domingo, 30 de outubro de 2011
LIÇÃO DE VIDA II
Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com
A árvore desfolha-se
Ou aduba o chão
Com frutos não colhidos
Sem questionar
Tão somente presenteia
Aquele dia
Com o que tem.
Obs: Foto da autora
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Bernadete Bruto
O DELÍRIO DE ONIPOTÊNCIA DO NARCISO CONSUMISTA
Betto Santos*
Eu tudo quero e tudo posso. Ser feliz, desejo supremo de todo ser humano, é apenas questão de vontade e coragem. Não ter medo de ser feliz, esta é a expressão mágica no país de todos. Aproveitar tudo, viver tudo a que tenho direito. Mais que isso: tudo que desejo. Meu desejo é a medida da realidade. O negócio é chegar lá, lá onde me espera o objeto do meu desejo. E o que aprendi e o que sei é que vale tudo: tudo por dindim, tudo para que o outro me veja e confirme minha existência, tudo pelos 15 minutos de celebridade, que no meu caso serão eternos. Ser sempre o que o outro quer, já que o outro é a medida da minha existência, já que é o outro quem valida o que sou. Ser é ser o outro e à margem do outro que me vê e me valoriza eu sou apenas a sombra do apagão, um zero. Nada.
Se Caetano Veloso canta que Narciso acha feio o que não é espelho, eu vou além, muito além, e afirmo que Narciso é o próprio espelho, que Narciso é uma criação do outro. O outro é o Big Brother, a mídia, o olhar invejoso do vizinho que quer meu carro importado porque odeia o que tenho e o que tenho é o que sou. O outro é o chefe a quem presto vassalagem para ser o que ambiciono: o executivo sem alma, o astro da mídia, a prostituta que se chama acompanhante ou modelo, o deus do futebol com quem me identifico quando visto sua camisa e majestosamente desfilo pelas ruas como se fosse ele. Se ele me toca, ou rabisca um autógrafo no guardanapo de papel onde o nome dele e o meu se imortalizam, sinto-me como se a mão de Deus sobre mim descesse. É quando sei que sou onipotente. Eu tudo posso. Eu tudo quero.
Sou the hollow man, o homem vazio, o homem oco do poema de Eliot. Não me procurem onde não estou e nunca estive: dentro de mim, pois sou pura forma aparente. Sou o reflexo de uma avenida em cujas margens vislumbro outdoors e clipes publicitários, vitrines que semelham templos onde adoramos o Deus mercadoria, massas errantes rolando por ruas anônimas à procura do que todos procuram: um quinhão de fama, um farelo de notícia que prove ao mundo e antes de tudo a mim próprio a existência dentro de mim anulada. Sou o homem vazio, o homem oco que é pura aparência. Dentro de mim há apenas poeira, um deserto sem água, trapos recobrindo minha nudez vazia e uma angústia sem norte, uma ansiedade sem objeto, um desejo de fuga sem destino, o vazio carente de algo que o preencha.
Mas tudo posso, essa é a voz sedutora do clipe publicitário que me persegue e cativa em tudo que ouço e me cerca. Ela escorre geladinha na garrafa de cerveja. Ou é na bunda deslumbrante da loura gostosa que bebe nos meus braços? Ela me faz crer que sou o dono do banco, não o correntista esfomeado entre o desejo de consumo e a taxa de juros. Ela transfigura minha solidão num harém onde as mulheres mais lindas e inacessíveis estão à distância de um travesseiro na minha cama, dóceis e servis como as mucamas dos engenhos de açúcar coloniais. Eles sobrevivem, os engenhos e seus senhores onipotentes, os engenhos e a escravaria moída pela máquina que sem alma tudo tritura; eles sobrevivem no tipo de capitalismo brutal que criamos, na mídia com seu circo de horrores cotidianos.
Sou onipotente pilotando meu carro que é uma máquina de guerra. Dentro dele viaja submissa a mulher que eu quiser, escrava do meu desejo. Dentro dele, miro com desprezo a massa anônima pendurada no estribo do ônibus, espremida nas janelas de veículos ferventes à luz do verão. Dentro dele, vejo de relance a massa de trabalhadores espremida em trens como se fosse sardinha enlatada. Dentro dele traço a fronteira entre dois Brasis atados mas divididos, cada vez mais se defrontando com surda ferocidade. Um país de todos, mas desiguais. Dentro dele, acelerando como um guerreiro em combate, atropelo o pedestre, ultrapasso sinais vermelhos, excedo todas as velocidades porque a potência do meu carro é instrumento da minha onipotência. Dentro dele estou acima da lei porque a lei e todos os códigos inventados pela sociedade são apenas o que acelero e compro.
Os valores e direitos humanos? Digam-me quanto custam, pois tenho o poder de comprá-los. Amor, delicadeza, ética, respeito, civilidade, compaixão, humildade!, tudo isso soa como palavra tão vazia quanto o vazio que dentro de mim transporto. Como disse, não me procurem onde não sou e estou. Sou pura aparência produzida pelos poderes aos quais servilmente rendo minha liberdade, um sentido de humanidade e beleza que nunca provei nem me apetece. O que não suporto é a solidão, a hora fatal em que preciso mirar-me não no espelho do outro, não no espelho que é o outro, mas no espelho da parede do banheiro que habito, no espelho da minha casa sem humanidade. Nesses momentos irrompe e me sufoca a solidão dos desertos áridos, a angústia sem corpo e forma, a insatisfação sem repouso.
Como explicar essa insatisfação permanente, esse movimento sem pausa, se tudo compro e tudo tenho no shopping que é o templo onde venero meus deuses e realizo minha figuração do céu na terra, céu que é aliás o único, pois que sou eterno? Os publicitários, voz da minha consciência, inventaram a terceira idade e assim aboliram a velhice. Eu, que tudo posso, fui além deles: desinventei a morte e me fiz eterno. Eu sou o outro e sou eterno. Mas por que não paro de me doer? Por que sou a droga sem a qual não suporto o mundo nem me suporto? Por que esse vazio que vai de dentro para fora de mim quando o espelho não é o da mídia, mas o da parede do meu banheiro?
Obs: Imagem enviada pelo autor.
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Betto Santos
Cantor do Amor
cairo de assis trindade
Eu queria ser o poeta
dos sem-terra e dos sem-teto;
servir, como um anjo da guarda,
aos tristes e deserdados;
ser o arauto dos sem-voz,
dos loucos, perdidos e sós;
dos feios, fracos, falidos,
sem porra nenhuma, na vida.
Eu queria ser o poeta
de todos os que não deram certo;
sem deixar, por um instante,
de ser o cantor dos amantes.
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cairo de assis trindade
MEU CANARINHO...
Cláudio de Patrocínio Pereira
MEU CANARINHO BELGA É LINDO.
É DOCIL E JÁ NASCEU EM CASA.
FOFINHO, TEM UM CANTO QUE ARRASA!
NOS DÁ SEMPRE UM PRAZER INFINDO.
O SEU NOME É AMARELINHO...
AMADO, A TODOS ENCANTA.
CEDINHO SEU TRINAR NOS LEVANTA.
É CASADO E ADORA O NINHO.
INTELIGENTE E ENSINADO
É DO IMPÉRIO SEM SER GABOLA.
PRA PASSEAR DEIXA A GAIOLA
MAS RETORNA AO LAR CONFORTADO...
O CASAL EM SUA GRANDEZA
ESPERA FILHOTES EM SEU NINHO.
COM DESVELO, AMOR E CARINHO.
FIEL EXEMPLO DA NATUREZA...
MEU CANARINHO BELGA É LINDO.
É DOCIL E JÁ NASCEU EM CASA.
FOFINHO, TEM UM CANTO QUE ARRASA!
NOS DÁ SEMPRE UM PRAZER INFINDO.
O SEU NOME É AMARELINHO...
AMADO, A TODOS ENCANTA.
CEDINHO SEU TRINAR NOS LEVANTA.
É CASADO E ADORA O NINHO.
INTELIGENTE E ENSINADO
É DO IMPÉRIO SEM SER GABOLA.
PRA PASSEAR DEIXA A GAIOLA
MAS RETORNA AO LAR CONFORTADO...
O CASAL EM SUA GRANDEZA
ESPERA FILHOTES EM SEU NINHO.
COM DESVELO, AMOR E CARINHO.
FIEL EXEMPLO DA NATUREZA...
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Cláudio do Patrocínio Pereira
PONTO, AFINAL
Djanira Silva
Preciso pontuar minha vida antes e depois do nada. Entre os dois pontos e as reticências me crucifico. Coloco-me entre aspas e parênteses. A vírgula e o ponto e vírgula me perseguem.
Calculo o tamanho dos meus passos para não cair nos abismos nem nas certezas. Tenho medo de dormir e acordar esquecida do que pensei, do que sonhei. Sempre esqueço. Nunca sei onde estão as coisas já pensadas. Foram ou não foram?
O pensamento partido, multiplicado, inventa sonhos. Escrava dessa alquimia escrevo e vigio, caminho nas linhas, equilibro-me nos espaços. Seguro as palavras, domino-os, sufoco-as. Feito as crianças elas precisam de controle, de freio, dos castigos da pontuação.
Um dia escrevi a história de uma menina que fugiu de casa sem parar entrou no mundo pela porta da frente e saiu pela de trás desceu subiu degraus e desapareceu nas curvas dos caminhos sem pontos sem vírgulas sem nada.
Assim quero minha alma, alegre, fugidia, livre e ligeira, passando por todas as portas pulando todos os obstáculos, livre de pontuações.
Preciso apenas dois sinais: atenção pare, siga ou de linhas paralelas, pare, olhe escute.
Vírgula, indo e voltando.
Ponto, afinal!
Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega
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Djanira Silva
PASSADO E MUDANÇA DE ÉPOCA
D. Demetrio Valentini *
Temos pela frente uma data simbólica. Será no próximo ano, mais precisamente no dia 11 de outubro de 2012, quando se completarão 50 anos da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II.
Como ponto de interesse crescente, os holofotes vão se concentrando nesta data.
O Papa Bento VI acaba de convocar um “ano da fé”, e como moldura histórica colocou para sua abertura o dia 11 de outubro de 2012, e para sua conclusão o domingo de Cristo Rei, em novembro de 2013.
Ao mesmo tempo, durante o mês de outubro de 2012, mês do jubileu do Concílio, será realizada a décima terceira sessão ordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema girando em torno da nova evangelização, com enfoque sobre a transmissão da fé.
Por sua vez, outras instâncias da Igreja estão se mobilizando em torno desta data. A CNBB já manifestou seus planos de dedicar quatro anos para celebrar o jubileu do Concílio, recordando as quatro sessões anuais de sua realização na década de 60.
Está em andamento um amplo processo de reflexão sobre o alcance histórico deste evento singular que a Igreja viveu há 50 anos atrás. Acabam de se realizar diversas “jornadas teológicas” na América Latina e no Caribe, em vista da realização, no próximo ano, de um grande “congresso teológico latino americano”, a ter lugar no Brasil, começando no dia 12 de outubro, aniversário do início do Concílio.
Percebe-se como esta data é referência central de todas as iniciativas. Pela diversidade de procedências, vai ficando claro que o Concílio pode ser apropriado por todos, como fato revestido de legitimidade, acontecimento já atestado pela história. Isto justifica a tentativa de recuperar seu verdadeiro significado, e perceber como sua validade ainda perdura.
Neste sentido, recuperar a memória de um acontecimento verificado há meio século atrás se apresenta como um salutar desafio a confrontar com as fáceis tendências de esquecer o passado e abraçar a moda do último verão, neste tempo de “mudança de época”, que caracteriza a sociedade de hoje.
Para muita gente, um acontecimento de 50 anos já está mais do ultrapassado, e não desperta nenhum interesse em analisar sua consistência.
Como Marta, parecem estar nos advertindo que já faz muito mais do que quatro dias que tentaram sepultar o Vaticano II! Acontece que o Concílio não morreu.
Mostrar que nem tudo muda, nesta época de tantas mudanças, é interessante e salutar. Nesse ponto, dá para esperar convergências surpreendentes, que podem ser bem integradas, assim esperamos. Pois a celebração de um evento ocorrido há meio século atrás, ajuda a perceber que, de fato, é bom termos medidas mais estáveis e duradouras, para verificar o alcance dos passos que a história vai dando, ainda mais numa época como esta, com seu dinamismo de mudanças rápidas. Os que vivenciam mais convictamente esta dimensão conservadora, acabam nos ajudando, desta vez, a valorizarmos um fato já transcorrido há um bom tempo, mas que ainda conserva seu valor.
Quem sabe, como primeiro fruto desta disposição de reviver um acontecimento passado, seja a disposição de colocar-nos todos de acordo que convém ponderar bem os valores apontados pelo Concílio Vaticano II.
Assim, poderemos valorizar a história, e ao mesmo tempo perceber que ela não nos amarra ao imobilismo, mas ao contrário nos impulsiona a avançar. Assim, no Concílio podemos identificar um passado que continua no presente, e um presente que se fundamento nas lições do passado.
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D. Demétrio Valentini
CATÓLICOS E ANGLICANOS
Dom Edvaldo G. Amaral S.D.B.(*)
O correto talvez seria dizer: anglicanos católicos. Sim, porque nos últimos anos vários grupos de anglicanos declararam que partilham profunda e conscientemente da comum fé católica, tal como ela é apresentada no Catecismo da Igreja Católica. Além disso, reconhecem o Papa como Sucessor de Pedro e aceitam o ministério petrino como instituição de Cristo para sua Igreja. Para tais grupos, chegou a hora de exprimir de forma explícita e visível essa sua plena comunhão com a Igreja de Jesus, que eles reconhecem ser a Igreja Católica.
Este fato novo no árduo caminho do ecumenismo, que pede ao Senhor a plena união de todos os que crêem em Cristo, é que levou a Congregação para a Doutrina da Fé de Roma, após cuidadosa consulta à Conferência Episcopal da Inglaterra e do País de Gales, a erigir para esses grupos de anglicanos o Ordinariato pessoal (uma diocese pessoal, como no Brasil é o Ordinariato militar), com o nome de Ordinariato Nossa Senhora de Walsingham no território da Inglaterra e do País de Gales. A nova circunscrição eclesiástica tem como padroeiro o recentemente beatificado por Bento XVI Beato John Henry Newnam, o mais famoso convertido do anglicanismo para a Igreja Católica.
Este ato, absolutamente único e original na bi-milenária história da Igreja, é uma decorrência da constituição apostólica Anglicanorum coetibus (“Dos grupos de anglicanos”) do Papa Bento XVI, de 4 de novembro de 2009.
O primeiro bispo do novo Ordinariato, nomeado pelo Santo Padre, é o reverendo Keith Newton. Nascido em 1952 em Liverpool, é casado com Gill Donnison desde 1973 e tem três filhos. Após excelente preparação teológica no King´s College da Universidade de Londres de 1970 a 1973, tendo em vista sua formação para o sacerdócio, Newton obteve o certificado de pós-graduação em educação no Christ Church College de Canterbury. Foi ordenado diácono em 1975 e presbítero em 1976 para a diocese de Chelsmsford. De 1976 a 1991, serviu como missionário no Malawi, na África central, regressando à Inglaterra naquele ano. Foi ordenado bispo anglicano a 7 de março de 2002 pelo arcebispo anglicano de Canterbury, George Carey. Agora, junto com a esposa e os filhos, foi recebido por Dom Alan Hopes, na plena comunhão da Igreja Católica na Catedral de Westminster, como primeiro bispo do novo Ordinariato, a 1º de janeiro deste ano de 2011.
Sua missão, juntamente com os reverendos Burnham e Broadhurst, será a coordenação da preparação catequética dos primeiros grupos de anglicanos da Inglaterra, que na próxima Páscoa serão recebidos na Igreja Católica, juntamente com seus pastores. Outra missão da equipe, presidida pelo primeiro bispo do Ordinariato, Keith Newton, será o acompanhamento dos ministros, que se estão preparando para serem ordenados sacerdotes católicos na próxima solenidade de Pentecostes, que este ano ocorre no dia 12 de junho.
“É minha esperança fervorosa que, realizando o que o Papa chama ‹‹um recíproco intercâmbio de dons entre nossos respectivos patrimônios espirituais››, o novo Ordinariato concederá grandes bênçãos não só aos diretamente interessados, mas também à toda a Igreja universal” – foram os votos enviados pelo Cardeal William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, numa mensagem lida em 15 de janeiro último, na Catedral católica de Westminster, por ocasião da sagração de três novos bispos anglicanos, que ingressaram na plena comunhão com a Igreja católica.
Fica assim concluída esta primeira etapa da aplicação da Constituição Apóstólica “Dos Grupos de Anglicanos” do atual Pontífice.
(*) É arcebispo emérito de Maceió.
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D. Edvaldo G. Amaral
DIÁLOGO FORÇADO SALVA VIDAS DE FUNCIONÁRIOS FEDERAIS
Edilberto Sena *
O governo brasileiro dito democrático, invade a Amazônia e só pára quando forças organizadas exigem respeito. Os indígenas Kayabi, munduruku e Apiacá dão exemplo aos não índios, de como ter respeitados seus direitos. Invadidos pelo governo federal que tem plano de construir hidroelétricas no rio Teles Pires, os povos indígenas, liderados por Munduruku e companheiros, fizeram reféns 6 funcionários do governo e exigiram presença de manda chuvas de Brasília para ir lá nas terras deles para negociar. Sua exigência principal: Não querem barragem no rio que lhes garante a vida. Ou param com o projeto hidroelétrico lá, ou eliminarão os 6 funcionários. O governo federal compreendeu que os índios não estavam brincando e enviou um emissário da presidenta para dialogar. Não se sabe ainda o que o emissário da presidenta garantiu aos resistentes Kayabi e companheiros, mas já se sabe que os reféns foram libertados. Os indígenas esperam que o governo tenha palavra de honra e respeite os direitos violados. Este episódio merece algumas reflexões: a) os indígenas tinham razão e direito de exigir respeito do governo? B) diante da violação de seu território, propriedade, os munduruku e companheiros agiram corretamente ao exigir diálogo direto com representante da presidenta? c) se o governo não tivesse atendido as exigências dos indígenas prejudicados, eles estariam certos em eliminar os reféns? d) Se o governo federal não atendesse ao chamado à negociação os indígenas deveriam baixar a cabeça, soltar os reféns e aceitar a violação de seus direitos? Quem está de fora da questão das invasões do governo federal com seus planos de usinas, em Belo Monte, Tapajós, Teles Pires e outras, pode até achar que os Apiaká, Munduruku e Kaiabi estejam errados, mas só quem já foi ferrado de arraia, sabe a dor que sofre e busca remédio O governo brasileiro precisa aprender a respeitar os direitos dos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, enfim, dos povos da Amazônia. Uma boa lição deram os apiaká e os companheiros aos moradores dos rios Xingu e Tapajós, inclusive Santarém.
* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém
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Edilberto Sena
AOS NOSSOS FILHOS
Frei Betto *
Não tenho filhos. Mas, obviamente, sou filho, em companhia de mais sete irmãos. Se me faltam filhos biológicos, tenho-os espirituais ou por vínculos de parentesco. Sobrinhos são 16. Sobrinhos-netos, 14, dos quais nove com menos de cinco anos de idade!
Quando se fala em legado aos filhos há quem, de cara, pense em dinheiro. Tudo bem que os pais queiram fazer um pé de meia de olho no futuro de seus rebentos. Mas... cuidado! Não é dinheiro o que um filho mais espera dos pais, ainda que não saiba expressá-lo. É amor, amizade, apoio e, sobretudo, exemplo de vida. Thomas Mann dizia que um bom exemplo é o melhor legado dos pais aos filhos.
Ainda que os pais, bafejados pela roda da fortuna, deixem a seus descendentes gordas heranças, estas não deveriam ser o principal legado. Nada mais perigoso a um jovem que centrar sua autoestima na conta bancária ou no patrimônio familiar. É meio caminho para se tornar arrogante, preconceituoso e vulnerável às drogas. Sobretudo à cocaína, cujo efeito anaboliza a prepotência. Ao primeiro revés, o herdeiro despencará no abismo, despreparado para enfrentar a realidade.
Quem não se sente subjetivamente valorizado corre o risco de querer nutrir sua autoestima através de valores financeiros e patrimoniais. O ter suplantando o ser. Como o desejo tem fome de infinito, o tamanho da ambição costuma ter a medida da profundidade da frustração. Na Roma antiga os filósofos aconselhavam a considerar o necessário o suficiente. Uma sábia dica para saber lidar com a avassaladora pulsão consumista que assola o mundo.
Educação e espiritualidade
O melhor legado aos filhos é, sem dúvida, uma boa educação. Não me refiro apenas à escolaridade, que é imprescindível. Pesquisas comprovam que, no mercado de trabalho, o nível de escolaridade corresponde ao salarial. Conhecimento é poder.
A educação ética deveria ser o principal legado aos filhos. E ela decorre do exemplo dos pais. Estes devem fazer a escolha: incutir nos filhos atitudes de competitividade ou de solidariedade? O professor Milton Santos, da USP, enfatizava a importância de se perseguir os bens infinitos, e não apenas os finitos. A advertência ganha especial importância neste mundo desimbolizado, desencantado, em que vivemos, onde se carece de abertura aos valores transcendentais.
Em sua Metafísica dos costumes Kant alerta: “Tudo tem ou bem preço ou bem dignidade. O que tem preço pode ser substituído por seu equivalente; ao contrário, o que não tem preço e, portanto, equivalente, é o que possui dignidade.” Em outras palavras, o sadio orgulho de ser ético se contrapõe à miserável satisfação de ser esperto.
Uma criança não deve ser movida a consumo, e sim a aprendizado, brincadeiras e fantasias. Um jovem será tanto mais cidadão quanto mais se incutir nele esperanças altruístas, ideais, sentido de vida e utopias.
Toda criança é mimetista. Se os pais dizem que toda pessoa merece respeito e, ao mesmo tempo, tratam a faxineira como escrava virtual, com certeza o filho fará o mesmo quando adulto. Idem no que diz respeito à preservação ou degradação ambiental.
O legado moral consiste em evitar que o filho seja preconceituoso, mentiroso, invejoso, e saiba tratar cada ser humano com pleno respeito à sua dignidade e a seus direitos. Sobretudo, que tenha espírito crítico e disposição de tornar o mundo menos desigual e mais justo.
Todos acompanhamos o recente episódio, no Rio, do rapaz que, num racha, desrespeitou a sinalização de “trânsito impedido” num túnel em obras e matou Rafael, 18, filho da atriz Cissa Guimarães com o músico Raul Mascarenhas. Segundo o noticiário, o pai do jovem homicida teria subornado os policiais incumbidos de puni-lo. Tal pai, tal filho.
Isso vale para outros aspectos da vida. Como se queixar do filho obeso se os pais se empanturram à mesa e se entopem de açúcares e gorduras saturadas?
Com frequência, pais de adolescentes me consultam sobre como agir frente à indiferença religiosa dos filhos. Minha primeira reação é dizer que a pergunta veio com dez anos de atraso. Se os filhos tivessem 6 ou 8 anos, e não 16 e 18, eu saberia o que aconselhar: orem com eles, leiam e comentem a Bíblia, levem a sério o caráter religioso de datas como Páscoa, Natal ou, caso não sejam cristãos, as efemérides próprias de sua denominação religiosa.
E exercite-os na cada vez mais rara virtude da tolerância. Deus não tem religião. Ensinem a seus filhos não considerarem diferença divergência.
Pela ordem natural, pais morrem ou transvivenciam antes de seus descendentes. Se indaguem – que imagem vocês deixarão na memória de seus filhos? Lembrem-se de seus próprios pais e avós. Quais os legados positivos e negativos eles imprimiram em sua memória afetiva? Deixaram saudades?
A parábola
Um homem muito rico, acometido de grave doença e desenganado pelos médicos, convocou filhos e netos para comunicar-lhes a herança que lhes deixaria. Todos, ansiosos, compareceram ao hospital. Formaram uma grande roda em torno do leito.
Dada a ordem, o advogado do enfermo abriu a pasta e distribuiu aos herdeiros caixas de fósforos, uma para cada um. Decepcionados, entreolharam-se e, ao abrirem a caixinha, encontraram pequenas sementes. O homem, tomando em mãos uma das caixas, explicou:
“Esta semente é a do amor; esta, da solidariedade; esta aqui, da compaixão; esta, da amizade; aquela ali, do perdão. Se vocês souberem cultivá-las, haverão de ser felizes.”
E acrescentou:
“A fortuna que acumulei será destinada a obras sociais.”
*Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org http://www.freibetto.org
/ - twitter:@freibetto
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NOVAS FORMAS DE SER IGREJA?
Ivone Gebara *
Toda a tradição da história do Cristianismo se desenvolveu, por um lado, em torno dos que quiseram manter um Cristianismo tecido da aliança com o Império Romano e, por outro, dos que quiseram romper com a estrutura hierárquica elitista. Para uns a verdade era pré-definida por Deus e justificava os poderes estabelecidos. Para outros a verdade era o encontro com o próximo na sua diversidade de rostos e culturas. Para uns era o dogma que precisava ser obedecido e defendido. Para outros eram os corpos feridos, caídos nas estradas da vida, famintos e sedentos de pão e de justiça que precisavam ressuscitar. Para uns a recompensa viria nos céus e para os outros a justiça deveria ser provada nos limites desta existência.
Tento delimitar os espaços de um e outro grupo para efeito de compreensão, embora todos saibam que no concreto da vida, muitas vezes as coisas são bem misturadas e bem pouco claras.
Guardando a distinção e as ressalvas, cada tendência entendia os gestos de Jesus e a herança cristã de uma maneira e em conseqüência se constituía em igreja – comunidade de fiéis. Sempre houve muitas igrejas e seguimos esta inspiração múltipla até os dias de hoje. Cada igreja e nela talvez cada pessoa entende e vive a tradição cristã de um jeito particular. São os mesmos homens e mulheres que constroem cidades, aram a terra, plantam e colhem, fazem comércio e fabricam sempre novas coisas. São eles, os mesmos que se organizam em igrejas ou dizem fazer parte de uma Igreja. São os mesmos que constroem impérios e financiam catedrais. Os mesmos que constroem leprosários e acolhem crianças abandonadas. E entre eles há os mesmos conflitos de interesses e de políticas e de compreensões do mundo. Entre eles há os Ananias e as Safiras, conhecidos personagens dos Atos dos Apóstolos, como há Marias e Pedros. Uns defendem Roma, outros Jerusalém, outros Antioquia e outros Genebra. Uns defendem o Templo e outros a casa. Tudo foi diferente no passado, mas o fundo conflitual é o mesmo no presente. A humanidade muda e é sempre a mesma. Por isso, muitas vezes quando usamos a expressão “nova igreja” é preciso sempre colocar uma interrogação no final da frase. É esta pontuação talvez insignificante, a única capaz de despertar em nós um senso crítico e uma volta à sempre velha condição humana. É ela que nos acorda criticamente para que reflitamos sobre o que queremos e o que podemos viver.
Quando dizemos “igreja nova” ou “nova forma de igreja” é preciso sempre perguntar: é nova em relação a que? Que novidade é apresentada? Em que esta novidade afeta a vida? E vida de quem?
Cada reformador ou cada líder de algum novo movimento religioso dentro do Cristianismo sempre pretendeu a novidade. Esta novidade significou e significa até hoje a crença de que é possível restaurarmos a mais pura tradição do Evangelho de Jesus. Cada um pretende ter a verdade ou a mais pura versão do Cristianismo. Cada um pretende ser o mais próximo discípulo ou o mais fiel imitador do Cristo. Ninguém é isento desta espécie de competição entre os “bons”. Sim os “bons” competem entre si e cada um quer o primeiro lugar ou quer se sentar à direita ou à esquerda de Jesus. Mas a concorrência parece inútil, segundo certa leitura da tradição de Jesus. Ele parece não admitir comparações e competições. Para Jesus não importava em nome de quem se fazia o bem. E, a novidade para Jesus estava inscrita nos gestos e acontecimentos simples da vida. Nem Marta e nem Maria, nem os filhos de Zebedeu, nem Pedro e nem Paulo, nem Lutero e nem o papa foram realmente “a novidade”. Todos têm a marca de Caím e a docilidade de Abel. Todos podem ser fratricidas e misericordiosos. Todos podem jogar pedras uns nos outros ou podem defender os agredidos e caluniados. Todos podem conviver com Jesus em fraterna amizade e entregá-lo aos algozes do Templo e do Império. Estranhamente continuamos na Torre de Babel, apesar de termos anunciado a vinda do Espírito do Amor no meio de nós.
Uns clamam pelo Deus altíssimo, outros acolhem o silencio interior da falta de respostas. Para uns, os missionários televisivos fazem o bem curando e expulsando demônios em nome de Jesus. Tornaram-se a nova Igreja de Jesus, com multidões esperando por milagres e acreditando num poder que vem do alto. Para outros, os missionários alienam o povo e impedem o avanço das lutas sociais por justiça. Tudo depende do ponto de vista a partir do qual analisamos a história e do lugar onde nos situamos. Mas, apesar disso, é preciso admitir que os fatos hoje são diferentes daqueles do passado; entretanto, a mesma música de nossa finitude se faz ouvir, nos diferentes ritmos e cadências.
Por isso vale retirarmo-nos para nosso quarto e, fechando a porta devagarzinho sem fazer ruído algum, perguntar-nos em silêncio: o que estamos de fato buscando com a ânsia de viver novidades?
Não estaríamos cansados do “velho homem” ou da “velha mulher” que somos ou de nossa imaginação, sempre buscando ideais inatingíveis, sempre sonhando com mundos impossíveis? Não estaríamos cansados da mesmice de nossas teorias, dos aparentes cardápios novos, do dinheiro que rola em tudo, fazendo às vezes de maná celeste? Não estaríamos necessitados de mudar o tempo dos relógios do coração, restabelecer jeitos simples de viver, escutar as pessoas, degustar de suas falas e diferenças? Não estaríamos necessitados de descobrir de outro jeito os rostos de nossos amigos e vizinhos?
Um dia na calçada de minha casa duas mulheres conversavam. Eu estava sentada na varandinha tentando ler e ao mesmo tempo escutar a animada conversa.
- Dona Isabel, imagine que roubaram a farmácia da esquina? Levaram todo o dinheiro da semana!
- Dona Maria respondeu: “Eu quero é novidade!”.
Então Dona Isabel lhe disse: “A novidade é que minha primeira neta nasceu hoje cedo”.
“Ah! Isto sim é novidade boa”, disse-lhe Dona Maria, abrindo-se para um abraço afetuoso.
E com a criança o mundo começou de novo, como dizem os poetas e os místicos... E com ela recomeçam as novidades de nossas lutas e esperanças.
* Filósofa e teóloga, feminista e escritora
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Ivone Gebara
A BANCARROTA AO CORRER DOS TEMPOS
1ª Parte – Wall Street
por
J. A. Horta da Silva
Ex-Director do INETI (Coimbra)
(horta.silva@sapo.pt
A União Europeia está doente e o eixo franco-alemão começa a dar mostras de embaraço. As primeiras equimoses começaram por eclodir na Irlanda, até então considerada um membro saudável. O mal estendeu-se, de modo exacerbado, à Grécia, a Portugal e a outros países que iam tomando, no segredo dos gabinetes, consciência dos graves problemas financeiros em que estavam mergulhados. As doenças da União Europeia só adquiriram contornos visíveis quando da falência do Lehman Brothers – quarto maior banco de investimento dos EUA – que a Administração Americana não quis salvar. Agora, chegou a vez do Dexia, banco franco-belga, que detém uma parte substancial da dívida Grega, razão pela qual Sarkozy está à beira de um ataque de nervos e Angela Merkel menos segura de si. Em 2008, o Dexia já recebera ajuda financeira dos governos da Bélgica, França e Luxemburgo e também de accionistas.
Enquanto o pensamento dominante atribui a situação da Grécia a gestão danosa camuflada por intrujices nas contas públicas – facto que também acontece com Portugal – há quem considere o mal grego dependente de razões de política externa. Karl Muller culpa as agências de notação que favorecem a especulação e aponta o dedo à agressividade da política de Berlim, que acusa de enriquecer a Alemanha em detrimento dos pequenos parceiros da zona euro. Não obstante ser verdade que o modo de actuar dos ex-líderes democratas cristãos alemães e dos socialistas franceses era bem mais social do que a dos actuais dirigentes neoliberais, é difícil acreditar que a Alemanha esteja a enriquecer à custa dos parceiros frágeis da UE, tendo como objectivo o domínio do Banco Central Europeu. Por outro lado, quando o euro entrou em vigor, os BRIC não passavam de embriões. Os Estados Unidos da América tinham começado a proceder à transferência de tecnologia para a China em troca de mão-de-obra barata, decisão que veio a verificar-se fatal no âmbito da submissão da economia e da política às finanças, esquecido que estava o crash da bolsa de Wall Street, em 21 de Outubro de 1929.
Um ano antes, o presidente americano Herbert Hoover dizia: «estamos mais próximos do triunfo sobre a pobreza do que qualquer outro país». O valor das acções dava passos de gigante em relação à economia. Em “Salve-se Quem Puder”, o historiador Edward Chancellor afirmou «os especuladores tornaram-se surdos aos alertas». Alimentavam boatos sobre riquezas ganhas no mercado por gente humilde. Em Setembro, o índice Dow Jones registrou o pico do ano, a bolsa entrou em fervilhação e depois em queda vertiginosa. O primeiro impacto atingiu cerca de 1,2 milhões de pessoas e, em dois anos, o PIB caiu 60%. Em 1931, faliram mais bancos que durante toda a década de vinte. A falta de dinheiro atingiu transversalmente todo o sistema produtivo. Muita gente optou pelo suicídio e, para se sustentarem, alguns milionários acabaram a lavar pratos. A popularidade do presidente Hoover despenhou-se, arrastando a auto-estima da nação. Os americanos viraram pedintes. Filas por um prato de sopa, um biscate e tanta coisa mais. Nos arredores das cidades, amontoavam-se favelas de lata e cartão e as pessoas esgaravatavam em lixeiras à procura de sustento e muitas pereceram de fome. Os agricultores vagueavam e, nas fazendas abandonadas os restos do gado eram pasto para necrófagos.
Em 1932, uma comissão nomeada para apurar as razões da falência de Wall Street realçou a existência de remunerações excessivas e de fraudes inimagináveis. Finalmente, com um discurso que incentivava a intervenção estatal, o democrata Franklin Roosevelt foi eleito presidente em 1933, apresentando um pacote de medidas para salvar a nação pela via da economia. Caricatamente, os Estados Unidos da América só voltariam a ser gente com a II Guerra Mundial, enquanto a Europa e os países do Pacífico levaram mais de uma década para ressurgir das cinzas.
Continua
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J. A. Horta da Silva
AVANÇA MAIS PARA O FUNDO!
Jaime Sidônio
(psjaime7@hotmail.com)
(psjaime7@hotmail.com)
O Evangelho nos reporta ao primeiro encontro de Jesus com aqueles que depois seriam seus discípulos missionários, seus apóstolos. O encontro se dá à beira do mar da Galiléia, depois de uma noite de trabalho inútil, e uma pescaria sem êxito. Jesus subiu num dos barcos, o de Simão, e de lá ensinava às multidões. Depois disso, Jesus mandou que lançassem as redes mais para o fundo. Pedro criou certa resistência e falou para Jesus: “Mestre, trabalhamos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, pela tua palavra, lançarei as redes” (Lc 5,5). E aconteceu o milagre. A pesca foi extraordinária. Tamanha foi a quantidade de peixes que as redes se rompiam. Ao final da experiência Jesus disse a Simão: “Não tenhas medo! De agora em diante serás pescador de homens!” (Lc 5,10). Depois de levarem as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus.
Anos depois, acontece uma cena parecida. Jesus havia ressuscitado, mas os discípulos não tinham ainda um programa de vida. Estavam como que perdidos... Para não ficarem “de bobeira”, Pedro tomou a iniciativa dizendo: “eu vou pescar”! E os outros aderindo à idéia, disseram: “vamos também contigo”, e o acompanharam.
Ao amanhecer, Jesus ressuscitado aparece. Haviam tentado a noite toda e não pescaram nada. Nenhum peixe sequer. O Ressuscitado entra em ação como havia feito anos antes, quando mal eles o conheciam. A orientação foi a mesma: “Avança mais para o fundo. Lançai a rede à direita do barco e achareis”. A pesca foi novamente maravilhosa.
Trata-se de um momento de intimidade. No mesmo lugar do primeiro encontro e em circunstâncias parecidas. Sentem, experimentam profundamente a presença de Jesus. O Filho de Deus providenciou pão e acendeu o fogo. Pediu um peixe para assar. Juntos fizeram uma refeição improvisada. Ninguém ousava perguntar; quem és tu? Experimentavam, porém, uma alegria incontida. O silêncio era preenchido pela presença de Jesus.
A Páscoa não é um dia, mas cada dia. E quando realmente a celebramos, vivemos a vida nova da presença de Cristo em nós. Sentimos sua presença suave e serena.
Cristo está presente, vivo e ressuscitado! E ele está a nos dizer: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Abrimos a porta ou ficaremos privados de sua companhia.
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Jaime Sidônio
TURMA DO CANAVIAL
José de Alencar Godinho Guimarães (*)
Eu não poderia deixar de registrar aqui o dia-a dia de uma turma que quando bem entende, e são bem entendidos pelo que percebo, faz sua rodada de amigos e biriteiros no “Banco da Praça”, patrimônio zelado por eles à sombra de uma árvore frondosa bem no centro de Boa Esperança.
Autodenominam-se a “Turma do Canavial” simplesmente pelo fato de seus integrantes serem amantes da maldita cachaça. E apesar das brigas eventuais, são amigos inseparáveis de copo e de trabalho.
São eles:
Candinho ou Garcia – ex-jogador de muito talento, filho da comunidade de Arapixuna e compadre do Osvaldo de Andrade, filho do Agapito.
Flau – ex-jogador fenomenal e irmão do Candinho.
Neto – tem um braço quebrado que é resultado das intermináveis bebedeiras.
Aroldão ou Marupá – dono de um chute poderoso da canhota.
Aracu ou Peixe – está regenerado e não bebe mais.
Valeco ou Manobinta – também está um pouco afastado da turma.
Borrodogue ou Borró – esse vez ou outra bate num amigo.
Emanuel – o caçula da equipe.
Estão aí todos os integrantes fiéis da “Turma do Canavial”, mas têm aqueles que, por pura curiosidade, também se juntam à equipe e em meio a muita conversa ajudam a secar litros e litros de aguardente destilada.
P.S: Apesar de estarem sempre com umas na cabeça, eles nunca se negam a cavar uma sepultura, desde que não falte o incentivo líquido com teor alcoólico.
(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA
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SOMOS SERES VULNERÁVEIS
Leo Pessini *
O ser humano é uma unidade orgânica e estrutural que goza de uma integridade corpórea, psicológica, social e espiritual. É um ser pluridimensional e inter-relacional porque tem distintas dimensões e, além disso, estabelece vínculos diferentes com seu entorno e seus semelhantes. No entanto, essa unidade estrutural e relacional não é absoluta e inalterável, pois é constantemente ameaçada por elementos próprios e alheios. A enfermidade, a dor, a exclusão, a marginalização, o abandono são algumas dessas ameaças. Além do mais, o sofrimento, o envelhecimento e a morte constituem-se questões-chave que clamam por significação e sentido.
O filósofo Emmanuel Lévinas define essa condição de vulnerabilidade como sendo “a exposição ao ultraje e ao ferimento”. Estamos expostos ao ultraje, ou seja, ao insulto, à agressão, à humilhação; além disso, podemos ser feridos com muita facilidade, não apenas fisicamente, mas também afetiva e espiritualmente. Estamos expostos, e isso significa que devemos nos proteger, que devemos construir um abrigo, uma proteção perante o entorno hostil que tenta quebrar nossa unidade psicossomática.
O ser humano é, portanto, um ser radicalmente vulnerável. Vulnerabilidade significa fragilidade, precariedade, possibilidade de ser ferido. Estamos constantemente expostos a múltiplos perigos: o perigo de adoecer, de ser agredido, de fracassar, de morrer. Enfim, viver humanamente significa viver sabiamente na vulnerabilidade.
Instintivamente nos danos conta de nossa vulnerabilidade muito antes de começar a pensar filosoficamente a realidade. Protegemo-nos do frio, cuidamos de nossa alimentação, preocupamo-nos com nossa segurança pessoal em situações de violência, nos abrigamos na sombra quando o sol forte queima.
Se somos vulneráveis, precisamos estar conscientes de nossa situação, ou seja, podemos pensar, refletir acerca dela, buscar soluções e saídas para combater a doença, o cansaço ou a insegurança, por exemplo.
*Camiliano, pós graduado em Clinical Pastoral Education pelo S. Lukes's Medical Center (Milwaukee, EUA). Professor doutor no programa de mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo (SP) e autor de inúmeras obras na área da bioética, dentre as quais Bioética: um grito por dignidade de viver e co-organizador de Buscar sentido e plenitude de vida: bioética, saúde e espiritualidade.
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Leo Pessini
NAS RUAS
Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)
Recanto de perdição
Também de amores mil
Revolução de passantes
Balcão de trovadores
Porta sempre aberta
Na procura de encantos,
Nos olhares cegos que se cruzam
Seres que se batem
Bocas que não se falam
Mãos que não se tocam
Dias que nascem
Noites que chegam
Na libertação do espaço
Para outro corpo passar.
(alines.veras@hotmail.com)
Recanto de perdição
Também de amores mil
Revolução de passantes
Balcão de trovadores
Porta sempre aberta
Na procura de encantos,
Nos olhares cegos que se cruzam
Seres que se batem
Bocas que não se falam
Mãos que não se tocam
Dias que nascem
Noites que chegam
Na libertação do espaço
Para outro corpo passar.
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Malu Nogueira
ENTREVISTA DADA À REVISTA ITALIANA JESUS *
Marcelo Barros
http://marcelobarros.com
(irmarcelobarros@uol.com)
“As raízes de todos os seres vivos estão entrelaçadas. Quando uma árvore é abatida, cai uma estrela do céu. Antes de cortar uma árvore, se deve sempre pedir permissão ao guardião das estrelas”. Estas são as palavras de Chank´in, ancião indígena lacandon, que o teólogo da libertação, o brasileiro Marcelo Barros cita no seu último livro traduzido na Itália: Ecologia e espiritualidade. Nesse livro, a teologia se tona poesia, cântico e hino. E também pranto. Mas principalmente esperança e alegria. É um pensamento vivo e vibrante, capaz de dialogar de forma rigorosa com nossa razão e, ao mesmo tempo, capaz de penetrar no nosso coração e no espírito e falar com a linguagem do amor, da empatia, da comunhão e cooperação sinérgica. “Fazer teologia” – nos mostra Marcelo Barros - não significa assolutamente subir em uma cátedra ou sentar em um banco ou ficar fechado na biblioteca, longe da vida real, mas caminhar juntos no mundo, com alegria e prazer.
Convidado por numerosas associações italianas a apresentar esse livro, Marcelo Barros percorreu recentemente várias regiões da Itália. O seu pensamento e o seu sentir teológico, assim como o de vários outros companheiros, hoje, se concentra em um tema de importância vital para toda a humanidade e para cada pessoa particularmente: a ecologia.
Mas a ecologia – assinala o teólogo do Recife – não significa só o estudo do ambiente ou o respeito da natureza. No sentido mais profundo e como a entende a teologia da libertação, é ecologia o dar respostas às questões sobre o sentido da vida, é ocupar-se da relação entre todas as formas de vida, é o encontro entre a ética, a filosofia, a espiritualidade e o compromisso ambientalista. Enfim, se trata de desenvolver a união de uma intensa experiência individual de contato com a natureza e uma postura crítica e de compromisso na luta pela justiça. Ecologia é a própria forma de viver, pensar o trabalho, o estilo de vida de todo o planeta. Quando falamos de ecologia, pensamos imediatamente no ambiente, mas a ecologia ambiental supõe uma ecologia social, uma sociedade inclusiva, que assuma o fato de que precisa de todos os seus componentes, principalmente daqueles que um sistema social fundado sobre o dinheiro tem marginalizado e excluído. Assim, uma sociedade que considera pessoas como extra-comunitárias, é ela, a própria sociedade que se coloca, paradoxalmente, como “extra-comunitaria”, isto é, ela se coloca fora da comunidade humana que é única e una.
Neste contexto, o que você compreende por espiritualidade?
E’ a capacidade de discernir o Espírito presente em tudo o que existe. É a energia de relação cósmica da qual todos os seres são expressão e que as religiões reconhecem como o amor divino na base dessa grande comunidade que é o universo. Há alguns anos, o grande teólogo Raimon Panikkar inventou o termo ‘cosmoteandrico’. Nós não estamos habituados a unir a espiritualidade e a contemplação com a natureza, com os elementos do firmamento, a terra e a água. Ao contrário, no tempo da colônia, quando os missionários espanhóis quiseram construir a catedral de Cuernavaca no México, tiveram de fazer ao lado uma capela sem teto para os índios, porque estes não podiam orar a Deus sem ver ao menos sobre eles o céu e as estrelas.
Você é um importante membro da teologia da libertação. Um dos “históricos”. Poderia dizer como está hoje esta teologia na América Latina e, em particular, no Brasil?
Nos últimos anos, a Teologia da libertação assumiu uma perspectiva mais mundial. Desde 2003, a Associação ecumênica dos teólogos e teólogas do terceiro mundo (Asett) participa em diversos fóruns mundiais de teólogos/as da libertação, onde se enfrentam temas de amplidão planetária a partir da fé ecumênica e das Escrituras. Hoje, a Teologia da libertação é muito mais ampla e compreende a Teologia feminista, a Ecoteologia, as Teologias indígenas, teologia negras e diversas outras teologias contextuais. No Brasil, depois dos anos 80, a Teologia da libertação manteve o seu compromisso com as comunidades de base, mas se abriu também aos movimentos populares, eclesiais e não eclesiais, como, por exemplo, os movimentos bolivarianos, não eclesiais, mas nos quais estamos inseridos.
Quais são os pontos principais em comum entre a Teologia da libertação e o movimento bolivariano?
O ponto comum fundamental é a opção pelos mais empobrecidos do continente, especialmente os índios e negros. Um outro é a opção pela educação como caminho de libertação, não através da luta armada, mas pelo caminho das eleições normais. Este é um aspecto importante. Por “educação” não compreendemos só a escolarização, que é muito importante e que hoje devemos democratizar. Nos países onde o movimento bolivariano conseguiu chegar ao governo, este processo de democratização está funcionando bem: há mais de três anos, a Venezuela foi declarada pela UNESCO, um país livre de analfabetismo - No Brasil, nós ainda temos 15% de adultos analfabetos. É demais. Mas, devemos compreender educação no sentido mais amplo, como o processo que ajuda as pessoas a se tornarem independentes e a terem um olhar crítico. Paulo Freire dizia que ‘analfabeto é a pessoa que não pode falar, a quem não são reconhecidos os direitos à cidadania, à justiça e à paz’. Também a Teologia feminista foi assumida pela Teologia da libertação. Como homem, eu me considero um teólogo feminista. Estou convencido de que o maior pecado, o mais estrutural dessa sociedade é o sistema patriarcal, do qual nasce também o patriarcalismo religioso eclesial’ imposto em nome da Palavra de Deus.
Como teólogo da libertação, o que pensa do novo Código florestal recentemente proposto e aprovado pela Câmara dos deputados brasileiros que autoriza um maior desflorestamento da Amazônia, com todas as desastrosas conseqüências que isso terá não só para o Brasil, mas para todo o planeta?
É claro que penso que é uma lei péssima. Foi proposta por Aldo Rebelo, que se diz comunista, mas, na realidade, colocou-se a serviço dos latifundiários. No Brasil, essa lei suscitou muitos debates e permitiu crimes ambientais. Se a presidente Dilma Rousseff assinar esta lei (e atualmente, não sei ainda o que ela vai decidir), só nos estados do norte do Brasil, essa decisão causará a perda de mais ou menos 71 milhões de hectares de floresta virgem e a perda da metade das áreas atualmente ainda protegidas. Em nome do chamado ‘capitalismo produtivo’ e dos interesses milionários das multinacionais e dos fazendeiros, a desmatação da Amazônia privará o planeta de um dos seus pulmões mais importantes, representará uma verdadeira tragédia para quatro milhões de famílias que serão expulsas de suas terras (imagine que 1% dos proprietários rurais é dono de quase 50% do território brasileiro), as pequenas e médias propriedades serão diminuídas e se colocará em risco a maior e mais rica rede hídrica da Terra (estima-se que no solo brasilerio, estejam 12% de todas as reservas de água doce do mundo). Por outro lado, no Brasil, estão construindo quase vinte hidro-elétricas no sul e outras no norte. É horrrível. Falam em necessidade energética, mas muitos técnicos mostram que seria mais útil e econômicos projetos menores. Como cristão e teólogo, apoio as organizações dos lavradores e dos indos. Todos os movimentos do campo são contrários a essa lei e os fazendeiros são todos a favor. Então, eu já sei de que parte devo me colocar.
Em seus escritos, você traçou um paralelo interessante e original entre o mundo natural, mondo humano e mundo divino. Assim como na natureza, encontramos a biodiversidade – assim a ‘biodiversidade’ deveria ser o princípio segundo o qual se deve instaurar relações corretas entre os seres humanos, entre os povos e com o próprio mistério de Deus. Você pode esclarecer melhor essa idéia?
Em um recente artigo na revista internacional de teologia, Concilium, falei da ‘biodiversidade’ existente no próprio Deus, uma espécie de hiero-diversidade”. Assim como a vida só existe se houver uma comunhão (não há vida sem conexão das espécies) e quando não há diversidade na natureza, se criam desequilíbrios graves, assim não existe “biodiversidade” entre os seres humanos na sociedade, isto é, interdependência, se criam mal estar social, incompreensão, conflito, injustiça. A própria realidade divina,la ‘estrutura’, por assim dizer, da Vida divina se revela assim: como hierodiversidade. As religiões e as tradições espirituais se fundamentam sobre um só aspecto ou sobre alguns aspectos do Mistério de Deus, mas nenhuma delas consegue chegar a essência completa do divino. Só pelo diálogo e pela acolhida recíproca de cada uma das revelações particulares que as as diversas religiões propõem, só assim, o ser humano pode aproximar-se mais desse mistério divino.
Então, isso significa que todas as religiões são iguais, uma vale exatamente o mesmo que a outra? Nessa perspectiva, não se cai em um relativismo religioso que ensina que qualquer coisa vale?
Em diversas ocasiões, o Dalai Lama tem declarado que a melhor religião, a mais verdadeira é aquela que lhe faz bem, ou seja, aquela que ajuda você a viver melhor a compaixão e a solidariedade. Sem dúvida, isso é uma simplificação. Mas, isso significa que não existe uma religião objetivamente melhor e outra pior. Todas as religiões, enquanto respostas humanas à revelação do amor divino são testemunhas verdadeiras e sinceras de uma particular e pecular revelação divina. Por opção de fé, sou cristão católico, mas como cristão quero aprender sempre das outras religiões.
Como você reage quando se usa a palavra ‘tolerância’ aplicada à religião?
É uma palavra perigosa, em dois sentidos. Normalmente a pessoa tolera o que não pode evitar. Tolerar significa suportar. Nesta linha de compreensão, tolerância não pode ser o modelo de relação entre as religiões. Se, diferentemente, tolerância se compreende como uma atitude de colaboração, respeito e acolhimento recíproco e como colaboração fraterna para enfrentar juntos as grandes causas humanitárias, aí sim, é certo que se pode usar o termo. Em 1992, a Assembléia do Povo de Deus em Quito, no Equador, elaborou o conceito de ‘macro-ecumenismo’, alargando a espiritualidade ecumênica que até então só se usava para o ecumenismo entre Igrejas cristãs. Na América Latina, queremos que as Igrejas cooperem com outros grupos religiosos no enfrentamento dos enormes desafios que tocam a todos os povos do continente. Macro-ecumenismo não visa uma unificação das religiões, assim como o ecumenismo não pretende que haja uma só Igreja cristã. O que se deseja é a comunhão e praticamente a cooperação entre elas.
Você acha que o Concílio Vaticano II esteja superado? As sociedades, o progresso tecnológico, tudo isso está imprimindo à vida atual uma velocidade nunca vista e colocando novos desafios. Diante disso, você concorda com o grupo que sugere que a Igreja Católica está precisando de um novo Concílio?
O Concílio Vaticano II não foi somente a assembléia dos bispos que se reuniu há 50 anos, mas o Concílio é também a experiência concreta dos bispos e das Igrejas e todo o processo que sucedeu ao Concílio na forma de receber e pôr em prática os documentos do Concílio. Houve um primeiro momento de entusiasmo, acolhimento e de grande fermento (sinais dos tempos como o surgimento das comunidades eclesiais de base, a promoção do laicato, abertura aos problemas do mundo). Parecia que, ali, a Igreja conseguiu dar um salto em seu caminho. Depois, a Cúria romana conseguiu imprimir um bloqueio e freou o dinamismo que se tinha iniciado na Igreja. Hoje, a Cúria interpreta o Vaticano II de modo que impeça qualquer mudança. O processo que antes aconteceu de recepção aberta dos documentos conciliares foi sufocado. Penso que João Paulo II comandou este movimento de conservadorismo. Ele fez isso, enquanto mostrava certa abertura ao mundo e, em alguns aspectos, boa capacidade de escuta. Hoje, ao contrário, do ponto de vista teológico e ecumênico, estamos vivendo um inverno, um momento de asfixia.
Conforme você pensa: do que depende este “inverno’ da Igreja Católica?
Esse inverno é fruo do medo, medo do mundo, da vida, da sexualidade, do comunismo, embora, hoje, os riscos sejam outros.
Você é natural da diocese de Olinda e Recife. Conheceu bem e foi um dos colaboradores de Dom Hélder Câmara que todos recordam como um dos bispos mais amados do mundo. O que ainda resta, hoje, da herança de Dom Helder Câmara?
Se você quer saber no Recife, depois de um longo e rigoroso inverno, devido à linha do arcebispo anterior que foi o sucessor de Dom Hélder e fez questão de eliminar toda a linha pastoral do seu antecessor, atualmente, ou seja há mais de um ano, a arquidiocese de Olinda e Recife recebeu um novo arcebispo e as coisas melhoraram. Dom Fernando Saburido é um homem de grande humanidade, aberto ao diálogo. Não toma posições fortes, mas é próximo às pessoas e isso é o mais importante.
Laura Ferrari
* Mantua, 24 de setembro de 2011
Obs: Se quer ver a versão original em italiano, acesse o blog do autor http://www.marcelobarros.com/search/label/entrevistas
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DEUS ESTÁ DE VOLTA
Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora do departamento de teologia da PUC-Rio *
Não chega a ser uma novidade o fato de estarmos assistindo, já há algum tempo, a certo "reencantamento do mundo", isto é, a uma inversão do processo de secularização deslanchado com a modernidade e sua crise. Essa tendência começou a visibilizar-se com a nova consciência religiosa trazida pela Nova Era, o esoterismo, o culto das pirâmides de cristal, o I-Ching, o tarô, o retorno dos anjos e duendes. A razão banida permanecia oculta pelo deslumbramento com um além povoado de deuses maiores e menores, porém fluidos e sem consistência. E o resgate da transcendência sem absolutos expressou-se até mesmo, mais recentemente, em livros de grande tiragem que falavam sobre meninos bruxos e anéis mágicos.
A ideia da incompatibilidade de princípio da secularização com a religião entra decididamente em declínio. E os sintomas do que poderíamos chamar de uma volta de Deus aparecem como sinais visíveis de novos tempos. “Aquilo que muitos acreditavam que destruiria a religião – a tecnologia, a ciência, a democracia, a razão e os mercados –, tudo isso está se combinando para fazê-la ficar mais forte”, escreveram John Micklethwait e Adrian Wooldridge, ambos jornalistas da revista britânica The Economist, no livro “God is back”. Para muitos e bem concretamente para os jovens, como diz o título do livro, Deus está de volta.
Os jovens são religiosos. Não como seus pais ou avós, mas de outra maneira, própria, fazendo uma nova síntese entre a experiência da fé e sua expressão. E a internet é um dos recursos que mais intervêm na sede de transcendência do jovem que vai para diante do computador buscar interlocução para seus anseios espirituais.
A modernidade, com efeito, significa uma humanização do divino, a ascensão irreversível da secularidade. Foi um extraordinário progresso para o espírito humano, porque permitiu ao homem, enfim, pensar por si mesmo. Mas a modernidade também comporta um movimento oposto, que eleva e diviniza o humano. A humanização do divino implica o fim das transcendências "verticais", autoritárias, situadas fora e acima do sujeito. Nesse sentido, a modernidade é o reino da imanência.
No entanto, hoje se percebe ser possível, também, nas entranhas da imanência - da razão, do conhecimento e da ciência - pensar algo que a transborda, que a extravasa e a faz autotranscender-se. A força motriz dessa nova transcendência é o amor, que leva os seres humanos a ultrapassar sua interioridade solitária para alcançar o Outro e com ele entrar em relação.
Tal experiência e tal atitude não significam o banimento da razão; ao contrário, dão à ciência estatuto pleno de cidadania quando se trata de pensar esse Deus que volta a ser elemento constitutivo do conhecimento e do pensar humanos. A constatação da volta de Deus traduz, por outro lado, a certeza de que nenhuma sociedade pode sobreviver sem a religião, já que a maioria dos homens considera insatisfatórias as respostas dadas pela ciência às perguntas existenciais sobre a vida e a morte.
Como impulso utópico e como consciência vigilante dos limites, a fé e sua expressão religiosa têm hoje um lugar assegurado na sociedade do conhecimento e na comunidade científica. Deus está de volta e muito concretamente ali onde menos se esperava que estivesse: entre as novas gerações, filhas da ciência e da técnica. É preciso abrir os ouvidos para entender como esses novos crentes percebem o sujeito maior de sua crença.
* Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.
Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
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PROJEÇÃO E REFLEXÃO V
Maria Inez do Espírito Santo
Olhar para Fora e Olhar para Dentro
Continuando a reflexão sobre a possibilidade de reconstrução, lembrei-me do excelente filme “A Vida dos Outros”, ainda em cartaz, no Rio.
Súbito me veio a conecção entre as personagens dos dois filmes: a menina de “Desejo e Reparação” e o policial de “A Vida dos Outros”. Nos dois, o voyerismo os faz cativos. Nos dois, a possibilidade de destruição do outro. E, com isso evidentemente, nos dois, o risco da própria destruição.
A diferença entre as duas situações se estabelece exatamente porque o policial, a um determinado momento, escolhe libertar o invejado e libertar-se a si próprio do poder destrutivo da inveja que sente. Optando pelo melhor aspecto da admiração, ao invés de destruir, ele se desconstrói e, a partir dali, consegue se reconstruir, livre internamente, ainda que submetido a pressões externas.
Nos dois filmes aparece o fato de haver um livro que narra o passado.
Em “A Vida dos Outros” o autor do livro reconhece publicamente, através de um agradecimento em dedicatória simples, mas decisiva, na edição que publica, a grandeza do homem que optou por salvar-lhe a vida, abrindo mão de ser uma farsa poderosa, para tornar-se, no anonimato, um verdadeiro ser humano.
Em “Desejo e Reparação” o voyerismo da menina a aprisiona de tal forma que a impede de se descolar do objeto de admiração (a irmã), levando-a a precisar destruí-lo e a destruir-se também, conseqüentemente, aprisionada que se mantém. Até porque a menina é tão somente a ponta do iceberg de um grupo familiar adoecido, que vive uma vida de simulacro, numa aristocracia decadente, pretensamente liberal, mas hipócrita, falsamente moralista e preconceituosa.
Voltando à questão de se a literatura pode vir a ser um instrumento de reparação, “A Vida dos Outros” me leva a confirmar minha opinião de que não é de reparação que se trata. Naquele filme, o que o autor do livro narra é a verdadeira história, sem precisar inventar um final menos cruel, que garanta a ilusão de felicidade a qualquer dos envolvidos no drama ocorrido. E ele o faz, possivelmente como tentativa de reconstrução de valores, após um tempo em que, a destruição real do muro de Berlim, significou a própria desconstrução de uma Alemanha esquizofrênica, e o início de um caminho de construção de uma nova identidade nacional.
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