terça-feira, 29 de novembro de 2011

QUEIMADAS


Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


Negro céu de fumaça
Na forte cor da brasa
A imensidão
Da mata ardida
Uma visão aturdida
Na angústia
Pela flora
Que se esvai pelo fogo
Sem salvação!


Obs: Foto da autora
A CAMINHO DE RIO BRANCO/AC – 30 DE AGOSTO DE 2011

DIA BONITO


Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Bonita, vamos sair pra ver a lua
Mas isso só se o dia estiver bonito
Pois eu quero me perder por tua rua
E me achar na beleza de teu infinito

Eu quero estar no teu olhar pequeno
Ser aquela lágrima que não caiu, que não brotou
Talvez por defesa, talvez por engano
Ou por falta de tempo... ou falta de Amor

Vamos sair e ver e sentir o quão bonita é a vida
O quão belo se é e se pode ser
O quão de quantos "quãis" você quiser
Vamos ser bobos pra não perder a rima

Um dia sem pressa de se viver
Onde iremos esculpir nosso amanhecer
Onde excessivamente grave é vida

E assim, sem medo, sem cautela, sem dever
Escreveremos no chão de nosso ser:
Um Bonito, uma Bonita


* http://bettosantos.blogspot.com

Obs: Imagem enviada pelo autor.

 

A PUREZA

Cláudio do Patrocínio Pereira



QUE MAIS SE PODE LOUVAR
SE É BEM GRANDE A RIQUEZA
VE LA DENTRO NO TERNO OLHAR
DO INOCENTE A PUREZA.

O SORRISO DA CRIANÇA
QUE A TODOS CONTAGIA
É UMA PUREZA SANTA
DE FRANQUEZA E ALEGRIA...

MAS NESTE MODERNO MUNDO
A NOVA ERA MUDOU O RUMO
TENTAR SER PURO É TORPEZA.

SER SINCERO É ERRADO.
O CERTO HOJE É QUADRADO.
TORNOU-SE RARA A PUREZA.

ADEUS, LUNNA

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


Vai amiga!
Corre desenfreada por aí.
Corre por entre as nuvens, do céu dos cachorros.
Late.
Faz manha.
Deita sobre os pés de quem te demonstra carinho.
Balança o rabinho quando perceber alguém chegar.
Peça seu pão no café da manhã. "Massa fina, por favor".
Faça aquela cara manhosa para ganhar um ossinho quando todo mundo estiver a mesa.
Pula no carro se alguém abrir a porta.
... Sempre será um convite pra você, mesmo que não estejas mais aqui.
Obrigado pela demonstração mútua de carinho.
Fica a saudade...
12.11.11


Obs: Imagem da autora.

OS OLHOS DO MUNDO

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


          Não posso fugir daqui, do meu chão, do meu espaço, do meu sol, da minha serra. Pertenço a este mundo, mundo de muitas cores, de muitos sons. O canto dos pássaros, o cheiro dos frutos maduros. Assim me vi crescer, sair do chão e ter na cabeça as idéias que nasceram iluminadas por esta luz, por estes cheiros, por estes sons.
          Quando vi o mundo pela primeira vez ele e eu começamos a existir. Nasci dos olhos da minha mãe. Ai, como eu gostaria de saber o que ela sentiu quando me conheceu.
          Chorei sem saber por quê. Minhas lágrimas ficaram presas nas nuvens e, de repente, o arco-íris riu de mim, abriu um sorriso de um canto a outro do céu.


Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega

 

REALIDADE E MIRAGEM / REINO E REPÚBLICA

D Demétrio Valentini *


          Com este domingo, iniciamos um novo tempo litúrgico, que vai nos levar à celebração do Natal. Na verdade, para a liturgia, começa um novo ano, ao longo do qual celebramos os diferentes enfoques do mistério de Cristo.
          Na passagem de um ano para o outro, aparece com insistência o enfoque relativo ao fim dos tempos, culminando com a aparição gloriosa do Senhor julgando as nações de toda a terra.
          Como as cenas se referem a um tempo meta-histórico, para se referir a elas se usa um gênero literário próprio, denominado “escatológico”, pois trata dos “últimos tempos”, como sugere a palavra grega “éscaton”.
          Aí reside o desafio. Mesmo usando uma linguagem com evidente carga de fantasia, resulta uma descrição muito semelhante aos fatos reais, que a história pode comprovar. Então, precisamos discernir o que tem consistência histórica, e o que é “escatológico”, usado intencionalmente para se referir a fatos que não cabem dentro do contexto da realidade humana.
          Um exemplo bem claro encontramos nos evangelhos, quando trazem as profecias de Cristo sobre o fim do mundo. Usam a destruição histórica de Jerusalém, acontecida no ano 70 de nossa era, para com ela descrever, de maneira aproximada, a destruição final do mundo.
          Assim, um fato histórico, a destruição de Jerusalém por Tito, serve de moldura para imaginar o fim do mundo. O que devemos fazer? Separar os fatos das fantasias.
          Quando o evangelho relata o cerco de Jerusalém, se refere a fatos da história: “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, ficai sabendo que sua destruição está próxima.. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para as montanhas, os que estiverem na cidade, afastem-se dela” (Lucas, 21, 20...). Esta parte tem clara conotação histórica, e aconteceu de fato, quando o exército romano devastou complemente a cidade de Jerusalém. .
          Mas logo em seguida, o evangelho envereda para o gênero literário escatológico, ao advertir que “haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas...(Lc 21, 25..). Aí já é fantasia. Por mais que imaginemos o bonito espetáculo da ciranda das estrelas dançando com o sol e a lua como prelúdio do fim do mundo, sabemos que é uma linguagem figurada, aliás muito solene e bonita, mas que remete para uma realidade que não conseguimos expressar adequadamente por palavras humanas.
          Talvez ajude uma comparação. Quando olhamos para uma cadeia de montanhas, as primeiras à nossa frente podem ser bem dimensionadas em seu tamanho real. As que estão no fundo, podem até parecer menores, mas se sobressaem às primeiras, é porque são maiores do que elas.
          Para falar de um assunto maior, usamos realidades menores.
          Como o assunto é tão recorrente nestes dias, até o fim do mundo nos ajuda a situar melhor as questões relativas ao Código Florestal. Há algumas “montanhas” à nossa frente, isto é, algumas constatações evidentes, que precisamos dimensionar bem, para termos uma idéia mais aproximada do tamanho da questão. Por exemplo: as terras usadas para agricultura, no Brasil, representam só 38% do território nacional. Portanto, 62% do território nacional nem é atingido pela agricultura! E mais: dos 38% das terras agricultáveis, só 27% são usadas pelos pequenos agricultores, que representam 88% dos estabelecimentos rurais. 12% das propriedades, neste país de histórica concentração fundiária, ocupam 73% das terras agricultáveis.
          Os que insistem em achar que provocamos o fim do mundo se o Código Florestal garante aos pequenos agricultores uma proteção especial, para viabilizar sua importante função de proteger o meio ambiente e de produzir alimentos, não está se dando conta da finalidade do Código Florestal, e demonstra não distinguir a realidade da fantasia.
          A sobrevivência dos pequenos agricultores não é um risco para o meio ambiente, mas uma garantia de que a natureza será bem cuidada, e a terra será fecunda para a vida de todos.

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REINO E REPÚBLICA
D. Demétrio Valentini *


          Na semana que nos leva de um ano litúrgico a outro, continuamos nossa reflexão sobre o Reino de Deus e a República humana. Agora enfatizando mais o significado da República, e seu sentido no contexto do Reino de Deus.
          Com as diversas comparações usadas por Jesus para falar do Reino de Deus, fica claro que o Reino não é alheio à realidade. Ele a respeita, mas tem a força de transformá-la por dentro, não contrariando sua natureza, mas levando-a a desabrochar suas potencialidades.
          Portanto, o Reino não é alheio à Republica. Quem se sente animado a participar do Reino, e a agir de acordo com sua inspiração, se volta para a realidade, e procura a maneira adequada de nela interagir.
          Pois bem, na semana passada nos defrontamos com uma realidade muito importante, com nome bem concreto: a nossa “República Federativa do Brasil”.
          Se queremos ser coerentes com a realidade do Reino, precisamos encontrar a maneira adequada de participar da vida republicana. O cristão se sente participante do Reino, mas também cidadão da república.
          Porém, com uma diferença: na esfera do Reino, lidamos com o absoluto, contamos com verdades definitivas, apelamos para a obediência e para a comunhão de pensamentos e de vontades.
          Na vida republicana lidamos com o relativo, com o precário, com o provisório, com o limitado, e não podemos invocar sobre estas realidades a mesma postura que adotamos na vivência do Reino. Na República não convém, por exemplo, invocar o nome de Deus! O melhor é cumprir, na prática, a sua vontade.
          No Reino se escuta e se obedece. Na República se pensa e se decide. Quando aplicamos à República os mesmos procedimentos do Reino, acabamos desrespeitando a República, mas também traindo o Reino, pois ele aposta, não na imposição, mas no convencimento.


O PAÍS DOS BATIZADOS

D.Edvaldo G. Amaral (*)


          O Brasil é um país de batizados – afirmava um documento de 1970 sobre o Batismo de crianças da Conferência Nacional dos Bispos. Em si, seria fato positivo e promissor. Mas vai depender muito das razões, que levam o povo brasileiro ao costume de batizar suas crianças.
          É a mesma CNBB que enumera algumas das mais comuns, distribuindo-as em vários tipos. razões supersticiosas, como crendices populares a respeito de doenças, que afetariam a criança porque ainda não se batizou, azar na família e outras desse tipo; razões de cunho social: é tradição familiar, é a festa da criança pequena; e até de ordem econômica: um padrinho bem escolhido assegura o futuro da criança, com educação e assistência na saúde.
          Esse problema do padrinho é frequentíssimo na pastoral. Sempre que se pergunta aos pais – mesmo religiosos - porque uma criança já bem crescida não foi ainda batizada, a resposta é infalível: “È porque estamos esperando que o padrinho possa viajar para cá....” Esse padrinho será um político, um empresário, pessoa de importância social. Mas, absolutamente, não é essa a missão do padrinho. A Igreja batiza crianças, com a garantia, dada pelos pais de que ela será educada na fé católica. Se os pais não quiserem, ou não puderem, sem culpa sua, educar o filho batizado, vem a obrigação do padrinho de substitui-los, quase como verdadeiro avalista da educação religiosa do afilhado. Por isso, os padrinhos devem ser pessoas de verdadeira vida cristã, que gozem de bom conceito na comunidade e estejam dispostas a substituir os pais na educação religiosa de seu afilhado
          As únicas causas justas e teológicas para batizar o filho devem ser: a necessidade do batismo para a salvação, a eficácia do batismo para apagar o pecado original e o meio de a criança tornar-se filho adotivo de Deus, cristão e membro da Igreja, ou ainda melhor, Igreja viva, como somos todos os batizados..
          Os pais têm a obrigação de cuidar que a criança seja batizada dentro das primeiras semanas de vida. Logo depois do nascimento, “ou mesmo antes,” diz curiosamente o direito da Igreja no cânon 867, os pais dirijam-se à paróquia a fim de acertar o batizado de seu filho e ser devidamente preparados, junto com os padrinhos, conforme as determinações diocesanas.
          Além de providenciar o batismo de seus filhos o mais cedo possível, como já disse, os pais devem fazer a preparação exigida pela diocese, para poderem assumir dignamente diante de Deus o compromisso de educá-los na fé, conforme prometem diante de Deus durante o rito do batismo.
          O Batismo é o primeiro sacramento da Igreja, que nos dá a graça primeira, faz-nos filhos adotivos de Deus, regenerados em Cristo Jesus, membros vivos da Igreja, com um caráter indelével. Se alguém batizado deixar a Igreja Católica, passar para alguma outra Igreja ou seita cristã, ou mesmo uma religião não-cristã, como a religião muçulmana, levará para sempre o caráter do batismo cristão.
          Uma vez adultos, devemos renovar nossos compromissos batismais com a plena e vivida adesão de nossa fé. Com uma verdadeira iniciação cristã, tema prioritário da última assembléia dos Bispos do Brasil, essa exigência se torna realidade nos cristãos, iniciados na fé, que vivem o seu Batismo.


(*) É arcebispo emérito de Maceió.

O COLONIZADOR NUNCA ADMITE QUE O NATIVO TENHA DIREITO

Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


Foi assim ao tempo da invasão portuguesa e continua assim hoje com a invasão dos capitalistas na Amazônia. Recusam admitir que os nativos têm direitos.
O que ocorre hoje no rio Arapiuns entre os indígenas locais e a empresa madeireira é o conflito de interesses entre os nativos que habitam secularmente a região do Maró e sobrevivem dos frutos da floresta e do rio, de um lado, e do outro, uma empresa forasteira que chegou à região há pouco tempo. Ela ambiciona aumentar seus lucros com a exploração de madeiras, vendendo no mercado nacional e internacional com o tal pelo verde.

Os nativos já lutam há anos para que o Estado brasileiro legalize sua identidade indígena, além de suas terras tradicionais e o capitalista, recusa admitir que eles são índios e têm direitos constitucionais. Finalmente a Fundação Nacional do Índio- FUNAI reconhece a identidade do povo da gleba Nova Olinda - eles são indígenas e têm direito às terras ancestrais .

Importante se entender que eles não deixam de ser índios por que uma empresa capitalista contesta; e eles não se tornam índios por- que a FUNAI produz um documento. Quem assume uma identidade é a pessoa. Ninguém é branco, negro e menos ainda pardo, porque o IBGE declara. Aliás realmente é pardo, o que é um pardo? Como ninguém é japonês, ou Francês porque o governo brasileiro ou a ONU declara.

É a pessoa que assume sua identidade, como o pescador, o quilombola ou outro ser humano. Portanto, o que está em jogo hoje no Arapiuns é a ganância do capitalismo em se enriquecer com os produtos das terras dos índios. E ainda há os acólitos incompetentes mas oportunistas que se dizem antropólogos a negar a identidade dos povos indígenas do rio Arapiuns e Tapajós.


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.

O STRESS DA ORCA

Ina Melo


Caros amigos e prováveis leitores,

Hoje assistindo ao noticiário da TV uma notícia chamou à minha atenção. Nos Estados Unidos uma adestradora foi morta por uma velha amiga "Orca" com a qual convivia há quatorze anos. O que terá acontecido para essa rebelião do pobre animal? Será que não estava cansado de tanto ser explorado, massacrado e tantas coisitas más, para que viesse agradar ao grande público do parque? Como diz a sabedoria popular: um dia a casa cai e assim aconteceu. Jamais a jovem mulher poderia pensar que a amiga baleia se revoltasse com as brincadeiras e volteios na grande piscina. Não deixa de ser uma maldade fazer dos animais "palhaços de animação". Deixem que eles façam suas peripécias nos cenário natural dos oceanos seu verdadeiro "habitat". Em qualquer passeio de navio, poderemos vê-los a brincar nas águas plácidas dos oceanos, fazendo gracinhas, balançando as caudas e até mesmo realizando verdeiros "ballet". Uma vez em Fernando de Noronha vi uma dessa exibições naturais e todos aplaudimos a dança dos golfinhos, deixando-os livres, leves e soltos no ar, talvez sorrindo de felicidade. Esta demonstração de estresse da Orca assassina talvez seja um recado para os humanos. Vamos respeitar os animais e deixá-los viver a vida como melhor lhe parecer.

HIERARQUIA DA IGREJA, OBSTÁCULO PARA EMPODERAMENTO FEMININO

Ivone Gebara*


É fato: a hierarquia predominante nas Igrejas e a tradicional cultura religiosa têm uma dívida muito grande junto às mulheres. Fortes na fé cristã, trabalhadoras, revolucionárias, pensadoras, críticas, este público vem encontrado eco na Teologia Feminista passando a exercer um novo jeito de ser e de viver a Igreja, a fé.

Em entrevista à ADITAL, a teóloga e freira, Ivone Gebara, fala sobre os caminhos por quais deve passar a Teologia Feminista e também sobre o quão difícil ainda é ter que lidar com os valores hierárquicos que permanecem cada vez mais distantes da realidade dos e das cristãs.

Incisiva e coerente, Ivone tem claro o papel dos teólogos e teólogas frente aos desafios propostos no cotidiano. “Mais do que uma Associação de Teólogas, nós deveríamos nos comprometer, ajudar e dialogar com os diferentes movimentos, na busca de sentidos e vivências dos valores humanos”, afirma.

Confira a entrevista.


Adital – Como você analisa a condição das mulheres hoje na Igreja Católica? Existem possibilidades reais de mudanças favoráveis às mulheres na Igreja?

Ivone Gebara - Confesso a você que na conjuntura atual eu acho complicado porque a questão do movimento feminista é uma questão que toca em poderes, no poder de visibilidade das mulheres, numa liderança, por exemplo, política, econômica, nos sindicatos, nos movimentos populares...E esse tipo de liderança, infelizmente, é rejeitado não só pela hierarquia, mas pela cultura religiosa presente nas Igrejas.

Essa cultura, inclusive das mulheres que são a maioria, que são as devotas, digamos, tem uma espécie de emoção coletiva em torno da figura do padre. O padre exerce várias funções, não apenas a função do líder da Igreja. Em geral, os padres são mais educados que os próprios maridos ou que os próprios pais. É como se eles também representassem um ideal de homem, respeitador. E funciona também como uma autoridade, uma referência.

Por isso que tem o lado da manutenção de uma imagem hierárquica patriarcal do lado das mulheres, mas tem também o lado dos homens, da própria hierarquia. Então eu vejo a possibilidade de uma mudança dentro das instituições de Igreja a muito longo prazo. A curto prazo nós vamos ter aquisições em nível da sociedade civil e política. A sociedade religiosa é muito mais fechada, muito mais tradicionalista. As referências são muito mais, digamos, com fundamento religioso tão para além da história que eu acho difícil. Mas isso não significa que não há que trabalhar. Há que tentar trabalhar.

Adital - Dentro de todo esse contexto hierárquico, como a Teologia Feminista vem se firmando?

Ivone Gebara - Ela vem se firmando no Brasil, porque em outros países como nos Estados Unidos e no Canadá, é diferente. No Brasil ela se consolida, infelizmente, a partir das margens. A partir de pequenos grupos de congregações religiosas que se interessam pela Teologia Feminista. Há também alguns estudantes de faculdades de Teologia ou de Filosofia ou mesmo de Sociologia que têm interesse em sociologia da religião.

Alguns movimentos sociais, populares, como, por exemplo, o Movimento das Mulheres Camponesas, o Movimento pela Moradia, o Movimento das Mulheres contra a Carestia. Não são todos os movimentos, só alguns grupos, alguns núcleos que buscam. Alguns grupos de mulheres que foram educadas na Igreja Católica ou na Igreja Protestante que, por conta de seu feminismo, se sentem distantes. Aí vêem na Teologia Feminista uma chance de retomar certos valores e referências cristãs que elas tinham no passado. Acho que é por aí.

Adital - O movimento feminista despontou dentro dos movimentos sociais. Como se dá o diálogo entre a Teologia Feminista e os movimentos sociais?

Ivone Gebara - Na conferência de hoje [Seminário sobre Teologia Feminista, que aconteceu nos dias 2 e 3 de outubro, em Fortaleza, Ceará], a Isabel [Félix, teóloga] lembrava que era preciso retomar esse diálogo. Eu não sei como. Só sei dizer que, por exemplo, eu me sinto solicitada por grupos feministas de diferentes tendências para dar uma contribuição, para dar uma entrevista, para uma palestra. Mas tenho a impressão que por conta da posição um pouco retrógrada da Igreja Católica em relação aos desafios propostos pelas mulheres, as feministas têm se desinteressado de um estudo bíblico.

Elas ficam se perguntando: para que vai servir um estudo bíblico para nossas bandeiras? E acabam se interessando apenas num momento crítico como, por exemplo, a interrupção da gravidez quando se trata de certos anencefálicos. Aí todo mundo vai busca a tradição, a bíblia. Há quase dois anos, quando houve a discussão e o Supremo Tribunal Federal apresentou essa problemática e vários juízes começaram a discutir. Todos eles usaram textos bíblicos e usaram os teólogos – tanto os padres da Igreja, quanto os teólogos medievais.

Mas é interessante que ninguém usou a Teologia Feminista. Isso é uma coisa que chama a minha atenção, pois até nessas lutas que são bandeiras feministas pouco se faz uso da Teologia Feminista. É como se a autoridade viesse da Teologia feita pelos homens. Chamo a atenção disso para dizer que não sou pessimista em relação ao trabalho que faço e ao trabalho que algumas companheiras teólogas fazem. Mas se percebe que nesse ambiente atual, uma alternativa que abre para além de uma concepção hierárquica do mundo não encontra adeptos muito facilmente.

Adital - Tanto a Teologia Feminista, como a Negra, a Índia, têm o objetivo de aproximar a Igreja de diferentes realidades...

Ivone Gebara – A questão toda é que a gente não considera que a Igreja é somente a hierarquia. E quando o pessoal, inclusive os políticos, quando vão falar de Igreja estão considerando a hierarquia. Pode ser uma comunidade local ou uma internacional, de pessoas que se ligam à fé cristã, aos valores evangélicos, sem necessariamente se ligarem às ordens de uma hierarquia vaticana. Esse é um fenômeno novo. E não sei quais serão os contornos para o futuro. Acho que é um fenômeno novo de ser um cristão sem Igreja. Cristão sem uma instituição, mas como comunidade constituída de pessoas amigas que são referência, mas sem ter aquela preocupação de ser membro de uma instituição governada por uma hierarquia.

Adital - Como as comunidades em que você trabalha percebem ou assimilam este tema da Teologia Feminista?

Ivone Gebara - Eu trabalho com alguns grupos populares. Os grupos em que trabalho agora já têm, digamos, uma consciência política. Estão percebendo, por exemplo, a relação entre a opressão econômica social e política e a opressão religiosa. Como também percebem que existem políticas libertárias e existem dimensões de libertação nas instituições religiosas. Percebo, por exemplo, quando eu vou com as mulheres camponesas, que há busca de autonomia delas, o desejo que elas têm de estudar, de se empoderar. Elas não encontram eco na Igreja Católica. É um pouco aquilo que a Mary Daly fala, elas têm a impressão que na Igreja católica elas têm que ser procissão, elas têm que ir atrás do que os padres e os bispos falam. Eles que lideram. E elas já não querem mais. Não existe mais esse reconhecimento. Elas querem ser elas as líderes das buscas delas.

Adital – Na linha desses temas relevantes que a Teologia Feminista vem colocando a questão do aborto é uma das que mais tem visibilidade. Como você vê isso?

Ivone Gebara - Eu gostaria de dizer que a questão do aborto não é a primeira bandeira do feminismo. É uma bandeira. Hoje em dia nós estamos colocando situações extremas como a violência sexual contra as mulheres em situação de guerra ou em situação doméstica. Estamos levantando um problema trágico que é a exploração sexual contra as crianças. É uma coisa espantosa o número de crianças que tem chegado nos hospitais públicos, vítimas de violência dentro de casa, de violência dos pais, dos padrastos, ou dos avôs ou dos tios, ou dos irmãos. Fatos como esses têm sido bandeira.

Outra coisa que tem sido bandeira é a educação das mulheres. Não só uma educação social e política, mas uma educação sexual. O aborto, a descriminalização é também uma das bandeiras. Mas aí o pessoal chega e pergunta: mas porque você polariza tanto? Acho que a polarização vem muito mais dos meios de comunicação e também de uma espécie de negação dessa problemática de discussão aberta feita pelas diferentes Igrejas e pelas diferentes instâncias sociais.

Então parece que é o movimento feminista que polariza. Mas quero dizer que a polarização vem dos grupos conservadores que usam a questão do aborto para delapidar, para tirar pedras do movimento feminista.

Adital - Nós temos, hoje, diferentes Teologias. Há uma articulação entre elas?

Ivone Gebara – A articulação é pouca. Houve um tempo em que a Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo buscavam uma articulação maior dessa produção. Hoje sinto que em todos os lugares do mundo há uma espécie de cansaço das organizações que nasceram no passado.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Confederação das Conferências Episcopais, a CRB, a Conferência Latino-americana dos Religiosos, as Associações dos Teológos...está havendo um enfraquecimento dessas instituições. Por que? Acho que a própria conjuntura está levando a isso, a uma espécie de urgência de começar outro tipo de organização a partir de outros moldes e a partir de outras referências. Isso está sendo debatido.

Adital - Falamos aqui de todo esse peso hierárquico que ainda domina a Igreja. Nesse panorama, como será o caminho a ser trilhado pela Teologia Feminista?

Ivone Gebara - Imprevisível. Muito difícil. Tem esforços de congregar de novo as teólogas, fazer reuniões sobre a Teologia Feminista, sobre os novos rumos. Posso dizer que eu aposto, mas desconfiando. Aposto muito mais na ligação das teólogas aos grupos sociais, aos grupos populares. Aposto muito mais em pensar a fé junto com o grupo das empregadas domésticas, de pensar a fé junto com os grupos de mulheres que buscam alternativas de trabalho. Acho que nós deveríamos ser muito mais teólogas inseridas nos movimentos sociais. Mais do que uma associação de teólogas, nós deveríamos nos comprometer, ajudar e dialogar com os diferentes movimentos, na busca de sentidos e vivências dos valores humanos


* Filósofa e teóloga, feminista e escritora

A BANCARROTA AO CORRER DOS TEMPOS


3ª Parte – Islândia

por

J. A. Horta da Silva
Ex-Director do INETI (Coimbra)
(horta.silva@sapo.pt




A saga do desmoronamento da União Europeia parece ter vindo para ficar. Há muito que se diz que depois da Grécia seguir-se-ão Portugal, Espanha e Itália e também países do Atlântico Norte, nomeadamente Bélgica, tudo aquilo e tudo isto sob a intranquilidade do eixo Franco-Alemão e o olhar sumido dos países do norte e do leste da UE, enquanto o Reino Unido se mantém afastado, satisfeito por ter preservado a libra, mas não aliviado por força das dificuldades na manutenção do estado social e dos problemas que advêm da crise económico-financeira dos Estados Unidos da América, seu histórico parceiro. Tal como havíamos afirmado, a Grécia não tem gárgula por onde escoar e, certamente, sairá do euro, enquanto Merkel e Sarkozy parecem um casal imerso num divórcio litigioso, pelo que se adivinha uma crise sistémica na UE de dimensões imprevisíveis. Os beligerantes que deram origem às duas guerras mundiais estão de novo de candeias às avessas, tanto mais que a França perdeu a folga que tinha para respirar e o futuro da Alemanha está suspenso num horizonte de crescimento económico que não chega a 1%.

Os bancos nadam num rebuço de gestão nem sempre feita com o comedimento e a probidade indispensável à legitimidade do sucesso, como aconteceu com o BPN e, por esta inelutável razão, nada nos garante que algumas instituições bancárias não estejam imersas em angústias. Assim aconteceu na Islândia, terra onde o gelo acasala com o magma dos vulcões activos, dando origem a fenómenos que, só por si, roubam paz à vida.

Segundo Robert Wade, professor da London School of Economics, a maioria dos bancos islandeses era propriedade do Estado, que adoptava uma política restritiva no âmbito do crédito. Devido à pressão capitalista, a banca islandesa começou a privatizar-se a partir de 2000 e adoptou uma estratégia neoliberal conectada com os partidos do poder. A elite islandesa deu a mão à oportunidade de fazer negócios e estendeu as suas operações à banca de investimento. Esta estratégia permitiu que as empresas e indivíduos começassem a pedir empréstimos avultados. A maior parte do dinheiro provinha da União Europeia. Os especuladores contraíam suprimentos na Zona Euro, a juros baixos, e emprestavam aos bancos, às empresas e aos indivíduos islandeses a juros altos. A afluência de capital estrangeiro foi enorme e gerou um crescimento fictício. Proclamou-se o milagre económico islandês, como sendo o primeiro país do mundo a ser gerido com fundos de alto risco, denominado "bicicleta financeira" que acabou por desaguar numa enorme crise em 2008. Esta crise envolveu inicialmente três dos seus principais bancos: o Glitnir, o Landsbanki e o Kaupthing. A bolsa de Reykjavik suspendeu os negócios, e quando voltou a abrir verificou-se uma queda de 76% que abriu a porta ao cenário de falência. O governo recorreu ao FMI e tentou encontrar apoio na Rússia que não resultou. O colapso da banca, a que estavam ligados investimentos de alto risco e de qualidade duvidosa, trouxe descrédito internacional e o espectro da bancarrota adquiriu relevo, quando a Islândia deixou de honrar os compromissos financeiros com o não pagamento de salários à função pública. Milhares de pessoas vieram para a rua, insultaram o governo e o FMI e pediram a pena de prisão para os responsáveis. A moeda desvalorizou e a inflação disparou. A solução encontrada foi deixar cair os bancos que estavam insolventes. A Islândia continua a recuperar de um pesadelo, perseguindo agora um caminho mais ajuizado.

Embora mais complexa do que a crise da Islândia, a crise portuguesa tem também uma componente bancária importante. A nossa banca emprestou demais, o crédito mal parado é demasiado grande e os bancos não estão vocacionados para administrar bens penhorados. Não obstante a diferença de escala, a actual dívida soberana islandesa deve rondar metade da actual dívida portuguesa. Irá o governo português intervir nos bancos portugueses debilitados. A experiência com o Banco Português de Negócios, ocorrida no tempo de Sócrates, foi uma desgraça.


(Continua)

JACARÉ CAOLHO

José de Alencar Godinho Guimarães (*)


          Esse fato se deu no Rio Curuá-Una na localidade de Castanheira. Eram três amigos que vez ou outra arrumam as tralhas e saem para pescar, tomar birita, rir bastante e esquecer um pouco a rotina da vida de trabalho.
          Armaram as malhadeiras durante o dia e já haviam pescado bastante peixe, mas o divertido é sair à noite para pescar de Zagaia – haste de madeira com três bicos de aço – e quem sabe ter a sorte de matar um jacaré.
          Saíram com esse propósito e após alguns minutos de conversa e risadas por conta dos peixes que não conseguiam acertar com a Zagaia, eis que o pescador da proa da canoa focou com sua lanterna em direção a uma pequena ilha e avistou um provável jacaré. O piloto da canoa mudou a trajetória da viagem e o proeiro pegou a espingarda para fazer o disparo no bicho.
          Como a canoa estava longe do animal, tiveram tempo para fazer suposições sobre o jacaré que parecia estar imóvel a observá-los e a cada remada a brasa se mostrava maior e mais perto é claro. O estranho era que os três percebiam que o réptil estava fora d’água. Então o piloto da canoa começou a desconfiar da coisa e afirmou em alto e bom tom que em mais de vinte anos morando naquela região jamais tinha visto um jacaré caolho, pois no fogo da lanterna só era possível identificar uma brasa e não duas como de habitual quando se foca em um jacaré.
          Estavam os três amigos nessa conversa quando a canoa encalhou em terra e o proeiro nervoso para atirar, procurou uma posição melhor para visualizar a cabeça do animal quando um bacurau, ave noturna e de olhos esbugalhados, saiu voando. Foram uns cinco minutos de risos incontroláveis.
          Já pensou, os três esperavam ver um jacaré e surgiu um bacurau. É para rir mesmo. E ainda se confirmou que o piloto da canoa, realmente, conhece o que é o olho de um jacaré no fogo da lanterna.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

ORAÇÃO


Laudi Flor
laudiflor@gmail.com


Recebi um pedido de oração através do email coorporativo. Contava que alguém iria se submeter a cirurgia do pâncreas e dizia assim: “Peço que orem ou rezem em suas igrejas, templos, casas espíritas, salões do reino, sinagogas e mesquitas, por alguém que precisa de suas orações...” E continuando o pedido: “Essa pessoa é um homem de bem, decente, correto e bom!”

Achei perfeita, a maneira humilde e universal em que chegou até mim a solicitação.Todo homem precisa de oração, seja ele bom ou mau, principalmente quando está acometido de enfermidade.

O Ministério (da Oração), tem tocado meu coração desde menina, de modo que, quando encontro pessoa enferma, só tenho sossego, quando coloco o pedido diante do Altíssimo!

Vivemos pela Graça e pela Misericórdia de Deus, ou seja, vivemos porque Deus assim permite. Não pelos nossos próprios méritos, que, aliás, não temos, mas pela Graça do Senhor.

Foi assim, que o cego Bartimeu, ao pressentir a presença de Jesus, clamou em alta voz: ”Jesus filho de Davi, tem misericórdia de mim”, e foi curado.

Pedir a misericórdia de Deus em qualquer lugar, nos templos, salões, sinagogas e mesquitas, é o que precisamos! Misericórdia para que ele restaure a saúde do enfermo e a bondade dos homens. Seja ele “homem de bem, decente correto e bom!”


Obs: Imagem enviada pela autora.

 
 

HOSPITAL: NO CENTRO, A PESSOA HUMANA

Leo Pessini *


Fala-se muito hoje na desumanização das instituições de saúde, especialmente o hospital. A pessoa deixou de ser o foco central de atenção. Dentre outros fatores que revelam essa dolorosa situação, destacamos que o hospital se tornou:

• um centro de interesses econômicos, ideológicos e políticos;
• um lugar de trabalho para os sãos, mais que um lugar de tratamento para os doentes;
• uma expressão de ciência e técnica refinadas, na qual as pessoas por vezes são mero detalhe;
• um ambiente de relacionamentos profissionais mais que pessoais;

Urge recolocar a pessoa humana no centro das atenções e considerá-la a razão de ser do hospital. Então sim, este será também o guardião da saúde da comunidade.


*Camiliano, pós graduado em Clinical Pastoral Education pelo S. Lukes's Medical Center (Milwaukee, EUA). Professor doutor no programa de mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo (SP) e autor de inúmeras obras na área da bioética, dentre as quais Bioética: um grito por dignidade de viver e co-organizador de Buscar sentido e plenitude de vida: bioética, saúde e espiritualidade.

CANTAR AO ENTARDECER

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Cansei de ouvir mentiras
De viver numa intranqüilidade emocional,
Sob o manto do amor cigarra,
Que canta todo entardecer,
Sem compromisso particular
Ou, como o assum preto,
Que cego de amor não sabe para quem canta
Vem, amor, como o vim vim,
Que feliz canta para seu amor
Num ritmo melodioso
Que balança estrelas
No abandono da entrega sincera da força motriz
Que engata na marcha da paixão
Seguida da primeira, de força e respeito
Numa segunda, levada com encanto
E a terceira, constante e acelerada, é amor,
Só para dois, sem o pecado da leviandade,
Colado na fidelidade das folhas que correm no regato
Das águas de mentes límpidas,
Que doidamente seguem
Na direção do canto das cigarras
Que celebram o amor ventura
No bramido ensurdecedor da paixão
Consumida sob a luz do luar
No afago das mãos que se reconhecem,
Na mistura incondicional dos corpos
De almas que se entendem no cantar das cigarras.

FIM DE UM MUNDO

Marcelo Barros(*)


          A proximidade do final do ano leva as tradições espirituais a pensar no que seria a meta da história, o fim para o qual vivemos e lutamos. No tempo antigo, essa idéia tomava a imagem de “fim do mundo”. Vários mitos falam sobre isso. Alguns prevêem um dilúvio que inunda tudo. Outras imaginam que a terra se acabará pelo fogo. A própria Bíblia, inserida na antiga cultura judaica, não escapa desse assunto. No Antigo Testamento, os profetas denominam o “dia do Senhor” o tempo do julgamento final e de um acerto divino sobre a história. Conforme os evangelhos, Jesus tomou esse tema para um de seus discursos (Mt 24, Mc 13, Lc 21). As Igrejas antigas lêem esses trechos do evangelho no começo do “tempo do Advento”, as quatro semanas que antecedem o Natal. Lidos ao pé da letra, esses textos provocam medo e contêm uma ameaça. Há quem interprete as guerras e desastres ecológicos atuais como se tivessem sido previstos na Bíblia. Se tudo está determinado, não há como se defender. Ao contrário, muitos crentes e não crentes sabem que a história tem sua autonomia. A presença divina não é para destruir e sim para renovar. Com seu senso de humor, Vinícius de Moraes dizia em uma de suas canções: “Se é para desfazer, por que é que fez?”. Se, por acaso, Deus nos livre, o mundo vier a sofrer um cataclisma e se acabar, isso acontecerá não por decisão divina e sim por culpa do ser humano que fabrica artefatos nucleares capazes de destruir a humanidade e todo o planeta. A destruição do mundo não é projeto de Deus e não foi isso que as profecias anunciavam. Jesus nunca falou do fim do mundo e sim de um mundo. Ele profetizou não o fim do planeta terra e sim de um tipo de sociedade dominante e decadente que tinha mesmo ser vencida. Para quem, naquela sociedade, era oprimido, o anúncio da destruição daquela velha ordem e a instauração de uma nova realidade mais justa e amorosa só podia ser uma boa notícia. Era um verdadeiro evangelho. Por isso, conforme Lucas, Jesus conclui o anúncio do fim daquele mundo dizendo: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se, ergam a cabeça e se alegrem, porque é a libertação de vocês que se aproxima” (Lc 21, 28).

          Os evangelhos usam as mudanças cósmicas como símbolos de transformações sociais. Dizem que o sol perderá seu brilho, se fará noite em pleno dia, a terra tremerá e haverá uma convulsão planetária. Tudo isso para significar que haverá uma mudança profunda. Conforme os mesmos textos, isso aconteceu na tarde em que Jesus morreu na cruz. Ao entregar sua vida, Jesus pôs fim a um mundo antigo e inaugurou um mundo novo. A renovação de toda a criação começou ali. Ainda não é a instauração definitiva do projeto divino no mundo.

          Podemos crer que essa mudança será inexorável, ainda que atualmente seja imperceptível. O amor divino inspira, mas não realizará essa transformação estrutural do mundo e da sociedade sem ser através de nós e de nossa ação solidária e unida. Por isso, Paulo escreveu aos cristãos de Roma: “Não se conformem com este mundo. Cuidem de se transformar pela renovação de suas mentes para discernir qual é a vontade divina, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12, 2). Essa nossa transformação interior é como semente e base da transformação do mundo.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

REALEZA DIFERENTE

Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio *


          Realeza quer dizer magnificência, autoridade e poder. Ou seja, tudo aquilo que é relativo ao rei e diz respeito à sua pessoa e ao âmbito que abrange seu título nobiliárquico, o maior de todos existentes no território em que governa. Realeza é senhorio, é dignidade, é majestade tamanha que no antigo Brasil colônia, por exemplo, aonde o rei não podia ir pessoalmente, seu retrato o representava. E diante daquela efígie, todos se inclinavam, reverentes, reconhecendo sua realeza.

          Em outras circunstâncias, não havendo o retrato, era a veste do rei que o representava e era objeto de preito e deferência. Tudo que lembrasse o rei e o que sua pessoa simbolizava: o cetro, a coroa, o manto, o trono, podia remeter a seu poder e autoridade e invocar respeito e submissão dos súditos.

          Desde muito tempo, a humanidade encontrou no rei, no monarca – princípio único que a tudo ordenava – a personificação da ordem e da harmonia que sonhava viver e experimentar. Indivíduos e comunidade esperavam do rei o direcionamento, a lei a cumprir, a justiça enquanto parâmetro a nortear o comportamento e a organização da vida. Não foi diferente com o povo da Bíblia.

          Uma vez que se encontrou maduro em seu processo identitário como povo da Aliança, o desejo de ter um rei começou a pulsar no coração do povo. Em clara consciência e consonância com a experiência de libertação dada por Deus e o dom da terra para habitar e viver, o povo necessitava um líder instituído e sagrado. Alguém que liderasse com justiça e equidade e que fosse o intendente do próprio Deus.

          Não foi uma tarefa fácil a escolha do rei. Pois se este devia na terra tornar visível o próprio Deus, teria que ser, como o Santo de Israel, o porta-voz e defensor do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro. Mais do que qualquer outro membro do povo, deveria o rei estar junto aos mais pobres e oprimidos, fazendo-lhes justiça e por eles falando, a eles defendendo.

          Logo os reis se revelaram humanos e tristemente pecadores. Agiam com a ambiguidade inerente à condição humana, feitos de pó e barro como nós. Arrebatados por paixões, deixaram-se dominar pela ambição, pela luxúria, pela crueldade. E o ideal da realeza, golpeado e enfraquecido, passou a ser dilatado para os tempos messiânicos, coração da esperança do povo.

          Quando viesse o Messias, este seria um rei segundo o coração de Deus. Filho do Altíssimo, ele faria reinar a justiça e o direito, e seu comportamento resgataria todas as ovelhas perdidas da casa de Israel. Os tempos de sua vinda seriam de festa e alegria, pois Deus teria então feito uma visita definitiva ao povo, que conheceria enfim a plenitude da vida.

         A primeira comunidade cristã reconheceu em Jesus de Nazaré encarnado, vivo, morto e ressuscitado esse messias esperado. Proclamou-o a tempo e contratempo Senhor e Cristo. E anunciou aos quatro ventos que por ele e nele Deus havia cumprido todas as suas promessas. Ele era o Messias esperado e encarnaria então a verdadeira realeza que só pertencia a Deus.

         No entanto, a realeza encarnada, vivida e anunciada por Jesus, que seria reconhecido por seus seguidores como Messias, parecia bem diferente daquilo que normalmente se espera de um soberano ou de um rei. Sua autoridade vinha do amor e da humildade; seu poder se expressava no serviço mais simples ao menor de todos os seus semelhantes, a quem chamava não de súditos, mas de irmãos; seu trono era a poeira dos caminhos; seu cetro, suas mãos calosas de carpinteiro, despidas de adereços, que abençoavam e curavam quantos encontravam; sua coroa era sua cabeça ungida pela água do Jordão e pelo perfume de Maria de Betânia; e, finalmente, o círculo de espinhos que lhe apertou cruelmente o crânio até que exalasse o último suspiro.

          Com sua Ressurreição, seus discípulos perceberam que ali estava verdadeiramente o Rei esperado. Jesus com sua vida, suas palavras, sua prática, resgatava o Deus que sempre na história do povo se identificava com os mais pobres e desvalidos, até o ponto de padecer a mesma sorte e o mesmo destino de todos eles. Celebrar a festa de Cristo Rei, que fecha com chave de ouro o ano litúrgico e abre as portas para o Advento do Natal é pisar nas pegadas desse Rei, que só se encontra no despojamento e no serviço. Hoje como ontem ele liberta o povo de todas as opressões pelo mistério de seu poder feito impotência pelo amor apaixonado pela humanidade.


* A teóloga é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.


Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

MARCA

Maria Inês Simões - Bauru/SP


Não seria fácil se fosse profunda, superficial tatuagem do tempo.
Imigrante oculta de um pesadelo, só você. Não reside em tempo
seguro, pensamento em sobrevôo real aflição. Perturba o sonho na
“rimação”. Nada, a não ser uma marca usada de um contratempo.
Naquela hora, naquele espaço, naquele universo. Sem teto, em flagelo
de conquista planetário-imaginário, visões rasas, meteóricas, nada
mais. Formada de aspectos e espectros cultivados neste solo mãe
gentil. Em céu azul-jeans desbotado na liberdade de expressão, sem
verdades, sem raízes. Apenas imagens de mentiras e contradições.

A AMAZÔNIA É BRASIL E PERTENCE A TODOS OS BRASILEIROS.

Maria Lioza de Araújo Correia


Esta notícia já está requentada, pois já a recebi por e-mail umas três vezes. Para evitar a internacionalização da Amazônia, o que o Brasil tem a fazer é manter sua autonomia lá, mediante obras como a hidrelétrica de Belo Monte, tão combatida pelos ''defensores" internacionais da natureza, através de ONGS comprometidas, pricipalmente, com os interesses particulares dos pseudo defensores da ecologia e das causas indígenas. Interessante é que, quando do terrível desastre ecológico no Golfo do México, o qual até hoje não foi solucionado em termos de recuperação ambiental, não se viram esses zelosos da natureza batalharem para que os Estados Unidos tomassem uma posição clara e punissem exemplarmente a empresa de causou o acidente. A própria Green Peace, tão prestimosa em acusar quando se trata do Brasil, não deu um pio, não se manifestou no desastre do Golfo do México, permaneceu calada que só um coco. Foi silenciada porque é mantida pelos grandes grupos do capital internacinal e não poderia se voltar contra quem a financia.

Por outro lado, setores da Igreja Católica e de outras igrejas, principalmente vindos dos Estados Unidos e de países europeus, bem como grupos que se apresentam como defensores das causa indigenista, também pertencentes ou influenciados por essas ONGS, vivem dando declarações e estimulando a polêmica contra as obras do Governo na Amazônia. Isso não ajuda o Brasil, pois as tribos indígenas que querem preservar as imensas áreas de terras, não tem condição de conservar sem a intervenção governamental a grande extensão das áereas reivindicadas.

Ademais, o Brasil não pode retroceder no processo desenvolmentista, sob pena de correr o risco de enfrentar uma grande dificuldade energética que prejudicará em muito o seu desenolvimento. Este é um dos pontos atacados na propaganda subliminar e camuflada contra a hidrelétrica de Belo Monte e contra todas as que forem necessárias para atender à demanda de energia da qual o Brasil vai precisar para continuar crescendo a fim de poder resolver os problemas econômicos e sociais de seu povo. Daí,o medo das grandes potências, de que o Brasil com suas riquezas, venha a se tornar mais forte e poderoso do que os carcomidos e exaustos países do hemisfério Norte, os quais já não dispõem de recursos naturais e querem a todo custo proibir o uso desses bens pelos países que os possuem. Isso vale também com relação ao petróleo do Oriente Médio, haja vista a guerra do Iraque e os ataques e bloqueios políticos e econômicos contra o Irã, porque possuem o petróleo que ainda move o mundo. Sob o mesmo aspecto, nós também temos o pré-sal que vai gerar ainda muita polêmica e muita cobiça internacional, mas que deve ser explorado pelo Brasil e usufruído em favor de todos os brasileiros e não apenas dos Estados onde se encontra a bacia petrolífera.

Portanto, se a Amazônia ou outras regiões do Brasil estão correndo o tal risco de internacionalização, o que temos a fazer é apoiar o governo em tudo o que puder ser feito nas regiões cobiçadas, especialmente na Amazônia, para que o mundo veja que ela nos pertence e dela podemos dispor em favor do Brasil, pois o Brasil e tudo o que tem dentro dele é dos brasileiros e somente eles é que poderão dispor desses bens, evidentemente com controle pelos órgãos governamentais. Essas ONGS, em sua grande maioria estão na Amazônia, a serviço dos grandes grupos internacionais, sob a desculpa de prestarem serviço humanitário questionável sobre vários aspectos que violam os interesses e a autonomia nacionais.

ATO CONSCIENTE

Padre Beto


Certa vez, um pretensioso rei resolveu construir uma imensa catedral em honra do Deus Todo-Poderoso. Ninguém estava autorizado a contribuir com um centavo se quer para a construção da catedral. Ela seria única e exclusivamente uma oferta do rei, afinal seu nome deveria entrar para história como alguém generoso e de muito poder. Quando a enorme igreja ficou pronta, o monarca mandou escrever em ouro sobre uma enorme placa de mármore: “O bondoso rei Eufrosino construiu sozinho esta maravilhosa catedral”. A placa foi fixada, mas, no dia seguinte, todos ficaram surpresos, pois na placa ao invés do nome do rei estava escrito o nome de uma pobre mulher conhecida em toda a região. Imediatamente o rei mandou tirar o nome da mulher e escrever novamente a frase correta. No dia seguinte, como um milagre, estava novamente o nome da mulher na placa. O rei ordenou, então, que encontrassem a tal mulher e a trouxessem a sua presença. A pobre senhora se aproximou do rei tremendo dos pés à cabeça. “Me diga a verdade”, disse o rei com muita calma, “você contribuiu de alguma forma para a construção da catedral?” A pobre mulher, com muita vergonha, respondeu: “Me perdoe, senhor rei, eu preciso ganhar o meu pão de cada dia com muito sacrifício. Sem dúvida alguma, eu conhecia a sua ordem e tinha medo de sua punição. Mas foi para mim uma enorme alegria oferecer um pouco de feno ao jumento que suspendia as rochas para construção da catedral. Desta forma, eu realizei minha vontade, sem ao menos pensar em desobedecer sua ordem!”

A partir do momento que estamos na existência não possuímos outra alternativa senão o ato de fazer alguma coisa. A palavra “ato”, do latim actus, possui como significado o conteúdo, a essência do existir humano: o feito, a atividade, a ação que dá forma ao nosso viver. O ato é imprescindível ao existir, pois mesmo que queiramos ser inativos, a nossa própria decisão ou impossibilidade de não fazer nada se constitui em um ato humano. Qualquer alternativa de vida molda a realidade e transfere a ela um determinado conteúdo. Nós somos, em nosso universo, pura potência, ou seja, uma energia capaz de alterar a constelação à nossa volta. Aristóteles dava o nome à realidade de “energeia”, palavra que pode ser traduzida em português como “execução”. Para o filósofo grego, a realidade é o resultado de uma execução, em outras palavras, o universo é uma construção de nossas ações. Estas, porém, podem ser desejáveis, planejadas, forçadas ou espontâneas. Independentemente de sua origem, o ato, consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário, será sempre a construção de nossa realidade. “Há pessoas que têm uma maneira extremamente desagradável de não dizer as coisas” (Millor Fernandes).

Diante do fato de que somos a energia que dá origem ao nosso cosmos individual, familiar e social, nós, seres humanos, possuímos o desafio constante de conduzir através da razão a dinâmica entre o ato, a execução, o fazer e a potência, a capacidade, a vontade. Em outras palavras, o desafio do ser humano é possuir uma ação que represente sua vontade e possa realizá-lo como pessoa. Todo ato está intimamente ligado à “potência”, ou seja, a todo conteúdo que está no interior do ser humano: capacidade, aptidão, vontade de realização. Por esta razão, é necessário que o ser humano se auto-conheça. Através de um processo de auto-conhecimento podemos descobrir o que realmente desejamos e do que somos realmente capazes. Como também se faz necessário que o ser humano tente a concretização de sua consciência, de seus sonhos. Para a filosofia moderna, o ato humano completo se constitui na ação intencional de um sujeito sobre o mundo. Na fenomenologia de Husserl, o ato é o momento de um acontecimento intencional e com um objetivo definido e significativo para a formação de um objeto. Sem dúvida alguma, muitas vezes em nossa vida somos obrigados a realizar atos contra a nossa vontade e, muitas vezes, sem termos a capacidade necessária. Mas a satisfação de viver torna-se maior quando podemos descobrir do que realmente somos capazes e para onde queremos conduzir a nossa existência. Há pessoas que fazem, há pessoas que mandam fazer e sempre encontramos pessoas que apenas perguntam o que foi feito. De qualquer forma, nós influenciamos em nosso universo; o importante é que esta influência seja consciente. Afinal, é esta consciência que nos distingue dos outros animais, que nos coloca como concretizadores de sonhos e que nos traz realmente a satisfação de viver. “Se você já construiu castelos no ar, não tenha vergonha deles. Estão onde devem estar. Agora, dê-lhes alicerces” (Henry David Thoreau).

 
 

Dois poemas e uma crônica / Due poesie e una cronaca

 Patricia Tenório
http://www.patriciatenorio.com.br
patriciatenorio@uol.com.br


RENASCENÇA*


Casinhas pintadas

Na paisagem silvestre

De um vilarejo esquecido

Me fazem lembrar

Que um dia amei

E não lembro mais

O gosto da língua estrangeira

O toque dos dedos alheios

Quero sim amar de novo

Amar

Com sabor

De outra vida nascida

Quero o todo

A começar pelos ventos nos moinhos

Surgindo nos meus pensamentos


Renascença – D´Agostinho – Com Karynna Spinelli & Carlos Ferrera



ARCO-ÍRIS**


A dor alivia

Por um segundo

Entro

Na lua nova

No mar aberto

De Maracaípe


Uma chuva fina cai e mistura

O sal

A água

A luz que vem de dentro

E uma amiga-irmã me chama

– Vem, vem

Para além do arco-íris



Arco-Íris – D´Agostinho – Com Karynna Spinelli & Carlos Ferrera


A ONDA CINZA***


Deixo passar meu olhar através da janela do quarto. Vejo o mar de um azul tão azul quanto o céu que o cobre. A linha do horizonte é quase imperceptível, faço esforço para distinguir um navio cargueiro, corta o imenso oceano em direção ao que ignoro. Leva alguma coisa para alguém do outro lado do Oceano Atlântico.

Retornei faz duas semanas ao Brasil, meu país natal, o lugar onde construí toda minha vida. Permaneci na França, Paris, durante quatro meses, quase cinco, mas parece um outro tempo. Penso que era outro tempo quando ainda estava lá, do outro lado do Oceano Atlântico, do outro lado do meu país.

Porque não me sinto nem aqui nem lá; me sinto a caminho, não posei meus pés em lugar algum. Estou em viagem.

As ondas tombam na praia, uma após a outra, elas tombam. Vejo a brancura que brilha sob o sol do verão brasileiro, o verão do nordeste do Brasil. Jamais vi, em qualquer outro lugar do mundo, esta brancura. Fui ao Caribe e ela não estava lá. E mesmo em Paris, A Cidade Luz, não existe a mesma claridade.

O coração está dividido, entre a solidão no meio de meus amigos, filhos que me tocam e não me sinto totalmente plena; um toque de anjo que vem, se levanta ao mais alto de sua força e cai novamente com todo poder sobre a areia da praia.

A onda morre, se recolhe no mar infinito, busca uma força absoluta para continuar uma existência acabada, uma ressurreição.

E eu, eu que não sei onde habito agora, no país da névoa cinza, no país do sol que corta com a luminosidade, eu que desejo o momento de ser acolhida pelo absoluto e permanecer eterna, suspensa, efêmera.

Uma simples onda cinza.


****
____________________________

* Texto extraído de D´Agostinho, 2010, Editora Calibán.

** Texto extraído de D´Agostinho, 2010, Editora Calibán.

*** Texto extraído de Grãos, 2007, Editora Calibán.

**** O mar aberto de Maracaípe – PE – Brasil.



Due poesie e una cronaca di Patricia Tenorio – Traduzione di Alfredo Tagliavia*



RINASCITA**


Casette dipinte

Nel paesaggio silvestre

Di un borgo dimenticato

Mi fanno ricordare

Che un giorno ho amato

E non ricordo più

Il gusto della lingua straniera

Il tocco delle mani altrui

Voglio amare di nuovo

Amare

Con il sapore

Di un’altra vita nata

Voglio il tutto

A cominciare dal vento nei mulini

Che sorge nei miei pensieri




ARCOBALENO***


Il dolore si attenua

Per un secondo

Entro

Nella luna nuova

Nel mare aperto

Di Maracaípe


Una pioggia fine cade e mischia

Il sale

L’acqua

La luce che viene da dentro

E una amica-sorella mi chiama

- Vieni, vieni

Oltre l’arcobaleno



L’ONDA GRIGIA****


Lascio passare il mio sguardo attraverso la finestra della camera. Vedo il mare di un blu tanto blu quanto il cielo che lo copre. La linea dell’orizzonte è quasi impercettibile, mi sforzo per distinguere una nave da carico, taglia l’immenso oceano in direzione di quel che ignoro. Porta qualcosa per qualcuno dall’altro lato dell’Atlantico.

Sono tornata da due settimane in Brasile, il mio paese natale, il luogo dove ho costruito tutta la mia vita. Ho abitato in Francia, a Parigi, per quattro mesi, quasi cinque, ma sembra un altro tempo. Penso che era un altro il tempo in cui stavo là, dall’altro lato dell’Atlantico, dall’altro lato del mio paese.

Perché non mi sento né qui né là : mi sento in cammino, non mi sono posata in alcun luogo. Sono in viaggio.

Le onde irrompono sulla spiaggia, una dopo l’altra, irrompono. Vedo la bianchezza che brilla sotto il sole dell’estate brasiliana, l’estate del Nordeste del Brasile. Non ho mai visto, in nessun luogo del mondo, questa bianchezza. Sono stata ai Caraibi e non c’era. E anche a Parigi, la Città Luce, non esiste lo stesso chiarore.

Il cuore è diviso, tra il senso di solitudine in mezzo ai miei amici, i figli che mi toccano, e non mi sento totalmente piena; un tocco d’angelo che viene, si leva al culmine della sua forza e cade di nuovo, poderosamente, sulla sabbia della spiaggia.

L’onda muore, si raccoglie nel mare infinito, cerca una forza assoluta per proseguire un’esistenza finita. Una resurrezione.

Ed io, io che non so dove abito ora, nel paese della pioggia fine, nel paese del sole che taglia per la sua luminosità, io che desidero il momento di essere accolta dall’assoluto e rimanere eterna, sospesa, effimera.

Una semplice onda grigia.


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* Alfredo Tagliavia è nato a Roma nel 1978.

Dottore di ricerca in Pedagogia presso l’Università degli Studi Roma Tre con una tesi sull’educatore e filosofo brasiliano Paulo Freire, ha trascorso diversi periodi a Recife (Brasile), dove ha collaborato con il Movimento per l’Interscambio Italia-Brasile dell’Università Federale del Pernambuco (UFPE), il Centro Studi Paulo Freire e l’Istituto Dante Alighieri, partecipando anche alle iniziative culturali del Consolato d’Italia. Ha recentemente pubblicato il libro L’eredità di Paulo Freire (EMI, Bologna 2011), oltre a diversi articoli e recensioni a tema pedagogico su riviste specialistiche e traduzioni dal portoghese di pubblicazioni nell’area delle Scienze sociali. Contato: alftag@inwind.it

Alfredo Tagliavia nasceu em Roma em 1978.

Doutor de pesquisa em Pedagogia pela Universidade de Estudos Roma Tre com tese sobre o educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, passou vários períodos em Recife (Brasil), onde colaborou com o Movimento pelo Intercâmbio Itália-Brasil da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Centro de Estudos Paulo Freire e o Instituto Dante Alighieri, participando também das iniciativas culturais do Consulado da Itália. Recentemente publicou o livro L’eredità di Paulo Freire (O legado de Paulo Freire) (EMI, Bologna 2011), bem como diversos artigos e comentários de tema pedagógico em revistas especializadas e traduções do Português de publicações na área de Ciências Sociais. Contato: alftag@inwind.it

** Testo estratto da D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010, Casa Editrice Calibán. Texto extraído de D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010, Editora Calibán.

*** Testo estratto da D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010, Casa Editrice Calibán. Texto extraído de D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010, Editora Calibán.

**** Testo estratto da Grãos, Patricia Tenório, 2007, Casa Editrice Calibán. Texto extraído de Grãos, Patricia Tenório, 2007, Editora Calibán.

***** Il mare aperto di Maracaípe – PE – Brasile. O mar aberto de Maracaípe – PE – Brasil.




Obs: Imagem enviada pela autora.