segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A CIDADE E NOSSA PELE

(Uma homenagem a São Paulo por seus 457 anos)
Aldo CB


Penso na luz da tarde a cintilar em teus olhos como parte de um por-do-sol de 1.891 em plena inauguração da Avenida Paulista. Sinto saudade das manhãs em que atravessávamos o morro do Chá, por volta de 1.879. Recordo também com alegria de nossos primeiros passeios pela Rua Direita, ainda em 1.868, e ficávamos a olhar as lojas e os tecidos, a contemplar os sobrados, a conversar com aqueles senhores e senhoras elegantemente vestidos. Depois, caminhávamos até o Largo da Sé para esperar o anoitecer e apreciarmos o acender das lanternas das praças.
O dia despertou a nostalgia e ficamos a trocar histórias de nossas andanças por esta cidade a crescer, a pulsar vida, a estender suas mãos entre nossas mãos. É outro tempo dentro do mesmo tempo, é outra cidade concebida no seio da mesma cidade.
Uma luz atravessa a tarde e se faz diferente em cada rua, em cada saudade, em cada recordação, mas traz os anos e seus personagens, os chapéus do tempo, as lindas roupas das mulheres, as janelas e portas das casas, a poeira dos anos em nossas peles. E, assim, cintila em nós, desenha sua nostalgia em nossos corpos nus.
Muitas dessas memórias ensaiam fugas e toldam a razão. Outras misturam épocas, inventam dias, produzem fatos, resgatam olhares na busca árdua do permanecer.
Tudo é movimento. É a vida a contar os sonhos de infância de uma cidade adulta e tão criança em nós.
Entrelacemo-nos.

FAMILIA REBELO


Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


Na sua casa fui amada
Aceita como igual!
Guardo muito amor e gratidão.
Como esquecer você
Que nunca largou minha mão?
Nem a doçura do pirulito de chocolate
Que ainda trago no coração?
Lembro-me do medo do pronto socorro e da segurança que você me deu
Colou minha sobrancelha como prometeu!
E de vocês companheiros pacientes?
Fazendo caprichos e gostos,
Tocando ao piano ou mudando o canal da V.
Sinto ainda o colo gostoso de minha tia
E o amor de cachico juntando toda a família,
Sempre indicando meu lugar
E avisando de quem era filha...
Hoje não fico confusa,
Nem estou dividida,
Estou segura.
Também os Rebêlos são minha família!


Obs: Imagens enviadas pela autora.
Foto1 - no colo da minha tia em 1958
Foto 2 famílias Mariz, Bruto e Rebelo em meu aniversário de 2008
Foto 3 – Família Rebêlo no aniversário de Artur Rebelo novembro de 2010

PIPA’S

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


Meninos se espremem afoitos, alvoraçados, ruidosos nas grades do portão menor. Gritam. Chamam. Batem palmas. Impávidos pouco se importam com os latidos da cadela branca. Desponto na porta da frente sem entender o porquê daquele motim no meio da tarde quente.


- Papagaio! – Bradam garotos miúdos, oito ou nove talvez, com pouco mais de 7 anos.


                                                                                                                      Corbis

Apontam para o corredor lateral. Lá no fim vejo a pipa amarela e verde pendurada sobre o muro, na divisão com o telhado da vizinha. O movimento os deixa mais eufóricos.Viro tia, recebo apelos e elogios (assim como a dona da casa, minha mãe). Vejo caras tristes, mãozinhas juntas em sinal de contrição tentado instigar minha pena com os pobres guris da Rua Natal.

Pego o papagaio numa manobra articulada com o cabo da vassoura de varrer quintal. Pulo. Tento mais uma vez e ele cai rodopiando no chão. Desvencilho das linhas afiadas, cheias de cerol é o estopim para o alvoroço no pátio. Parada na porta da sala peço para que a cachorra se cale. Estão elétricos. Ordeno que vão embora, pois o brinquedo agora é meu (não bem meu, mas de um garotinho que eu gosto). O menino loirinho que mora do lado surge imponente empurrando os outros garotos. Diz que a pipa é dele e esnobando os demais afirma que será o escolhido. Dá vontade de sorrir. Em vez disso mando todo mundo embora. Ainda me contemplam por alguns instantes. Logo estão de volta a rua, quebrando a tranqüilidade da quinta-feira.

***

Uma pipa custa R$ 1. Sinceramente fiquei sem entender toda aquela algazarra montada pelos meninos. A justificativa mais óbvia veio nas palavras da mamãe ... ‘meninos simples e sem dinheiro’.

***

                                                                Corbis

Ainda falando sobre pipas ... quando pequeno meu irmão costumava sonhar que estava correndo atrás de uma, efeito das longas horas na rua olhando para o colorido lá no céu.

Benjamim Franklin não previa o destino de seu invento ...


Obs: Imagens enviadas pela autora

TITO E TIMÓTEO


D. Demétrio Valentini *


Na semana passada celebramos São Paulo, o apóstolo que está na origem da grande cidade, agora capital do Estado que também leva este nome.

A sabedoria intuitiva da liturgia, quando a Igreja fala de Paulo, lembra também Pedro. E quando fala de Pedro, lembra Paulo. Os dois eram de temperamento bem diferente, e de origem social bem diversa. Mas souberam compor bem suas diferenças, colocando-as a serviço da Igreja.

Logo em seguida à festa de São Paulo, a liturgia, pedagogicamente, coloca duas outras figuras, desta vez em sequência à obra de Paulo. Trata-se de Tito e Timóteo, dois discípulos de Paulo, chamados pessoalmente por ele, no início para acompanhá-lo em suas andanças, e depois para colocá-los à frente das comunidades fundadas por Paulo.

Ele estava com isto inaugurando a praxe da assim chamada "sucessão apostólica". A Igreja, na sequência das gerações, seria governada por pessoas claramente vinculadas à ação dos doze apóstolos, em continuidade da missão deles. De tal modo que, para sempre, a Igreja levaria a marca dos doze apóstolos. Ela seria, para sempre, "apostólica", como confirma o credo que a Igreja passou a usar desde os primeiros séculos. "Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica".

Na recente reforma litúrgica, a Igreja colocou logo após a festa da conversão de São Paulo o dia dedicado a Tito e a Timóteo.

Até pouco tempo atrás, a festa de São Tito era no dia 06 de fevereiro. Ficou melhor juntar os dois, Tito e Timóteo, e colocá-los em seguida à festa de São Paulo.

No início do seu apostolado, Paulo teve Barnabé como seu protetor e companheiro de viagem. Esta parceria apostólica não durou muito. Podemos imaginar como era difícil seguir o ritmo de Paulo, com as dificuldades do seu temperamento. Embora sejam dezenas os nomes de pessoas envolvidas na missão de Paulo, e que são citadas em suas cartas.

Mas percebe-se que especialmente com Timóteo e Tito, Paulo demonstra sua preocupação em ter continuadores de sua obra e de seu apostolado. Escolheu a ambos quando ainda jovens, os atraiu pela força do seu testemunho, e os incumbiu depois de cuidarem das comunidades como "supervisores", como "epíscopos". Estava se desenhando neles a praxe da Igreja, de contar com novas pessoas, que continuassem a mesma missão dos doze apóstolos. De tal modo que na medida que iam morrendo, outros assumiram seus postos.

Foi assim que a Igreja de Cristo foi tomando forma, com a garantia do testemunho apostólico, que iria se perpetuar pelos tempos afora. De tal modo que a "apostolicidade" da Igreja seria uma de suas características indispensáveis.

O cuidado com a sequência histórica, como sinal de garantia e de autenticidade, é muito importante em nosso tempo, quando existem tantas interrogações sobre a verdadeira identidade que a Igreja de Cristo precisa assumir.

Nunca é demais termos como critério o fato de que a Igreja é fruto da ação de Cristo, e necessita sempre se reportar aos seus inícios para ter segurança dos novos passos que ela precisa dar, na incumbência inalienável que ela recebeu, de acompanhar a humanidade até o fim dos tempos.


* http://www.diocesedejales.org.br/

A BONECA E O NADA



Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com


Dentro da velha casa de bonecas
minha predileta está meio desconjuntada
braços de pano pendentes
cara de nada absoluto.

Bobagem ou contradição em termos
não pode ser o nada absoluto se ainda é uma boneca
mesmo quase desfeita
mas penso
:
parte dela virou pó
não é mais a boneca que foi
porque começa a navegar no nada.

Triste e um pouco assustada
olho o espelhinho da casa e percebo que
o nada absoluto está em meu rosto também.


Obs: Imagem enviada pela autora.

TEXTO DE DJANIRA SILVA


djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


Agora, atravesso a vida como quem atravessa a rua, sem parar para não ser atropelada. Atravesso a vida como quem atravessa a rua. As pernas me doem, a alma me incomoda. Aquelas me levam como se carregassem um fardo. A outra, é um fardo.

Ontem, choveu. As ruas estão molhadas. À noite, chorei. Tenho ainda no rosto as sombras da noite. Os olhos se recusam a olhar porque não querem ver. As horas passam depenando o dia e em pouco tempo a noite estará à mostra.


Obs: Texto retirado do livro da autora – Memórias do Vento

QUEM VEIO PRIMEIRO O OVO OU A GALINHA?


Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


Uma pergunta para deixar a dúvida permanente, afinal não se tem pinto sem ovo e não se tem ovo sem a galinha. Parece uma questão boba, mas pode ter significado comparativo com o trânsito na cidade. No caso em evidência, um conflito entre um motorista de ônibus e um motorista de motocicleta. Este se sentiu agredido pelo outro, dizendo que foi fechado e quase comete um acidente. Em revide, parou sua moto e com o capacete quebrou o vidro da janela do ônibus e feriu o motorista. Quem teve razão no ocorrido?

Conhecendo a fama dos dois tipos de motorista, fica meio difícil para a polícia acertar no julgamento. Se o ônibus fechou a moto, foi por ruindade do motorista, ou foi porque o motoqueiro ia passando pelo lado errado? E o motoqueiro poderia ou não, cair num acidente provocado pelo fechamento do ônibus?

Afinal, o que ocorre a toda hora na cidade é que os motoqueiros são tantos e ultrapassam vários deles pela direita e outros pela esquerda dos outros veículos, às vezes ultrapassam três de uma só vez deixando os outros motoristas atarantados para não cometer acidente. Quem anda de carro tem que andar atento e cuidadoso porque de repente, acontece de uma moto ultrapassar pelo lado errado.

Por outro lado, isso não justifica que o motorista de ônibus que faz o tal de pega, ou ultrapasse o sinal vermelho, ou cause problemas a passageiros e pedestres. Em resumo, o trânsito de Santarém está ficando mais e mais difícil para motoqueiros, taxistas, motoristas de ônibus e até pedestres. Por cima disso, ainda há o inconveniente de carretas e caminhões baú que ficam estacionados próximo às esquinas prejudicando a visão de quem vem no cruzamento.

Parece até que boa parte dos que dirigem veículos em Santarém só sabia andar de canoa ou em caminhos da mata até pouco tempo. Nem o contingente de policiais de trânsito e fiscais municipais conseguem evitar que diariamente os carros do SAMU corram para lá e para cá a socorrer acidentados, em quantidade assustadora. E as vítimas de motos são a maioria. As estatísticas apresentadas pelo 3º BPM ? Batalhão Tapajós são assustadoras. Diz o balanço: veículos envolvidos em acidentes em Santarém: em 2009 foram 373 motos e 269 automóveis. Em 2010 o salto foi grande: 491 motos contra 401 automóveis. Sem contar os que ficaram aleijados foram 18 mortos em 2009 e 24 mortos em 2010. Lembrando que a cidade de Santarém tem apenas cerca de 290 mil habitantes.

Quanto ao caso do quase acidente que virou incidente entre o mototaxista e o motorista de ônibus, vale a pergunta boba - Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.

final

Euza Noronha


anunciou-se como ave-maria
cantada ao longe
: indefinido

devagar costurou-se às rimas
do poema
: subentendido

enfim
esculpiu-se na falta de poesia
: envilecido

PAULO, O APÓSTOLO

Frei Betto


Paulo de Tarso, que dá nome à mais rica e populosa cidade do Brasil, foi sem dúvida um homem singular. Um dos primeiros discípulos de Jesus, é sobre ele que possuímos mais informações, graças às cartas que escreveu, das quais conhecemos 13, e ao relato do evangelista Lucas, com quem fez viagens missionárias, intitulado Atos dos Apóstolos – documentos que integram o Novo Testamento e são considerados pela Igreja fontes de revelação de Deus.

Paulo ou Saulo, nascido provavelmente no ano 1 de nossa era e falecido em 64, aos 63 anos, em Roma, falava de si mesmo sem o menor pudor e se gabava de sua cultura (2 Coríntios 11, 6) e do título de “cidadão romano” (Atos 16, 37), herdado do pai. O que comprova que certa dose de narcisismo ou vaidade não é prejudicial à santidade… Ou melhor, demonstra que os santos são tão humanos como qualquer um de nós, imperfeitos e pecadores. A diferença é que, em tudo, buscam realizar a vontade de Deus.

Observe o leitor como Paulo se apresenta: “Sou judeu de Tarso da Cilícia, cidadão de uma cidade de renome (Atos 21, 39), circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamin, hebreu, filho de hebreus segundo a Lei (de Moisés), fariseu… Pela justiça da Lei, considerado irrepreensível.” (Filipenses 3, 5-6).

Como quase todos os judeus inseridos na cultura grega, ele acresceu ao próprio nome judeu, Saulo, outro grego, foneticamente semelhante: Paulo.

Seus pais haviam emigrado da Palestina para Tarso. Judeus piedosos, resistiram à ideia de matricular o filho em escolas gregas. Tão logo completou 14 anos, Paulo foi remetido a Jerusalém, onde morava sua irmã casada e estudou na mais renomada escola rabínica da época: “aos pés de Gamaliel” (Atos 22, 3). Seus textos demonstram que tinha sólida formação teológica. E era excelente escritor. Seu “Hino ao Amor” (1 Coríntios 13, 1-13) é um dos mais belos poemas da literatura universal:

Ainda que eu falasse

A língua dos homens e dos anjos,

E não tivesse amor,

Seria como o bronze que soa

Ou o címbalo que tine…


A conversão


Paulo encontrava-se entre os apedrejadores do jovem levita Estêvão, condenado por “blasfêmia” por haver se tornado cristão. As vestes dos executores foram depositadas “aos pés de um jovem, chamado Saulo” (Atos 7, 58). O próprio Paulo se penitencia mais tarde: “Senhor, enquanto era derramado o sangue de tua testemunha, Estêvão, eu estava presente (…) e guardava as vestes daqueles que o matavam” (Atos 22, 20).

Saulo tornou-se aguerrido inimigo dos cristãos: “Persegui de morte esta doutrina, acorrentando e encarcerando homens e mulheres” (Atos 22, 4). Sua ira recaía especialmente sobre os cristãos “ecumênicos”, que se abrigavam em Damasco. Os judeu-cristãos de Jerusalém, mais apegados à lei mosaica, não foram molestados por ele.

Ele mesmo narrou o que lhe ocorreu aos 28 anos: “Fui com o objetivo de ali prendê-los (os cristãos) e trazê-los acorrentados a Jerusalém, onde seriam castigados. Ora, estando eu a caminho e aproximando-me de Damasco, pelo meio-dia, de repente me cercou uma intensa luz do céu. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Respondi: “Quem és, senhor?” E ele me disse: “Sou Jesus Nazareno, a quem persegues.” (Atos 22, 5-10).

Paulo diz que caiu. Não se sabe se do cavalo, da carroça ou simplesmente tombou ao caminhar… O fato é que o martírio de Estêvão havia lhe causado um forte impacto.

Talvez o neocristão tivesse preferido, ao abraçar o seguimento de Jesus, inserir-se na comunidade de Jerusalém. Contudo, foi em Damasco, ao pregar nas sinagogas, que despertou sua vocação apostólica. Pouco depois se retirou para o deserto, talvez para se preparar, espiritual e teologicamente, em alguma comunidade judeu-cristã “ecumênica”. Ali permaneceu treze anos! Nada se sabe sobre esse período da vida dele.


A missão


Aos 41 anos de idade, Paulo dirigiu-se a Jerusalém para “visitar” o chefe da nascente Igreja, Pedro (Gálatas 1, 18). Dali, retornou a sua cidade natal, Tarso, de onde teve de fugir, repudiado pelos judeus. Dirigiu-se à Antioquia, onde florescia uma comunidade cristã. De Jerusalém enviaram-lhe um assistente: Barnabé.

Paulo e Barnabé iniciaram suas viagens missionárias no ano 45, por Chipre, onde o segundo havia nascido. Percorreram os 150 km de extensão da ilha, de Salamina a Pafos, semeando a fé cristã. Entre os judeus, não tiveram êxito, o que foi compensado por importante conquista entre os pagãos: a conversão, em Pafos, do procônsul Sérgio Paulo.

Paulo dedicou mais de 14 anos a viagens missionárias. Percorreu cerca de 15 mil km e enfrentou todo tipo de dificuldades: foi açoitado, apedrejado, preso, assaltado; naufragou, sentiu-se traído, passou fome, frio e noites sem dormir (2 Coríntios 11, 24-27), exposto “ao perigo a todo o momento” (1 Coríntios 15, 30). Destemido, nunca guardou ressentimento.

Uma característica de Paulo era a sua capacidade de aculturação. Aos judeus, prega em sinagogas. Em Listra, na falta de sinagoga, dirigiu-se às portas de Júpiter, onde os pagãos julgaram ver Mercúrio, o deus da eloquência, em forma humana… (Atos 14, 11).

Nem sempre é fácil fazer coincidir a mudança de nosso modo de pensar com a do nosso modo de agir. Foi o que ocorreu a judeu-cristãos de Jerusalém e a Pedro. Eles acreditavam que um pagão convertido ao cristianismo deveria, primeiro, aceitar certos rituais judaicos, como a circuncisão e as práticas de pureza. Ora, Paulo discordava de tal recomendação. Para ele, um pagão podia abraçar a fé em Cristo sem a menor observância à lei mosaica. Frente ao impasse, no ano 51 ele participou, em Jerusalém, do primeiro Concílio da história da Igreja.

Pela Carta aos Gálatas, sabemos qual foi a atitude de Paulo no Concílio. Acusou os adeptos da circuncisão de “falsos irmãos” e de “intrusos que se infiltraram para espionar a liberdade que temos em Jesus Cristo, a fim de nos escravizar” (Gálatas 2, 4). Lucas nos faz saber que “a discussão foi longa” (Atos 15, 7). Ao final, chegaram a um acordo, com certas concessões aos mais tradicionalistas.

Porém, logo depois, em Antioquia, ocorre um incidente entre ele e Pedro. Eis o que Paulo escreveu na Carta aos Gálatas (2, 11-14): “Quando Pedro foi a Antioquia, eu o enfrentei em público, porque ele estava claramente errado. De fato, antes de chegarem algumas pessoas da parte de Tiago (bispo de Jerusalém), ele comia com os pagãos; mas, depois que chegaram, Pedro começou a evitar os pagãos e já não se misturava com eles, pois tinha medo dos circuncidados. Os outros judeus também começaram a fingir e até Barnabé se deixou levar pela hipocrisia. Quando vi que eles não estavam agindo direito, conforme a verdade do Evangelho, eu disse a Pedro, na frente de todos: “Você é judeu, mas está vivendo como os pagãos e não como os judeus. Como pode, então, obrigar os pagãos a viverem como judeus?””

Paulo não era contra os judeu-cristãos observarem a lei mosaica. Encarava isso com tolerância. A questão se complicou quando percebeu que Pedro mudou seu modo de agir e passou a admitir que a salvação não viria apenas como dom gratuito de Cristo, mas também pelo cumprimento da lei de Moisés. Ao retomar seus antigos costumes judaicos, Pedro fez os pagão-cristãos se sentirem inferiores aos judeu-cristãos, como se fossem fiéis de segunda classe.


O exemplo


Paulo fazia questão de não ser um peso às comunidades que o acolhiam. Sustentava-se com o seu ofício de fabricante de tendas e de objetos de couro (Atos 18, 3). Nesse sentido, abdicava de sua origem elitista e se igualava a servos e escravos, os únicos que, naquela cultura helenista, faziam trabalhos manuais. Assim, disseminava a palavra de Cristo na base social do Império Romano.

Paulo era um pedagogo. Não se enclausurava num templo à espera de que os fiéis viessem ao seu encontro. Ao chegar a Atenas, onde a comunidade judaica era pequena, dirigiu-se à ágora, onde o povo se reunia para debater temas diversos. Foi encarado como “charlatão” (Atos 17, 18) que anunciava um novo par de divindades: Jesus e Anástase. Isso porque ele pregava a Ressurreição, em grego “anástasis”.

Sugeriram-lhe ir ao Areópago, a colina de Marte, onde se reuniam os interessados em filosofia. Paulo exercitou ali toda a sua pedagogia evangelizadora: valorizou seus ouvintes como “extremamente religiosos” (Atos 17, 22) e, ao deparar-se com um altar dedicado “ao Deus desconhecido”, soube tirar proveito: “Aquele que venerais sem conhecer é este que vos anuncio” (Atos 17, 23). E parafraseando Arato, poeta conhecido pelos gregos, concluiu que Deus “não está longe de cada um de nós; é nele que vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17, 27-28).

Para tempos de fundamentalismos religiosos, Paulo nos deixou importante legado por seu testemunho de quem passou de perseguidor a perseguido; de membro da elite a pregador itinerante abrigado em comunidades populares; de fariseu intolerante a cristão dotado de espírito ecumênico; de legalista a misericordioso.

Paulo soube ser grego com os gregos e judeu com os judeus; respeitou a hierarquia da Igreja sem deixar de criticar inclusive o papa, Pedro; demonstrou que o contrário do medo não é a coragem, é a fé.

Com muita justeza, Paulo admitiu na Segunda carta a Timóteo (4, 7-8): “Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé. Agora só me resta a coroa da justiça que o Senhor, justo juiz, me entregará naquele Dia.”

Místico, Paulo ousou exclamar: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2, 20).


Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org
– twitter:@freibetto


Copyright 2010 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

DESTINO


Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com


Não desisti de amar.
Minha alma inquieta voa,
Não desiste com o tranco oblíquo.
Fustigar-me é só tempero,
Atiçar-me é um engano.
Já inflamo e queimo a hora
Nos escaninhos da paixão.
Contesto o inexplicável.
Ouso por a idéia em questão.
Desafiar certezas meu prazer.
Não estou imerso em doutrinas,
Alimento-me com desafios no café da manhã.
Minha meta acossar o dogma,
Viver e morrer procurando sempre
O caminho da razão.

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA QUEM NUNCA TIVER PECADO...

Ivone Gebara *


Muitos jornais de norte a sul do país, sem falar dos internacionais, entre os dias 29 e 30 de dezembro de 2010 e muitas informações enviadas de forma eletrônica, nesse início de ano novo, trazem a notícia de que o conhecido sociólogo e teólogo belga François Houtart (85 anos) teria molestado sexualmente um menino de oito anos. Não dizem em que ano isso aconteceu e nem dão informações claras sobre o fato. Apenas precisam que o menino é filho de uma prima de Houtart e que foi a irmã do mesmo que teria denunciado o fato visto que o nome de Houtart tinha sido indicado para Nobel da paz.

Não quero discutir a pedofilia e nem os diferentes crimes sexuais. Mas, chamou-me a atenção de que muitos conhecidos e amigos de Houtart no Brasil afirmaram-se estarrecidos diante dessa revelação e até Folha de São Paulo (30/12/2010) afirma que o padre teólogo da libertação teria até sido expulso da organização belga que ele mesmo ajudou a fundar, o CETRI - Centro Tricontinental.

Não tomo a defesa do caro Professor François Houtart, aliás, homem douto, cujas posições em favor da dignidade de diferentes grupos e países conheço bem. Mas espanta-me o nosso muitas vezes hipócrita estarrecimento e o nosso desconhecimento em relação á condição humana especialmente quando se trata de algum religioso ou de pessoa de destaque internacional.

Lembro-me que alguns anos atrás quando o rabino Henri Sobel, sob efeito de medicação, roubou gravatas num aeroporto norte-americano, a imprensa e muitas pessoas o crucificaram como se aquele ato, aquele ato impensado, desatinado, inesperado e, sem dúvida condenável, pudesse julgar toda a sua história. Diante do roubo parecia que a história de luta daquele homem pela dignidade de muitos, sobretudo nos tempos da ditadura militar brasileira, desaparecia. Estamos sempre prontos a crucificar qualquer deslize na história daqueles que erigimos como "perfeitos", aqueles que decretamos que não podem errar, aqueles que imaginamos estarem acima do comum dos viventes. E, talvez por isso mesmo queiramos premiá-los com o Nobel de tantas coisas e condená-los quando descobrimos algo que manche a imagem perfeita que nós mesmos construímos.

Pois é, nos humanos viventes, escorregamos, caímos, empurramos, somos empurrados. Nós humanos viventes somos tentados a possuir o bem alheio, a desejar corpos e até corpos infantis. E, algumas vezes somos dominados por nossa fraqueza e cedemos à vontade imediata de nossos corpos. No fundo não somos puros e nem perfeitos. Somos todos não apenas falíveis, mas sim pecadores de fato. Somos todos capazes de tirar a vida ou diminuir vidas de alguma maneira. Basta perder por um instante o equilíbrio do passo.... Basta sair um pouco da sobriedade habitual... Basta não conseguir controlar os harmônios... Basta que a raiva seja maior do que a que podemos suportar... Basta que a sedução do desejo me inebrie... Em um instante tudo se transforma!

Pois é, atire a primeira pedra quem nunca tiver pecado...

Mas somos também capazes de erguer os caídos nas estradas da vida, de pensar alternativas viáveis para o mundo dos empobrecidos, de pensar em Fóruns Sociais internacionais para buscar saídas para uma vida melhor para todos... Somos essa mistura de grandeza e miséria!

Não faço a apologia de nossos limites e nem estou desculpando as nossas muitas falhas e pecados uns contra os outros. Apenas faço uma alerta para nós mesmos contra a hipocrisia que pode tomar conta de nós como se fôssemos livres de pecado. Talvez estejamos livres desse pecado preciso de meu irmão ou daquele outro de minha irmã. Mas do meu, deste eu não estou livre. Meu pecado confessado ou inconfessado, descoberto ou ainda oculto continua em mim. E ao tentar esquecê-lo ou escondê-lo posso correr o risco de não ver mais "a trave em meu olho, mas apenas a palha no olho alheio".

Nossa hipocrisia chega a um ponto que diante de um escorrego maior ou menor reduzirmos a vida de alguém com 85 anos de idade que prestou incontáveis serviços à humanidade e talvez já tenha sofrido o suficiente pelo pecado que ele mesmo já admitiu. Então, o que queremos mais?

Embora estarrecida com nossa hipocrisia e ignorância, capaz de atirar pedras e de não viver o perdão e a misericórdia, sobretudo com àqueles que testemunharam por sua vida que, apesar dos escorregos, foram capazes de "muito amor", guardo a esperança de nossa conversão.


* Filósofa e teóloga, feminista e escritora
Obs: Publicado em www.adital.com.br

PRESIDENTES e PRESIDENCIAIS em PORTUGAL


J. A. Horta da Silva


Por ser um país periférico empoleirado numa História nem sempre bem contada, Portugal continua a viver agarrado à esperança, que é qualquer coisa imaterial que hiberna nos múltiplos aneurismas dos becos da nossa existência. Há muito que o país sobrevive, nos momentos cruéis dos ciclos político-sociais, com a ajuda das brisas do mar e da montanha quando o Sol queima, e do vento de sudoeste quando a Terra gela. Por estas singularidades, Portugal continua envolto em fases de hibernação, durante as quais a realidade vai cavando o fosso entre ricos e pobres, por força da progressiva extinção da classe média. Os actos eleitorais deviam ser momentos de reflexão e de incentivo à construção de um futuro melhor, mas o povo está cansado de votar sem retorno de benefício, facto que mostra o descrédito da classe política.

Uma vez mais, vivemos o acto eleitoral para eleger o Presidente da República, figura do topo da hierarquia do Estado, demasiado decorativa em termos do regime constitucional em vigor, salvo circunstâncias especiais, como seja a situação de guerra. Por força da limitação dos seus poderes, o PR exerce, quanto muito, um magistério de influência relativamente à governação. No actual regime, os Presidentes da República foram sempre reeleitos, mostrando todos eles posturas diferentes, em relação ao modo de actuar no primeiro e no segundo mandatos, circunstância que decorre da fragilidade dos seus poderes.

No quadro constitucional em vigor, o General Eanes foi o mais interventivo Presidente da República, mas não um presidente isento. Recorreu a governos de iniciativa presidencial e, por força da inerente ineficácia, ajudou a criar o partido PRD, que cindiu o então PS e ajudou a ascensão do PSD e de Cavaco Silva ao poder executivo. Mário Soares foi, no seu primeiro mandato, um Presidente colaborante com os governos de Cavaco mas, amarrado às limitações dos poderes presidenciais usou, no segundo mandato, as Presidências Abertas para mostrar as fragilidades da governação e ficou satisfeito com o desaparecimento do PRD e o retorno do PS ao poder pela mão de António Guterres. Jorge Sampaio, o presidente mais emotivo que tivemos, apoiou, tanto quanto possível, as minorias parlamentares de Guterres, muito embora houvesse, entre ambos, visões de conceito e de estratégia diferentes, sendo de destacar a célebre declaração pública «há vida para além do défice». Contudo, no seu segundo mandato, dissolveu à Assembleia da República durante a vigência do governo de Santana Lopes, suportado por uma maioria parlamentar (PSD-CDS), muito embora fossem tempos de trapalhadas, algumas das quais ainda por esclarecer.

Seguindo a esteira dos antecessores, Cavaco Silva foi reeleito para um segundo mandato na primeira volta das eleições. Admiração seria não ter atingido este objectivo, muito embora denotasse nervosismo, face a sondagens que não excluíam, probabilisticamente, a hipótese de uma segunda volta. A campanha teve episódios ásperos, não obstante a bonomia das intervenções de Fernando Nobre, personalidade muito mais dada ao auxílio a catástrofes humanas do que a disputas políticas. A política é do foro de personalidades que mostram ter um certo grau de precedência predatória. Manuel Alegre, depois de preparar, com antecipação, a sua candidatura, balançando entre o PS e o BE, tirou a prova real relativamente ao juízo político que os portugueses fazem dele. A qualidade da escrita que sabe produzir não foi transportada para a campanha eleitoral, em termos de oratória. Além de mau orador, foi parco em ideias.

O futuro dir-nos-á se Cavaco irá plagiar a actuação dos seus antecessores. Para mim, fica registada a asserção: «é preciso falar verdade aos portugueses». Anoto-a com agrado, não só pelo facto de eu já ter escrito a mesma frase, em artigo de opinião publicado no D. C., mas também pela circunstância de o PR reconhecer, finalmente, que os políticos nem sempre falam verdade ao país. O enorme valor da abstenção (53,4%), mais (6,2%) de votos brancos e nulos num caderno eleitoral de 9.629.630 eleitores, levam-me de retorno à obra de José Saramago intitulada o “Ensaio Sob a Lucidez”, acontecimento que suscita inquietude. Por outro lado, as votações alcançadas em todo o país por Fernando Nobre (14,1%), que não teve apoios políticos nem máquina eleitoral, e por José Manuel Coelho, (39,1%) dos votantes da ilha da Madeira, reforçam a indispensabilidade de uma cuidada reflexão.

VAGANDO E DIVAGANDO: uma percepção



Jacinta Dantas
jacintadantas@bol.com.br


Olho e vejo alguém vagando pela vida: um ser que desafia a realidade, ignora o tempo e afeta as pessoas. Com seu jeito sem jeito, sem obrigações, sem horário, sem lugar, (mas que ocupa muito espaço), incita sentimentos de raiva, pena, medo e... compaixão. Do poder do Estado, parece intuir a existência da repressão. Em seus "ensaios" para o confronto, não se intimida: enfrenta a polícia, exigindo continência, e, em posição de sentido, berra:

_olhe a minha patente
eu sou coronel
Toma juízo soldado

Tendo a rua como endereço, ele incomoda, pois expõe, sem pudor, a face que ninguém quer enxergar diante do espelho. Por não ser dono de si, sobra-lhe liberdade e tempo para perambular pelas ruas, sentar-se nas pedras, brincar, xingar, gritar, e, passar o tempo sem saber em qual tempo ele passa. Do tempo cronológico nem faz idéia, passa horas olhando pro nada que dá pra lugar algum, e, garante, com entusiasmo, que está numa grande festa, recebendo amigos famosos, ou numa grande batalha, comandando os soldados.

– FOGO, FOGO, FOGO, descansarrrrrr

Passa o tempo e o tempo passa, prá mim e pro Zé. Tenho consciência do meu tempo interior, e sei que ele existe, independente de mim e da minha vontade; e, independente da vaga vida do Zé, o tempo é como é. Simplesmente existe, antes e depois. A certeza da finalização coloca-me em constante “conflito” frente ao desejo de realização de meus projetos. A convivência com alguém que vivencia a experiência de finitude e mantém a vontade, os sonhos e projetos, aflora, em mim, uma confusão de sentimentos e aspirações.

Na tênue distância que se estabelece entre mim e o Zé, vislumbro a possibilidade de que, talvez por aí, pelo desejo de realizações, se consiga fugir da realidade temporal e fazer o próprio tempo, pois a vida continua seu curso, seu percurso, mesmo na dicotomia entre vida e morte, realidade e fantasia. De novo, volto pro Zé: divagando, retorno ao tempo, penso em liberdade, e vejo que, por ser "livre" , o Zé continua na sua festa e na sua guerra.

Comando dado, comando obedecido? Qual nada. Por vezes a liberdade do Zé lhe custa caro. Gritos de horror, resistência, insistência...e o limite se impõe na vaga vida do Zé. Passa um tempo “sumido” da rua, e nesse tempo, ninguém reclama a sua falta. Mas , quando o Zé volta, volta com ele a desorganização de sentimentos, a rua fica cheia e o tempo fecha.

Depois de 15 dias internado, ele volta ao seu (não) lugar, contando que passara 06 meses num cruzeiro, com direito a show com Roberto. É... o Zé continua lá fora, ou aqui dentro, sobrevivendo na rua, percebendo o tempo do seu jeito. E, o tempo passa, o sol se põe, a chuva cai, o rio faz o seu percurso, o mar o recebe, os pássaros cantam, as crianças brincam, e com distinta percepção, o Zé continua vagando e eu, divagando sobre o tempo e a liberdade.


Obs: Imagem da autora.

LINGUAJAR


José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Ultimamente venho sofrendo com uma grande espinha atravessada na garganta e, veja bem, nem é uma espinha de Tucunaré ou Tambaqui, que nesta época estão protegidos pelo Defeso – ação do Governo Federal que proíbe a captura dessas espécies no período de reprodução. O que vem me atrapalhando as cordas vocais na verdade é a espinha dorsal da nossa gramática brasileira que insiste, pela postura dos gramatiqueiros e amantes da “boa fala”, em querer obrigar o povo brasileiro a se comunicar usando conectivos, gerúndios, particípios, substantivos, artigos, adjetivos...ufa...de conformidade com as normas gramaticais vigentes em nossa rica e variada Língua Portuguesa.

Eu até me esforço em falar gramaticalmente correto ou como eles – os gramatiqueiros – denominam de forma culta da comunicação, mas confesso que isso às vezes é chato e enfadonho, sem mencionar que entendo muito bem o linguajar popular e até já me acostumei com os “pobremas, estrupos, fragantes...”, e outras pérolas da nossa língua como eles denominam os “erros grosseiros de português”..

Mas fugindo ao “falar corretamente”, me delicio lendo Patativa do Assaré, Cora Coralina e tantos outros que escrevem como o povo fala, relatando uma realidade e cultura particular de um povo ou grupo social. Aliás, até concordo com os estudos da Língua Portuguesa quando o foco é justamente um estudo sócio-econômico e não para apontar o que é “certo ou errado falar”. Inclusive devo concordar com o Marcos Bagno – colunista da Revista Caros Amigos – que analisa a língua como ferramenta eficaz de comunicação, portanto o que importa é o entendimento no ato de falar.

A gramática é regra, é norma, e as regras foram feitas para serem quebradas. Vivemos a era da comunicação e uma era de reconstrução do velho modo de falar. Nesse caso, viva o Lula com sua simpatia lingüística que não esconde o operário e homem do povo que ele é. Viva a Dilma com sua invenção marqueteira de a “primeira presidenta”. E no caso dos dois, a mídia e os gramatiqueiros se referem como a personificação da ignorância pelos “erros” de linguagem.

Somos um povo rico em cultura, em esperança, em vontade de trabalhar para mudar esse quadro de pobreza desse belo País emergente, então nos deixem falar como quisermos ou como estamos habituados. “A gente podemos”, ora, para quem assim fala, “a gente” soa como mais de um, portanto plural, então nesse caso “a gente podemos” mesmo e que nossa gramática fique para os salões e convenções dessa gente metida a besta embebida por sua ignorância ao que se refere o termo comunicação popular; simples e fácil de ser entendida.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

TEXTO DE LUG COSTA

Queres saber de onde sou?
Na verdade não sou de lugar algum.
Sou fruto de tuas entranhas
porque bebi durante noves meses do teu sangue.
Abrigado no teu seio materno
recebi gratuitamente a vida, parte de tua vida.
Pertenço à terra,
ao Senhor das Criaturas,
sou fruto do Amor.


(05.10.2007 - 15:03h - Caxias/MA)

O CUIDADO DA VIDA, PROJETO DIVINO


Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)


Neste final de janeiro e começo de fevereiro, notícias internacionais denunciam um aumento de choques entre hinduístas fanáticos e muçulmanos no sul da Índia. Enquanto isso, no Egito, os cristãos coptas choram a morte de membros da Igreja assassinados por fanáticos muçulmanos. Infelizmente, a motivação religiosa ainda é um dos fatores presentes em muitos conflitos e guerras. É tarefa das Igrejas, grupos religiosos e pessoas espirituais colaborar para o diálogo e a paz. Neste contexto, uma responsabilidade maior cabe à Igreja Católica. Antes de tudo, por ser, no mundo, a Igreja que tem o maior número de fiéis. Além disso, por ter sido na história, a instituição religiosa que mais praticou a perseguição aos diferentes. Mas, principalmente, porque o próprio termo católico significa em grego universal. No mundo antigo, pais da Igreja como Tertuliano (século II) explicavam que a Igreja é universal, não apenas por ser internacional, mas por ter a vocação de ser aberta a tudo o que é humano. Atualmente, apesar de muitas contradições e fragilidades, a Igreja Católica acentua a sua vocação de dialogar com outras religiões e culturas. No Vaticano, o papa mantém um Secretariado para o diálogo das culturas e religiões. Neste contexto, é estranho que, em Goiás, grupos católicos que se consideram espirituais criem polêmicas e assumam posições intransigentes e de condenação a outros irmãos, católicos como eles. Não poupem de seus ataques nem pastores da Igreja, bispo e padres que dão a vida para cumprir com fidelidade a sua missão evangélica. Com este tipo de fiéis e amigos, a Igreja não precisará de inimigos.

Há quase 50 anos, o Concílio Vaticano II reconheceu a autonomia da sociedade civil em matéria social e política. A Igreja pode e deve dialogar, mas não impor seus critérios e opções. Infelizmente o mesmo princípio do diálogo não ficou claro quando se trata da Ética social e das questões morais. Ainda há cristãos que pensam poder obrigar toda a sociedade a viver aquilo que eles acreditam. Em matéria de princípios éticos, o Concílio Vaticano II propôs que os cristãos considerassem ético tudo o que protege e favorece a vida, a saúde e a liberdade das pessoas.

Com relação à ética sexual, os cuidados da saúde e a sensibilidade das pessoas, o mundo mudou muito rapidamente. Hoje, é difícil compreender que pais deixem uma criança morrer sem transfusão de sangue, porque a Bíblia proíbe. Seria igualmente estranho um padre pregar no púlpito que, durante a Quaresma, os esposos devem se abster de atos sexuais. Há poucos séculos, em algumas regiões, isso era um costume que se tornou praticamente lei. Assim também, pode acontecer que católicos do futuro estranhem que, hoje em dia, sejamos intransigentes e incapazes de dialogar por questões que, para eles, serão tranqüilas. Por isso, hoje, para ser fiel ao evangelho e falar uma linguagem que possa ser compreendida pela humanidade, a Igreja tem de continuar o diálogo fraterno que o papa João XXIII começou com o mundo. Os bispos e padres, assim como os fiéis, têm todo direito de pensar de acordo com sua consciência, mas não podem impor isso ao mundo. Para Jesus, a única verdade absoluta é o projeto divino que os evangelhos chamam “reino de Deus”. Ao ser submetido ao julgamento do governador Pilatos, Jesus foi interrogado se era mesmo rei deste reinado divino. Ele respondeu: “Eu nasci para dar testemunho desta verdade e toda pessoa que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37).

É a este projeto de vida e saúde para todos que Dom Eugênio Rixen, bispo de Goiás e, desde muitos anos o bispo responsável, no Brasil, pela pastoral de apoio aos portadores do vírus HIV, serve e se consagra. Do mesmo modo, Frei Paulo ...., sacerdote fiel e bom pároco da Cidade de Goiás, assim como os outros padres e agentes de pastoral da diocese de Goiás, merecem toda a nossa confiança e solidariedade. Foi com a mais profunda motivação evangélica e de cuidado com a vida, que, no 1º de dezembro de 2010, Dia Internacional da Luta contra a Aids, a paróquia da Catedral da Cidade de Goiás promoveu, junto com o governo do Estado e a prefeitura de Goiás, uma campanha educativa e de incentivo à proteção da saúde. Embora isso tenha gerado polêmicas e incompreensões entre irmãos da mesma Igreja, sem dúvida, o pároco e a equipe pastoral de Goiás agiram de acordo com a palavra de Deus e a melhor tradição da Igreja em servir ao bem do povo.

Em sua época, disse Santo Agostinho: “Apontem-me alguém que ame e ele sente o que estou dizendo. Dêem-me alguém que deseje, que caminhe neste deserto, alguém que tenha sede e suspira pela fonte da vida. Mostre-me esta pessoa e ela saberá o que quero dizer” (Sto Agostinho).¹


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor
_______________________
¹ - AGOSTINHO, Tratado sobre o Evangelho de João 26, 4. Cit. por Connaissance des Pères de l’Église32- dez. 1988, capa.

CHUVAS NO RIO DE JANEIRO: TRAGÉDIA QUE SE REPETE ANUALMENTE


Maria Clara Lucchetti Bingemer,
-professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio


Tom Jobim cantou e Elis Regina imortalizou em sua voz única o fenômeno das águas de março que fecham o verão e trazem promessa de vida ao coração. No entanto, as águas de janeiro e fevereiro (que, às vezes, começam a cair já em dezembro) chegam todos os anos não como promessa de vida, mas como realidade dura, violenta e dolorosa de morte, desaparecimento de pessoas, desabrigo de centenas e um rastro amargo de tristeza e dor.

Todo o Brasil e mesmo o exterior estão vendo a situação que o Estado do Rio de Janeiro enfrenta com as chuvas e as enchentes nas principais cidades da região serrana, feitas para o descanso do calor da grande cidade: Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo. Milhares de jornais em todo país divulgam a cada hora o número de mortos já encontrados e este passa de oitocentos. Há centenas de desaparecidos e seus familiares vivem a indizível angústia de procurar corpos que não se sabe onde estão nem se poderão ser localizados.

Ao lado disso, a tristeza do desabrigo de quem perdeu tudo que levou uma vida inteira para construir: uma casa, objetos, eletrodomésticos. Tudo. A imagem dos destroços das casas pelas encostas, o desalento das pessoas nos abrigos são a própria imagem da desolação.

O sepultamento das vítimas se dá sem velório e suas covas são improvisadas nos cemitérios das cidades atingidas, insuficientes para a quantidade de corpos a enterrar. O macabro desfile de pessoas enterrando parentes, um ou mais de um, continua diante de nossos olhos perplexos com a devastação que as águas de janeiro fizeram e ameaçam ainda fazer. As buscas pelos desaparecidos continuam, mas a chuva atrapalha muito e retarda o trabalho da Defesa Civil e dos bombeiros.

O que choca mais, no entanto, quando se reflete sobre essa tragédia é que ela vem se tornando tristemente crônica. Repete-se anualmente como um filme que se vê de novo, e de novo e de novo. Já em 1966, na cidade do Rio de Janeiro, choveu 245 milímetros em 24 horas e os deslizamentos de terra nas favelas causaram mais de 140 mortes. O então governador Negrão de Lima foi duramente interpelado pela população e foram esperadas providências nas encostas, nos rios... nunca tomadas. Depois disso houve outras, muitas outras tragédias como essa. Mas nos últimos anos parece que a coisa vem se agravando. Em fevereiro de 2009, a chuva havia deixado 3.605 desalojados só no estado do Rio. Na virada para 2010, uma tragédia em Angra dos Reis (RJ) deixou morte e tristeza em quatro famílias. As poucas pessoas que se salvaram somente o fizeram porque caíram no mar. Agora, em janeiro de 2011, essa tragédia toma a maior proporção de todas já vistas.

O governador Sérgio Cabral culpou o tempo: a intensidade dos temporais, a violência das chuvas, etc. E as pessoas: a ocupação irregular das encostas, em áreas de deslizamento, de maneira irresponsável etc. Ora, ao que se sabe, a responsabilidade pela ocupação em áreas de risco é do governo municipal. Porém, ao município interessa a arrecadação de impostos, o incremento do turismo. O resultado é que não só moradias populares são construídas nas perigosas encostas. Pousadas, hotéis e condomínios de luxo foram proliferando e se multiplicando ao longo do tempo. As construções enfraquecem o solo, eliminando a mata nativa, cujas raízes ajudam a fixar a terra. Além disso, os rios, não dragados, transbordam e provocam catástrofes, como a morte da família inteira de Erick de Carvalho em uma casa de veraneio no Vale do Cuiabá.

O impacto da tragédia, para os sobreviventes, vai além das perdas materiais. Deixa profundas feridas psicológicas, dificilmente cicatrizáveis. Num momento assim, a mobilização das comunidades torna-se tão importante quanto o amparo governamental. Apoio psicológico está sendo providenciado para os atingidos. No entanto, é de se esperar que finalmente sejam tomadas enérgicas providências de fiscalização nas encostas, desativando as residências inviáveis e dando suporte às construções, para que tragédias como essa não voltem a acontecer. Não é possível que todos os verões se transformem num pesadelo de proporções cada vez piores, quando correções na estrutura de construção e medidas preventivas podem ser tomadas.

Que cheguem as águas de março com promessa de vida. Mas que não mais as águas de janeiro e fevereiro provoquem tantos estragos e custem tantas vidas humanas como até agora.


Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


Copyright 2010 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

CHEGANÇA


Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com


Com seu povo dividido entre os que sofreram diretamente as consequências da enxurrada devastadora; os que se solidarizaram com as vítimas e passaram a contribuir tentando amenizar sua dor; os que gastam os dias, desde a tragédia, repetindo teorias a respeito dos porquês e dos comos; os que parecem ter apenas ouvido ao longe as notícias e continuaram suas vidas sem qualquer vestígio de respingo; os que se aproveitam da péssima “boa” hora para ter algum ganho direto ou indireto; os que sentem na alma tanto desencontro e limitação, o Estado do Rio vive seu drama e vai iniciando, uma quinzena depois, um discreto início de processo de convalescença.

Hoje, depois de ter que esperar ansiosamente mais de uma quinzena por este momento, saindo do impecável céu azul do Rio, amanheci a caminho de Bom Jardim. Coração apertado, mas olhos bem abertos, vim tentando ampliar os horizontes à minha frente, buscando, nos flancos das montanhas que vão se alternando e formando molduras com seus contornos coloridos, as feridas da batalha travada entre Céu e Terra .

Ao contrário do que imaginava, vim apreciando a estrada se repetir, bela como sempre, mesmo quando apareceram, já quase às portas de Nova Friburgo, os sinais das primeiras barreiras que deslizaram aqui e ali, acidentes que não posso evitar de me parecerem quase parte de um cenário familiar, tão comuns que sempre são, nos períodos de verão.

Já corria a tentação de ensaiar certo otimismo, o que não me é costumeiro, quando, ao desembarcar na Rodoviária Sul, o mal estar da surpresa de ver pilhas e pilhas de donativos espalhados no chão, me acordou do torpor e me fez voltar à realidade de estar vivendo um episódio terrível e longe de ser superado, evidentemente.

Buscando informação para aquele abandono das mercadorias, descubro que faltam: espaço para organizar o que vem sendo doado, gente para cuidar de selecionar tanto material e transporte para fazer chegar aos necessitados tudo o que lhes é enviado. Ali, no chão, me explicam, está apenas o que foi trazido pela transportadora da viação 1001 e que, por enquanto, não tem como chegar aos galpões de atendimento aos desabrigados.

E lá vou eu, me deixando levar pelo hábito de ser crítica, na busca de identificar os responsáveis por essas faltas, quando me lembro de minha própria incapacidade de ir e vir a qualquer destino útil, se ainda precisava resgatar meu carro, abandonado involuntária e inevitavelmente, há quase vinte dias, no estacionamento da rodoviária, desde quando fui trabalhar, para voltar dois dias depois e aconteceu o imprevisto e a interceptação das estradas, impossibilitando meu retorno ao lar. De posse do carro, escolho, com autonomia, a rota que me permita testemunhar o que de fato aconteceu.

Começa logo ali, na Praça do Suspiro, a visão da tragédia: montanhas aparecem absurdamente escorridas, como uma pintura borrada ou como um jogo de armar desmanchado por um brincante descuidado.

No ar, uma névoa bege, de poeira sufocante, cobre tudo, obrigando o uso de máscaras protetoras. Meus olhos e minha garganta ardem quanto chego ao Superpão. Este empório, verdadeira copa/cozinha farta, que, habitualmente, acolhe moradores e visitantes de Friburgo com inumeráveis guloseimas, está desfalcado tanto dos produtos como da tradicional simpatia esfuziante de sua gente. A casa mantém-se, verdade se diga, cortês e disponível, mas deixa entrever a tristeza no vazio das prateleiras e dos sorrisos. Consternada, ouço da moça do caixa que todos ali perderam, nesses dias, algum amigo ou parente.

Sigo meu caminho, desalentada e vejo que mesmo os bairros que não foram atingidos pela violência da chuva inclemente, têm, na paisagem distante, marcas do ataque sofrido ao enquadre verde azulado das serras, tão lindo quanto frágil.

Dali pra frente, impossível não me emocionar. De todos os lados vejo centenas de pessoas trabalhando incessantemente ainda, tantos dias depois do temporal, tirando terra, lavando, transportando, esvaziando casas e galpões de toneladas de materiais destruídos, além das montanhas de detritos, pedras, restos de árvores e sabe-se lá mais o quê mais, que aqueles mundaréus de barro conseguem ocultar.

Prédios e prédios, que fui me acostumando a ver se multiplicarem com o passar dos anos, encrustados nas encostas (o que sempre me inquietou, preciso confessar), mal identifico agora, destruídos, despedaçados, compondo imagens semelhantes aos de uma cidade bombardeada. Margeando o rio, a devastação causada pelas águas nos envolve irremediavelmente. E a estrada parece se alongar mais e mais, crescida talvez pela dor de ser registro do desamparo e do desespero vividos ali.

Enfim, estarrecida, não sei quanto tempo depois, chego à estradinha de minha aldeia. Aliviada, verifico que o abrigo de idosos que existe bem próximo dali, incrivelmente nada sofreu. No posto de gasolina mais próximo, ouço a informação de que depois de 15 dias os telefones fixos vão, enfim, voltar a funcionar, talvez hoje ou amanhã. Esperança de volta à normalidade dos negócios...

E agora, ao Retiro, meu retiro.

O caminho é de terra. De um lado a encosta, do outro a várzea. Tudo entre montanhas verdes, com casas simples, salpicadas entre pequenas plantações e quintais vadios. Bois e vacas pastam na tranqüilidade de ocuparem, sem dúvidas, seus mesmos lugares sagrados, na paisagem e na vida Aqui e ali, ultrapasso deslizamentos, obstáculos já retirados pelo grupo de moradores locais, em trabalho de mutirão. Com alívio, reencontro meus vizinhos amigos, parceiros dos cuidados com meu sítio. E eles contam:

“Aquela foi uma noite de tamanha claridade, algo muito estranho, que, mesmo sob a chuva torrencial fazia lembrar uma noite de lua cheia. Nenhum vento. De dentro das casas se podia ver tudo lá fora, tal era o brilho dos relâmpagos que explodiram, sem cessar, horas e horas, por toda a madrugada...” Ninguém dormiu. Estranhamento, temor, ansiedade faziam com que velassem não sabem dizer o quê.

De manhã, poucas marcas na terra ao redor, nenhum prejuízo maior, nenhuma vítima das chuvas. Não havia luz desde as primeiras horas. Os telefones mudos. Depois, as notícias foram chegando aos poucos, por um e outro morador que conseguia, em velhos rádios de pilha sintonizar o noticiário de uma cidade distante. O terror: Friburgo destruído. Bom Jardim isolado. Banquete alagado. Não sabiam mais. A estradinha, interrompida ao tráfego, foi percorrida a pé para procurar saber dos parentes.

Passaram uma semana sem eletricidade, sem telefone e pelo menos três dias sem estrada. Livres, é verdade, dos intoxicantes informativos da TV. Até hoje, a chegada a Bom Jardim é precária. Mas, aqui, dizem eles, orgulhosos e aliviados, somos “ricos”. Não nos falta nada.

Depois de ouvi-los e agradecer seus cuidados, entro em casa. Abro o portão e a encontro ali, como a deixei, ensolarada, sorrindo timidamente para mim, como que estranhando minha ausência, por tempo maior que o combinado.

E sei que é daqui, desse colo verde e ameno, que vou reencontrar a força e a coragem para participar de toda reconstrução necessária. Aprendendo e recordando, pouco a pouco, com esta terra boa, as lições da misteriosa harmonia da Vida.

...NO DESERTO...


Maria Inês Simões - Bauru/SP


Nada sei das estrelas e deste seu universo
Nada sei de seu riso, seu gozo ou desgosto
Nada sei de seu brilho que a contra gosto
...deslumbra olhar carente descrente...

Nada sei de mim em vida... Só... Sinto!
De minhas manhãs vazias e entardecer solitário
De buscas, lutas e rostos guerrilhas
...detonados em tempos e vidas passadas...

Ainda sei de crianças desamparadas
jogadas ao léu sem lembranças
sobrevivendo, olhos sem esperanças
de quem as façam crer
que existe um brilho maior
...basta ver...

Da fome só eu sei, seres em osso e pele-sentimentos
comida de abrutes em banquetes-mantimentos
plataformas e solventes-suores infantis-ressentimentos

Só eu sei, de um sorriso abobado
infantil, desesperado em busca de viver
...um sonho por viver...

E pergunto ainda por você, o que sabe da vida
...qual seu sonho sua lida, não sei responder...

Meus sonhos fundem-se em desespero
com o choro de minhas manhãs e entardecer
queria ver as estrelas no deserto de Davi
Olhar para os montes e gritar por socorro
...do alto ele virá, sei que virá... Um dia virá...

Da Lua não mais, de Marte não acredito
O tempo passa e a esperança se esvai
com a fé e conhecimento de que nada sei
...nada sou... nem por quem estou...

Não quero mais ver estrelas em planetas desabitados
ou satélites velórios perdidos pelo nada

...só...
queria ver as estrelas no deserto de Davi

Sonhos Estrelas que se desfazem
Para brilhar no deserto logo ali
em terras áridas
... estas aqui...
...regadas...
...em sangue suor e vinho-vida...
...embriagadas...

...Só queria ver as estrelas com você...
...No deserto... Imenso... Intenso... Neste aqui...