segunda-feira, 28 de março de 2011

POR ONDE PASSAS

Aldo CB
aldocblog@gmail.com


Por onde passas, a tarde atravessa meu olhar entre teu sorriso e meu desejo. Adio todo o anoitecer e peço aos deuses apenas as cores do por-do-sol. Sinto tua pele, por onde passas. E me sei alamedas, árvores, sombras. Transformado em líquidos, ocupo as dores de teu corpo - sou alento, sou teu poço. Loas, loas ao crepúsculo. Por onde passas, seguem luas, madrugadas. Perdido cantor, esqueço músicas, reinvento melodias em todos os teus gestos. E o alvorecer, lentamente, se deixa em minhas retinas, lugar onde, agora, só tu passas.

MUNDO MAGOADO

Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


AH! POR ISSO TANTA GENTE
CHORA SOZINHA...
OU ENGOLE SUAS LÁGRIMAS!
POR MEDO
DE PERDER A CAPA
AO DEIXAR EXPOSTO
UM CÁLIDO REFLEXO
DE SER MAIS FERIDA...
OU NÃO SER TÃO QUERIDA
NEM SER TÃO ESPECIAL...
NÃO MOSTRAO TÃO COMUM
A TANTOS!
ESCOLHEM CALAR
A ORDEM SE ADAPTAR
PREFEREM ENGOLIR A SECO
NÃO FALAR!


Obs: Imagens enviadas pela autora:
Foto 1 - carnaval em Pipa foto
Foto 2 – Recital Improvisado no ônibus no dia da Mulher Excursão Pipa fotos Fatima Brito

O ÚLTIMO FRACASSO


Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Não sabe ao certo há quantas horas está ali. Olha pela janela, mas não faz idéia de que horas são. Há tempos já havia concluído que esta não era uma informação relevante. As pernas tremem. Frio, cada vez maior.

Curiosidade sempre foi marca característica. Usa um termômetro. 38; 39; 39,5; 40... O frio só aumenta. Uma imagem distorcida... Nem sonho, nem pensamento... Corria com vontade, busca um lugar, um lugar melhor. Havia uma casa, alguns sorrisos, vozes... Mais frio.

Já não havia mais poros que não estivessem úmidos. Sentia sangue, mas não conseguia raciocinar o motivo. O corpo se misturava entre a dor e a dormência. Os sentidos estavam omissos, mas era possível ouvir o bater dos dentes. Luzes coloridas... Escuro... Um gramado. Sentia uma ansiedade, como quem não sabe o que vem na próxima esquina. O frio parecia agora um lugar comum. Vozes, um elevador, um vulto caminhando em sua direção e, estranhamente, se afastando em constante contradição com os passos.

Imagens frenéticas a cada segundo. Era insuportável raciocinar sobre cada uma. Um onirismo infinito. Canções de uma voz grave, solos de guitarra, silêncio. Dentes, um bater de porta, um murmúrio. Arrependimento.

Cenas descritivas sem final. Estaria podendo viver outra vez? Lágrimas, suor, um riso. Nada responde as coordenadas, mas não se importa muito. Inconsciência.

Dor em cada centímetro do corpo. Olhos com sensibilidade à luz. Racionalidade, explicação, razão... Não há frio. Não entende porquês. Muitas lágrimas...

Desespero. Ainda conseguia respirar.


* http://bettosantos.blogspot.com

UM TEMPO PARA SER…


Célia Cavalcanti


Ah, esse tempo que corre e se perde no emaranhado da vida...
Ah, essa alegria que chega e passa sem deixar rastros...
Ah, essa sede de me prender ao que é duradouro...
Ah, quantos amores, quantas dores, quantos sonhos, quantas perdas, quantos ganhos...
Será sempre assim?
Lá fora o gorjeio dos pássaros acompanha um prelúdio de Bach enquanto o sol derrama seus primeiros raios querendo aquecer o outono da vida...


Obs: Imagem enviada pela autora.

PLANETA TERRA: CONSENSOS


D. Demétrio Valentini *


A Campanha da Fraternidade deste ano está nos motivando para conferir a vida no planeta terra, e auscultar os sinais de alerta que está emitindo.

Como já pudemos constatar, o enfoque central da campanha deste ano está na constatação da imprescindível função do planeta terra para a existência da vida. A vida depende do planeta. As condições de vida do planeta ditam as possibilidades e as condições de vida dos seres vivos que habitam o planeta.

A Campanha aborda o tema pelo caminho dos sintomas, apontando com clareza dois: o aquecimento global e as mudanças climáticas. E´ compreensível que assim proceda, pois a vida é tão complexa que fica difícil sua abordagem direta. Os sintomas têm a vantagem de captar o que merece mais atenção. Como o médico que se debruça com carinho para auscultar os sinais vitais do paciente, assim somos chamados a fazer diante dos sinais de alerta emitidos pelo planeta.

Ambos suscitam apreensões, e levantam legítimas interrogações, cujas respostas devemos procurar, na medida de nosso alcance.

Mesmo que interrogações continuem, existe um leque de constatações e de indicações, em torno das quais dá para tecer um amplo consenso, muito importante para uma ação articulada e eficaz.

O despertar da consciência ecológica está nos levando a perceber a validade e a sabedoria da primeira recomendação feita à humanidade, de acordo com a linguagem figurativa da Bíblia. Segundo ela, Deus confiou a criação à humanidade, para que a cuidasse e cultivasse.

E´ muito importante captar bem o significado real desta linguagem figurada. Pois da correta compreensão desta passagem bíblica vai depender a atitude adequada que devemos ter com a natureza.

Pode ser que tenhamos assimilado esta linguagem de maneira equivocada, como se Deus tivesse entregue a criação ao homem para “dominar e explorar a terra”, sem critério, e sem respeito por suas condições de vida.

Em vista desta interpretação equivocada, alguns chegam até a acusar a fé cristã de ter sido a patrocinadora da mentalidade predatória que caracterizou a revolução industrial. Urge explicitar a interpretação verdadeira desta importante passagem bíblica.

Diante da atitude predatória do modelo de desenvolvimento decorrente da revolução industrial, vai se firmando a convicção de que os recursos do planeta são limitados, e precisam ser usados com cuidado e parcimônia, para não desperdiçá-los.

Assim, será preciso cada vez mais superar a cultura do consumismo e do desperdício, pela sobriedade e consciência da preciosidade dos recursos vitais que o planeta nos oferece.

Desta atitude, impregnada de fé e de responsabilidade humana, decorrem muitas posturas concretas, que esta campanha pode incentivar, se estamos dispostos a acolher seus apelos e a nos organizar pessoal e comunitariamente.

São diversas as frentes de ação ecológica que podem nos levar a uma cultura de preservação das condições de vida do planeta. Os cuidados com a água, por sua escassez e preciosidade, a pureza do ar, o cultivo adequado do solo, as medidas de preservação do meio ambiente, tudo isto pode se constituir em motivações consistentes a sustentar uma nova mentalidade.

Sejam como forem as condições do planeta, cuidaremos dele, e saberemos sintonizar nossas atitudes com a dinâmica de vida que rege sua natureza.



aprendiz



Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com


o ovo
arco de luz
gota de ar mistura cor e núcleo
a música e o silêncio
no aprendizado de uma vida breve

a ave
as asas resvalando no limite
o fôlego mais leve
as penas perdendo a luta
contra o vento


Obs: Imagem enviada pela autora.

SORTILÉGIO


Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


          Naquela manhã, perdi as asas. Comecei a cair. Não estava triste. Pousei suave e leve sobre a grama. Dancei e cantei, leve e livre. Refleti-me nos olhos dos amigos passivos que carregavam carroças transportando sonhos e flores; deitei-me nos braços do cigano afoito, senti o sangue quente da cigana no cio. No meio das flores me envolvi com a folhagem de pétalas ainda perfumadas. Cavalguei animal fogoso que me conduziu aos limites não sei de onde. E assim, feliz, eu fui.
          No fim do caminho, um fio de prata preso a um portão de ferro, fechado com correntes e cadeados. Soldados armados e truculentos querendo destruir alguma coisa. Não sabiam o que, mas precisavam destruir. Mandaram fazer e eles fariam. Tinham juízo, precisavam obedecer.
          Levanto a mão, abrem-se as correntes deixando-me passar. A estrada leva-me a lugares de medo, de onde partem vozes que mandam matar. Perseguem-me. Tento fechar a grade. Não posso. Ao meu lado, nas gotas de orvalho muitas faces – a minha está refletida, apreensiva, medrosa. Todas iguais.
          Homens passam correndo, animais passam correndo, nenhum deles sabe aonde vai. A cidade está vazia. As pessoas fugiram.
          Na casa abandonada a mulher veste roupas coloridas. Sinto-me cortesã, nos vestidos de rendas, babados, fitas e decotes. Lá fora envergo o capacete de general, ando de bicicleta, dirijo um velho Ford de bigodes, faço as coisas certas em momentos loucos. Sou vassalo, obedeço, sendo rei, ordeno. Carregam-me em triunfo pelas ruas ocupadas e despovoadas. Visto-me com as fardas e uso as dragonas dos generais, recebo visitas no quarto da cortesã, sou coroada rainha, aclamada, somos tantos e um só. Não contendemos, não temos juízo para tanto. A liberdade é a força dos loucos que me leva de volta à corda bamba. O vento sacode a vida. Um segredo me persegue. Reúne numa só as muitas faces – sinto a dor, a solidão do mundo, a minha própria solidão. Procuro a poeira da lua. Quero com ela encontrar minha unidade. A loucura não finda.
          A morte devastou o mundo, derrubando o homem no meio da vegetação. Velas iluminaram seu rosto, fosco, sem reflexos. A toalha branca, manchada de vinho que escorreu dos meus lábios no dia em que chorei. Nas cartas do baralho o meu destino. Os signos dizem-me que estou perto de encontrar. Não se o quê, mas quero. Volto pelos caminhos às avessas. A dor não mudou.


Obs: Texto retirado do livro da autora - O Olho do Girassol

E O JAPÃO?


D.Edvaldo G. Amaral (*)


Na madrugada da sexta-feira, 11 de março passado, o Japão sofreu o terremoto mais violento de sua história, centenas de vezes mais forte do que aquele que devastou a capital do Haiti, em janeiro do ano passado. Ao terremoto, seguiu-se no oceano o tsumani, com ondas de até 10 metros de altura e uma velocidade de 800 quilômetros por hora, que arrasaram as cidades da costa leste japonesa, como Sendai, com um milhão de habitantes. Até sábado passado, contabilizavam-se mais de 7000 mortos e cerca de meio milhão de desabrigados.

Isso acontece no país mais preparado do mundo para esse tipo de acidentes. São medidas preventivas nas construções dos prédios, com dispositivos especiais de segurança em suas fundações. São treinamentos da população que, ao menos em Tóquio, todos os anos, faz exercícios coletivos de proteção para um possível terremoto. Sofisticado sistema de alarme emite sinais sonoros e mensagens por rádio, TV e celulares, um minuto antes de começar o abalo sísmico. O sistema de resgate no último terremoto acionou imediatamente mais de 10.000 soldados, 300 aviões e 40 navios de socorro. Interessante é notar que em meio à catástrofe, como informa revista de circulação nacional, não houve pânico, nem se registrou qualquer tumulto ou cenas de violência ou saques. Todos andavam pelas ruas calmamente, disse à revista um brasileiro residente em Tóquio. Nos abrigos improvisados nas cidades destruídas pelo tsunami, reinava a mais absoluta disciplina.

Depois da devastação causada pelo terremoto, vive agora o Japão o terror do perigo da contaminação nuclear. Ele é o único país do mundo até agora, que sofreu um ataque nuclear, com as duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. As gerações de hoje não têm a mínima idéia do que seja uma radiação atômica. Uma publicação de 1982, distribuída no Japão, descreve os horrores da contaminação atômica.. A descrição de uma vítima nuclear é simplesmente horripilante. Cito: ”A carne das vítimas exposta à radiação, devido a queimaduras, começou a putrefar-se no mesmo dia, e logo alojaram-se vermes (larvas de mosquitos) aumentando-lhes o sofrimento. E, mesmo nas pessoas que, aparentemente haviam-se reestabelecido dos ferimentos e queimaduras do dia, apareceram depois efeitos posteriores, tais como quelóides, leucemia, câncer e outros, o que deu prosseguimento às dores das vítimas. Atualmente (1982) vivem ainda aproximadamente 400 mil “hibakusha” (vítimas do bombardeio atômico) e a maioria sofre ainda efeitos retardados, como uma enfermidade conhecida como “bura-bura”, que se caracteriza por um estado de intensa fadiga física, chegando ao ponto de impossibilitar a locomoção. Os “hibakusha” não podem deixar de temer que as radiações a que foram expostos tenham efeitos genéticos em seus descendentes. Por causa desse temor, não foram poucas as pessoas que não se atreveram a casar-se, ou que decidiram não ter filhos. Além disso, muitas desses sobreviventes ao bombardeio atômico têm hoje um profundo sentimento de culpa, por terem fugido, abandonando familiares e amigos em meio àquele inferno de chamas. Muitos perderam de uma vez toda a família, ficando solitários no mundo. Muitos vivem na pobreza extrema, incapacitados de trabalhar pela fraqueza extrema.”

Usina nuclear segura, afirmou com ironia um cientista europeu, é só aquela que ainda não foi construída. As demais...

Paira sobre a humanidade o pavor de uma catástrofe nuclear.


(*) É arcebispo emérito de Maceió.

CUIDADO COM O MEIO AMBIENTE GANHOU ATÉ CONSELHO MUNICIPAL


Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


“A mãe natureza geme em dores de parto”, diz o lema da Campanha da Fraternidade deste ano. Há quem diga que as dores da mãe natureza não são de parto, mas de doenças provocadas pela violência dos seus habitantes.

Pesquisadores que estudam as mudanças do clima, prevêem que se os habitantes da mãe natureza não mudarem o modo de vida provocador de lixo, fumaça, plástico e desmatamento, a temperatura na terra vai chegar a 40 graus centígrados de calor normal durante o dia. Será um desespero geral. Para começar a cuidar da mãe natureza, a constituição brasileira exige que os municípios e estados do Brasil tenham um Conselho Municipal do Meio Ambiente para auxiliar e vigiar o trabalho da Secretaria de meio ambiente.

O Município de Santarém muito atrasado, conseguiu criar uma Secretaria de meio ambiente, que ainda não revelou sua finalidade concreta, embora a constituição brasileira já tenha definido suas tarefas.Também o Município já criou legalmente um Conselho Municipal do meio ambiente. Este é ainda mais precário, pois ainda não saiu da teoria. É frágil, lento e já surge mais doente do que a Mãe Natureza.

Embora tenha poder deliberativo e portanto, pode decidir ações mais rigorosas e eficientes no cuidado com a mãe natureza que geme de dores, o estatuto do Conselho Municipal do meio ambiente de Santarém, conta entre seus membros com representantes dos madeireiros e do agro negócio, além de várias secretarias municipais. Ora, como é que se vai cuidar do meio ambiente tendo como conselheiros representantes das empresas que mais desmatam e prejudicam as florestas?

Como garantir eficiência de tal conselho tendo apenas um representante de entidades que já lutam na defesa do ambiente e representante de outras entidades que não manifestam essas preocupações? Por isso que, embora o município de Santarém já esteja dando exemplo a outros municípios que nada fizeram para cuidar do ambiente, no entanto, o Conselho Municipal de meio ambiente santareno é frágil, lento já carece de reforma.

Se a Constituição Federal instituiu os Conselhos municiais como forma de participação ativa da sociedade civil na adminstração da coisa pública, os gestores públicos manifestam sinais de recusarem essa colaboração. Tudo indica que os executivos municipais considerma os conselhos muncipais como seus adversários. Por isso, procuram de todos os modos esvasiá-los, sempre que podem estabelecem que o
secretário seja o presidente perpétuo, que a maioria vote sempre com os interesses do gestor executivo. Assim os Conselhos Muncipais sejam apenas uma figura decorativa. É uq eaocntece hoje em Snatarém, lamentavelmente.


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.

ecossonância

Euza Noronha


homens e pássaros
se confundem
nos ninhos
nos frutos
nas dores
entre pássaros
há afeto
pela árvore madura

nos homens
os lucros
apagam o futuro

BRASIL ASSASSINO

Frei Betto


Madrugada de sábado, 19 de fevereiro de 2011. Aglomerado da Serra, região habitada por famílias de baixa renda em Belo Horizonte. Três soldados da ROTAM (Rondas Táticas Metropolitana), comandados pelo cabo PM Fábio de Oliveira, 45, cercam dois pacatos moradores - o enfermeiro Renilson Veridiano da Silva, 39, e seu sobrinho, o auxiliar de padeiro Jeferson Coelho da Silva, 17.

Acusados de serem traficantes de drogas, tio e sobrinho negam. Os policiais militares gritam que traficantes têm que pagar propina. Eles não têm dinheiro. Obrigados a deitar no chão, os dois são fuzilados.

Vizinhos e amigos das vítimas se revoltam. Na manhã seguinte, queimam três ônibus. O governador Antônio Anastasia exige apuração. Os policiais são presos na quarta, 23. O cabo Oliveira, que comandava a patrulha, fica numa cela do 1º Batalhão da PM.

Na quinta, 24, o cabo recebe a visita de sua ex-mulher e do advogado Ricardo Gil de Oliveira Guimarães. O preso aparenta tranquilidade.

Na sexta, 25, ao amanhecer, o cabo Oliveira é encontrado morto na cela, enforcado pelo cadarço do calção que usava, amarrado ao registro da água do chuveiro.

Suicídio ou suicidado? Desespero ou queima de arquivo? Autoridades policiais que investigam o caso suspeitam que calaram definitivamente o cabo para evitar que denunciasse outros assassinatos cometidos pela PM mineira.

Dois inocentes trabalhadores mortos à queima roupa. O governador Anastasia está diante de sua primeira oportunidade de comprovar que a PM de Minas não pode ser confundida com reduto de assassinos.

*


Na segunda, 28 de fevereiro, o corpo de Sebastião Bezerra da Silva, 40, da Comissão de Direitos Humanos de Tocantins, foi encontrado numa fazenda do município de Dueré (TO). Os dedos das mãos estavam quebrados e, sob as unhas, sinais de agulhadas; os dedos dos pés tinham sido arrancados; e se apurou que fora asfixiado por estrangulamento.

Representante regional do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Silva havia denunciado PMs por prática de torturas e assassinatos. Nos últimos meses, apurava a responsabilidade pelo linchamento de um preso numa delegacia do interior.

Cabe ao governador Siqueira Campos, de Tocantins, apurar este crime hediondo e demonstrar que seu estado nada tem a ver com o velho faroeste onde imperava a lei do mais forte.

*

O presídio Urso Branco, de Porto Velho (RO), comporta 456 presos. A 31 de dezembro de 2001 abrigava 1,2 mil detentos. Muitos circulavam livremente pelos pavilhões. O poder judiciário determinou que todos fossem recolhidos às celas.

No dia 1º de janeiro de 2002, o diretor do presídio, Weber Jordano Silva; o gerente do sistema penitenciário, Rogélio Pinheiro Lucena; e o diretor de segurança, Edilson Pereira da Costa, decidiram misturar, no pátio, os presos jurados de morte com os demais.

Arrastados, os condenados pela lei do cão gritavam pelos corredores, pediam clemência aos agentes penitenciários, pois tinham certeza do destino que os aguardava. Em vão. Foram assassinados 27 presos.

No sábado, 26 de fevereiro de 2011 – nove anos após o massacre – a Justiça de Rondônia condenou 17 detentos, acusados de participarem da chacina, a sentenças de 378 anos a 486 anos. Os diretores e agentes penitenciários foram todos absolvidos.

A Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Porto Velho criticou a promotoria por inocentar o ex-diretor de segurança: “Era quem mais sabia que, se colocasse os presos no pátio, eles seriam mortos.”, declarou Cíntia Rodrigues, advogada da comissão.

*

Os três episódios acima descritos representam, lamentavelmente, o reino da impunidade e da imunidade que assola o Brasil. Defender direitos humanos no Brasil ainda é considerado um acinte. A Justiça é cega quando se trata de penalizar autoridades e policiais, pois não enxerga que a lei não admite que se aja acima dela. Nossos policiais recebem formação inadequada, muitos atuam com prepotência por vestirem uma farda e portar uma arma, humilham cidadãos pobres e praticam extorsões.

A ministra Maria do Rosário, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, deve se antecipar na exigência de apuração de tão graves crimes, antes que o Brasil passe a vergonha de se ver, mais uma vez, condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA.


Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org
 - twitter:@freibetto


Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

POR ESTES DIAS


Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com


Eu preciso,
Que tu me notes.
Que o sol surja
Só para mim.

Por estes dias,

Eu gostaria,
De sair da sombra,
De ser o objeto
Da tua compra,
Ser isso assim.

Sim! Nestes dias,

Não gostaria,
De ser tanta solidão.
Ou ser esse tanto
De silêncio.

Atenção um pouco
Enfim.
Poeira suspensa no ar,
Sombras
Que bordam o jardim
Teus lábios
E o fim.

A CRISE POLÍTICA PORTUGUESA


por

J. A. Horta da Silva






No artigo de opinião “Presidentes e Presidenciais em Portugal”, publicado neste blog em 2011/01/31, deixámos expressa a seguinte interjeição: «o futuro dir-nos-á se Aníbal Cavaco Silva irá ou não plagiar a actuação dos seus antecessores…» que foram politicamente muito mais intervenientes no segundo mandato do que no primeiro. Aliás, não deixa de ser oportuno recordar que, na vigência da campanha eleitoral, Cavaco Silva se mostrou pudicamente generoso relativamente à História do Portugal Democrático. Contudo, na tomada de posse na Assembleia da República, o discurso do Presidente da República cedo mostrou que o novo mandato seria desempenhado não só de um modo mais interveniente, mas também de uma maneira mais acutilante. Cavaco foi, inclusivamente, inovador na forma e no conteúdo do seu discurso de posse, quer por ter sido demasiado áspero em relação ao governo e ao Primeiro-Ministro, quer por ter pisado a fronteira da diplomacia, razão bastante para o surgimento de alguma turbulência transversal ao hemiciclo, que deu lugar a um acervo de acrimónia entre os deputados do PS, a um surto de júbilo nas bancadas do PSD e CDS e a uma disfarçada indiferença nas bancadas do BE, PCP e PEV.

Tendo em conta a longa caminhada que Portugal terá de percorrer para resolver o problema do défice – pejada de estorvos e angústias provocadas por maus desempenhos de uma panóplia de governos e por alterações de estratégia político-financeira da Alemanha e da França – o discurso de Cavaco Silva pareceu-me algo inconveniente e imprudente, tendo em consideração a agitação que perpassa por todos os países periféricos da zona euro e também pela turbulência que corre nos mercados bolsistas. Por outro lado, a utilização do Facebook por parte da Presidência da República, para difundir mensagens ao país, é o culminar de um modo de comunicação distante e frio e, porque não dizer embiocado de burel, facto que pode indiciar que a primeira figura do Estado padece de alguma intranquilidade. E por tudo isto, só me resta responder à maneira da linguagem usada no Facebook: «não gosto disto».

No entretanto, o país anda à deriva, a ponto de José Sócrates ter virado as costas a Cavaco e às oposições, para dar corpo a encontros com Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e Durão Barroso relativamente a reajustamentos do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC). É óbvio que, na presente conjuntura, ao PSD e CDS interessava mais que o governo estorricasse nas brasas do infortúnio, à procura de uma solução para o problema da dívida soberana. Aníbal Cavaco Silva sabe isso melhor que ninguém! Não foi ele que, na qualidade de Presidente do PSD, acabado de eleger no Congresso da Figueira da Foz, descalçou o governo do Bloco Central (6/11/1985) quando soube dos bons resultados, alcançados pelo meritório trabalho que o executivo de Mário Soares conseguiu pelas mãos de Ernâni Lopes, então ministro das finanças? Contudo, desta vez, os cofres da União Europeia além de não pingarem vintém, exigem retorno em euros. E por estas razões, o Primeiro-Ministro deixou o Presidente da República, o PSD e o CDS entre a espada e a parede, facto pelo qual existe uma enorme possibilidade de o governo cair esta semana, dando lugar a uma crise política de dimensões obscuras. Para os partidos de esquerda, não sei se os tempos que aí vêm são de consternação ou de regozijo, mas todos sabemos que estão criadas as condições para as grandes manifestações de rua, do agrado do PCP, BES e PEV e também das centrais sindicais. O futuro executivo, qualquer que ele seja, vai ter de aceitar as imposições da Alemanha e da França e não deve haver modo de evitar a entrada do Fundo Monetário Internacional. Mas desta vez, o FMI não só entrará em Portugal na qualidade de entidade fiscalizadora do cumprimento das medidas de austeridade que forem determinadas, mas também para ir reavaliando a necessidade de implementação de exigências ainda mais drásticas, caso aquelas medidas não dêem os resultados previstos.

Ocasionalmente, a sorte negligencia as adversidades, razão pela qual vamos recolhermo-nos ao abrigo da esperança. Mas o horizonte está repleto de serras bravas, de escarpas íngremes e de nuvens negras que prenunciam enormes dificuldades. Nesta fase da crise, implorar ao bom-senso já não adianta. É por este tipo de situações, que a política portuguesa se esvazia de credibilidade...


Coimbra, 20 de Março de 2011.


TEXTO DE JOSÉ DE ALENCAR GODINHO GUIMARÃES (*)


jfdelvitoralencar@hotmail.com


Quero muito acreditar ser possível viver sem o álcool.
Sinto com mais frequência o sabor da bebida.
Sou induzido a beber, pois meu cérebro pede.
Às vezes reluto, mas acabo cedendo.
Sensação de alívio ao tomar um gole bem gelado que não sacia minha sede.
Preciso de mais e mais.
Quando lúcido tento me enganar afirmando que não sou alcóolatra.
Mentira! Eu sei disso.
Sou dependente,
Viciado.
Exagerado em meu consumo lícito
Que me rouba o bom senso
E me faz seu refém.
Embriagado fico lento.
As palavras saem gaguejadas.
Meu comportamento muda
E preciso me esforçar para parar.
É sempre assim,
Vou perdendo o controle,
A dignidade,
Minha família,
Minha Inteligência,
Minha capacidade de amor próprio.
Sofro remoendo meu erro nas noites em claro.
Tento me convencer que é hora de sair.
Limpar o meu corpo,
Viver.
Ser exemplo...


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

LIÇÕES QUE A TERRA NOS DÁ


Marcelo Barros(*)


Diante da catástrofe ambiental que, nestes dias, se abateu sobre o Japão e, guardadas as proporções, quanto acompanhamos o sofrimento dos nossos irmãos e irmãs, vítimas das inundações em várias regiões brasileiras, só nos cabe ser solidários e nos unir para evitar ainda mais sofrimentos. Deus é Amor e o seu projeto é de vida e felicidade para todos os seres vivos. Quem crê nisso jamais aceitará interpretações que vêem estas calamidades como castigo divino. Nada de pensar em fim de mundo. A Terra sempre viveu etapas de crises e convulsões geológicas. Há bilhões de anos, houve uma época de gelo. Há 600 milhões de anos, os dinossauros e grandes répteis desapareceram do planeta em uma convulsão geológica. Outras mudanças ocorreram antes e depois. Onde em outras eras existia um vulcão, hoje é uma região turística de águas quentes, no sul de Goiás. No sertão da Paraíba, a mais de mil quilômetros do oceano, se encontram fósseis de peixes marítimos e sinais de que ali, um tempo, já foi mar.

Atualmente, há quem interprete os tempos atuais como uma nova época de mudanças geológicas. Embora sempre tenham ocorrido terremotos, tsunamis, inundações e secas, nos últimos anos, têm sido mais freqüentes e com mais intensidade. Desta vez, a humanidade tem sido ao menos corresponsável por estes desequilíbrios ecológicos. No Japão, país rico e organizado, a sociedade se considerava preparada para enfrentar terremotos. Mesmo assim, não conseguiu escapar de um tsunami terrível. E pior do que o terremoto e o tsunami, é o risco de contaminação nuclear, provocado pelo aumento do índice de radiação depois dos incêndios em dois reatores nucleares. Diante do que ocorreu no Japão, vários países estão revendo sua política com relação à energia nuclear.

No Brasil, temos usinas nucleares em Angra dos Reis. O governo tem projetos para construir outras, inclusive na Amazônia e no Nordeste, regiões sujeitas a inundações e desequilíbrios naturais. Ao ver o que ocorria no Japão, técnicos brasileiros juram que nossas usinas têm dois sistemas de refrigeração. Se um falhar, imediatamente o outro entra em funcionamento. Apesar disso, várias vezes, a população da região de Angra dos Reis tem sido treinada para reagir diante de qualquer problema.

Não existe segurança total. Até aqui, a maioria da energia utilizada no mundo vem de fontes fósseis (petróleo, gás natural, etc) e gera emissões de poluentes, gases de efeito estufa, além de que, um dia, se esgotarão. É preciso estimular o uso de energias renováveis (solar, eólica, de biomassa, etc). O Brasil tem clima e condições favoráveis para isso. Infelizmente, não existe energia que só tenha vantagens. Um país pobre deve colocar como prioridade garantir uma agricultura que produza comida para o povo e não, prioritariamente, combustível para veículos. Sem falar na destruição das florestas que a produção de etanol pode causar. Entretanto, de todos os tipos de energia, a nuclear é a mais perigosa, tanto pelo poder de destruição, quanto pelos riscos para a saúde da humanidade e da natureza. Sem falar no que significa em termos econômicos. Uma usina nuclear nunca sai por menos de dez bilhões de reais. Na maioria das vezes, na execução do projeto, este orçamento é ultrapassado. Vários estados brasileiros já usam energia eólica e com sucesso. Em Fernando de Noronha, parece que pararam um dos moinhos geradores porque sua hélice matava pássaros. A ilha é um reduto onde as aves aninham e se reproduzem. Este incidente chama a atenção para um problema: não se trata apenas de escolher o tipo de energia. A melhor energia é a não utilizada. Temos de mudar o nosso modo de vida e o padrão civilizatório em que vivemos. A “Carta da Terra”, documento aprovado pela UNESCO e a ser votado pela ONU, como declaração dos direitos da Terra, afirma em sua conclusão: “Como nunca antes, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. (...) Isto requer uma mudança na mente e no coração; novo sentido de interdependência e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão”. (...) “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida”.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

MAURINA OU A CORAGEM DA INOCÊNCIA

Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio


Morreu no ultimo sábado, em São Paulo, Irmã Maurina Borges da Silveira, franciscana, de 87 anos. De idade avançada e saúde muito frágil, faleceu em Araraquara em consequência de falência múltipla de órgãos. Religiosa desde muito jovem, aparentemente era uma freira como qualquer das muitas outras que por esse Brasil afora dão sua vida pelo Reino de Deus, fazendo os serviços mais humildes e obscuros e cuidando dos abandonados pela sociedade.

Sua vida, no entanto, foi marcada por fatos diferentes, que nunca sucederam a outras irmãs da mesma congregação. Irmã Maurina foi a única freira presa e torturada nos porões da ditadura militar brasileira. Em outubro de 1969, aos 43 anos, quando era diretora do Orfanato Lar Santana, foi presa em Ribeirão Preto, São Paulo. Ela cedia uma sala para reuniões de estudantes, ignorando que pertenciam ao grupo guerrilheiro Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN). Ao tomar conhecimento de que no porão do orfanato havia material impresso que eles ali guardavam, mandou queimar tudo. Depois, enterrou no quintal, sem nada dizer a ninguém, para não comprometer a instituição e proteger as órfãs por quem era responsável e também a suas irmãs de congregação.

Quando os militantes que ali se reuniam foram presos, Maurina foi levada junto com eles. Durante cinco meses a frágil mulher foi interrogada e barbaramente torturada: levou choques, foi pendurada no pau-de-arara e obrigada a assinar falsas confissões de ser amante de um dos militares. Ouviu insultos, calúnias, ameaças de morte, gritos. De tal forma foram as atrocidades a que foi submetida que o então arcebispo dom Felício da Cunha levou o caso à cúpula da instituição e excomungou dois dos delegados que se ocupavam da religiosa, Renato Ribeiro Soares e Miguel Lamano.

O caso de Irmã Maurina – totalmente inocente - inspirou pessoas como dom Paulo Evaristo Arns, na época bispo auxiliar e depois cardeal e arcebispo de São Paulo, a se engajar na luta social. O Brasil inteiro recorda com admiração a coragem do cardeal paulista em denunciar e combater as torturas e violações aos direitos humanos que aconteciam nos cárceres brasileiros. Todo o meio eclesial brasileiro tomou conhecimento do caso da Irmã Maurina, que recebeu o apoio de muitos cristãos, religiosos ou leigos solidários com sua situação.

Quando o cônsul japonês foi sequestrado e trocado por vários presos que foram exilados no México, Irmã Maurina estava entre eles. A notícia de que sairia do Brasil foi para ela um rude golpe. Não queria, não pensava em deixar seu pais. Algemada, entrou no avião sob os olhares espantados e chocados de muitos. Tempos depois, pode voltar ao Brasil. Desde então levou uma vida absolutamente discreta, na oração e no trabalho que sua congregação lhe pedia. Jamais consentiu em ser fotografada, nem apareceu na mídia.

Aos que lhe perguntavam como se sentia com respeito a seus carrascos, teve apenas palavras de perdão. Em recente entrevista, no entanto, declarou suspeitar que o que realmente detonou o processo de sua prisão foi o fato de que em sua creche mandavam crianças filhas de mães solteiras cujas famílias tinham posses, mas não queriam criar os filhos. Candidamente ela foi de casa em casa devolver as crianças e dizer que a creche das franciscanas não era lugar para elas. Pertencia às crianças pobres e necessitadas que não tinham onde viver. Irmã Maurina acreditava que seu gesto provocara raiva nas famílias e que a denúncia que a levou à prisão pode ter vindo dali.

Mas não cultivava ódio nem rancor de seus detratores e torturadores. Segundo testemunho de uma companheira de cela, ela dizia que sua prisão foi apenas a parte que lhe coube na História. E ponto.

Num momento em que as mulheres estão em alta no Brasil, vivendo a novidade de sua primeira presidente mulher, uma figura como a de Madre Maurina é digna de ser olhada com respeito e admiração. Sua coragem e fé inabalável diante das torturas, da prisão, do exílio varrem para bem longe o estigma de “sexo frágil” que pesa sobre a mulher em tom despectivo. A inocência e a fragilidade de Maurina foram transfiguradas em força pela graça d’Aquele a quem entregou sua vida. Agora, ressuscitada, ela o contempla sem véus nem parcialidades. Que interceda por nós, a fim de que possamos fazer um Brasil melhor para nossos filhos e netos.


Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.
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Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

PROJEÇÕES

CISNE NEGRO
Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com


Tanta gente me falou do filme “Cisne Negro” e foram tantas opiniões controversas, que, instigada pela curiosidade, dei à oportunidade de assisti-lo a função de quase tarefa: eu precisava entender o porquê do despertar de sentimentos tão intensos e difusos.

Já de início me lembro que o tema de “O Lago dos Cisnes” me faz reviver os primeiros recitais a que assisti na minha infância. Tanto como concerto, quanto como espetáculo de ballet, a música me trazia (já no tempo em que o romantismo e a angústia apenas ensaiavam os lugares que ocupariam na minha história), uma densidade e uma comoção inesquecíveis.

Mas “Cisne Negro” me levou além disso. Ou, talvez, aquém. Mas, com certeza foi muito mais intensa, dessa vez, a visitação ao lago profundo de meu psiquismo. Há que reconhecer que o filme conseguiu esta proesa: fazer-me atravessar os limites rigidamente guardados por minha censura.

É difícil lidar com a inveja. Quem não sabe disso? Tanto no lugar do invejado, quando assumindo o lugar do invejoso, sofremos de uma impossibilidade corrosiva e implacável. Nada do que o invejado possa fazer, minimizará a força do desejo mal conduzido do invejoso, de quem se julga vítima. Nada do que possamos alcançar por nossos méritos e esforços, trará descanso ao incômodo de não sermos o que o outro é, e que, às vezes, nos parece tão melhor, tão mais prazeroso, tão mais reconhecido, virtuoso, talentoso ou como quer que nomeemos as qualidades ilusórias que projetamos no objeto da filha bastarda de nossa admiração, a inveja.

Como crescemos acreditando nas lições de uma falsa moral que nos apresenta a inveja como pecado, tratamos de escondê-la, principalmente de nós mesmos. Quem tem coragem de se declarar invejoso de nascença, como Melanie Klein ousou afirmar que todos somos?

Mas, levados no deslizamento vigoroso e ao mesmo tempo encantador do Cisne Negro, deparamo-nos com a pior das invejas. Melhor dizendo, com a propulsora de todas as outras invejas: a inveja de si mesmo. Duplos, na inscrição pulsional que nos destina a lidar com amor e ódio, com vida e morte, com bem e mal, por toda a existência, havemos de aprender (e quanto antes melhor!) a respeitar e guardar reverência aos nossos dois aspectos constitutivos: eros e tanatos, Freud os nomeou. E respeitosamente, havemos de aprender a cuidar deles, como irmãos gêmeos que são, ainda que antagônicos.

Quando a educação nos estimula a pôr na gaveta, debaixo do tapete e dentro do fígado, os sentimentos ditos negativos, esquece de nos alertar para o poder crescente que eles têm, quando sufocados por muito tempo.

Brota, na pele da bailarina do filme, aquilo que ela não pode mais conter. “O que será que me dá, que brota à flor da pele?...” cantou o poeta, traduzindo pela arte da palavra a percepção daquilo cuja existência latente não pode ser negada. Ainda que se tente arrancar a máscara, ela adere, metamorfoseando-se infinitamente, para escapar de ser desprezada, jogada fora, porque tem uma função que precisa cumprir: de ser o avesso do avesso, diria outra canção, que se embasa em no mito de Narciso.

O fracasso ao triunfar é outro dos temas que mestre Freud, que passou pela vida declaradamente experimentando essa alternância de posições que a inveja impõe e que, por isto mesmo, não foi poupado de sofrer terriveis momentos, dentro de sua gloriosa jornada profissional.

Poder deixar que nossa força criativa se expresse em toda sua punjança, implica acolher a reação da nossa própria força destrutiva, que, ameaçada, investe desesperada em busca de garantir um lugar para si mesma, que julga ilegítimo e inalcançável.

Pôr no outro (mãe, colega, parceiro, mestre...) a responsabilidade pelo que não suportamos ou não conseguimos ser é apenas um jogo perverso com o espelho. Quebrado, ele reproduz, incontrolavelmente, em cada um de seus múltiplos pedaços, os demônios que reflete.

Apenas a integração do cisne branco com o cisne negro, dentro das águas misteriosas de nosso inconsciente, pode trazer a quebra do feitiço...

Mas o filme que trata da magia, capaz de desfazer o encantamento, já é um outro, de não menos força ou beleza: “Incêndios”. Chegaremos nele...

CONSIDERAÇÕES SOBRE LITURGIA, MÚSICA E CANTO LITÚRGICO

Maria Lioza de Araújo Correia
lioza.correia@gmail.com


É sabido por todos que lidam com liturgia, que esse importante serviço nem sempre é compreendido, valorizado e respeitado por bispos, párocos, padres, leigos e até pelas próprias equipes de liturgia, quando se tornam refratárias às mudanças da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, sob a alegação do “sempre foi assim”. Tal assertiva vem em defesa da continuidade de práticas obsoletas, face à reforma litúrgica e em detrimento do aprimoramento dos serviços ministeriais celebrativos, bem como, da evangelização que a liturgia proporciona pela participação consciente no Mistério Pascal de Cristo, haja visto o que diz a Sacrosantctum Concilium 10: “A liturgia é o cume e a fonte da vida da Igreja”; e “A obra da salvação continua na Igreja, pela liturgia”; (SC 6).

Na verdade, por força do nosso batismo, todos nós cristãos fomos inseridos nesse grande mistério da morte e ressurreição de Cristo, e, por essa graça, recebemos o espírito de adoção como filhos de Deus,(Rom 6,4; Ef 2,6; Cl 3,1; 2Tm 2,11). Por isso é que, a nossa participação na celebração do Mistério Pascal de Cristo deve ser "consciente e ativa, de acordo com as exigências da própria liturgia e por direito e dever do povo cristão, em virtude do batismo" (SC 14), como "raça eleita, sacerdócio régio, nação santa e povo adquirido" (1Pd 2,9, cf. 2,4-5). Daí, a recomendação para que os ministros da Igreja procurem "por todos os meios, restabelecer e favorecer a participação plena e ativa de todo o povo na liturgia". (SC 14).

Com efeito, é através da liturgia, em que a "obra de nossa redenção se realiza", especialmente pelo divino sacrifício da eucaristia, conforme reza o Missal Romano, na oração sobre as oferendas do IX domingo depois de Pentecostes. Para realizar tal obra, Cristo está sempre presente nas ações litúrgicas de sua Igreja. Assim, além de sua presença especial sob as espécies eucarísticas, Cristo se faz presente, também, nos sacramentos; por meio de sua palavra, quando se lê a Escritura; enfim, na oração e no canto da Igreja (SC 7). Daí que, os agentes de pastoral litúrgica carecem de permanente e contínua formação, tendo em vista que o bom desempenho da liturgia depende do processo formativo, cuja finalidade é propiciar que os ministérios litúrgicos sejam exercidos com conhecimento e consciência do que significam, para não se tornarem meras tarefas auxiliares das celebrações.

Dentre os elementos de grande importância para a liturgia, a partir do Concílio Vaticano II, destacam-se o canto e a música. Entretanto, a implementação do canto litúrgico nas celebrações, foi uma caminhada difícil e tormentosa por falta de um entendimento de que o canto e a música tem a finalidade de acompanhar os ritos que estão sendo celebrados, ou de ser o canto o próprio rito, a exemplo do Hino do Glória. Assim é que, os cantos litúrgicos vieram substituir os chamados "benditos" e hinos devocionais, geralmente de cunho catequético, que eram cantados nas missas. Daí surgiu a necessidade de que fossem observados alguns critérios para que o canto e a música pudessem, realmente, exercer a função ministerial de acompanhar o rito nas celebrações eucarísticas, ao invés de serem apenas um atrativo para motivar a assembléia. Nesse sentido, a Instrução Romana "Musicam Sacram", explicando a intenção do Concílio Vaticano II, através do seu primeiro documento, a "Sacrosanctum Concílium", para a sagrada liturgia, afirma que Liturgia é cantada e não existe uma celebração litúrgica na qual a música tenha apenas a função de "enfeite". (CNBB Hinário Litúrgico, 3º Fascículo, PÁG 10).

Por outro lado, o Motu Próprio de Pio X, definia a música sacra como "parte integrante da Liturgia solene, participando de seu fim geral, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis". (Idem, ibdem).

Ainda, a propósito do canto e da música, cumpre observar que, para caracterizá-los como litúrgicos, alguns critérios devem ser levados em consideração, tais como: os textos dos cantos serem originados ou inspirados na Bíblia; haver a relação clara dos referidos textos e das respectivas melodias com o tempo e as festas do calendário litúrgico, observando-se também o sentido teológico dos textos. Além disso, há outros critérios, como: possuírem os cantos melodias simples e acessíveis e que sintonizem com a linguagem poética; tenham raízes na cultura popular, facilitando a aprendizagem pela assembléia, afim de que esta possa exercer a participação ativa consciente e frutuosa no Mistério Celebrado. Sobre o assunto, vale transcrever o que diz Gregório Lutz, padre e doutor em Liturgia, em magistral entrevista à ZENIT: "Penso que devemos ter cuidado não somente com a qualidade artística do nosso canto, mas também com sua função litúrgica. Sendo de uma assembléia, o canto não deve ser individualista, nem totalmente subjetivista ou até sentimental. Evidentemente não deve faltar uma boa qualidade artística na letra e na melodia".

E mais adiante explica: "Liturgia não é só o ritual que o clero realiza, mas é Jesus Cristo, nosso Sumo Sacerdote no meio do seu povo sacerdotal e com os membros do seu corpo místico celebrando a obra divina de salvação da humanidade. O Concílio Vaticano II, como suprema instância da Igreja, ratificou esta visão da Liturgia e colocou as balizas para a reforma litúrgica que devia facilitar que todos que no batismo foram ungidos sacerdotes, pudessem celebrar a Liturgia, participando dela ativa, externa e interna, consciente, plena e frutuosamente, e assim exercer o seu direito e dever como povo sacerdotal (cf. SC 14), em lugar de apenas assistir da nave da igreja ao que o clero faz no altar. Conforme o Concílio, os fiéis devem até aprender "a oferecer-se a si próprios, oferecendo a hóstia imaculada, não só pela mãos do sacerdote. (SC 48)." (ZENIT.org - 20.03.2011).

Infelizmente, falta ainda, essa consciência de que as assembléias celebrantes "têm direito e dever como povo sacerdotal" de cantar os cantos litúrgicos que favorecem a sua participação efetiva e consciente nos ritos celebrados, conforme acima explicitado na SC 14. Todavia, para que a ação participativa se realize, é de suma importância que a assembléia seja motivada para os cantos, através de ensaio dos mesmos, a realizar-se sempre um pouco antes da celebração.

Tais importantes observações, apontam para a conclusão que logicamente se impõe, qual seja: a não substituição do canto e da música litúrgica por outro tipo, não condizente com os critérios recomendados pela liturgia, nem afinados com o sentido da celebração e do tempo litúrgico, porquanto, isso vai de encontro à unidade litúrgica da Igreja, bem como, à linha adotada pela própria CNBB. No caso, mister se faz uma formação litúrgico-musical que pode ajudar o entendimento e a aceitação das orientações para que o canto e a música se tornem propriamente litúrgicos, como requerido para as celebrações rituais da Igreja, especialmente no que se refere à celebração eucarística.

Essa conclusão é válida, também, para as denominadas "missas de envio", de "encontros", de "pós encontro", etc., em que se constata a invasão de cantos não apropriados à celebração eucarística, oriundos dos movimentos religiosos divulgados pela mídia, aplicando-se, a mesma conclusão, também, às missas de sétimo dia, de bodas, de aniversários, etc., em que os cantos litúrgicos são totalmente ignorados e substituídos por outros, escolhidos aleatoriamente ao gosto dos interessados, através de pessoas alheias à lirturgia, resultando na apropriação da celebração para se prestar culto à personalidade do morto, em vez de uma celebração em sufrágio de sua alma. Mutatis mutandi, o mesmo se aplica, também, às outras celebrações acima referidas, em que, o culto às personalidades, ofusca o Mistério Pascal de Cristo, que está sendo celebrado. Tais distorções merecem uma reflexão por parte daqueles que tem a responsabilidade na preservação da celebração eucarística, tendo em vista que a liturgia não é uma opção, mas, uma diretriz para toda a Igreja, por força do Concílio Vaticano II, cuja Constituição sobre a sagrada liturgia, a ‘Sacrosanctum Concilium’, no número 7, diz; "com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo". E no número 16, assim prescreve: "Nos seminários e nas casas religiosas de estudo, a liturgia deve ser considerada matéria indispensável e prioritária".

QUE?!

Nicole Bianchini
http://daiemdiantetudoexpressao.blogspot.com/
nicole_bianchini@hotmail.com


Já não me surpreendo com obviedades
Com quem finge um beijo ou deixa pra falar só bem tarde,quando se cria coragem.
Se o trânsito não anda,Se olhos não se encontram
Se falta tempo pra ver um filho crescer,
Já não me surpreendo mais.
Isso não significa que crio um conformismo dentro de mim.Não.
Apenas não me exaspero mais.Dou tempo ao tempo
E sinônimos que parece que invento.
Dou uns gritos também,as vezes.
Não me surpreendo mais com certas obviedades,
Eu te ligo.E caramba!Liga nada.Mas como eu disse,já nem espero mais.
Não eu,Nicole qualquer coisa.
Me surpreendo é com as excessões,
Essas sim ainda me deixam com o queixo caido.
Uma ligação de longe,Um abraço muito apertado,Um olhar sincero,
Garotos que pensam em coisas sutis,que sabem desenvolver uma conversa.
Uma canção bem composta e bem cantada,
Como se feita em um reino de palavras,onde acento agudo parece varinha mágica.
Onde sim,ainda há encantos.
Me surpreendo hoje com poucas coisas
Não mais com obviedades
Nessa era digital,onde tudo é touch e tal
Aspirador fala,Geladeira avisa quando tá gelada
E celular "troca de roupa",
Tenho é que ficar atenta,tento sempre me manter informada.
Mas todo dia faço prece,da braba,pra amor não sair de moda
Pra não virar "out of fashion",Pra não deixarem de usar.
Isso sim,
Seria óbvio demais pra minha mente suportar.


Obs: Imagem enviada pela autora.

QUERO


Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com
(mpaula26@hotmail.com)


Quero você fazendo parte dos meus sonhos. Conhecê-lo e me fazer conhecer. Sonhar juntos e realizar. Ir em busca, conversar, nos conhecer, saber ceder, saber avançar, saber recuar, respeitar as individualidades, viver em conjunto.

Quero as mãos, quero o todo.

Quero apagar as tristezas, acender as alegrias.

Quero carinho, amizade, apoio, encontro, rumo, força...amor, desejo, paixão.

Quero nossos olhares se encontrando.

Quero o olhar na mesma direção. E quando olhando em direção opostas que seja descobertas, o novo, a aprendizagem.

Quero o caminhar juntos.

Quero as vozes suaves. E quando as vozes se alterarem, que seja uma de cada vez e que possamos ouvir o que verdadeiramente quer ser dito e que possamos compreender também o não dito.

Não quero só o fácil. Quero o difícil vencido juntos.


Obs: Imagem enviada pela autora.

A (in)utilidade das coisas ou a (in)suficiência das pessoas*

Patricia Tenório
http://www.patriciatenorio.com.br
patriciatenorio@uol.com.br




05/03/2011


          Arranco as penas de mim ao ler, devagar e atenta, mecarregaTECARREGO, de Rodrigo Malagodi.

          Não sei se porque bebo do mesmo e do rio novo de Heráclito, quis disfarçar a vertigem do mergulho na duplicidade do (dis)curso que Rodrigo se propõe e nos convida.

          Do ser humano sabemos pouco, ou quase nada. Apenas que o orgulho e a humildade caminham juntos e a léguas de distância. Caminham para não petrificarem os sentidos, para porem-se em movimento e do movimento gerar a criação.

          …enquanto não aprendo a andar DEVAGAR VOCÊ APRENDE mas se você me carregar, como vou aprender? BOA PERGUNTA, MAS A PRIORIDADE AGORA É QUE VOCÊ SAIA DO LUGAR, DE ALGUMA FORMA, O MOVIMENTO…

          Nas curvas, os corpos se aproximam, e sob o peso um do outro, sincronizam a respiração. Somente posso quando traço um arco ao encontro do diverso, quando nos perfazemos ponte de significado e sentido.

          “O traço que se riscar não se afirmará como proibição mas como estrada de um território a outro.

          (…) O outro caminho permite definir o próprio.

          (…) Com-um é o princípio e o fim na circunferência do círculo”.

          Naquela estrada, entre paredes imaginárias, com portas que se abrem e fecham ao aprendizado de si, ao aprendizado do alheio, ao aprendizado da vida, dois seres famintos e falantes exprimem nossas fraquezas, conflitos, incertezas.

…sabia que você ia cair

desculpe-me

sem problemas

não tenho forças

sou um fardo

não, seu peso é necessário

mas você não agüentou, estamos…

no chão, mas posso melhorar

já é o bastante

você é gentil

          Levanto-me de onde estou, na (in)utilidade das coisas, na (in)suficiência das pessoas, na busca da repercussão às indagações, pois há tanto sinto falta das palavras, de sentido. Da escrita.

          “O homem, encontrando em si a ordem que rege o universo, não se locomove como estranho nos lugares que freqüenta. O fogo da razão habita o lugar elevado, outrora reservado aos deuses. Quem retorna dessas culminâncias abre nos estágios inferiores trilha iluminada, garantida aos que não se contentam com a função de se alimentar e reproduzir.”

          Paro diante da fresta que se forma entre o que Rodrigo, Heráclito e Schüler exprimem. Me encolho inteira e assumo a responsabilidade pelas passagens de um canto ao outro, escoriações, soletrar esquinas, recolher fagulhas.

          …CANSEI do quê? DA CONVERSA ou do meu peso? DO PESO DA CONVERSA a mania de querer entender SIM, AGORA É SUA VEZ do quê? DE ME CARREGAR…

         
          Para quê o outro? Para quê coragem? Despeço-me do que fiz, abraço o que fui, sabendo que não retornarei a mim, e a mim continuarei crescendo, crescente em minhas mãos.

          “À noite, o homem ace(n)de a (à) luz, ao morrer para si mesmo, apagada a visão; mas em vida ace(n)de, ao dormir, (a)o morto, apagada a visão; na vigília ace(n)de (a)o que dorme.”

         Não basta perder-se para encontrar o que habita em nós. É preciso abrir espaço para que se flua, o rio, a vida, para que se desatem os nós que em nós fazemos.

VoCÊ E A mIM E A VoCÊ E A NóS E a NóS E a NóS aNoS e AnOs e A nóS

E A nÓs

E NuNCa dEsAtAr

Os


NóS


qUe SoMos


vOcê E eu e você? cadê você?


Desfazem

Nós

Tramam…

Nós seguimos, nós

Desfazemos,

Um a um, nó, só, nós…

Desfazem-se os nós,

Nós,

Podemos desfazer os nós, contras e prós

Nós e nós

Nós em nós com nós.

Não há nós

Fio reto para tecer-nos

Ternos ex-nós.


(Nós, Emilson Zorzi, Setembro/2010)



Param

As vespas cantantes

No santuário

Do meu canto límpido

Você

Atravessa o espaço

Outrora alheio



Agora nosso

Para

Desfazer os nós

Que em nós se armaram

Até os ossos



Vem

Na manhã fria

Uma luz, um fio

A costurar palavras

Onde agora posso

Refazer os nós

Dos que se amaram

Até os ossos


(Nós, Patricia Tenório, Setembro/2010)

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* Um estudo a partir de mecarregaTECARREGO, de Rodrigo Malagodi, prelo e “Heráclito e seu (dis)curso)”, de Donaldo Schüler, L&PM. Os trechos que pertencem ao primeiro texto estão em itálico; os que pertencem ao segundo, entre aspas.