domingo, 26 de junho de 2011

SOMOS TODOS IRMÃOS


Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


Irmão Urso é um desenho animado inspirado no mito da transformação presentes em culturas antigas. A história se passa na era glacial em um local fictício e aborda aspectos como o companheirismo entre irmãos, bem como os elos que unem o homem á natureza.

O filme merece ser visto por todas as idades, pois sua mensagem é muito profunda, havendo muitos ensinamentos sobre natureza, coletividade, missão de vida, irmandade, mesmo sendo um filme considerado infantil.

A trilha sonora também é linda com trabalhos de Phil Collin e mais dois grupos musicais aclamados nos Estados Unidos, destaco As musicas “ Welcome”, “transformation”.

É um filme especial que fala de amor, de irmandade, de escolhas, acolhimento das diferenças que nos deixa uma agradável sensação de sonhar que o mundo pode se tornar em algo assim.


Obs: Imagens enviadas pela autora:
Foto 1 – capa do filme
Foto2 – foto na frente do hospital infantil

 

POR QUE NÃO?


Betto Santos*
robertosantos@mail.com


Sei que o que eu fiz foi tão insano
Achar que era possível algo mudar
Tolo e ingênuo fui vagando
Imaginando um futuro que nunca vai chegar

Olhando pro passado e buscando um consolo
Só assim vou me acalmar
Minto no que faço, rio olhando o espaço
Com medo de acordar

Sou o primeiro que vai esquecer
Tudo o que um dia quis encontrar
Fiz o que pude para entender
As explicações exatas pra você duvidar

Ilusões em um momento tão passageiro
Que loucura acreditar
Vou tomar pílulas de esquecimento
E nunca mais voltar a sonhar

Incrédulo fitei seus olhos vazios
Procurando os sentimentos que nunca vou achar
Isso me lembra um filme que se repete
Mesmo antes de você chegar

Mas agora que vejo tudo claramente
Como não chorar?
As lembranças ofuscadas em minha mente
Revivem ao te encontrar


* http://bettosantos.blogspot.com

...TEMPO PERDIDO...


CauReb

Num determinado momento da vida
Paramos e olhamos pra trás...
E nos deparamos com mais erros
Do que acertos...

É quando nos damos conta,
Que o tempo perdido,
Não tem mais como ser achado...

Percebemos que a hora de decidir
O que ser quando crescer,
Já passou...
É que não somos nada daquilo
Que esperamos que fossêmos ser um dia.

Voltar atrás
Não é uma opção........

E o tempo perdido,
Definitivamente,
Não tem mais como ser achado...


(10/05/2011)


Obs: Imagem enviada pela autora.


O PENSAMENTO

Cláudio do Patrocínio Pereira


Mas como voa a imaginação humana...
Mutável como o raio é o pensamento
E edificante que da mente emana.
Vai da alegria até o tormento.

E os castelos sobem ao sidério
Talvez erguidos em raro alicerce.
Maquinados num vigor etério.
No poder que o intelecto exerce

Se pensar no bem possa parecer arfante.
Para o nosso ego é algo rutilante.
Imaginar-se o bem é remir-se do mal...

Meditar sem mácula engrandece o ser
A semente que por certo irá renascer
Bom presságio até se torna capital!


Recife, 29 de março de 2011







COISAS DE GENTE


Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


          Quando o homem morre e deixa filhos, a mãe abre os braços para acolhe-los. Quando a mulher morre, o pai abre os olhos para ver aonde vai deixa-los.
          Dizem que a alegria de uma casa é uma criança, mas eu acho que é uma empregada.
          No final de semana chegam os filhos, noras, genros e netos.
          Ao vê-los, a avó se queixa:
          - Valha-me Deus!
          - Trouxemos a babá.
          - Graças a Deus!
          Quanto ao cachorro, para ele são todos os carinhos, os nhenhenhens. É cosquinha na barriga, é cheiro nas orelhas fedidas. Agora, vá a gente deitar no chão e esperar que alguém venha fazer cosquinhas. Se não morrer pisada, corre o risco de ir para o hospício.
          Tem mais regalias do que qualquer um, nós, míseros seres humanos. Sai, todos os dias, para tomar banho de sol, namorar e desistir do que comeu e bebeu. Tem motorista e babá, veterinário e cozinheira. Come na hora certa, toma banho com xampu especial – mais caro do que o meu – é vacinado, escovado e lavado. Há uma grande preocupação em se saber se ele já cruzou, enquanto a dona é descruzada invicta. Em suma, é a alegria da casa. Todos vivem em função dele.
          Dizem que o amor mais desprendido do mundo é o da mãe pelos filhos. É nada! É o do dono pelo seu cachorro. A ele tudo se dá: amor, atenção, carinho, mesmo sabendo que ele não tem herança para deixar, nem casa na praia, nem na granja, não tem dinheiro no banco, não faz testamento. O que tem, deixa em vida pra gente limpar.
          Na outra encarnação, quero voltar cachorro, de preferência vira-lata, pois o vira-lata é livre para andar na rua, é amigo do dono do açougue, apesar das porradas que leva, come comida de verdade, não toma banho, tem umas pulguinhas para se distrair, não toma vacina, trepa quando tem vontade e não está nem aí para os falatórios.
          Se eu não puder voltar cachorro que pelo menos venha latindo, pois, segungo Exupéry, a linguagem é uma fonte de mal-entendidos. O cão é o melhor amigo do homem porque não fala e nem se preocupa com o que escuta.
          E a velhinha, como é tratada? Ri quando lhe dizem que está na melhor idade. Ela sabe: é a melhor para morrer. Passa o dia inteiro sentada, porque já não pode andar. Tem artrose, artrite e desprezo. Sentada na cadeira, cheia de dores, fede a mijo, come e dorme quando os outros querem.
          Bem feito, quem mandou não nascer cachorro?


Obs: Texto retirado do livro da autora – Deixe de ser besta -





MUDANÇAS: CLIMÁTICAS E DEMOCRÁTICAS

D. Demétrio Valentini *


          Existe um consenso difuso sobre a existência, e a gravidade, de mudanças climáticas em andamento em nosso planeta. Mas está difícil de dimensioná-las com precisão, e de identificar suas verdadeiras causas. Ao lado de certezas evidentes, devemos reconhecer que existe um amplo campo de averiguações a serem efetivadas.

          De modo semelhante, no campo da política. Existe um amplo consenso de que assim já não dá mais. Há um consenso genérico da urgência de mudanças a efetivar na política. Mas está difícil de identificar as propostas concretas, e definir sua formulação.

          Desta vez, intuímos que os próprios instrumentos tradicionais do sistema democrático, com o esquema de partidos, eleições, delegação de poderes ao legislativo, executivo e judiciário, tudo isto está bastante desgastado, numa espécie de esclerose dos instrumentos da democracia.

          O sintoma mais evidente deste esgotamento da democracia se escancara no fenômeno de manifestações populares que vão se tornando cada vez mais freqüentes. As verificadas recentemente nos países árabes, de início pareciam se reduzir à irrupção de descontentamentos sufocados por velhos regimes ditatoriais. Mas sua persistência e seu alastramento para outros países, como se verificou recentemente em Barcelona, mostram que não são meramente episódicas. A intensidade dos protestos e a insistência em expressar um difuso descontentamento, apontam para a necessidade de mudanças mais profundas em todo sistema democrático.

          Parece que a praça volta ser palco das decisões políticas.

          Olhando a realidade brasileira, não é difícil identificar um leque de mudanças, que as instâncias tradicionais não estão conseguindo dar conta de maneira adequada. Precisamos realizar a reforma política, a reforma tributária, a reforma previdenciária, e precisamos aprimorar o código florestal, aprovado pela Câmara Federal e submetido agora à apreciação do Senado.

          A tramitação do Código Florestal serve de amostra da crise de confiabilidade que afeta nosso sistema democrático. Como está difícil de levar adiante um debate sereno e sem radicalizações, em torno de um assunto de evidente interesse de todos. Sobre este assunto precisaríamos chegar a uma clareza muito maior das implicações dos itens que foram votados, identificar onde estão os pontos nevrálgicos de um código florestal que seja adequado à grande diversidade de situações existentes no Brasil, em especial a floresta amazônica com sua necessária peculiaridade, que não pode servir de padrão para os outros biomas existentes no país. Precisaríamos chegar a consensos sobre o que o Senado deveria modificar, e que pontos eventualmente precisariam ser levados a um referendo popular.

          No que se refere à reforma política, talvez seria o caso de identificar por onde começar um processo, que possa ir desencadeando depois outras mudanças. Este núcleo inicial precisaria ser bem identificado, para o caso de se partir para uma iniciativa popular de lei, para que as primeiras mudanças tenham consistência e inspirem credibilidade para todo o processo.

          Para desencadear uma reforma tributária, seria necessário identificar mudanças que ao mesmo tempo incentivem a produção, equalizem os compromissos sociais, e se tornem instrumento para uma justa e eficaz distribuição de renda.

          Em todo o caso, está na hora de sentir a convocação para entramos em campo, para oxigenar a democracia, e superar a esclerose dos seus instrumentos tradicionais.







REDE DE NOTÍCIAS DA AMAZÔNIA RECEBE PRÊMIO NACIONAL


Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


Prestar serviço às comunidades da Amazônia, nos campos da informação e formação da consciência crítica, este é o principal objetivo da Rede de Notícias da Amazônia - a RNA, uma associação que atualmente junta 12 emissoras de rádio na região, com pretensão de ampliar este número para cobrir toda a grande região. As 12 emissoras podem hoje alcançar cerca de 5 milhões de ouvintes, num universo de 25 milhões de habitantes que vivem nos seis Estados da Amazônia real brasileira.

Mas ter reconhecimento nacional em classificação com o prêmio microfone de prata da Conferência nacional dos Bispos do Brasil e Signis Brasil, é um sinal de vida importante. Torna-se motivo de estímulo aos produtores e apresentadores dos programas da RNA, que tem sede na Rádio Rural de Santarém, Pará. Há três anos que a RNA vem produzindo um noticiário amazônico de 30 minutos de segunda à sexta feira e um programa de educação ambiental de 30 minutos aos sábados. Todos os programas são gerados nas emissoras sócias e a cabeça de rede, em Santarém junta as informações e devolve a todas as 12 sócias, que transmitem no mesmo horário em suas regiões. Aqui está um diferencial da RNA em relação às outras redes existente no Brasil. Ela não filtra as notícias, mas respeita os acordos feitos em assembléia de diretores e assim, todos os ouvintes dos seis Estados podem saber o que ocorre na Amazônia, além de poder adquirir formação cultural e consciência cidadã.

Justamente o programa “Caminhos da Amazônia” foi premiado com o microfone de Prata, na categoria entretenimento de qualidade a nível nacional. A cada semana uma das emissoras sócias da RNA produz o programa dentro de uma linha comum pedagógica, com músicas temáticas e a partir da realidade regional. Assim, os e as ouvintes podem sentir interesse pelo fato de perceberem suas vidas próximas nos assuntos abordados na RNA.

Para os e as produtoras de caminhos da Amazônia, a premiação nacional vem trazer alegria e consciência de que o que fazem tem reconhecimento importante e os convoca a continuarem aperfeiçoando sua produção


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.

FOGUEIRA DE PAIXÕES

Ina Melo


          Noite fria de junho. A pequena cidade serrana enfeitada de bandeirolas coloridas, com fogueiras em quase todas as ruas, preparava-se para uma festa simples, onde felicidade e alegria nunca faltavam. Era o São João festa popular do Nordeste Brasileiro.

          No pátio da feira, no Arraial do Cel. Bento, Prefeito da cidade estava armada a maior de todas as fogueiras. Barracas enfeitadas de balões vendiam fogos de artifício, roupas, chapéus de palha, milho cozido e assado, canjica, pamonha e variados tipos de bolos. Os moradores se reuniam para festejar o santo padroeiro da cidade.

          Aline, com vestido de bolas enfeitado de renda e laços de fita, estava radiante. Cabelos e olhos negros como a graúna. Pele branca e sedosa irradiava juventude. Desde menina adorava dançar e agora, moça feita, todos os rapazes da cidade a queriam como par.

          Naquela noite, as moças casadoiras estavam em alvoroço: Aportara na cidade, para conhecer os festejos juninos um doutor da capital, amigo de Bentinho filho do Prefeito. Tipo franzino, pele clara, bem vestido e maneiroso. O avesso dos jovens do lugarejo: Homens fortes, queimados de sol, acostumados a domar cavalos bravios. Logo o apelidaram de Paulo “almofadinha”.

          Bentinho, como bom anfitrião avisou para as meninas que não recusassem o convite do amigo para dançar. Elas riam e diziam: Oxente! Esse “alfenim” sabe lá dançar!

          Aline, amiga de Bentinho disse: Pode mandar ele me convidar que aceito. Foi assim que nos braços do “almofadinha” ela vivenciou a primeira paixão da sua vida.

          O fogo do amor, igual à fogueira foi crescendo e transformou-se em labaredas crepitantes. Os sonhos subiam aos céus como os balões. Um ano depois, numa noite igual aquela, casou de verdade, com padre, fogos, sanfonas e muita alegria.

          O amor durou vários São Joãos. Aline e Paulo foram morar na cidade grande. Tal qual a fogueira, aos poucos as cinzas apagaram aquele braseiro de paixões. Até que um dia por falta de alimento ou renovação, tudo acabou.

          Hoje, Aline espera ao ver as chamar ardentes das fogueiras, que uma nova paixão venha ao seu encontro.

(Recife,Junho/03)

RELAÇÃO DE AMOR

Jaime Sidônio
(psjaime7@hotmail.com)


          O conceito de santidade sempre nos pareceu querer falar de uma realidade distante e quase inatingível. A própria maneira como quase sempre é apresentado parece desligada do seu real fundamento: o Amor.

          É lamentável que muitas vezes esqueçamos que a grande proposta de Deus é amar. “[...] ame a Javé seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua força” (Dt 6,5). A esse princípio que é tarefa da vida, Jesus acrescenta: “Ame ao seu próximo como a si mesmo” (Mc 12,30-31). Assim ele apresenta a síntese de todo o seu ensinamento.

          Com isso, Jesus quis mostrar claramente que santidade é relação de amor. Portanto, vocação à santidade é vocação ao amor, o que significa que a proposta da vida cristã consiste em criar relação de amor com todos, à semelhança do próprio Deus. “Sejam santos, porque eu, Javé, o Deus de vocês, sou santo” (Lv 19,2). Deus nos ama, e nós correspondemos ao seu amor amando nossos irmãos. Jesus, que veio revelar o amor do Pai, assim diz: “Assim como meu Pai me amou, eu também amei vocês: permaneçam no meu amor [...] O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,9-12).



DENÚNCIA


José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Encho-me de coragem
E mesmo sem entender
Quase nada de leis
Preparo um dossiê de denúncias
Contra esse coração
Que age por conta própria
E me obriga a um amor incondicional
Levado pela exuberância das cores,
Um rubro negro de paixão
De toda uma nação
Que apaixonada grita
E comemora títulos,
Chora as derrotas
E sofre com sua agonia
A beira do rebaixamento.
Denuncio esse coração flamenguista
Que nada entende de bola,
Mas se mantêm firme torcendo...


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

O QUE É DOENÇA DE ALZHEIMER?


Leo Pessini *


É a forma mais comum de demência na velhice, uma doença progressiva e degenerativa do cérebro, que afeta a memória, o pensamento, o comportamento e as emoções. É mais freqüente acima dos 65 anos de idade e seu início é lento e gradual, com progressividade sem melhora.

Os principais sintomas são: perda de memória, dificuldade em executar tarefas domésticas, desorientação de tempo e espaço, mudanças de humor e personalidade, diminuição da atividade intelectual, tosses e engasgos.

Não há cura com tratamento específico, mas os remédios podem aliviar os sintomas. O tratamento terapêutico, com equipe multidisciplinar, é importante para oferecer recursos e estratégias para melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares.


*Camiliano, pós graduado em Clinical Pastoral Education pelo S. Lukes's Medical Center (Milwaukee, EUA). Professor doutor no programa de mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo (SP) e autor de inúmeras obras na área da bioética, dentre as quais Bioética: um grito por dignidade de viver e co-organizador de Buscar sentido e plenitude de vida: bioética, saúde e espiritualidade.

TEXTO DE LUG COSTA


Estou repensando as novas estratégias,
os novos caminhos
para não permanecer
no delírio do teu abrigo.
E quando a próxima noite chegar
quero está sozinho
e poder correr livremente no meu abrigo.


(Caxias 08.07.2003)

CALDEIRÃO: UM ESTILO DIFERENTE DE EDUCAR – CONCLUSÃO


Luiz Moura
(lmoura.pe@uol.com.br)


          Há pouco mais de 60 anos, era sufocada a mais bela experiência comunitária ocorrida no Nordeste do Brasil. Não fracassou, foi sufocada. Teve fim a experiência, mas continua viva na memória dos poucos remanescentes, das pessoas idosas, de jovens e estudiosos ansiosos por dias melhores. Acabou-se a experiência, mas ficaram boas intuições para os dias de hoje.

               Compreensão de que, no sindicato, nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, na associação de moradores e nos mais variados movimentos populares, se processa a educação em seu sentido pleno.

               Cada um desses movimentos pode também criar uma forma de escola que atenda a seus interesses particulares.

               A escola necessária aos movimentos populares deve estar preocupada com o homem todo, inclusive com sua formação intelectual.

               Os mestres não mais serão unicamente os diplomados, mas também quem, de uma forma ou de outra, domina com segurança qualquer tipo de conhecimento teórico ou prático.

               Compreensão de que a escola formal contínua a ter seu valor e que as pessoas que tiveram tendência para essa forma de educação poderão ser encaminhadas para esse tipo de agência, desde que possam, posteriormente, servir a seu grupo.

          A experiência educativa do Caldeirão deve-nos ensinar a levar em conta a pluralidade de culturas que GADOTTI (1993) chama de educação multicultural: a racionalização, muito própria do nosso mundo ocidental, levou o homem moderno a tragédias terríveis (governos ditatoriais, massacre de raças, corrupção generalizada, entre outras); é necessário afirmar o diferente, o atípico. É necessário quer o ser humano agora se volte e se devote a seu cotidiano, a seu mundo, às pequenas causas e às minorias.

          A idéia pedagógica do Caldeirão deve-nos ensinar que é possível, não só uma forma paralela de educação, mas é possível também transformar a sistema vigente de educação.

          Diferentemente da educação tradicional, a experiência educativa do Caldeirão deve-nos ensinar a valorizar a relação, o envolvimento, a solidariedade e autogestão. Os novos temas agora são: a alegria, o belo, a esperança, a igualdade, a equidade e a autonomia. Sem desvalorizar a cultura universal, a prioridade agora passa a ser a cultura regional.

          GADOTTI (1993) assim pensa sobre autonomia como tema importante na pedagogia atual:

          A escola autônoma significa escola curiosa, ousada, buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. Pluralismo não significa ecletismo, um conjunto amorfo de retalhos culturais. Pluralismo significa, sobretudo, diálogo com todas as culturas, a partir de uma cultura que se abre às demais e entendimento das especificidades como modos de manifestação e representação da mesma totalidade (GADOTTI).

        Espero que o sistema formal de educação possa aprender as belas intuições deixadas pela vivência da comunidade do Caldeirão. Não é o caso de fazer nascer experiências semelhantes, mas fazer ressurgir seu espírito em meio a nossas instituições tão fechadas em si mesmas.


RUSTICIDADE ADOCICADA

Malu Nogueira


Pai Véi era o único que tinha relógio. Bonito, de algibeira, ele não deixava ninguém tocar. Assim, sem ser questionado, acordava em torno de uma da manhã, dizendo a todos que o dia já ia raiar e que o engenho precisava moer a cana, para fazer rapadura, mel, alfenim e batida.

A casa grande, com alpendre, ladeada por duas majestosas árvores, parecia que nunca fechava as portas, tal o entra e sai de gente.

Os trabalhadores, sem noção do tempo, levantavam-se, muitos ainda cansados do trabalho estafante que praticamente tinham acabado de encerrar, iam para o batente. Os olhos queimando de sono, mas o velho tinha dito que o dia estava raiando, então eles iam ao trabalho, se bem, que estranhassem ver o fifo aceso. Se o dia estava raiando, como explicar o fifo queimando o querosene e clareando o engenho para que eles colocassem os bois para moer cana? Negócio estranho esse, que um dia eles iam entender.

Zé Preto ficou a matutar: A cana escolhida tinha que ser fita, branca e preta, canibatora, ou piojota cortada pelas 4 horas da manhã, lá no sítio Antonico, do outro lado do Riacho dos Poços.Muitas vezes, achava que aquela hora não estava. Pelo seu relógio mental devia ser meia noite.

Os carros de bois transportavam a cana para o engenho.Zé Preto ficava a ouvir o chiado gemedor do atrito do eixo com o cocão num nhem nhem sem fim, quando os burros não faziam esse trajeto. Um dia, Pai Véi vai explicar essa matemática das horas tão compridas.

Os bois, Calunga e Mimoso puxavam o engenho presos à almanjarra pela guia (de corda), entrelaçando-os entre si na ligação das cangas, que os orienta para que circulem na direção certa.

Tem três moendas: a cana moída escorre em forma de liquido, o caldo cai no cocho e é levado para um grande tacho, que está sobre o fogo. São três grandes tachos: o primeiro recebe o caldo da cana, quando é colocada a água de cinza e a cal, para a limpeza do produto; o segundo recebe garapa limpa, o terceiro recebe o mel purificado e desidratado. Quando já está no ponto de rapadura vai para o tacho de cobre. Os outros são de zinco.

Para transportar o conteúdo de um tacho para outro, usa-se a passadeira, que é uma cuia de cabaça presa numa vara, de no mínimo três metros de comprimento.

No tacho de cobre, o mel fica borbulhando. Quando evaporar toda a água, as bolhas ficarem grossas e amarelas, em ponto de mel, é hora de jogá-lo na gamela.

Uma grande pá de madeira é usada para mexer o mel e dar o ponto de rapadura, que será colocada nas formas, constituídas de nove cavidades. A rapadura perfeita, sem artifícios ou acréscimos extras, torna-se a principal sobremesa dos sertanejos. A substituta da carne no prato que só tem feijão e farinha.

A rapadura, depois de batida, é encaixada nas formas molhadas e com as palhetas ela é cortada, ganhando a forma de característica. É a têmpera de rapadura, a porção que não pode passar do ponto, para não virar farofa. É um trabalho artesanal, feito com dedicação e muito cuidado, para evitar acidentes.

No controle de cada espaço do engenho têm-se:

O mestre, com a função mais importante, que é dá o ponto para batida, mel e radura;

O foguista cuida da fornalha, que não pode colocar muito fogo, segundo a orientação do mestre. Ele utiliza o bagaço de cana e madeira.

O tangerino que conduz os bois nos círculos, para que o engenho seja movimentado.

O bagaceiro retira o bagaço de cana e espalha-o para secar, para ser usado pelo foguista.

O meseiro, pessoa encarregada de colocar a cana para ser moída, utiliza uma mesa para colocar a cana que vai para a moenda.

O traçador, quando a cana chega do baixio, com folhas, as limpa e corta-lhe a bandeira.

Os carreiros conduzem as canas do baixio para o engenho, em carro de bois.

O encaixador que mexe a rapadura e a enforma.

E o cambiteiro transporta a cana do baixio para o engenho em mulas.

No baixio, os homens utilizam o facão rabo de galo, com lâmina grande, que corta mais pelo tamanho com um único impulso. Faz-se, com ele, mais corte de cana que com a foice.

E assim, o engenho, reduto de tantos, torna-se abrigo seguro para Zé Branco, Zé Preto, Chico Macaco, Mané Grama, Zé Bonito, Zé Tolete, e outros mais.

Da chaminé fumarenta do engenho, vista por toda a cidade, quando moía, nos meses da colheita, resta hoje, seu esqueleto. A prova inequívoca de que quando o dono adormece o tempo pára, a casa fica sem telhado, tudo se cala e o repouso dessas lembranças fica na mente dos seus descendentes, na memória dos herdeiros. O castelo encantado, sem seu guardião principal. Somente a recordação deixada nos escombros do velho engenho do alto da Boa Vista.

A VERDADE VOS LIBERTARÁ


Marcelo Barros(*)


          Esta palavra de Jesus pode bem ser proclamada, hoje, para o governo brasileiro que discute se abre ou não o arquivo dos documentos secretos da história brasileira, afim de que todos os cidadãos e cidadãs do país exerçam o direito de saber o que aconteceu e, assim, a história não se repita. Sem dúvida, ninguém precisa guardar segredo de coisas boas, nem ter vergonha de feitos heróicos e atos de bondade que foram feitos. Ao procurar manter oculto do público documentos considerados ultra-secretos, as autoridades têm consciência de que estão escondendo crimes e atitudes iníquas e indignas, cometidas por pessoas e grupos que agiam em nome do Estado brasileiro e investidos com a autoridade que este lhes dava. Conforme os organismos de direito internacional, não adianta a desculpa de que havia uma guerra interna não declarada e que os adversários do regime militar também cometeram erros. Em primeiro lugar, era desproporcional a força do Estado contra grupos de jovens mal armados que queriam libertar o país. Mas, o argumento maior dos juristas é que tortura e assassinato nunca podem ser encobertos, principalmente se cometidos em nome do país.

          Todo mundo sabe que algumas pessoas e setores, que procuram manter tais documentos ocultos e inacessíveis, fazem isso por medo ou por conveniência. Ex-presidentes da República temem que, ao vir a público, certos documentos revelem aspectos do seu governo que eles querem manter desconhecidos. Alguns setores militares não aceitam que crimes comuns e atrocidades, perpretados por colegas de farda, venham a público. Talvez alguns intelectuais de direita não desejem que os brasileiros revejam conceitos que a história oficial lhes ensinou. Se os documentos forem revelados, alguns personagens considerados heróis nacionais aparecerão como assassinos cruéis. Entretanto, hoje, toda pessoa mais lúcida que estuda história já sabe que as bandeiras do século XVIII foram expedições colonialistas responsáveis pelo extermínio de diversos grupos indígenas e escravidão dos sobreviventes. Poucas pessoas, hoje, negam que a guerra do Paraguai foi uma violenta invasão do país e um massacre do povo paraguaio que o Brasil realizou, junto com a Argentina e o Uruguai. Há problemas de fronteira, como a relação com a Bolívia por causa do Acre no começo do século XX. Entretanto, é evidente que o maior interesse e também a discussão sobre a abertura do segredo incidem sobre os documentos sobre o tempo da ditadura militar. No continente, o Brasil é o único país a continuar não permitindo que o seu povo tome conhecimento claro e justo do que ocorreu. Depois de anos de discussão, finalmente o governo aceita que se institua uma Comissão da Verdade para apurar os crimes cometidos por militares no tempo da ditadura. Mas, esta comissão só poderá cumprir sua missão, se os documentos sobre a época não continuarem secretos e inacessíveis.

          O Brasil inteiro tem consciência de que não se quer vingança e sim justiça e verdade. A própria reconciliação do país com suas forças armadas precisa deste gesto generoso de reconhecimento dos erros por parte de alguns setores militares, assim como de civis, envolvidos em atividades ilícitas e eticamente injustificáveis.

          Todas as religiões nos ensinam o valor do perdão. Entretanto, para ser eficaz e cumprir sua missão de reconciliar as pessoas, o perdão supõe o reconhecimento dos erros por parte de quem errou e a disposição de repará-los na medida do possível. Então, sim veremos se cumprir a palavra de Jesus: “A verdade vos libertará” (Jo 8, 33).


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

NOSSO CORPO E O CORPO DE CRISTO


Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio *


Nas sociedades ocidentais, em função de uma longa tradição filosófico-religiosa que fragmentou o ser humano, dissociando principalmente a dimensão espiritual da corpórea, pensa-se, ainda hoje, que o corpo humano é um objeto relevante apenas para as áreas do saber da biologia ou da fisiologia, e que sua realidade material deve ser observada de maneira independente das representações sociais ou das questões que são postas pelas ciências humanas. Assim, o pensamento ocidental não parece, neste particular, mais ‘racional’ que o das sociedades ditas ‘primitivas’, que consideram o corpo uma das dimensões constitutivas da ‘pessoa’ e um elemento entre outros no seio de sistemas simbólicos variáveis.

Esta perspectiva unitária, integradora, relegada pela tradição do Ocidente, também não aparece na concepção do pensamento moderno, que trata o corpo como uma totalidade autônoma, passível de ser desconectada do todo pessoal ou social. O que se pode perceber é que a concepção moderna, que também dissocia o corpo da alma e do espírito, nos distancia da saúde possível, pois nos despedaça, nos faz perder a coesão, a harmonia e a transparência.

O ilusório é pensar que uma fragmentação epistemológica deixará intactos o indivíduo e a sociedade. Na verdade, ela acaba separando os sujeitos do meio ambiente, demarcando de forma incisiva as fronteiras entre ambos e supervalorizando os conflitos que aí se estabelecem. Esta separação é diabólica e alienadora, pois além de ser divisora em si, também impede o que vincula, o que unifica e o que restaura a inteireza vital.

Não se pode separar a subjetividade da corporeidade, pois fazê-lo seria incapacitar-se para uma compreensão mais ampla da vida, reduzir-se ao olhar fechado do especialista, à estreiteza e à minimização da existência, abrindo caminhos para a intransigência, para o dogmatismo violento que assassina o milagre da novidade do existir.

A Revelação cristã confirma essa tese e na festa do Corpo de Cristo é importante revisitá-la e rememorá-la. O corpo humano está no centro da revelação cristã, no momento em que se trata de algo que foi assumido pelo próprio Deus, na Encarnação de seu Filho Jesus Cristo. A Encarnação do Verbo, que toma corpo humano e habita entre nós, embora carregue consigo uma forte dimensão kenótica e humilhante, de acordo com as palavras do hino da Carta aos Filipenses, por outro lado eleva e engrandece a corporeidade humana, resgatando-a de uma vez para sempre, pois a divindade a abraça por dentro.

A corporeidade humana e carnal vulnerável de Jesus é o lugar da presença e da manifestação de Deus em meio à humanidade, antes localizada no templo. Jesus é, portanto, o verdadeiro Templo e, doravante, o culto se ligará à sua pessoa. O Templo se tornou caduco, não é mais o lugar do encontro com Deus. Suas festas não são herdeiras de toda a tradição de Israel. É chegada a hora do verdadeiro templo ser conhecido, o verdadeiro local onde está a glória de Deus.

O mistério da Encarnação coloca o próprio Filho de Deus e a corporeidade humana por ele assumida em meio à violência e ao pecado presentes no mundo. Neste sentido, Jesus, em sua vida e em seu caminho histórico, não se encontra preservado nem invulnerável às ambiguidades que implicam viver num mundo onde a paz ainda não é uma realidade plena. Jesus, além disso, entra na história sempre recomeçada de um povo ingrato e indócil, de má-fé, que não quer dar a Deus o que é de Deus. Assume em seu corpo e em sua vida a visão e a experiência dos profetas, rejeitados, perseguidos.

O corpo é para o Senhor e o Senhor para o corpo. Oferecer, em suma, o próprio corpo, a própria pessoa em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. O Mestre mesmo dá o exemplo supremo com a maneira pela qual vive e sofre o processo que o levará à Paixão e à morte. Seu Espírito derramado após Sua Ressurreição indicará que este é o caminho e a vocação da corporeidade humana à luz da fé cristã.

Habitando na corporeidade humana, o Espírito faz do ser humano seu templo, sua morada. O Cristianismo traz, entre as grandes novidades que introduz na história da humanidade, o fato de que o eixo do Sagrado é deslocado do Templo, lugar de culto e de oração tradicional, para o ser humano, para a corporeidade humana, para toda carne. O destino do corpo de Cristo é o nosso destino. Corpo oferecido pelo serviço a Deus e aos outros, atravessa o sofrimento da realidade e ressuscita incorruptível e glorioso. O sacramento da Eucaristia realiza isto na fragilidade humana que é a nossa. Celebrando a festa do Corpo de Cristo fazemos memória e atualizamos esse mistério que é culminância da fé e centro irradiador da antropologia e da teologia.


* Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

ESQUISISTRANHOS


Maria Inês Simões - Bauru/SP
www.mis.art.br
mis@mis.art.br


Ele era estranho
Ela era esquisita
Ele era importante
Ela era malvista
Ele era amor
Ela era poesia

Um dia o pensamento
além do próprio olhar
enxergaram o momento
além de ser e estar

Em tempo cibernético
Criaram o incriável
Em época invivível
Viveram o impossível

Do clássico ao romântico
Pós-moderno futurístico

Ele era estranho
Ela era esquisita

Ele era um poema
Ela era só esquema
em era Cibernética
sem rima e sem métrica

Juntos em um tempo e espaço
Difícil de viver e ser feliz

Ele sabia tudo
Ela era aprendiz
Ele era estranho
Ela o que ele sempre quis
Esquisita de raiz... :-))

Ele vida concreta
Ela fantasia
Ele um poeta
Ela só poesia

PISANDO EM OVOS


Maria Inez do Espírito Santo


Verão de 2001. Guaiú. Uma pequena localidade à beira-mar, na Bahia, uma aldeia de pescadores. Guaiu parece longe de tudo, é verdade. Mas fica próximo a um dos maiores centros turísticos do Brasil, que é Porto Seguro. De férias, aproveito cada situação o melhor que posso. Gosto de conversar com as pessoas, de flanar, de olhar em volta. Em três dias, andando daqui pra lá, para ir à praia, procurar um telefone público ou só para passear, observando com atenção, percebo que as pré-adolescentes, daquele lugar, muito cedo são “paqueradas” pelos homens adultos. Diariamente, de tardinha, “desfilam” faceiras à frente do bar, onde os homens se reúnem pra beber. Vejo também que o número de meninas grávidas é muito grande, ressaltante.

Um dia, esperando para falar ao telefone, vejo uma moça bem jovem, ventre de final de gravidez, chorando muito e, exaltada, pedindo, quase implorando, a um homem que, do outro lado da linha, não parece querer atendê-la. Ela fala sobre o bebê que já está para nascer e para quem ela não tem ainda nenhuma roupinha. Pede dinheiro, querendo despertar nele a responsabilidade de pai. Ao terminar a ligação, procuro falar-lhe. Ela mal responde e se afasta, soluçando. Busco saber quem é. É um menino quem me dá as informações. Muito falante, quer de mim os cartões telefônicos usados, que coleciona e, por eles, vai ficando ali, na porta do bar, ouve tudo que se diz e sabe contar todas as histórias locais. Assim, com sua tagarelice, fico sabendo quem é a moca, de quem é filha, quem é o pai do bebê, personagens que ele qualifica com adjetivos próprios, formando uma crônica comovente. Um verdadeiro repórter! Fala também de si. É filho da dona do bar. Sua mãe vive só e trabalha no balcão. Ele, eu percebo, vai ficando ali, durante o dia, aprendendo tudo o que pode, com o pouco movimento a sua volta. A mãe tem um namorado, mas que esse não é dali; vem só de vez em quando. Sobre seu pai, nenhuma história.

Mais tarde, ao buscar o ponto do ônibus, paro numa casa à beira da estrada, onde vejo uma mulher muito jovem gravidíssima. Exasperada, gritando, ela bate num menino muito pequeno. Impossível não me apiedar de ambos, tão transtornada ela parece! Vou a seu encontro, para acudir a criança. Ela me atende e, respondendo a minhas perguntas, vai contando. Diz que é casada e já tem dois filhos: o que escapou das pancadas e um outro, bebê ainda (que chora lá dentro). Afasta-se e volta, com o nenêm ao colo, continuando a falar: o marido, bem mais velho que ela, é pescador, ausenta-se muito e ela fica muito cansada, cuidando de todo o serviço sozinha. Diz-me que não queria, mas que “pega” filho fácil. Falo-lhe sobre métodos de evitar a gravidez e sobre a possibilidade de receber a pílula, de graça, no Posto de Saúde Municipal. Ela me responde que a “doutora” só vai ao Posto às quartas-feiras e ela não pode ir lá, tomar a pílula, toda semana. Percebo que essa mulher/criança não tem nenhuma informação sobre como se usa anticoncepcional. Explico-lhe e encorajo-a a ir até o Posto, para garantir-se de não engravidar, após o próximo parto. Ela não se compromete comigo. Apenas ouve, parecendo incrédula.

Passa das 12 horas no dia seguinte, quando chego à casa da moça que falava ao telefone, para entregar-lhe roupinhas para seu bebê. A casa, indicada pelo pequeno repórter, está toda fechada. Sol forte, faz muito calor e eu percebo que tem gente, porque escuto a televisão, com o som máximo chegando à rua. Depois de muita insistência, sou atendida por uma menina. Vejo, lá dentro, sentadas, uma mulher que parece idosa e duas outras meninas, assistindo à TV. A criança que me abre a porta, diz que a moca grávida que não está ali. Está trabalhando numa outra casa. Deixo os presentes e saio, decepcionada, triste e impotente.

Nessa época, eu estou anêmica. Tenho miomas, que aumentam meu sangramento menstrual. Dizem que miomas são sintoma cada vez mais freqüente, até em mulheres muito jovens, causados pela impossibilidade da mulher moderna lidar, livremente, com sua potência para a maternidade. É, talvez, por um misto de desejo e necessidade, que sinto uma forte vontade de comer ovos de galinha caipira. Imagino, a princípio, ser fácil encontrá-los, num lugarejo como esse, de casinhas baixas, com quintais, com árvores e relva farta. Passo a perguntar. Primeiro ao vizinho:
- O senhor tem ovos para vender?
- O quê?
- Ovos de quintal.
- Quer comprar o meu quintal?
- Não senhor. Quero ovos frescos, de galinhas criadas soltas, no quintal.
- Ah! Não senhora. Ovos, só no supermercado.

Vou ao supermercado. Sou informada de que lá só vendem ovos de granja.
- Ninguém aqui come ovos de quintal. Todos compram os ovos para comer: ovos que vêm de longe.
- Mas eu vejo galinhas pelos quintais… - tento argumentar.
- É, tem galinha sim, mas não tem ovos. Eu não conheço ninguém que tenha ovos pra vender.

Incrédula, tomada por uma obstinação nascida do aparente absurdo da situação, passo a ir de casa em casa, à procura de ovos caipiras. Acabo descobrindo que ninguém recolhe os ovos das galinhas. Nem se preocupam em ver onde elas põem seus ovos. Pela lógica, concluo, deve ser assim: de repente aparecem os pintinhos. Quando viram frangos, talvez sejam comidos e as galinhas são poupadas, até que fiquem mais gordas, quando mais velhas. Aí vão para a panela. Viram canja de mulher parida, costume local. Assim, as pessoas vão vivendo… Comprando no mercado os ovos de granja, que lhes parecem os melhores. Não adianta falar-lhes dos antibióticos que, nas granjas, são dados às aves, desde pintinhos; nem dos hormônios, que já vêm nas rações; nem do cativeiro enlouquecedor em que são postas as galinhas, a tal ponto que adoecem facilmente, têm as cristas descoloridas e põem ovos de gemas desbotadas e cascas muito finas, enfraquecidas.

Depois daquela longa pesquisa inútil, fico sabendo que a dona do armarinho talvez pudesse trazer-me ovos de quintal, mas só na semana seguinte. Ela tem um sítio e me venderia os ovos caipiras, se eu encomendasse e pudesse esperar, porque só vai ao sítio uma vez por semana e não costuma trazer ovos para cá. Desisto do ovos, porque só tenho mais um dia de férias, mas não posso deixar de interligar os fatos.

No Guaiu, como em quase todo o Brasil, não se cuida da Vida. Dessa forma, ovos e óvulos são abandonados à própria sorte. Ninhos não são preparados para o cuidado com os recém-nascidos. Não são apenas as galinhas ou as meninas e as mulheres que são desrespeitadas. É o próprio continente da Vida (ovo, ovário, útero, fêmea) e a partir dele, toda a continuidade do processo. O bebê que não terá pai que o reconheça e acolha é o menino que apanha da mãe, enlouquecida pelo desespero, será o rapaz que, amanhã, estará bebendo cachaça na porta da venda e se tornará o marido desencantado, que vai envelhecer sem esperança, afastando-se de sua casa e de sua mulher, que passa a não reconhecer mais.

Quando não se valoriza a Vida é sempre noite, ainda que o sol brilhe lá fora. Aí, a hipnose da TV é apenas mais um sintoma dessa doença mortífera.

TEMPOS INOLVIDÁVEIS


Monique Marie Becher
moniquebecher@hotmail.com


BUSCO NUM MAR DE ESPERANÇA
MEUS TEMPOS PRETÉRITOS.
ENCONTRO-ME LIBERTA
EM BUSCA DA FELICIDADE.
O ENCANTAMENTO COM A VIDA
NÃO EXIGIA PRESSA:
ERA PÁSSARO A VOAR SOBRE ONDAS
QUE DESCONHECIAM A FINITUDE DO TEMPO,
ERA BAILARINA A ALÇAR VOOS
SOBRE PONTAS DE SAPATILHAS MÁGICAS.
ERA LIVRE COMO DAVI DIANTE DA HARPA.
O TEMPO SOLTO, SONHADOR, ATEMPORAL,
ESPREGUIÇAVA-SE DOCEMENTE,
SABOREANDO A EXIGUIDADE DAS INTEMPÉRIES...
EMBALAVA-ME EM ASAS DE ILUSÕES,
PROTEGIA-ME CARINHOSAMENTE,
FAZIA-ME CRER QUE AQUELE HOJE
NÃO ERA MAIS QUE O SONHADO ONTEM,
NUM INTERMINÁVEL AFÃ DE SER MAIS AMANHÃ .
TEMPO DE INFÂNCIA
TEMPOS PRETÉRITOS.

SER E NÃO-SER


Padre Beto


Uma amendoeira crescia esplêndida e suntuosa. Orgulhosa de si mesma, a árvore contemplava diariamente seus galhos e suas folhas. Um certo dia, um pequeno pássaro pousou em um de seus galhos e colocou seu ouvido no tronco da amendoeira constatando a existência de alguns vermes. O pequeno pássaro, então, fez um furo na grande árvore e começou a retirar os vermes que encontrava. A amendoeira ficou extremamente irritada, pois aquele mísero pássaro estava estragando a superfície lisa de seu tronco. Além do mais, o pássaro não se relacionava bem com os papagaios coloridos que davam um tom exótico aos galhos da amendoeira. Assim, a suntuosa árvore expulsou o pequeno pássaro. Os vermes foram crescendo, procriando dentro da amendoeira e formando uma enorme legião. Lentamente devoraram o interior da grande árvore que um dia foi derrubada por uma ventania.

A pessoa humana, segundo Johann Gottlieb Fichte, vive e se desenvolve em um constante caminhar dialético. Ao olhar para si mesmo, todo ser humano pode constatar aquilo que é no momento e como está sua vida. Através deste olhar encontramos um determinado conteúdo, certos aspectos que compõem, no agora, o nosso eu e a nossa existência. Desta forma, podemos sempre categorizar e valorar a "fase" em que vivemos, ou seja, o resultado da soma de diversas dimensões: vida pessoal, profissão, relacionamentos, etc. Porém, neste exercício de auto-análise sobre a vida, a pessoa humana pode também constatar aquilo que ela não é e a situação na qual não está. Em outras palavras, o conteúdo de nosso ser e de nosso existir pode nos mostrar também aquilo que nos falta. A constatação do "não-ser" pode ser amarga, mas nos leva a perceber a importância daquilo que é ausente. Justamente a falta de alguma coisa ou de alguém, nos leva ao reconhecimento do verdadeiro valor desta coisa ou deste alguém. O preso conhece o significado da liberdade e o doente compreende o significado da saúde. Sem dúvida alguma, a percepção desta antítese da vida, ou seja, daquilo que não nos é oferecido, depende do grau de conhecimento e criticidade do ser humano e da insatisfação decorrente desta. Nós podemos, por exemplo, ter a sensação de estarmos satisfeitos, ao encontrarmos uma justificativa que nos obrigue a aceitar a vida como ela, no momento, se encontra. "Foi Deus que quis assim", "este é o meu destino", "a vida é assim", "eu tenho que carregar esta cruz", são frases que expressam a necessidade de uma explicação "lógica", como também de consolo, para situações que não nos satisfazem. Nós podemos também nos acomodar com a atual situação da vida, por não sabermos o que podemos alcançar, o que nos é de direito ou o que a vida pode nos oferecer. "Ninguém sabe o bastante para ser um pessimista" (Norman Cousins).

Por fim, a dialética da vida humana se completa com a síntese da tese com a antítese, ou seja, do conteúdo atual da vida com sua falta. Na relação do "ser" com o "não-ser" vamos em busca de um ser completo, de um ser realizado, de um ser absoluto. Por isso estamos em constante transcendência em busca de completarmos aquilo que somos e realizarmos aquilo que nos falta. Esta transcendência é possível graças à fusão entre a constatação daquilo que alcançamos, daquilo que somos, e o reconhecimento da imperfeição, do não-ser. Por isso sentir-nos realmente incompletos, não satisfeitos, não integrados em nossa atual realidade não significa necessariamente algo negativo. Pelo contrário, a visão de nossa imperfeição é a possibilidade de mudança, a oportunidade para a transformação. Afinal, nós, seres humanos, não somos como os animais que vivem em pura harmonia com seu habitar, mas peregrinos, andarilhos, que estão em constante busca da casa, da harmonia, em outras palavras, do ser em sua completude. Nós podemos nos perceber assim, porque somos capazes de ver o que realizamos até agora, mas também porque somos capazes de constatar o que ainda não fizemos. Na constatação daquilo que não sou, é possível a minha transcendência, uma significativa transformação. "Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância" (Sócrates).

Não viver a dialética do "ser e não-ser" significa viver na ilusão de ser perfeito ou na condenação do não-ser. Assumir a dialética da vida significa abrir os olhos para as lacunas de nossa sociedade, para a situação de injustiça social, para as falhas da democracia e os mecanismos destrutivos da economia. Viver na dialética da vida significa estar sempre aberto para o indeterminado, para a surpresa, se aventurando diariamente na construção daquilo que desejamos ser. Viver na dialética do "ser e não-ser" é assumir que não existe uma antropologia, mas uma "antropogênese". Em outras palavras, não existe o ser humano acabado e condenado. Na dinâmica da vida, o ser humano se forma e se trans-forma criando a si próprio e ao mundo. "Para ensinar há uma formalidade a cumprir. Saber" (Eça de Queiroz).

Conversações I: Com Victor Brecheret*

Patricia Tenório.

http://www.patriciatenorio.com.br
patriciatenorio@uol.com.br


Convido todos e todas a também conversar com a exposição A arte indígena de Victor Brecheret, que ficará no Centro Cultural dos Correios – Recife até 31 de Julho de 2011.**

______________________

                                                  Mãe Índia, Victor Brecheret


“Além da terra cota, Brecheret utilizou-se de pedras. Pedras que vieram do mar. Um tesouro que as ondas não quiseram mais e depois de descobertas nas areias da praia, foram levadas para o atelier: pedras que durante séculos viveram sob o dorso verde do oceano. Esculpindo-as, Brecheret deu-lhes uma história. Marcou ali, em traçados rústicos, a figura de uma índia, de um peixe. E suas pedras criaram vida.” (Victor Brecheret Filho)



                  Bartira, Victor Brecheret


           bARtira
         
        Patricia Tenório

       10/06/11


dez anos casados

dez anos separados

e os anos vão

desanuviando espaços

cavando buracos

cravando feridas

onde não mais passo


crateras da vida

estão lá

tontas

feito meu pensamento

ocas

feito um coração partido

sérias

de considerações


e a partir de mim

a partir de ti

partir no navio

mais longínquo

mais agudo

mais aguado

de sal e mar

de sol e terra

de ar

e Ar

e AR

______________________

* Victor Brecheret (Farnese, Província de Viterbo, na Itália, 22 de fevereiro de 1894 — São Paulo, 17 de dezembro de 1955) foi um escultor ítalo-brasileiro, considerado um dos mais importantes do país. É dele a famosa escultura “Monumento às bandeiras” que fica em frente ao Palácio Nove de Julho em São Paulo.


**Exposição A arte indígena de Victor Brecheret

Onde: Centro Cultural Correios Recife (Av. Marquês de Olinda, 262, Recife Antigo)
Quando: Visitação de terça a domingo, de 07 de Junho a 31 de julho
Informações: (81) 3224-5739 (81) 3224-5739
Quanto: Entrada gratuita