segunda-feira, 29 de agosto de 2011

VESTÍGIOS III


Aldo CB


Teu gesto feito memória. Em minha pele permanece invisível a tatuagem, lembrança da leveza de tuas mãos em mim como se fosse a essência do tocar. E não sei teu nome nem pronunciar teu rosto e menos ainda dizer teu jeito - te sei quase anônima. Apenas sigo com a solidão de teu toque a lutar para que a vida não seja essa ausência de rostos, de falas, de jeitos, de corpos, nem se resuma a essa tatuagem tão invisível quanto sozinha, perdida em teu esquecimento.





SOU POETA



Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


NÃO SOU PROFETA
SOU POETA!
PRECISO FALAR PALAVRAS
QUE BROTAM DO PEITO
SÃO MINHAS VERDADES
SE LHE SERVIR FAÇA PROVEITO!
CASO CONTRÁRIO,
NEM OUÇA DIREITO...
SÓ NÃO PEÇA PARA CALAR
SILENCIAR
ESSA ALMA LIBERTA
A SE EMOCIONAR
PORQUE SOU POETA
GOSTO MESMO DO BLÁ BLÁ BLÁ!
NÃO SOU PROFETA...


Obs: Imagem da autora



EQUILÍBRIO



Betto Santos*


Eu já caí, de tanto olhar pro céu. O que me protegeu de espalhar minha cabeça pelo meio-fio da calçada foi o fato de eu sempre andar no meio da rua. Os carros que vêm na minha direção não passam de velozes e barulhentos fantasmas que meus inimigos vivem inventando para me testar. Eles conhecem meus medos melhor do que eu.

Eu já me perdi, de tanto olhar pros lados. O que me fez chegar onde estou foi a companhia desejada das pessoas que me são mais importantes, jamais permitindo que eu entalhasse na areia pegadas solitárias. Encontrei caminho e refúgio nas esquinas que a multidão esqueceu de ver, enquanto tentava trazer o horizonte pra mais perto. O tempo passa sozinho, e não há nada que possamos fazer para assumir seu controle.

Eu já petrifiquei minhas pernas, de tanto viver o passado. Minhas amarras foram soltas pelo súbito empurrão que você me deu. Me dóem os pés, dor essa que ignoro toda vez que minhas solas encontram novo chão. Os fantasmas, de repente, somem, e a estrada dos meus dias se desenrola em minha frente como um tapete vermelho. Basta que haja equilíbrio. E esse equilíbrio não se dá de olhos fechados, muito menos se olhando por onde anda.

Enxergo o auge da minha vida como o equilíbrio na agulha. Qualquer passo descuidado trará o chão para um brusco encontro com a minha face distraída. Não sei o meu próximo passo, mas vivo meus dias e noites em função de fazer com que os meus pés toquem sempre o caminho que eu construí.

A gente faz o nosso caminho, e é normal que ele seja estreito e sinuoso. Ninguém consegue andar em linha reta por muito tempo.




Obs: Imagem enviada pelo autor.



Graça

cairo de assis trindade


pela poesia que vi
pelos sonhos que sonhei
pelas coisas que curti
pelas mulheres que amei

pelo que dei e perdi
por ti e por quem nem sei
por tudo até agoraqui
o que sofri e cantei

pelo sim e pelo não
a vida não foi em vão

...em mil pedaços...


CauReb

Meu corpo dói....
Fui pisoteada.
Minha cabeça lateja...
Completamente enganada.

Fui roubada,
E o vazio
Tomou conta de mim...

Estou sangrando...
Meu coração está destroçado...

...estou aos pedaços...


25/06/2011


Obs: Imagem enviada pela autora.


DA URGÊNCIA DE VIVER



Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com


          Em uma palestra proferida em 1987 para estudantes de cinema, Gilles Deleuze aponta nos personagens de Dostoiévski, filmados por Akiro Kurosawa, uma forma de agitação pela qual estão sempre vitimados pela urgência: “Tânia me espera, é preciso que eu vá”, ou “É um incêndio, é preciso que eu vá” – mas qualquer incidente ou encontro casual com alguém os leva a esquecer a pressa e o chamado. Isso acontece porque, ao mesmo tempo em que são presas dessa urgência, os personagens do autor russo “sabem que há uma questão ainda mais urgente, embora não saibam qual”. Essa noção de que há um problema mais profundo do que aquele da circunstância do momento paralisa os personagens e os desperta para alguma coisa que, embora não definida, é ainda mais urgente. O próprio Kurosawa tem em seus filmes essa marca dostoievskiana de criar personagens inquietos, que se metem em situações incríveis, mas nunca perdem o sentido dessa “coisa mais urgente” que está além de tudo e é a mais importante de todas.
          Isso configura uma atitude basicamente filosófica diante da vida. Vamos dizer que os fatos do dia-a-dia são matéria de informação, e essa “coisa mais urgente” seja matéria de contra-informação efetiva, para usar as palavras de Deleuze, porque resiste aos fatos cotidianos e corriqueiros, vai mais além da opinião e da ação imediata.
          A sociedade em seus mecanismos de controle não está além do cotidiano; muito ao contrário, dobra-se sobre o cotidiano para mantê-lo dentro de suas normas. O controle se exerce com objetivos pragmáticos, para conseguir resultados concretos. Por isso Deleuze define a arte como ato de resistência à sociedade de controle. Mas não é só isso. Ele se reporta a um conceito de André Malraux: a arte é a única coisa que resiste à morte. O exemplo que ele invoca é bem significativo: uma estatueta de 3 mil anos antes de Cristo ainda causa prazer por sua beleza, e no entanto passaram-se milênios de civilizações e culturas diferentes.
          Considerando que a morte é um controle da vida, no sentido de uma limitação imposta, pode-se estender esse conceito até mesmo a gestos e símbolos de resistência que, se não são necessariamente obras ditas de arte, mantêm com elas uma afinidade de significação nos modos como se originam e como afetam a sensibilidade humana. Mas existe sempre, em toda obra de arte, um traço de resistência, de avanço em relação a sua época e de perenidade, no sentido em que ela vale para outro tempo muito além, talvez para sempre, o que é muito para se dizer. Por isso Paul Klee, o pintor, dizia que toda obra de arte faz apelo a um povo que ainda não existe.


Obs: Imagem enviada pela autora.


DERRADEIRO


Dannie Oliveira


Pulou. Não sei ao certo qual era a altura daquela ponte, mas se atirou lá de cima. Foi despencando. Caindo. Súbito. Rápido. Instável. Deixou para trás a mulher. A filha pequena. O cachorro que ganhou daquela tia que morava na Argentina. O carro importado comprando em 42 vezes. A casa da praia onde adorava ir ao final de semana. O cavalo alazão que ganhou numa aposta, mas que apesar de ter muita vontade nunca aprendeu a andar. As viagens, Paris, Amsterdã, Chile, Salvador. Os livros raros. A coleção do Queen. As motos em miniatura na estante. As gravatas importadas. O celular e o notebook de última geração. O escritório mobiliado com móveis de lei, que no fim deram um ar mais sutil ao seu ambiente de trabalho.

Deixou para trás, amores. Aquela moça de cabelos castanhos que vez o outra mantinha contato (alguns relacionamentos resistem às circunstâncias e até mesmo um casamento). Para ele era um segredo gostoso. Deixou os amigos, Vitor, Gamão, Hector, José. O time de futebol que jogava as quartas-feiras no campinho do condomínio. Deixou poucas inimizades (ele era um cara legal e porque as pessoas se chateariam com ele?). Deixou duas irmãs, ah! Já ia esquecendo ... eram três porque ainda tinha aquela moça filha do pai num outro casamento.

Deixou primos, primas, sobrinhos, sobrinhas, cunhados. Deixou clientes. Um ex-sócio.

Deixou para trás os prêmios que recebeu. As festas que foi. Aquela gente chata do meio profissional, mas que ele era gentil em sorrir. Os vizinhos legais, que sempre foram prestativos (pessoas assim são raras). Deixou os cactos na varanda. Eram práticos e não precisavam molhar todo tempo, por isso que gostava deles. Deixou aquele último projeto incompleto. Droga! não poderia ter feito aquilo!

Pulou. Foi ligeiro. Não como uma pluma ao vento (porque ele era grande e pesado demais). Pulou direto nas águas escuras e fundas daquele rio. Sumiu. Meio minuto depois saiu. Caminhou pelo leito de pedrinhas cinza. As vezes bate uma doideira. Sorte que não caiu sobre as pedras


Obs: Imagem enviada pela autora.


EXPULSÃO



Djanira Silva


          Preciso da chuva para sentir a alegria do sorriso de um arco-íris atravessando o meu olhar.
          Choro e sinto nos meus cabelos o deslizar de tuas mãos. No corredor da morte sorrio dos enganados, dos condenados à vida. Apenas me assusta o pio da coruja, o uivo do lobo, a risada da hiena, o olhar indiferente do homem.
          Preciso voltar para escrever uma história sem fim. A menina me visita todas as noites e me ensina um jeito de encontrar as estradas, um jeito de abrir janelas nas paredes, de ver nas nuvens rebanhos de carneirinhos ou a imagem do Padre Eterno.
          Minha alma velha caminha sempre na mesma direção, passos contados, horas contadas, enganos numerados, um, dois, três e a esperança mentindo, nada se cumpre.
          As coisas sonhadas não são verdadeiras e nunca saberei quando será dado o último suspiro.
          Do ventre da mulher o homem expulso. Começou no paraíso.
          Quando todos os corpos se tocarem, todas as mãos escreverem no ar o gozo da vida, estarei no caminho certo. Para me ensinar ganharás a luta, tocarás a flauta, afinarás o piano e juntos terminaremos essa história.
          Eis a vida, a vida escrita em linhas retas, almas tortas trocadas nos caminhos da ida.
          Sozinho, não tinhas a quem mostrar a criação.
          Rezamos ladainhas para implorar, responsos para encontrar e, no de profundis, aliviamos as dores das lágrimas retidas.
          O olhar, silenciosamente, amortalha a dor nas pálpebras medrosas.
          Nas madrugadas esquecidas aprendi um jeito especial de amar, de beber no teu corpo o vinho da entrega.
          Escrevo hoje, histórias de uma dor escorregadia e lenta, atrelada às horas, à vida, a que segura tempo e silêncio, silêncio que sufoca a alma extraída da solidão, a que foi dada ao homem, a que ele não pediu e nem conhece.
          Espero, espero sempre, alguém para comigo atravessar a dor.


Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega -


DOM CLEMENTE ISNARD



D. Demétrio Valentini *


       A notícia chegou rápida. Dom Clemente Isnard tinha falecido. Pelas seis da tarde do dia 24 de agosto de 2011, de repente, em conseqüência de parada respiratória, D. Clemente José Carlos Isnard concluía sua fecunda caminhada de 94 anos de vida, 74 de religioso beneditino, 68 de padre, e 51 de bispo. Como pedira a Deus, morria sem incomodar ninguém.

       Com a serenidade de sempre, concluía sua vida como quem encerrava uma Eucaristia bem celebrada. Ele que tinha dedicado à liturgia sua competência de perito e sua vivência de beneditino, terminava a vida como quem encerrava uma celebração tranqüila e harmoniosa. Morria transmitindo paz e garantindo bênção.

       O simbolismo da liturgia, que contagiou tanto a vida de Dom Clemente, envolve sua partida, como última lição deixada por ele. O cair da tarde evoca o declínio da vida. Às seis horas os monges acendem a lâmpada, que esconjura as trevas e ilumina as mentes. Da liturgia terrena, ele passou tranqüilo para a liturgia perene.

       Mas o simbolismo de sua morte não pára aí. Nestes dias finais de agosto, estávamos nos preparando para recordar Dom Helder e Dom Luciano, outros dois grandes bispos brasileiros, falecidos no mesmo dia, 27 de agosto, véspera da festa de Santo Agostinho.

       A estes dois bispos que desenharam com suas vidas a grandeza da CNBB, se junta neste final de agosto Dom Clemente, outro gigante que engrandeceu o episcopado brasileiro com sua competência e seu testemunho. Parece a subida ao Tabor, acompanhada dos três testemunhas escolhidos por Jesus: Helder, Luciano e Clemente!

       Dom Clemente foi um grande esteio da renovação litúrgica de toda a Igreja, promovida pelo Concílio Vaticano II. Foi ele que transmitiu segurança e firmeza à caminhada litúrgica promovida no Brasil pela CNBB.

       Sua nomeação para bispo de Nova Friburgo em 1961, foi de todo providencial. Iniciado o Concílio, ele foi logo identificado na CNBB como bispo de referência para assuntos litúrgicos. O primeiro tema abordado pelo Concílio foi justamente a liturgia. Dom Clemente se sentiu logo à vontade, como bom atleta que cai na piscina e nada de braçadas. Os bispos brasileiros sentiam firmeza nas orientações transmitidas por Dom Clemente.

       Terminado o Concílio, foi logo eleito para presidir o Secretariado Nacional de Liturgia, a quem estava afeta a ingente tarefa de implementar a reforma litúrgica preconizada pelo Concílio. E ele desempenhou esta missão com muita segurança e sabedoria.

       Exerceu diversos cargos, tanto em Roma como no CELAM e na CNBB. Permaneceu trinta anos na mesma diocese, até se tornar bispo emérito, quando generosamente aceitou a incumbência de ser o Vigário Geral na Diocese de Duque de Caxias. O que o guiava não era a busca de status eclesial, mas o serviço à Igreja.

       Como bispo emérito, teve a coragem de expor suas reflexões sobre questões eclesiais muito complexas, manifestando seus sonhos de uma Igreja reformada à luz do Vaticano Segundo. Publicou o livro “Reflexões de um Bispo Emérito sobre as Instituições Eclesiásticas atuais”, que permanecerá certamente como expressão madura de sua coerência de pastor e de seu testemunho de profeta.

       Tive a honra de gozar de sua amizade e estima, que sempre me comoveram pela nobreza de suas manifestações. Em carta que me escreveu de próprio punho, em julho do ano passado, manifestou de maneira singela sua disposição de trabalhar, apesar de sua avançada idade. Escreveu ele textualmente: “Ainda gostaria de viver mais alguns anos para concluir certos trabalhos...” E lembrou o livro do seu grande amigo, Padre Bugnini, secretário da Comissão de Liturgia durante o Concílio.

       Dom Clemente concluiu a grande liturgia de sua vida aqui na terra. Que ele continue lá no céu intercedendo por nós. Precisamos de seu exemplo para sermos coerentes com a caminhada de renovação eclesial, proposta pelo Concílio, e assumida de maneira tão generosa por Dom Clemente.





“PADRES CASADOS?”



D.Edvaldo G. Amaral (*)


          Quatro grandes mestres do Direito Canônico uniram-se para escrever sob o título “PADRES CASADOS?” um livro de apenas 144 páginas, respondendo de forma simples, concisa e bem documentada a trinta perguntas sobre as razões de a Igreja latina manter o celibato clerical como exigência para seus sacerdotes. São eles: Artur Cattaneo, canonista e teólogo de Veneza, o editor que se valeu de três doutores de Lugano (Suíça): André-Marie Jerumanis (médico e docente de teologia moral), Manfred Hauke (teólogo e docente de patrologia), Ernest Volonté (reitor do Seminário e docente de teologia do matrimônio). Também o arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom José Cardoso, já escrevera, quando nosso arcebispo metropolitano, uma obra em versão portuguesa e inglesa, respondendo a 41 perguntas sobre o celibato sacerdotal.

          O tema do celibato foi e continua sendo muito debatido – afirma L´Osservatore Romano - noticiando esta obra dos teólogos suíços. Diria eu: apesar de todos os estudos e pronunciamentos da Igreja a esse respeito. Objeta-se que não é um dogma, é uma norma disciplinar introduzida pelo concílio de Elvira, ns Espanha, pelos anos 300-303 e depois difundida para toda a Igreja e que hoje não combina mais com a mentalidade moderna. Diz-se ainda: é algo contra a natureza e, portanto, prejudicial ao equilíbrio psico-físico da pessoa; há uma crescente escassez de sacerdotes e um grande número de padres que abandonam o ministério para casar-se e, finalmente, como argumento mais atual, o escândalo dos abusos sexuais contra menores.

          Nada disso tem alterado o ensinamento constante da Igreja, repetido pelos últimos Papas. Paulo VI escreveu encíclica especial sobre o tema, a “Sacerdotalis coelibatus”, em que afirma que este coro de objeções parece sufocar a voz secular e solene dos pastores da Igreja mas responde: ”Esta voz é ainda forte e serena. Não vem do passado, vem do presente também”. Pio XI escreveu “Ad catholici sacerdotii”; Pio XII “Menti nostrae” e “Sacra Virginitas”; o Beato João Paulo II, em inúmeras oportunidades, repetiu a doutrina imutável da Igreja neste ponto, sobretudo aos seminaristas em Brasília(15/10/1991), na sua 1ª Carta aos Presbíteros na Quinta-feira Santa de 1970 e sobretudo, na Exortação Apostólica “Pastores dabo vobis” (“Eu vos darei pastores”). O mesmo vem fazendo Bento XVI em seus encontros com os seminaristas e sacerdotes de Roma. O problema é que todas as críticas à lei do celibato vêem o Padre apenas como alguém que anima uma comunidade, um grupo de fiéis, preside celebrações religiosas e dá uns conselhos espirituais, tipo take away. A razão profunda e única verdadeira do celibato é a configuração do sacerdote com Cristo Jesus, Cabeça e Esposo da Igreja. Ela como esposa quer ser amada de modo total e exclusiva, como Cristo a amou e se entregou por ela. O sacerdote autêntico e sincero vive seu celibato não como algo negativo – uma renúncia difícil - mas sim uma escolha livre de amor, um convite de Deus para seguir o Cristo e doar-se como <>. Essa profunda razão teológica não é atingida nem pela carência de sacerdotes (“facilitar para entrar muita gente”), nem pelas falências vocacionais nem, menos ainda, pelo comportamento deplorável e intolerável de alguns poucos padres, que nada têm a ver com o celibato.

          O ideal do celibato vive também no mundo ortodoxo e entre os católicos orientais, que tanto apreciam a vida monástica e escolhem seus bispos somente entre os padres celibatários.

          “Que este livro contribua para tornar o celibato sacerdotal cada vez mais estimado como dom precioso do Espírito que renova e santifica a Igreja de Cristo” – conclui o cardeal da Hungria em seu artigo do L`Osservatore Romano.”


(*) É arcebispo emérito de Maceió.



MINISTRA DO MEIO AMBIENTE SABE, MAS FAZ DE CONTA QUE É INOCENTE


Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


Edilberto Sena, coordenador da Rádio Rural AM de Santarém no Pará e membro da Frente em Defesa da Amazônia (FDA), expressa "a indignação de nós moradores dessa Amazônia saqueada a todo custo e que temos um pouco de consciência ética".


Segundo ele, "faltam com a ética, os funcionários do ICMBIO, responsáveis diretos pelos Parques Nacionais, a Ministra do Meio Ambiente, responsável direto pelo cuidado com o meio ambiente e os recursos naturais, como falta com a ética a presidente da República que abusa de Medida Provisória para garantir a realização das obras do PAC à custa da Amazônia e seus habitantes."

Eis o artigo.


A presidenta Dilma Rousseff assinou uma Medida Provisória (MP 542/2011) imoral, intencional e colonizadora, a MP sobre desafetação de 128.116 mil hectares de floresta do Parque Nacional da Amazônia.

O Parque Nacional da Amazônia, no Pará e Amazonas (criado em 1974) tinha área de 1.089.436 hectares passa a ter um área de 961.320 há. Se parte dessa desafetação é para assentar colonos que já habitavam dentro da área do Parque, ao menos 10.000 hectares serão inundados pela barragem Pimental.

Para nós, da Amazônia essa palavra quer simplesmente dizer diminuição de uma grande área de floresta do Parque.

Além desse corte, a MP também diminuirá grandes nacos de florestas de mais dois outros parques nacionais na Amazônia. Como nascemos, nos criamos e vivemos aqui na região do rio Tapajós, não podemos ficar calados, murmurando na beirada do rio. Precisamos denunciar mais esse grande ato de violação de nossa soberania cultural e territorial.

1. Já o abuso de criar MPs a qualquer intenção da presidente, como se ela fosse alguma rainha de Botsuana, é um desrespeito à constituição brasileira, que define claramente em que circunstância um governante pode lançar mão de uma medida provisória. Ela não é a primeira a cometer tal violação, mas o fato de outros terem já feito, não ameniza seu crime. Espera-se que o Congresso nacional tenha mais respeito à constituição nacional.

2. Além disso, chegou nestes dias uma notícia do Rio de Janeiro que encheu mais ainda nossa indignação. Durante um encontro de cooperação ambiental entre os governos brasileiro e norte americano, a senhora
ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira teria negado “que a alteração nos limites dos parques nacionais da Amazônia, de Campos Amazônicos e Mapinguari, tenha como objetivo permitir exploração mineral no entorno dessas áreas”. Tal resposta da senhora ministra do meio ambiente pode ser forma capciosa de desviar a atenção de seus interlocutores. Ela não explicou os motivos reais das tais desafetações de florestas. Provavelmente a razão não seja mesmo interesses por exploração mineral. Mas certamente há outras razões.

3. Tomemos uma só para exemplo de análise do objetivo da MP de desafetação, o caso do Parque Nacional da Amazônia, no município de Itaituba. Primeiro, pela Constituição brasileira, um Parque Nacional é uma Unidade de preservação permanente e nem uma presidente da república pode por conta própria, violar um Parque nacional. Já isto merece uma censura judicial. Portanto, qualquer que seja a motivação do governo, a senhora ministra do meio ambiente não tem direito de ignorar esse preceito constitucional e não pode permitir que sua superiora cometa tal arbitrariedade.

4. Mas, a MP da desafetação tem outro objetivo mais grave, prevenir os conflitos com a lei na hora da inundação de grande parte do PARNA pela barragem de Pimental/São Luiz do Tapajós. Já os estudos da
Eletronorte calculam que com a referida barragem, serão inundados cerca de 10.000 hectares de floresta no Parque Nacional da Amazônia.

Como o desastre Belo Monte já causa vários processos do MPF na justiça federal, os maquiavélicos subordinados da presidenta obstinada pelas hidrelétricas na Amazônia, simplesmente decidem prevenir os conflitos seccionando o PARNA. Isso, a senhora ministra do meio ambiente que teria o dever de zelar pelo patrimônio nacional, evita de dizer. Porque se admitisse isso estaria em contradição.

5. E aqui a indignação de nós moradores dessa Amazônia saqueada a todo custo e que temos um pouco de consciência ética. Faltam com a ética, os funcionários do ICMBIO, responsáveis diretos pelos Parques
Nacionais, a Ministra do Meio Ambiente, responsável direto pelo cuidado com o meio ambiente e os recursos naturais, como falta com a ética a presidente da República que abusa de Medida Provisória para
garantir a realização das obras do PAC à custa da Amazônia e seus habitantes.

6. Não se pode calar, nem nós da Amazônia, nem os e as brasileiras que respeitam a constituição, defendem os povos da Amazônia e o meio ambiente. Não podem sancionar essa imoralidade os membros do Congresso Nacional que devem julgar essa maldita Medida Provisória do saque dos parques nacionais.


revoada


Euza Noronha


contrariando
o tempo
que salga
areia
apassarinho-me

estilhaço ovo
e desafio vento
a sustentar
meu vôo

(se o hoje
é o caminho
invento a revoada)





VIOLAÇÕES DOS DIREITOS INDÍGENAS


Frei Betto


     Reunidos em assembleia anual em São Félix do Araguaia (MT), em julho, missionários e missionárias do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) Regional Mato Grosso, vinculado à CNBB, refletiram sobre a problemática dos territórios indígenas invadidos por grileiros e latifundiários ou ainda por demarcar.

     A situação da terra dos xavante de marãiwatsédé é emblemática. Embora tenham retornado ao seu território tradicional em 2004, após nove meses acampados na beira da BR 158, ainda estão impedidos de tomar posse efetiva de sua terra. Esta continua invadida por grandes fazendeiros e uns poucos pequenos produtores rurais, o que demonstra flagrante desrespeito aos direitos assegurados na Constituição Federal, que lhes garante o usufruto exclusivo daquela área.

     Desde então, os xavante de marãiwatsédé vêm sofrendo constantes agressões e, inclusive, atentados físicos. Em junho, a ameaça se agravou, devido à lei aprovada pela Assembleia Legislativa do Mato Grosso e sancionada pelo governador. A lei propõe a permuta do território tradicional indígena pelo Parque Estadual do Araguaia, para onde os xavante seriam transferidos, caso aceitassem a proposta.

     Ora, mudar povo indígena de sua terra originária equivale a arrancar uma criança de sua família e impor outra a ela. Essa tentativa do governo de Mato Grosso visa a, claramente, favorecer o agronegócio, principal beneficiário da invasão daquelas terras. O povo xavante recusou a proposta, considerada inconstitucional e indigna.

     Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Usinas Hidrelétricas (UEH) estão sendo implantadas em vários rios da região, como ocorre na bacia do Juruena. Ali são instaladas diversas PCHs, entre as mais de cinquenta projetadas.

     O efeito cumulativo dessas usinas provocará grandes transformações ambientais, interferindo drasticamente na vida dos povos que dependem daqueles rios. Serão atingidos, sobretudo, os rikbaktsa, enawenê-nawê, nambikwara e mỹky.

     A implantação desses projetos também fere a Constituição, pois não houve nem as oitivas indicadas no artigo 231, § 3º, nem a consulta livre e informada, de acordo com a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

     Trata-se de violação dos direitos indígenas, efetivada a favor de interesses políticos e econômicos, apesar de protestos e manifestações contrárias dos diferentes povos da região noroeste do Mato Grosso.

     Os povos indígenas vivenciam uma relação amorosa com a Mãe Terra, que se contrapõe à exploração mercantilista dos recursos naturais. Cada povo desfruta essa relação em projetos de vida em que os valores da convivência e da partilha concretizam a proposta do Bem Viver. A vida se faz em dimensões não cumulativas, onde a gratuidade é celebrada nos ritos, nas festas, no trabalho, no viver em comunidade e trabalhar em mutirão.

     Esse modo de vida não agride a natureza; ao contrário, considera o ser humano parte dela. Esse é um caminho viável, não só para os povos indígenas, mas também para nossa sociedade, desde que assuma seriamente o projeto de desenvolvimento sustentável.

     Frente aos grandes impasses a que a humanidade chegou devido à forma devastadora como destrói a própria casa, a Terra, é preciso reaprender com os povos indígenas que a vida tem por objetivo central a felicidade humana em sua dimensão comunitária. Isso só se alcança se a partilha predominar sobre a acumulação, o direito coletivo sobre o individual, o amor sobre o egoísmo, a vida de todos sobre o lucro de uns poucos.

     Os povos indígenas são nossos ancestrais. Pesquisas genéticas demonstram que nós, brasileiros, deles herdamos mais genes do que dos negros africanos escravizados em nosso país durante o período colonial. Frente ao neorracismo em ascensão na Europa, nossa miscigenação é uma riqueza a ser preservada.


Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Barros, de “O amor fecunda o Universo – ecologia e espiritualidade” (Agir), entre outros livros. http://www.freibetto.org/
 twitter:@freibetto.


Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)




PARÊNTESES



Gerson F. Filho


Não hã como saber
O que o vento traz.

Não há o que dizer
Quando a palavra falta.

Não a o que sentir
Com o sentido no fim.

E apesar do ontem
Ainda existo conceitualmente.

Mesmo intuindo um amanhã
Sou um produto da razão.

Amo apesar da dor
Então amando Fujo da dor.

Neste ponto não sou abstrato
Suporto o peso do mundo real.

Digo sim as ignomínias
Abraço a sinuosidade do álibi.

Estou aqui entre parênteses
Para explicar ou deturpar.

Depende muito do ângulo
E da maneira como me enxergam.

Nunca subestime quem viu
O colapso da ilusão.


Obs: Imagem enviada pelo autor.





CRÔNICA DE PARIS (Fim do Século XX)



Ina Melo


       Hoje, 31 de dezembro de 1999 estou o Café de Flore em St.Germain de Pres. Chove e faz muito frio. A cidade está um caos. Arvores caídas, telhados arrancados. Vim realizar um sonho: Passar o Reveillon do Século em Paris.

     Gostaria de ter vivido na “Belle Époque”. Penso que seria mais romântico, mas Paris é sempre Paris. Amo demais esta cidade e tenho como propósito de vida um dia morar aqui. Sei que não será fácil, mas sou muito corajosa e ainda tenho tempo.

       Faz exatamente 23 anos que aqui estive pela primeira vez. Fiquei no Hotel Cayré, no Blv. Raspail. Acabei de passar por ele. É o mesmo. Nada mudou. Apenas a mulher envelheceu apesar dos sonhos continuarem jovens.

       Sei que Paris é uma cidade muito cara e cada vez sinto a pobreza do meu País que, infelizmente, não existe para o Europeu. Observei na Itália, que o Caribe existe, as Ilhas Malvinas existem e cadê todo aquele potencial de sol e mar que temos no Nordeste? O que faz o Governo, que vive mandando pessoas às nossas custas para vender o Brasil turisticamente e nada, nada de Brasil. Um grande silêncio e muitas interrogações???????

       Estou num dos pontos mais tradicionais da cidade: St. Germain de Près, bairro favorito dos intelectuais e artistas. Grandes momentos da literatura e das artes foram vividos nestes Cafés. Se fecharmos os olhos e fixarmos o pensamento, quem sabe não estaremos juntos com Picasso, Sartre, Simone de Beauvoir e muitos outros. Aqui se vive uma grande história. Como o francês tem memória!

       Ontem fui visitar a Exposição de Proust e fiquei impressionada com os detalhes da vida do escritor. Balzac e Proust fizeram o retrato de Paris e da sociedade neste século. Quem será que no terceiro milênio irá descrever com tantas minúcias a Paris de amanhã? Para mim tudo é conhecido. Será que vivi outras vidas nesta cidade? (uma coisa interessante de observar: Estou sempre feliz). Nada é difícil. Para mim é sempre uma festa, como dizia Hemingway. Eu não sou mulher de fazer compras, mas aproveito muito bem o que a cidade tem para oferecer: Vou ao teatro, Ópera, bons restaurantes, onde me delicio com ostras e vinho branco.

       Nesta época, quando se comemora o fim de milênio, e tudo é mais caro. Ainda assim, amo esta cidade. Um dia quem sabe, terei um amor real em Paris? Será que ainda é tempo? Dizem que o coração não envelhece e isto eu posso atestar. O meu está jovem e cheio de amor, no momento, por Paris.PARIS JE T’AIME. (Esta crônica foi escrita num frio inverno parisiense em (31/l2/1999).


Obs: Imagem enviada pela autora.



DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS: O ABORTO PERDOADO EM MADRI


Ivone Gebara *


É com muito constrangimento que muitas mulheres católicas leram a notícia publicada em vários jornais nesse último final de semana de que a Arquidiocese de Madri com aprovação papal autorizou a concessão do perdão e indulgência plenária às mulheres que confessarem o aborto por ocasião da visita do papa. A impressão que tivemos é que o papa, o Vaticano e alguns bispos gostam de brincadeiras de mau gosto com as mulheres. Não sabemos em que mundo esses homens vivem, quem pensam que são e quem pensam que somos!

Primeiro, concedem o perdão a quem pode viajar para assistir a missa do papa e passar pelo "confessionódromo” ou pelo conjunto de duzentos confessionários brancos instalados numa grande Praça pública de Madri chamada "Parque do Retiro”. O perdão deste "pecado” tem local, dia e hora marcada. Custa apenas uma viagem a Madri para estar diante do papa! Quem não faria o esforço para tão grande privilégio? Basta ter dinheiro para viajar e pagar a estadia em algum hotel de Madri que o perdão poderá ser alcançado. Por isso, nos perguntamos: que alianças a prática do perdão na Igreja tem com o capitalismo atual? Como se pode viver tal reducionismo teológico e existencial? Quem está tirando benefícios com esse comportamento?

Segundo, têm o desplante de afirmar que o perdão deste "crime hediondo” como eles costumam afirmar, é dado apenas por ocasião da visita do papa para que nessa mesma ocasião as fiéis pecadoras obtenham "os frutos da divina graça”, confessando o seu pecado. Como entender que uma falta é perdoada apenas quando a autoridade máxima está presente? Não estariam reforçando o velho e decadente modelo imperial do papado? Quando o Imperador está presente tudo é possível até mesmo a expressão da contradição em seu sistema penal.

Não quero retomar os argumentos que muitas de nós mulheres sensíveis às nossas próprias dores temos repetido ao longo de muitos anos numa breve reflexão como esta. Mas esse acontecimento papal madrilenho, infelizmente, só mostra mais uma vez, um lado ainda bastante vivo no Vaticano, ou seja, o lado das querelas medievais em que questões absolutamente sem peso na vida humana eram discutidas. E mais, demonstra desconhecer as dores femininas, desconhecer os dramas que situações de violência provocam em nossos corpos e corações. Ao conceder o perdão ao "crime” do aborto na linguagem que sempre usaram, de forma elitista revelam o rosto ambíguo da instituição religiosa capaz de ceder ao aparato triunfalista quando sua credibilidade está em jogo. Podem abençoar tropas para matar inocentes, enviar sacerdotes como capelães militares em guerras sempre sujas, fazer afirmações públicas em defesa da instituição condenando pobres e oprimidas, abrir exceções à regra de seus comportamentos para atrair jovens alienados dos grandes problemas do mundo ao rebanho do Papa. A lista dos usos e costumes transgressores de suas próprias leis é enorme...

Por que reduzir a vida cristã a pão e circo? Por que dar um espetáculo de magnanimidade em meio à corrupção dos costumes? Por que criar ilusões sobre o perdão quando o dia a dia das mulheres é cheio de perseguições e proibições às suas escolhas e competências?

Somos convidadas/os a pensar no aspecto nefasto da posição do papa e dos bispos que se aliaram a ele. O papa não concedeu perdão e indulgência total ou plena "urbe et orbe”, isto é, para todas as mulheres que fizeram aborto, mas apenas àquelas que se confessaram naquele momento preciso e por ocasião da visita do papa à Espanha. Não é mais uma vez a utilização das consciências especialmente das mulheres para fins de expansionismo de seu modelo perverso de bondade? Não é mais uma vez abrir concessões obedecendo a uma lógica autoritária que quer restaurar os antigos privilégios da Igreja em alguns países europeus? Não é uma forma de querer comprar as mulheres confundindo-as diante da pretensa magnanimidade dos hierarcas?

Será que as autoridades constituídas na Igreja Católica e de outras Igrejas são ainda cristãs? São ainda seguidoras dos valores éticos humanistas que norteiam o respeito a todas as vidas e em especial à vida das mulheres?

Creio que mais uma vez somos convocadas/os a expressar publicamente nosso sentimento de repúdio à utilização da vida de tantas mulheres como pretexto de magnanimidade do coração papal. Somos convidadas/os a tornar pública a corrupção dos costumes em todas as nossas instituições inclusive naquelas que representam publicamente nossas crenças religiosas. Somos convidadas/os a ser o corpo visível de nossas crenças e opções.

Fazendo isso, não somos melhores do que ninguém. Somos todas pecadoras e pecadores capazes de ferir uns aos outros, capazes de hipocrisia e mentira, de crueldade e crueldade refinada. Mas, também somos capazes de dividir nosso pão, de acolher a abandonada, de cobrir o nu, de visitar o prisioneiro, de chamar Herodes de raposa. Somos essa mistura, expressão de nosso eu, de nossos deuses, dos espinhos em nossa carne convidando-nos e convocando-nos a viver para além das fachadas atrás das quais gostamos de nos esconder.

21 de agosto de 2011.


* Filósofa e teóloga, feminista e escritora



DA ALEGRIA À PERPLEXIDADE



Jacinta Dantas


Em plena tarde de sábado, com o friozinho que se permite fazer em território litorâneo capixaba, os jovens se reúnem para um encontro especial. Quem sabe um momento de “ritual de passagem”. Afinal, saíram do ensino médio e o momento agora é de preparação para o ingresso na faculdade. É a confraternização do Grupo que se encontrou pela força do desejo de crescimento. Pessoas que conviveram nos últimos três anos, estudando, acalentando e partilhando sonhos, elaborando projetos... projetos de vida. Há sensação de segurança no condomínio fechado aonde os jovens, ainda tão meninos e meninas, reúnem-se talvez, enquanto grupo, pela última vez. Há alegria no olhar que fala da vontade de crescer, seguir crescendo, vivendo a aventura de estar no mundo e fazer suas escolhas.

Mas, do bom encontro que se esperava acontecer, há um quê de vontade de desorganizar e o que se vê é de faltar o ar que se respira. Na festa idealizada para a confraternização, jovens, um tanto meninos e meninas – perplexos – envolvidos numa ação bestial promovida por outro jovem que bate sem ter por quê.

De repente, sem oferecer resistência, o jovem, concebido e formado para trilhar o caminho do crescimento e da felicidade, é agredido com socos no rosto por outro rapaz que simplesmente o escolheu para bater. Terá sido escolhido pelo cheiro? Ou será pela cor do cabelo? Ou será... ? Quantas interrogações permanecem no sentimento de quem foi agredido e de quem, impotente, assistiu a tudo. No saldo da festa, garrafas quebradas, objetos roubados e o jovem ali, humilhado, sentindo um quê sem sentido a arder-lhe no corpo e na alma.

Ah! O agressor não pertencia à turma de estudantes. Fora convidado por um colega. Mas isso não explica nada. Estando ali, naquele momento, protagonizando o triste espetáculo, também ele faz parte da rede de busca por respostas.

Que conta é essa que não fecha? Que prazer é esse que se tem em agredir? Será esse o único modo de se mostrar vencedor diante do grupo? Mas vencedor do quê?

Será esse o sintoma dos tempos abundantes em que se pode empanturrar de tudo o que deseja e que se tem a ilusão de se poder comprar a felicidade em todas as prateleiras de um Shopping? Será essa uma amostra do sintoma que destroça a alma e nos faz viver como seres sem sentido?


Obs: Imagem enviada pela autora.




REAVIVAR A CONSCIÊNCIA


Jaime Sidônio


       É preciso, pois, que nos dediquemos a busca de um conhecimento profundo da pessoa de Jesus, de sua vida e de sua missão, para que ele se torne, de verdade, o centro e a vida de nossa missão. Aliás, essa deve ser a nossa grande meta.

       Faz-se necessário também reavivar a consciência quanto à ação amorosa de Deus em nossa história. Não se pode esquecer os tantos sinais de amor, as inúmeras manifestações de graças, as incontáveis alegrias experimentadas! Mas por que não lembrar também as lutas, dificuldades, sofrimentos e dores experimentados ao longo da história? Afinal, não são todas situações existenciais que marcaram nossa caminhada?

       Diante de tudo isso, é necessário assumirmos uma atitude de gratidão. Gratidão porque Deus nos amou, nos acompanhou, cuidou de nós como mãe cuida do seu bebê, realizou e continua a realizar em nós coisas maravilhosas. “Fui eu que ensinei Efrain a andar, segurando-o pela mão. Eu o atraí com laços de bondade, com cordas de amor. Fazia com ele como quem levanta até seu rosto uma criança; para dar-lhe de comer, eu me abaixava até ele” (Os 11,3-4). “Pode a mãe se esquecer de seu nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você.” (Is 49,15). Temos muitas razões para não duvidar do amor de Deus.





MENINICE



José de Alencar Godinho Guimarães (*)


       Ainda rapazote, tive o privilégio de desfrutar das coisas boas de Santarém. Roubar caju nas residências ricas da Maracangalha, saborear as mangas da Vera-Paz, juntar cutite na SUDAM e pular o muro do Cabral para matar aulas. Tempo bom e, como bem afirma Chico da Silva, “que não volta nunca mais”.

       Mas como nem tudo é maravilha, sofria em ter que levantar de madrugada para ir pescar na companhia de meu falecido avô. Por vezes, fingia estar em sono profundo, mas o velho nem sempre engolia tal estratégia e saíamos para as pescarias de tarrafa no Lago do Mapiri. Nunca entendi o porquê dos netos terem que se submeter a esse sofrimento quando deveriam estar dormindo o melhor do sono humano. E isso sempre piorava quando a madrugada estava chuvosa. Um verdadeiro martírio, mas era a forma de se colocar alimento farto na mesa.

       No entanto, nisso tudo havia um pouco de aprendizado de vida. Aprendi a dar valor às coisas do dia-a-dia e cresci acreditando que poderíamos sempre desfrutar da natureza sem que ela pudesse ser agredida pela ação humana. Engano meu. Hoje vejo a Amazônia pedindo socorro, agonizando.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA





VIDA EM PRIMEIRO LUGAR



Marcelo Barros(*)


       A vida é bonita, todos nós, brasileiros, cantamos e repetimos com Gonzaguinha, na canção que diz ser esta a resposta das crianças: “é bonita, é bonita e é bonita!”. Agora, “a vida em primeiro lugar” é o tema do 17º Grito dos Excluídos a ser realizado no próximo 07 de setembro. Novamente o clamor pela vida será o conteúdo das reflexões, mas também de arte, poesia e música que integrarão esse evento.

       Pelo 17º ano, as manifestações cívicas do dia da pátria não se restringirão à tradicional parada militar e nem mesmo ao desfile de estudantes pelas ruas. Em todo o Brasil, homens e mulheres, velhos e jovens, trabalhadores ou desempregados, todos são convidados a se expressar nas ruas das principais cidades brasileiras o grito que, este ano, foi condensado no seguinte lema: “Pela vida, grita a Terra. Por direitos, todos nós!”.

       O Grito dos Excluídos é iniciativa das pastorais populares da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ligada aos movimentos populares. Ele reúne pacificamente milhares de pessoas. Nos primeiros tempos, era como uma voz que clama no deserto. Atualmente, o Grito se une aos numerosos fóruns sociais que se espalham pelo mundo e às manifestações da juventude e da sociedade civil que tomam praças e ruas em várias cidades da Europa e da África para dizer a todos que um novo mundo é possível e urgente.

       Talvez as redes maiores de televisão e jornais não dêem boa cobertura ao Grito dos Excluídos, mas não poderão deixar de mostrar o rosto de crianças famintas na Somália. Não poderão esconder que a taxa de desemprego na Espanha chegou a quase 30%. E são obrigados a noticiar que nos Estados Unidos existem 40 milhões de pobres e carentes. E não se tratam apenas de migrantes e sim de norte-americanos, nascidos e criados em seu próprio país.

       Ninguém precisa ser de grupos e movimentos populares para perceber que alguma coisa neste mundo não está correta. Quase um bilhão de seres humanos passa fome em um mundo que nunca produziu tanta comida como atualmente. As revistas internacionais mostram que dois norte-americanos juntos possuem uma renda mais alta do que a soma do PIB de 47 países da África. Sobre a realidade brasileira, a realidade é que “a concentração da terra não só é a mesma dos primeiros anos da ditadura militar, mas aumentou. (...) As pequenas propriedades, com menos de dez hectares, ocupam 2, 36% di total das terras agricultáveis do país, embora representem quase metade (47, 86%) dos estabelecimentos rurais. Enquanto isso, apenas um por cento de proprietários controlam 44, 42% das terras, situação das piores concentrações agrárias do mundo” (Cf. Carta Capital 03 de agosto 2011, p. 22). Os dados revelam ainda que os pequenos lavradores, mesmo em uma extensão de terra tão reduzida, produzem mais de 70% de toda alimentação que vai para a nossa mesa (dados da CONTAG).

       No Brasil e em outros países, essa realidade iníqua não acontece por uma fatalidade do destino ou porque é inevitável e sim porque os grandes deste mundo insistem em organizar assim a sociedade e contam com a apatia e a omissão da maioria da população que sofre, mas não se sente chamada a transformar essa realidade. No decorrer da história, muitas vezes, as religiões serviram como fatores de legitimação da desigualdade social e das injustiças. Atualmente, cada vez mais cresce o número de pessoas que, em todas as religiões ou em caminhos independentes, descobrem: se Deus é amor e o seu projeto para o mundo é de paz e justiça, o caminho da intimidade com o Espírito supõe necessariamente a solidariedade com todas as pessoas que sofrem e o compromisso com a justiça e o direito. No evangelho, Jesus proclama: “Bem-aventuradas, (abençoadas por Deus e felizes) todas as pessoas que têm fome e sede de justiça, porque serão saciadas” (Mt 5, 6). Esse é o espírito que move o Grito dos Excluídos.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.



SAÚDE NATIMORTA



Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio *


       O paraense Raimundo Cícero e sua esposa Vanessa são jovens, com menos de 30 anos. Não são ricos e lutam para viver. Apesar disso, esperavam com cuidado e alegria os gêmeos que habitavam o ventre de Vanessa havia sete meses. Ela fazia o pré-natal no hospital da Santa Casa de Belém, acompanhando passo a passo o delicado processo de uma gravidez gemelar.

       Por isso, quando começou a sentir contrações, foi com o marido à mesma Santa Casa, às 4h30 da madrugada. Os bebês pareciam querer nascer antes da hora. Foram informados de que não seria possível internar Vanessa, porque não havia leitos disponíveis. O casal procurou, então, o Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, mas também aí não encontrou lugar.

       Desesperado, Cícero pediu apoio ao Corpo de Bombeiros e retornou à Santa Casa de ambulância. Vanessa deu à luz o primeiro bebê, que nasceu morto. Mais tarde, Vanessa foi finalmente atendida no hospital e teve a amarga notícias de que seu segundo filho também nascera morto.

       Um soldado do Corpo de Bombeiros deu voz de prisão à médica plantonista, alegando omissão. Os corpos dos bebês foram enviados à perícia para apurar a “causa mortis”. A plantonista afirma que a morte ocorreria de qualquer forma. Por sua vez, a administradora do hospital descreve com riqueza de detalhes a infernal situação em que se encontra o hospital, com as unidades cheias, falta absoluta de leitos disponíveis e fila de pessoas implorando uma vaga.

       O secretário de Saúde do Pará declara que mesmo com a superlotação a paciente deveria ter sido encaminhada para um leito até que fosse transferida para outro hospital. Os médicos da Santa Casa alegam que Vanessa estava na 30ª semana de uma gravidez de alto risco.

       O que mais assusta é o caso dos gêmeos de Belém não ser um fato isolado nem esporádico. Em Barreiros, há poucos dias, a fotógrafa Marcela Maria da Silva, 21 anos, esperou 18 horas por atendimento obstétrico, porque não havia especialista no plantão. Mãe e filho morreram.

       Em Maceió, também há poucos dias, o Serviço Móvel de Atendimento de Urgência (SAMU) não dispunha de motorista para buscar Jardilane Maria do Carmo, de 19 anos, quando ela pediu ser transportada até a maternidade. Orientaram-na que pegasse um táxi. Desesperada, a jovem viu seu bebê de 32 semanas morrer a caminho do hospital.

       No Recife, Clara e Josenilton esperavam o segundo filho. Já em trabalho de parto, ele a levou em seu carro do bairro da Várzea, onde moram, ao Hospital das Clínicas, na Cidade Universitária. O carro chegou rápido, mas o hospital não dispunha de uma maca para transportar Clara até o setor de obstetrícia, que se situa no 4º andar. O menino de 3,7 quilos nasceu dentro do carro após 50 minutos de espera, enquanto o pai corria desesperado pelo hospital para conseguir uma maca. Quando chegou, não havia mais nada a fazer. O bebê estava morto. Não havia leito, não havia especialista, não havia ambulância, não havia maca.

       E com essa não existência das mínimas condições para o funcionamento de um hospital o resultado é que não havia vida depois de um tempo curto, mas longo demais para os pais que esperavam uma criança que ia alegrar-lhes a casa e dar sentido às suas vidas.

       Todos esses casos aconteceram no Norte e no Nordeste do país, regiões sempre mais penalizadas pelas deficiências no equipamento e atendimento quando se trata da saúde pública. Porém, as grandes capitais não estão tão longe deste estado de coisas. Não são poucos os casos similares de que se tem notícia nas grandes cidades do país.

       Diante desta triste situação, o mais cômodo e mais fácil é declarar o feto natimorto, com óbito acontecido ainda no ventre. No entanto, não deveria ser outro o veredicto? Não será a saúde que, com tal estado dos hospitais públicos, encontra-se natimorta? Não será a instância que deveria garantir a vida que se encontra tomada pela contramão da morte, que faz com que a vida se esvaia e flua pelas brechas abertas da carência, do descaso e muitas vezes do descuidado e da incompetência?

       De nada adianta ser o país do futuro, a superpotência do momento se a vida não pode ser vivida. Mais: se a vida não tem lugar para acontecer. Não é a gravidez dessas jovens mulheres que é de alto risco. É toda a vida dos brasileiros que se encontra em situação de risco se providências drásticas não forem tomadas a respeito das condições de atendimento de nossos hospitais.


Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)



MENTE ATORMENTADA



Monique Marie Becher
moniquebecher@hotmail.com


NESTA CONVULSÃO
JORRO INTEMPÉRIES INIMAGINÁVEIS
TERREMOTOS TSUNAMIS TREMORES
TRISTEZAS EM ABUNDÂNCIA
LÁGRIMAS AOS BORBOTÕES
SANGUE INERTE
VÔMITOS DE DOR
DESESPERO ATERRADOR
DORES VISCERAIS
VÍSCERAS TRITURADAS
ALMAS DEVASTADAS
CORAÇÕES PARTIDOS
SERES EM FUGA
GRITOS DESESPERADOS
PARTIDAS SÚBITAS
CHEGADAS INESPERADAS
TORPORES MENTAIS


14/03/2011



MAIS UMA VEZ...



Maria Inês Simões - Bauru/SP

Magricela queria dar só mais um recado. Odeiooooo este desgraçado,
que em noites de estrelas e buscas eternas disse que era seu amor,
bandido... Vai saber o que queria, sentir-se importante? Pra quê? Se
não pode mais sentir os meus passos. Desagrado? Sei que não
comporto o que mais poderia ser apreciado... Não sou vazia. E vamos
em frente. Foi só mais um desacerto, um conserto que não deu certo. A
música não tocou e a fantasia não rolou. Só ficou no desejo. Que pena
seria tão interessante conquistar as estrelas, pisar planetas
inexplorados. E ficar ao seu lado. O que fazer se o tempo contrário,
contradisse o sentido do querer. Mais uma vez...