terça-feira, 27 de julho de 2010

RIBEIRA



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Sobre o teu chão
De liquens e ferrugem,
Notívago meu vou,

Sustentando nos ombros
Tuas velhas ruínas.

O allegro de chibatas e cavalos
Nas claras manhãs,
De imaginável tempo,
Só de ouvir dizer.

Cansadas minhas pernas, nesse andar,
Contempladas velhas ruas, velhas casas,
Guardo o que me deste, o que colho
Em frondosas mangueiras destruídas.

Repousam mágoas e rosas,
Comoventes retratos,
Vistos em pura fantasia
Nos teus antigos solares.

VITORIOSA



Laudi Flor
laudiflor@gmail.com


Tenho notícias de pessoas que sentem medo de tudo. Tem medo de viver um grande amor, medo de morrer de amor, medo de emocionar-se, de permitir-se. Medo de falar e mais ainda, medo de falar bobagens. Medo do ridículo, e das próprias teorias muitas vezes sem pé e nem cabeça. Medo do “clique” num site desconhecido e de um simples correio eletrônico. Medo de atravessar a rua, de queimar-se ao sol, de molhar-se na chuva, de usar roupas coloridas... Enfim, medo de viver!

Elas não morrem de rir, e nem de chorar. Sequer reagem ao contato humano apenas por temer aquilo, que ao primeiro olhar, aparenta estranheza. Segundo Martha Medeiros “são como o milho de pipoca; os que estouram viram pipoca e os que permanecem intactos, conhecidos ”piruás”, estes sobram na panela, ”não explodem, não reagem ao calor, não viram pipoca. “Mantêm-se piruá.”

O que é a vida senão um desafio diário? Para onde iremos com o medo? Aonde chegaremos se deixarmos que o pânico assuma o domínio?Como viveremos se somos bombardeados por receios, ânsias, temores, e tremores?

Recebo todos os dias, pela internet, inúmeros textos em que o autor arrepende-se de não ter feito o que devia quando devia. Arrepende-se de não ter agido com dignidade, de não ter andado com os pés descalços, de não ter queimado ao sol, molhado na chuva, morrido de amor, vivido um grande amor... Mas por quê? Porque os limites são milimétricos, ao redor tem-se um imenso cercado, no calcanhar uma corrente, no pescoço uma coleira, em seus olhos uma viseira. E assim vão vivendo sem navegar, deixando o barco à deriva, porque tomar uma direção é ter de enfrentar, possivelmente, duras tempestades. O mar impõe respeito e estes, como desconhecem o “navegar”, dizem: “Melhor não arriscar!”

Eu, como eterna aprendiz e “descobridor dos sete mares”, percebo a vida sem limites, brilhante, necessária. Vida colorida com as cores de risadas gostosas, da “alegria escandalosa”, do erro, do acerto, do arrisca tudo de vez em quando, das tristezas, das saudades, do novo e do velho, do que veio e do que ainda virá. Vivo e vejo que assim a vida pode ser maravilhosa.


Obs: Imagem enviada pela autora.

PILEQUE DE PALAVRAS

cairo de assis trindade



entro no poema sem pedir licença

sem medir limites — livre e sem pudor

entro de cabeça entro inteiro dentro


desnudo e em espasmo mergulho me perco

me afogo e me engasgo — susto transe surto

quase sofrimento quase-quase orgasmo


saio do poema como quem renasce

tonto e muito louco — quase sangro sempre

quase sempre gozo e sempre morro um pouco

ALMA PRESA



Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


          Se estou com vontade de chorar? Claro que estou. Estou sempre, já nasci assim, não sei fazer outra coisa.
          Sinto-me hoje como se eu fosse ontem. Travada, presa, não consigo definir a marca que me separa de mim. A fome adormecida me devora durante o sono e ao amanhecer me evapora nos raios da madrugada. Assim cheguei dando voltas ao redor de mim, do tempo, da vida, temendo os dias, monstros que fazem rolar as cordas do mundo. Hoje me sinto como se eu fosse ontem. As mãos adormecidas prendem segredos para que o tempo não os conheça, nem eu. Melancolia, marca de ferro e fogo que me faz diferente de mim ontem, da que hoje não sou.
          Todas as noites ela aparece e brilha sempre no mesmo lugar.
          Mudo de estação.


Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega

¿EN QUE CREO?



JORGE EDUARDO RIVERO
riverojorgeeduardo@gmail.com


EN EL HASTIO DE LOS BESOS QUE SABEN A NADA,
EN LA TRISTEZA DE UNA SALA DE HOSPITAL A MEDIANOCHE
DONDE SIEMPRE ES INVIERNO.
EN LA SOLEDAD HECHA ANDENES EN LA MADRUGADA
DONDE SIEMPRE ES OTOÑO.
EN LOS VESTIGIOS DE TU PIEL ENTRE MIS MANOS
DONDE SIEMPRE ES VERANO.
EN LAS HORAS DE AMOR INUTILMENTE COMPRADAS
DONDE SIEMPRE ES FICCION DE PRIMAVERA...
Y EN TUS OJOS ,SIEMPRE EN TUS OJOS,
DONDE ANIDAN MIS SUEÑOS.

EN UN PERRO ABANDONADO,ESE OVILLO DE DESCONSUELO.
EN EL MISTERIOSO IDIOMA ,TACTIL Y HUMEDO DE UNA MASCOTA
EN EL NUDO EN LA GARGANTA, QUE SE PRODUCE CUANDO,
CAMINO POR LAS CALLES QUE CAMINAMOS JUNTOS
EN EL CHIRRIDO DE LA PUERTA CANCEL DE MI CASA NATAL
QUE AUN SUENA EN MIS OIDOS Y ANUNCIA QUE EL ULTIMO AMOR SE HA IDO
Y EN TUS OJOS,SIEMPRE EN TUS OJOS
DONDE ANIDAN MIS SUEÑOS.

EN LAS TARDES DE SOL Y VIENTO,CUANDO
MI ALMA SE ENCUENTRA CON LA TUYA
MIENTRAS, MI MADRE AUN COSE Y ESPERA
EN LAS NAVIDADES, PERDIDAS EN LA OSCURIDAD DEL PENSAMIENTO
EN LA MESA DE UN BAR ,DONDE ESTA EL HOMBRE SOLO
CON SU ANGUSTIA Y ESPERA ,SOLO ESPERA
EN LO QUE FUI, LO QUE SOÑE SER Y NUNCA SERE.
Y EN TUS OJOS,SIEMPRE EN TUS OJOS
DONDE ANIDAN MIS SUEÑOS.

EN EL AMOR QUE PUDO SER Y NO HA SIDO
EN EL UNIVERSO DE MI MEMORIA DONDE AUN PERMANECE
JOVEN,UNICO Y HERMOSO MI PRIMER AMOR
EN LA CRUELDAD DEL ESPEJO ,DONDE ME MIRO Y NO ME RECONOZCO
EN EL NIÑO QUE LLEVO CONMIGO
QUE ME IMPIDE OLVIDAR LOS OLVIDOS,Y EN LOS MOMENTOS DE DESESPERANZA
SACA DE SU CORAZON UN SUEÑO Y ME LO REGALA
EN EL PRODIGIO DIARIO DE LA NATURALEZA
QUE AUN SE EMPEÑA EN SU RUTINA DE AMANECER
Y EN TUS OJOS,SIEMPRE EN TUS OJOS,
DONDE ANIDAN MIS SUEÑOS.

EN EL CANTO DEL ZORZAL,EL GRIS DEL GORRION Y LA INOCENCIA DE LA PALOMA
EN CREER,SIEMPRE EN CREER AUNQUE LA REALIDAD
ME DEMUESTRE QUE ES INUTIL SEGUIR HACIENDOLO
EN LA MUERTE;TAN LLENA DE VIDA.YA QUE UNA TIENE SENTIDO, GRACIAS
A LA INCERTIDUMBRE DE LOS TIEMPOS QUE MANEJA LA OTRA
EN EL MISTERIO COTIDIANO DE LA MENTIRA;
PUES SI NO EXISTIERA NO SABRIA APRECIAR LA VERDAD
Y EN TUS OJOS,SIEMPRE EN TUS OJOS,QUE AUN SIGUEN MIRANDOME
A PESAR DE LOS AÑOS QUE HAN PASADO DESDE QUE LOS MIRE POR ULTIMA VEZ.

DO AMOR NO TEMPO



Regina Carvalho
reginahcarvalho@hotmail.com


Para não me magoar
faz de tudo,
cava túneis,
constrói diques,
põe o casaco sobre a lama,
descobre passagens secretas,
adia setas,
salta de um precipício
e voa...
Tudo a toa,
me magoa.

Faz tudo para não me magoar,
omite,
deixa de emitir sinais,
acende vela para os ancestrais,
tilinta guizos no seu tronco oco
e soa...
delicadamente,
me magoa.

Me magoa para não me magoar.
Me magoa com sua pura ternura.
Me magoa com os gestos de candura.
Me magoa a prazo, para me poupar.
E quando eu penso que passou,
que ficou para sempre no tempo que voa,
surge sem rosto,
imemorial,
com sua figura inocente e boa,
e com sua gentileza crua,
ternamente me magoa.

DEMOCRATIZAR A DEMOCRACIA



Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)


Nestes dias, vários países latino-americanos e até de outros continentes recordam o ideal da libertação e da independência de seus povos. No dia 19, a Nicarágua celebrou o aniversário da vitória da revolução sandinista que libertou o país da ditadura de Somoza (1979). Em Cuba, 26 de julho lembra o dia do assalto dos revolucionários comandados pelo jovem Fidel Castro ao quartel de Moncada (1953). Foi o passo decisivo para a vitória da revolução popular. A cada ano, o povo celebra este aniversário como “o primeiro território livre das Américas”. No dia 28, o Peru recorda o dia de sua independência (1821). Uma marcha indígena reclama uma independência também social e econômica. O Paraguai se prepara para receber, nos próximos dias, o Fórum Social das Américas. Isso só é possível porque, depois de séculos de dominação, o país elegeu um governo mais democrático. Na Venezuela, o povo terá outra eleição democrática. Será a 12ª, ocorrida sob a liderança do presidente Hugo Chávez. As agências internacionais de notícia, apesar de detestarem o governo bolivariano, têm de reconhecer que são eleições honestas, democráticas e justas. No Brasil, onde os principais jornais e meios de comunicação continuam a fazer campanha contra o presidente da República, este obtém aprovação de mais de 80% da população.

Hoje, o mundo se debate em uma crise social, econômica e ecológica. Esta revela o fracasso do sistema social e político internacional, profundamente desumano com os trabalhadores e com a grande massa dos pobres. Enquanto isso, na América Latina, organizações indígenas, movimentos de trabalhadores rurais e populações de periferia urbana têm fortalecido um novo processo social e político. Elegeram governantes populares e votaram em novas Constituições, que garantem direitos de cidadania para todos.

Ainda há um longo caminho a percorrer, mas, é profundamente esperançoso ver a ONU declarar a Venezuela um país livre do analfabetismo. Há apenas dez anos, mais de 50% do povo venezuelano era analfabeto e a pobreza atingia mais de 90% da população. Hoje, a reforma agrária e as novas leis trabalhistas garantem trabalho e renda mais digna para a maioria. Na mesma linha, pela primeira vez, o povo da Bolívia elege um índio como presidente.

Há poucos meses, ele foi reeleito com mais de 70% de aprovação. E acaba de receber um prêmio internacional da UNESCO pelo seu plano de alfabetização de adultos e sua política de inclusão dos povos indígenas no destino do país. No Brasil, apesar da senadora do Tocantins declarar que é normal trabalhadores rurais ser escravizados por grandes fazendeiros, o governo brasileiro continua lutando para acabar com a escravidão no campo.

Não há como negar: em meio a contradições e muitas dificuldades, em todo o continente, florescem novos movimentos sociais e políticos. Eles não se baseiam em partidos e não se classificam nos moldes dos velhos padrões socialistas. Inspiram-se nas culturas indígenas e buscam como critério “o bom viver”, ideal que as civilizações andinas propõem para todas as pessoas e até na relação com todos os seres vivos. Os governos todos são eleitos e respeitam eleições democráticas e o sistema parlamentar. Entretanto, ao lado da democracia representativa, aprofundam o direito constitucional das comunidades e organizações populares participarem mais das decisões sociais e políticas. É a “democracia participativa” que assegura o direito do povo destituir qualquer deputado ou governante, mesmo no meio de um mandato, se este não cumprir o compromisso assumido com seus eleitores. Neste começo de campanha eleitoral, é bom os candidatos saberem disso: cada vez mais, também no Brasil, os eleitores terão, cada vez, mais direito de intervir nos destinos do país e do Estado. Mesmo se as instâncias do Judiciário ainda aceitarem candidaturas menos limpas, cada vez mais a consciência do povo rejeitará candidatos acusados de corrupção. A lei da ficha limpa veio para ficar. Além disso, o antigo Código de Graciano, lei das Igrejas cristãs nos primeiros séculos já ensinava: “Tudo o que diz respeito a todos, deve ser, por direito, decidido por todos”.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

SIMBIOSE



Wilson Guanais
wilson_guanais@hotmail.com



o poeta
o poema
quando
não
se emendam

formam
uma coisa


que
não chega
a
existir.


Obs: Imagem enviada pelo autor (Pintura de Lucio Guanais)

DA SÉRIE: CONTRASTES



Maria Inês Simões - Bauru/SP


Que diferença faz...
Sentir as lágrimas de sofrimento nos olhos,
ou a maciez das pétalas das rosas, nas pontas dos dedos.
Cada qual, em seus lugares úmidos e áridos. Insólitos...
São soluços da natureza, que passam, com uma única certeza.
São passageiros...


Obs: Imagem da autora.

EMOÇÕES DE EXISTIR



Vilmar Locatelli
( vlocatelli@hotmail.com)


Liberdade na idade,
Séculos...
Procurei, procuro, procurarei,
Servir o homem,
Servir o mundo.
Aprisionaram-me na mente
Dos calculistas.
Escada servi, conseqüência
De não poder... ter...
Onde estou?
Quem sou?
Por que existo?
Sou desabafo.
Hábito na essência humana,
Herança da divindade
Inexplicável, puramente.
Puro poder
Adquirido na liberdade
Do espírito,
Cultivada nas misérias
do mundo.
És humana,
caminha
abrindo esperanças nas
trevas,
Respiras mais uma vez,
Mostrar...
Estás viva,
Retalho humano, teu abrigo
Meu sorriso.

TECNOLOGIA E ALIENAÇÃO



Padre Beto
www.padrebeto.com.br


Um estudante preguiçoso e de pouca vivacidade, com a intenção de justificar o seu pouco rendimento nos estudos, queixava-se ao seu mestre de lhe faltarem belas roupas, um moderno computador, um ótimo celular, enfim, condições físicas que pudessem ajudar a dilatar sua inteligência. "Preste bem atenção, meu filho", aconselhou o mestre, "estas coisas servem somente para ampliar o alcance de sua inteligência e não para criá-la. De nada adianta estas coisas para quem ainda não descobriu a inteligência que possui!"

Desde os primeiros filmes dos gêneros terror e ficção científica, como "Metrópolis" ou "Frankenstein", o cinema vem tematizando a relação do homem com sua criação, com a tecnologia. No filme "Exterminador do Futuro" desenvolve-se um verdadeiro duelo mortal entre máquinas e seres humanos. Na trilogia "Matrix", o ser humano luta para se libertar do controle exercido por um sistema de computação altamente desenvolvido que vive da energia dos seres humanos e os domina através de uma realidade virtual.

Deixando as visões apocalípticas e as narrativas fantasiosas de lado encontramos nestas e em outras produções cinematográficas uma temática de extrema atualidade: a influência dos avanços tecnológicos em nosso cotidiano. Frutos da inteligência humana, os avanços da tecnologia vêm fazendo parte de dia-a-dia e, mesmo enfrentando as dificuldades e contradições de uma economia terceiro-mundista, grande parte da população acaba por usufruir de coisas como televisão, internet, celular, etc. Sem dúvida alguma, as inovações tecnológicas não podem ser vistas como ameaças à vida humana e muito menos como instrumentos do mal. Porém, o uso que fazemos delas é capaz de criar uma triste contradição: um sinal da inteligência de nossa espécie pode gerar a limitação da mesma. Como em relação às coisas naturais, o ser humano pode tornar-se dependente da tecnologia e esta, por sua vez, pode levá-lo a uma alienação de si próprio e de sua realidade. Diante da tecnologia, faz-se necessário, segundo Martin Heidegger, que o homem contemporâneo assuma uma postura denominada pelo filósofo de "serenidade diante das coisas". Nós podemos dizer sim a todo o avanço tecnológico, lutar para uma socialização dos mesmos e ao mesmo tempo continuar a ser senhores de nossa vida possuindo sempre o poder de utilizar a tecla "desligar". Nossa relação com os objetos que fazem parte de nosso universo será assegurada pela "serenidade" sempre que tivermos a consciência de que estes objetos estão a serviço do homem e não vice-versa. Em outras palavras, o ser humano poderá utilizar-se de toda a tecnologia e de todos os avanços da ciência e se manter livre de sua dependência, se tiver sempre preparado para viver sem eles. Diante do avanço da tecnologia que se torna cada vez maior é necessário entender que a sua utilização não pode ser critério de exclusão social, de dependência, diminuição da mobilidade física, rompimento do diálogo ou distanciamento de nossas relações sociais. Pelo contrário, a tecnologia está a serviço do ser humano para que este tenha mais tempo de saborear as diferentes dimensões da vida. Afinal, as inovações tecnológicas possuem sua razão de ser na criatividade e na vida do ser humano. "Chegará um dia em que as máquinas pensem, porém elas nunca terão fantasias" (Theodor Heuss).

Ao lado da "serenidade diante das coisas", o mundo contemporâneo exige do ser humano a postura de "abertura para o desconhecido". Os seres humanos movimentam o desenvolvimento das ciências e da tecnologia, mas não possuem conhecimento exato das conseqüências de suas inovações para o futuro. O mundo do conhecimento esconde sempre um verdadeiro mistério. Este, porém, não deve inibir as iniciativas para novas descobertas e melhoria da qualidade de vida do ser humano. "A única maneira de descobrir os limites do possível é ir além deles para o impossível" (Arthur C. Clarke). A "serenidade diante das coisas" e a "abertura para o desconhecido" devem ser posturas que caracterizam o ser humano de nossa contemporaneidade. Elas nos trazem a possibilidade de avançarmos em direção ao novo e, ao mesmo tempo, conservarmos o que é bom em nosso universo. O grande perigo para o ser humano não se encontra nas possíveis conseqüências dos avanços tecnológicos. O único perigo que desafia o ser humano no século 21 se constitui na alienação de sua realidade e de sua condição humana. A terrível ameaça para a espécie humana está na perda de uma prática saudável e que deve ser sempre desenvolvida: o pensamento. Nós corremos o risco de deixarmos de pensar, raciocinar e questionar criticamente diante da comodidade que os avanços da tecnologia podem nos oferecer. "O pensar deveria ser ensinado como se ensina a dança, como um tipo de dança" (Nietzsche).

VER



Walter Cabral de Moura
(wacmoura@nlink.com.br)



          Anda

          corre

          voa



          longe

          último


          asas

          fortes

          rápidas.



          Lá,

          vê:


          tudo

          foi

          nada.

DA SÉRIE: ANDARILHA



PONTE DA EMOÇÃO
Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)



.....aqui continuo a travessia de muitas idas. Aqui posso soltar o meu verbo, sem concordância. Aqui posso soltar meu pensamento, desaprisionar minha emoção. Aqui continuo deixando andar a emoção, aquela que me atravessa. A emoção andarilha, que me queima o peito. Respiro profundo. Toda vez é assim, mesmo que não diga. No respirar deixo vir as palavras que me saem pelos olhos, pelas narinas, pelos dedos. E deixo entrar a emoção, mesmo causando azia no coração, é no queimor das palavras que entram, que me reviram, que me voltam palavras. Gostaria de pintar suas palavras. As frases-situações que vizualizo. Faço dos seus escritos um filme em minha mente. Leio, releio. E depois começo a caminhar em cada frase. Vou pisando devagarinho para sentir. Pisando em brasa. Fervendo a alma. Lacrimejando os olhos vermelhos. E continuo.....regorgitando pensamentos.......e continuo indo e voltando.....e continuo sentindo, apenas sentindo e imaginando......e continuo.......


Obs: Imagem da autora ( Foto tirada em Nova Friburgo – 09)

BALÉ DAS ILUSÕES



Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br



Uma a uma
as ilusões desfilam..
Algumas seguem,
outras viram.
Sabe-se lá
vão parar!

Acho que crescemos
ou aceitamos
que não têm cabimento.

Dos enganos
vêm o crescimento
que infelizmente,
não temos como tardar..

Sem alarde
vão caindo as penas
de um sonho-cisne
que insistimos em criar.

Seria a vida imitando a arte?

Apesar
dos escombros
de um coração machucado,
permanece um sonho
que sempre irei buscar.

Mesmo que ao final,
me depare com um lago
de passo a passo,
de alianças e contratos
que só me fizeram chorar!


Obs: Imagem da autora.

GAITAS NO MEU CAMINHO




GAITAS GALEGAS NO MOSTEIRO DE Samos
Caminho de Santiago julho/2009


Bernadete Bruto
http://www.bernadetebruto.com/



     Gaitas galegas

      Por todo o caminho

     Um som da alma saindo

      Pelos pés


      Gaitas galegas

     No meu caminho

     Cantando para mim

      “é isso que tu és...

     ...não percebes ?”


     Gaitas galegas

     Mostrando-me assim

     Apenas simples

     Leve, solta

 E alegre!


Obs: Imagem enviada pela autora (Foto Lisbeth Oliveira)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

PASSOS DA DIOCESE DE JALES



D. Demétrio Valentini *


            Ao completar 50 anos de existência, a Diocese de Jales pode reencontrar os sulcos de sua história, e perceber os passos importantes que ela foi dando ao longo de sua trajetória.
            Como a Diocese está em função da região onde está implantada, primeiro é preciso constatar como se formou a região, que depois seria assumida como diocese.
            Pois bem, este extremo noroeste paulista, na fronteira com o Mato Grosso e com o Triângulo Mineiro, ficou em letargia durante longo tempo, como “sertão desconhecido”, enquanto do outro lado do Rio Paraná, no atual Mato Grosso do Sul, com muita antecedência foi se formando o aldeamento, tendo como ponto de referência a localidade de Paranaíba, que já contabiliza mais de duzentos anos de história, ao passo que do lado de cá, no Estado de S.Paulo, a ocupação do território não passa de oitenta anos.
            Em compensação, quando por aqui começou o povoamento, ele se expandiu rapidamente, aproveitando os ventos favoráveis do impulso para o oeste - a “marcha para o Oeste” – incentivada por Getúlio Vargas, coincidindo com a implantação da estrada de ferro, que serviu de “caminho da roça”, para quem vinha para estas bandas com o intuito de comprar seu pequeno pedaço de terra para trabalhar como agricultor autônomo. .
            Desenhada a fisionomia da região pela presença marcante de migrantes filhos de italianos e de espanhóis, e de valentes nordestinos, a Igreja intuiu que podia apostar na região, constituindo-a em diocese, mesmo nas condições de precárias estruturas eclesiais, tanto que foi necessário criar doze paróquias num mesmo decreto datado de 19 de março de 1958, com o evidente intuito de dotar a futura diocese de uma rede mínima de paróquias que justificasse o pedido de criação da nova diocese.
            Decidida a criação da diocese, por decreto do dia 12 de dezembro de 1959, dia de Nossa Senhora de Guadalupe e no ano do anúncio do concílio, tendo Jales como sede, a diocese foi oficialmente implantada no dia 15 de agosto de 1960, com a presença do Núncio Apostólico D. Armando Lombardi.
           A partir daí, a data de 15 de agosto pintou como emblemática dos passos que iriam cadenciar a história da Diocese de Jales.
            A começar, então, pela posse do primeiro bispo, D. Artur Horsthuis, no dia 15 de agosto de 1960, dia de Nossa Senhora da Assunção, a padroeira escolhida pelas missionários assuncionistas, que vinham trabalhando há mais tempo na região.
            Pela importância do evento, no município de Jales, a partir de então, o dia 15 de agosto passou a ser feriado municipal, em reconhecimento da importância de Jales ter sido escolhida como sede da diocese.
            Na década de setenta, outro acontecimento foi agendado para o dia 15 de agosto. Foi em 1975, quando da inauguração da nova catedral, construída no tempo do segundo bispo Diocesano, D. Luiz Eugênio Perez.
            E logo no início da década de oitenta, o dia 15 de agosto de 1982 foi de novo marcado como data importante, pela posse do terceiro bispo diocesano, que teve que acelerar o passo para chegar em tempo para a data que já estava marcada como simbólica.
           Em 15 de agosto de 1985 foi celebrado o jubileu de prata da diocese, com a presença dos bispos da Província, em festa que se desdobrou até o domingo seguinte, dia 18 de agosto, quando foi realizada a primeira “romaria diocesana”, com a reimplantação ao lado da catedral do cruzeiro de fundação da cidade.
            Daí em diante, o dia 15 de agosto, cada ano, vem servindo de referência para marcar as datas das romarias, que recolhem os eventos importantes de cada ano, e os celebram de maneira consciente, em sintonia com as preocupações da Igreja e os problemas da sociedade.
            Para confirmar a importância desta data, por coincidência, no ano em que a Diocese completa 50 anos de existência, o dia 15 de agosto cai de domingo, facilitando a celebração do seu jubileu de ouro num dia que por si próprio já expressa a história da diocese.


* www.diocesedejales.org.br

SANTARÉM, CAPITAL SOCIAL DA PAN AMAZÔNIA POR 5 DIAS



Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


Em breve a cidade de Santarém será sede de um raro acontecimento importante, o FORUM SOCIAL PAN AMAZÔNICO. Raro pelo seu significado e quantidade de participantes esperados, cerca de 8 mil participantes. Estes e estas virão de muitas comunidades do Oeste do Pará, e dos nove países banhados pelos rios da grande bacia e cobertos pela floresta amazônica, desde Caiena e a Guiana, até a Bolívia e o Equador.

Este Forum Pan amazônico é uma seqüência do Forum Social Mundial, que ocorre a cada dois anos em países diferentes dos cinco continentes. É organizado pela sociedade civil organizada em cada região, em parceria com os poderes públicos, municipal e estadual. Em Santarém, intensa atividade vem sendo realizada desde o ano passado, preparando tão importante simpósio social.

Os objetivos do Forum são já definidos – aprofundar intercâmbio de conhecimentos de problemas, lutas e esperanças dos diversos povos da grande Amazônia. Com tal troca de informações se descobrirá que há tantos problemas e lutas semelhantes; com isso o fórum possibilitará a construção de alianças, solidariedades e lutas comuns. O sistema de exploração de riquezas e povos da região pode ser dominado, através de organizações e lutas comuns.

Até hoje, poucos são os povos da região que compreendem a razão principal do chamado plano da Iniciativa de Integração Regional Sul Americana, o chamado IIRSA que projeta abrir corredores entre os oceanos Atlântico e Pacífico na América do Sul, simplesmente para baratear a exploração das riquezas da região para os grandes mercados do primeiro mundo. O fórum regional irá revelar a perversidade desse plano IIRSA e de como os povos explorados poderão criar alianças de defesa da dignidade coletiva dos povos explorados.

A preparação de tão importante evento em Santarém está exigindo dedicação e competência das várias equipes voluntárias e dos poderes públicos. Em Santarém não há lugares suficientes nos hotéis existentes para tantos visitantes, o que exigirá a busca de hospedagem solidária de famílias engajadas, assim como a organização de hospedagem em casas de famílias que se disponham a acolher hóspedes a preço razoável. O centro de encontros do fórum será o Parque da cidade que está sendo preparado com todas as comodidades necessárias, assim como estão sendo convidadas instituições a colaborar com seus espaços em condições de serem realizadas as conferências e trabalhos de grupos de grupos.

O mais importante do Fórum Pan Amazônico serão os encontros de organizações populares, sindicatos, grupos de mulheres, de indígenas e defensores da vida, que buscam objetivos semelhantes e enfrentam desafios iguais. Alianças certamente ocorrerão, aumentando assim a fraternidade e companheirismo pan amazônicos. A realização de tão importante evento não poderá ter a sociedade santarena indiferente. Associações de moradores, igrejas, organizações de jovens, associação empresarial, universidades, colégios e escolas, pescadores e tantos outros grupos que buscam civilidade não podem ficar de fora de tão grande momento cultural e civilizatório na Pérola do Tapajós.

NO FIM



Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Na dobra do pensamento
Encontrei o percurso da razão
Desencontrada da emoção
Riscada em fogo e ressentimento.


Queimada na ponta do coração,
Escondida está a verdade,
Contrariando a minha saudade
Encosta a incerteza na mão


Da dor do prazer que emerge
O desatino de uma lágrima pura
Que corrói toda formosura


E no fim, joga no abismo derradeiro.
Moendo uma certeza palpitante
Na grandeza de um amor cariciante.

POETA MENINO



José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Nessa inquietude
Busco uma razão,
Saio vagando,
Procurando um bem
Que me faça sorrir
Ou agir melhor,
Que me torne poeta
De palavras mágicas
Rimadas com a desilusão,
Enfeitando o feio da vida
Para suportar a solidão.
Me encontro incapaz,
Soluçando horrores
E chorando o desespero,
As palavras não surgem,
Fogem,
São pobres,
Sem nexo,
Fico intranqüilo,
Sozinho em meu mundo
Lembrando o menino que fui
Sonhando ser poeta.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

INCLUSÃO SOCIAL E DIREITO: POR UMA DEMOCRACIA CONSTITUCIONAL



CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tassos Lycurgo (*)
www.lycurgo.org


Embora o sentido original da palavra “trabalho” tenha perdido importância para designar o que o representa hoje na humanidade, ainda é possível fazer uma correlação com o sofrimento. Assim, é imprescindível lançar holofotes sobre um aspecto incivilizado muitas vezes presente na prestação laboral, qual seja, o desrespeito a valores humanos mínimos dos trabalhadores, que precisam ser urgentemente recuperados pela justiça social no ambiente laboral. O trabalho, que se originou da palavra latina tripalium, que designa “uma armação de três estacas utilizadas nas fazendas para ajudar nos partos e na ferragem dos animais, que, no início da Idade Média, porquanto vinculada ao sofrimento e à dor, é percebida como um instrumento de suplício” (Fragale Filho, 2006, p. 829), haverá um dia de ser entendido como elemento dignificante do homem, pois o completa.

Na contramão do que seria ideal, tem-se que, senão a principal, certamente uma das mais importantes características da Contemporaneidade é o desemprego. Sua importância para o pensamento é de tal monta que traz conseqüências centrais para os mais variados ramos do saber, tais como o Direito, a Sociologia, a Filosofia, a Economia, a Psicologia, entre outros. Isso se dá porque é possível concluir, como se disse, que o trabalho, analisado com alguma pormenorização, é elemento constitutivo da própria personalidade humana, sendo, pois, indissociável do caráter do homem. Assim, àquele que se vê em situação de desemprego, resta muitas vezes a sensação de diminuição não apenas contingencial, momentânea, mas como pessoa, o que lhe dá a terrível sensação de permanente inferioridade diante dos outros e da vida.

Interessante é notar que mesmo em situação de relativo crescimento econômico, vêem-se graus relativamente altos e, portanto, bastante preocupantes de desemprego. A chamada epidemia do crescimento sem empregos (jobless growth), como com propriedade argumenta Sachs (2004, p. 25), é decorrente de uma correlação de variáveis, tais como a substituição da máquina pelo homem nas indústrias, a inexistência de uma política de bons salários; e, por fim, a terrível prática do dumping social, que no campo prático é verificado pelo “deslocamento das produções intensivas de mão-de-obra para plataformas de exportação situadas em países periféricos que se satisfazem com a competitividade espúria, (...) por meio de salários excessivamente baixos, longas jornadas de trabalho e ausência de proteção social” (Sachs, 2004, p. 25). Não há de se esquecer que, neste ambiente de crescimento desordenado, o labor se desenvolve em formas atípicas de trabalho (Carelli, 2004), as quais, caso não sigam os estritos mandamentos legais, hão muito provavelmente de ser formas precarizadoras da força laboral.

O referido dumping social, amplamente combatido pela Justiça Laboral assim como pelo Ministério Público do Trabalho, tem dupla implicação para países como o Brasil. Se, de um lado, cidadãos brasileiros perdem postos trabalho porque multinacionais optam por estados sem responsabilidade social para implementar sua mão-de-obra; do outro, a indústria brasileira sofre a concorrência desleal dessas mercadorias, que chegam ao consumidor com preços impraticáveis pelo empresário brasileiro, que idealmente há de arcar com suas obrigações tributárias e sociais. Além disso, tal prática é incompatível com um Estado democrático, não apenas por ferir de morte a cidadania social, mas também pelo flagrante desrespeito aos direitos humanos.

Assim, conclui-se que há de urgentemente se incrementar a idéia de que o estabelecimento da democracia constitucional no Brasil, mormente por meio do fomento no plano fático da justiça social, trará conseqüências importantíssimas tanto para o âmbito coletivo quanto para o individual de cada trabalhador e, por conseqüência, para a própria sociedade. Somente assim, poder-se-á vislumbrar entre os seres humanos o que minimamente poderia ser chamado de humanidade social, situação em que o desemprego e o trabalho indigno seriam verdadeiramente vistos com a revolta e a repulsa de que são merecedores.


(*) Tassos Lycurgo é Professor Adjunto da UFRN e Advogado (OAB/RN); É Doutor em Estudos Educacionais – Lógica (UFRN), com pós-doutorado em Sociologia Jurídica (UFPB); Mestre em Filosofia Analítica (University of Sussex, Reino Unido); Graduado em Direito (URCA) e em Filosofia (UFRN). Atualmente, leciona as disciplinas Direito Processual do Trabalho e Elementos de Direito Autoral e Legislação Social na UFRN. Página Acadêmica: www.lycurgo.org

Obs: As referências bibliográficas se encontram na versão completa do artigo, disponível no site do autor.


Data de elaboração: Maio de 2008

GESTOS DE AMOR



Jaime Sidônio
(psjaime7@hotmail.com)


            A proposta evangelizadora de Jesus tinha seu ponto de partida na acolhida amorosa, na amizade. Na verdade, ele evangelizava por meio da amizade. Um dos mais belos exemplos de evangelização por meio da amizade é o diálogo de Jesus com a samaritana junto ao poço. No decorrer do diálogo que se estabeleceu entre Jesus e aquela mulher, ela foi sendo evangelizada pela amizade dele e converteu-se em uma ardorosa missionária. “Então a mulher deixou o balde, foi para a cidade e disse para as pessoas: ‘Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Messias?’ O pessoal saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus” (Jo 4,28-30).
            Mas a missão evangelizadora não é só prática de amizade, é também a forma mais eficaz de uma prática misericordiosa que possibilita a verdadeira libertação.
            Diz-nos o Evangelho que uma grande multidão seguia Jesus. Ao sair da barca, onde com certeza Jesus tinha vivido intensamente seu momento de solidão, feito a sua experiência mística com o Pai, ele contemplou com lucidez e sensibilidade aquela multidão, teve compaixão e foi movido à misericórdia. “Quando saiu da barca, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão, porque eles estavam como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar muitas coisas para eles.” (Mc 6,34).
            Jesus ofereceu em primeiro lugar o Evangelho para saciar a fome de Deus e de plenitude humana. Em seguida, fez o milagre da multiplicação para matar a fome de pão. Assim ele ensinou que a missão deve conduzir a um processo de libertação das misérias humanas. Libertação que acontece a partir de um gesto de amor.
            Nossos gestos de amor devem ser sempre multiplicados, não para resolver de uma vez todos os problemas, mas para que o amor continue vivo entre nós. A verdadeira libertação só acontece a partir dos gestos de amor. Não existe outro caminho. Precisamos convencer-nos de que a marca de nossa prática evangelizadora deve ser sempre o amor generoso, a ternura e o carinho.

ACADEMIA MATER SALVATORIS



E SEUS NOVOS MEMBROS
Sebastião Heber
shvc50@gmail.com


A Academia Mater Salvatoris, festejando seus 34 anos, recebeu dois expressivos membros.Zenaide e Silvoney Sales são os novos sócios – ela tem como patrona Nossa Senhora de Loreto e ele, Nossa Senhora de Fátima.

A cerimônia, presidida pelo Presidente Prof. José Nilton,contou com a presença do Mons. Sado, de convidados e de muitos familiares dos novos membros.

Zenaide no seu discurso pausado e bem elaborado,começa sublinhando o choque que teve ao ser convidada para esse sodalício.E imaginou Maria no anúncio do Anjo.Mas se lembrou da palavra de Albert Einstein: “Deus não escolhe os capacitados,mas capacita os escolhidos”.E dessa forma, assumiu a missão, acrescida a tantas outras que já tem. Ela ocupa a cadeira que pertencera à professora Ana Lúcia Uchoa Peixoto, que fora presidente do Instituto Feminino.Lembrou que sua predecessora nasceu no Ceará, tendo sido formada no Rio de Janeiro. Na Bahia desenvolveu várias atividades ligadas à museologia. E acrescenta:” Deixou Ana Lúcia um legado de vida cristã muito bonito e que pode ser traduzido em poucas palavras: foi mulher de oração, mulher de ação, mulher de muita generosidade e serviço. Soube amar. Soube perdoar. Soube compreender. Soube partilhar os dons que lhe foram confiados por Deus. Soube ser filha de Maria e proclamar os seus louvores”.

Sobre Loreto, afirmou que não conhecia a história. Mas essa foi a chance de descobrir o mistério que envolve a casa da Sagrada Família que está naquela cidade italiana.Invenção do imaginário cristão, lenda medieval?Essa devoção já tem 716 anos e tudo começou em 1294.A persistência dessa presença é que mostra o seu lugar na vida dos que crêem.E afirma ainda Zenaide: “A Santa Casa de Loreto foi o primeiro santuário de porte internacional dedicado à Santíssima Virgem, tendo sido, durante muitos séculos, o verdadeiro centro Mariano da Cristandade. A construção da Basílica se iniciou em 1469, sendo ampliada ao longo dos séculos. Nela se venera a pequena escultura da Virgem, em cedro negro, que deu origem à devoção de Nossa Senhora de Loreto. Um princípio de incêndio destruiu a imagem original, em 1921. Mas, no ano seguinte, o Papa Pio XI abençoou a réplica dessa estátua, que é venerada no Santuário de Loreto, especialmente no dia de sua festa oficial, em 10 de dezembro”.

Silvoney Sales começou de forma literária, homenageando o seu predecessor:” Digo que esta é uma noite de homens não apenas no sentido masculino da palavra, mas de humanidade porque tenho à minha frente tantas pessoas queridas, amigas. Digo que esta é uma noite de homens e de livros porque preciso saudar aquele a quem estou sucedendo: o grande Paulo Segundo da Costa”. E trouxe os dados relacionados ao seu curriculum:”Cearense de Quixadá, Paulo Segundo da Costa chegou a Salvador em 1943, quando ainda era estudante, trazido pelo seu irmão, Pedro Segundo da Costa. Estudou no Colégio da Bahia e, em dezembro de 1951 formou-se pela Escola Politécnica. O engenheiro civil Paulo Segundo da Costa é um homem de letras e de números. Embora na sua profissão de engenheiro ele viva cercado de cálculos, é autor de vários livros que contam muito da história de Salvador e da Bahia. Dotado de grande sensibilidade e intelecto, Paulo Segundo é um defensor e propagador da cultura”.

Silvoney e sua família são marcados pela fé e essa foi uma ocasião para dar esse testemunho.Um dos mais fortes sinais manifestado nesse sentido, foi por ocasião da morte de Érica, a filha caçula – eles dirigiram pessoalmente as missas de 7º e 30º dias, cantando e admoestando a assembléia litúrgica.E ainda acrescenta: ”A fé não necessita de nenhuma prova ou de alguma evidência racional. Mas ela se manifesta de diversas maneiras na vida de cada um de nós e na sociedade de uma maneira geral. Não me refiro apenas às grandes celebrações eucarísticas e grandes manifestações que tem levado milhares de fiéis a templos e eventos católicos. Mas também àquelas manifestações que edificam no seio da sociedade obras que contribuem para perpetuar por meio da cultura a propagação da fé em Jesus Cristo, como o Caminho, a Verdade e a Vida”.

Ocupou um lugar especial, na fala de Silvoney, a descrição da história de Fátima, os três pastores, os milagres relacionados àquele lugar, assim como também as visitas dos Papas, desde Paulo VI, como peregrinos no meio do povo que ali acorre.

Uma das mais fortes devoções do expressão católica está na devoção a Fátima.Essa prática tem crescido e se espalhado em todo o mundo. Desde então, inúmeros santuários e templos são dedicados a ela nos quatro cantos do planeta. E Silvoney, como bom baiano, não se esqueceu de mostrar essa devoção na sua terra:”Aqui em Salvador não é diferente. Na Bahia de templos e tradições, a devoção a Nossa Senhora de Fátima fez erguer em nossa cidade três importantes santuários dedicados a ela: um no Garcia, no Colégio Antonio Vieira, uma no Acupe de Brotas e outra em Stela Maris”.

E concluiu sua fala convidando a todos a cantar o tradicional “A treze de maio na Cova da Iria No céu aparece a Virgem Maria. Ave, ave, ave Maria”.


Sebastião Heber.Prof. Adjunto de Antropologia da UNEB, da Faculdade 2 de Julho. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da BA e da Academia Mater Salvatoris.

TEXTO DE LUG COSTA


Quantos sonhos a gente insiste em sonhar
embora saibamos que na realidade
jamais se tornarão o que gostaríamos
que se tornasse.
Planejamos acontecimento,
“sonhamos acordados” com tanta teimosia
que parece que dominamos o mundo real.
O que lançamos para o futuro
desaparece no presente,
e resta apenas o que dispensamos
ou que achamos desnecessário.
Os sonhos nos fazem caminhar
para frente.
Outras vezes nos fazem
viver no mundo das ilusões,
perdidos nos labirintos que criamos.
Sonhar pode tornar-se uma fuga:
fuga de nós mesmos,
fuga de nossa realidade,
fuga do confronto consigo mesmo.
Insistir em sonhar
pode significar para muitos
o último esforço de continuar a viver.


(Caxias 07.07.2003)