terça-feira, 29 de junho de 2010

SEMPRE NO SÃO JOÃO



Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


Nessa festa colorida por bandeirolas
vem um som feito na terra
que nos faz arrastar os pés
numa animada quadrilha.
Tão simples brincadeira
com fogos , fogueira e balões
volta um pouco da infância
refazendo animados e quentes
tantos corações com suas histórias
Seja apenas pela fogueira com seu calor
ou talvez até mais pelo fogo da memória


Obs: Imagem enviada pela autora.

SARAMAGO E O SORRISO DE DEUS



Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)


Se depois que um homem morre, há quem ainda sinta a necessidade de atacar a sua obra e desqualificar o seu pensamento, é porque, sem dúvida, aquele pensador, mesmo fisicamente morto, continua a incomodar. Suas palavras ressoam como um apelo profético para uma transformação que nem todos aceitam ou desejam.

José Saramago era um escritor engajado que, em seus romances, refletia uma profunda crítica à sociedade vigente e o anseio por um mundo diferente. Uma vez, no 5º Fórum Social Mundial, o encontrei em um debate aberto com o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Este defendia a utopia como ideal necessário para que o ser humano possa avançar no caminho. Saramago denunciava a utopia como um ideal que nos afastaria da realidade. Naquela discussão, me senti intelectualmente mais próximo de Eduardo Galeano do que de Saramago. Entretanto, admirei a profunda sinceridade e coerência do intelectual português, único escritor em nossa língua a receber o Nobel de literatura e que durante toda a sua vida nunca escondeu sua opção socialista.

Seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”, transformado em filme pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles, continua a ser uma incômoda profecia sobre a epidemia social que se abateu sobre o mundo atual e teima em nos desumanizar. É pior do que uma cegueira física para a qual se poderia encontrar antídotos. Ela faz com que, mesmo pessoas boas e sensíveis, não vejam, isto é, não se dêem conta da terrível realidade em que vivemos. Conforme Bernardo Kleisberg, assessor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), todos os anos, 18 milhões de pessoas continuam morrendo por causas relacionadas com a pobreza injusta, imposta pelo modo como esta sociedade se organiza. Parece que os dados de 2009 ainda não foram divulgados, mas em 2008, o mundo comemorou sua segunda maior safra da história. Apesar disso, nesse ano, cinco milhões de crianças morreram de fome. Como escreveu Saramago, a sociedade continua “cega”.

Infelizmente, não é só a sociedade e a organização econômica internacional que contraiu esta enfermidade espiritual. Até muitos setores das Igrejas e das religiões têm estruturalmente sido coniventes com esta idolatria do deus-mercado.

Saramago se proclamava ateu. Sempre atacou a idéia que aprendeu sobre Deus. Em 1991, escreveu o “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Em um estilo próprio, com páginas inteiras sem parágrafos e com uma pontuação muito original, Saramago reconta criticamente as histórias narradas pelos evangelhos e algumas que ele deduz das entrelinhas. Apresenta Jesus de Nazaré como simples pessoa humana. Isso desagradou às hierarquias eclesiásticas, embora tenha respondido aos anseios de muitos fiéis que, assim, descobriram Jesus mais próximo de nossa fragilidade e mais acessível para ser seguido, como mestre e guia no caminho do Pai. Agora, já idoso e próximo à sua partida, presenteou o mundo com o romance Caim. Nas primeiras páginas, o julguei fundamentalista e primário. No entanto, pouco a pouco, compreendi a parábola que ele nos propunha. Era contra a visão fundamentalista de um Deus vingativo, violento e ciumento do progresso humano. Finalizei a leitura mais animado a testemunhar Deus como amor e inclusão, neste mundo carente de diálogo e de respeito à diversidade.

Saramago nunca precisou ser crente para ser uma pessoa sedenta de fraternidade e justiça. Com todo o respeito por sua crítica muitas vezes ácida a Deus e às religiões, ouso imaginar Saramago chegando ao céu e se surpreendendo com o sorriso de Deus que o acolhe como amigo. A ele meio envergonhado, sem compreender esta inesperada amizade, quem sabe, Deus tenha dito as mesmas palavras pronunciadas no século XVI pelo reformador Martinho Lutero: “Deus prefere o ataque, mesmo blasfemo de uma pessoa justa, do que o louvor e o aleluia de quem não se preocupa com a justiça”.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

BOLA PRA FRENTE, SOB A LONA



Walter Cabral de Moura
(wacmoura@nlink.com.br)


Eu por mim digo que
continuo assim
apesar dos apesares
apesar do peso preso
e só deixo de curtir
quando já não há
a menor condição
ou a cancha impraticável
para o esporte bretão
e suportando a barra, irmão
versus opressão
sem presunção
que presunto já não como
desde a macrobiótica
e minha ótica pode não ser
a real visão
mas sem corte e sem nobres
sigo, sigo, neste circo.

cantiga de amigo

cairo de assis trindade



pra se reconhecer um verdadeiro amigo

basta olhar no seu olho e sentir seu silêncio

e na hora do abraço ouvir-lhe o coração


pra conquistar o amigo é preciso deixá-lo

ser como se ele fosse mais do que um irmão


pra entender este amigo é necessário vê-lo

e se ver com os olhos dele e vice-versa

e então somar história e dividir o pão


pra mantê-lo é preciso carregá-lo sempre

com todo o teu carinho na palma da mão

LOUCURA



Wilson Guanais
wilson_guanais@hotmail.com



Quando te vi
pela primeira vez
- meus olhos
começaram a existir

: arranquei-os
pra enxergar melhor.

FASCINANTE NATUREZA HUMANA



Padre Beto
www.padrebeto.com.br


Durante a maré cheia, duas ostras se encontraram por acaso. "Eu estou muito estranha!", revelou uma delas. "Eu sinto no meu interior algo que me incomoda. É como se eu carregasse uma pedra ou uma bola de chumbo em meu corpo. O que será que pode acontecer comigo?" A outra ostra, porém, se gabava de ser perfeita: "Comigo está tudo bem. Eu me sinto totalmente saudável, não tenho nenhum desconforto e nada que vem do meu interior é um incômodo. Eu sou totalmente normal! Mas, você deve tomar cuidado, pois ainda vai morrer por causa desta bola de chumbo!" Um siri muito esperto e com muita experiência de vida passava por perto e, ao ouvir a conversa das colegas, resolveu se intrometer dizendo à ostra orgulhosa: "Certamente, você não conhece sua própria natureza! Você não sente nada porque ainda é estéril. Sua amiga, porém, sofre com seu interior, pois carrega em si uma linda pérola!"

A princípio, a palavra grega "sophrosyne" pode ser traduzida para o português como reflexão, meditação ou introspecção. Os antigos gregos, porém, utilizavam esta expressão em um sentido mais profundo. Sophrosyne não se reduzia a um simples pensar sobre coisas, fenômenos ou situações, mas em um exercitar a razão em busca de um equilíbrio de todo o ser, em busca da utilização correta de todas as forças existentes na alma humana. Os gregos procuravam alcançar o controle ideal sobre seus afetos, paixões, inclinações, enfim, sobre todas as forças que surgiam em seu interior. O controle aqui não significava de forma alguma uma espécie de repressão, poda ou censura dos impulsos naturais, como se estes fossem um mal em si. As paixões, os afetos, as inclinações humanas eram compreendidas como manifestações interiores de tudo o que há de mais natural no ser humano. Em uma expressão moderna, as paixões, afetos, instintos e inclinações são forças, a princípio obscuras, que no ser humano se encontram e do inconsciente afloram para uma realidade consciente. Estas manifestações são então julgadas pela razão consciente e ao se manifestarem em um mundo moral não são indiferentes aos valores. Elas, porém, são, a princípio, moralmente indiferentes, ou seja, estão fora dos padrões do bem e do mal. Estas forças interiores formam, construindo ou destruindo, um fortíssimo material tanto em intensidade como em conteúdo, um mundo interior tão rico, interessante e fantástico como o mundo exterior. "Não sei conceber o bem se reprimo os prazeres da mesa, se reprimo os prazeres da luxúria e da audição e se me privo das agradáveis emoções causadas pela visão de belas formas" (Epicuro).

Paralelamente a esta visão sobre a natureza humana, desenvolveu-se desde a antiguidade uma concepção negativa do homem e com ela teorias moralistas que pregam o quanto são maus, perigosas e destrutivas as nossas forças instintivas. Deste medo diante do "animal" que existe em seu interior, o homem desenvolveu práticas ascéticas de poda e destruição de suas paixões. A ascese como caminho de purificação e aproximação de Deus foi absorvida pelo Cristianismo inicialmente nos mosteiros se generalizando na Idade Média como prática do verdadeiro cristão. Uma triste moral marcou, então, o continente europeu cristão com uma visão negativa do mundo e do homem distanciando-se da mensagem otimista e libertadora de Jesus Cristo. O ser humano era compreendido como escravo de uma natureza pecaminosa possuindo como único caminho de salvação o sofrimento e a privação de todo o prazer existente na vida. Muitas pessoas, com um medo consciente ou inconsciente de sua própria natureza acabam, mesmo nos dias de hoje, se refugiando em uma religiosidade rígida e castradora criando para si um Deus que condena a própria natureza que criou. Estas pessoas trilham, na verdade, um caminho de frustração e não chegam compreender a mensagem de Jesus Cristo.

Com a influência destas visões negativas sobre o mundo e o ser humano, por muito tempo deixou-se de compreender que os afetos e todo o prazer que a natureza humana busca pertencem à raiz da vida emocional, a impulsos da alma, materiais que, na verdade, mantém a vida humana e a base do seu desenvolvimento em busca da plenitude. Ao simplesmente reprimirmos nossos desejos e nossa força interior acabamos por anular nossa própria vida. Aqui está a pobreza ética da ascese. Do nada, ou seja, da anulação de nossa personalidade não podemos desenvolver nenhum valor. Para toda construção interior o mundo dos afetos é o terreno fértil e promissor. Tudo que possuímos em nosso ser constitui-se em um material que podemos trabalhar e moldar para a nossa felicidade e harmonia com os outros e com o mundo. "Depois de algum tempo você... aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não lhe dá o direito de ser cruel" (W. Shakespeare). Muito mais útil do que a repressão estóica e a obediência cega a normas moralistas é a sabedoria de interagirmos com todos os aspectos de nosso ser utilizando todo ele para a realização do sentido da vida. "Se desejares encontrar prazer na vida, deves atribuir valor ao mundo" (Goethe).

NO TEMPO



Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


    A vida se dissolve nas horas, nas sombras, nas passadas, nos sonhos, no nada. Nem ao menos podemos preservar os sonhos. No espaço deixado pelo que se foi, lembranças enterradas compulsoriamente.
     Sobre o móvel, fotografias de um tempo adormecido. No piano compassos de valsas à espera do tom. O aniversário, a formatura, o casamento.
    Das prisões dos porta-retratos as lembranças não podem fugir. A chuva acaricia o jardim. A roseira agradece. Fecho os olhos, desligo o pensamento. Volto para a cama. Medos me assaltam.
    O trovão assusta a menina: - Tem medo, não, filha, é Deus arrumando a casa. O relâmpago risca o fósforo, acende o céu. Sinhá Maria afagava-lhe as ilusões. Ainda não era tempo de verdades.
    Rituais de chegadas e partidas. Mãos abandonadas, olhos fechados, ouvidos de silêncio. Sou eu? Nem sei. Uma estranha sabendo de mim o que não sei, dando voltas ao redor do nada.
    Os sinos tocam.
    Epifania, Eucaristia, Te Deum, anunciam e desanunciam a vida numa melancolia de noite de Natal ou na alegria do primeiro dia de um mundo inteiro a começar de novo – ameaça ritual de felicidade.
    Metade da vida se vai, nos perdões vadios, nos arrependimentos vazios.
    Fecha-se um tempo. A terra arquiva os escolhidos nos rituais da bênçãos e dos adeuses.
    O corpo no chão. Nos pés, asas de Ícaro, sonhos derretidos, lágrimas de vidro.
    O corpo no chão. Encantos de um maio branco, flores, altares, não e sim acasalados.
    O corpo no chão. No olhar a certeza de uma alma esmagada.
    Alma fantasiada. Monges, colombinas, palhaços, tudo sonho, tudo sonho, almas alegóricas vestem histórias de faz de contas. Era uma vez...
    O corpo no chão, sinalizado: pare olhe escute.
    A vida apita na curva.
    Quem inventou a obediência inventou o arrependimento. É preciso obedecer e saber que isto é isto é se já não me bastasse a respiração tenho que acompanhar o ritmo. Morro quando não posso parar e só me resta seguir as pegadas alheias nos caminhos tortos se paradas;
    Visto-e com os farrapos dos meus enganos. Nasci assim, nem verde nem madura. O que me prendia ao tronco da matéria foi cortado e enterrado num vaso de rosas, ali, um pedaço de mim descansa em paz. Com os restos de um livre arbítrio risonho e falso, construí inutilidades.
    O corpo no chão.
    Olhe, pense, ria. Olhei sem pensar e ri na hora errada.
    Ao amanhecer arrumo tesouros do para sempre: um punhado de terra uma pá de cal. Rasgo retratos antes que a trança os trace. Guardo o da família unida e imortal onde as crianças não crescem nem os velhos morrem. Queimo papéis, cartas, recados, promessas. Entrego meus livros para adoção. Alguns levam minhas mágoas nas entrelinhas.


Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega

UM POETA SEM UMA POESIA!



Tomé


Amanheceu meio frio
mas o sol fez uma promessa que
o seu calor seria sentido e
celebraríamos a sua beleza.


Não gosto de uma mentira e
ele não me mentiu, pois
saiu com tanto esplendor que
me lembrava de ti.


Um vento, pouco mais que uma brisa
beijava o meu rosto de levezinho
deixando paz no meu espírito e
lágrimas exudando nos meus olhos.


Tão bom se estivesseis na minha vista e
melhor mansa nos meus braços,
mas basta quando posso te perceber
aqui pulsando no meu coração.


Não posso pegar no sol brilhando e
não posso te abraçar, porém
sei que ele me banha no seu calor e
tu me dás uma razão pra viver.

13 ANOS SEM PAULO FREIRE: SEU LEGADO ESTÁ VIVO NO MEIO DAS MASSAS



José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Paulo Freire foi, na história da educação brasileira, um cidadão eticamente comprometido com o ato de educar e com a causa libertária de todo ser humano explorado e vítima de sistemas políticos ditadores, uma vez que, com os militares governando o Brasil, quase nada se fazia em benefício daqueles que nasciam no meio das classes sociais pobres, por isso mesmo, não podendo desfrutar de boa educação tornando-se impossibilitados de participar ativamente do processo político brasileiro.

Conheceu o "sabor" da violência dos opressores, mas nunca deixou de sonhar com uma realidade diferente em que homens e mulheres desafiados pelo mundo pudessem construir sua liberdade e por conseqüência conquistar sua cidadania a fim de, conscientes de seus papéis enquanto seres pensantes, tornarem-se agentes de um novo pensar político, envolvidos por uma nova maneira de, também, fazer educação.

Pensando politicamente diferente da elite de seu tempo, Paulo Freire sofreu amargas decepções e duras represálias que só aumentaram o seu amor pelos movimentos sociais e a sua coragem de poder, através da educação, idealizar um novo mundo, onde a participação coletiva estivesse a serviço da vida e do bem-estar social de todos.

Era sabedor das dificuldades que encontraria para fazer esse tipo de educação acontecer, pois as massas exploradas e fragilizadas pelos sistemas se achavam, ainda, incapazes de mobilizarem-se, com medo de não conseguirem caminhar, lideradas por suas próprias convicções de seres inferiores. Na “Pedagogia do Oprimido”, é evidente essa resistência quando Freire (2001) afirma que “um dos aspectos que surpreendemos, quer nos cursos de capacitação que damos e em que analisamos o papel da conscientização, quer na aplicação mesma de uma educação realmente libertadora, é o 'medo da liberdade.” (p.23)

Como então se afirmar um educador libertador se o próprio explorado não se acha capaz de ser um homem e/ou mulher com possibilidades de reverter sua situação de "ser menos" dentro de uma sociedade cheia de diferenças e preconceitos? Paulo Freire não se intimida diante disso e, durante toda a sua vida, procurou deixar exemplos práticos de que o novo é possível e que a organização política das massas é fruto de uma educação pautada na luta por liberdade.

Paulo Freire morreu no dia 02 de maio de 1997...fato este pouco divulgado na mídia.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

INTERVALO DE JOGO



D. Demétrio Valentini *


   O intervalo não muda o placar do jogo, todos o sabemos. Mas muitas vezes é no intervalo que se pode mudar o rumo da partida, por alterações na estratégia coletiva, e até por mudanças na escalação dos atletas.
   Agora estamos vivendo, na verdade, um grande intervalo coletivo, pela atenção prioritária que é dada, de maneira nacional, ao andamento da copa do mundo na África. E logo depois teremos outro intervalo, resultante das distrações produzidas pela campanha eleitoral.
   O certo é que entramos num período em que o placar da vida continuará do mesmo jeito, mas será tempo oportuno para refletir sobre as providências a tomar para garantir que o grande jogo da vida nacional possa dar certo. E´ urgente, em outras palavras, pensar num projeto de Brasil que nós queremos, escalando prioridades estratégicas, e estabelecendo com clareza metas indispensáveis para guiar a ação coletiva que garanta nossos futuro como nação com as responsabilidades que as circunstâncias naturais e históricas nos impõem.
   Não sabemos quem será o campeão nesta copa da África. Mas com certeza, a vitória final levará as marcas do plano coletivo posto em prática pela equipe vencedora.
   A necessidade de um plano, que leve em conta as excepcionais condições oferecidas pela natureza, mas também os desafios que ainda aguardam solução, se torna cada vez mais urgente, sob o risco do Brasil perder a grande oportunidade histórica que o contexto mundial lhe proporciona.
   Para definir este plano, algumas referências são indispensáveis, e precisam ser colocadas à mesa com evidência.
   Uma delas, que ultimamente vem emergindo com contundência, é a dimensão ecológica. Para alcançarmos o crescimento necessário, não podemos comprometer o equilíbrio ambiental, ainda mais diante das responsabilidades do nosso país em relação ao mundo.
   Em termos estratégicos, outra referência imprescindível é a educação. Sem uma educação de qualidade, não se assimilam os avanços tecnológicos, e não se sustentam os valores que precisam presidir a vida pública. Está mais do que na hora de se empreender um grande esforço para colocar os benefícios da educação ao alcance de todos os brasileiros.
   Como desafio, é imprescindível uma adequada estratégia para diminuir, e aos poucos suprimir, as injustas desigualdades sociais e regionais. Um verdadeiro projeto de país precisa contemplar o conjunto dos cidadãos, evitando que o crescimento seja feito às custas dos mais fracos e em benefício dos privilegiados.
   Em todo o caso, é bom aproveitar este tempo de intervalos, que se apresentam à nossa frente neste ano. Pois somos convidados, desta vez mais que em outras eleições, a escolher para o país um plano de desenvolvimento, que corresponda às reais possibilidades do nosso país. E em função deste plano, decidir nosso voto.
   Na copa, já caíram fora países que possuíam algum craque excepcional, mas que não conseguiu resolver o jogo sozinho. Para o Brasil também, não basta escalar um craque excepcional, e achar que ele resolve tudo por conta própria.
   É preciso ter um bom plano. Assim é no esporte. Muito mais na administração de um país do tamanho do Brasil.
   Para votar com responsabilidade, será necessário observar bem quem apresenta o melhor plano para o Brasil que nós queremos. E conferir quais são as garantias de que este plano possa ser executado com êxito.


* www.diocesedejales.org.br

TEXTO DE PAULA BARROS



www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)


Pessoas inteligentes me emocionam profundamente. É muito interessante ler alguém inteligente. Conversar com alguém inteligente. A pessoa está ali, visível ou não, mas a inteligência está, é feito um aroma. Vai me envolvendo. Penetrando até os poros da alma. Revolvendo ideias, sentimentos, pensamentos, emoções.

As palavras podem passar para atos. Para fatos. Para a história. Mas é algo mais. É volátil. Talvez porque se misture com a emoção de quem ler/escuta.

É quase uma teia, onde vou ficando envolvida. Uma presa do que está dito, e muito mais do que não está dito, e está latente no outro e na profunda inteligência, e latejando em mim ouvinte, mesmo quando as palavras não possuem um som audível, apenas o som dos pensamentos que se encontraram, que se falam, que se escutam.

Pessoas inteligentes me fazem suspirar. Me transportam e me abraçam. Me perfumam de emoção.


Obs: Imagem enviada pela autora.

MAL DE AMOR



Laudi Flor
laudiflor@gmail.com


O mês era junho, lembro que a vi no aeroporto de Guarulhos-SP, elegante, bem vestida, terninho azul, cabelo preso na nuca, maquiagem discreta, eu diria que seu traje estaria politicamente correto. Chorava copiosamente. No meio de um entra e sai de pessoas, uma multidão procurando um destino e a solução pra seus próprios problemas, chorava um choro doído, com sentimento, chorava por que queria se afogar na amargura de um acontecimento que eu não conhecia, chorava porque a melhor forma de aliviar a dor é deixando as lágrimas rolarem na face, fiquei tão tocada com a cena que não tive alternativa senão me aproximar e perguntar se precisava de ajuda. Ela sacudiu a cabeça negativamente e se afastou.

Fiquei imaginando se a dor sentida por aquela jovem era proveniente do mal de amor, aliás, não existe nada mais dolorido que final de relacionamento, tantas perguntas sem respostas, tantas respostas sem perguntas, versos rasgados e tantas cartas escritas prá ninguém.

Entre possíveis motivos: doença em família, acidentes, reprovação em Curso, demissão... Imaginei uma paixão avassaladora dessas que a gente só vê em filme antigo na TV, um tórrido caso de amor não correspondido, uma palavra cortante dita na hora errada. Não, não poderia ser outro motivo, porque havia ressentimento em seu olhar, mágoa em seu choro, peso em seu caminhar.
Fiquei sentada aguardando minha chamada e observando-a.Durante o tempo em que esperava as vezes dava um intervalo, uma trégua pra si mesma, levantava,caminhava, pensava e logo depois, voltava a chorar.
Desejei que sua chamada fosse antes da minha, que pudesse chegar depressa ao seu destino e concluisse que as suas lágrimas esgotaram seus limites.Desejei que sua mãe estivesse aguardando na porta de casa para lhe oferecer o colo amigo, por fim desejei que dias melhores sobreviessem.
Nunca mais a vi!


Obs: Imagem enviada pela autora.

DISSIPOU..



Rivkah Cohen


Não! Não era ela.
Não, com aqueles olhos vagos,
sem sonhos..... molhados.

Com aqueles cabelos
mal cuidados,
pele machucada
retratando o que
dentro se passara.

Na pressa,
por descuido,
pôde-se ver o vulto.
Ah, mas não era ela!
Eram pedaços,
bocados,
 eram nacos
de quem sem ilusão, se fragmentou
e em descompasso,
sem visagem de esperança, 
na imensidão se dissipou,
sem sequer levar lembrança..


Obs: Imagem da autora

MENSAGEM DE PÁSCOA – CONCLUSÃO



Dom Sebastião Armando Gameleira Soares *
sgameleira@gmail.com


3 – JESUS, MESSIAS DE DEUS

Em meio a nossa tristeza e confusão, a liturgia faz-nos contemplar o Messias, Jesus, o Ungido de Deus. O profeta Isaías (61, 1-4) e o evangelista São Lucas (4, 16-21) nos clareiam o sentido de sua missão: ungido pelo Espírito Santo e enviado para levantar caídos, libertar gente escravizada e humilhada, curar corações feridos, proclamar a dignidade dos pobres, reconstruir habitações em ruínas, transformar luto em festa, anunciar que a felicidade é possível. Como é possível mudar? Responde-nos a Epístola aos Hebreus (7,26-28): Jesus, completamente inocente, abre-nos o caminho, rompe os véus e nos deixa o exemplo a seguir: enfrenta os poderes do mundo e oferece-se a si mesmo, solidariamente por seu povo e por nós.

A oração que recitamos na liturgia da Bênção dos Óleos faz a síntese das lições da Bíblia:

- Jesus, ungido pelo Espírito para proclamar a Boa Nova à universalidade dos povos;

- a Boa-Nova se faz real, é palavra que se cumpre na partilha do pão;

- nossos olhos se abrem pela fé para contemplar Jesus como o Ungido de Deus;

- por Ele, a unção se comunica a nós para continuar no mundo sua obra redentora.


4 - COMPROMISSO

É esta uma mensagem central que a liturgia da Semana Santa quer deixar impressa em nós. Diante da Cruz e com a força do Espírito que ressuscita os mortos, renovamos nosso compromisso de servir, como “o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate pela multidão”. O ministério da Igreja, de todos os seus membros, se perverte quando o tomamos como privilégio, separação e poder, pois é sacrifício e serviço. É este o compromisso que firmamos diante do altar. Saímos portando conosco os óleos da unção, sinal sensível a recordar que a unção do Espírito se derrama sobre o povo de Cristo – “cristãos” quer dizer povo de ungidos, povo todo enviado a continuar a obra redentora: unção do Batismo para que sejamos membros do Corpo de Cristo; unção da confirmação que nos compromete com o combate de Cristo nas fileiras militantes da Igreja; unção da ordenação para ajudar a Igreja inteira a se sentir ordenada ao ministério de Cristo; unção de enfermos, sinal de que o Espírito nos assiste e fortalece em nossas fragilidades e enfermidades. Saímos portando conosco o viático da Santa Eucaristia que nos faz um com Cristo, carne de nossa carne e sangue de nosso sangue, Cristo, sentido de nossa vida, Jesus, Mestre de nossa caminhada.

Nesta Páscoa juntam-se a nós três novos presbíteros admitidos na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil: Ariel Montero, Teobaldo Barbosa e Washington Franco. Sejam bem-vindos para fortalecer nossa missão comum de continuar, de maneira efetiva, a obra redentora de Jesus, para que este mundo seja melhor por nossa oração, por nossa palavra profética, por nossa ação solidária em favor da justiça e possamos ter a mesma glória do Apóstolo São Paulo e dizer como ele que “completamos em nossa carne o que faltou à paixão de Jesus: “Incessantemente e por toda parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo”! (2Cor 4, 10).

FELIZ PÁSCOA!
Recife, 11 de Abril de 2010, Domingo da Oitava da Páscoa


* Bispo da Diocese Anglicana do Recife – DAR
www.dar.ieab.org.br

CONTRAPONTO



Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com


Na monotonia dos descalabros,
Sorrio entre sonhos que sucumbiram.
Minhas hipóteses de futuro
Morreram antes da esquina.

Vivo um tempo sem sentido.
Coisas absurdas caminham no cotidiano,
Mas ninguém vê, ou faz de conta que não.
Assina-se hoje o pé da página em branco.

Sem tamanho é a indiferença.
Nada mais parece chocar,
O inominável dorme em várias casas.
A morte de inocentes é o trivial.

Lutar por um ideal virou crime,
E a multidão concorda com o acinte
Que mora nos porões elásticos
Da falta de moral.

Propina trambique e tubaína,
São servidos a francesa nos jornais.
E o povo o que faz?
Rebola ao rit do momento.

Colunas subornadas
Pontuam com adereços o noticiário.
Contornam o escrúpulo com retórica,
Sabem mas não dizem.

E se contam tergiversam,
Evadindo-se da verdade da opinião.
O que sobrará para o amanhã?
A carcaça de uma nação!

Obs: Imagem enviada pelo autor.

AOS NOSSOS HERÓIS...



Rômulo José
reidromacsc@hotmail.com
www.poematisando.blogspot.com


Confesso que quando li pela primeira vez a epopéia grega do destemido personagem Ulisses, pensei ter concebido a noção de Herói: aquele guerreiro que ignora o perigo, o homem que se doa a uma causa nobre e por isso é notável por seus feitos e sua valentia. Pensei serem essas as características do homem heróico. E na verdade o são. Ou melhor, eram.

Como mudam-se os tempos e com eles, também, os paradigmas e as vontades, mudaram-se assim os “tipos” divinizados, hoje, tidos como heróis. Se no tempo do nosso Odisseu (homem que durante dez anos ficou a mercê da vontade dos deuses enquanto tentava retornar para Ítaca) o que se levava em conta, para atribuir a um homem um fato heróico, era a valentia deste perante uma situação de perigo. Hoje, Ulisses deixaram de existir e deram vida a grandes atores que encarnam a valentia das epopéias gregas, as sacrificantes participações nos BBB´s da vida, os grandes mitos do futebol...

O Olimpo era o grande cenário teatral de onde os deuses faziam de fantoches os homens que habitavam a terra mortal. E o heroísmo quase sempre nascia de uma ação humana que desobedecia a uma vontade divina. O nosso Olimpo de hoje é a nossa querida televisão: cria valorosos heróis e nós os saudamos como exemplo a seguir. Qual o jogador amador sensato que não queria ter a majestosa habilidade do Rei do Futebol? Ou a dona de casa que não gostaria de ser uma Helena de Manoel Carlos? Ou a jovenzinha que não gostaria de estar ao lado do grande cantor do momento? A nossa televisão é o nosso grande espelho e mágico: espelho, espelho meu, existe um herói mais valoroso do que o meu? (do que o meu pai... minha mãe...). E ela responde: os Globais... E é até verdade, pois eles cantam, dançam, sapateiam, imitam bichos e até visitam favelas ou a Amazônia.

E na contramão disso tudo os verdadeiros: o pobre que encontra uma maleta cheia de dólares no banheiro da estação do trem e, ainda sim, continua pobre; a mãe faxineira que consegui, faxinando pela vida, por três filhos numa Universidade Federal; e os Bombeiros, homens que pela vida, sacrificam suas próprias vidas. Mas quem irá se espelhar nestes?

INCLUSÃO SOCIAL E DIREITO: POR UMA DEMOCRACIA CONSTITUCIONAL



PARTE IV: DEMOCRACIA PLENA
Tassos Lycurgo (*)
www.lycurgo.org


Um Estado não pode ser considerado democrático caso não desenvolva mecanismos assecuratórios do exercício pleno da cidadania, ou seja, caso não execute, no plano fático, reais condições para a concreta efetividade da inclusão social. É dizer que a democracia não pode ser analisada no âmbito estritamente teórico, abstrato, em que não se toma o ser humano enquanto pessoa, pois “sem levar em consideração as ‘condições’ e a situação em que a democracia nasce e se desenvolve, dificilmente poderíamos refletir sobre o tipo de regime sócio-político que vem se construindo nos países da América Latina nestes últimos anos” (Vitulo, 2006, p. 355), configurando, portanto, desonestidade intelectual atribuir o caráter de democrático a um país cujo regime sociopolítico não se desenvolve em termos condizentes com a própria democracia.

O caso brasileiro é sintomático: aqui, há um bloco de legislação social relativamente desenvolvido – mesmo se analisado em termos mundiais –, mas, paradoxalmente, encontram-se as mais perversas formas de exploração da mão-de-obra trabalhadora, a exemplo do labor exercido em condições análogas a de escravo, do efetuado por trabalho infantil (da criança e do adolescente) ou por meio do desvirtuamento das relações empregatícias, mormente pela presença do denominado trabalho intermediado. Neste país, infelizmente, é forçoso admitir que, “apesar da profusão na previsão de direitos que visam à proteção dentro do ambiente de trabalho, a realidade é que não conseguimos garantir vida digna aos trabalhadores, principais vítimas de crise que tem amplitude mundial” (Brito Filho, 2004, p. 125).

Talvez com esta providência, qual seja, a de levar às últimas conseqüências a idéia de que não há democracia sem cidadania social, o Estado brasileiro, que se autodenomina democrático em sua própria Constituição (CR, art. 1º), venha a se sentir desconfortável no ambiente da comunidade internacional, pois seria pelos seus cidadãos acusado de que é democrático apenas nominalmente, não o sendo, portanto, na realidade. Esta reformulação radical quanto à maneira pela qual tradicionalmente a democracia vem sendo compreendida, juridicamente falando, não necessita de quaisquer emendas ao texto da Carta Maior, senão de que ele passe pelo processo informal da mutação constitucional.

Conforme demonstrado com mais detalhes em outra oportunidade (Lycurgo, 2006), o conceito de democracia é o vetor resultante de muitos significados que a tal termo têm sido oferecidos no transcorrer da história do pensamento humano. O burburinho vislumbrado na história, nada obstante, há de encontrar algum limitador no que diz respeito aos conceitos juridicamente relevantes, dos quais se pode destacar o que diz que o regime democrático se dá por “aquela forma de exercício da função governativa em que a vontade soberana do povo decide, direta ou indiretamente, todas as questões do governo, de tal sorte que o povo seja sempre o titular e o objeto, a saber, o sujeito ativo e o sujeito passivo de todo poder legítimo” (Bonavides, 1996, p. 17). Nada mais é, em outras palavras, senão a vontade do Estado, segundo a qual “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente (...)” (CR, art. 1º, parágrafo único).

Finalmente, tem-se aqui o elemento necessário para que se argumente que democracia sem cidadania social não se enquadra no próprio conceito jurídico do termo, pois “todas as (...) situações de privilégio, desigualdade e discriminação tendem à imutabilidade, eternizando as mais graves injustiças sociais ou fazendo do homem, para sempre, um ente (...) sem voz para o protesto e sem arma para o combate; (...) súdito e não cidadão” (Bonavides, 1996, p. 19-20). Assim, onde se verifica efetividade de direitos sociais, inexistindo, portanto, inclusão social, o ser humano não haverá de ser considerado cidadão, em absoluto desacordo com o que preconiza o supracitado parágrafo único do art. 1º da Constituição da República. Por fim, não se pode esquecer que, dada a devida força normativa à Constituição da República, interpretação da democracia que coloque à margem de seu conceito a inclusão social ferirá de morte o referido artigo da Lei Maior, sendo, por conseqüência, gritantemente inconstitucional.

Viu-se, até este ponto, que a necessidade de implementação da inclusão social pelo Estado, não apenas é condição para que ele seja considerado democrático, como também é um mandamento constitucional para que efetivamente promova tal implementação. Resta analisar, por último, quais seriam as estratégias mais adequadas para que o Brasil pudesse ingressar pelo caminho de sua plena democratização, ou seja, pelo caminho da máxima efetivação da cidadania plena, mormente a cidadania social. Pensa-se que há três pilares principais para se atingir tal fim: implementação de políticas públicas de incentivo à educação social, fomento de uma cultura política de respeito irrestrito aos direitos humanos e, por último, promoção da justiça social, principalmente por intermédio da valorização da Justiça do Trabalho e do Parquet Laboral. Veja-se que não é objetivo deste artigo a pormenorização de cada um desses temas, o que não o desobriga, contudo, de tecer breves e introdutórias linhas sobre cada um deles. É o que se tentará fazer agora.



(*) Tassos Lycurgo é Professor Adjunto da UFRN e Advogado (OAB/RN); É Doutor em Estudos Educacionais – Lógica (UFRN), com pós-doutorado em Sociologia Jurídica (UFPB); Mestre em Filosofia Analítica (University of Sussex, Reino Unido); Graduado em Direito (URCA) e em Filosofia (UFRN). Atualmente, leciona as disciplinas Direito Processual do Trabalho e Elementos de Direito Autoral e Legislação Social na UFRN. Página Acadêmica: www.lycurgo.org



Obs: As referências bibliográficas estão na versão completa do artigo, disponível no site do autor.



 
 A Parte V será postada no próximo dia 06 de julho

RECEITA DE VIDA LONGA



Maria Inês Simões - Bauru/SP
www.mis.art.br
mis@mis.art.br


faz assim...
cultiva aquela lembrança
joga fora aquela raiva...
confia de coração
está vendo aquele moço-morto?
Recobra algum sentido
faz um verso perdido...
de amores por ninguém
canta uma melodia...
inventa alguma letra
e fica devendo ao pedinte aquele pedaço de pão
não se conforme com seu irmão...
não vá à luta se for para morrer...
a covardia também caminha
rumo a eternidade
e estou misturando tudo...
porque não importa entender
só vale perceber...
que ninguém é dono de nada
única receita... se feliz... se for o caso...

A COPA E A DOR DE MANDELA



Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio


Quando este artigo sair, a bola já terá rolado há tempos nos gramados da África do Sul. A festa eufórica do país das vuvuzelas, com direito a astros internacionais, deslumbrou o mundo.

O mundo inteiro, como a cada quatro anos, está pendente de uma bola e de vinte e dois pares das pernas mais caras e bem pagas do mundo. No entanto, algumas coisas fazem esta copa diferente das outras. Ela acontece no país que foi palco de uma das segregações mais cruéis do planeta: o terrível “apartheid”. Durante décadas os sul-africanos viveram sérios conflitos, numa sanguinária luta racial que dividiu o país e dizimou seus habitantes. Hoje, a África do Sul pode exibir sua beleza e riqueza humana e cultural, palco e moradia de tantas raças, habitantes, religiões, etnias e línguas, em alegre sinfonia, sediando um evento de repercussão mundial como este. E estreando uma paz que por ser recente não é menos benéfica e ansiosamente esperada.

Mas não só pelo futebol e pela pluralidade inerente à sua identidade que os olhos do mundo inteiro se voltam para a África do Sul. Trata-se também do país que é berço e pátria de uma das maiores pesonalidades da humanidade neste século XXI: Nelson Mandela. A presença desse grande líder marca para sempre a Copa do mundo de 2010 e a faz inesquecível. Fiel à luta antiapartheid, Mandela passou mais de vinte anos no cárcere e agora, livre, é um ícone.

Diante do clima de euforia e do toque de insanidade que às vezes marca os campeonatos mundiais de futebol com episódios de violência, figuras como Mandela e o bispo Desmond Tutu trazem um toque de grandeza e profundidade que, mesmo em meio à mais legítima alegria, nos relembram a seriedade da condição humana. Aqueles que hoje cantam e se movem nos estádios com a ginga incomparável de sua raça, levados pelo ritmo irresistível do espetáculo de abertura do campeonato, são os mesmos que souberam arriscar a vida pela liberdade de seu povo.

Já no início da Copa, antes que a bola rolasse nos primeiros jogos, essa seriedade que nos traz de volta ao chão da vida real se fez presente dolorosamente no já tão marcado coração de Mandela. Ao voltar do espetáculo de abertura, sua bisneta de 13 anos, Zenani Mandela, morreu em um acidente de automóvel.

Enquanto o país abriga o mundo inteiro no colossal evento esportivo, o clã Mandela vive a terrível e irreparável perda da pequena Zenani, vida desabrochando em flor, ceifada antes de abrir-se plenamente. Podemos sentir, por trás das vuvuzelas, dos tambores, atabaques, trombetas e foguetes, o coração do líder confrangido pela dor, sua cabeça branca curvada e seus olhos turvos, vergado pelo golpe.

A nuca que a prepotência dos colonizadores não conseguiu dobrar, o afeto agora o faz. Ainda que possa ser visto nos festejos da Copa, Mandela estará vivendo seu luto.

Em meio à ansiedade dos jogos e dos resultados da Copa, nos é dada a oportunidade de calarmo-nos com o silêncio de Mandela, entrar em comunhão com sua dor, assim como aclamamos sua figura no estádio. Esse doloroso episódio não arruína o clima da Copa do mundo. Pelo contrário, só o torna mais humano.


Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


Copyright 2010 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

FUTEBOL, CERVEJINHA E FRED!



Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


Final de tarde de domingo em casa ... Futebol na TV.Ela coloca o balde com gelo e cerveja na mesa de centro da sala. Os amigos do namorado comemoram.

- Valeu Isadora!!! Mandou ver na cervejinha! – Comemorou Carlão.

- Minha mulher caramba! Esperava o quê? Gente fina que nem eu. – Afirma George cheio de orgulho.

O trio se acomoda no sofá de olho na telinha para o início da partida entre Fluminense e Flamengo. Ela empurra o grupo e se encaixa no estofado. O namorado a olha desconcertado.

- Não vai sair com as suas amigas não? Hoje é domingo.

- Não.

- Não tem novela querida. Vai começar o futebol.

- Eu sei disso.

- Então?

- Então o quê?

- Não vai sair? Eu te dou dinheiro.

- Não. Obrigada.

- Depois não diga que eu avisei.

- Silêncio casal, vai começar o jogo! – Fala o Felipe.

- Foi mau, Felipão.

E começa a partida!

Momentos de tensão.

- Vai Fred! – Ela grita.

Os três homens olham pra ela.
- Qual é George, tua mulher torce para o Fluminense? A galera aqui é Flamengo! - Comenta Carlão.
- Mengão Isadora! Fluminense não. - Ressalta Felipão.
- Caras pra falar a verdade, nem eu sabia.
De volta a partida ...

- Chuta pro gol gato! Vai lá. Faz esse gol pra mim!

Os homens se entreolham.

- Lindo! Lindo! Vai lá Fredinho.

E o jogo esquenta...
Gol do Fluminense. Ela grita, pula, faz um escândalo.
- Isadora menos!
Ela volta ao sofá e se acomoda no seu cantinho. Alguns minutos depois ...

- Oh lá em casa! Gostoso!

- Isadora! – Interrompe George já beirando a raiva.

- Desculpa...

- Mas respeito comigo né.



Obs: Imagem enviada pela autora.

O PÃO DO SABER



Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


A frase bíblica “nem só de pão vive o ser humano” tem outro significado, além do religioso. E boa parte da população santarena já entendeu isso. Além do pão para o estômago, o ser humano carece do pão do saber para bem viver. O saber vem pela experiência, pelo convívio e vem também pela leitura e o estudo. Daí que uma cidade, que promove uma feira do livro, é sinal de atender a essa necessidade básica do ser humano.

Santarém acaba de realizar o 3º Salão do Livro e a população tem correspondido com interesse. São poucas as cidades no Brasil que ousam promover tal evento cultural. É mais comum promover show de cantores, torneios esportivos. Mas é preciso visão cultural para enfrentar uma organização de uma feira do livro.

Também a frequência intensa de visitantes à feira é outro sinal de que existe sim, uma fome de saber, de conhecer e de dialogar com a cultura literária. Mesmo sendo hoje muito caro um livro e em média baixo o nível salarial da população, a frequência de jovens, crianças e adultos no 3º Salão do Livro valeu a pena e demonstrou que existe em Santarém um bom nível cultural.

Um povo que já sente a necessidade de cultivar a cultura do saber mais, tem possibilidade de se tornar mais humano, mais educado e mais dialogal. Além de que o Salão do Livro é uma oportunidade para autores literários locais e regionais exporem suas artes escritas e a população descobrir que nem só de autores do sul e do estrangeiro se compõe a literatura, mas de autores regionais. Vários deles lançaram livros novos e colocaram a disposição das crianças, jovens e adultos neste 3º Salão do Livro, confirmando a frase bíblica “nem só de pão vive o ser humano”, e nem só de futebol.

A grande presença de público durante os dias do salão do livro é outro indicativo de que a televisão a mesmo a internet não tiram o gosto pelos livros. Eles continuam a ser forte atração de leitores infantis, jovens e adultos.

COMO DESISTIR?



resomar
(desafiomar@gmail.com)


Como desistir de tuas lágrimas no labirinto da existência onde a melodia silencia teus poemas suados e sonolentos?...
Na superfície de tábuas encardidas, mergulhas na avidez atordoada,
segredos encaixotados em lâminas enferrujadas,
absoluto momento na emoção de um grito abafado no limite de tuas resistências...

Como desistir de um sonho (des)feito impregnado de solidão,
amarga verdade a rascunhar delírios e lutas?...
Renasces na indignação,
ousados passos a recordar desapontamentos e fronteiras interditadas...
Além do horizonte desvendas a dor de travessias escuras
geradas na busca impotente,
rascunhos contemplados em confrontos febris...

Como desistir de teus olhos se neles bebo o amor tumultuado imerso na sombra de galhos retorcidos?...
Palavras inacabadas queimam um passado pálido e faminto de ternura...
Percorres no indivisível mar, pegadas da primavera desnudada,
brisa de sensações soterradas,
soluços de madrugadas no outono de abraços doloridos...

Como prever teus receios no devorar tempestivo de Ser,
tempo presente entrelaçando muralhas no devaneio que transborda contratempos em súbitos deslizes de paixão?...

Enlouqueces no abandono,
vidraça opaca a soletrar um beijo cintilante abafando o desejo da fonte que murmura gorjeios de melancolia...

Como estacionar tuas mãos no vazio de suspiros,
face rasgada,
coração no avesso a enumerar mistérios da vida,
(des)encontros que perambulam em janelas molhadas,
abrigo sem teto,
boca faminta de agasalho?...

Como partir sem atingir a vibração do encanto,
flauta mutilada no descaso estremecido,
circunstâncias recuadas no deserto,
eternidade esquecida no tormento peregrino que invade a espera,
fragilidades soberanas alimentando a covardia que respinga em gotas de sangue?...


Colho a liberdade no espelho de tuas feridas abertas...
Em tuas mágoas, trapos afogam a beleza do sentimento...
Perfuro a chama na inversão lógica da rotina,
aromas empoeirados na fluidez confusa da distância que nos une...

Como desistir de ti?!

09.03.2010 ( 22:58h)