segunda-feira, 26 de setembro de 2011

RECITAL CAMINHANDO PELO MUNDO

Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


Recital realizado em junho de 2010 na Estação Recife no evento estações das letras da UBE/PE NA ESTAÇÃO RECIFE


Caminhando pelo mundo é a história de uma pessoa que olha o mundo e sente a INTENSA AUSÊNCIA da cidade grande, onde as pessoas andam na multidão e mal se vêem. A pessoa também sente uma enorme dificuldade em conviver nesse mundo porque acredita que as pessoas falam o que sentem e expressam as verdades de seu coração... Mas após um tempo, ela percebe que ninguém é por demais verdadeiro, todos usam máscaras para conviver e vem um espanto e desgosto de observar essa dura realidade. E que também ela é assim! E faz refletir que nada há de errado. A pessoa se depara com sua própria máscara também, mas tem que haver uma forma melhor de conviver e em meio a esse dilema, ela sente que o que falta mesmo na convivência entre as pessoas é a GENTILEZA.
Por isso ela canta com uma certa tristeza, o desgosto da contradição do que lhe ensinaram em casa e não encontra na rua... ”apagaram tudo, pintaram tudo de cinza..”

Inconformada com esse modo de conviver, a pessoa encontra uma resposta em algo maior... ela não esqueceu o que lhe ensinaram... não pode ser possível que o mundo esteja assim tão sem solidariedade! Deve haver o bem acima de qualquer coisa! “Se a semeadura foi doce, mansa, verdadeira e pura e pelo campos da vida, aprendeste sempre a cultivar o bem... o inverno passará e as flores da primavera colherás aqui e além.” Esse é o canto que se deve entoar pelo mundo e vai a pessoa entregando as flores que tem na alma. E em plena Estação Recife ela sente pessoas parando para escutar e algumas sentam para receber aquelas flores...



Assim a pessoa diz as outras que lhe escutam: há ESPERANÇA! E que sonhos voltam para quem acredita neles, então vai dar certo!!!!
E o som de sonhos realizados é uma canção celta que vem com sons de violinos imaginários e nas asas da imaginação que nos fazem recordar as nossas mais puras lembranças trazidas pela FADAS!

O recital caminhando pelo mundo foi realizado na Estação Recife do Metrorec, no Café São Braz do Paço Alfândega e na oficina Dizer o poema do Sesc de Santa Rita. Em todos os lugares a poeta sentiu uma enorme satisfação de deixar uma energia alegre.



Obs: Imagens enviadas pela autor

O VÁCUO SENTIMENTAL DE DIÓGENES DE SÍNOPE


Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Por cinco anos de dor constante
Retorcida no profundo abismo
Na concebida escuridão, antes,
Em outro tempo [No egoísmo!].

Jogando-me nas paredes e nos espinhos
Fugindo em desespero, na cólera,
Temendo o espelho. Longe de ser lúcido

Espelhos espinhos; longe de ter,
Longe de ser só, retorcido em si,
Distorcido em dó, vagando em que?
Destinado ao pó, solo em si.

_________________________________________


Tem uma história sobre os deuses gregos... Eles estavam entediados, então inventaram os serem humanos. Mas continuavam entediados, então inventaram o amor. Então já não estavam mais entediados, então decidiram tentar o amor para si mesmos. E, finalmente, inventaram o riso, para que pudessem suportar o amor.
Vendo que estavam sem saída, inventaram o tempo e a poesia. Tudo ia bem, até que um dia um deus poeta e com fama de paciente decepa seu próprio abraço, propositadamente. Ao ser questionado, ele responde: “Queria sentir em meu corpo uma dor maior do que a que sinto em meu coração”. Então, inventaram o cinismo.





...em sua canoa...


CauReb


Sozinha em sua canoa
Perdida no meio do mar
No balanço das ondas
Envolta na forte correnteza
Ela chora mais uma vez.

A escuridão à abraça...
E de cabeça baixa, ela apenas lamenta:

...é muito difícil remar contra a maré...

30/05/2011


Obs: Imagem enviada pela autora.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Magistrado Sergipano

C.Rebêlo Júnior *


          Uma das áreas do pensamento político que tem merecido profusa produção na reflexão dos estudiosos é aquela concernente aos direitos e liberdades qualificadas como fundamentais. Disto surge um arcabouço sistêmico-normativo, que pode ser nada mais nada menos que um adornado espectro cenográfico. Em outras palavras, a efetividade com que o chamado Estado Democrático de Direito brinda ao povo os direitos formalmente consagrados está distante das produções discursivas. Até se fala numa “petrificação” de parcelas normativas. Esse apodado “bloco de constitucionalidade”, lamentavelmente, se transforma em um clamor normativo anódino, dada sua precária ou insignificante eficácia em termos de atenção às grandes massas. Não falta quem o denuncie como um “contrabando normativo”. Nada mais passaria do que um elenco de velhos direitos decorrentes do pensamento jusnaturalista e agora envolvido em floreada nomenclatura.
          Cada unidade política soberana mantém sua peculiar engenharia política. A Constituição do Brasil entrega ao Supremo Tribunal Federal – STF a guarda precípua de si mesma. O STF integra o Poder Judiciário. Eis aí uma deferência que traz conseqüências de grande relevo. Inclusive, vem a lume a secular advertência de que “é o mais débil dos três departamentos do poder [...] e em perigo constante de ser dominado, atemorizado e influenciado [...]” (O Federalista).
          Essa fragilidade fez com que Montesquieu aportasse menção de que, entre os três poderes, o de julgar seria “em um certo modo, nulo”, ao invocar Públio.
          Séculos depois dessa advertência, as promessas não cumpridas da democracia mencionadas por Bobbio, entre outros, gera uma crise de legitimidade institucional nos órgãos integrantes da administração estatal. As frases democratistas já não passam de frases com vazio conteúdo de efetividade. O Estado de emergência, inclusive, é permanente.
          Por certo, o debate é amplo, mas, aqui e agora, com a vaga surgida no S T F, agrega-se um aporte específico, não sobre o mecanismo vigente de seleção, certamente questionável, mas sim, pelo espaço disponível de escolha de seus membros, sob tais parâmetros. Não se há de admitir que a indicação possa surgir a benefício de prebendários derivados de relações labirínticas com o poder ocasional. Dessas injunções não pode depender o guardião da constituição, sob pena de perder legitimidade. Como parte integrante do Poder Judiciário, com competências amplas de julgamentos, a indicação será funcional e estabilizadora se mantiver critérios de conhecimento claro e aberto ao povo, donde emana o poder. O profissional do julgamento em processos judiciais é o juiz.
          Neste diapasão, já escrevi em várias oportunidades que Sergipe dispõe de um nome à altura dessas exigências. Trata-se do Desembargador Federal Vladimir Souza Carvalho. Lembre-se que proclamo esse nome desde o tempo em que ele era Juiz Federal de primeira instância. Por certo, ao galgar a segunda, aprimoraram-se nele saber e experiência.
          Dificilmente, encontrar-se-ia, em termos de trajetória profissional, um nome com igual bagagem: servidor público no INSS e na Justiça Federal, Juiz de Direito, onde por delegação exerceu a Justiça Laboral, e, ainda, décadas de magistratura Federal.
          Portanto, como juiz, teve oportunidade de jurisdicionar nas Justiças Estadual, Trabalhista e Federal. Conhece-as longe lateque. Ao lado disto, sua produção intelectual como contista, historiador e jurista é nacionalmente reconhecida. Suponho que inexista operador jurídico que não se haja valido de uma de suas produções intelectuais para abeberar-se de lições e conceitos em sua faina profissional.
          Seu percurso de vida o revela de peito aberto ao povo, como um magistrado que decide com denodo, fiel às suas convicções de um bom e justo direito, sem entregar suas pena e toga ao temor do poder ou de grupos por mais poderosos que sejam. Se necessário, enfrenta-os com sua pena a prumo e em punho.
          Esta é a verdadeira conduta guardiã dos mais sublimes valores que devem conduzir a atividade estatal, em favor do povo e para o bem comum. A letra constitucional deixa de ser morta ou cênica. Häberle fala em constituição como cultura. A ser verdade, a cultura de bem julgar, como dever constitucional, sem constrições originárias espúrias, há que permear todo o tecido judiciário. A população dos espaços territoriais por onde judicou o Dr. Vladimir Souza Carvalho, conhece-o com a estatura afirmada.
          Seu nome extrapola a terra natal de Itabaiana e Sergipe, credenciado que é, nacionalmente, para integrar o tribunal supremo, como um experiente e sábio julgador por profissão, em honra às mais lídimas tradições dos juristas sergipanos.


* Professor – Universidade Federal de Sergipe
Juiz Federal.

LIBERDADE PARA PENSAR

Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com


Às vezes fico assombrada com a uniformidade de determinados discursos. Vivemos à sombra de um emaranhado de ideias e pontos de vista ditados por interesses que não conhecemos e não são os nossos. Não dá para confundir gestos e atitudes impulsivas com opiniões próprias.

Há uma diferença sensível entre o que de fato acontece na vida real e o que chega a nosso conhecimento via mídia. Aderimos um pouco sem sentir à opinião de um ou outro colunista que admiramos, pelo que sabemos dele e por suas ideias. Até aí, tudo bem. Mas é preciso cuidado com o efeito cumulativo desse processo. Acabamos nos condicionando a pensar pela cabeça dos outros, o que não se recomenda, por melhores que os outros sejam.

O risco da pressão que a mídia e as opiniões recorrentes exercem sobre nós é maior do que normalmente se imagina. Fica muito fácil pensar como todo mundo – afinal, por que ser diferente? Conheço pessoas que se escandalizam com posições discordantes daquelas da maioria que as cerca. Isso corresponde mais ou menos ao que se costuma chamar de senso comum. No entanto, o senso comum é um dos piores inimigos da liberdade de pensamento e do bom senso, justamente por ser um dos maiores responsáveis por essa cultura deficitária e desfalcada que predomina em nosso país.

Sem informação, com a pouca instrução que a escola nos garante e viajando nos universos da tevê e das revistas comerciais e alienadas que nos cercam, como juntar as peças para um raciocínio mais alerta? Como entender realmente os fatos, assumir uma atitude diante deles, ter uma opinião clara e definida?

Afinal, penso o pensamento de quem? Se é o meu, preciso ficar alerta para avaliar até que ponto a influência dos outros está me impedindo de pensar e agir de modo coerente com o que realmente desejo e espero da vida.



UM CANTINHO SÓ SEU

Dannie Oliveira www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


Ando sonhando com meu espaço particular...
Fico imaginando a mesa de centro da sala.
O guarda-roupa.
As xícaras com detalhe de florzinhas.
As panelas organizadas por tamanho no armário que combina com a geladeira e o fogão.
A estampa do tecido do sofá .
O puff laranjando no canto do quarto.
As peças de porcelana sobre a estante colocadas simetricamente ao lado de meia dúzia de porta-retratos.
Fico imaginando as cortinas.
O formato das almofadas.
O detalhe dos tapetes.
As colchas de cama.
Os guardanapos.
O que estará escrito nas toalhas de banho e de rosto no banheiro.
Os quadros na paredes.
Os adesivos decorativos.
Os outros objetos da decoração.
Fico imaginando as plantinhas do jardim.
Cactos.
Roseiras.
Hortências.
Orquídeas.
As plantinhas dentro das garrafas pets que formariam um lindo enfeite num jardim submerso.
Enquanto tudo isso não acontece ...

Devianarts



eu fico imaginando...


Obs: Imagem enviada pela autora.

 

A CARTA DE DONA MARGOT

Deborah Viégas
deboracomhviegas@gmail.com
http://www.cantbuymewords.co.cc/


Meu nome é Caroline: Londres, 1985. Tenho 21 anos e todos os dias encontro-me de pé, às 5 da manhã para pegar um ônibus e chegar à faculdade a tempo. Muitas pessoas não gostam de andar naquele meio de transporte avermelhado, mas mesmo se eu tivesse um carro... Gostaria de continuar andando, às vezes, por este. Afinal, estaria me privando de apreciar, diariamente, minha maravilhosa cidade. Pelo contrário, prestaria atenção apenas em carros atrás de mim ou ao lado, já sou preocupada e paranoica demais para ter que vivenciar isso... Gosto de caminhar. Mas minha maior percepção, além de observar Londres, seria as observações: Reparar nas pessoas que passam. Deixo-me a imaginar: Que tipo de vida esta senhora deve ter? E aquela criança ali, é adotada ou filha deste casal, realmente? E aquele homem? Está tão triste... Foi traído, ou algo assim? Ora, não é de meu feitio preocupar-me com a vida alheia, isso não teria nexo, pois nem as conheço e muito menos gosto de lotar minha mente à besteiras.... Mas por tanto tempo, e passando pelos mesmos lugares, sendo sempre tão observadora... É impossível não levar em questão uma pequena possibilidade, a não ser que alguém não tenha uma mínima curiosidade ou tenha o hábito de, na correria para o trabalho, esquecer sua imaginação em casa.

Tem uma senhora, a quem me chama maior atenção, ela aparenta ter seus 70 anos - no máximo - e toda quarta quando passo na mesma Avenida 72, por volta das 08h00min a.m, ela está entrando nos correios próximo ao senhor que começa a abrir sua cafeteria. Uma senhora simples, que está sempre com um de seus vestidos coloridos, confortados e floridos, são engraçados! E então me pergunto: para quem tanto ela tem de mandar cartas toda quarta, e em mesmo tempo. Será seu marido que viajou? Um filho em um intercâmbio? Mestrado? Doutorado? (...) Às vezes, penso que meu problema é minha falta deles, preciso arrumar um namorado, um curso, um emprego, um estágio! Qualquer coisa que iria me ocupar o tempo e me estressar de vez em quando. Seria bom, antes que eu comece a perder o rumo de minha sanidade por fazer questionários sobre pessoas a quem mal conheço e quando vejo, estou tomando Valium. Antes de começar a pensar que estou a enlouquecer - bom sinal, pois se estivesse não admitiria... Espero - tomei uma decisão.


Desci no ponto daquela quarta, caminhei até os correios, mas ela já estava de saída. Por sorte, havia perto o famoso Starbucks, onde ela estava indo como de costume, então a segui! ... Seguindo Carol? Certo, já perdi a razão. Logo, uma atendente veio em sua direção: ''O de sempre! Certo, Dona Margot?'' ''Sim querida, obrigada. '' (...) ''Aqui está: Descafeinado, com leite e pedacinhos de chocolates por cima. Mais alguma coisa?”‘‘Não”. Ela sorri, e a jovem garçonete se dirige rapidamente aos outros clientes. Infelizmente, preciso ser mais precisa e discreta, antes que ela perceba que alguém lhe encara, viro-me rapidamente deixando algum dinheiro em cima da mesa pelo café e me direciono até a parada. Na quarta-feira seguinte desci na rua preferida da senhora mais cedo, seguindo até os correios. Precisava mesmo mandar uma carta à minha prima a qual está no Brasil, então aproveitei para aumentar minhas chances de rever Dona Margot e conseguir descobrir um pouco mais.


10 minutos depois, Margot chega:


“‘Com licença...” “Olá Dona Margot! Como vai a senhora hoje?” O homem dos correios sorriu, e continuou a ponderar-lhe esperando uma resposta. “Bem Alfred, eu só vim mandar esta carta... 60 centos não são mesmo?” “Sim, certamente. Mas antes gostaria de lhe trocar algumas palavras.” “Claro, o que deseja Alfred?” Ela sobe o olhar, com um sorriso inocente. “Adoramos a senhora dona Margot” –Ela já começa a franzir suas poucas sobrancelhas- ''E por isso me sinto no dever, de ser franco com a senhora hoje. Pois também, não é possível que não sejas consciente para saber, que toda quarta vens aqui -há anos- e não chegou nem nunca irá vir nada''. É isso! – Falo a mim mesma, em silêncio - A senhora não queria entregar carta nenhuma, e sim recebê-la. Mas a grande pergunta é... De quem?! Ela fica tão chateada e triste... Pobre Margot! Fico triste por ti. Cabisbaixa, e em silêncio ela apenas deixa em cima da banca os 60 centos junto a carta e vai embora. O atendente faz um sinal de negação olhando-a sair, mas logo se vira direcionando-se até a mim: ''Desculpe pelo transtorno, para qual endereço mesmo?'' “Oi? Ah sim, Alphaville 123.” “Não foi nada... Aliás, ficaremos quites? Desculpe-me agora por tamanha impertinência... Mas, o que há com ela? '' Ele tenta me fazer um olhar duvidoso, mas não dura muito. “Ah! Dona Margot?'' Que isso, John Lennon passou por aqui ''É sim, ela mesma senhor. '' ''Ela vem aqui toda quarta-feira perguntando por uma carta de seu filho James, que foi à guerra anos atrás. Infelizmente, ele não sobreviveu, como você já deve ter imaginado... Mas Margot é teimosa demais, tentamos de tudo para ajudá-la... Perguntamos porque não cede essa tentativa sem fim.


E então, ela fala: ''Ele vai me responder um dia, eu sinto isso, meu filho continua ao meu lado e espero sua carta dizendo que está tudo bem onde quer que esteja. E mesmo que ele não me responda nunca Sr, eu não perderei minhas esperanças, pois acredito! E me sinto... Mais perto dele assim.'' Eu agradeço à Alfred, e enquanto caminho de volta para casa continuo a pensar em toda essa história.


Algo me comoveu em sua história, nem a conheço, mas sinto como se tivesse convivido com ela há anos. Passaram-se semanas e em uma segunda qualquer, quando cheguei à casa, aquela noite sentei a minha escrivaninha para tentar estudar um pouco, mordia a caneta e olhava para o papel em branco. Nada. Pensei em uma estratégia de marketing em moda numa ala constitucional. Nada. Pensei nos vestidos floridos de Margot, e ri. Olhei para o papel novamente, e um sorriso tornou aos meus lábios.


(...)


Saí de casa em direção aos correios, tendo por fim amanhecido sem dormir. Faltei à faculdade na tentativa de poder ter tempo para algum descanso. Quando cheguei, procurei diretamente por Alfred. ''Ei! Lembra de mim?'' ''Claro! Garota Curiosa'' ''Hahaha, preciso que me faça um favor'' ''Pois não?'' (...).


Quarta-feira.


Já me encontro aqui mais uma vez, passando pelos mesmos lugares, respirando o mesmo ar de Londres, está muito frio. Pouco depois percebi que o ônibus passava pela rua de dona Margot e olhei ao lado na janela, minha querida senhora dos vestidos floridos estava de saída, mas não hoje com as mãos vazias seguido de um olhar triste... Lendo, ela chorava com um sorriso extraordinário e eu o devolvi junto a ela.

Nenhum dinheiro compra o sorriso daquela senhora. Talvez, Dona Margot nunca saiba quem eu sou. E porventura eu devo ter mesmo um pouco de loucura em si, mas o que é a vida sem um pouco de imprudência e insensatez? Pois acho que minha impertinência fez um bem a alguém, e isso não deve ser um crime. Viva sua vida agora querida Margot, espero que seja feliz. Pois assim estou.


Mãe, nunca me esquecerei da senhora. Por favor, não me espere, estarei bem. Penso em você sempre, não se preocupe comigo, me prometa. Sempre te amarei, foste tu a melhor mãe do mundo! De seu filho, J.

O CASTIGO


Djanira Silva


          A mulher entrou na Igreja, sentou-se no último banco. Respirou aliviada. Sentia-se exausta da canseira dos últimos dias: doenças, exames, faltas ao trabalho. Seu alívio, porém, durou pouco. Uma mão pesada pousou no seu ombro e a voz no seu ouvido.
          - Fique calada, não olhe para trás e me dê o pacote que você botou.
          Enquanto falava, fazia pressão nas costelas da mulher com o que ela imaginou ser uma faca.
          Tremendo, abriu a bolsa, sem a menor intenção de reagir, e entregou-lhe o pequeno pacote.
          Ainda tremendo e sem poder conter o choro esperou que o homem se afastasse e saiu desesperada. Estava sem dinheiro para pegar o ônibus. Pegaria um táxi, em casa pagaria. A mãe assustou-se quando a viu chegar de carro.
          - Pelo amor de Deus, o que foi que houve.
          Quando conseguiu para de chorar contou que havia sido assaltada:
          - O que vai ser da gente, mãe, o sujeito levou o meu salário todinho.
          - Tenha calma, minha filha, lembre-se de que você está doente, não pode ficar neste estado. Dinheiro vai, dinheiro vem. Pelo menos entregou as fezes para fazer exame?
          - Entreguei nada mãe, fui logo receber dinheiro. A porcaria ainda está aqui. – Ao abrir a bolsa deu um grito:
          - Meu Deus, entreguei ao ladrão o pacote com as fezes, a esta altura ele deve estar pensando que quem rouba na Igreja é castigado.


Obs: Texto retirado do livro da autora - A Maldição do Serviço Doméstico e Outras Maldições.

CÓDIGO FLORESTAL: O QUE ESTÁ EM JOGO


D. Demétrio Valentini *


          Na medida em que se aproxima a votação do Código Florestal no Senado, crescem as apreensões sobre a urgência de acertos indispensáveis, que tenham presente os diversos aspectos da questão, para que não se aprove uma lei que venha causar prejuízos inesperados, por falta de percepção de suas implicações.
          Como na arte fotográfica, o novo Código Florestal precisa de duas abordagens simultâneas. Uma é a imagem captada quando usamos a lente grande angular, onde cabem dentro todos. Outro é o resultado quando focamos a lente num ponto determinado, e o ampliamos para ser melhor percebido.
          O Código Florestal deve ser olhado com as duas lentes.
          No seu conjunto, ele precisa ter uma estrutura coerente e uma articulação orgânica, em que os diversos pontos convergem para fortalecer sua visão unitária. Ao mesmo tempo, cada detalhe merece ser olhado com lupas de aumento, para conferir suas propostas, para que produzam o resultado esperado.
          Se nos perguntamos o que está em jogo com o Código Florestal, usando lente grande angular, acabamos flagrando o Brasil todo, com seus diversos biomas, desde a floresta amazônica, o cerrado, a caatinga, a mata atlântica, o pantanal e o pampa, mas também, com muita evidência, a população brasileira, que não pode ser olhada como se fosse um detalhe secundário, mesmo se tratando de uma lei cujo foco são as florestas. A visão global não dispensa o enfoque especifico. Depois da grande angular, é preciso usar a lente de aproximação.
          Pois bem, vamos aos detalhes. Constatamos de imediato que todos os biomas merecem uma atenção própria. As urgências podem ter procedência diferente, mas são todas válidas. Algumas para em tempo conservar o que ainda resta, como é o caso da mata atlântica. Outra urgência é mais própria da floresta amazônica, ainda em tempo de preservá-la na sua importância nacional e mundial. Estas urgências precisam de adequada tradução legal, pela acertada formulação que o novo Código deve apresentar.
          Ligada às florestas está a água, cuja realidade se traduz em rios, riachos, córregos, sangas, fontes, vertentes, açudes, represas, aqüíferos. A água tem direito de cidadania em qualquer código florestal que se queira elaborar.
          Outro aspecto que não pode faltar é a ampla e complexa realidade da agricultura. Também pudera: o solo, a água, as florestas, formam nosso hábitat. Dele dependemos, dele precisamos cuidar, para que continue nos garantindo vida. Um código florestal sábio não pode errar num ponto tão vital como este.
          Mas agora, com a lente de aproximação, identificamos um elo muito frágil, mas muito importante, por diversos motivos, no conjunto abrangido pelo Código Florestal. Trata-se dos pequenos agricultores. Eles merecem um cuidado todo especial. Pois não podemos permitir que se repitam erros históricos, que ainda hoje pesam sobre a realidade brasileira, fruto de leis equivocadas, mesmo feitas com boa intenção. Vale a pena lembrar, pois a história nos ensina.
          Já em 1850, com a “lei de terras”, no Brasil só os ricos passaram a ter acesso fácil à terra, enquanto os pobres ficaram a ver navios. Depois, mais recentemente, com a extensão dos direitos trabalhistas urbanos ao campo, se produziu um verdadeiro despejo de pequenos agricultores e trabalhadores rurais para a periferia das cidades, quase todos futuros candidatos à bolsa família. Enquanto advogados faturaram alto incentivando processos trabalhistas em que pobres exploravam pobres, até nivelar todos por baixo. E´ triste constatar que sempre existem instâncias intermediárias, que em situações como esta, exploram as deficiências do poder público, e faturam em cima de causas que são justas, mas servem de pretexto para condicionar a lei em favor de interesses corporativistas dos mais diversos. O alerta vale sempre, também agora!
          Às vezes as utopias, aliadas a ingenuidades, produzem grandes desastres.
          O elo mais frágil de todo o conjunto do novo Código Florestal são os pequenos agricultores. Eles precisam de uma atenção especial. Pois correm o risco de sofrer de imediato as conseqüências negativas de eventuais itens equivocados do Código. Uma coisa é lidar com a natureza, que tem fôlego de milênios, e sempre será tempo de corrigir equívocos. Outra coisa é lidar com situações sociais, cujos processos de sustentação podem degenerar rapidamente, com conseqüências negativas irreversíveis.
          Se a CNBB tem uma causa histórica a defender neste Código Florestal, sem dúvida nenhuma, é a causa dos pequenos agricultores. Para que não se inviabilize de vez a agricultura familiar, que já tem tantas adversidades a enfrentar.
          O novo Código não pode significar o atestado de falência da agricultura na pequena propriedade no Brasil!


SEM COMPUTADOR?


D.Edvaldo G. Amaral (*)


          A um médico, durante exame clínico computadorizado, perguntei certa vez: “Doutor, se de repente desaparecessem todos os computadores do mundo, o que vocês iriam fazer?” E o clínico respondeu-me de imediato: “Padre, iríamos para casa descansar, porque nada mais teríamos - e poderíamos - fazer.”
          Por esse exemplo fica configurada a absoluta necessidade, - e até diria indispensabilidade - do computador na vida moderna. Sua presença nota-se do consultório médico à sacristia das igrejas, dos escritórios e escolas até os lares, em vários ambientes, inclusive o quarto de dormir, sobretudo dos jovens. Sua presença é universal, seu uso constante e imprescindível. E agora temos a notícia de que, nas escolas públicas do estado americano de Atlanta, neste ano letivo, que agora começa lá, os alunos não aprenderão mais a escrever o alfabeto e sim a digitá-lo no teclado do computador.
          Mas, há algo a refletir sobre esse fenômeno moderno, que transformou nossa cultura. Uma charge, que recebi pela internet, retratava um jovem, sentado diante de um notebook, que interrogava o pai: “Papai, lá em nossa escola, além do velho computador (vejam como eles já chamam o PC...), usamos também o IPad, o IPhone, o Smartphone, o Youtube, o Orkut, o Facebook e outras redes sociais. E o senhor, papai, que usava em sua escola?” O velho, sentado em sua cadeira de balanço, folheando o diário preferido, respondeu sisudo e circumspecto: “A CABEÇA!” É assim mesmo... será que na escola de hoje, ainda se usa a CABEÇA? Falando dos pífios resultados do último ENEM, que ela classificou como “desastre do ensino médio”, conhecida revista de divulgação nacional proclamava no título da reportagem, referindo-se aos alunos, que obtiveram tão desastrosos resultados: “É preciso preencher a cabeça deles!”
          Fico pensando em Dom Bosco, que escreveu tantos livros populares e era periodista das populares “Leituras Católicas”, mensalmente por ele editadas e escritas com caneta de molhar. Seus três primeiros biógrafos, Pe.. Lemoyne, Pe. Amadei e Pe. Céria, escreveram também à tinta as 3577 páginas dos vinte volumes de suas “Memórias biográficas”. Talvez o último, Pe. Eugênio Ceria, já terá utilizado a velha e boa máquina de escrever. Dizem também que o último dos cinco ministros, defenestrados no atual governo, teria pedido uma máquina de escrever (teria sido uma velha “Remington”?) para redigir a carta de sua demissão. Será verdade?
          O computador é bom, ou melhor, hoje é indispensável. Mas é uma máquina. Apenas uma máquina. Foi com um deles que escrevi este arquivo e todos os meus opúsculos, a partir do terceiro. É por ele, pela internet, que se envia o artigo escrito à redação dos jornais. Mas, repito, é apenas uma máquina. Não mais do que uma máquina. E tanto pode servir para o bem, grande bem, como para o mal: para a corrupção dos costumes, para divulgar imagens eróticas, para organizar crimes, para destruir reputações e assim por diante.
          Sem computador, não. Mas o computador para nos ajudar a fazer o bem, aí sim...


(*) É arcebispo emérito de Maceió.

TAPAJÓS E CARAJÁS, REALIDADE POSSÍVEL


Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


No dia 11 de dezembro haverá o plebiscito pelo 'sim' ou pelo 'não' da divisão do estado do Pará. "Duas regiões estão em jogo: o sul e o oeste, Carajás e Tapajós", diz o coordenador da Rádio Rural de Santarém, PA.

“Será a primeira vez no país que a divisão de um estado será realizada através de um plebiscito”, diz Edilberto Sena, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, os vários outros novos estados emancipados no Brasil foram feitos através de decisão de cima para baixo, sem participação das populações. “Esta é uma oportunidade importante de politização dos eleitores e das eleitoras para a decisão de emancipar ou não as duas regiões”.

Na opinião de Sena, só crescimento econômico, como existe hoje, não adianta para se criar um novo estado. “O Pará atual é o quarto maior exportador de produtos primários e semielaborados do país. No entanto, é o décimo sexto em desenvolvimento humano, na lista do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH. Inaceitável! Com o SIM ou com o NÃO, o povo necessita dar um basta nisso o quanto antes”, desabafa.

Edilberto Sena é padre coordenador geral da Rádio Rural de Santarém, presidente da Rede Notícias da Amazônia – RNA e membro da Frente em Defesa da Amazônia – FDA.


Confira a entrevista.

IHU On-Line – Desde os anos 1950 surgem propostas para dividir o estado do Pará. Como o senhor vê a proposta de criar os estados de Tapajós e Carajás no território do Pará? Quem se favorece com a criação desses estados?

Edilberto Sena – O sonho de emancipação da região oeste do Pará, também chamado estado do Tapajós, é mais antigo que 1950. Já no tempo do Imperador Pedro II se pensava em dividir a grande província do Grão-Pará. Dentre as principais razões para a necessidade de emancipação desta região está a questão da distância da capital (750 km entre Santarém e Belém, 52 horas de barco, uma hora de avião e uma longa viagem pelas rodovias BR 163 e Transamazônica). Além disso, o que mais prejudica a região é o que chamo de ideologia Centro versus Periferia, pela qual o centro se apodera da maior parte das rendas do estado e as periferias ficam com as sobras. Mas nós, que lutamos pela emancipação, temos consciência que variados são os interesses envolvidos no caso: políticos, ficha limpa e ficha suja, grandes empresas, donos de agronegócio, gaúchos e mato-grossenses da soja. Porém, não apenas eles. Em todos os 26 municípios do oeste do Pará, há movimentos sociais, de estudantes universitários, inclusive grupos da Igreja Católica que lutam pela emancipação da região oeste deste estado.

No próximo dia 11 de dezembro haverá o plebiscito pelo SIM ou pelo NÃO da emancipação. Duas regiões estão em jogo no plebiscito, o sul e o oeste do estado, Carajás e . Será a primeira vez no país que a divisão de um estado será realizada por meio de um plebiscito. Os vários outros novos estados emancipados no Brasil foram feitos através de decisão de cima para baixo, sem participação das populações. Esta é uma oportunidade importante de politização dos eleitores e das eleitoras para a decisão de emancipar ou não as duas regiões.

IHU On-Line – Quais serão as implicações políticas e econômicas para a região, caso o Pará seja dividido em outros estados?

Edilberto Sena – Consequências serão várias. Entre outras, a possibilidade das duas populações estarem mais próximas dos centros administrativos, exigindo seus direitos, intervindo nas decisões de interesse coletivo, a possibilidade de se construir uma constituição realmente nova, cidadã, com regras mais participativas da população. Além disso, haverá maior entrada de recursos políticos e financeiros nas duas regiões, se a população desses territórios exercer seu papel cidadão.

IHU On-Line – Como se dará o desenvolvimento social na região caso sejam criados os dois novos estados?

Edilberto Sena – O desenvolvimento social das duas populações será uma possibilidade. Como a concretização dos dois novos estados terá ainda uma longa estrada a ser trilhada, além do plebiscito, se o SIM passar, o projeto vai para o Congresso Nacional e até à Presidência da República. Isso vai levar uns cinco ou, quem sabe, dez anos. Nesse período, haverá oportunidade de envolvimento das populações dos municípios na compreensão do que é participação democrática, de como se construir uma constituição estadual que rompa a ideologia centro versus periferias. Ter-se-á possibilidade de inclusão de artigos que estão na Constituição Federal e que não são postas em prática, como o uso do referendo e plebiscito para decisões importantes do estado, entre outras. O desenvolvimento só será possível com maior envolvimento da sociedade civil politizada. Essa é a grande possibilidade de acontecer no processo de emancipação.

Riquezas naturais são abundantes nas duas regiões, especialmente aqui na região oeste, em que abundam florestas, rios, lagos e minerais. O grande capital está também interessado no novo estado para poder dominar mais facilmente, explorar, saquear, como já faz hoje, mas dominando o poder político. Esse será o grande embate no processo de emancipação e só a intensa politização das organizações populares, que há em abundância na região, poderá controlar o domínio do poder econômico. Só crescimento econômico, como existe hoje, não adianta para se criar um novo estado. O Pará atual é o quarto maior exportador de produtos primários e semielaborados do país. No entanto, é o décimo sexto em desenvolvimento humano na lista do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH. Inaceitável! Com o SIM ou com o NÃO, o povo necessita dar um basta nisso o quanto antes.

Há que se enfrentar outro grande desafio: o federalismo brasileiro, extremamente concentrador de poder no governo central. Brasília, assim, trata a Amazônia como uma colônia de exploração de riquezas para aumentar o PIB nacional. Daí, a lei Kandir, de triste lembrança, está aí para sugar as riquezas da região sem trazer desenvolvimento. Como a maioria dos políticos atuais é oportunista e incompetente para defender os interesses de seus eleitores, não os vemos lutarem para mudar este centralismo democrático do país.

IHU On-Line – Como a Igreja se posiciona diante dessa possibilidade separatista?

Edilberto Sena – A Igreja Católica é uma força importante na politização da população. A diocese de Santarém já entrou na luta pela emancipação. Acontece que o Regional Norte II da CNBB é composto de 14 bispos, dos quais seis são das duas regiões que buscam emancipação. Apesar de o bispo de Santarém estar engajado na campanha emancipatória, alguns outros não veem como vantagem lá no sul do Pará. E menos ainda os da região do entorno de Belém. O raciocínio deles é de receio de perda de benefícios para seus irmãos de lá; não se preocupam com as perdas dos irmãos de cá.

Mapa de como seria a divisão dos três estados, e suas respectivas capitais

IHU On-Line – Como os movimentos sociais reagiram diante da possibilidade de criar dois novos estados? Que articulações estão sendo feitas para impedir a criação de Tapajós e Carajás?


Edilberto Sena – Hoje, aumenta a participação dos movimentos sociais na politização da população, especialmente aqui no oeste do estado, onde o sonho de emancipação é mais antigo e as populações são mais nativas. Na região sul, a presença de migrantes predomina, inclusive com ostensivo domínio de grandes empresas, como a Vale do Rio Doce, grandes fazendas e grilagem. Existe mesmo a possibilidade de o SIM passar no oeste e não passar no sul do estado, pois a votação no plebiscito será com perguntas separadas para as duas regiões, de forma que o eleitor poderá votar SIM para o oeste e votar NÃO para o sul do estado.

IHU On-Line – Como ficaria a situação de Belo Monte, no Tapajós?

Edilberto Sena – As hidrelétricas são grandes desastres impostos pelo governo federal, nessa esdrúxula federação em que a presidente se arvora em dona da Amazônia e impõe essas hidrelétricas na região, sem respeitar os direitos dos povos aqui existentes. Agora mesmo o presidente do Ibama, subserviente aos planos de sua chefe, decide permitir o desmatamento de 1437 hectares de floresta, inclusive com 168 hectares de Área de Proteção Permanente, para acelerar a construção do desastre Belo Monte lá no rio Xingu. As hidrelétricas, tanto Belo Monte como as na bacia do Tapajós, não têm nada a ver com a emancipação. Elas são um plano, parte do Projeto IIRSA para atender o grande capital, que já está implantado na região e que a população organizada pode impedir, como já se está tentando fazendo.

IHU On-Line – Como o senhor vê a iniciativa de decidir essa questão através de um plebiscito? Como a população tem reagido à possibilidade de dividir o Pará?

Edilberto Sena – O plebiscito é importante por permitir que as populações se expressem com liberdade. Mais ainda, por ser oportunidade de politização, se as forças formadoras de opinião abrirem debates, seminários, como está acontecendo aqui na região oeste. O Rio Grande do Sul nos deu um grande exemplo, no tempo do governo Olívio Dutra, de que outro modo de administrar a coisa pública é possível. Ele ainda será convidado a vir aqui em Santarém nos dar uma aula do que é possível fazer junto com o povo. Para uns, somos loucos sonhadores de um sonho impossível, por causa do sistema capitalista. Mas nós preferimos nos mirar em Mahatma Gandhi e Nelson Mandela e em seus ideais que venceram contra terríveis sistemas.

HONESTIDADE

Euza Noronha


Tem dias que a vontade é escrever sem compromisso. Falar de amor, de saudades, de sentimentos que fazem de mim o ser comum que sou. Mas assisti a uma cena que me deixou questionadora. E me lembrei de um antigo texto onde falo sobre um tema que é reincidente na minha escrita. Reincidente na vida, para ser mais exata. É a condição humana mais uma vez sendo repensada. Somos nós e o nosso retrato nem sempre pensado porque raramente visto por nós.

Num momento em que estamos todos demonstrando vários sentimentos em relação ao escancaramento da corrupção dos nossos representantes, é preciso também nos colocarmos enquanto agentes deste processo. O termo corrupção tem vários significados em qualquer dicionário. Condicionamos a associá-lo apenas ao servidor público e ao político. Mas a acepção correta da palavra é ato, processo ou efeito de corromper, modificar, adulterar as características originais de algo em causa própria ou de outrem.

Façamos então nosso exame de consciência. Quantas vezes na vida nos colocamos frente a uma situação em que está em nossas mãos mudar o rumo ou a característica de algo a nosso favor ou a favor de alguém que nos interessa? E quantas vezes retrocedemos em nome da nossa própria honestidade? Não estou me referindo aos grandes escândalos, mas a pequenezas como usar de amizades para ganhar uma vaga de emprego, para não enfrentar uma fila, para obter vantagens numa compra qualquer.

Ora, dirão, mas é indecente comparar isto ao rombo bilionário dos cofres públicos. Então eu me pergunto: aquele que é hoje capaz de ser pouco ético em situações corriqueiras terá ética numa situação de poder? Aquele que não se sente prejudicando ao usar de influência para levar alguma pequena vantagem ou é valorizado por sua esperteza, sentir-se-á roubando ao ficar com o dinheiro do estado – que na visão comum é de todos nós e assim sendo é também deste cidadão que está em posição de usá-lo em benefício próprio?

Honestidade é caráter e caráter é formação familiar. Não se aprende a ser honesto na escola. Não há universidade capaz de formar um sujeito honesto. Mas aprende-se na convivência diária lá na primeira infância. Uma criança aprende a mentir quando assiste ao pai ou mãe ou um adulto de sua confiança mandando dizer ao telefone que não está em casa. Aprende a não ser honesta quando escuta qualquer um deles justificar uma falta ao trabalho com uma doença imaginária. Situações comuns, normais e consideradas inócuas em todas as classes sociais. Mas não o serão na formação de uma criança que olha a quem admira e confia como modelo a ser seguido e defendido.

E por aí caminham os ensinamentos que fazem de nós seres exigentes em relação à honestidade do outro, mas completamente paternais em relação à nossa própria. Talvez este seja um bom momento para repensarmos em conceitos como ética, moral e honestidade. E nos lembrarmos que é dever nosso cobrar probidade e honestidade dos nossos representantes, seja no executivo ou no legislativo. Mas é dever precípuo cobrar de nós mesmos, de nossos familiares, de nossos amigos, e até mesmo de desconhecidos, atitudes mais coerentes com a honestidade que pregamos.

Quem sabe assim ser malandro esperto deixe de ser um valor para o brasileiro?

REDES SOCIAIS E MOBILIZAÇÕES

Frei Betto *


A 7 de setembro, data da independência do Brasil, ocorreu algo novo: as ruas foram ocupadas por mobilizações populares convocadas através da internet.

As pessoas saíram em passeatas para protestar contra a corrupção, o sucateamento da educação, e por reforma agrária e auditoria da dívida pública, entre outros temas. E fizeram questão de imprimir às manifestações caráter apartidário. Quem se atrevesse a desfilar com sigla de partido político era imediatamente rechaçado. Ali, no 7 de setembro, uniram-se o Grito dos Excluídos e o grito dos indignados.

As ruas do Brasil, até então acostumadas a ver, nos últimos tempos, apenas manifestações de evangélicos, gays e defensores da liberação da maconha, voltaram a ser palco de pressão política e reivindicação popular.

O poder convocatório das redes sociais é inegável. Elas possuem uma capilaridade que supera qualquer outro meio de comunicação. E carecem de censura ou editoração falaciosa.

Há, contudo, duas limitações que podem afetar seriamente os efeitos da mobilização internáutica.primeira, a falta de proposta. Não basta gritar contra a corrupção ou aprovar a faxina operada pela presidente Dilma Rousseff. É preciso exigir reforma política, e propor critérios e métodos.

Reforma política com o atual Congresso – composto, em sua maioria, por parlamentares capazes de absolver uma deputada federal flagrada e filmada recebendo propina – é acreditar que Ali Babá é capaz de punir os 40 ladrões...

É preciso, primeiro, reformar, ou melhor, renovar o Congresso para, em seguida, obter reforma política minimamente decente. De modo que sejam instituídos mecanismos que ponham fim às duas irmãs gêmeas madrinhas da corrupção: a imunidade e a impunidade.

Essa renovação deve se iniciar, ano que vem, pela eleição de prefeitos e vereadores, todos submetidos ao crivo da Ficha Limpa, e pressionados a apresentar metas e objetivos, como propõe o Movimento Nossa São Paulo.

A segunda limitação é o caráter apartidário das manifestações. Em si, é positivo, pois impede que algo nascido da mobilização cidadã venha a se converter em palanque eleitoral deste ou daquele partido político.

Porém, na democracia não se inventou algo melhor para representar os anseios da população que partidos políticos. Eles fazem a mediação entre a sociedade e o Estado. O perigo é as manifestações não resultarem na eleição de candidatos eticamente confiáveis e ideologicamente comprometidos com as reformas de estruturas, como a política e a agrária. Ou desaguar no pior: o voto nulo.

Quem tem nojo de política é governado por quem não tem. E os maus políticos torcem para que tenhamos todos bastante nojo de política. Assim, eles ficam em paz, entretidos com suas maracutaias, embolsando o nosso dinheiro e ampliando suas mordomias e seus patrimônios.

As redes sociais são, hoje, o que a ágora era para os gregos antigos e a praça para os nossos avós – local de congraçamento, informação e mobilização. Foram elas que levaram tunisianos e egípcios às ruas para derrubar governos despóticos. São elas que divulgam, em tempo real, as atrocidades praticadas pelas tropas usamericanas no Iraque e no Afeganistão.

As redes sociais têm, entretanto, seu lado obscuro e perverso: a prostituição virtual de adolescentes que exibem sua nudez; o estímulo à pedofilia; a difusão de material pornográfico; o incitamento à violência; a propaganda de armas; o roubo virtual de senhas de cartões de crédito e contas bancárias.

Espero não tardar o dia em que as escolas introduzirão em seus currículos a disciplina Redes Sociais. Crianças e jovens serão educados no uso dessa importante ferramenta, aprimorando o olhar crítico, o senso ético e, em especial, a síntese cognitiva, de modo a extrair sentidos ou significações do incessante fluxo de informações e dados.

Graças à internet, qualquer usuário pode se arvorar, agora, em sujeito político e protagonista social, abandonando a passivo papel de mero espectador. Resta vencer o individualismo e o comodismo e sair à rua para congregar-se em força política.


* Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/
 twitter:@freibetto.


Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

TRILHAS


Gerson F. Filho


Aguardando o extrapolar da plena consciência, vejo nos teus olhos a conexão com as raízes de um entardecer. Este que domina o derradeiro sentido dos teus dias, e me toca como açoite que fustiga inclemente meu sentimento, que não para de querer-te.

O infinito e a dor sem limites da minha culpa que me pune quando me diz incessantemente ser toda minha, a responsabilidade deste ocaso que se acerca de você. Meu desassossego por amar demais, mas ainda assim não amar tanto, ou pelo menos o suficiente para nos teus dias fazer com que o sorriso surja nesses urgentes lábios.

Portanto e então sendo assim, que a penumbra se contorça e se desfaça concebendo a luz. E deste calor a cálida brisa que seduz o ritmo dos nossos corações finalmente venha insuflar o tempo. O consentimento para amar mais um pouco. Até o limite de tudo o que já foi exposto, algo assim bem próximo da paixão.

Porque contigo serei por inteiro, seremos luz e candeeiro, transportados até o fim dessa estrada na qual a madrugada acorda, para se tornar no primeiro passo de um amanhã. Pois meus olhos, sem teu olhar fazem do futuro um paradoxo.

AS CONVULSÕES NO MUNDO E O AMANHÃ



por
J. A. Horta da Silva
Ex-Director do INETI (Coimbra)
(horta.silva@sapo.pt




O espaço que marca as modificações irreversíveis entre gerações é usualmente ocupado por episódios que rasgam, de modo indelével, o tecido social e, não raramente, a própria situação política, acontecimentos que o tempo costuma guardar sob a designação de factos históricos. No entanto, as sociedades também podem evoluir de modo lânguido e pacífico, como resultado da acomodação e aprendizagem a novas formas de estar e gerir, evolução que passa de geração em geração ao arrepio de convulsões, acontecimentos que a história descarta para terrenos da sociologia.

O mundo actual está a mudar mais depressa do que seria espectável, muito embora ainda não tenha atingido o ponto de rotura. Gradualmente, uma nova ordem aguarda o momento de entrar, enquanto as transformações sócio-políticas aparecem e desaparecem por entre as franjas dos tecidos das sociedades e as guerras são atiradas para guetos da África, Médio Oriente, Ásia e América Latina, tendo por objectivo, o controle do poder sobre matérias primas estratégicas e, segundo dizem, para combater o narcotráfico. Só que esta estratégia não tem tido o sucesso esperado, não obstante os elevados custos inerentes a aspectos de logística e de acções militares, efectuadas não só pelos Estados Unidos mas também por países da União Europeia, todos eles preocupados com o problema das enormes dívidas soberanas. E como se isto não bastasse, sucedem-se motins em vários países da U E, sendo de destacar os que ocorreram recentemente no Reino Unido, na Alemanha e até em Espanha no decurso da visita do Papa, sem esquecer os inimagináveis atentados e assassinatos ocorridos na Noruega, motins e ignomínia que destemperam a vida e tingem o Velho Mundo de preocupação, centrada na procura das verdadeiras razões e correspondentes soluções.

Enquanto estas desordens se propagam, as economias emergentes do Brasil, da Rússia, da Índia e da China prosseguem a sua lenta e sólida caminhada em relação a um futuro mais promissor do que o presente, apostados que estão em manter-se cada vez mais afastados do rumo em que a União Europeia e os Estados Unidos da América estão envolvidos. Há algum tempo atrás, escrevi sobre o BRIC, acrónimo criado pelo Banco Goldman Sachs para designar o conjunto de países com economias emergentes, tendo, ao tempo, lançado mão da fábula relativa à corrida entre a lebre e a tartaruga, na suposição de que a lebre acabaria por acordar a tempo de ganhar a competição. As oportunidades desperdiçadas pela UE e pelos EUA começam a afigurar-se evidentes, à medida que se desenha o resultado da corrida. Para o futuro, perdura um olhar vago com lampejos de rebates de consciência relativos a pecados velhos e recentes cometidos, eventualmente, à revelia de compromissos assumidos e não cumpridos.

Não raramente, a aparência da prosperidade esconde sintomas de adversidade que se colam aos passos da vida de uma forma persistente e dolorosa. Face ao exposto, é preciso meditar sobre a contingência quer da abundância, quer do bem-estar, quando impressos no pó dos caminhos do futuro.







TEXTO DE LUG COSTA

Faremos uma longa viagem.
Partimos do interior de nossas almas
redescobrindo os caminhos percorridos
durante muitos anos sozinhos.
A presença do outro revitaliza cada momento de vida.
Não me pergunte quando retornaremos.
Nos entregaremos a cada emoção,
abertos aos imprevistos e surpresas
do caminho desconhecido.
O tempo deixará aos poucos de ser importante,
e sobreviverá apenas o desejo de existir.


(08.09.2009 – 18:08h – Caxias/MA)

AGENDA DO BEM VIVER


Marcelo Barros(*)


          Por toda a América Latina, existe atualmente um conceito que ganha força e plena aceitação. Embora possa concretizar-se de formas diversas formas e nem sempre seja fácil definir, em nosso continente, aumenta cada dia o número das pessoas que buscam o que os índios andinos chamam Kwasay Sumak, o Bem Viver.

          Essa proposta, vinda das comunidades Aymara e Ketchua passou a fazer parte das constituições nacionais da Bolívia e do Equador. Ali se afirma claramente: o objetivo principal do Estado é organizar a vida da sociedade, para que todos os homens e mulheres alcancem o bem viver, ou seja, uma qualidade de vida saudável, respeitadora da natureza e capaz de fortalecer os laços comunitários. Não se trata apenas de melhorar as condições de vida. Não basta viver melhor. Queremos alcançar um estilo de vida pleno, sustentável e feliz.

          Para o final de outubro, o 8º Encontro Nacional do movimento Fé e Política tomará esse assunto como eixo principal. Esse também é o tema geral da Agenda Latinoamericana Mundial 2012: “Bem viver, bem conviver”. Lançada pela primeira vez no contexto dos 500 anos da colonização da América, em 1992, a cada ano, a Agenda Latinoamericana vem se firmando como uma publicação importante. Atualmente, é um dos livros mais traduzidos e vendidos no mundo. No Brasil, é editada pela Comissão dominicana de Justiça e Paz que, junto com outras entidades, a apresentará no Centro Cultural Cara Vídeo (Rua 83, n. 361, Setor Sul), às 19, 30 h dessa quarta-feira, 28.

          A cada ano, mais pessoas do mundo inteiro conhecem e apreciam a Agenda, com o seu formato de livro e a grande quantidade de informações que contém. Além de ser agenda, com calendário e espaço para que cada pessoa escreva seus compromissos, a Agenda contém uma série de artigos, comentários e análises, neste ano, todos sobre o tema do bem viver, bem conviver. Na carta inicial que, a cada ano, introduz o tema geral, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia e profeta dos povos latino-americanos, reflete que, depois de ter, no ano passado, tomado como questão o mistério de Deus, de certa forma, é natural que, neste ano, a Agenda assuma o compromisso de aprofundar o caminho da vida humana. Afinal, quanto mais nos aproximamos verdadeiramente de Deus, mais nos tornamos sensíveis à vida humana e de todo ser vivo.

Em um tempo no qual a sociedade parece ter perdido a referência a valores, a cada ano, a Agenda Latinoamericana nos ajuda a retomar e aprofundar as grandes causas em que cremos. São elas que dão sentido à nossa vida. Dom Pedro Casaldáliga chega a dizer: “Nós somos aquilo que amamos, o que fazemos e o que sonhamos. (...) Somos teimosamente sonhadores”.

A Agenda Latinoamericana Mundial 2012 nos convida a retomar a Utopia possível de uma vida libertada, digna e sustentável na convivência com todos os seres vivos do planeta. Para o mundo atual, mergulhado em profunda crise econômica e de civilização, isso implica em superar a ditadura do mercado, como deus supremo e exige organizar a sociedade de modo que nenhuma pessoa humana, nem a terra, a água e os outros seres vivos sejam maltratados e explorados como meras mercadorias.

Para quem vive a espiritualidade, o conceito indígena do bem viver se traduz em diversas palavras sagradas que, de um modo ou de outro, todas as tradições espirituais cultivam. Os afrodescendentes chamam de axé, a energia vital, os hindus denominam de nirvana, os judeus incluem no conceito de shalom, os evangelhos cristãos usam o termo reino ou reinado de Deus. Não podemos considerar essa meta como algo muito distante e dificilmente alcançável. Ao tomar este tema para este ano, a Agenda Latinoamericana 2012 o coloca no calendário e nos convoca para torná-lo real para ser vivido desde agora. No evangelho, Jesus diz: “O reino de Deus não vai chegar de forma espetacular. Não se poderá dizer: ei-lo aqui ou ali, porque, de fato, o reino de Deus já está no meio de vós. O reino de Deus está em vós” (Lc 17, 20 - 21).

PAULO FREIRE: EDUCAÇÃO COMO PROCESSO LIBERTADOR


Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio *


No último dia 19 de setembro faria 90 anos o grande educador brasileiro Paulo Freire. “Distraídos” estávamos pela vergonha da corrupção, a reunião de Nova York onde a presidente pronunciou discurso, o Rock in Rio e todas as idas e vindas dos times de futebol jogando inumeráveis e sempre novas competições para justificar seus milionários salários. Por isso, talvez, a data tenha passado menos celebrada do que seria justo e necessário. E por isso voltamos a ela ainda na “oitava” – nos oito dias que se seguem à mesma – para agregar homenagem a este que tanto a merece.

Paulo Freire nasceu em Recife, a 19 de setembro de 1921. Formou-se em Direito em 1947, mas cedo revelou sua paixão pela educação e pela cultura. No mesmo ano, assumiu a diretoria da Divisão de Educação e Cultura do Sesi-Pernambuco e em 1954 foi nomeado diretor superintendente do Departamento Regional do mesmo órgão, cargo que ocupou até outubro de 1956.

Em 1960 doutorou-se em Filosofia e História da Educação ao defender a tese “Educação e atualidade brasileira”, na qual lançou a proposta pioneira de uma escola democrática, centrada no educando e na problemática da comunidade em que está situado. O objetivo da educação aí traçado por Paulo Freire pretende ser capaz de provocar no estudante a passagem de uma consciência ingênua para uma consciência crítica e transformadora. Essa tese, levemente modificada, foi publicada sob o título “Educação como prática da liberdade”, primeira grande obra do notável pedagogo.

Em 1962, Paulo Freire criou o Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife, sendo seu primeiro diretor. E em 1963 sua obra ganhou amplidão nacional, com a experiência de alfabetização de Angicos, Rio Grande do Norte, onde foram lançadas as bases do Programa Nacional de Alfabetização do Governo João Goulart. O golpe militar extinguiu o Programa, que pretendia educar os brasileiros de forma libertadora, prendeu e exilou seu idealizador.

Paulo Freire passou a viver fora do Brasil: Bolívia, Chile, Estados Unidos, Suíça. Nesses países trabalhou incessantemente, escrevendo e disseminando suas ideias de uma pedagogia que partisse do universo vocabular do oprimido. Edificava seu método em palavras geradoras que vão construindo o mundo de expressão do indivíduo situado, o qual passa a ser sujeito de sua história e da transformação que ela exige. Suas obras adquiriram renome mundial e Paulo Freire, impedido de voltar à sua pátria, tornou-se um verdadeiro andarilho da educação, levando suas ideias e propostas mundo afora.

Ainda em Genebra dedicou-se de modo especial ao trabalho de educação em alguns países africanos e fundou o Instituto de Ação Cultural, juntamente com outros exilados. A anistia o trouxe de volta ao Brasil no início dos anos 1980. Lecionou, então, na PUC de São Paulo e na Unicamp, e assumiu, em 1989, o cargo de secretário de Educação da cidade de São Paulo. Em 1997, os olhos incansáveis do educador que não cessava de observar e “ruminar” a realidade para devolvê-la ao povo sob a forma de pedagogia libertadora fecharam-se. No Hospital Albert Einstein, na capital paulista, o coração que batia em ritmo acelerado em zelo constante por uma educação que libertasse o oprimido foi atingido por um infarto do miocárdio.

A morte, porém, não permitiu que Paulo Freire se ausentasse da frente da cena da educação no país e no continente. Seu método, que contempla o destinatário da educação sem empanturrá-lo de ideias a serem consumidas, mas dando-lhe espaço para fazer emergir suas ideias, criá-las e recriá-las sob a forma de palavras, continua mais vivo do que nunca. O caminho que Paulo Freire ousou seguir na alfabetização sonhava permitir a homens e mulheres se apropriarem da escrita e da palavra, a fim de se comprometerem politicamente a partir de uma visão integral da linguagem e do mundo. As experiências de vida partilhadas entre os educandos e a relação entre o educador e o educando eram e são ingredientes obrigatórios do processo educativo, que vai construindo, através dos temas e palavras geradoras dos alunos e sua decodificação, a aquisição da palavra escrita e da compreensão da mesma.

Em tempos de voraz consumo de tudo e de todos, inclusive da educação e do conhecimento, possa a celebração dos 90 anos deste grande pedagogo brasileiro ensinar-nos algumas coisas fundamentais. Por exemplo, que a educação, seja formal ou informal, familiar, escolar, ou universitária deve - antes de mais nada - ajudar a pensar sem impor; ajudar a criar sem oprimir; ajudar a interferir libertadoramente na realidade sem medo e sem censura.


* Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).


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