domingo, 31 de julho de 2011
MINHA TRIBO
Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com
A que tribo pertence essa pessoa
que gosta de teatralizar
com palavras, corpo e som ?
Procuro esse lugar.
Esses parentes...
Onde está minha gente?
Os que vivem por aqui
Comportam-se simplesmente
E não sei fazer igual
Não sei manter a pose
Ou é pirraça?
Qual é a minha raça???
POESIA E ILUSTRAÇÃO DO CAPITULO 2 DO LIVRO da autora - UM CORAÇÃO QUE CANTA
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Bernadete Bruto
UM SEGUNDO DE POSSÍVEL
Betto Santos*
É muito difícil medir o tamanho do nosso pulo antes de encontrar a poça d’água. E a gente, não importa o tamanho da galocha, acaba sempre fugindo desses obstáculos, por medo de quê? De molhar a barra da calça?
Mas por que é que nós, ao mesmo tempo em que fugimos do que não nos fere, acabamos nos jogando, despidos de qualquer armadura, aos leões? A resposta muda de tempos em tempos na minha cabeça. O que penso hoje e aqui escrevo é que, por mais que a gente negue, a gente tem umas poucas certezas. A gente tem que ter essas certezas. Poucas e importantes certezas.
O passado é insignificante. Sim, ele é o espelho da nossa história e conta muito sobre o que somos. Mas o que eu sou depende muito mais do que eu estou fazendo agora, do que das coisas que eu fiz. Nós temos o poder de mudar, a qualquer momento da nossa existência, para melhor ou para pior. A única coisa que importa é o futuro, que nada mais é do que uma página em branco que a gente pode preencher com as tintas que bem entendermos. Tirando das costas o fardo do passado, encontramos nos nossos pés a leveza necessária para saltos no futuro, cada vez mais altos, arriscados, excitantes e, sim, felizes. O presente nada mais é do que o momento em que passado e futuro se beijam. Esse encontro de lábios dura um tempo ínfimo, intangível, mas é suficiente para transformar o agora em história. E como é a minha história? O que é que eu quero ter pra contar?
E a gente pode ser maior. Basta que a gente queira. E querer não é poder, como as pessoas dizem por aí. Querer é fazer. E fazer não é nada fácil. Existem momentos na vida em que a gente precisa ser mais forte do que acha que pode, mais inteligente do que acha que é e mais nobre do que acha que consegue. E como é que a gente consegue? Querendo. E quando a gente quer demais uma coisa, a gente é capaz de feitos que a nossa mente nem consegue conceber. A gente mata um leão por dia. A gente acaba esquecendo das poças d’água, canalizando toda a nossa força para o embate inevitável com os predadores que a vida coloca na nossa frente. E são muitos.
Os sonhos são objetivos que a gente re-batiza desse jeito apenas para que pareçam inatingíveis. E o nosso salto pode ser do tamanho que a gente conseguir imaginar. Basta que a gente perca o medo de molhar os pés.
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Betto Santos
ASSIM SERÁ
Célia Cavalcanti
(cglcavalcanti@terra.com.br)
O tempo vai passando... Hoje, faz seis anos que nos reencontramos!
A foto lembra aqueles que responderam ao convite e no dia 30 de julho de 2005 marcaram presença no lançamento do livro:"A Canção do meu viver". Foi um encontro para um recomeço...
Parabéns para os que estavam presentes e corresponderam e se multiplicaram! Parabéns para os que vieram depois..Parabéns para aqueles que ainda virão...Não sabíamos no que ia dar aquele primeiro encontro...Desconheciamos o que o amor de Deus havia reservado para cada um... Resta-nos hoje, louvar e agradecer... O video marca o retorno do AJA: como foi e sempre será o reencontro dessa familia cujas marcas do tempo só fazem ressaltar o Amor, a Juventude e a Alegria!
Obs: Imagem enviada pela autora.
(cglcavalcanti@terra.com.br)
O tempo vai passando... Hoje, faz seis anos que nos reencontramos!
A foto lembra aqueles que responderam ao convite e no dia 30 de julho de 2005 marcaram presença no lançamento do livro:"A Canção do meu viver". Foi um encontro para um recomeço...
Parabéns para os que estavam presentes e corresponderam e se multiplicaram! Parabéns para os que vieram depois..Parabéns para aqueles que ainda virão...Não sabíamos no que ia dar aquele primeiro encontro...Desconheciamos o que o amor de Deus havia reservado para cada um... Resta-nos hoje, louvar e agradecer... O video marca o retorno do AJA: como foi e sempre será o reencontro dessa familia cujas marcas do tempo só fazem ressaltar o Amor, a Juventude e a Alegria!
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Célia Cavalcanti
O EXEMPLO
Cláudio do Patrocínio Pereira
Os exemplos bons e maus arrastam.
Tanto exultam, como arrasam,
Os pais, chefes e educadores
Têm o dever de dar o bom exemplo,
Quer em casa, na escola e no templo,
Subordinados seriam seguidores,
Falam há muito tempo em seus anais:
Filhos caminham nos passos dos pais,
Vendo neles ações e probidade,
Como espelhos de perto seguirão
Mesmo carinho e abnegação
Sem ilusões e com seriedade...
Lado da vida mostre ao seu filho:
O bem, o mal que traz o empecilho,
O Acompanhe nos detalhes o fato,
Sinceramente sinta sua decisão.
Atue pra melhorá-la sem imposição,
Faça-lhe sentir digno do seu ato.
Estar-se á com a consciência em paz
Vencendo até a luta mais tenaz.
Ainda que a mídia invada a sua casa,
Com lições do mal e do dissabor
Banir-se á por certo o desamor
Não se abdicara o bem por nada...
Recife (PE) 31 de Março de 2011
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Cláudio do Patrocínio Pereira
VISUAIS – OS IMAGINÁRIOS E OS VIRTUAIS
Dade Amorim
Estou do Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel, em tradução de Samuel Titan Jr., editado pela CosacNaify em 2006.
Nestes tempos de delírios visuais, imagens vertiginosas que supostamente dispensariam as palavras e se autoexplicariam sem maiores delongas, este livro – um cult da literatura internacional, de trama considerada perfeita por Jorge Luís Borges, amigo de Casares, seu parceiro e admirador – é um exemplo de que o uso das palavras é uma fonte de recursos que as imagens por si sós nunca vão suprir. Ainda por cima fala justamente de imagens, tão poderosas que foram capazes de subverter a vida do protagonista, um fugitivo político da justiça que se esconde em uma ilha deserta.
Os enigmas de A invenção aguçam a atenção do leitor e o impelem a perseguir o fio da narrativa, que em alguns trechos parece perdido entre as folhas secas do chão da ilha. O caráter teleológico que alguns emprestam ao texto de Casares pode ser discutido. Dificilmente uma literatura tão perfeita e enxuta poderia visar outra finalidade que não ela própria. Mas para o leitor atento fica bem claro que estão em jogo fatores imanentes ao ser humano, como a percepção nem sempre confiável e a imaginação que se alia ao desejo para lhe pregar peças – às vezes de mau gosto.
Em jogo também está a questão da sobrevida ou da própria eternidade. Mas não se trata aqui de uma eternidade metafísica, e sim da projeção de uma idéia que tem fascinado o homem através dos tempos, idéia que teria impulsionado o personagem Morel em sua invenção maravilhosa e terrível. A fábula explora um ângulo fenomenológico da experiência da imortalidade, que quase sempre tem sido abordada com visada mística ou filosófica. Os personagens em cena se opõem à realidade que estariam manifestando pelo simples fatos de não serem senão espectros de si mesmos. É fascinante, porque é como um filme interferindo no roteiro de outro filme. Mais do que simplesmente descrever os fenômenos (o que Casares faz com perfeição e apelo para o leitor), o livro capta o que se poderia chamar a insustentável leveza da ilusão, parafraseando Kundera, e todo o sofrimento humano que ela implica.
O prólogo é de Borges e o posfácio de Otto Maria Carpeaux dão o toque especial a esse primeiro volume da coleção Prosa do Observatório, coordenada pelo escritor e teórico de literatura Davi Arrigucci Jr.
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Dade Amorim
GRÁVIDAS NÃO SÃO DE MARTE
Dannie Oliveira
Em poucos dias entro no quinto mês de gestação. Se você se adapta a tudo na vida, se adapta também a forma como as pessoas te enxergam em uma gravidez.Engraçado, mas de repente quando você fica grávida vira um bicho de outro planeta. Extraterrestre mesmo. Só porque você não tem mais aquela barriga convencional ‘olha como sou bonitinha’ todo mundo fica te olhando um tanto esquisito na rua.
Não é complexo de inferioridade, paranóia ou algo do tipo, mas nem todo mundo quer te levar pra casa só porque você tá carregando um bebê. Grande parte da população ainda se espanta quando vê uma barriguinha saliente despontando na roupa (como se as mulheres um dia não fossem ter filhos e engravidar). Acho que tem gente que esquece que antes de sair engatinhando e correndo por aí, ficaram nove meses (ou talvez até menos) no útero de uma mulher (a não ser que acreditem em cegonha!).
Nesse meio tempo já vi e vivi de tudo um pouco. Descobri que estava grávida justamente quando a minha vaca foi para o brejo. A bichinha tava atolada no meio da lama quando decidi que iria tirá-la dali. Só que como tudo que está ruim, pode ficar ainda pior meus dias iniciais de mamãe de primeira viagem ficaram bem tensos. As dívidas foram se acumulando. Acumulando. Foram entrando pelas brechas, pelas fendas e até pelos buracos das goteiras, tudo de uma vez só. Eu passei a ter medo do carteiro. Mas... como sou ‘brasileira e não desisto nunca’, botei aquela maquiagem, vesti aquela roupinha folgada (pra não contornar a barriga) e parti com o currículo debaixo do braço. Se eu tivesse ficado em casa tentando aprender a fazer crochê ... teria sido mais prático (aprenderia um ofício e ainda produziria os primeiros sapatinhos da Rebecca). Só que não! Eu precisava ser do contra! Aquilo não ia acontecer comigo! Eu era uma profissional (pelo menos acreditava nisso). Falei pra mim mesma que vivíamos em uma sociedade moderna e que gestantes e mães também possuem lá suas vantagens. Aliás ... sabia que a maternidade deixa as mulheres mais atentas? Mais compromissadas e aptas para multitarefas. Tá pensado o quê? trocar fraldas, descobrir porque o neném tá chorando e pegar diversos objetos para deixar o pimpolho limpinho antes que ele abra o berreiro é uma lição de vida e tanto!
Continuando ... No meu âmago, pensava: “as pessoas vão entender, vão me ajudar, afinal todo mundo acha uma grávida fofinha. Gravidez não é o fim do mundo. É algo até sereno. O começo de uma nova vida’. Balela!!! pura balela!!! Não preciso dizer que levei um ‘não’ atrás do outro e que ouvi dezenas de desculpas (algumas bem esfarrapadas). A sensação foi que pegaram minhas experiências profissionais e meus dois diplomas de graduação, embolaram, jogaram no lixo e deram a descarga e ainda olharam pra ver se desceram pelo buraco. Me senti um nada. Tentei entender que mal havia no mundo se você tinha decidido que queria ser mãe e ter uma filha? (carregue sua cruz querida).
Antes que digam que estou generalizando, vamos alguns fatos. Se você acha que os homens são machistas e que a grande maioria dos que me disseram ‘não’ vestiam calça ... você acertou! Encontrei alguns brutos que meio que equipararam a minha atual situação a uma doença que te deixa inválida por nove meses! Tiveram aqueles que foram compreensivos, ‘porque você não espera seu bebê nascer e volta aqui? Porque não tira o tempo agora para curtir sua gravidez?’. Não doeu menos, porém foi um pouco melhor. Mas o tapa na cara, o soco na boca do estomago foi a reação de grande parte das mulheres! Sim, elas são mais preconceituosas! (e eu que acreditava em solidariedade feminina...). Muitos dos contatos que recebi de proposta de trabalho, foram feitos em um primeiro momento por mulheres que ao saberem que estava gestante torciam o nariz,a boca ou vinham com uma desculpa bem chinfrim (deixe tá, um dia vocês também vão parir). O fato é que acabei ficando parada.
Arara da vida, ainda praguejei o mundo por ter desfeito a minha visão de ‘aí que lindo, aí que meigo’. Embora tudo culminasse para ‘melhor você ficar em casa, quieta na sua, passando óleo de amêndoas na sua barriga para não dá estrias’ Eu fui a luta! melhor as pesquisas na internet. Descobri que quando você está grávida, as empresas (e patrões) aplicam a equação gestante = a direitos trabalhistas = a grande problema! Fora que mesmo que você afirme de pé juntos, que se disponha a assinar um milhão de cláusulas, jure cruzando os dois dedos em frente a boca, os chefes sempre acharão que você vai colocá-los na justiça (mães se transformam em ávidos monstros que querem dinheiro para comprar fraldas). Enfim ... querendo ou não fui subjugada a uma vida de textos sobre bebês e roupinhas para menina. Quem diria hein? Ossos do ofício de ser mãe ... com emprego ou sem emprego a única verdade absoluta é que Rebecca será minha melhor experiência profissional, o certificado mais importante de toda a minha vida.
Toda mulher nasce para ser mãe, só que muitas não sabem...
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Dannie Oliveira
CORAGEM
Djanira Silva
Sempre fiz o possível para que meus filhos não tivessem medo de ir ao dentista. Um dos maiores cuidados era eu mesma nunca fazer tratamento dentário com algum deles por perto, pois se vissem o escândalo que faço e o medo que tenho, jamais sentariam numa daquelas cadeiras.
Costumava conversar com eles afirmando – com toda a falsidade que o meu medo me recomendava – tratar de dentes é uma coisa boa, não dói muito, e só traz benefícios. Assim, consegui convence-los. Até um certo ponto, eu estava com a razão, porque hoje o tratamento é bem mais humanizado. Antigamente, a gente sofria o diabo com a broca pé duro.
Levei um deles para fazer uma restauração.
Depois de acomodado na cadeira, comecei a sessão de convencimento.
- Não tenha medo, meu filho, feche os olhos, relaxe e pense na Pantera-Cor-de-Rosa.
Ele sentou-se, bem relaxado, conforme eu mandara, olhos fechados, enquanto o dentista ia dizendo: “não puxe minha mão, se sentir qualquer coisa, dê um ligeiro toque que paro na mesma hora”. Ele entregou-se confiante.
Em certo momento, ele tocou de leve na mão do médico que, de imediato, suspendeu, parou:
- O que foi, meu filho?
- Doutor, a pantera está ficando preta.
Obs: Texto retirado do livro da autora – A Maldição do Serviço Doméstico e Outras Maldições.
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Djanira Silva
VOVÔS E VOVÓS
D. Demétrio Valentini *
Se há uma pastoral que chegou em boa hora, é a “Pastoral da Pessoa Idosa”. Como convém a adultos, ela nasceu andando: foi assumida pela falecida Doutora Zilda Arns. Ao passar para outros a coordenação da Pastoral da Criança, abraçou com vigor de jovem e com experiência de veterana, a causa das pessoas idosas.
Sábia e experimentada com a importância de cunhar um nome emblemático para a nova pastoral que estava surgindo, a Doutora Zilda não embarcou na artificialidade de algumas expressões que parecem traduzir constrangimento diante do envelhecimento humano, falando em “melhor idade” ou “terceira idade”. Ela preferiu o jogo aberto e franco da “pastoral da pessoa idosa”. Ter idade não é desdouro, não é vergonha, não é desgraça.
Ao contrário, chegar à velhice é um privilégio, uma conquista, uma vitória pessoal e uma graça para a família e para a sociedade.
Para que isto aconteça, a Pastoral da Pessoa idosa se propõe realizar um trabalho de apoio, de organização, e de clima favorável à acolhida e valorização das pessoas idosas.
Os resultados são surpreendentes. Há muitas pessoas idosas que passaram a se assumir melhor, tomando os cuidados indispensáveis para a saúde, assimilando práticas de exercícios que vão mantendo o corpo sadio e o espírito alerta e disposto a administrar a própria vida.
O calendário litúrgico, há muito tempo, escalou dois padroeiros de primeira linha para as pessoas idosas. Nada mais e nada menos do que São Joaquim e Sant´Ana, os pais de Maria, e portanto, os avós de Jesus. Com a Pastoral da Pessoa Idosa, até eles passam a merecer um destaque maior na divulgação dos seus nomes, e da missão que a Igreja lhes atribui, como patronos das pessoas idosas. A exemplo dos dois santos, os idosos também podem expressar gratidão pelos anos vividos, pela missão cumprida, e pela confiança diante do futuro, com a serenidade que Joaquim e Ana inspiram e infundem.
Mas a Pastoral da Pessoa Idosa não esconde problemas sérios que o aumento da população adulta deixa entrever. A demografia comprova, de fato, que a faixa etária dos sessenta para cima, vem aumentando expressivamente. Até pouco tempo atrás se dizia que o Brasil era um país de jovens. Agora já não é mais. Os idosos vão marcando uma presença sempre maior.
Isto se deve, em parte, ao fato evidente da aumento da duração da vida humana. Vivemos mais tempo, e isto é muito bom, é uma boa notícia que deveria levar a todos a se prepararem para uma velhice digna e feliz. A média de vida, no Brasil, passou rapidamente, dos sessenta para o setenta anos, atingindo agora já a cifra de aproximadamente setenta e três anos.
Mas o expressivo crescimento proporcional das pessoas idosas se deve também à rápida, e preocupante, diminuição da natalidade na população brasileira. A queda foi brusca e generalizada, em todas as regiões e contextos da população brasileira, demonstrando ser irreversível, o que a torna mais preocupante ainda.
A população brasileira está perdendo vitalidade. E´ preciso dar-nos conta deste fato, para perceber a importância que tem a família, e o apoio que a sociedade e o estado lhe devem.
Diante deste fato se relativizam outras reivindicações, mais espalhafatosas e inócuas. Quem merece nosso apoio são as famílias, capazes de nos dar a alegria de vidas novas, que garantam o futuro deste país, tão pródigo em recursos vitais, ameaçado de carregar o estigma da infertilidade.
No Brasil há lugar para as pessoas idosas. Mas se faltam as crianças, todas as outras faixas etárias ficam comprometidas. Até porque a alegria maior dos vovôs é transmitir carinho aos seus netos.
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D. Demétrio Valentini
EVANGELIZAÇÃO versus COMUNICAÇÃO
D.Edvaldo G. Amaral
No dia 28 de junho último, o Papa Bento XVI inaugurou o novo portal da Santa Sé, com o endereço news.va, usando não um computador comum, mas um tablet, de última geração. Assistia o Sumo Pontífice o presidente do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, o arcebispo Cláudio Maria Celi.
Foi esse mesmo arcebispo que, nos dias 12 a 17 de julho passado, presidiu o I Seminário de Comunicação para Bispos, promovido pela Arquidiocese do Rio de Janeiro. Éramos 74 bispos de todo o Brasil, interessados no tema “Comunicação e Evangelização no contexto das transformações culturais, provocadas pelas novas tecnologias”. Além de Dom Celi, tivemos grandes mestres da comunicação, em nível mundial, como o bispo mexicano Guilherme Ortiz, o jesuita Antônio Spadaro, diretor da revista “La Civiltà Cattolica” e o Prof. Javier Restreppo, da Colômbia. Do Brasil, ouvimos vários doutores ou com mestrado em Comunicação de várias Universidades brasileiras, de São Paulo, do Paraná, de Brasília e outros. Fez-nos interessante palestra sobre crimes na internet a Delegada da Polícia Civil do Rio, Dra. Helen Sardenberg. Uma mesa redonda reuniu as televisões católicas do Brasil: Rede Vida, Canção Nova, Aparecida, Século XXI, Terceiro Milênio, Horizonte, com uma apresentação da SIGNIS, que é o órgão da Igreja do Brasil para a comunicação. A Dra. Letícia Soberon falou-nos sobre a RIIAL (Rede da informática da Igreja na América Latina). Estava presente também o responsável pelo programa brasileiro da Rádio Vaticana, que nos falou sobre a Rádio do Papa.
Dentre as muitas e enriquecedoras idéias, que nos foram transmitidas naqueles dias no Centro de Estudos do Sumaré, tentarei destacar as mais importantes. As tecnologias que chamamos de novas, não o são para os jovens de hoje, que pertencem à geração da informática. O Papa adverte-nos que a cultura moderna está baseada nessas tecnologias, que constituem um desafio para a missão evangelizadora da Igreja. Precisamos saber falar ao jovens de hoje de nossas grandes cidades, que passam mais tempo diante do computador do que mesmo diante do televisor e sobretudo dos livros. Na internet, eles encontram tudo: informação, diversão e até sexo virtual. O homem moderno não dispõe apenas dos quatro clássicos meios de comunicação de outrora: imprensa, cinema, rádio e televisão. Hoje, são inúmeras as formas de comunicação que a moderna tecnologia oferece, desde a internet, o twitter, o facebook, o MSN e os vários aparelhos à disposição, como o IPad, IPod, Smarthphone, Tablets e tantos outros... A evangelização precisa da comunicação e a Igreja precisa estar presente nestes, que chamamos ainda novos meios de comunicação. Comunicar é convidar, não é convocar. Toda a pastoral tem que ser pensada em chave de comunicação. Existe uma cultura da comunicação, que precede a evangelização. A Igreja tem uma missão de fidelidade à verdade. A verdade é divina e ganhou expressão humana em Jesus Cristo, quando Ele disse: “Eu sou a verdade!” Comunicar é subsistir, é a arte de saber falar com o indivíduo, com cada uma das pessoas que me escutam. A internet não é apenas um meio de comunicação, mas passou a ser um ambiente de vida, onde as pessoas se encontram – dizia o Pe. Spadaro. A Igreja tem que entrar em diálogo com este mundo da comunicação, para transmitir-lhe a verdade que é Jesus..
Visita de particular interesse e importância foi a que fizemos ao famoso PROJAC, como é conhecido o Centro de Produção da Rede Globo em Jacarepaguá. Visitamos os estúdios de gravação das tele-novelas e boa parte das cidades cenográficas, que constituem aquele grande complexo de produção televisiva.
Fica-nos a convicção de que, seguindo o exemplo de Bento XVI, a Igreja precisa urgentemente saber utilizar esses meios de comunicação para poder evangelizar o homem de hoje, sobretudo os jovens.
(*) É arcebispo emérito de Maceió.
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D. Edvaldo G. Amaral
PATRIMÔNIO ARQUEOLÓGICO DE SANTARÉM EM EXTINÇÃO
Edilberto Sena *
Praticamente todo o bairro da Aldeia da cidade era um sítio arqueológico que foi encoberto por prédios e residências, além do asfalto. Ali viveram secularmente os povos pré-colombianos. Por falta de consciência e por falta de um órgão orientador, quase todo aquele patrimônio foi prejudicado. A área que ainda pode revelar essa história arqueológica está ao redor do porto das Docas do Pará. A arqueóloga Ana Roosevelt, que faz pesquisa naquela área desde 1991, diante das descobertas já feitas, propõe que seja declarada área de proteção ambiental, um museu arqueológico a céu aberto, sem retirada das relíquias, ali existentes. Agora chegou a Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA e convoca o Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, IPHAN para salvamento arqueológico no Campus Tapajós. O título do projeto é uma joia: “ gerenciamento do patrimônio arqueológico: prospecção e resgate na área de influência direta de construção de diversas estruturas no Campus da UFOPA!! Lindo projeto, mas já quase sem sentido porque pouco resta a ser protegido. Primeiro, porque a UFOPA nem deveria ter se instalado na área, caso seus dirigentes tivessem consciência histórica e zelo pelo patrimônio arqueológico. Contra o bom senso, a direção da UFOPA, recém instalada no pequeno campus da UFRA, deveria saber que ali era um sítio arqueológico, já pesquisado pela doutora Ana Roosevelt, mesmo assim construiu vários prédios, além dos que já existiam. Cimentou parte do sítio, só agora convoca o IPHAN para fazer prospecção e resgate do que resta. Além disso os técnicos do IPHAN não pensam em conservar o sítio, como museu a céu aberto, mas liberar as áreas restantes para novas construções, após retirar as peças encontradas e colocá-las em vitrines de museu. Estranha forma de cultivar cultura e história numa universidade que se diz amazônica. As culturas pre colombianas foram exterminadas em genocídios diversos e agora, suas relíquias são cobertas por cimento e tijólos. E as autoridades não reagem, aceitam passivamente a destruição do sítio arqueológico por quem deveria preservá-lo, a Universidade Federal. E a sociedade civil simplesmente ignora seus ancestrais e suas relíquias. Uma Pena
* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.
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Edilberto Sena
pai
Euza Noronha
quando eu ainda te via
príncipe dos meus contos de fada
botas grandes e negras
roubaram nossas histórias
(trocaram nossas Pérolas Infantis
por Brasil Nunca Mais)
e devolveram-te herói
quando eu apenas queria
teus beijos de sapo
quando eu ainda te via
príncipe dos meus contos de fada
botas grandes e negras
roubaram nossas histórias
(trocaram nossas Pérolas Infantis
por Brasil Nunca Mais)
e devolveram-te herói
quando eu apenas queria
teus beijos de sapo
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Euza Noronha
PERFIL MUNDIAL E LATINO-AMERICANO
Frei Betto
A Universidade de Bergen, na Noruega, desenvolve um Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza. Suas análises, como observa o cientista social Atílio A. Boron, da Argentina, têm desmoralizado o discurso oficial elaborado, nos últimos trinta anos, pelo Banco Mundial, e reproduzido incansavelmente pelos grandes meios de comunicação, autoridades governamentais, acadêmicos e intelectuais.
Hoje, habitam o planeta 6,8 bilhões de pessoas. Das quais, 1,2 bilhão são desnutridos crônicos (FAO, 2009); 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov http://www.fic.nih.gov/ ) ; 884 milhões vivem sem água potável (OMS/UNICEF, 2008); 924 milhões estão sem teto ou se abrigam em moradias precárias (ONU Habitat, 2003); 1,6 bilhão não dispõem de eletricidade (ONU, Habitat, Urban Energy); 2,5 bilhões não contam com saneamento básico (OMS/UNICEF, 2008); 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org http://www.uis.unesco.org/ ); 18 milhões morrem, por ano, devido à pobreza, a maioria crianças com menos de 5 anos (OMS); 218 milhões de jovens, entre 5 e 17 anos, trabalham em regime de semiescravidão (OIT: La eliminación del trabajo infantil: un objetivo a nuestro alcance, 2006)
Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população tiveram sua participação na renda mundial reduzida de 1,16% para 0,92%. A parcela 10% mais rica, que antes dispunha de 64,7% da riqueza mundial, ampliou sua fortuna, passou a dispor de 71,1%. O enriquecimento de uns poucos tem, como contrapartida, o empobrecimento de muitos, alerta Boron.
Apenas este aumento de 6,4% da fortuna dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população mundial! O que significaria salvar milhares de vidas e reduzir a penúria e o sofrimento dos mais pobres. Boron enfatiza: tal benefício se obteria tão somente redistribuindo os ganhos adicionais, entre 1988 e 2002, dos 10% mais ricos da população mundial, sem tirar um centavo de suas exorbitantes fortunas. Infelizmente tal medida soa inaceitavelmente odiosa para as classes dominantes do capitalismo mundial.
Eis a conclusão de Boron a partir dos dados da universidade norueguesa: “Se não se combate a pobreza (nem se fala em erradicá-la sob o capitalismo) é porque o sistema obedece a uma lógica implacável centrada na obtenção do lucro, na concentração de riqueza e no aumento incessante da pobreza e da desigualdade econômica-social.”
Se 2/3 da humanidade vivem, segundo a ONU, abaixo da linha da pobreza (= renda mensal inferior a US$ 60), não se pode considerar o capitalismo um sistema exitoso. Como o socialismo do Leste europeu, ele também fracassou. A diferença é que fracassou para a maioria da população mundial. E entre aqueles que celebram equivocadamente sua vitória – para eles, bem entendido -, a maioria não se dá conta de que o capitalismo causa desagregação social, destruição do meio ambiente, corrupção política, crise moral e incremento de conflitos bélicos.
Na América Latina, em fins de maio a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, vinculada à ONU) alertou para a dilatação dos níveis de desigualdade social. Embora o PIB continental possa crescer cerca de 4% este ano, há muita disparidade no interior dos países. No Brasil, por exemplo, Brasília é nove vezes mais rica do que o Piauí. No Peru, a região andina de Huancavelica é sete vezes mais pobre do que a parte costeira de Moquegua, no sul.
Há “territórios vencedores e perdedores”, afirmou a secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, na apresentação do informe. O desafio é “crescer para igualar”, e o Estado deve cumprir um papel mais ativo nesse sentido, e não deixar a tarefa para o mercado, propôs Bárcena.
As nações com maiores desigualdades são Bolívia, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Paraguai, Peru e República Dominicana, que, no biênio 2007/8, investiram, em média, apenas US$ 181 por pessoa em políticas sociais. Brasil, Argentina, Chile, Costa Rica, Panamá e Uruguai investiram, em média, US$ 1.029 naquele mesmo período. Esse bloco ostenta o maior PIB por pessoa na América Latina. A meio caminho estão Colômbia, México e Venezuela, com investimento médio de US$ 619.
O acesso à educação é um funil perverso. Entre jovens mais pobres, apenas 1 em cada 5 conclui o ensino médio. Entre os mais ricos, 4 em cada 5 o concluem.
Segundo a Cepal, para reduzir essa iniquidade, os países com menor gasto social teriam que investir entre 6% e 9% do PIB para assegurar cesta básica mensal à sua população menor de 5 anos, ao grupo com idade acima dos 65 e aos desempregados. No caso das crianças entre 5 e 14 anos, o cálculo se baseia na metade da cesta. O custo para as nações com maior gasto social oscilaria entre 1% e 1,5% do PIB e, para os países intermediários, entre 2% e 4%.
Apesar desses desafios, a Cepal reconhece um significativo aumento do gasto social global na América Latina: entre 1990 e 2008, passou de 12% para 18%. Houve também queda da pobreza regional: entre 2002 e 2008, baixou de 44% para 33%. No entanto, considera tais avanços insuficientes. O gasto social precisa aumentar ainda mais, sobretudo agora que o impacto da crise mundial provoca perda do poder aquisitivo das famílias e arrasta 9 milhões de pessoas para a pobreza.
Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org
twitter: @freibetto
Copyright 2010 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
A Universidade de Bergen, na Noruega, desenvolve um Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza. Suas análises, como observa o cientista social Atílio A. Boron, da Argentina, têm desmoralizado o discurso oficial elaborado, nos últimos trinta anos, pelo Banco Mundial, e reproduzido incansavelmente pelos grandes meios de comunicação, autoridades governamentais, acadêmicos e intelectuais.
Hoje, habitam o planeta 6,8 bilhões de pessoas. Das quais, 1,2 bilhão são desnutridos crônicos (FAO, 2009); 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov http://www.fic.nih.gov/ ) ; 884 milhões vivem sem água potável (OMS/UNICEF, 2008); 924 milhões estão sem teto ou se abrigam em moradias precárias (ONU Habitat, 2003); 1,6 bilhão não dispõem de eletricidade (ONU, Habitat, Urban Energy); 2,5 bilhões não contam com saneamento básico (OMS/UNICEF, 2008); 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org http://www.uis.unesco.org/ ); 18 milhões morrem, por ano, devido à pobreza, a maioria crianças com menos de 5 anos (OMS); 218 milhões de jovens, entre 5 e 17 anos, trabalham em regime de semiescravidão (OIT: La eliminación del trabajo infantil: un objetivo a nuestro alcance, 2006)
Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população tiveram sua participação na renda mundial reduzida de 1,16% para 0,92%. A parcela 10% mais rica, que antes dispunha de 64,7% da riqueza mundial, ampliou sua fortuna, passou a dispor de 71,1%. O enriquecimento de uns poucos tem, como contrapartida, o empobrecimento de muitos, alerta Boron.
Apenas este aumento de 6,4% da fortuna dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população mundial! O que significaria salvar milhares de vidas e reduzir a penúria e o sofrimento dos mais pobres. Boron enfatiza: tal benefício se obteria tão somente redistribuindo os ganhos adicionais, entre 1988 e 2002, dos 10% mais ricos da população mundial, sem tirar um centavo de suas exorbitantes fortunas. Infelizmente tal medida soa inaceitavelmente odiosa para as classes dominantes do capitalismo mundial.
Eis a conclusão de Boron a partir dos dados da universidade norueguesa: “Se não se combate a pobreza (nem se fala em erradicá-la sob o capitalismo) é porque o sistema obedece a uma lógica implacável centrada na obtenção do lucro, na concentração de riqueza e no aumento incessante da pobreza e da desigualdade econômica-social.”
Se 2/3 da humanidade vivem, segundo a ONU, abaixo da linha da pobreza (= renda mensal inferior a US$ 60), não se pode considerar o capitalismo um sistema exitoso. Como o socialismo do Leste europeu, ele também fracassou. A diferença é que fracassou para a maioria da população mundial. E entre aqueles que celebram equivocadamente sua vitória – para eles, bem entendido -, a maioria não se dá conta de que o capitalismo causa desagregação social, destruição do meio ambiente, corrupção política, crise moral e incremento de conflitos bélicos.
Na América Latina, em fins de maio a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, vinculada à ONU) alertou para a dilatação dos níveis de desigualdade social. Embora o PIB continental possa crescer cerca de 4% este ano, há muita disparidade no interior dos países. No Brasil, por exemplo, Brasília é nove vezes mais rica do que o Piauí. No Peru, a região andina de Huancavelica é sete vezes mais pobre do que a parte costeira de Moquegua, no sul.
Há “territórios vencedores e perdedores”, afirmou a secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, na apresentação do informe. O desafio é “crescer para igualar”, e o Estado deve cumprir um papel mais ativo nesse sentido, e não deixar a tarefa para o mercado, propôs Bárcena.
As nações com maiores desigualdades são Bolívia, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Paraguai, Peru e República Dominicana, que, no biênio 2007/8, investiram, em média, apenas US$ 181 por pessoa em políticas sociais. Brasil, Argentina, Chile, Costa Rica, Panamá e Uruguai investiram, em média, US$ 1.029 naquele mesmo período. Esse bloco ostenta o maior PIB por pessoa na América Latina. A meio caminho estão Colômbia, México e Venezuela, com investimento médio de US$ 619.
O acesso à educação é um funil perverso. Entre jovens mais pobres, apenas 1 em cada 5 conclui o ensino médio. Entre os mais ricos, 4 em cada 5 o concluem.
Segundo a Cepal, para reduzir essa iniquidade, os países com menor gasto social teriam que investir entre 6% e 9% do PIB para assegurar cesta básica mensal à sua população menor de 5 anos, ao grupo com idade acima dos 65 e aos desempregados. No caso das crianças entre 5 e 14 anos, o cálculo se baseia na metade da cesta. O custo para as nações com maior gasto social oscilaria entre 1% e 1,5% do PIB e, para os países intermediários, entre 2% e 4%.
Apesar desses desafios, a Cepal reconhece um significativo aumento do gasto social global na América Latina: entre 1990 e 2008, passou de 12% para 18%. Houve também queda da pobreza regional: entre 2002 e 2008, baixou de 44% para 33%. No entanto, considera tais avanços insuficientes. O gasto social precisa aumentar ainda mais, sobretudo agora que o impacto da crise mundial provoca perda do poder aquisitivo das famílias e arrasta 9 milhões de pessoas para a pobreza.
Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org
twitter: @freibetto
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Frei Betto
NEMATÓIDES DA ESTRADA
Gerson F. Filho
Põe este esculacho aí!
Os vermes estão indignados com o meio.
Não há matéria para todos,
As bocas infames não descansam.
Verbas orçamentos diretrizes
Dançam açodadas em agonias
No bolso dos infelizes.
Então o buraco permanece lá!
Na estrada,
Esperando-te ansioso
Com a foice na mão.
O culpado?
É você!
Eleitor;
Faça-me um favor:
Olhe-se no espelho.
Veja como os políticos
Parecem contigo.
Custo Brasil também é
O teu preço.
Tua herança tóxica
Ainda vai te matar...
Obs: Imagem enviada pelo autor.
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Gerson F. Filho
ELEGIA PARA BETINA
Ina Melo
inamelo2004@ig.com.br
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“Quem nunca teve um animal, desconhece as
doçuras do mundo”
(Clarice Lispector)
Luciana amava os animais desde criança, convivendo harmoniosamente com eles. Aos sete anos, visitando sua madrinha, ao ver Alpho, um belo cão preso no quintal, não se conteve e correu para abraçá-lo e, antes que alguém pudesse detê-la, gritava com o rosto sangrando. Fora o seu primeiro beijo. A marca permaneceu para sempre e não lhe causou nenhum trauma.
Quando se apaixonou pra valer, o presente do amado foi uma cadela da raça “bassé”, Champanhota, que acompanhou por muito tempo o casal. Ao nascer a primeira filha a cadela encantou-se deixando os filhotes. As crianças viviam entre cães, gatos e passarinhos. Todos tinham nome de gente, Luciana não os diferenciava dos humanos. Costumava dizer, quando a criticavam, que casa sem bichos, era um deserto. Entre eles, dois marcaram forte a sua vida. Kelly, uma cadela de raça “pequinês”, acompanhou por dezessete anos o crescimento das crianças, convivendo com o seu mundo barulhento. A pequena cadela era possessiva, dominadora e ciumenta. Não aceitava provocações e vez por outra, pegava no pé de alguém. Todos a temiam. Luciana tentava acalmar a gritaria, dizendo que ela só agredia porque era provocada (às vezes, não, era ruinzinha mesmo). Quando se encantou o seu mundo ficou silencioso. Os filhos casaram, seguindo cada qual o seu rumo. A casa ficou vazia e ela muito triste. No seu aniversário, ganhou de presente uma linda cadela da raça “Cookie-Spaniel”. Deu-lhe o nome de Betina. Era a rainha da casa. Cresceu se parecendo com a dona, loura e elegante. É verdade, os animais parecem com os seus donos. Porque era agressiva e barulhenta, Luciana nunca soube explicar. A filha mais velha morria de ciúmes dela. O tempo passou e Betina foi envelhecendo, assim como os donos. Sentiu e ficou triste quando dois deles partiram para outra galáxia. A família encolheu. Na casa ficaram Luciana, Tereza e Betina. O mundo tornou-se menor, compacto, vivendo as três completamente sós.
Quando filhos, netos e amigos apareciam, Betina demonstrava a sua alegria latindo forte. Eles não entendiam essa demonstração de amor e ciúme. Luciana para acalmar os ânimos, deixava-a presa no quarto e como todo idoso ranzinza, ela reclamava, latindo mais e mais.
Acostumada ao silêncio e aconchego do apartamento, quando via o seu mundo invadido, protestava. Luciana envelhecia e cada vez mais se prendia à Betina. Desejava sair, passar uns tempos fora, mas o que fazer, ninguém queria ficar com ela e não tinha coragem de abandonar a velha amiga e companheira, da qual era objeto de adoração. Todas as vezes que entrava em casa era festejada com latidos e pulos de alegria. Quem seria capaz de uma manifestação dessas, a não ser um animal com muito amor e carinho?
Num dia de ventos frios e triste de agosto, Betina encantou-se deixando um enorme vazio. Lágrimas rolaram pelas faces de Luciana, ela e sua fiel amiga Tereza ficaram tristes e saudosas, guardando, porém no coração a doce, sincera e incondicional amizade que só um animal é capaz de oferecer. A vida é assim, no começo um mundo rico e povoado de gente e sonhos. Com tempo a solidão total, pois até a amiga Tereza, resolveu ir embora. Hoje, contra a vontade de todos, prepara-se para ter mais um amigo animal para lhe fazer companhia no inverno da vida.
(dedico esta Elegia ao poeta Marcus Accioly).
Recife/Ag/06.
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Ina Melo
TERRA PLURAL, HUMANIDADE PLURAL EM BUSCA DE ESPERANÇA*
Ivone Gebara **
Ossos secos ouvi as palavras de Deus. Farei com que sejais penetrados de espírito, cobrir-vos-ei de tendões, farei com que sejais cobertos de carne e vos revestirei de pele. Porei em vós o meu espírito e vivereis. (Ezequiel, 37.6)
A simbologia dos ossos secos que esperam ser reavivados expressa bem nossa esperança em meio às diversas situações destrutivas em que vivemos.
Quem são hoje, os ossos secos e quem são os ossos cobertos de tendões e de carne? Quem são os que são habitados pelo espírito de Deus e quem são os que dele estão distantes?
Se acreditamos que somos um corpo único com a Terra, então todos estamos secos e todos estamos esperando ser ressuscitados.
Incêndios criminosos destroem florestas e matas. Invasões em terras indígenas matam povos e culturas milenares. A África na América Latina parece cada vez mais pilhada e empobrecida. Devastação ambiental, devastação cultural, devastação econômica a serviço de minorias fartas de carne, desnutridas de espírito e surdas aos apelos dos que pedem apenas vida digna é parte de nosso cotidiano.
Que caminhos buscar para sair desta ignomínia? Que trilhas abrir para salvar o corpo da Terra e nosso corpo plural? Que preces fazer para enternecer o coração das divindades da Terra e do céu e sair desta mútua destruição?
Perecemos juntos e, parecemos com aqueles que perdem a cada passo o sopro divino. Erramos como se estivéssemos sem forças, sem rumo e sem paradeiro. Perdemos o caminho de casa, da oca, da aldeia, da escola. Não sabemos mais onde mora o amigo nem onde está a árvore frondosa que acolhia as brincadeiras de nossa infância.
Perecemos, asfixiados pela poluição, pelo mau cheiro que confunde e até mata todos os bons cheiros que correm o risco de existir apenas na memória.
Perecemos, porque a soja substituiu nossas fruteiras, o boi comeu nosso feijão, a barragem matou o nosso rio, as cercas destruíram nossas terras, o lixo tomou conta das ruas, o ar virou monóxido de carbono.
Perecemos porque roubaram nossas vestes, nossas danças e nossos deuses e fizeram deles folclore, peças de museu, pesquisa de laboratório ou teses de doutorado.
Como conseguir que o ‘Altíssimo’ ponha de novo em nós o seu Espírito? Como pedir à ‘Baixíssima’ que nos ajude a recuperar as forças? Como retornar à Vida, nós que ainda estamos vivos?
Dos exílios de nossa própria terra sentimo-nos tomadas por um estranho cansaço. Nada nos anima, nada nos devolve as forças perdidas. Mais que o corpo, a alma está cansada. E, cansaço de alma é doença grave, é epidemia geral contagiosa como a cegueira branca de Saramago.
Cansaço em repetir as mesmas falas de antigamente! Cansaço em fazer as mesmas denúncias e desfiá-las como se desfiam as contas de um rosário? Cansaço das lições morais que se tiram no final das elucubrações teológicas em que acusamos uns e inocentamos outros ou acusamos todos de formas diferentes.
Cansaço de falar que Deus vai dar um jeito, que Cristo tem a solução, que na Bíblia está o caminho e que a Igreja é a servidora de todos.
Cansaço de nossas lições morais bem articuladas, das afirmações sobre a necessidade de ajudar os pobres, de respeitar os de pele negra, de salvar os indígenas, de cuidar do corpo sagrado da Terra, de não violar as mulheres, de não traficar crianças.
Cansaço de repetir aos domingos e dias santos que é preciso partilhar o pão, a terra e o vinho da alegria!
Cansaço de falar mal da metrópole portuguesa, dos primeiros missionários e dos conquistadores, dos colonizadores e dos impérios.
Cansaço de ouvir sempre de novo que fomos salvos pelo sangue de Cristo e que Deus está a nosso favor! E continuamos derramando sangue inocente ou culpado nas estradas, nas guerras, no tráfico de drogas, nos hospitais.
Cansaço das acusações dos políticos que arremessam uns aos outros as balas da responsabilidade não assumida.
Cansaço de nós mesmas que não encontramos saídas dignas para uma vida digna.
Enquanto isso, mãos destruidoras, nossas próprias mãos enlaçadas às alheias continuam executando os crimes, maquinados às claras e às escuras.
Crimes de grandes e crimes de pequenos.
Crimes cúmplices, crimes diretos, crimes indiretos, crimes com habeas corpus, crimes não afiançáveis, crimes ambientais, crimes culturais, crimes conjugais, crimes desconhecidos, simplesmente crimes.
Que cansaço da moral, da ética, dos discursos da lei e do direito!
Que cansaço das pregações, das homilias, dos discursos politicamente corretos!
Nunca foram tão vazios e inoperantes.
Nunca foram tão gastos e sem sabor.
Nunca chamaram tanto pelo fogo para consumi-los a todos e que não restem nem as cinzas para nossa lembrança.
Nunca desejamos tanto um dilúvio coletivo para que se possa talvez começar de novo e de um jeito novo. Nunca desejamos tanto que um fogo purificador consumisse nossa sordidez e que enfim “uma flor nasça do impossível chão”.
Houve momentos em que acreditamos que éramos bons, que seríamos até capazes de voltar ao Paraíso ou, de mãos dadas, nos aproximarmos do Reino de Deus, da fraternidade terrena, da sororidade universal.
Houve momentos em que convictos apostávamos sobre nossa capacidade de fazer de nossas utopias nosso pão cotidiano.
Houve momentos em que estávamos prestes a tocar o sonho com nossas mãos e acreditar que Deus através de nós instauraria o seu Reinado.
Mas, chegaram de novo os invasores,
Vieram de nossa própria terra,
Nasceram de nossa carne, frutos de nosso espírito...
Chegaram como ladrões de sonhos,
Como hierarcas que restabelecem seu poder,
Como inquisidores que restauram suas antigas verdades,
Como ambulantes que vendem mentiras e, de novo o povo acredita nelas e as compra com seu próprio sangue.
Que cansaço das falas éticas sem fim, das confissões mentirosas, das desculpas, da impunidade sem-vergonha.
Que cansaço das falas de justiça, dos pedidos de justiça, dos juizes sem justiça.
Que cansaço do Deus da boca dos homens, do Jesus Cristo das instituições falidas, da Bíblia usada e abusada pelas Corporações que governam o mundo, do perdão sem perdoados.
Será que tem conserto? Ou será que nunca terá?
Será que tem saída? Ou será um “caminho que não conduz a parte alguma”?
Foi erro da criação! Erro incorrigível. Não dá para voltar atrás, não dá para nascer de novo, para começar de outro jeito, continuar de outro jeito...
Foi algo que não funcionou bem no ínfimo segundo que antecedeu ao Big Bang, foi um espirro resfriado do Criador... E aí nos tornamos o que nos tornamos: lobos uns para os outros, leoas devoradoras de sua própria prole, comerciantes que vendem os irmãos, que abusam das irmãs, que se trocam por um par de sandálias, que depredam e incendeiam a terra.
Nos tornamos explosivos e implosivos no campo e na cidade, no ônibus e no metrô, em casa e na rua.
Nos tornamos angélicos demônios capazes de nos habituar à violência cotidiana.
De gostar do ruído de nossas armas de guerra.
De nos conformarmos com os cadáveres jogados nas valas comuns sem identidade própria.
Nos tornamos maldosamente astutos com capacidade de silenciar a vida sem ruído.
Matar, morrer, matar...
Nascer matando, Morrer matando,
Brincar matando.
Viver matando.
Por isso: cansaço das teorias, das antropologias, das vãs teologias...
E, no entanto, desta morte semeada e colhida, desta violência crescida, deste charco inundado de lágrimas, destes sons gritados de dor há algo tênue que destoa, há algo que entoa outra nota, outra música, outro som. Mal se pode ouvir, mas com atenção o percebemos... Há uma chama diferente, um odor suave que se distingue, uma carícia de verdade que se delineia.
Há pequenos espaços de um sorriso franco, há os pequenos instantes de atração irresistível, há algum perdão acontecendo, há um balbuciar de amor numa rua escura, há uma canção falando de flores, há um intento mínimo de divisão do pão, há uma lágrima enxugada, uma cruz carregada a dois, uma flor entregue, uma nova semente jogada ao chão...
Tão pouco e tão frágil!
Tão pouco, mas capaz de fazer nascer uma luz.
Capaz de mover corações,
Capaz de fazer nascer uma criança.
Há sempre alguma graça na desgraça sem fim.
E esta graça regenera o mundo de sua falta de razão.
Torna-se coração da Terra, torna-se coração da humanidade.
Torna-se o único sentido capaz de sustentar nossos corpos sedentos de sentido.
Torna-se carne de nossa carne, misturada a toda violência que produzimos.
Torna-se a única fonte portadora da esperança do espírito, o espírito de ternura e compaixão capaz de nos devolver vida e recriar de novo nossos ossos ressequidos.
*Publicado na revista digital Tempo e Presença
** Filósofa e teóloga, feminista e escritora
Ossos secos ouvi as palavras de Deus. Farei com que sejais penetrados de espírito, cobrir-vos-ei de tendões, farei com que sejais cobertos de carne e vos revestirei de pele. Porei em vós o meu espírito e vivereis. (Ezequiel, 37.6)
A simbologia dos ossos secos que esperam ser reavivados expressa bem nossa esperança em meio às diversas situações destrutivas em que vivemos.
Quem são hoje, os ossos secos e quem são os ossos cobertos de tendões e de carne? Quem são os que são habitados pelo espírito de Deus e quem são os que dele estão distantes?
Se acreditamos que somos um corpo único com a Terra, então todos estamos secos e todos estamos esperando ser ressuscitados.
Incêndios criminosos destroem florestas e matas. Invasões em terras indígenas matam povos e culturas milenares. A África na América Latina parece cada vez mais pilhada e empobrecida. Devastação ambiental, devastação cultural, devastação econômica a serviço de minorias fartas de carne, desnutridas de espírito e surdas aos apelos dos que pedem apenas vida digna é parte de nosso cotidiano.
Que caminhos buscar para sair desta ignomínia? Que trilhas abrir para salvar o corpo da Terra e nosso corpo plural? Que preces fazer para enternecer o coração das divindades da Terra e do céu e sair desta mútua destruição?
Perecemos juntos e, parecemos com aqueles que perdem a cada passo o sopro divino. Erramos como se estivéssemos sem forças, sem rumo e sem paradeiro. Perdemos o caminho de casa, da oca, da aldeia, da escola. Não sabemos mais onde mora o amigo nem onde está a árvore frondosa que acolhia as brincadeiras de nossa infância.
Perecemos, asfixiados pela poluição, pelo mau cheiro que confunde e até mata todos os bons cheiros que correm o risco de existir apenas na memória.
Perecemos, porque a soja substituiu nossas fruteiras, o boi comeu nosso feijão, a barragem matou o nosso rio, as cercas destruíram nossas terras, o lixo tomou conta das ruas, o ar virou monóxido de carbono.
Perecemos porque roubaram nossas vestes, nossas danças e nossos deuses e fizeram deles folclore, peças de museu, pesquisa de laboratório ou teses de doutorado.
Como conseguir que o ‘Altíssimo’ ponha de novo em nós o seu Espírito? Como pedir à ‘Baixíssima’ que nos ajude a recuperar as forças? Como retornar à Vida, nós que ainda estamos vivos?
Dos exílios de nossa própria terra sentimo-nos tomadas por um estranho cansaço. Nada nos anima, nada nos devolve as forças perdidas. Mais que o corpo, a alma está cansada. E, cansaço de alma é doença grave, é epidemia geral contagiosa como a cegueira branca de Saramago.
Cansaço em repetir as mesmas falas de antigamente! Cansaço em fazer as mesmas denúncias e desfiá-las como se desfiam as contas de um rosário? Cansaço das lições morais que se tiram no final das elucubrações teológicas em que acusamos uns e inocentamos outros ou acusamos todos de formas diferentes.
Cansaço de falar que Deus vai dar um jeito, que Cristo tem a solução, que na Bíblia está o caminho e que a Igreja é a servidora de todos.
Cansaço de nossas lições morais bem articuladas, das afirmações sobre a necessidade de ajudar os pobres, de respeitar os de pele negra, de salvar os indígenas, de cuidar do corpo sagrado da Terra, de não violar as mulheres, de não traficar crianças.
Cansaço de repetir aos domingos e dias santos que é preciso partilhar o pão, a terra e o vinho da alegria!
Cansaço de falar mal da metrópole portuguesa, dos primeiros missionários e dos conquistadores, dos colonizadores e dos impérios.
Cansaço de ouvir sempre de novo que fomos salvos pelo sangue de Cristo e que Deus está a nosso favor! E continuamos derramando sangue inocente ou culpado nas estradas, nas guerras, no tráfico de drogas, nos hospitais.
Cansaço das acusações dos políticos que arremessam uns aos outros as balas da responsabilidade não assumida.
Cansaço de nós mesmas que não encontramos saídas dignas para uma vida digna.
Enquanto isso, mãos destruidoras, nossas próprias mãos enlaçadas às alheias continuam executando os crimes, maquinados às claras e às escuras.
Crimes de grandes e crimes de pequenos.
Crimes cúmplices, crimes diretos, crimes indiretos, crimes com habeas corpus, crimes não afiançáveis, crimes ambientais, crimes culturais, crimes conjugais, crimes desconhecidos, simplesmente crimes.
Que cansaço da moral, da ética, dos discursos da lei e do direito!
Que cansaço das pregações, das homilias, dos discursos politicamente corretos!
Nunca foram tão vazios e inoperantes.
Nunca foram tão gastos e sem sabor.
Nunca chamaram tanto pelo fogo para consumi-los a todos e que não restem nem as cinzas para nossa lembrança.
Nunca desejamos tanto um dilúvio coletivo para que se possa talvez começar de novo e de um jeito novo. Nunca desejamos tanto que um fogo purificador consumisse nossa sordidez e que enfim “uma flor nasça do impossível chão”.
Houve momentos em que acreditamos que éramos bons, que seríamos até capazes de voltar ao Paraíso ou, de mãos dadas, nos aproximarmos do Reino de Deus, da fraternidade terrena, da sororidade universal.
Houve momentos em que convictos apostávamos sobre nossa capacidade de fazer de nossas utopias nosso pão cotidiano.
Houve momentos em que estávamos prestes a tocar o sonho com nossas mãos e acreditar que Deus através de nós instauraria o seu Reinado.
Mas, chegaram de novo os invasores,
Vieram de nossa própria terra,
Nasceram de nossa carne, frutos de nosso espírito...
Chegaram como ladrões de sonhos,
Como hierarcas que restabelecem seu poder,
Como inquisidores que restauram suas antigas verdades,
Como ambulantes que vendem mentiras e, de novo o povo acredita nelas e as compra com seu próprio sangue.
Que cansaço das falas éticas sem fim, das confissões mentirosas, das desculpas, da impunidade sem-vergonha.
Que cansaço das falas de justiça, dos pedidos de justiça, dos juizes sem justiça.
Que cansaço do Deus da boca dos homens, do Jesus Cristo das instituições falidas, da Bíblia usada e abusada pelas Corporações que governam o mundo, do perdão sem perdoados.
Será que tem conserto? Ou será que nunca terá?
Será que tem saída? Ou será um “caminho que não conduz a parte alguma”?
Foi erro da criação! Erro incorrigível. Não dá para voltar atrás, não dá para nascer de novo, para começar de outro jeito, continuar de outro jeito...
Foi algo que não funcionou bem no ínfimo segundo que antecedeu ao Big Bang, foi um espirro resfriado do Criador... E aí nos tornamos o que nos tornamos: lobos uns para os outros, leoas devoradoras de sua própria prole, comerciantes que vendem os irmãos, que abusam das irmãs, que se trocam por um par de sandálias, que depredam e incendeiam a terra.
Nos tornamos explosivos e implosivos no campo e na cidade, no ônibus e no metrô, em casa e na rua.
Nos tornamos angélicos demônios capazes de nos habituar à violência cotidiana.
De gostar do ruído de nossas armas de guerra.
De nos conformarmos com os cadáveres jogados nas valas comuns sem identidade própria.
Nos tornamos maldosamente astutos com capacidade de silenciar a vida sem ruído.
Matar, morrer, matar...
Nascer matando, Morrer matando,
Brincar matando.
Viver matando.
Por isso: cansaço das teorias, das antropologias, das vãs teologias...
E, no entanto, desta morte semeada e colhida, desta violência crescida, deste charco inundado de lágrimas, destes sons gritados de dor há algo tênue que destoa, há algo que entoa outra nota, outra música, outro som. Mal se pode ouvir, mas com atenção o percebemos... Há uma chama diferente, um odor suave que se distingue, uma carícia de verdade que se delineia.
Há pequenos espaços de um sorriso franco, há os pequenos instantes de atração irresistível, há algum perdão acontecendo, há um balbuciar de amor numa rua escura, há uma canção falando de flores, há um intento mínimo de divisão do pão, há uma lágrima enxugada, uma cruz carregada a dois, uma flor entregue, uma nova semente jogada ao chão...
Tão pouco e tão frágil!
Tão pouco, mas capaz de fazer nascer uma luz.
Capaz de mover corações,
Capaz de fazer nascer uma criança.
Há sempre alguma graça na desgraça sem fim.
E esta graça regenera o mundo de sua falta de razão.
Torna-se coração da Terra, torna-se coração da humanidade.
Torna-se o único sentido capaz de sustentar nossos corpos sedentos de sentido.
Torna-se carne de nossa carne, misturada a toda violência que produzimos.
Torna-se a única fonte portadora da esperança do espírito, o espírito de ternura e compaixão capaz de nos devolver vida e recriar de novo nossos ossos ressequidos.
*Publicado na revista digital Tempo e Presença
** Filósofa e teóloga, feminista e escritora
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TEXTO DE JOSÉ DE ALENCAR GODINHO GUIMARÃES *
jfdelvitoralencar@hotmail.com
Rara sensação moderna
da tranquilidade da mente
que em teia de problermas
se lança ao absurdo desconhecido
a procura exagerada
da leveza da alma
que se deita e se acalma
alheia,
sozinha,
em paz.
* Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA
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José de Alencar Godinho Guimarães
MONGES
Laudi Flor
laudiflor@gmail.com
Há algum tempo, visitei o Mosteiro de São Bento, em Olinda-PE. Ali fui informada que diariamente, precisamente as 17:30 horas, havia audição de canto gregoriano,entoado pelos monges que lá residiam.
Todos os dias, faça chuva ou faça sol, com público para assistir o espetáculo ou sem ninguém que aprecie o evento,no horário determinado, eles estão alí, bem vestidos, limpos, prontos a entoar seu canto e encantar quem se dispõe a ouvi-los.Todas os dias, com o mesmo entusiasmo, cantam e oferecem a Deus o que tem de melhor, o canto Gregoriano.
Pois bem, tomando como exemplo os monges, nosso blog, " Perfume de Flor ", sempre que possível, havendo leitores ou não, vai postar um novo texto. Se alguém, ou um extraterrestre de outra galáxia ler e apreciar o texto que bom! O prazer é todo meu!
Nossa proposta é perfumar a vida, e levar o leitor a inteirar-se de coisas doces e dóceis, porque manchetes desagradáveis não é preciso levar a seu conhecimento, saltam aos nossos olhos, todos os dias nos jornais, e noticiários da TV.
O prazer de escrever é todo meu, minha alma é de poeta e certamente escreveria para as estrelas se não existissem leitores.Portanto caro leitor, se vc me brinda com sua presença amiga e deseja comentar situações análogas, estou aguardando seu comentário, simplesmente porque o prazer é todo meu! \0/
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Laudi Flor
TEXTO DE LUG COSTA
Juntas as tuas mãos e elevas para o alto,
elas também foram feitas para podermos reconhecer que caminhamos para o alto.
Outras mãos ali nos esperam
para nos acolher na terra dos filhos e filhos de Deus.
Juntas tuas mãos para
doar,
acolher,
abraçar,
acariciar,
perdoar,
abraçar,
agradecer.
(S. Paulo 02.05.2004)
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Lug Costa
PORQUE OS GRANDES DO MUNDO MENTEM
Marcelo Barros(*)
É o título de um livro (Why leaders lie) que acaba de ser publicado por John Mearsheiner, professor de ciências políticas na Universidade de Chicago (Internazionale, 27-05- 2011, p. 5). O livro elenca mentiras graves proclamadas por Donald Rumsfeld, ex-secretário de defesa dos Estados Unidos (“Sabemos onde estão as armas de destruição em massa”), do premier italiano Sílvio Berlusconi (“A esquerda italiana quer transformar nossas cidades em acampamentos de ciganos, invadidas por estrangeiros) e por presidentes de vários países democráticos. Aliás, segundo o professor, os governos de países ditos democráticos mentem mais, já que os ditadores não precisam de mentir. Não dependem do consenso de seus cidadãos.
As mentiras dos poderosos são de vários tipos. Há as de caráter pessoal, como quando depois de eleitos, os políticos esquecem ou negam promessas de campanha. Há mentiras de conteúdo econômico. E há as que justificam ou provocam guerras, massacres de povos inteiros e lançam países em aventuras inconcebíveis e inconseqüentes, como fez George Bush e agora fazem os governos que coordenam ações militares na Líbia e em outros países. Um bispo católico de Trípoli declarou: “As tropas da OTAM estão jogando bombas sobre alvos civis, destroem hospitais e tornam nossa vida insuportável. Eram aliados de Gadafi até poucos meses. Agora apóiam os rebeldes para garantir a continuidade dos seus interesses nos poços de petróleo e minérios do país”. Nos Estados Unidos, Nethanhyahu, primeiro ministro de Israel, declarou que é a favor da paz no Oriente Médio, mas, ao mesmo tempo, deixou claro que é contrário a um Estado palestino. O que está por trás desta mentira é: “precisamos vender as armas que fabricamos e não temos contra quem usá-la a não ser contra os palestinos. Por isso, continuaremos a guerra”.
No Brasil, entre outros políticos processados, um vice-prefeito foi preso e um ex-ministro do governo está sob investigações, acusados de corrupção econômica. Como outros povos do mundo, os brasileiros estão cada dia mais preocupados com a corrupção que mina nossas instituições sociais e políticas. Por outro lado, a imprensa e os partidos de direita que não se incomodavam muito quando a corrupção era praticada por seus aliados, agora, aproveitam qualquer chance para atacar o governo. Nos anos 90, a propaganda oficial era que um remédio contra a corrupção era privatizar as empresas estatais. Privatizaram tudo o que foi possível e a corrupção continua inabalável. Nos anos mais recentes, a imprensa tem denunciado sinais de corrupção, até quando não pode prová-la. A polícia federal atua mais fortemente do que antes. Políticos que antes nunca foram incomodados têm ido para a cadeia e respondem processos. Mesmo assim, a corrupção continua. Os meios de comunicação e a sociedade em geral vêem a corrupção como uma falha moral de alguns políticos. Não percebem que, no sistema vigente no Brasil e na sociedade dominante, a corrupção é um problema em primeiro lugar político e estrutural. É mais um sintoma de doença do que uma doença em si mesma. Não adianta combater a corrupção apenas como uma falha moral de alguns políticos e não buscar as causas estruturais. É preciso perceber que sem uma transformação no sistema social e econômico que provoca isso, nunca se resolverá esta epidemia. Um sistema econômico que mantém desigualdades tão terríveis como no Brasil não pode ser isento de corrupção. A corrupção não é apenas o roubo e a riqueza obtida de forma claramente desonesta. O lucro exorbitante dos grandes bancos, contra os quais ninguém protesta, é uma forma de corrupção do poder. Um político eleito para um tipo de programa de governo que trai seus eleitores e realiza uma gestão contrária àquela para a qual foi eleito comete uma corrupção política.
Para destruir uma praga, é preciso remover as raízes do problema. Só venceremos profundamente a corrupção quando conseguirmos, a partir das bases, organizar uma sociedade participativa que não apenas eleja governos, mas os controle e tenha o poder de, a todo momento, confirmar ou destituir os seus representantes legais. Em outros lugares do mundo isso está começando a se fazer. Os poderosos que mentem e que defendem injustiças estruturais se cuidem.
(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
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OVO DA SERPENTE AO NORTE DO PLANETA
Maria Clara Lucchetti Bingemer *
A Noruega viveu na última sexta-feira, dia 22, a maior tragédia do país desde a Segunda Guerra Mundial. Dois atentados causaram 76 mortes. Primeiro, uma bomba explodiu no centro da capital, Oslo, na região onde estão localizados vários prédios governamentais. A segunda tragédia aconteceu em uma ilha próxima da capital, Utoya. Lá, Anders Behring Breivik, um homem de 32 anos, vestido com uniforme da polícia, abriu fogo contra jovens reunidos em um acampamento de verão. Ele foi detido logo depois pela polícia e admitiu o crime. O atirador – ligado à extrema-direita - também é responsável pelo ataque em Oslo.
Perplexo, o mundo contempla o país com altos índices de desenvolvimento que é a Noruega gemer de dor, impotente ao chorar seus mortos. E compartilha da perplexidade do povo norueguês por não compreender o objetivo e o sentido de tão brutal atentado. O que poderia mover uma pessoa jovem como Anders Behring Breivik a abrir fogo contra outros jovens que pacificamente faziam um acampamento de verão? Mais: como compreender o que o próprio Breivik declara no manifesto, afirmando estar movendo "guerra de sangue" a imigrantes e marxistas?
O manifesto, divulgado na internet na própria sexta-feira, poucas horas antes dos dois ataques, parece, em boa parte, copiado de um texto do terrorista americano Ted Kaczynski, conhecido como "Unabomber", e que entre 1978 e 1995 matou três pessoas, enviando até 16 bombas a alvos diversos, como universidades e companhias aéreas. Porém, introduz outros conceitos, diferentes do predecessor. Conceitos tão herméticos e obscuros – dentro do contexto em que são invocados – como "multiculturalismo" e "marxismo cultural".
Os alvos de Breivik, pelo visto, são os comunistas, os muçulmanos e quem sabe quem mais? Assim começou há mais de 60 anos, outra história que tinha como inimigos mortais, alvos de total extermínio não os muçulmanos e comunistas, mas os judeus. Enquanto o predecessor de Breivik, Adolf Hitler, fazia sua demencial trajetória Europa afora, 60 milhões de seres humanos foram deportados para os campos da morte, assassinados, torturados e usados como cobaias em laboratórios.
O estilo espetacular e exibicionista também ajuda a conectar os dois exterminadores. Ambos se acreditavam investidos de uma missão que para ser levada a cabo necessitaria de uma “revolução”, dolorosa, mas necessária. Além disso, têm ânsia por visibilidade. Enquanto Hitler organizava verdadeiros shows públicos de sua pessoa e de todo o exército que comandava, Breivik se dispôs a falar perante o juiz, mas com a presença da imprensa. Isso não lhe foi permitido.
Breivik é um fanático, que parece não recuar diante de nada para eliminar de sua frente aqueles que considera indesejáveis ou ameaçadores para o “sonho europeu” que persegue e difunde em suas mensagens pela internet. Os ataques que protagonizou, fundamentados por teorias de extrema-direita, deixam a Europa e o mundo em estado de alerta, já que uma onda de repulsa a imigrantes, declínio econômico, aumento do desemprego e medo crescente de retaliação de fundamentalistas islâmicos têm tomado conta de vários países do velho continente.
O que os tristes acontecimentos da Noruega nos dizem é que parece que o apoio a teorias xenófobas, como as que segue o atirador fanático de Oslo e da ilha de Utoeya, está crescendo. Vem da Bíblia o conceito de que a coexistência com ideias e companhias maléficas equivale a chocar o ovo de uma serpente. Em 1977, o notável cineasta Ingmar Bergman fez um filme com o título "O Ovo da Serpente", ambientado entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, quando o nazismo nasceu e prosperou na Alemanha, encantando governantes de índole totalitária em vários cantos do mundo. O resultado é bastante conhecido e lamentado até os dias de hoje.
Eventos como o da Noruega parecem assustadoramente apontar nesta direção. Através do gesto tresloucado e das palavras mais ainda de Breivik, pode-se discernir o futuro provável da Europa e do mundo se providências enérgicas não forem tomadas para reprimir a expansão desta ideologia de extrema direita que retorna. Através das membranes finas do ovo, pode-se vislumbrar o réptil peçonhento e letal, perfeitamente concebido e pronto para atacar.
* Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/
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