terça-feira, 27 de outubro de 2009

AMÉRICA LATINA: IMPASSES E DESAFIOS

Frei Betto


O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, retornou a seu país e se abrigou na embaixada do Brasil em Tegucigalpa. O Itamaraty tem a obrigação de acolhê-lo e assegurar-lhe integridade física e política. Zelaya, por sua vez, tem o dever de respeitar as normas que regem as representações diplomáticas.

O mesmo Brasil que deu refúgio aos generais Stroessner e Oviedo, do Paraguai, não pode, agora, favorecer golpistas militares de Honduras e entregar Zelaya às feras. Será também uma afronta à tradição hospitaleira do Brasil o STF repatriar Cesare Battisti para os cárceres italianos.

A América Latina vive seu melhor momento em décadas: com exceção de Honduras, não há ditaduras militares no Continente; os governantes neoliberais, fieis aos receituários do FMI e do Banco Mundial, foram rechaçados pelo voto popular; hoje temos governos democrático-populares que se comprometem a promover reformas de estrutura pelas vias pacífica e democrática.

O que há de novo na América Latina? Samuel Huntington, relator da Comissão Trilateral – nefasta conspiração imperialista da década de 1970 –, admitiu que, em nosso Continente, a democracia, tal qual o figurino que agrada a Casa Branca, só perduraria se excluísse a participação de parcela do povo.

O que há de novo é que os excluídos – indígenas, camponeses, sem-terra, negros, desempregados, famílias de baixa renda – agora insistem em seu protagonismo político. Prova disso é que um metalúrgico governa o Brasil; um indígena, a Bolívia; um ex-guerrilheiro, a Nicarágua; uma ex-presa política, o Chile; outro ex-preso político, o Uruguai; um sociólogo de esquerda, o Equador; um militar revolucionário, a Venezuela; um jornalista apoiado por ex-guerrilheiros, El Salvador; um ex-arcebispo da Teologia da Libertação, o Paraguai.

Não se sabe o que há de novo no reino da Dinamarca, mas é certo que há algo de novo em torno da linha do Equador. Dos 34 países da América Latina, em 15 há presença, em seus governos, de políticos alinhados com o Fórum de São Paulo – organismo que, há décadas, articula, no Continente, grupos e partidos de esquerda e/ou progressistas.

Os países da região tratam de criar mecanismos de intercâmbio comercial e unidade política, como a Alba, o Unasul, a Telesul, o Banco do Sul. Apenas os governos da Colômbia e do Peru destoam desse processo, submissos ainda à dependência ianque.

O desafio, agora, é evitar que os governos progressistas sejam cooptados pelo neoliberalismo. É preciso que a América Latina, que abriga o único país socialista do mundo – Cuba -, tenha consciência de suas potencialidades. Muito antes que os EUA criassem suas primeiras universidades, Harvard e William & Mary, já funcionavam a de San Marcos, no Peru, e a de Santo Domingo, na República Dominicana. As duas, aliás, fundadas pela Ordem Dominicana.

No entanto, entre nós, hoje, a escolaridade média é de 7 anos, e de cada 10 estudantes de ensino médio, apenas 1 termina o curso. A mortalidade infantil média no Continente é de 50 em cada 1.000 nascidos vivos, enquanto na Ásia é de apenas 10.

É decepcionante constatar a avidez que certos governantes latino-americanos demonstram frente às ofertas do mercado de armas. Nossos inimigos principais, que precisam ser duramente combatidos, são ainda a fome, a insalubridade, a falta de saúde, de educação, de moradia e de cultura.

Se os atuais governantes democrático-populares não forem capazes de empreender as reformas prometidas em suas campanhas, e se deixarem envolver pelo canto das sereias neoliberais, ecoados por partidos conservadores interessados apenas em sugar parcelas de poder, a desigualdade social, ainda gritante, servirá de caldo de cultura para o ressurgimento de conflitos armados.

A decepção dos pobres, se resulta em desespero nos casos pessoais, engendra sementes de revolta ao adquirir caráter social.

No Brasil, a entrada de Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, na disputa presidencial pode significar um alerta e uma promessa. O alerta, a de que o governo Lula foi positivo, mas não o suficiente para implementar reformas estruturais e promover o desenvolvimento sustentável.

A promessa, de que é possível, sim, assegurar a governabilidade graças ao apoio dos movimentos sociais, sem ceder ao que há de mais arcaico, corrupto e conservador na política brasileira.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da prisão” (Agir), entre outros livros.

Copyright 2009 – FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

SONETO DO PRIMEIRO MÊS

Por Tassos Lycurgo
www.lycurgo.org



Escrito em 10 de outubro de 2000,
para Camila, em comemoração pelo
primeiro mês de namoro.


Digo-te que, como êufona melodia, neste primeiro mês,
Soara-me à alma a idéia a qual, à frente de bruni-la,
Urgiu o Tempo em transfigurar em quem tu és, Camila,
Tudo o que, por ti, sinto eu, na veemência da nitidez.

Depois dessa metamorfose, ele, com sua crônica solidez,
Confessou-me que, todos os segundos, pô-los-ia em fila,
E, após isso, que tão agre sucessividade, iria adormi-la,
Para que a idéia, como lises, eternizasse-se em candidez.

Só aí, com a mesma alvura que há nas flores dos lírios,
Abriu-se-me, já brunida, a idéia, como flores dos satírios,
Para então eu ta dizer, Milucha, com sentimento superno,

Que é hoje, neste mês de outubro do ano dois mil, dia dez,
Quando, da rara nau das lhanuras, dir-te-ei, no convés,
Que eis a galgar um mês o nosso amor, visto que é eterno.

A JUVENTUDE

D. Demétrio Valentini (*)


Para a Pastoral da Igreja, este domingo é o Dia Nacional da Juventude. Ao menos esta é a intenção, traduzida em diversas iniciativas pelo Brasil a fora, tentando reunir os jovens para celebrarem sua vida e refletirem sobre seus desafios.

A Diocese de Jales promove um encontro especial com os jovens das comunidades, no amplo salão da Paróquia Santo Antonio. Será aberto com a celebração da missa, animada pelos próprios jovens, prosseguindo com apresentações preparadas por eles.

Quanto aos jovens, com certeza, a maioria deles nem tomou conhecimento da iniciativa, nem sabe que existe um dia nacional da juventude. Tal a crise de identidade que os jovens vivem hoje, que pouco lhes interessa saber se a sociedade está preocupada com eles, e lhes dedica um dia especial.

Não é fácil entender o que se passa hoje com a juventude. Nem é fácil lidar com os jovens. Que o digam os pais, que olham perplexos para seus filhos, e estranham a grande diferença de gerações. Que o diga a escola, que se arrepia com os problemas trazidos pelos alunos, e se vê incapaz de oferecer soluções. Que o diga a Igreja, que perdeu o contato com os jovens, e não sabe mais como reatar o diálogo com eles.

Também pudera. Todos estamos de acordo que vivemos uma época de mudanças alucinantes, a ponto de identificá-la não só como “uma época de mudanças, mas uma mudança de época”, como reconheceu recentemente a Conferência de Aparecida.

Pois bem, as mudanças incidem mais diretamente sobre os jovens. Eles estão ao desabrigo de refúgios protetores, que amaciam o impacto das rápidas transformações culturais em curso em nossos dias. Além do mais, os jovens são alvos escolhidos de quem se aproveita da situação para faturar em cima da fraqueza humana.

Os jovens se tornam alvo de manobras perniciosas, que tem sua tradução mais cruel e mais danosa na rápida disseminação da droga, que vitima tantas vidas no auge de sua pujança.

O mundo da droga, isto é, o complexo sistema de produção e comercialização de entorpecentes, sacrificando vidas sem nenhum escrúpulo para conseguir seus vis intentos financeiros, se constitui na maior praga que contamina hoje a humanidade, e que faz dos jovens suas vítimas preferidas.

Os grandes traficantes de drogas merecem nosso repúdio e nossa indignação, junto com a atenta atuação para, o quanto possível, frustrar seus macabros intentos. Eles se escudam atrás de intermediários, que ficam expostos à repressão policial, enquanto eles podem, tranquilamente, posar de beneméritos fariseus da falsa decência, com a cara de pau de se mostrarem cidadãos ilibados e beneméritos.

Em seu desamparo, e na sua ânsia compreensível de se lançarem nas aventuras da vida, os jovens foram passando por diversas situações, de onde saíram chamuscados e marcados na sua identidade. Primeiro foi o cinema, com seus encantos iniciais, que logo terminaram. Depois veio a televisão, que num primeiro momento absorveu a juventude, tolhendo seu espaço de convívio com a família e com a sociedade. Depois os jovens tomaram o rumo das ruas, ficando mais expostos às ciladas traiçoeiras dos falsos valores, da bebida, da droga e da banalidade. Agora são atraídos pela internet, abrindo para eles um inesperado mundo virtual de sonhos que podem persistir por mais tempo, mas não deixam de ser ilusões irrealizáveis.

Pois bem, este o mundo da juventude. Diante dele, não é o caso de desanimar. Pois apesar de tudo, os jovens conservam o desejo da vida, e a sede de valores autênticos. O melhor é desafiá-los, para que eles mesmos se tornem protagonistas de sua realização.

É o que a Diocese espera fazer no encontro deste domingo. Desafiar os jovens a assumirem sua missão. E confiar a eles o futuro da diocese, que está celebrando seu jubileu de ouro. Para que daqui a 50 anos sejam eles a testemunharem suas vitórias e suas conquistas.

(*)
http://www.diocesedejales.org.br/

LEMBRANÇAS

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



Parecia ouvir a voz da mãe: menina, venha jantar, menina vá tomar banho. Quanta saudade. Tão bom que ela ainda estivesse ali preocupada, temendo por ela, amenizando os caminhos e as incertezas da vida. Sentia falta da presença amiga, da mão carinhosa que, embora castigasse, era para ensinar, a corrigir os erros que eram muitos. Castigar, para corrigir, também é amor, também é carinho.
Por ruas e ladeiras correra, brincara e fora feliz. Ladeiras por onde subia e descia, todas as tardes, no bonde puxado a burros não sem antes jogar milho na frente deles para vê-los empacados catar os grãos por entre os trilhos. Às vezes chegava em casa fazendo barulho, imitando o apito do trem, e a mãe irritada: cuidado, seu pai está chegando. Falar no pai era um santo remédio. O rosto sisudo, cheio de silêncio e de autoridade, era um freio de mão.
À noite, ela e as outras meninas, corriam ao redor da praça. Atrapalhavam os namoros e confundiam o sacristão já velhinho, quando tocava o sino, bocão autoritário que mandava todo mundo para casa dormir sem sono.
Andava descalça, corria livre pelas ruas, entrava na igreja pela porta da sacristia e saia pela da frente descendo a escadaria de quatro em quatro.
Ajudava um velhinho, todas as manhãs, a subir os degraus para assistir à missa. Mesmo sendo rico, muito rico, dava pena, não tinha família. Andava com dificuldade e ao vê-la sorria: Bom dia, menina. Ela segurava sua mão feliz da vida. Um dia ele ofereceu-lhe uma moeda. Recusou. Não o ajudava para ganhar dinheiro. Bastava-lhe o bom-dia que lhe dava como se ela fosse gente grande. Magoada não voltou nunca mais.
Agora, estava na frente da casa onde vivera quase toda a infância. Casa grande longos corredores, muitos quartos. Alguns, construídos, para armazenar alimentos por causa da guerra, alimentos não perecíveis, isto é, que não estragam com facilidade. Já havia aprendido na escola que existem também os perecíveis, ou seja, os que estragam rapidamente.
Um dia, tirou charque, farinha, feijão e arroz para dar a umas pessoas muito pobres que moravam numa rua atrás da sua casa, gente que mal tinha o que comer. Ali, naquele quarto, tinha muita coisa. Não faria falta se tirasse um pouco. O pai, certamente não faria questão, mesmo sisudo e silencioso, gostava de ajudar os pobres.
Quando a mãe descobriu disse que ela estava errada deveria ter pedido. Não tinha o direito de ter feito o que fez. Confessou ao padre e ele disse que ela fizera uma caridade. Ficou confusa, acreditar em quem?
Ainda não conseguia compreender as diferenças do mundo.

Dr. PAULO TAGASHI NAGAI

D.Edvaldo Amaral (*)
(
dedvaldo@salesianosrec.org.br)


Dos escombros da hecatombe nuclear em Nagasaki (Japão), emerge a extraordinária figura do médico, pesquisador e católico Dr. Paulo Tagashi Nagai, o homem que amava a humanidade, o cristão que rezava pela paz, o esposo afetuoso e o pai carinhoso dos dois filhos que lhe restaram de sua família. Na casa que ficou chamada Nyokodo, ele viveu seus últimos dias, deitado num leito de sofrimento, escrevendo os livros que deixou como testemunho de sua fé inquebrantável. “Nyokodo – ele diz – é uma pequenina casa de um único aposento, com um pequeno altar e um armário de livros no lado norte e uma cama estreita onde estou deitado. O outro lado é uma parede branca, sem nenhuma ornamentação. Daqui se pode ver a Catedral de Urakami e a terra devastada pela explosão da bomba. Seu nome vem do preceito “Amai os outros como a vós mesmos”. Esta casa foi doada pelos amigos que amam como a si próprios este homem consumido, que perdeu sua casa, sua esposa, seus bens, sua carreira, sua saúde e hoje só tem um cérebro para pensar, olhos para ver e uma mão para escrever. E desde então esses amigos têm se devotado a doarem seu amor dentro desta casa para que este homem enfermo e seus dois pequenos filhos possam viver tranqüilamente.”


D. Nagai formou-se em medicina em 1932 e foi convocado para a guerra contra a China, onde serviu como médico militar por 2 anos e meio. De volta da guerra, foi morar na casa da família Mariyama, descendente dos cristãos de Urakami, que viveram duzentos anos clandestinos, escondidos nas montanhas, durante a grande perseguição da era Edo. Aí, ele recebeu um catecismo da única filha do casal, Midori, com quem se casou após sua conversão ao catolicismo e seu batismo. No Departamento de Radiologia do “Medical College” de Nagasaki, longamente exposto a altas taxas de radiação durante suas pesquisas, ele contraiiu leucemia por causa da precariedade dos equipamentos utilizados na época.

“Contei para minha esposa – narra ele - que eu tinha poucos anos de vida. Ela ouviu tudo, sem demonstrar nenhuma perturbação. No dia 8 de agosto, despedi-me dela e segui para meu trabalho no hospital. Foi a última despedida... Naquela noite, tive que permanecer no serviço médico e dormi na minha sala de trabalho. No dia seguinte, a bomba atômica caía sobre nossas cabeças. Eu estava ferido e pensava na minha esposa. Mas tive que ficar ainda três dias no hospital, atendendo aos casos mais urgentes. Só após esses dias, pude voltar ao lugar, onde era minha casa. Todos em torno de nossa casa haviam morrido. Procurei Midori e só fui encontrar seus restos no lugar onde era a cozinha, com o rosário ao lado com a cruz. Apertei ao peito com muito amor aqueles pedaços de seu corpo, ainda quentes, consumidos pelo fogo e levei-os para o cemitério. Parecia que ela me dizia: Desculpe-me, desculpe-me!”

Dr. Nagai fez um desenho representando Midori vestida de estrelas, subindo ao céu no topo do cogumelo atômico. Era esta sua profunda convicção. Como também ele diz que Nagasaki, a terra dos mártires, onde, no século 17, 26 mártires, chefiados por S. Paulo Miki, foram crucificados pela fidelidade ao evangelho de Jesus, fora escolhida por Deus para, com seu sacrifício, dar a suspirada paz ao Japão. Em sua cama de doente escrevia, cercado do carinho de seus dois filhos. Aí recebeu a visita da famosa cega, surda-muda, Helen Keller e do Imperador. Disse-lhe Hirohito: “Como está? Como vai sua doença? Eu rezo pelo seu rápido restabelecimento”. E voltando-se para seu médico Professor Tageura, recomendou o soberano: “Por favor, cuide bem dele”. “Como lhe sou grato por estas palavras!” – escreveu Dr. Nagai. O Papa lhe enviou um terço de presente e o Imperador um cálice de ouro. Mais de mil cartões com o pedido “Faça a Paz!” Dr. Tagashi espalhou por todo o Japão, com o apelo veemente: “Não mais bombas atômicas, depois de Nagasaki! A paz começa em Nagasaki – seja o brado em todos os lábios. Abandonem a guerra, parem com as guerras, antes de qualquer coisa, evitem a guerra. Vendo as faces dos mortos na explosão atômica, numa onda de lágrimas, eu deixei a pena e tomei o rosário para rezar...”

Aos 43 anos de idade, no dia 1° de maio de 1951, o grande médico e católico japonês faleceu no Nagasaki Medical College, deixando como testamento espiritual 13 livros, fruto de suas pesquisas científicas e suas reflexões cristãs sobre a hecatombe nuclear, dos quais ao menos dois foram traduzidos para o português: “Os sinos de Nagasaki” e “As contas de meu rosário”.


(*) É arcebispo emérito de Maceió.

DOR EXPOSTA

Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br



Minha dor,
deixo-a exposta..
Pode ser
que algum desavisado
por pura falta de amor,
por nunca ter sido amado
a queira aumentar,
recrudescer,
não importa!
Deixo-a no vento,
quarando os momentos
difíceis de soltar..
Tantas guerras,
tanta labuta
que dentro de mim,
não enxuga,
nem vejo amainar.
Precisa ser assim,
colocada lá fora
mesmo
que a queiram diminuir,
denegrir, ridicularizar.
Corro o risco
porque preciso.
Ela me entala, me enforca
e enclausurada em mim,
já não tem como ficar!



Obs: Imagem da autora.

VIDA


Saulo Marden
(saulomardencosta.neves@gmail.com)



Mundo velho
Mundo novo
Solo cansado
Solo fértil
Ar morto
Ar puro
Parentes, amigos
Saída saudosa
chegada feliz
desencontro
reencontro


* * *

SÓ PEÇO A DEUS QUE SEU CANTO NÃO SE CALE

Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.



Quase não acreditei quando soube, por diversos amigos, que sua voz estava a ponto de calar-se. Internada em CTI, seu quadro se tornara irreversível e todos os que a amavam – família, fãs, amigos, admiradores – se encontravam em compasso de espera do anúncio de sua morte. Parecia impossível que aquela voz de “tierra adentro”, com a pureza e a força da terra mesma, pudesse ser silenciada por alguma força maior do que ela. Saída das entranhas da sofrida e invencível Tucumán, sem precisar de instrumentos para acompanhá-la, sua garganta era única e abençoada e, por isso, não parecia que pudesse algum dia calar-se.

E, no entanto assim foi. No dia 4 de outubro último, festa de São Francisco de Assis, o Poverello, o pobrezinho, irmão da terra e de toda a criação, Mercedes Sosa, a “negra” faleceu em Buenos Aires. Repousou inerte e aquela para quem cantar não era uma escolha, mas um destino, e que desde muito jovem entregou sua voz a serviço dos pobres e das causas humanitárias, teve suas cinzas espalhadas em terra argentina.

Cabelos negros como as noites da Pampa que tanto amou, longos como os dias de verão ao sul do Chuí, poncho longo sobre sua impressionante estatura, mãos engrossadas pelos batuques com os quais acariciava o bumbo ritmado que tocava enquanto emitia as notas certeiras, afinadas e cristalinas de seu canto, a “negra” Sosa era o próprio ícone da Pátria Grande, a América Latina que nossa geração um dia sonhou.

Quantos de nós, que vivemos intensamente os anos 1960, 1970, 1980, já não choramos ao ouvir, em sua voz, Canción con todos, Si se calla el cantor e tantas outras? Quem já não vibrou ao sentir derramadas como luz da manhã em seu coração as canções de Atahualpa Yupanqui falando de liberdade? Ou as inesquecíveis letras e melodias de Violeta Parra, sua irmã chilena de compromisso, de dor e de canto, Gracias a la vida, Volver a los 17?

Mercedes Sosa não se afastou nem por um momento dos ideais que nortearam sempre seu canto e sua carreira. Não pertenceu ao número daqueles que, quando a moda passa, mudam de casaca e de lado. Incorporou a sua luta pela justiça à causa da terra, da ecologia. Mas jamais deixou de cantar pela liberdade. E se em seus últimos tempos o amor cantava, era porque passara a acreditar que a libertação da sociedade passava também, e muito, pela libertação das pessoas. E que maior libertação do que a descoberta e o exercício do amor?

Assim como sua voz potente e aveludada percorria todos os tons e matizes, do profundo contralto ao soprano trinado, assim também seus parceiros cobrem um leque variado e qualificado: do patriarca Atahualpa Yupanqui a Chico Buarque de Holanda, da venerável Violeta Parra à nossa querida sambista Beth Carvalho, do genial catalão Joan Manuel Serrat ao argentino Fito Paez.

Com a morte de Mercedes Sosa sinto o mesmo que outras vezes quando morre alguém que dignifica a humanidade e marca positivamente esse pobre planeta em que vivemos. Sensação de empobrecimento, de perda, de vazio. Sentimento de que a vida vai ficando mais vazia, o planeta vai ficando mais pobre. E de que vamos tendo mais testemunhas do lado de lá do que do lado de cá.

Por isso as lágrimas nos olhos e o apelo sentido: continua cantando, “negra”! Não te cales, cantora, pois senão se calará a vida mesma. Pois a vida é todo um canto, como sempre disseste na canção que não para de ressoar em meus ouvidos. Mas, agora que te foste, teu canto tem que continuar em nós e por nós. Por isso, repito o estribilho de uma de tuas canções mais conhecidas e amadas: “Eu só peço a Deus/ que a dor não me seja indiferente/ que a seca morte não me encontre/ vazia e só sem haver feito o suficiente.”


Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/

Copyright 2009 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

CRUCIFICAÇÃO

Maria Inês Simões - Bauru/SP



cravado na boca o lamento
na pele o desejo-tormento
no sangue que escorre os sentidos
da vida querer sem gemidos
cravado no peito a dor-despedida
na alma esperança quem sabe um dia
voltar a viver em toques de amor
um olhar... um sorriso...uma flor

TEXTO DE LUG COSTA


Tempo de rever as reservas da alma
para poder enfrentar os desafios do novo pôr do sol.
Talvez os olhos não sejam capazes de distinguir
as cores das novas luzes e a intensidade de seus raios.
Talvez a voz acorde enfraquecida pelos ininterruptos gritos
da noite mal dormida e retalhada de medos fantasmagóricos.
Para o novo dia: incertezas e passos oscilantes.



( 18.10.2009 – 13:14h – Caxias/MA)

DESAFIOS ATUAIS DA MISSÃO

Marcelo Barros(*)


A Igreja Católica consagra o último domingo de outubro como “dia das missões”. É uma forma de recordar: ninguém vive para si mesmo, mas para os outros. A missão de uma Igreja cristã é dialogar com a humanidade e dar testemunho da realização do projeto divino no mundo.

Ainda hoje, há cristãos que confundem missão com proselitismo e entendem de forma fundamentalista o mandado de Jesus: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a todas as nações” (Mt 28, 19). O próprio Novo Testamento revela que os apóstolos e discípulos não compreenderam estas palavras ao pé da letra, já que não saíram imediatamente pelo mundo afora para anunciar a boa notícia do reino. De acordo com os Atos dos Apóstolos, todos ficaram em Jerusalém e, mesmo depois de perseguidos naquela cidade, não a deixaram (At 8, 1). Só com Paulo, Barnabé e outros, é que a comunidade cristã se abre ao mundo estrangeiro, então chamado de “pagão”. Paulo e seus companheiros fazem várias viagens pelas cidades do Império Romano, até à Europa. Entretanto, em cada lugar, Paulo e seus auxiliares não procuram converter pessoas nas ruas e praças, como, hoje, é freqüente alguns grupos cristãos fazerem. Os Atos dos Apóstolos dizem claramente que eles iam às sinagogas e fortaleciam grupos de discípulos de Jesus dentro do Judaísmo. Somente mais tarde, quando a sinagoga não aceitou mais os cristãos como membros da comunidade judaica, (nos anos 80), os cristãos formaram comunidades independentes do Judaísmo.

Em sua época, Paulo converteu ao discipulado de Jesus pessoas “tementes a Deus”, simpatizantes que ainda não haviam aderido ao Judaísmo e só depois abriram as comunidades para gente de outras culturas. Nem Paulo nem outros discípulos pediram aos judeus que deixassem sua religião, como não exigiram dos gregos abandonarem sua cultura. Por isso, ele pode dizer: “eu me fiz judeu com os judeus e grego com os gregos” (1 Cor 9, 20). A mensagem de Paulo é que todo mundo, de qualquer cultura e religião que seja, deve aceitar a proposta divina, aquilo que os evangelhos chamam de “reinado de Deus” que vem ao mundo para todos.

A teologia atual revaloriza esta verdade: o Evangelho é a boa notícia do reinado de Deus que realiza o seu projeto no mundo. Evangelizar não quer dizer ensinar uma doutrina, menos ainda converter alguém a uma determinada Igreja. A missão das Igrejas cristãs é colaborar para que o projeto divino (o reino) possa se manifestar em todas as ações de justiça, fraternidade e paz. Não se faz isso como quem tem a verdade e deve convencer o outro e sim pela valorização dos sinais da presença e da atuação divina nas realidades do mundo e de outras religiões que encontramos. Os evangelhos que contam: uma vez os discípulos contaram ao Mestre que tinham encontrado alguém que expulsava o mal das pessoas. Eles proibiram porque não era alguém que pertencia ao grupo deles. Jesus os repreendeu dizendo: “Não façam isso. Quem não está contra nós é porque está do nosso lado” (Cf. Lc 9, 49- 50).

Neste mundo pluralista, ainda se torna mais urgente e importante que as Igrejas recuperem esta abertura de coração. Devem ser comunidades de diálogo e acolhida do outro e nunca de intransigência e rejeição. No plano mais profundo, isso nunca é fácil. Testemunhar que Deus atua no meio dos outros comporta sempre uma espécie de morte aos nossos próprios projetos fechados, ao mesmo em tempo que significa uma ressurreição para a relação de amor. Pede de cada pessoa engajada neste projeto não somente consciência intelectual, mas sensibilidade de imaginação criadora. Nos anos 60, John Lennon escreveu uma canção que se chamava “Imagine”. Até hoje, é muito cantada em inglês: “Imagine que o paraíso não exista. É fácil provar isso. Não há inferno embaixo de nós. Acima de nós, somente o céu...”. Parece Jesus dizendo: “o reino de Deus está dentro de vocês” (Lc 17, 21).

Homens como o papa João XXIII, Dom Helder Câmara e o pastor Martin-Luther King compreenderam profundamente isso. Foram profetas que transformaram o mundo e, ao mesmo tempo, poetas sensíveis e encantados com a humanidade. No dia 12 de outubro de 1962, depois de um dia inteiro de trabalho no qual tinha inaugurado o Concílio Vaticano II com todos os bispos católicos em Roma, o papa João XXIII soube pelo seu secretário que a praça de São Pedro estava cheia de povo. Todos, com velas nas mãos, pediam para ver o papa. Este apareceu na janela, saudou a multidão e disse: “Olhem a lua cheia. Ela veio embelezar a nossa festa. Voltem para casa e dêem um abraço ou façam um gesto de carinho em nome do papa na primeira pessoa que vocês reencontrarem em casa. Digam que o papa lhes manda este gesto de amor”. Isso continua a ser o núcleo central da missão de todas as pessoas espirituais.



(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

PÁSSARO RARO

Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com


Abri a janela para apreciar o pássaro feliz
O cantador de emoções
Chamei o pássaro
Ele me escutou
Veio cantar para mim
Me encantou

Não sei se abri a janela demais
Não sei se fechei a janela antes do tempo
O pássaro nunca mais cantou

E foi assim que um dia te fiz meu.
Cantei chamando o pássaro negro
Espécie rara
Em extinção
Mas na distância
O canto não se fez ouvir


Obs: Imagem da internet enviada pela autora

CELULAR

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com



Dentro do carro ...
- Pára o carro!!!
Ele pisa abruptamente no freio.
- O que foi agora?
Ela revira a bolsa desesperadamente e lança um olhar angustiado para ele.
- Meu celular! Eu esqueci meu celular!
- Eu não acredito que esse drama todo é por causa de um simples telefone.
- Não é um telefone qualquer querido. É o meu c-e-l-u-l-a-r! Entendeu?
Questiona ela.
- E o que têm demais no seu c-e-l-u-l-a-r querida?
- Você esqueceu quem eu sou?
- Claro que não. Você é uma pessoa estressada que não pode viver sem um celular e fica dando piti dentro de um carro a caminho de uma festa. Tá bom pra você?
- Engraçadinho. Diz ela irônica.
O semáforo fica verde.
- Vamos! O sinal abriu. Toca pra casa!
- Eu não acredito que nós vamos voltar porque você esqueceu o telefone.
Francamente não!
- Que mal há nisso? Estamos há duas quadras de casa.
- Depende. Se a festa começou há uma hora e você demorou duas para ficar pronta, sabe lá Deus quanto tempo você não vai demorar para encontrar seu celular. Vamos considerar docinho, você é bem desorganizada.
- Mentira!
- Tá bom então. Onde você deixou seu celular?
- Em casa! Ela berra.
- Isso eu sei fofura. Em que lugar da casa?
Ela fica calada.
- Em que lugar baby?
- Eu não sei!!! Diz ela por fim.
- Está vendo. Se você fosse mais organizada saberia onde deixou seu celular.
- Não amola.
O carro de trás buzina.
- Ei ! pra onde você está indo.
-Pra festa! Para onde mais eu iria?
- A palavra ‘casa’ lhe lembra alguma coisa?
- Querida não vai acabar o mundo se você ficar uma noite sem celular.
Ela fecha a cara.
- Tá certo então. Já que não tem o meu, vai o seu mesmo.- Meu o quê?
- Passa seu celular pra cá.
- Eu não trouxe.- Conta outra. É fruto da minha imaginação esse objeto ai no seu bolso. Diz ela apertando a calça.
- É a carteira querida. Afirma ele.
- Desde quando sua carteira apita quando apertamos ela? Me dá o celular!- Meu celular é um objeto muito íntimo. Muito meu, entende?
Ela dá um sorriso irônico.
- Sei, sei. Muito bonita essa sua explicação, de coisa íntima, agora me dá o celular!Vencido ele tira o celular do bolso. Mas antes de entregar o telefone, ele o retém.
- Pra quem você quer ligar? É pra sua mãe? Eu ligo. Me diz o número que eu te passo quando tiver chamando.
Ela começa a ficar desconfiada. Teria ele outra.
- Amorzinho, eu te amo muito, muito ... mas, passa o celular pra cá agora! Grita.
- Eu não vou entregar ! Você não manda em mim. Sua paranóica, desequilibrada.
- Como é que é? Questiona ela.
- É isso aí que você ouviu.
- É assim então?
- Não... É... Não sei... Desculpa.
- Uma semana sem chegar perto de mim.
- Ãh?
- Sem beijo na boca.
Sem massagem.
Sem banho a dois.
- Isso não!
- Sem cereal no café da manhã.
Sem 'cervejinha' na hora do futebol.
- Ah, isso não! É covardia! Vamos voltar pra casa!


Obs: Imagem enviada pela autora.

FORÇA POPULAR

Edilberto Sena
(
edilrural@gmail.com)


É preciso confiar no poder do povo e trabalhar para acelerar a união de mais e mais gente na busca do bem comum, na democracia de fato. Quando esclarecido e comprometido com a justiça social, o povo é capaz de produzir mudanças positivas na vida social e política do país. Nestes dias está completando 10 anos da criação da lei anti corrupção eleitoral no Brasil. A chamada lei 9.840 de combate à compra de votos em eleições. Durante esse tempo já foram cassados 660 políticos que tentaram ou ganharam eleição, comprando votos, corrompendo eleitores. Parece pouco, 660 políticos cassados em 10 anos, mas já é um bom sinal. É verdade que não chega nem a metade dos políticos que forma eleitos com a compra de votos, mas está sendo um avanço pela moralização. E sabe qual a maior novidade dessa lei 9.840? é que ela foi criada graças à pressão popular, através de mais de um milhão de assinaturas num abaixo assinado por lideranças da sociedade civil. O congresso nacional e o presidente da república de então, foram obrigados a criar a lei 9840.

Agora um novo abaixo assinado popular foi feito e amanhã alguns líderes organizadores irão entregar ao presidente do Congresso nacional, um milhão e 300 mil assinaturas exigindo mais um avanço na lei. O Congresso nacional será convocado a criar uma nova lei complementar, pela qual nenhuma pessoa, com processo na justiça por algum crime, poderá ser candidato a cargo público. Será a lei da ficha limpa. O abaixo assinado que será entregue amanhã ao presidente da Câmara federal certamente encontrará muitas reações dos atuais deputados e senadores, pois muitos deles têm processo correndo na justiça por desvio de dinheiro público, má administração. Logo que essa lei for sancionada pelo presidente da república, muitos atuais políticos ficha suja desaparecerão da vida pública. Não será fácil os deputados e senadores aprovarem a nova lei, será preciso muita pressão e vigilância da sociedade organizada. Daí a importância de todos os e as eleitores acompanhar as discussões nos próximos dias, pressionar os representantes de seu Estado e vigiar para ver quais deles serão a favor e quais serão contra a nova lei. É preciso mudar o cenário da política no Brasil, que anda sem crédito, desmoralizada no seio da população.

A verdadeira democracia exige que os políticos sejam pessoas honestas, competentes e comprometidas com os interesses da maioria da população, o que não está acontecendo neste momento no Brasil. Vai demorar a moralização? Talvez, mas os sinais são promissores, 660 corruptos já foram cassados e muitos políticos ficha suja estão com processos na justiça e devem estar tremendo nas pernas. Certamente farão de tudo para barrar a nova lei. É preciso estar de olho neles e especialmente que vários são da Amazônia.

BATISMO – PRIMEIRO PASSO DA INICIAÇÃO CRISTÃ


Sebastião Heber



O Batismo cristão é caracterizado por ser,essencialmente, um nascer para a vida divina. Esse nascimento se realiza através de um gesto humano, isto é, de um banho de água natural em nome de Jesus Cristo ( At.19,1;I Cor. 13,15), ou na fé do Deus Trinitário, o pai, o Filho e o Espírito Santo (I Cor. 6,11 e II Cor. 1,21).

O Batismo não tem, portanto, uma conotação de mera ablução higiênica, não é uma simples limpeza externa do corpo, mas é, simbolicamente, um mergulhar na vida de Cristo, passando da Morte à Ressurreição. O símbolo externo nos transporta a outra dimensão. É assim o primeiro passo dado pela pessoa ao gesto sempre aberto do Pai que convida os filhos a uma íntima comunhão consigo.

O rito cristão faz de qualquer um que o recebe, um “filho de Deus” em sentido especial. Podemos afirmar com a Igreja e a Tradição, que vivem da Palavra do Evangelho, que ele é necessário para nos tornarmos “amigos de Deus” (Tiago 2, 23).

A orientação emanada do episcopado brasileiro concernente ao Novo Rito para o Batismo de Crianças fala-nos dos aspectos essenciais da iniciação cristã ;” Note-se que no roteiro da vida cristã, o sacramento do Batismo é uma etapa normalmente precedida pelas etapas do catecumenato,. Dessa forma, o catecúmeno chega ao sacramento, depois de percorrer os caminhos da conversão à fé.”

Mas, evidentemente, como as crianças não são capazes de realizarem essa trajetória , o texto completa:”Quando se batiza uma criança, o sacramento precede mas não substitui as etapas da iniciação. Nesse caso, admite-se a inversão da ordem, mas não a destruição do processo, através do qual o cristão responde pessoalmente ao dom de Deus e assume sua responsabilidade como membro da Igreja.

O Rito de Iniciação ao Catecumenato de Adultos (RICA) fala do “itinerário espiritual” que, de acordo com a graça de Deus, a pessoa é chamada a percorrer. Os passos são considerados “portas” que o candidato deve atravessar e que correspondem a momentos fortes e densos do processo da iniciação cristã. Essa iniciação aponta para a Páscoa ,isto é, é conseqüência dela e converge para ela, pois é a primeira participação sacramental na Morte e Ressurreição de Cristo.

Sendo batizado, o cristão é enxertado na vida de Cristo, com Ele é juntamente sepultado na morte (Rom. 6,5) e participa da nova vida como co-ressuscitado (Ef.2,5-6). O Batismo, portanto, recorda e realiza o mistério pascal, uma vez que, na sua força, os homens passam da morte do pecado para a vida.

Essa é a razão pela qual a Igreja recomenda e incentiva a celebração do batismo dos adultos na vigília pascal ou que, quando for mudado por razões pastorais, que seja feito no domingo, dia da memória da Páscoa para os cristãos, pois é a ocasião de se manifestar a alegria da Ressurreição.

Podemos dar ao termo “iniciação cristã” uma determinação cristã genérica, certamente a mais conhecida, de “introdução”, “primeira etapa”, “rudimentos” do cristianismo, porem não podemos falar dela como falamos de uma “Introdução à Sociologia”, ou “Iniciação ao Direito”. O termo tem outra conotação e outro alcance.Podemos aludir ao sentido de “Mistério” que evoca a época clássica e faz uma ligação com a Patrística. Os romanos traduzem-no por “initium” o termo grego “misterion”. É justamente desse sentido que o Batismo tira o seu conteúdo fundamental: participação no mistério de cristo, adesão pessoal a ele, incorporação na Igreja e renascimento para uma vida nova.
Iniciação é, pois, termo usado pela história das religiões e fora do contexto religioso. É o termo que designa os vários e complexos ritos que introduzem o indivíduo num clã, numa tribo ou sociedade. Geralmente tais ritos são realizados na adolescência, quando se deixa o mundo da infância para se entrar na vida dos adultos; quando tomam-se responsabilidades na comunidade em vários níveis: no social, no religioso, na vida de guerreiro, entre outros.Os ritos de iniciação indicam um renascimento, na medida em que significam o ultrapassar a soleira da casa para ser introduzido na comunidade adulta como um membro ativo.

Com efeito, não podemos deixar de associar a iniciação cristã às iniciações culturais e religiosas pelas quais passam povos inteiros. Nesse sentido, Mircea Eliade diz que “o Batismo é essencialmente um rito de iniciação” e pode ser considerado um dos raros vestígios dos antigos mistérios de iniciação persistente na sociedade ocidental. Acrescenta o autor.:”Existe entre todas as categorias de iniciação uma espécie de solidariedade estrutural que faz com que, vistas a partir de uma certa perspectiva, todas as iniciações se assemelham”.


Sebastião Heber. Prof. adjunto da UNEB, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris.

MEDO..

CauReb
(
caureb@gmail.com)


Tenho medo de...

NÃO! Não tenho mais medo.
Já perdi muito por medo de perder.
Agora quero ganhar...
Quero sorrir...
Quero viver.

Sem medo de cair.
Sem medo de chorar.
Sem medo de sofrer.

Lágrimas - secam,
Feridas - cicatrizam.
Quedas - ensinam.

Apenas sem medo
.......... sem medo...................

(30.07.09)


Obs: Imagem enviada pela autora.

CORAÇÃO LIVRE!

Jaime Sidônio
(
psjaime7@hotmail.com)


Para viver essa vida nova, é preciso que tomemos consciência da necessidade de conversão como processo permanente, como retorno radical ao Evangelho, como adesão, na fé, à pessoa de Jesus Cristo, Palavra viva e definitiva do Pai, deixando-nos ser abraçados por Ele. E isso requer nova mentalidade para assumir, com liberdade, o projeto de Deus e não aqueles projetos que muitas vezes elaboramos para satisfazer nossos caprichos e alimentar nossas vaidades e auto-suficiência.

Conversão é, pois, um PARTIR ou, se quisermos, um VOLTAR para nos libertar dos ídolos que criamos para nós, para deixar situações, coisas, pessoas, estruturas mentais a fim de assumir mentalidades novas, atitudes novas, com um coração novo, coração verdadeiramente livre, numa abertura total à ação do Espírito, que nos fará capazes de, como Jesus, vencer as tentações e colocar Deus e sua vontade acima das nossas vontades e projetos, enfim, acima de tudo.

O autor da carta aos Hebreus nos estimula: “[...] estamos rodeados dessa grande nuvem de testemunhas. Deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra em nós. Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé” (Hb 12,1-2).

De fato, só a fé verdadeira é capaz de superar os impasses, as crises, os fracassos que experimentamos e nos impulsionar a fazer o caminho da conversão com os olhos fixos em Jesus, aquele que é a vida e que carinhosa e continuamente nos chama à conversão para vivermos reconciliamos.

Como foi linda a experiência dos discípulos de Emaús. Na presença de Jesus, deram passos gigantescos na fé. Naquele momento, Jesus entrou decididamente na vida deles. Pouco a pouco, a fé foi despertando neles, até acontecer o gesto da partilha. Naquele gesto, de repente, surgiu a luz. “Nisso os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles” (Lc 24,31). A fé dispensa a presença física e nos abre um mundo sobrenatural, a luz nos inunda.

PARABÉNS CARUARU

Odete Melo de Souza(*)



Lagos das mais límpidas e tranqüilas águas... mares de ondas revoltas, mas benfazejas... numerosas árvores de incontáveis e saborosos frutos... flores, cuja policromia e fragrância enfeitiçavam os olhos e inebriavam o olfato... a imensurável fauna desempenhava fielmente o papel para o qual foi criado...

Eis o cenário encantador arquitetado pelo Onipotente, destinando-o a um gestor privilegiado, para usufruir gratuitamente de todas aquelas maravilhas.

O plano divino, porém, foi contrariado e aquele inigualável paraíso, transformou-se em ambiente de luta, sofrimento e pena.

Passaram-se os tempos, os séculos, os anos, as dias e o habitante terrestre foi gradativamente comprometendo a harmonia, o equilíbrio e o encanto do nosso Planeta.

São as perniciosas explosões de bombas mortíferas, a poluição dos rios com lixo e resíduos industriais e hospitalares, a devastação das matas, ausência de plantas nas cidades e residências, falta de educação para a segurança do meio ambiente, os gases tóxicos dos veículos...

Muitos fatores contribuem ainda, para que a natureza, dádiva do Criador, seja prejudicada e responsável por doenças, tristezas e sofrimentos.

Parece que humanidade encontra-se indiferente ao bem-estar universal e cúmplice pela ausência do mesmo.

Mas nem tudo está perdido!...

Eis que Caruaru, numa pretensiosa evocação aos primórdios da CRIAÇÃO e iluminada por benéfica luz, elaborou e executou, talvez, o maior empreendimento, sócio-cultural e ambientalista de nossa cidade.

E assim, nesse 21 de agosto, toda a população caruaruense assistiu à inusitada inauguração do primeiro e grande parque da Capital do Agreste.

Surge o monumental PARQUE MUNICIPAL AMBIENTALISTA SEVERINO MONTENEGRO.

A escolha do nome do patrono faz jus à dedicação exemplar que o mesmo dedica à natureza e é baluarte apaixonado da preservação do meio ambiente.

O PARQUE, presente incomparável a todos os moradores de Caruaru, além de lhes proporcionar mais verde, oferece-lhes área de lazer, caminhada, tranqüilidade, cultura, enfim, melhor condição de vida.

A diversidade de flores e plantas encantam os nossos olhos e mentes, diante
daquele tão esmeraldino recanto.

Tudo ali nos desperta o desejo de repousar, escrever, pintar, sonhar, amar, brincar, correr, ainda, a alegria de contemplar aquele abençoado lugar, como melhor presente da natureza.

Acreditamos que a concretização do arrojado evento arregimentou muita força, muita luta, muito trabalho, mas o ambiente pode ser muitas vezes, uma festa, a exemplo do que vivenciamos naquele 21 de agosto.

Esperamos que todos os nossos concidadãos dispensem ao nosso encantador PARQUE, toda atenção, cuidado e carinho, qual uma herança valiosa ou um filho muito amado.

Enfim, a Prefeitura de Caruaru e todos os seus assessores estão de PARABÉNS pela admirável iniciativa de um tão imensurável empreendimento.
PARABÉNS!... PARABÉNS!... PARABÉNS!...



(*) Autora de Retalhos do Coração.

ANGÚSTIA / ENTRE PERDAS E GANHOS

Amanda Barros (*)
mandok_pucca@hotmail.com


*Na maioria das vezes, atos não pensados, me trouxeram terríveis conseqüências.

*No alto de uma loucura, o impulso chega como um corvo desgovernado, sem freios.

*Depois que ajo, só depois que tudo tá feito, e não dando pra voltar ao tempo, paro, penso, logo me arrependo, e bate a angústia de que não devia ter feito ‘tal coisa”. Começo a me sentir mal, me engasgo com tantos erros, e poucos acertos.

*Penso muito a respeito de tudo, e tento imediatamente procurar uma solução, algumas vezes, eu consigo, outras, não, mas uma coisa que sempre digo para mim mesma: Vai dar tudo certo, eu vou erguer a cabeça e seguir a minha vida, e não vou mais repetir os mesmos erros, nem sempre eu consigo cumprir com os meus próprios dizeres, mas assim vou tentando, aprendendo a cada dia, e vou seguindo minha vida... entre perdas e ganhos!!



(*) Aluna da 7ª série

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O SISTEMA DE ENERGIA SUTIL - PARTE I

SARUTAHIKO


É no mínimo curioso quando tomamos conhecimento por algum meio de comunicação notícias como, “A ciência acaba de fazer uma descoberta revolucionária!...” E quando procuramos nos inteirar descobrimos que na realidade não existe nada de revolucionário, por vezes nos deparamos não apenas com experimentos mas com conclusões que já haviam sido realizadas à mais de cinco mil anos atrás por Huang Ti, considerado o primeiro Imperador da China, tendo seus estudos resultado no compilamento do mais antigo escrito sobre medicina até hoje já realizado, o Hung Ti Nei Jing. É uma obra magnífica composta principalmente de dois volumes o Sou Wen e o Ling Shu, estando nesse último contidas as bases da Acupuntura.

Como disse, é no mínimo curioso quando observamos que muitas vezes proposições apresentadas no meio acadêmico como descobertas recentes decorrentes de pesquisas realizadas por cientistas contemporâneos em nada tem haver com o que é vendido, como sendo novidade, um verdadeiro “Ovo de Colombo”, na verdade tem sido muito comum observar como atualmente, não raro, vemos princípios expostos no Huang Ti Nei Jing sendo apresentados na comunidade científica como se realmente fosse algo novo. Talvez isso se deva a característica arrogância ocidental, que até hoje não foi humilde o suficiente para dar braços ao antigo conhecimento oriental, e por tantas vezes tem-se realizado curas no campo da medicina alopática aonde teoricamente esse ou aquele mal eram considerados incuráveis, na realidade isso é bem mais comum do que se pensa.

Inicialmente meu objetivo como Acupunturista é expor através de uma série de artigos as maravilhas da medicina oriental que estão ao alcance de todos, inclusive de leigos, mas para que qualquer um possa ter algum proveito é necessário esvaziar-se de qualquer conceito para que novas informações possam vir a ser transformadas em conhecimento, vejam por exemplo, em momento algum usei o termo ocidental muito usado de “Terapia Alternativa”, primeiro por que não entendo como algo que muitas e muitas vezes resolve problemas que para medicina alopática são insolúveis possa ser chamado de alternativa, segundo que não é terapia pois que na China, por exemplo, à mais de cinco mil anos é a medicina tradicional.

Claro que não somos tolos ao ponto de achar que apenas uma série de artigos possa ser o suficiente para revelar toda a profundidade da sabedoria oriental no campo da cura, mas suscitar indagações sobre si mesmo e estabelecer um ponto de partida onde cada um possa começar à olhar mais para si e se entender melhor.

TEXTO DE WALTER CABRAL DE MOURA

(wacmoura@nlink.com.br)



Navegávamos no mesmo barco. Ao sinal das primeiras chuvas, porém, alguém gritou de estibordo: cada um por si e Deus por todos! E vários, a essas palavras de comando, foram para o diabo que os carregasse.
Em seguida formou-se realmente uma tempestade, que aliás ficou bem caracterizada a partir do momento em que a embarcação esteve próxima de um naufrágio. Se estivesse Jesus a bordo, dormindo no porão, sem dúvida alguma teríamos ido chamá-lo, mesmo sob o risco de sermos tachados de homens de pouca fé. Foi quando outra parte dos companheiros também bateu em retirada, tomando os escaleres e procurando se afastar com remadas rápidas.
Afinal éramos três ou quatro recalcitrantes, e nossa nau singrava águas azuis, já desfeito o perigo imediato de um desastre. A essa altura, não sei se dormi, ou se foram sereias que com seu canto lançaram-nos em uma modorra imprópria para navegantes. O fato é que, ao abrir os olhos, já não vi mais ninguém, e pude constatar que estava só no barco. Calmamente subi à gávea e, firmando a vista, notei à distância um porto, para onde dirigi a proa.
Navegávamos no mesmo barco, que se chamava Amizade.

* * *

Cheguei sozinho ao cais e busquei, confraternizando com as prostitutas que lá estavam, esquecer os companheiros que abandonaram a nau.

ASSIM A HUMANIDADE SE PORTA!!


Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Grito
e sequer ouvem
uma só nota dos meus ais.
Vão
com o sopro do dia
e se espalham
de forma normal.

Partiram em pedaços..
Não eu!
O indivisível átomo.
Conseguiram!
Destruiram
e nem deu manchete de jornal!

Ah, se fossem chamados
para consertar!
Cada um arrumava algo
que não poderia adiar
etcetera e tal.

Quanto a meu grito?
Se espalhará no ar!
Alguém ficará preocupado?
Nem pensar!

E assim a humanidade se porta.
Daqui alguns anos vão nos estudar..
Que vergonha!
Deixe-me ir embora
para nem constar..



Obs: Imagem da autora.

A PÉROLA DA PACIÊNCIA




Em uma certa manhã, do alto de uma palmeira, caiu um pingo de orvalho no mar. Ele acreditava que, em poucos minutos, iria acabar se diluindo, mas as ondas o levaram para bem longe sem deixá-lo livre. Em um determinado momento, o pingo de orvalho ouviu uma voz: "Depressa, entre rápido em minha casa! Aqui você estará em segurança!" O pequeno pingo de orvalho obedeceu a voz e se fechou entre as conchas de um molusco. Nos primeiros minutos, ele se sentiu agradecido, mas devagar começou a repensar sobre sua situação: "Eu estou seguro aqui, mas também sem liberdade! Talvez eu nunca mais vou ver a luz do sol e poder refletir as cores do arco-íris!" Foi, então, que o velho e sábio molusco resolveu acalmá-lo: "Muitas vezes, não vale a pena se revoltar com as situações da vida. Em certos momentos, a revolta somente intensifica a dor e aumenta as nossas preocupações. Mas, se você for paciente, a difícil situação poderá se tornar uma verdadeira oportunidade para uma vida melhor!" O molusco ainda acrescentou: "Então você estará pronto para aprender com a vida e, com certeza, um dia você será muito mais do que é agora!" O pingo de orvalho ouviu tudo com muita atenção e apesar de não compreendê-lo resolveu seguir os conselhos do molusco. Com o passar do tempo ele começou a se sentir mais forte e perceber uma transformação em seu ser. Todos os dias ele repetia para si mesmo: "Adeus para o que eu era ontem. O hoje não vai durar eternamente. Amanhã será cada vez melhor!" Em uma certa manhã, o pingo de orvalho avistou pelas frestas da velha concha algo que parecia ser uma grande flor. Na realidade era a mão de um mergulhador que, depois de recolher algumas conchas, voltou para seu barco. Uma menina abriu a velha concha e com um grito chamou a atenção dos tripulantes: "Olha só - eu achei uma pérola lindíssima! Ela tem a forma de um pingo de orvalho e as cores do arco-íris!" Todos, então, olharam admirados para a mão da menina.

A exigência de produção por parte da sociedade capitalista, a necessidade de ser produtivo para sobrevivermos, a cada vez mais acelerada evolução tecnológica e a rapidez dos meios de comunicação provocaram mudanças significativas em nossa forma de perceber o universo que nos circunda. Hoje temos a impressão de que o tempo passa com muito mais rapidez e somos tomados por uma certa ansiedade em relação ao futuro. Todos os dias levantamos com sede de novidades e nos cobramos várias vezes em relação ao fruto do nosso trabalho. Entre nós tornou-se cada vez mais comum uma postura imediatista que nos faz avançar diante de nossos objetivos, mas também nos impede de saborear a vida e respeitar o seu ritmo natural. Diante de nossos projetos queremos ver os resultados o mais rápido possível, afinal, a sociedade procura sempre nos lembrar que "tempo é dinheiro". Aristóteles já afirmava que "em tudo o que fazemos, temos em vista alguma outra coisa", porém a ansiedade em alcança-la tornou-se uma doença crônica. Em uma plantação, basta um momento para semear e também alguns para colher. Mas quanto tempo é necessário para a germinação do trigo é uma questão que se transformou em um tormento. A palavra "paciência" parece ter ganho um acento pejorativo, algo antiquado para o nosso tempo. Sem dúvida alguma, a "paciência-resignação" é sinal de estupidez, mas a paciência atenta e meditativa, esta sim nunca foi tão necessária na atualidade. Reaprendê-la em nosso itinerário humano é um verdadeiro exercício de pura sabedoria. "Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela" (Esopo). É fato notório que possuímos ótimas "estufas artificiais". Contudo, um brilhante "caqui" madurado ao sol, batido pela chuva, é mais saboroso do que o da "estufa". As obras feitas de afogadilho, sem a colaboração do tempo, o próprio tempo se encarrega em destrui-las. Por isso é fundamental respeitar a liberdade, o ritmo da natureza e saborear cada experiência que a vida nos oferece; afinal, Madalena foi primeiro mulher da vida. Só depois tornou-se santa, e ela não é nenhuma exceção. "Se me dizes que desejas uma manga, responderei que deves dar tempo ao tempo para que haja, primeiro, uma flor, depois uma fruta e para que a fruta amadureça" (Epicteto). Porém, paciência não significa comodismo, braços cruzados, instalação no mais fácil. A paciência saudável deve ser lúcida, vigilante e em constante interação com a realidade. "A ansiedade é como areia em uma ostra; alguns grãos produzem uma pérola, mas muitos matam a ostra" (Malba Tahan).

A TÁBUA DE SALVAÇÃO

Célia Cavalcanti
(
cglcavalcanti@terra.com.br)



Às vezes acontece que alguém te chega perto e diz na tua cara sem medir as palavras e nem as consequências : “ Não gosto de você” ou “ Você atrapalhou a minha vida” ou ainda ”Você me separou de quem eu gostava muito” ;”Tenho muita dificuldade com você” etc…É muito difícil aceitar. Ouvir e contornar,relevar e perdoar …Quando a vida nos prega, de surpresa, uma trapaça desse gênero, sinto que devo me agarrar, qual tripulante que acaba de ser jogado num mar bravio , e tenta se segurar ao primeiro objeto que lhe aparecer, na tentativa de salvar sua vida…Para mim, essa corda,essa tábua de salvação é sem dúvida a misericordia de Deus, é a certeza de que Ele sim, me ama. Isso basta.


Obs: Imagem enviada pela autora.

A MENINA

Djanira Silva
djaniras@globo.com



Quando o mundo começava a se apagar, tudo ficava mais triste. Hora do banho, hora de dormir. Depois do jantar a mãe pegava a cartilha, lápis e pedaços de papel desenhava uns garranchos e mandava a menina copiar. Todas as noites era assim, as duas cochilavam ali mesmo.
Acordavam de manhã com o barulho das galinhas no quintal, cacarejavam quando acabavam de pôr. Sinhá Maria jogava milho e a tia procurava os ovos nas moitas de capim.
No domingo o barulho era diferente, pareciam pressentir a morte, iam para a panela.
A menina gostava de pensar. Fugia para o nada e nem ouvia quando as pessoas falavam. Era preciso chamar mais de uma vez para que voltasse à realidade. A mãe costumava dizer: esta menina é mal ouvida.
As crianças, naqueles tempos, não podiam falar nem perguntar, só respondiam quando perguntadas. Nos dias de chuva não saiam para brincar e ficavam de rostos colados nas vidraças onde os pingos escorriam desenhando caminhos.
Ficar dentro de casa era castigo. Nas cadeiras da sala não se podia brincar. Estavam sempre arrumadas, limpas, enfeitadas com panos de crochê e nelas só as visitas podiam sentar. Não entendia por que o pai comprara cadeiras se não podiam usar. De tempos em tempos ele trocava por outras ainda mais bonitas, as proibições eram as mesmas. Um dia, junto com a nova mobília, veio um porta-chapéus. A menina ficou fascinada pelo espelho oval, brilhante. O fascínio durou pouco, era muito alto e ela não podia alcançá-lo. Subiu numa cadeira. Caiu quando a mãe gritou, desde daí menina. Bateu com a cabeça e ainda levou palmadas. Era assim mesmo, as crianças eram punidas até quando já estavam castigadas.
Quando o vento andava por longe, procurando histórias, ela sentava na beira do tanque. Na água parada via a imagem de uma menina muito feia. Nas histórias de Sinhá Maria havia espelhos que falavam e refletiam sombras e fantasmas. Não perdia a esperança de se ver refletida num de verdade. Foi quando a tia contou a história de Branca de Neve e da madrasta que conversava com o espelho. Um dia, quem sabe, teria um somente seu, para poder contar e ouvir histórias e saber o que se passava no mundo mágico que existe por trás deles.
Todas as manhãs a voz grossa do pai abalava toda a casa: o café está na mesa. Nos dias frios ela não tinha vontade nem coragem para sair da cama. A tirania e o medo, espantavam frio e preguiça.
O sol ainda nem havia chegado ao quintal e as crianças já estavam lá procurando o que fazer num mundo que para eles começava e terminava ali mesmo.
Os que estavam na escola sabiam das ruas e dos caminhos. Os limites da menina não passavam da cozinha e da sala de jantar e ela sofria, sofria porque criança não tinha direito a nada. A mãe dizia que ela era curiosa. Deveria ser alguma coisa muito ruim porque só se preocupavam com ela para brigar e botar de castigo. A avó disse: curioso é quem quer saber de tudo. Isso ela era mesmo.
O quarto dos pais era um chamariz. O espelho do guarda-roupa uma atração. Queria se ver refletida nele. Precisava entrar naquele quarto.
Um dia, pela manhã, a mãe foi à costureira. Os irmãos estavam na escola. Sinhá Maria varria o quintal e a avó sentada na porta da cozinha remendava algumas roupas. Livre de qualquer vigilância, a menina entrou no quarto. Tudo arrumado, vestidos, jóias, sapatos, perfumes. Abriu todas as portas e gavetas. Teve medo quando se viu no espelho, demorou a se reconhecer. Na prateleira de cima os vidros de perfume, os de remédios, pacotes de algodão, cremes. Um deles era um pozinho branco que chiava quando se botava água. Já vira o pai tomar várias vezes. Colocou um pouquinho num pedaço de papel e meteu no bolso do vestido, fez o mesmo com o batom já meio gasto e um resto de ruge. Estava distraída quando escutou barulho na porta da sala. Correu para o quarto da avó. Tinha era vontade de jogar fora umas coisas que ela guardava num caixote vazio embaixo da mala: um vidro com vinagre, outro azeite, outro com sal. Com aquelas coisas tratava dos machucados dos netos. Fazia isto quando o pai estava em casa, na presença dele ninguém abria nem a boca.


Obs: Texto retirado do livro da autora – Do quintal para o mundo -

CAMINHOS DA MISSÃO

D. Demétrio Valentini (*)


Nesta semana a Diocese de Jales teve a honra de receber a visita do Arcebispo de Trichur, na Índia, Mons. Andrews Thazhath.. Ele veio visitar os padres indianos que trabalham em nossa diocese. Aqui eles são quatro. Mas espalhados pelo mundo, passam de quarenta os padres da Arquidiocese de Trichur que se encontram em missão, em diversos países e em diversas circunstâncias.

Foram muito bonitas as celebrações feitas com a presença do Arcebispo, em S. José Operário e em Mira Estrela. A alegria brilhava no rosto de todos. O povo contente com a ilustre visita, e o arcebispo feliz de ver seus padres acolhidos pelo povo. Tomava forma a bonita utopia que sempre acompanha a missão da Igreja, de reunir a humanidade numa só família, “de todos os povos, línguas e nações”.

A visita do arcebispo indiano veio bem a propósito deste domingo das missões. Os dados estatísticos da Índia impressionam, e fazem pensar no tamanho do desafio missionário da Igreja naquele país de mais de um bilhão de habitantes, onde os cristãos, todos juntos, só chegam a 2,3% da população. Cifras que não espelham a importância da Igreja na Índia, pois os católicos, que não passam de 1,5% da população, são responsáveis por aproximadamente 30% das escolas, hospitais, orfanatos e outras obras sociais, promovidas em benefício de toda a população indiana.

Mas a Igreja na Índia, sobretudo no Estado do Kerala, no sul, onde a presença de cristãos é mais expressiva, chegando hoje a 19% da população, carrega uma história muito interessante, e reveladora de um dado muito importante para entendermos a propagação do Evangelho no mundo.

A Igreja na Índia foi fundada por S. Tomé, um dos doze apóstolos. A história comprova sua chegada no ano 52, e seu martírio em 72. Fundou sete Igrejas no Kerala, e marcou presença também em outras regiões da Índia.

A pergunta que intriga é saber como São Tomé foi parar tão longe, numa direção oposta à expansão inicial da Igreja, que tinha tomado o rumo do império romano. Ele, ao contrário, se embrenhou em direção à Ásia meridional, passando pelos atuais territórios da Arábia, do Iraque, do Irã, do Afeganistão, do Paquistão, indo parar no extremo sul da Índia. Pareceria que tivesse se desgarrado, e se perdido na imensidão da Ásia.

Mas, não! Como explicou Mons Andrews, por lá havia, naquele tempo, uma forte presença de judeus, e de outros mercadores, ao longo de toda a costa ocidental da Índia. Assim se explica como S. Tomé chegou lá. Não foi sozinho. Aproveitou a estrada aberta por outros.

Daí brota uma importante constatação, de ordem missionária: o Evangelho precisa ser precedido de rotas humanas, por onde ele possa percorrer os caminhos do mundo. Não é por nada que João foi enviado à frente, “para preparar os caminhos do Senhor”. Pela dinâmica da encarnação, o Evangelho depende de fatores humanos.

Não se entende sua propagação pela Europa, sem o eficiente sistema viário implantado pelo império romano. A própria dispersão dos judeus, sua “diáspora” pelo mundo, serviu de veiculo para a propagação do Evangelho. E´ um tributo, que a Igreja precisa reconhecer aos judeus, e que poderá fortalecer a mútua estima e valorização.

Fato semelhante é atestado pelos Atos dos Apóstolos. Foi “pegando carona” com um etíope, administrador da Rainha de Candace, que o Diácono Felipe pregou o Evangelho, que foi levado para a Etiópia, onde suscitou a Igreja, que existe lá até hoje

A pergunta precisa ser feita de novo: que caronas o Evangelho pode pegar nos tempos de hoje, ou que novas rotas precisam ser abertas pelos missionários, para que o Evangelho possa chegar aos destinatários que o estão esperando?

Ao contrário de amaldiçoar a globalização, podemos descobrir nela preciosas oportunidades de propagar o Evangelho de Cristo. Contanto que nos demos conta de sua importância e de sua urgência.

(*) (
www.diocesedejales.org.br)

A ROTINA DA VIDA COMO ELA É

José de Alencar Godinho Guimarães*
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Mesmo que não fosse a vida
Essa rotina moderna
Faríamos dela amante
Companheira, confidente
Uma dama sem igual
Que nos enche de alegria
Dando-nos vasto prazer
Faz nos chorar é bem certo
Pois é dura, faz sofrer,
Comove-nos com seus atos
Morte, dor, pobreza,
Mas tem o outro lado dela
Isso é razão de viver
Mostra-nos largo sorriso
Enche-nos de tal prazer
Essa é a dinâmica da vida
Um ciclo bem natural
Envolve todos os seres
Dependência necessária
Horários, regras, trabalho,
Descanso, sono, amanhecer,
Cotidiano arrumado
Um vício organizacional
E com o capitalismo
Isso é quase mecânico
Vida regrada
O que vale é a estética
Corpo que o mercado exige
Roupa acompanhando tendência
Tecnologia avançada
Amor quase virtual
Essa é a rotina diária
De uma vida dita normal.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

TEXTO DE PAULA BARROS

www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)


Vendo teus olhos naquela manhã sorridente, tive medo. Medo de me deixar encantar e passar a escutar um canto que tocasse o meu corpo. Debrucei-me sobre o próprio corpo, tampei meus olhos com lágrimas, rendi a respiração, para aprisionar o medo e deixar ele me deter. Gritava o grito dos mudos, urrava dentro de mim, pare emoção, pare.

Naquele dia, vi o quanto estava frágil. Suas palavras dengosas me embalavam. Uma voz sussurrava dentro de mim: não se deite nessa rede tecida com o amor que é para outra, esses olhos caramelados não lhe olharão isentos da dor de amor que não foi curada.
Ah, a cor dos teus olhos, não sei se é a cor que vi. Não sei se é cor de mel. Lembraram-me bombom de cevada da minha infância, com sabor de quero mais. Senti o gosto dos teus olhos na ponta da língua.
Tuas mãos acariciavam teu rosto, repetindo autocarinhos e despertando em mim, desejos. No momento não pensei em ser acariciada pelas tuas mãos fantasiadas de veludo. O meu desejo foi contornar teus olhos, os lábios, foi tatear o rosto com a delicadeza e sensibilidade dos deficientes visuais, mesmo que minhas mãos, gastas pelo tempo, não tenham a maciez e leveza das tuas.

A PAZ E O DESAFIO DE DESARMAMENTO

Marcelo Barros(*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)



Esta semana que culmina com o aniversário da fundação da ONU (24 de outubro) é internacionalmente dedicada ao desarmamento, problema que vai desde a violência nossa de cada dia, alimentada por milhões de armas pessoais que, no mundo inteiro, produzem mortes e sofrimentos para tantas pessoas, como também o desafio imenso das ogivas nucleares. Conforme a ONU, hoje, no mundo ainda existem mais de 26 mil mísseis nucleares prontos para ser acionados e detonar este pequeno planeta em questão de segundos. Há poucos dias, apesar de algumas iniciativas ambíguas no plano da defesa interna e de ser chefe de um país quase permanentemente em guerra, Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, ganhou o prestigioso prêmio Nobel da Paz. Dizem ter sido o reconhecimento por seu empenho de diminuir os mísseis nucleares no mundo, assim como de estabelecer a paz no Oriente Médio.

No Brasil, há quatro anos, os grupos e pessoas que trabalham pela paz perderam o referendo sobre a proibição de porte de armas por parte da população. Assim mesmo o governo tem feito constantes campanhas pelo desarmamento da população. Mesmo em meio à violência que, no país tem aumentado, as pesquisas revelam que o desarmamento tem colaborado para diminuir o número de assassinatos e acidentes fatais no dia a dia dos brasileiros. Conforme o jurista Dalmo Dallari, “a partir do programa de desarmamento, posto em prática pelo governo federal, desde dezembro de 2003, vem ocorrendo expressiva redução de homicídios no Brasil. Em São Paulo, o número de homicídios diminuiu 18%, no Paraná, mais de 20% e em Pernambuco, 10%, o que permite a conclusão de que resultados igualmente positivos devem estar sendo obtidos em outros Estados brasileiros”. Os crimes e massacres que, quase a cada semana, aparecem na televisão são, em geral, cometidos com armas que entram no país legalmente e posteriormente passam às mãos de traficantes e bandidos.

Assim como os terremotos têm epicentro e são provocados por alguma falha tectônica no mais profundo da terra, também a violência tem razões circunstanciais. Mas se fundamenta em uma cultura de desamor que só pode ser vencida por uma educação para a paz e amorosidade nas relações humanas interpessoais, assim como no exercício da gestão social da sociedade. O desarmamento nuclear ou de armas pessoais não se fará sem que se espalhe pelo mundo o desarmamento moral e cultural. É urgente substituir a cultura da concorrência e da competição pela realidade da colaboração e da convivência afetuosa.

Infelizmente, neste campo, a maioria das religiões falhou e tem uma profunda dívida moral com a humanidade. O próprio Cristianismo se deixou cooptar por impérios conquistadores da Europa e mais recentemente da América do Norte. No passado, não só promoveu guerras e violências, como gerou uma civilização de tipo guerreira e conquistadora. Embora sempre tenha pregado o amor ao próximo, as Igrejas conviviam tranquilamente com as desigualdades sociais e as discriminações de vários tipos. Até hoje, não vêem nenhuma contradição em pregar o amor e a paz, enquanto seguem mergulhadas em uma cultura de valorização do poder.

A partir de outubro de 1962, o santo papa João XXIII reuniu bispos católicos do mundo todo em um concílio ecumênico para renovar a Igreja, colocá-la em diálogo com a humanidade e torná-la de novo serva e promotora da paz e da justiça. A partir deste exemplo, o Conselho Mundial de Igrejas, que reúne mais de 340 confissões evangélicas e ortodoxas, também se comprometeu com a causa da libertação dos povos e da luta contra o racismo. Atualmente, um dos caminhos pelos quais as diversas religiões colaboram com a paz e o desarmamento é a plena aceitação do diálogo intercultural e inter-religioso, assim como a descoberta de que existe uma graça divina em viver neste mundo pluralista e assumir esta realidade como palavra divina nas nossas vidas. É preciso que este projeto de abertura de coração e de diálogo aconteça nas comunidades e também no modo de viver de cada pessoa.

No primeiro capítulo da carta aos romanos, São Paulo diz que existe um modo de crer que não leva à justiça. É como se a fé não tivesse conseqüências para uma vida mais justa. Para Paulo, esta forma de fé não corresponde ao projeto divino. Pode ser religiosa, mas não é espiritual. O plano de Deus para o mundo se revela na ressurreição de Jesus. Significa a retomada de uma aliança divina que renova a criação. Como Deus soprou sobre Adão para insuflar nele o espírito de vida, Jesus ressuscitado sopra sobre os discípulos e sobre o universo, dando a todos e a tudo o seu Espírito que torna as pessoas irmãs umas das outras, no caminho da paz e refaz no mundo uma nova criação de beleza e amor universal.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

DROGAS: UMA VIAGEM SEM VOLTA

Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.



"O paraíso artificial das drogas é bem a imagem de uma civilização reduzida a pó."
Octavio Paz

Quando um psicotrópico – uma droga qualquer - chega ao cérebro, estimula a liberação de uma dose extra de um neurotransmissor, provocando sensações de prazer. À medida que o uso vai se prolongando, o organismo do usuário tenta se ajustar a esse hábito. O cérebro adapta seu próprio metabolismo para absorver os efeitos da droga. Cria-se, assim, uma tolerância ao tóxico. Desse modo, uma dose que normalmente faria um estrago enorme torna-se em pouco tempo inócua. O usuário procura a mesma sensação das doses anteriores e não acha. Por isso, acaba aumentando a dose. Fazendo isso, a tolerância cresce e torna-se necessária uma quantidade ainda maior para obter o mesmo efeito. A dependência vai assim se agravando continuamente.

Como o psicotrópico imita a ação dos neurotransmissores, o cérebro deixa de produzi-los. A droga se integra ao funcionamento normal do órgão. E quando falta o “impostor” químico, o sistema nervoso fica abalado. É a síndrome da abstinência.

A recusa em abster-se do que quer que seja por parte de uma sociedade hedonista como a nossa leva ao uso incontido e descomedido das drogas, que provocam viagens para fora da realidade e do tempo, sensações sempre mais fortes e omniabarcantes de prazer, de relaxamento, de bem estar. Fugir do cotidiano esmagador, banal, sem futuro; viajar a outros mundos e realizar outro tipo de experiências, contanto que não sejam aquelas reais e autênticas – essa é a proposta das drogas de toda espécie que o tráfico insidiosamente crescente traz para dentro das casas e das famílias, dos colégios e instituições educacionais, dos bares, boites e lugares de lazer onde a juventude – presa fácil e incauta da viagem fictícia que a droga proporciona, - se deixa envolver e embarca muitas vezes, infelizmente, na viagem sem volta da overdose ou da violência de letais conseqüências que os efeitos da droga provocam.

Dizer não à droga é tornar-se livre, independente. Pois o próprio nome diz, dependência é ser escravo do vício, da substância determinada, que provoca sensações desejadas para fugir e escapar do cotidiano e da realidade. Dizer não à droga é dizer ao próprio corpo e ao próprio desejo: Você não manda em mim. Eu é que mando em você. Estamos situados na minha identidade mais profunda de ser humano e de filho de Deus. E aqui é o templo do Espírito e a casa de Deus. Aqui mandamos eu e o Criador que me fez à sua imagem e semelhança.

O significativo aumento do número de crianças e jovens em condições de vulnerabilidade, o abuso de substâncias psicoativas crescerá entre jovens de idade cada vez menor, revela o estudo da revista Mind. Crianças de rua, por exemplo, uma preocupação que antes só afetava os países do chamado Terceiro Mundo, hoje já são encontradas em cidades tão desenvolvidas como Toronto, no Canadá.

Os especialistas costumam dividir as drogas em dois tipos: leves e pesadas. Drogas leves são as que causam "dependência psíquica", que significa o desejo irrefreável de consumi-las. Pesadas são aquelas que, além da dependência psíquica, causam também a física, ou seja, a sua falta acarreta uma síndrome de abstinência tão violenta, com sintomas físicos tão dolorosos, que o viciado procura desesperadamente pela droga a fim de aliviar a ânsia de consumo. Por essa razão, fumo e álcool podem ser considerados drogas pesadas, apesar de serem socialmente aceitas.

A bandeira levantada pela luta antidrogas tem provocado polêmica, porque faz referência direta e indireta à violência que cerca o mundo das drogas. Antes, as campanhas de prevenção propunham dizer não às drogas, apresentando apenas uma visão individualista de sua ação maléfica: os prejuízos físicos e mentais do uso. Agora o conceito mudou: a mensagem apela para a responsabilidade social, tendo como mote: “O tráfico é dependente de você”. “Quem compra drogas financia a violência.” Os filmes mostram jovens bem-nascidos indo às “bocas”. No momento em que o usuário entrega o dinheiro ao traficante, ouve-se o locutor em off: “O que você faz com seu dinheiro é problema seu. O que o tráfico faz com seu dinheiro, também é problema seu”. Assim os filmes chocam duplamente, porque mostram o mundo violento das drogas e, sobretudo, porque responsabilizam o usuário por essa violência.

Não há como nos enganarmos: nada do que fazemos começa e acaba apenas em nós mesmos. Atinge, ao contrário, toda a coletividade. Hoje, dizendo não às drogas, estamos não só beneficiando a própria saúde. Estamos igualmente contribuindo para construir um mundo de paz, onde a violência seja um pesadelo cada vez mais longínqua. Sejamos senhores de nossa vida. Não deixemos que a droga mande em nós. A primeira vítima seremos nós mesmos.


Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros. wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/

O PONTO DE ÔNIBUS

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


“O amor é um sentimento improvável, que desperta não sei de onde e nem sei porquê”



No ponto de ônibus.
Um rapaz se aproxima.

- Oi. Licença. O Bosque da Paz já passou?
A moça parada próxima ao meio-fio responde.

- Já.

- Que pena.– Lamenta desolado tirando o boné e passando a mão nos negros cabelos cacheados. O suor descendo pelo canto do rosto. Era um daqueles dias quentes.

- Não demora passa outro.

- Viu se o Campo das Flores passou também? - Questiona o rapaz.

- Não ainda não. Estou esperando ele também. Pode ficar tranqüilo, está quase no horário dele.

- Menos mal.

Ele se aproxima.Tenta afugentar o calor com o boné.

- Tá calor né?

- Demais ...

Ele pára e observa a menina magrinha, de calça jeans, camiseta branca, all star desbotado, cabelos castanhos presos num rabo de cavalo. Fixa o olhar nos livros em suas mãos.

- André Vianco?

Ela o encara sem entender. Recorda-se das obras que carrega.

- Sim, sim. – Consente.

- Gosta?

- Comecei a ler há poucos dias. Bom ... é até bacana.

- Gostou ou não?

- Estou acostumada à literatura estrangeira. Confesso que preciso ler mais autores nacionais.

- Ele é o cara! Me amarro nos livros dele. Você vai gostar. Vai ver ainda não pegou o fio da história.

- Vai ver é isso. – Concordou.

- Mas porque Vianco se não gosta dos escritores brasileiros?

- Não disse isso.

- Você acabou de afirmar, linda.

- Não foi bem assim, mas tudo bem. Não vamos discutir.

- Sim.

- Decidi fazer um contraponto a Stephanie Meyer. Já ouviu falar?

- Já sim,mas não me empolguei para ler.

- Por quê?

- Vampiros gostam de atacar humanos e não de correr atrás de gazelas e leões da montanha.

- Então já leu alguma coisa?

- Um resumo confesso.

Ela sorri.

- Mas só isso. Entre o Cullen e o Samuel, prefiro o Samuel do ‘Senhor da Chuva’.

Ela observa a rua.

Mais pessoas agora se aglomeram no ponto de ônibus.

- Gosta de The Clash?

- Nunca ouvi. - Responde a moça.

- U2?

- Adoro U2! – Diz extasiada. - E você? Gosta?

- Mais ou menos. Você tem cara de quem gosta do Bono mesmo.

- Porque?

- Esquece. - Pede ele.

Sorriem.

- Gosta de alguma banda nacional?

- Não sou muito fã. Acho que os caras brasileiros precisam evoluir um pouco mais. Nada contra, mas nesse ponto fico com os estrangeiros. É que nem você e seus livros. O ônibus para.

Os passageiros sobem.

Eles são os últimos.

Sentam-se em um banco no meio do veículo.

- Gosta de filmes? – Pergunta ela.

- Depende da história.

- Hum...

- Você gosta de anime? Mangá?

- Tenho um amigo que gosta. Já vi alguns na casa dele. Têm alguns interessantes, mas não guardei nenhum de cabeça.

- Voltemos a falar de livros então?

- Certo.

- Me deixa pensar num livro ...

Ela interrompe.

- Você já leu Criança 44?

- Ainda não. De quem é?

- Não me lembro o nome do autor, é um russo. Digita o nome no Google que aparece.

- Tá bom.

- É um suspense. Acho que você vai gostar. Espiões, guerra fria, assassinatos na linha do trem.

- Ta aí. Vou procurar.

Os dois observam a paisagem que passa pela janela do ônibus. Silêncio.

- Pedro.

- Bianca.

Sem formalidades.

- Você é legal.

Ela sorri tímida.

- Você também.

- Tenho que ir.

- Até outra hora então.

- A gente se vê?

- Se esbarra por aí ... quem sabe na parada ... quem sabe no ônibus...

- Isso soa filosófico.

Ele se aproxima para dar um beijo no rosto dela. Uma despedida. Num gesto impreciso os lábios se tocam. Um breve toque, um selinho.

- Tchau.

- Tchau.

Ele levanta e vai embora. Desce. Caminha sem olhar pra trás louco de vontade de fazer o contrário, de dar um tchauzinho, de sorrir mais uma vez pra ela. Mas acha melhor não. Teme parecer exibido.

O ônibus segue viagem. Ela abre de volta o livro. Volta à leitura. Olha pela janela e vê a silhueta de um rapaz de boné sumir entre os postes e estabelecimentos comerciais.

A vida segue ...

... Se encontrariam no dia seguinte, na semana, no mês, no ano até o dia em que ficariam juntos para sempre.


Obs: Imagem enviada pela autora.