia, contra a candidata Dilma Roussef.

Está circulando na internet que no último dia da campanha na televisão, o jornal da Globo vai apresentar, ao vivo, uma encenação com um suposto pai de uma das supostas vítimas, morta à época da ditadura militar, tentando incriminar a candidato Dilma. Segundo a mensagem, essa será a bala de prata que vai liquidar a campanha da Dilma.

Contra essa infâmia, a campanha não deve ficar inerte, aguardando que aconteça, e no meu entendimento, seria o caso de se divulgar ao máximo essa anunciada armação para que ela não cause o impacto desejado pela oposição contra a candidata Dilma, na reta final de sua campanha vitoriosa.

A outra denúncia, é sobre a ameaça de golpe pelo general chefe do STM, publicada por um tal de Jorge Serrão, em que diz: O Ministro do Superior Tribunal Militar (STM) e General de Exército da reserva, Valdésio Guilherme de Figueiredo, aproveitou sua entrevista ao caderno “Prosa e Verso” do jornal O Globo para avisar. "Se algum doido decidir se perpetuar no poder", o Exército vai intervir."

O General adverte ainda que:“essa conversa de que o Exército mudou é conversa fiada”. Segundo ele, “as Forças Armadas não mudaram nada, porque não mudam nunca. Apenas se recolheram. Agora, se tiver que intervir, claro que vão intervir. É missão constitucional, a garantia da lei, da ordem e das instituições".

A tal mensagem também defende o torturador, Cel.Carlos Alberto Brilhante Ustra e faz insinuações contra Dilma Roussef: “Por que não se preocupar com tanto ministro que está aí e que fez pior que o Ustra? Tem ministro aí que matou, enquanto o Ustra dizem apenas que torturou. Não consta que ele tenha matado ninguém”.

Acho terrivelmente negativo para a campanha esse tipo de mansagem, por isso estou enviando ao senhor, para conhecimento e se for o caso, em seus discursos o senhor alertar os eleitores para o perigo do golpe que está sendo preparado, pois não é possível que o Brasil, bom do jeito que o senhor vai deixar, cair nas mãos da direita conservadora, entreguista e golpista. Faça alguma coisa, presidente Lula, o senhor tem força moral e suas palavras caem fundo no coração do povo brasileiro.

Tenho me esforçado dia e noite para divulgar tudo o que encontro em Carta Capital, Agência Carta Maior, no Conversa Afiada, etc., a favor da candidatura de Dilma Roussef e também tudo o que leio contra o candidato Serra. É minha missão fazer isso, pois sou viúva de perseguido político pela ditadura e só de pensar que o Brasil poderá cair de novo nas mãos da direita, estremeço nas bases. Eu e toda a minha família votamos no senhor e agora vamos votar em Dilma Roussef e nos candidatos da coligação governista.

Escrevo para um blog formado por intelectuais, religiosos, romancistas, escritores, teólogos, professores, etc. e tenho escrito sempre a favor da candidata Dilma e contra os perigos da oposição retomar o poder.

Agradeço a atenção dispensada e aguardo, ansiosamente o dia da eleição para celebrar a vitória de Dilma e para ir assistir com toda a minha família a posse dela em Brasília, como fizemos com a sua vitória em 2003.

Deus o abençõe, presidente Lula, por tudo de bom que o senhor fez pelo nosso Brasil. Que Deus ilumine, também a candidata Dilma Roussef, para que ela continue o que o senhor iniciou, ou seja, a arrancada do Brasil rumo ao desenvolvimento ecônomico e social, à superação da miséria pela educação e pelo emprego e à melhora da vida de todos os brasileiros.

QUEM ME DERA



José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Ai, quem me dera
Ou me bastasse a vontade,
Queria mudar o mundo
Acabando de uma só vez
Com a pobreza e a fome
Dessa gente passageira
Sem eira nem beira
Que vive a sofrer.
Ai, quem me dera
Ou me bastasse o poder
Das palavras rabiscadas
Para melhorar o mundo,
Repartindo nossas terras
Com essa gente roceira
Que não tem casa e nem terra,
Mas que sonha em produzir.
Ai, quem me dera
Ou me bastasse a coragem
Para varrer desse mundo
Tamanha impunidade
Daqueles que vivem roubando,
Desviando farta riqueza,
Gastando aquilo que é nosso
Sem ter o menor pudor.
Ai, quem me dera
Ou me bastasse a certeza
De eu não ser apenas
Esse homem sonhador!!


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

A UTOPIA E AS MEDIAÇÕES



Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)


Faltam poucos dias para as eleições que darão ao Brasil novos/as gestores no Governo Federal, Estados e no Legislativo. Há muitas promessas de solução para os grandes problemas nacionais e a maioria dos brasileiros votará na esperança de um futuro melhor. Muitas discussões políticas incidem sobre o projeto de sociedade que nos é oferecido. Este coincide ou não com aquele que muitas pessoas cultivam na mente e no coração. De um modo ou de outro, estas eleições brasileiras e estas discussões sobre o projeto político tem a ver com o processo dos fóruns sociais mundiais. Ainda hoje, dez anos depois, quem acompanha este processo se recorda do refrão cantado por todos desde 2001: “Aqui, um outro mundo é possível, se a gente quiser!”. Este grito, lançado em todos os continentes, provocou diversas conferências temáticas e muitos fóruns regionais. Alguns criticaram que aquelas discussões aparentemente não levavam a nada. Talvez, hoje, não possam dizer isso ao ver que a Bolívia tem, pela primeira vez em sua história, um índio como presidente da República e vários países do continente tem novas constituições cidadãs e um caminho político novo e mais popular.

Em um de seus livros, Eduardo Galeano faz um de seus personagens perguntar a um companheiro: - Para que me serve a esperança (a utopia) se quando dou um passo em sua direção, percebo que ela se afasta mais um passo?

O companheiro respondeu: - Serve para fazer você caminhar.

Neste caminho para um mundo de paz, justiça e igualdade social, é importante de um lado termos sempre sob os olhos a meta que queremos atingir, mas, ao mesmo tempo, saber que isso só se dará se assumirmos as dificuldades e etapas necessárias do caminho. Não existe utopia sem mediações. Tanto no plano social e político, como mesmo no caminho da fé, é importante termos claro a sociedade nova que desejamos construir, mas, ao mesmo tempo, não descuidar das etapas necessárias para nos aproximar da meta. Sem mediações, nossa luta social e política se tornaria não histórica e sim meciânica, no sentido negativo do termo. No caminho da fé, todos os dias os cristãos oram “Venha a nós o vosso reino”, ou seja, realize-se aqui no mundo em que vivemos o projeto divino para a humanidade e o planeta. Mas, é preciso ter em vista como este reino ou projeto divino poderá se concretizar em nosso dia a dia.

As mediações são, em geral, limitadas, incompletas e até ambíguas, como tudo o que é humano. No entanto, rejeitá-las ou simplesmente ignorar a sua necessidade é cair na arrogância. É preciso sempre apontar o que se almeja como ideal, mas, ao mesmo tempo, ter a humildade de assumir o que é possível na realidade do aqui e agora. Na sua regra para os monges, São Bento fala da humildade como a capacidade de ter os pés na terra e viver a fragilidade de cada dia. É claro que isso poderia nos levar a uma acomodação conservadora ou pouco profética. Não cairemos nisso se soubermos articular bem a utopia (o que almejamos) e as mediações ou etapas do caminho.

Concretamente, no Brasil atual, esta humildade social e política nos faz reconhecer as conquistas sociais e o caminho positivo já percorrido nos últimos anos. Este ganho acumulado se deve, sem dúvida, a um governo competente e que governou o Brasil com nova sensibilidade social. Entretanto, estas conquistas sociais representam, sobretudo, uma conquista dos movimentos populares e de toda a sociedade civil que, nos últimos anos, amadureceu em sua consciência social e política. É preciso salvaguardar as conquistas feitas. Apesar da guerra suja, deflagrada pelos maiores meios de comunicação social do país contra o caminho até aqui percorrido, a população mais pobre tem sabido distinguir as coisas e mostra sua independência no julgamento. Não apenas porque recebe uma ajuda social que é direito de todos, mas porque se sente envolvido neste processo como um povo de cidadãos e não de mendigos aos quais se jogam apenas migalhas do que sobra às classes altas do país. A internet e a multiplicação de blogs democratizam mais esta discussão e permitem uma forma de comunicação mais horizontal e justa.

Neste caminho para a utopia, não há receitas ou regras estabelecidas para as mediações. Entretanto, alguns princípios podem ser úteis: 1º - a palavra de Gandhi: “comece por você mesmo a mudança que propõe ao mundo”. 2º - sozinho, ninguém transforma nada. Não se sinta acima e independente do caminho comum. Aceite a mediação do grupo e da comunidade. 3º - Não adianta pensar que vamos para o leste, caminhando para o oeste. Mesmo que seja em passos pequenos ou curtos, a utopia se faz caminhando na direção correta. Podemos corrigir estratégias e rever etapas, mas sempre no mesmo rumo.

Antoine de St Exupery, autor do “O Pequeno Príncipe” dizia: “Um viajante que sobe uma montanha guiado por uma estrela, se se deixar absorver demais pelos problemas e dificuldades da escalada, se arrisca a perder de vista a estrela que o guia”.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

EXERCÍCIO



Wilson Guanais
wilson_guanais@hotmail.com


corro
sempre
mais
rápido

que eu
e os
medos
todos

não
podem
me
alcançar.

O FUTURO DO NADA



Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


            Quero colher a idéia madura, espalhar sementes nos caminhos não deixar que se percam feito almas penadas purgando pecados. Pecados passados, presentes, ausentes. Futuro do nada. Imagens queimadas no tempo, levadas no vento, presas no tempo. Passa, não passa, passa.
            Folhas secas, barulho de vendavais, murmúrios de um vento que vem do mar, cantigas de pássaros, enganos do pensamento que parou no ar.
            O mar me assusta. Lança espuma pelos olhos, pela boca, por todos os poros da areia macia onde as lembranças se acendem e se apagam deixando escritas nas ostras, nas conchas, história de uma saudade que circula ao meu redor e me reproduz na terra, e me envenena e me devora no horizonte.
            Contrariando meus medos me rebelo. Procuro desmentir a certeza do tu és pó. Se à terra tornarei não sei. Quem sabe um dia me desfarei no ar, em fumaça ou nas espumas do mar. Quem sabe?
            Navio naufragado, maré alta, maré baixa, vulcão.
            Lá fora o mundo me tocaia.
            Tenho um compromisso com idéia que está em toda parte a que não me deixa esquecer. Na água torno-me água, no ar me respiro, na fumaça me vou. O mundo entrega-me a face envelhecida. O tempo brinca de se esconder.
            Um ciclo que não tem fim nos corredores da velha casa. Sofro da solidão de quem pensa. Vejo o retrato na parede, sempre triste. Os espelhos não sabem de mim, de ti, das espumas do mar, das promessas do vento, dos lugares de ir e voltar. Estamos sempre indo e voltando.
            Não tenho medo de te perder, a saudade te encontrará.
            O chão de madeira geme, chora infâncias esmagadas.
            Cadeiras fantasmas balançam o vento.
 

Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega

ELEIÇÕES NACIONAIS, O VOTO ÉTICO É UM DEVER



Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


O cidadão brasileiro entre 18 e 65 anos é obrigado a comparecer às urnas no dia 03 de outubro e depositar seus votos. O fato de ser obrigatório quebra em parte, a democracia, porque obriga e caso o cidadão não compareça à votação será punido. Mas votar em si é um dever ético de quem é cidadão esclarecido, o que é bem diferente.

Mas o dever ético de votar não se realiza apenas ao comparecer à urna e depositar o voto. Daí que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB orienta que o e a cidadã façam suas escolhas de candidatos, à luz da moral cristã e da ética universal. Aquela tem as bem aventuranças evangélicas como guia e a ética tem os direitos humanos universais, individuais e coletivos como imperativos. Isto quer dizer que não basta votar em qualquer candidato, porque faz belo discurso, ou tenha feito algum favor á sua pessoa ou comunidade.

Mesmo que neste tempo esteja difícil escolher candidatos que preencham os requisitos da ética e da moral, que sejam honestos, competentes, ficha limpa que defendam a vida e a dignidade dos seres humanos, o dever de procurar continua. Não o que faz promessas oportunistas, atraentes sobre necessidades urgentes da sociedade, não basta.

Para um cidadão e cidadã da Amazônia poder-se-á ter alguns critérios de análise objetivo para escolha de candidatos: além da honestidade, competência e bom discurso, ele ou ela luta em defesa do real desenvolvimento dos povos da Amazônia? Luta em defesa dos rios e povos que são ameaçados pelas hidroelétricas devastadoras. Defende a todo custo a demarcação das terras indígenas? Quem nunca se interessou em defender a realização da reforma agrária correta, não merece o voto cidadão. Aqui na região Oeste do Pará, quem apóia a construção das hidroelétricas na bacia do rio Tapajós, ou nunca abriu a boca contra tal absurdo, não merece voto cidadão. Quem já ocupou cargo público e não cumpriu seu dever e até foi mal administrador da coisa pública, mesmo que não tenha sido ainda punido pela justiça, não merece o voto cidadão.

E assim por diante, há sinais que ajudam as pessoas éticas e cristãs a fazerem uso de sua cidadania ao votar. Por isso, que os líderes bispos da CNBB orientam todos os e as eleitoras, católicos ou não, a assumirem o dever de votar segundo a moral; e se não têm opção religiosa, têm o dever ético de também nesses emaranhado de joio no meio do trigo, fazer o esforço de votar, não no menos pior, mas nos candidatos coerentes com a defesa da vida e da dignidade humana.

Uma coisa é votar por obrigação, o que não é correto, outra coisa é votar por dever de consciência, que é o voto ético.

tia


Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com


andava de mãos dadas com minha tia mais nova
por esse lugar de grama na esplanada
nunca o esqueceria
esse lugar sem pontes nem estradas
como se fosse possível caminhar sem fim a vida afora
segura e em paz ao céu aberto
na primavera que ela vestia

ai, que saudade que eu tenho dessa minha tia


Obs: Imagem enviada pela autora: Olhares, foto de Hugo Macedo

PROS CANALHAS DA COMUNICASTRAÇÃO



Ronaldo Coelho Teixeira
http://ronaldo.teixeira.zip.net/
ronteixeira@bol.com.br


Condicionados, condicionadores. Assim poderíamos definir a maioria dos profissionais da imprensa brasileira da atualidade. E não pense que há uma vontade explícita de manipular os leitores por parte deles, mas apenas uma repetição ingênua do massificado e massificante lugar-comum da notícia, que segue bamburrando os cofres das empresas de comunicação e, conseqüentemente, dos capitalistas de plantão.

Nesse mídioambiente não há sinal de força sobre o que deve ou não ser publicado. Mas, mesmo sem ter as suas consciências violentadas, os jornalistas, em geral, acabam rezando na cartilha da informação ditada pelo modo capitalista de se “ter” o mundo.

No surreal quadro da informação-mercadoria, os avanços sociais da categoria, ironicamente, não chegam sequer aos papéis. Pois, na ilusão de trabalharem sob uma livre inspiração, eles não sentem necessidade de qualquer conspiração. E para refutar esta última, agarram-se a uma crença em um serviço voltado para um capitalismo humanizado. (Não me pergunte o que diabos isso quer dizer!).

Sob uma “ética profissional” engessada na crença do capitalismo, esses arautos das boas novas dominam o alto comando da informação e barram o acesso às redações, dos novatos que queiram destoar do canto do galo de ouro. Mas o processo de separação começa bem antes, nas próprias universidades de jornalismo que, também seguindo esta carta magna do lucro acima de tudo, já castram o verbo “dever” e o substituem por outro: o “vender”.

Assim, tudo o que condena o sistema é abordado, mas de forma a não comprometer os princípios que eles próprios seguem, princípios esses – não esqueça! – ditados pelo capital. A classe segue, então, cumprindo à risca a lógica de mercado, ou seja, o tripé concorrência, obrigação de rentabilidade e ibope. O saldo são redações que oferecem um trabalho precário e mal remunerado e, por isso, altamente rotativas, e um jogo, às vezes, até ambíguo de hipocrisia e mau-caratismo, no qual a função essencial da profissão – que é visar a utilidade pública, o bem comum, a verdade e a justiça – passa ao largo.

Esses profetas do verbo acabam travestindo o impermissível de permissível. O que sobra resvalando diariamente em nossos já anestesiados sentidos é apenas pura verborragia. E simplesmente porque nunca põe em xeque a lógica dominante.


Obs: Texto retirado do livro do autor – Surtos & Sustos
Imagem enviada pelo autor.

TEXTO DE TOMÉ



“Quão magníficas são, Senhor, as tuas obras!
Quão insondável é a profundidade dos teus desígnios” ( Os 91:6)

Incrível os dons que deste aos homens para destacar a tua beleza na sua arte e oferecer uma paz para o seu espírito.


Obs: Foto do autor.

COMPRAR, GASTAR, CONSUMIR: PRAZERES PÓS-MODERNOS



Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio


Talvez nunca como agora o tema do corpo tenha estado no centro das atenções humanas. A sociedade ocidental, durante longo tempo identificada com uma mentalidade dualista, que separa corpo de espírito, material de espiritual, terra de céu, manteve a questão do corpo algo exilada e silenciada. Recentemente, no entanto, o corpo voltou a ocupar o lugar que lhe corresponde: no vértice do que seja a compreensão do que significa ser humano. Somos um corpo, o corpo e nossa identidade. Quanto mais reprimirmos aquilo que se refere ao corpo, mais veremos isso que tentamos banir da perspectiva da atenção pessoal e comunitária reaparecer com vigor, reclamando seus direitos.

“Nosso corpo: nós mesmos” é o título de um livro coletivo publicado nos Estados Unidos, na década de 1970. Embora refira-se especificamente às mutações no corpo da mulher nas diversas etapas da vida, o título pode bem apontar para todo o gênero humano. Nosso corpo diz quem somos e não dar atenção a ele significa perder o rumo de nossa identidade humana mais profunda.

No entanto, a cultura em que vivemos é cheia de complexidades e, mais ainda, de ambiguidades. Em plena libertação sexual, vemos que a mesma talvez não nos tenha levado a sermos realmente mais autênticos e felizes, como seria de se esperar. A pós-modernidade em boa parte “liquefez “ os ideais e utopias que davam força aos projetos históricos individuais e coletivos. Além disso, contribuiu para uma exacerbação exponencial do consumo, instilando-o sorrateiramente dentro dos indivíduos. Assim, colocou ao alcance dos corpos, mentes e sensibilidades de hoje prazeres “outros” que não se aproximam sequer longinquamente da satisfação dos desejos e das pulsões corpóreas que compõem a rica sexualidade humana.

Os anos 1960 proclamaram sua ânsia de liberdade em todos os sentidos. Fazer amor e não a guerra era o lema dos hippies floridos que enchiam Woodstock com músicas que a nossa geração tanto cantou e parece não encantar tanto nossos filhos e netos. Na verdade, a desaparição dos modelos denunciados na revolução hippie não gerou mais liberdade e plenitude para as gerações seguintes. Pelo contrário, o legado do século XX é mais de angústia, vazio existencial e encurtamento de horizontes.

Nos dias de hoje, sentimos a sociedade doente e carente de verdadeira plenitude e satisfação. A avidez do consumo congela e paralisa nossos melhores desejos: de amor, de gratuidade, de plenitude, de contemplação. A atitude predatória da humanidade ameaça extinguir e baixar a níveis alarmantes os recursos do planeta. Toda essa situação ameaça conduzir-nos a uma autêntica “frigidez dos sentidos”, que se desvia daquilo para que foram feitos: o trabalho, o amor, o louvor. E passam a voltar-se para objetos outros, verdadeiros fetiches e ídolos menores que lhes roubam a energia e a finalidade. Comprar, gastar e consumir: esses são os verdadeiros prazeres pós-modernos.

Recente pesquisa realizada por cientistas ingleses demonstrou que comprar pode ser tão excitante e prazeroso para as mulheres quanto a atividade sexual. A pesquisa mediu a atividade de áreas do cérebro que controlam a emoção. As pessoas pesquisadas faziam uma série de atividades enquanto monitoradas. E o resultado mostrou que adquirir bens de consumo em liquidação provoca tanta excitação e prazer quanto ver imagens eróticas.

A pesquisa apresenta como uma de suas conclusões uma correlação entre picos emocionais e manifestações corpóreas de prazer e compras feitas em liquidações. O fato de o consumo provocar tais sensações catárticas quando são adquiridos objetos com desconto não atenua, e sim agrava, a nosso ver, o diagnóstico de que estamos caminhando para ser uma sociedade frígida no pior sentido da palavra.

O sexo como manifestação de amor e plenificação dos sentidos, canal por onde correm os movimentos da vida, está se tornando barato. Tão barato que pode ser equiparado à compra de um eletrônico ou um sapato ou... qualquer objeto que nos apresentem como a febre do momento. Desde que com desconto, é claro!

O corpo humano está em sério perigo. Está sendo liquidado ou vendido em suaves prestações mensais.

Para frear esse processo, seria urgente retomar a narrativa do Gênesis, primeiro livro da Bíblia, que nos diz que o que diferencia nós, humanos, dos outros seres criados, é o fato de o Criador, após nos criar do barro ter soprado em nossas narinas seu espírito vital. Somos um corpo, sim. Mas um corpo animado pelo espírito divino. Esta é nossa identidade, que jamais pode estar à venda nem ser posta em liquidação.


Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco). http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


Copyright 2010 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

AS ANEDOTAS DE VISTOS ETC.

Vladimir Souza Carvalho *


Um dos caminhos a ser percorrido pelo magistrado, que deixa a toga pela força da vassoura, isto é, da idade, e que não tem vocação para a vida acadêmica, nem saco para a advocacia, é o de escrever, na produção de livros, seja na área jurídica, seja na da prosa, aproveitando aquilo que a vocação rege e indica. A prova maior está com Artur Oscar de Oliveira Déda, que, semanalmente, em dia nobre, consigna artigo no Jornal da Cidade, para deleite de todos nós, seus leitores. Luiz Carlos Fontes de Alencar brilha nas academias de letras de Brasília, em atividades escancaradamente culturais. Bendita, assim, a aposentadoria que favorece os que gostam de escrever, e, assim devem proceder.

Pascoal Nabuco situa-se nessa esfera. Não distante da aposentadoria, publicou o primeiro livro. Agora, aposentado, volta à lide livresca, com outro, de menor tamanho, com título arrancado das sentenças dos mais antigos: VISTOS ETC., trazendo uma manchete como subtítulo: O Judiciário sergipano nos últimos trinta anos (Aracaju, Gráfica J. Andrade, 2009, 259 pp.), decorrência do tempo que, agora, despojado da toga da atividade, lhe é favorável, sem ter mais em sua agenda os recursos, os votos, as pautas, as sessões e os pedidos de preferência dos senhores advogados. Enfim, livre, na solidão do gabinete doméstico, para poder produzir, sem os grilhões dos compromissos da desembargadoria, algo sem conotação algum com os votos obrigatórios dos tempos de atividade judicial.

VISTOS ETC., livro I, apresenta uma série de notícias, quase uma prestação de contas, sem maiores atrativos a não ser para servir de subsídio para quem, amanhã, se disponha a escrever sobre a trajetória do judiciário estadual sergipano nos últimos trinta anos, enriquecido com fotos e com gráficos ilustrativos. Não é o meu caso.

Mas, é na segunda parte, ou livro II, que Pascoal Nabuco veste o trajo de contador de histórias, para cravar no papel, e se de livro, melhor ainda, uma série de casos pitorescos, e picarescos, vividos dentro das quatro paredes do Judiciário sergipano, a adoçar a figura de magistrados e membros do Ministério Público com o mel do fato diferente, do tipo quebra protocolo, que, ocorrido na intimidade do Poder mais sisudo da República, ganha, por isso mesmo, a divulgação devida, e, mais do que isso, eterna. São fatos e fatos que deixam de serem conhecidos de uma meia dúzia de privilegiados, para, nas páginas de um livro, oferecer, hoje e amanhã, a uma coletividade, um retrato dos homens ali referidos e citados, sob um ângulo bem diferente daquele que a cara fechada (de alguns), nas fotos penduradas em galerias, direciona.

Nesse andar, se enrola na bandeira do pioneirismo, por ser o primeiro a assim se portar, em nível de Judiciário sergipano, circunstância a ser sempre destacada quando outros se propuserem a explorar o mesmo fato, ou seja, a piada, a anedota, a ocorrência picante, sempre e unicamente no âmbito do Judiciário, nas salas de audiências, principalmente, a apresentar quase que unicamente, como figura central o magistrado, ou o promotor, e ter, invariavelmente, como palco, o fórum ou o pequeno círculo da instância revisora.

É certo que há alguns poucos senões históricos, data vênia (olhe aí a linguagem forense me traindo). V. g.: [1] na criação da comarca de Ribeiropólis, o governo de então era de Augusto Franco, e não o de Lourival Baptista (p. 141); [2] não me consta que Gileno de Jesus tenha sido juiz eleitoral em Itabaiana (p. 192). Mas, na piada, o dado histórico é, muitas vezes, irrelevante, porque o que vale mesmo é o fato a provocar o riso, e, por isso mesmo, se transforma, a partir daí, em anedota, deixando a situação factual no plano secundário, que pode ser até omitido e não faz falta, porque uma outra se cria e toma corpo.

VISTOS ETC. mostra uma faceta nova de Pascoal Nabuco, materializada no contador de piadas, que, mesmo aposentado, se não tem mais a toga para vestir, se apresenta, ainda, de terno e gravata, guardando acrisolado respeito quando omite o nome do juiz que determinou a citação do de cujus, magistrado que todo mundo do Judiciário estadual do meu tempo sabia quem era (p. 211), ou o nome do promotor que também mantinha caso com a mulher casada na comarca onde exercia seu mister (p. 239), ou se soltando, um tanto timidamente, quando destaca a tradução do modus in rebus enfatizado, no fato contado, pelo des. Artur Oscar de Oliveira Déda (p. 203), e, também, numa linguagem simbólica, quando enfoca a hora do amor, uma das mais interessantes da coletânea (p. 209).

O livro exibe, justa e exatamente, aquele outro lado que o grande público não viu, não presencia, nem faz idéia, a mostrar que os homens-julgadores, de terno escuro, na maioria, também sabem fazer rir e igualmente revestem seus atos de um tom diferente daquele que a majestade do cargo impõe, suficiente para sair dos limites do sério e ingressar no anedótico. A Pascoal Nabuco, a peneira da paciência, no pincelar e registrar as jóias que a terra do tempo esconde, para, enfim, dar vida à criança que nasce e fica, como um fato singular, a merecer a edição do livro.

Dir-se-ia mesmo que VISTOS ETC., livro II, é um outro lado do judiciário (há outros e outros que a vã imaginação não consegue penetrar, nem focalizar), livre dos rituais e das liturgias, do cerimonial e das togas, onde cada um dos seus membros contribui com a parcela de seu bom humor para exibir um lance diferente daqueles que a linguagem, altamente técnica, de provimento concedido e provimento negado, deixa escapar, e de tão inusitado, se faz merecedor da placa do registro, já na condição de piada.

Só um pecado se gruda em VISTOS ETC.: não trazer mais e mais casos para o deleite de nosso riso.

* vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe

MUITAS VIDAS



Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Quando o olhar se perde
é porque fomos
             com nossos sonhos
e nada interfere
             onde nós estamos.

Quanto mais visionário,
mais não paramos
                  em nenhum lugar.

Se pudéssemos
                 nos dividíamos,
vários caminhos seguíamos,
tal a vontade de realizar,
de ver chegar..

Quantos momentos
dizias-me te fitar
mas só meu corpo
estava presente, posso te afirmar,
pois quando me solto, fica absorto
o meu olhar.

Sorrio e não é de algo daqui,
mas do que fui me lembrar.

Me perguntas
se todo poeta é um louco!
É o que ousam falar!

Na verdade
temos muitas vidas,
umas que sonhamos
e outras que insistimos despertar,
por isso digo que é mentira
quando ouço falar
que um poeta está morto.

Até se apagarem todas as vidas,
muito vão se lembrar
dessa alma incompreendida
que tenta deixar
um mundo de alegria
aos que ainda vão chegar..


Obs: Imagem da autora.

nau-frágil

Euza Noronha


enquanto brincava de Ser
(barquinho de papel)
atracava os sentidos
num píer de ilusões

até que os desejos
(gotejando fluidos)
assaltaram a razão

joguei fora
os lemes do passado
passei a limpo
a identidade

e naufraguei as certezas
na paixão

VERSOS AMENOS



Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


Ainda escreverei
Versos desencanados
Engraçados
Porque a vida é assim!
No geral
Há muita graça
No particular
Fica a desgraça
Sem sentido
Tudo enrustido
Inventado
Porque no certo
Na verdade
Tudo é belo a fluir
E é tão simples
E tão banal
Que dá vontade de rir!


Obs: Imagem da autora ( foto de Fátima Brito)

A ARTE COMO ESPAÇO PRÓPRIO DO SUJEITO INFINITO



PARTE III: A ARTE
TassosLycurgo(*)
www.lycurgo.org


A manifestação artística não tem a obrigação de oferecer um discurso à moda do das ciências em geral. Embora seja possível argumentar que qualquer discurso científico é artístico, a maior parte do discurso artístico não é científica. A arte, se assim o quiser, pode mesmo ter o intuito de confundir as coisas e não o de as explicar. Isso seria inimaginável para a ciência. Ela, ou pelo menos a ciência legítima, só existe por uma razão: tentar explicar racionalmente e de forma verificável o mundo. A explicação racional e verificável é a condenação de todo cientista.

A arte é livre (o que não é necessariamente bom) e, utilizando tal liberdade, por vezes escolhe explicar inclusive a ciência. Assim, a arte não se manteve imune à idéia da influência do sujeito no objeto, só que esta idéia se aplica à arte de forma diversa do que o faz em relação à ciência. Para a ciência, a influência é indesejável, pois contamina o objeto. Para a arte, quando ocorre, é indiferente, a não ser quando faz parte da própria mensagem que o discurso artístico apresenta. Aqui está uma curiosidade bastante interessante da arte: ela é capaz de se apropriar de um elemento dificultoso do discurso científico e torná-lo objeto do seu próprio discurso.

Algumas das manifestações artísticas incorporaram a idéia de influência do sujeito no objeto com tal veemência que chegaram mesmo a apresentar obras artísticas em que o sujeito não apenas influenciava o objeto (como ocorre na ciência em geral), mas propriamente se confundia com ele. Devemos sempre notar que a confusão, nesses casos, é intencional.

Nas artes cênicas, por exemplo, podemos citar a manifestação denominada de environmental theatre (teatro ambiental), que foi em grande parte popularizada por Richard Schechner. O teatro ambiental é uma forma de happening, só que explicitamente teatral. Em tal concepção, o sujeito observador da cena não apenas interfere na própria cena, assim como o sujeito na análise em geral interfere no objeto analisado, mas efetivamente constrói a cena em parceria com os atores. O espectador no teatro ambiental, além de ser observador scene watcher é também criador da cena scene maker, de maneira que sujeito e objeto se confundem em uma só pessoa.

É muito importante demonstrar um ponto aqui. A confusão de que falei no argumento sobre o teatro ambiental tem uma característica: o observador da cena se confunde com criador da cena em relações diferentes. Tentarei explicar. Como o observador da cena, embora interfira nela (sendo também criador dela), não se vê a si mesmo na cena em que interfere, ele pode ser definido como um sujeito finito. Sujeito finito aqui é aquele que não se observa a si mesmo no objeto que analisa. O infinito seria aquele que, além de interferir na cena, a cena que observa é não apenas criada com sua ajuda, mas ela, a que efetivamente é observada pelo sujeito, é formada por ele.

Em um primeiro momento, podemos dizer que não é possível termos sujeitos infinitos no teatro, pois não podemos nos tornar dois sujeitos, senão ficticiamente. Será que aparatos de espelhos no palco poderiam criar no teatro ambiental sujeitos infinitos em cena? Por algum tempo, pensei que sim, mas depois me convenci que não. Minha mudança de opinião se deu porque, no caso em tela (o de uma cena de teatro ambiental com espelhos), observaríamos sujeitos vendo reflexos de si mesmos, o que é diferente de observar-se a si mesmo.

O que simplesmente aconteceu comigo foi que me convenci de que sujeitos são sujeitos e não reflexos de sujeitos. Para que a arte pudesse criar situações em que haveria sujeitos infinitos, seria necessário imaginarmos uma situação em que o sujeito se veria a si mesmo e este que ele veria teria de ser da mesma natureza de que ele era constituído, pois haveria de ser ele mesmo. Como o reflexo de algo é de natureza diversa do que é refletido, podemos concluir que espelhos não são ferramentas capazes de criar sujeitos infinitos no teatro ambiental.

Penso que a criação do sujeito infinito é um desafio a ser enfrentado pelas artes cênicas, embora eu acredite que uma interpretação possível de certos quadros possa lançar alguma luz sobre esta dificuldade. Antes de ir à análise de um quadro exemplificativo desses que mencionei, talvez agora seja o momento de parar um pouco na evolução do argumento para tentar estabelecer os pontos que já vencemos.

Assim, vou tentar agora resumir neste parágrafo o que vimos até então nesta seção, para depois continuar o argumento. Em primeiro lugar, estabelecemos que o sujeito e o objeto são elementos distintos entre si. Depois, vimos que, apesar da diferença entre ambos, o sujeito necessariamente influencia o objeto ao estudá-lo, de forma que as ciências em geral têm se esforçado para equacionar o problema da falta de objetividade no estudo. Por fim, demonstramos que a arte, por ter compromissos diversos dos do discurso científico, pode dar-se ao luxo de manipular esta idéia. Assim, há manifestações artísticas que correlacionam tão intensamente o sujeito com o objeto que não apenas estabelecem entre eles uma relação de influência, mas sim de confusão, lembrando sempre que a confusão aqui é intencional e se dá em relações diferentes. Por fim, conceituamos os sujeitos finitos e infinitos. O finito é aquele que não se vê a si mesmo, enquanto o infinito é o que consegue fazê-lo.


(*) Tassos Lycurgo é Professor Adjunto da UFRN e Advogado (OAB/RN); É Doutor em Estudos Educacionais – Lógica (UFRN), com pós-doutorado em Sociologia Jurídica (UFPB); Mestre em Filosofia Analítica (University of Sussex, Reino Unido); Graduado em Direito (URCA) e em Filosofia (UFRN). Atualmente, leciona as disciplinas Direito Processual do Trabalho e Elementos de Direito Autoral e Legislação Social na UFRN. Página Acadêmica: www.lycurgo.org


Obs: A PARTE IV será postada no próximo dia 05 de outubro.

TEXTO DE LUG COSTA



Sigo através da noite
buscando encontrar meus amuletos protetores.
Percorro todos os labirintos da floresta.
Uma força estranha persegue meus passos.
Nenhum sinal se antepõe aos passos repetidos.
O frio,
o medo,
o barulho
e o silêncio.


(15.05.2009 – 10:42h – Caxias/MA)