Padre Beto
www.padrebeto.com.br
As gaivotas permaneciam enfileiradas em um gramado de frente para o mar. Todas elas com o bico contra o vento formando uma fileira uniforme. Uma, porém, havia se colocado em posição oposta às outras, ou seja, com o bico a favor do vento. "Você é realmente nojenta!", disseram as gaivotas para a única companheira que possuía a posição diferente, "Nós todas nos colocamos com nossos bicos para o vento. Somente você faz o contrário." "E se isso me dá prazer?", disse a gaivota que se comportava de forma diferente, "a minha maneira de ser atrapalha vocês, por acaso?" "Você destrói a nossa comunidade!", argumentaram as outras gaivotas que continuavam voltadas contra o vento. A outra, porém, permanecia irredutível à crítica das amigas. Em um determinado momento, aproximou-se um gato por entre os arbustos, olhou as gaivotas, notou que o vento o beneficiava e preparou-se para o pulo de ataque. A gaivota que estava com o bico a favor do vento ao perceber a movimentação do gato, alertou as amigas gritando: "Perigo! É hora de voar!" O bando de gaivotas alçou vôo salvando-se do ataque do felino. "Você é uma nojenta individualista!", disseram as gaivotas com um certo desdém.
O retrato que possuímos do filósofo Sócrates é o de um homem que andava por Atenas indagando a cada pessoa: "Você sabe o que é isso em que você acredita?" ou "Você sabe o que é isso que você está dizendo?". "Você diz", argumentava Sócrates, "que a coragem é importante, mas você sabe o que significa coragem? Você crê que seus amigos são as melhores coisas que possui, mas você sabe o que é a amizade?" Sócrates fazia perguntas sobre as idéias, os valores, as palavras e os fenômenos que as pessoas acreditavam conhecer. O filósofo percebia, na convivência com seus contemporâneos, que todos acreditam conhecer o que é bom (agathón), mas na verdade possuíam uma concepção superficial sobre as coisas da vida. Diante dos fenômenos e atitudes humanas, as pessoas tinham aquilo que Sócrates chamava de "aparência do saber". A maioria das pessoas possuía um saber aparente que se fosse um pouco questionado pela razão crítica não encontraria sustentação. Faltava às pessoas a verdadeira virtude (aretê): a busca de uma autoconsciência e, através desta, o aprofundamento no conhecimento de sua realidade. "Aquele que se conhece é o único senhor de si próprio" (Pierre de Ronsard). Os contemporâneos de Sócrates ficavam, então, surpresos ao descobrirem que diante da pergunta "o que é?" não possuíam respostas claras ou nunca tinham pensado sobre suas idéias, valores e convicções. O pior acontecia depois que algumas pessoas percebiam sua ignorância: esperavam de Sócrates uma resposta pronta. Mostravam, portanto, uma forte preguiça mental e a falta de satisfação em buscar suas próprias respostas. "A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito" (Denis Diderot).
A superficialidade do conhecimento e a preguiça mental possuem seu alicerce na justificação da maioria. Em outras palavras, a aprovação alheia é parte essencial de nossa capacidade de acreditar que estejamos certos. O nosso modo de pensar e o nosso estilo de vida são considerados errados pelo simples fato de encontrarmos a oposição do grupo de pessoas que nos circunda. Na verdade, o que deveria nos preocupar não é o numero de pessoas que nos contradizem, mas sim se estas possuem ou não boas razões para agir desta forma. Deveríamos, portanto, desviar nossa atenção da presença da impopularidade e nos centrar nas explicações para ela. "Toda verdade inédita começa como heresia e acaba como ortodoxia" (Thomas Huxley).
Normalmente nos deixamos atormentar por uma tendência contrária: dar ouvidos a todos. Assim, nos aborrecemos com cada palavra rude e cada observação sarcástica. Esquecemos de nos fazer a pergunta fundamental e reconfortante: em que bases tal crítica ou censura está sendo feita? Deveríamos nos dar ao trabalho de examinar o que está por trás de uma crítica. Muitas vezes, vivemos circundados por inertes, pessoas que possuem tempo suficiente para criticar as iniciativas e o trabalho de quem está buscando realmente viver. "Depois de algum tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo" (W. Shakespeare). Geralmente os inertes permanecem em seus conhecimentos superficiais, em seus preconceitos, possuem uma enorme preguiça mental e são movidos por uma profunda inveja de quem se esforça em enxergar além dos horizontes. De qualquer forma, o valor da crítica irá depender do processo do pensamento de quem a emite e não de quantos a emitem ou da posição social que ocupam. Pensar por si mesmo torna-se fundamental; para isso, um bom começo é a consulta ao "pai dos burros", um interessante dicionário, como "A Vida Íntima das Palavras" de Deonísio da Silva (Ed. ARX), e, é claro, não esperar encontrar nele respostas prontas, mas sempre um início para reflexões. "Sua vida... Clama a cada um de nós: Seja um homem e não me siga - seja você mesmo! Seja você mesmo!" (Nietzsche).
terça-feira, 30 de novembro de 2010
HORA DE REPENSAR
José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com
Muitos crimes hoje no Brasil caem na impunidade pelo simples fato dos envolvidos serem menores segundo nossa legislação penal. Nossa legislação nesse quesito é fraca e se faz contrária à vontade popular que atualmente gostaria de ver qualquer infrator, independentemente de idade, respondendo pelos seus atos criminosos como qualquer outro cidadão maior de idade.
Vejamos como ocorre tudo isso: Primeiro é que traficantes, racistas de todo tipo, homicidas em geral e tantos outros criminosos agem com a legislação que ampara os jovens debaixo do braço como forte arma para a impunidade, pois como eles bem sabem, qualquer infrator/bandido menor de idade responderá pelos seus crimes em liberdade e se condenado irá para algum centro de reabilitação, o que na verdade é um engodo social. Então esses jovens agora são contratados para aterrorizar nossa população trabalhadora, aquela que dá um duro danado para viver honestamente.
Os noticiários estão cheios de casos criminosos envolvendo jovens e adolescentes que se aproveitam da lei para também agir por conta e cair na criminalidade.
Um segundo fato que é necessário esclarecer é que boa parte da população brasileira já esta cheia dessa de que menor infrator apensa deve ser ouvido pela justiça e em seguida posto em liberdade, o que acaba repercutindo como um grande absurdo. Sem mencionar a classe média que espanca, mata, incendeia, estupra e sai ilesa pelo fato de seus bandidos precoces são menores, são réus primários, todos tem residência fixa eseus pais tem alta influência econômica e social.
Não seria o momento de repensarmos já nossa legislação? Pois uma lei que deveria zelar pela integridade dos menores acabou sendo usada para perpetuar a impunidade planejada pelos criminosos adultos ou simplismente usada para acobertar menores bandidos que sabem que raramente terão que pagar pelos seus atos.
Acredito que crime é crime em qualquer circunstância e por quem quer que seja aquele que o pratique. Portanto, está na hora de repensar nosso modo de agir diante de jovens e adolescentes criminosos desse país.
(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA
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José de Alencar Godinho Guimarães
EM POUCAS PALAVRAS...
Jacinta Dantas
jacintadantas@bol.com.br
Uma angústia: MEDO
E, se as cores não se destacarem mais?
Se eu não reconhecer o cheiro do vermelho?
...
Uma alegria: ESPERANÇA
Por hora, vou abrindo a trilha e seguindo o caminho.
...
Uma certeza: O QUE SINTO AGORA
...sou puro coração. Pulso desejos e - alegria de viver, conviver - é o que quero, reaprendendo a arte de me aproximar com a espontaneidade, simplicidade e confiança de uma criança, na mulher que Sou.
...
O que fica: VONTADE
Apesar do medo
existo
e acolho o pulsar do viver
com toda a beleza que há na existência.
Ah!
A frase, para demarcar o meu dia, eu peço emprestada a João Cabral de Melo Neto
"...e não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ...”
É isso.
Obs: Imagem enviada pela autora (foto de Andréia Gavazzoni)
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Jacinta Dantas
A FESTA
Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/
Já era a quarta ou quinta vez que passava pela porta do quarto. Olhava com prazer e medo o vestido sobre a cama. Prazer, de pensar como seria o baile. Medo, de que o pai não a deixasse ir. Ele era imprevisível. Se pelo menos tomasse um copo de cerveja, tudo estaria resolvido. Quando bebia, mesmo que fosse apenas um copo, se transformava, jogava fora a máscara. De carrancudo e grosseiro passava a ser brincalhão, compreensivo. Sem beber, era insuportável, rude, ríspido, ranzinza.
O vestido de bolas, vermelho e branco, estava pronto, a costureira trouxera pela manhã. Invejava as amigas. Não passavam por aquela angústia todas as vezes que havia uma festa. Os outros pais eram diferentes. Não se opunham e até as acompanhavam.
Como saber se ele deixaria ou não? Se pelo menos tomasse um copo de cerveja. Nem precisava mais, um copo bastaria. Pediu à mãe que falasse com ele.
- Não posso, você conhece seu pai. Só há um jeito, e você sabe qual.
- É, mas tenho medo que passe da conta. Aí, então, vai tudo por água abaixo.
Passou e tornou a passar pela porta do quarto. O vestido estava lindo, perfeito. A mãe comprara a fazenda na conta da loja e mandara para a costureira, mesmo sem saber se a filha iria ao baile.
- Será que ele deixa, mãe?
- Só Deus sabe, minha filha, só Deus sabe.
Tinha pena da filha. Conhecia bem o marido, as mudanças de humor. Quando bebia, mesmo que fosse apenas um copo de cerveja, chegava em casa sorridente, satisfeito, solícito. Se acontecia se exceder, também não incomodava. Sóbrio, era intratável, às vezes grosseiro.
- Pede, mãe, insistia, se você pedir, ele deixa.
- Com quem você vai?
- Ora, se beber, ele mesmo leva.
Passava pela porta do quarto, via o vestido, ia até a janela, olhava para rua. Esperava. Avistou o irmão que vinha correndo, trazia notícias.
- O pai foi para o clube. Passei lá, estava jogando.
- Bebendo?
- E então?
- Graças a Deus.
Entrou no quarto, apanhou a bolsa, olhou o vestido mais uma vez.
- Vou ao cabeleireiro, mãe.
Fez maquilagem, frisou os cabelos, pintou as unhas dos pés e das mãos. E o pai, já terá voltado? Telefonou para casa.
- Ele já voltou, mãe?
- Ainda não.
Começou a temer que bebesse demais, passasse da conta. Na volta encontrou o irmão na calçada.
- O que houve?
- Vá ver.
Entrou correndo. O pai, bêbado, dormia em cima do vestido de bolas vermelhas.
Obs: Texto retirado do livro da autora - Memórias do Vento
djaniras@globo.com
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Já era a quarta ou quinta vez que passava pela porta do quarto. Olhava com prazer e medo o vestido sobre a cama. Prazer, de pensar como seria o baile. Medo, de que o pai não a deixasse ir. Ele era imprevisível. Se pelo menos tomasse um copo de cerveja, tudo estaria resolvido. Quando bebia, mesmo que fosse apenas um copo, se transformava, jogava fora a máscara. De carrancudo e grosseiro passava a ser brincalhão, compreensivo. Sem beber, era insuportável, rude, ríspido, ranzinza.
O vestido de bolas, vermelho e branco, estava pronto, a costureira trouxera pela manhã. Invejava as amigas. Não passavam por aquela angústia todas as vezes que havia uma festa. Os outros pais eram diferentes. Não se opunham e até as acompanhavam.
Como saber se ele deixaria ou não? Se pelo menos tomasse um copo de cerveja. Nem precisava mais, um copo bastaria. Pediu à mãe que falasse com ele.
- Não posso, você conhece seu pai. Só há um jeito, e você sabe qual.
- É, mas tenho medo que passe da conta. Aí, então, vai tudo por água abaixo.
Passou e tornou a passar pela porta do quarto. O vestido estava lindo, perfeito. A mãe comprara a fazenda na conta da loja e mandara para a costureira, mesmo sem saber se a filha iria ao baile.
- Será que ele deixa, mãe?
- Só Deus sabe, minha filha, só Deus sabe.
Tinha pena da filha. Conhecia bem o marido, as mudanças de humor. Quando bebia, mesmo que fosse apenas um copo de cerveja, chegava em casa sorridente, satisfeito, solícito. Se acontecia se exceder, também não incomodava. Sóbrio, era intratável, às vezes grosseiro.
- Pede, mãe, insistia, se você pedir, ele deixa.
- Com quem você vai?
- Ora, se beber, ele mesmo leva.
Passava pela porta do quarto, via o vestido, ia até a janela, olhava para rua. Esperava. Avistou o irmão que vinha correndo, trazia notícias.
- O pai foi para o clube. Passei lá, estava jogando.
- Bebendo?
- E então?
- Graças a Deus.
Entrou no quarto, apanhou a bolsa, olhou o vestido mais uma vez.
- Vou ao cabeleireiro, mãe.
Fez maquilagem, frisou os cabelos, pintou as unhas dos pés e das mãos. E o pai, já terá voltado? Telefonou para casa.
- Ele já voltou, mãe?
- Ainda não.
Começou a temer que bebesse demais, passasse da conta. Na volta encontrou o irmão na calçada.
- O que houve?
- Vá ver.
Entrou correndo. O pai, bêbado, dormia em cima do vestido de bolas vermelhas.
Obs: Texto retirado do livro da autora - Memórias do Vento
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Djanira Silva
SERÁ QUE NOS CONHECEMOS, SERÁ?!
Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br
Será que ao olharmos,
nos vemos?
São tão poucos os momentos
que nos olhamos, nos atemos,
além de todas falhas que escondemos!
Será que ao pousarmos,
de alguma forma, sabemos
o que somos, o bem
e o mal que fazemos?
Será que ao voarmos,
voamos só com o que temos,
somos justos e num sussurro,
agradecemos?
Será?
Obs: Imagem da autora.
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Rivkah Cohen
POETA EM PEDAÇOS
Nicole Bianchini
http://daiemdiantetudoexpressao.blogspot.com/
nicole_bianchini@hotmail.com
Caiu um Objeto na linha de trem
Caíram versos em pedaços
Logo repararam que havia gente tentando se apropriar ou reaver(ainda não sei)
Fizeram alarde,Chamaram a segurança
Foi então dada a ordem : - Suspenda a geringonça!
Caiu um susurro e um segredo
E a tristeza de uma idade só.
Pularam nos trilhos,acenderam lanternas
Qualquer retalho,qualquer lasca de uma estrofe
De versinhos.
O poeta por sua vez estava pálido,
Como quem não teria outra chance.
Estava calado.E próximo o bastante
O poeta estava em pedaços
E na linha do trem,caíam mais e mais partes
E as pessoas,agora em balbúrdia
Guardavam no bolso o que encontravam,
E o poeta em silêncio,
Agora chorava.
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Nicole Bianchini
CANCROS DA DÍVIDA PÚBLICA
Cancros da Dívida Pública
Obras Públicas
por
J. A. Horta da Silva
(horta.silva@sapo.pt)
Entre os males responsáveis pelo aumento exacerbado da dívida pública portuguesa, encontram-se as derrapagens dos custos das empreitadas de obras públicas (OPs). Face à crise financeira que Portugal atravessa, é fácil entender a necessidade de suspender a construção do TGV, do Novo Aeroporto de Lisboa e de outras idiossincrasias, muito embora eu continue a defender a necessidade de uma linha de mercadorias de velocidade alta para colocar o Terminal de Carga do Porto de Sines no centro da Europa. A derrapagem dos custos das OPs é uma doença crónica da gestão portuguesa, a pontos de o Tribunal de Contas ter puxado as orelhas ao governo a propósito da Ponte Europa (Coimbra, mais 73 milhões de euros), da Casa da Música (Porto; mais 77 milhões de euros), do Aeroporto Sá Carneiro (Porto; mais 99 milhões de euros), do Metro até S.ta Apolónia (Lisboa; mais 31 milhões de euros) e do Túnel de Rossio (Lisboa; mais 9,5 milhões de euros) que, no seu conjunto, equivale a um agravamento próximo do dobro. Na derrapagem das contas do Estado relativamente a 2010, existe também um custo adicional nas obras das Portas do Mar (Ponta Delgada) que, segundo dados provisórios, atingirá a cifra de 22 milhões de euros (cerca de 50%).
As derrapagens nas obras públicas portuguesas não são de agora. Na vigência do Estado Novo também derraparam algumas obras importantes, como a barragem de Cambambe (Quanza - Angola) e a barragem do Carrapatelo (Douro), tal como depois do 25 de Abril também houve uma ou outra empreitada que correu bem (ex: Ponte Vasco da Gama). Mas a excepção confirma a regra. Empreendimentos como a Expo 98 e o Centro Cultural de Belém são exemplos funestos, sem justificação técnica aceitável.
Há momentos em que é preciso recolhermo-nos ao sabor da introspecção que fluí ao compasso da vivência, para se poder perguntar «por que razão sucede isto?» Uma empreitada tem de ser bem gerida e tem três grandes intervenientes: o dono da obra representado pela fiscalização, o empreiteiro e o projectista. O projectista tem a obrigação de assessorar o dono da obra, e os empreiteiros sempre procuraram tirar proveito das omissões e erros dos projectos, tentando obter trabalhos a mais sem desconto dos trabalhos a menos e cobrar indemnizações e revisão de preços. Pela parte da fiscalização, também é prática corrente proceder à aquisição extra de bens e serviços não contratualizados. Por outro lado, o Estado é mau pagador e tudo isto gera situações cinzentas, tanto mais difíceis de dirimir quanto menos precisos forem os contratos assinados pelas partes. Face ao estado do conhecimento, é difícil justificar um elevado conjunto de trabalhos a mais, a não ser em obras de grande complexidade e dimensão, que tenham ampla interdependência com as características geológico-geotécnicas dos terrenos, nomeadamente grandes barragens, túneis e infra-estruturas marítimas a consideráveis profundidades, sujeitas a imprevistos que dão lugar a situações delicadas. A prospecção geológico-geotécnica, por mais meticulosa e elaborada que seja, usa sempre um quê de inferência e a Natureza gosta de pregar partidas entre locais consecutivos de sondagens e ensaios “in situ”, mesmo quando os programas de prospecção são assentes em bons estudos geológicos de superfície. Em termos de projectos de arquitectura, de cálculo estrutural, de electricidade e outros, a dimensão do erro só é passível de ser justificada por incompetência ou demasiado arrojo dos projectistas. Deste ponto em diante, a qualidade da execução da obra está nas mãos do empreiteiro e da fiscalização que, não devem ter o mesmo ângulo de visão relativamente aos cadernos de encargos e aos cronogramas de faseamento dos trabalhos. Por isso, é do interesse público que as grandes OPs tenham um corpo de fiscalização escolhido a rigor, pormenor nem sempre acautelado.
E, por tudo isto, é difícil divisar futuro para um país pequeno, como Portugal, pobre em recursos naturais, assimétrico e cavernoso, cuja sociedade aparenta ser minada por labirintos cársicos ao longo dos quais fluí o facilitismo, o desenrasca, a falta de produtividade e uma amálgama de variegados interesses. Ninguém é verdadeiramente um modelo de virtudes, a concentração da abundância é cada vez mais obscura e equívoca, enquanto a miséria é cada vez menos um desencontro. Resta-me admitir que, durante a nossa efémera existência, nem sempre o que está mal acaba mal e o amanhã deve ser vivido sob o desígnio da esperança.
«Não sei se esta doença também afecta o Brasil de hoje!».
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J. A. Horta da Silva
SINAIS DOS TEMPOS
D. Demétrio Valentini *
A primeira advertência de Cristo, ao começar sua pregação, se referia ao tempo. “Completou-se o tempo”, dizia ele. Depois de realizar, por sua conta, diversos sinais, continuava insistindo na necessidade de “interpretar os sinais dos tempos”.
A expressão faz lembrar João 23. Ele a usava com freqüência. Otimista, pressentia que estava próxima uma nova primavera para a Igreja. Os sinais eram favoráveis, os ventos sopravam na mesma direção. O tempo era oportuno.
Ele mesmo foi um sinal de Deus. Com sua presença, com sua simplicidade, com sua bondade, com sua coragem de convocar um concílio com sua idade avançada, imprimia otimismo e transformava em sinais positivos até os problemas que a realidade apresentava.
Passados 50 anos, parece que os tempos mudaram. Já não existe aquele clima convergente, de esperança, de otimismo com o futuro da Igreja, de vontade de viver com autenticidade os valores do Evangelho.
Foi impressionante como João 23, em poucos meses, conseguiu contagiar de entusiasmo a todos, tanto a Igreja como a sociedade do seu tempo.
Começou com a surpresa de sua eleição, na idade de 77 anos, e com a expectativa logo criada de um “papa de transição”. Seu gesto de visitar as crianças doentes no hospital no natal de 1958, seguido da visita aos presos de Roma no mesmo dia, granjeou a simpatia e o entusiasmo de todo o povo. Esta simpatia feita de bondade, criou o ambiente favorável para a pronta adesão à idéia de um concílio ecumênico para renovar a Igreja e reconciliá-la com o mundo atual. De “papa de transição”, passou a “papa da transição”.
Agora, parece haver uma dispersão de apelos, e uma pesada inércia para enfrentar os problemas.
Crescem as resistências dentro da própria Igreja diante do projeto de renovação conciliar. No mundo, alguns problemas tomam forma dramática, como o aumento do número de famintos, mas a situação é vista como se fosse uma fatalidade diante da qual nos sentimos impotentes.
São estes os nossos tempos. Mas João 23 continua nos incentivando a ver o lado positivo da realidade. Ele continua nos pedindo para interpretar com esperança os sinais dos tempos.
A Diocese de Jales, em todo o caso, se sente especialmente ligada a João 23. Foi ele que assinou o decreto de sua criação, logo no início do seu pontificado.
De maneira especial, sentimos o compromisso de sustentar com firmeza a proposta de renovação eclesial que o concílio delineou com sólidos fundamentos e com indicações práticas.
A Diocese está prestes de celebrar o seu “ano jubilar”, para comemorar os 50 anos de sua existência. Ela percebe que agora já não é mais suficiente o entusiasmo fácil dos tempos do concílio. As resistências se cristalizaram, em diversos nichos. Para levar adiante o projeto conciliar é preciso um plano bem pensado e articulado. E´ o que a Diocese espera fazer, incentivada pela memória dos seus inícios, vividos com intensidade sob a inspiração do Papa João 23.
Foi ele que pediu aos bispos do Brasil um “plano de emergência” para a evangelização do povo brasileiro, na primeira sessão do concílio, em 1962. Agora, a maneira de administrar os ventos, que continuam soprando, é implementar um bom plano diocesano de pastoral. Assim será possível fazer da Igreja Local, da Diocese, a referência positiva, e indispensável, para todos os que querem ser Igreja e participar de sua vida e de sua missão.
* (http://www.diocesedejales.org.br/)
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D. Demétrio Valentini
TEOLOGIA E LITERATURA SE ABRAÇAM: A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO NA ARTE LITERÁRIA
PARTE IV – TRAÇOS TEOLÓGICOS EM TEXTOS POÉTICOS:
HINO A CRISTO NA LÍRICA GREGA PRIMITIVA
Ir.Emanuela Mélo de Souza
emasouza@hotmail.com
Luiz Carlos da Vila e Adélia Prado são nossos contemporâneos: nasceram no século XX. Voltamos, agora, no tempo, cerca de dezoito séculos, e encontramos no tesouro da tradição, uma pérola rara, um hino pertencente à era paleocristã, o Ó Luz gozosa.
Todos os povos celebraram suas façanhas nacionais com poesias e cantos. Também o Povo de Deus, desde o princípio, quis recordar a obra salvífica com hinos, como o cântico de Moisés após a libertação do Egito (Ex 15, 1-18). E, no Segundo Testamento, encontramos o Magnificat (Lc 1,46-55), o Benedictus (Lc 1,68-79), o Nunc dimittis (Lc 2, 29-32) e outros dos quais nos fala Paulo (Ef 5,18). Todos cantam a redenção.
Estes cantos cristãos não usam nenhum cânon métrico regular, mas estão escritos numa linguagem solene e de exaltação, conservam o paralelismo de seus membros e são influenciados pela literatura helênica. Eram com frequência cantados, embora continuem na forma de prosa.
No século II, porém, começam a surgir da espontaneidade criadora e da fé entusiasta das assembléias cristãs, formas peculiares de oração como as aclamações, as doxologias e os hinos métricos de caráter cristológico e litúrgico. Tais hinos são mais abundantes no mundo gnóstico que no católico, pois neste houve algumas restrições.
O mais famoso dos hinos é Ó Luz gozosa!(= Φος ιλαρον), que ainda subsiste no Ofício Vespertino da liturgia dos pressantificados da Igreja Grega. Estima-se que este hino seja do século III, mas não se pode precisar com exatidão a sua data. O autor é desconhecido, mas deve ter sido um insigne liturgo. Seu nome o conhece Deus; o mundo o ignora. É bom que o hino seja anônimo. Assim, pertence a todos porque é da Igreja.
O hino Ó Luz gozosa é uma apóstrofe doxológica ao Logos de Deus em perspectiva trinitária; confessa e reconhece a preexistência e a proexistência do Verbo de Deus, Jesus Cristo. A Ele se referem as duas palavras do monograma que se vê sobre as portas de alguns templos gnósticos: Luz e Vida.
Ó Luz gozosa!
1. Luz gozosa da santa glória
do Pai imortal,
celestial, santo: feliz
Jesus Cristo.
2. Vindo o ocaso do sol,
vendo a luz da tarde,
cantamos ao Pai e ao Filho
e ao Santo Espírito de Deus.
3. És digno em todos os tempos
de ser louvado por santas vozes,
Filho de Deus, que nos deste a vida,
pelo qual todo o mundo faz festa.
O hino é litúrgico e foi composto para ser cantado, não por um solista, mas por uma comunidade, e é quase certo que era acompanhado por instrumentos; provavelmente o alaúde, a lira e a harpa.
O autor entra na assembléia e com ela canta, usando a primeira pessoa do plural. O poema consta de três estrofes de quatro versos, escritos em prosa grega, sem métrica. A primeira estrofe abre, e a terceira encerra um círculo que abraça a segunda (A-B-A), forma literária de origem pressocrática. As três entoam o hino litúrgico de louvor vespertino.
A primeira estrofe decanta uma cristologia preexistente, eclesial e gloriosa. As três grandes palavras: Luz, Pai e Jesus Cristo estão postas em relevo por sua colocação destacada: princípio, meio e fim da estrofe. Proclamam bem alto que Jesus Cristo é a Luz do Pai. Sugerem o “Eu sou a Luz” do quarto evangelho como fonte inspiração (Jo 8,12)... Os adjetivos (gozosa, santa, imortal, celestial, santo, feliz) todos tomados do Segundo Testamento, expressam solenidade e exaltação, emoção e alegria. Toda a estrofe é uma vibrante apóstrofe da comunidade a Jesus Cristo, que recebe a oração, o canto, o louvor.
A segunda estrofe sustém uma doxologia trinitária, litúrgica e eclesial. A assembléia confessa sua fé na Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. O poeta cristão dá impressão de que a comunidade sabe que a luz do sol que se põe cede lugar à luz radiante e gozosa do verdadeiro Sol, que é o Filho de Deus, Jesus Cristo. Nesta estrofe se desenham a paz, a serenidade e a quietude das Três Pessoas Divinas, em contraste com a emoção, movimento e júbilo da assembléia, refletidos na estrofe anterior.
A terceira estrofe desenvolve uma cristologia proexistente, passiológica e eucarística. A comunidade cristã alcança o objetivo de sua reunião: cantar ao Filho de Deus seu cântico inspirado, pois Cristo merece que sempre lhe seja feita menção.
O Filho de Deus sendo proexistente, “é para os outros”: dá-nos sua vida, no-la deu na cruz e continua no-la dando na eucaristia.
A hipérbole do último verso é compreensível pelo ambiente de fé exultante que vive a comunidade. O poeta vê o universo em festa, crê na bondade da criação contra a doutrina dos gnósticos e proclama a cristificação do universo.
Em todo o hino, o poeta cristão reflete equilíbrio, moderação e paridade de termos: nomeia a Deus, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Mas, sobretudo ressalta o nome de Jesus ante nossos olhos que o vêem como o Pantocrátor dos ícones.
Todos estes recursos teológicos e literários fazem que este hino seja uma jóia da Lírica Grega dos primeiros séculos do cristianismo.
Eis a adaptação deste texto do século III, feita por Reginaldo Veloso:
Luz radiante
Refrão: Luz radiante, luz de alegria,
//: luz da glória, Cristo Jesus! ://
1. És do Pai imortal e feliz
o clarão que em tudo reluz!
2. Quando o sol vai chegando ao ocaso
avistamos da noite a luz!
3. Nós cantamos o Pai e o Filho
e o Divino que nos conduz!
4. Tu mereces o canto mais puro,
ó Senhor, da vida és a luz!
5. Tua Glória, ó Filho de Deus,
o universo todo seduz!
6. Cante o céu, cante a terra e os mares
a vitória, a glória da cruz!
O Ó Luz gozosa ganhou esta feliz adaptação, que é usada nas celebrações da luz ou lucernário. Obviamente, não é uma tradução literal do antigo hino, mas conserva o sentido do mesmo. No centro do louvor está o Cristo, a luz que não tem ocaso, a luz que nos arranca das trevas da morte. O refrão reforça essa centralidade pascal. A melodia é bastante simples, porém, graciosa e bela. Este hino é apropriado para os ofícios de Vigília do domingo, no Tempo Comum.
Obs: Imagem enviada pela autora.
Abraço – Escultura de Ceschiatti (Museu de Arte da Pampulha-BH
Foto de Claudio Costa com solicitação de autorização concedida.
A PARTE V – Conclusão - será postada no próximo dia 07 de dezembro.
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Ir.Emanuela Mélo de Souza
ENTRE OS MUROS DA VIDA
Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com
O filme francês, indicadíssimo para o Oscar, está aí: Entre os Muros da Escola. Não percam.
Fui lá, encontrar-me comigo, educadora.
Assisti in-tensa-mente, sentindo-me muito cansada e saí triste, triste.
De tão bom que é, o filme consegue mostrar muito bem essa Escola que a gente conhece, onde há muito tempo deixou de haver espaço para a Vida.
Em vários momentos, lembrei-me de mim, nos últimos anos da minha Escola Viva e da tentativa quase inútil de traduzir para os professores “importados” para os adolescentes, uma filosofia de Educação, baseada no afeto, continente da complexidade da Vida, que eu mesma inaugurara e que ia se fortalecendo dia a dia, no convívio de crianças, jovens mestres formados naquela prática e pais corajosos o suficiente para aceitarem o desafio de uma proposta "inovadora" de repensar as certezas.
Até que, com o crescimento inevitável da Escola, tudo que construíramos tão cuidadosamente ficou exposto a um contingente de alunos já marcados pela passagem por escolas outras, comprometidas com aquele sistema que eu antevi falido e contra o qual lutei ardentemente.
Porque uma Escola Viva não pode ter fronteiras, íamos absorvendo, também, as crostas reacionárias de uma sociedade medíocre, da qual surgimos e a qual pertencíamos, portanto, ainda que inconformados.
No filme, um professor, quase que isoladamente, tenta encontrar uma forma autêntica e íntegra (às vezes desajeitada, é verdade) de se relacionar com os alunos, adolescentes de uma escola pública, oriundos de culturas distintas, de etnias diversas e quase todos contaminados pelas doenças degenerativas de nosso tempo: apatia, descaso, desencanto, que geram sintomas de ignorância, vulgaridade, violência e mascaram a causa mais grave de todas: intolerância às diferenças.
Não, não se trata de um roteiro simplista, que siga o modelo americano: alunos rebeldes X professor idealista. Como todo filme europeu, a trama é montada com bastante sutileza, sem comprometer a dramaticidade, bom que se ressalte.
Mas o que não deixa de ser mostrado, embora sem alarde, nem usando nenhuma técnica de desvendar abrupto, é a ambigüidade do sistema educacional escolar, que reproduz as dificuldades da vida familiar, não servindo a seu objetivo maior de permitir que se desenvolva a convivência com as diferenças.
O eterno fingir-não-ver aparece claramente na cena em que o Conselho de Classe ignora o comportamento desrespeitoso das alunas representantes de classe e com isso alimenta o estopim que deflagrará o grande conflito da história. E recrudesce na forma com que os professores lavam as mãos, entregando o aluno ao " seu próprio destino", como eles dizem, como se não fizéssemos todos parte de uma mesma história e fosse possível portanto setorizar destinos.
Qualquer educador sério sabe identificar quando isso acontece (e como acontece!): “melhor não falar, melhor não interferir, até porque a gente nunca sabe ao certo o que fazer”... E o aluno abandonado à própria sorte (ou azar), como qualquer ser humano que tem medo, sentindo-se desamparado e perdido, torna-se agressivo e transgressor.
Winnicott dizia que a transgressão é sempre um pedido de socorro. Entendida assim, é claro, por quem pode ouvir o grito mudo que pede ajuda, sem ficar mais aterrorizado do que a vítima.
O final do filme me decepcionou, mais uma vez, embora eu ache que, dessa vez, tinha que ser assim mesmo... A frustração não é provocada pelo filme. É a realidade que não me permite esperança.
Aí, lembrei-me de meu velho e sábio Professor Maurício Cardoso de Mello Silva, que, sempre extremamente generoso e atencioso com os alunos, foi vítima um dia de uma violenta reação de uma boa estudante, ao lhe cobrar um dever de casa não cumprido. Indignado com a malcriação descabida da mocinha, Maurício, encolerizado por um momento, expulsou-a de classe. Mas foi um fato tão inédito em sua vida de mestre e de tal maneira o surpreendeu e contrariou sua própria atitude, que, no mesmo dia, Maurício foi visitá-la em sua casa, para se retratar e lhe dar, assim, uma saída honrosa, que lhe permitisse voltar às aulas.
Indignada, eu cobrei ao professor essa condescendência que me pareceu excessiva e ele me exemplou, dizendo: “Eu é que sou o Educador, cabe a mim compreendê-la e dar-lhe a oportunidade de, em uma nova oportunidade, agir de outra maneira.”
Anos mais tarde, diretora da Escola Viva, em Petrópolis, quando, ao abrir o curso secundário (ensino médio de hoje) comecei a receber alunos problema de outras escolas da cidade (até porque em 16 anos, nunca recusamos matrícula a ninguém), vi-me sem ação ao ter que aplicar castigos e sanções, procedimentos até então inimagináveis com meus alunos, criados desde pequenos num ambiente de respeito e transparência, que cultivava valores, para formar seres conscientes e felizes.
Um dia, três jovens alunas novatas, que vinham reincidindo em matar aulas, expondo-se a riscos, ao ficaram na rua fumando maconha, praticamente me obrigaram a, indignada com sua desobediência repetitiva, suspendê-las. Tão chocada fiquei, logo em seguida, ao me dar conta da violência e inocuidade de minha atitude, que resolvi me suspender junto com elas.
Durante a semana em que as moças não puderam assistir aulas, encontrei-as reunidas no horário da Escola, diariamente, alternando os locais de encontro por suas casas, exatamente para bucar entender melhor seus cotidianos e suas dificuldades.
Iniciei, ali, sem intenção premeditada, aquilo que se tornou meu trabalho futuro, como terapeuta: a cura pela palavra, através da reciprocidade. Muita conversa rolou e o autoconhecimento ajudou-as com certeza a aceitar um novo padrão de Escola, que tanto desejavam, quanto temiam.
Seguindo, na época, apenas minha intuição e minha disponibilidade interna, acredito ter agido da melhor forma possível. Construimos laços afetivos profundos, baseados na mutualidade, geradora da confiança que se estabeleceu entre nós, o que, sem dúvida, transformou nossas vidas.
Por conta do que aprendi com essa experiência, dediquei-me, a partir de então, ao estudo da Psicanálise e pude aplicar muito do que fui descobrindo, ao campo da Educação, enriquecendo bastante o trabalho da Escola Viva.
Daí, talvez, ter sentido falta, no filme, de que o professor fosse procurar o aluno ausente, para entregar-lhe seu trabalho de autoretrato, mesmo depois deste ter sido afastado da Escola. Seria, possivelmente, um encontro verdadeiro de dois seres humanos, ambos vítimas de um sistema falido e perverso.
Para mim, há muitos anos, a Escola, como instituição, é algo que já não faz mais sentido. Por entre seus muros, cresce a erva daninha da discriminação, que empobrece, destrói ou, no mínimo, paralisa.
No filme, está mostrada a realidade francesa, mas podia perfeitamente ser a brasileira (tão semelhante!), ou a de qualquer outro lugar do mundo. A denúncia sobre a inutilidade do processo escolar, dito educativo, se faz ouvir quando uma aluna declara, constrangida e sofridamente, que não aprendera nada, durante todo o ano. O professor tenta convencê-la de que está equivocada ao fazer aquela afirmação. Ele não pode acreditar, nem suporta pensar, que tudo o que se passara, ali, fora inútil.
A voz daquela moça é a voz de todos nós, que cotinuamos não aprendendo nada, mesmo após tantos genocídios, tantas guerras, ainda que prestes a ver a destruição total do mundo! Continuamos cúmplices dos criminosos, ao permitir que crianças seja supliciadas pelos próprios pais, continuamos a pular por cima dos mendigos e a fechar as cortinas para nos isolarmos da miséria.
Apesar de tudo que sabemos da longa História da Humanidade , não aprendemos nada!
Portanto não dá para nos enganarmos: esta Escola, esta receita de viver, está Morta. Emparedada entre muros de insensibilidade e acomodação, que nos transforma, a todos, em órfãos desassistidos.
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Maria Inez do Espírito Santo
BIOÉTICA: UM DOCUMENTO IMPORTANTE
Leo Pessini *
Cresce a convicção de que a sensibilidade moral e a reflexão ética devem ser parte essencial do processo de desenvolvimento científico e tecnológico. A bioética tem importante papel nas escolhas a serem feitas em relação às novidades que emergem de tais avanços.
Nesse sentido, em 2005 a Unesco aprovou a Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos, na qual emergem alguns princípios, tais como:
• dignidade e direitos humanos;
• autonomia e responsabilidade individual;
• respeito pela vulnerabilidade humana e pela integridade pessoal;
• não discriminação e não estigmatização;
• respeito pela diversidade e pelo pluralismo cultural;
• solidariedade e cooperação;
• proteção do meio ambiente, da biosfera e da biodiversidade, bem como das gerações futuras.
*Camiliano, pós graduado em Clinical Pastoral Education pelo S. Lukes's Medical Center (Milwaukee, EUA). Professor doutor no programa de mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo (SP) e autor de inúmeras obras na área da bioética, dentre as quais Bioética: um grito por dignidade de viver e co-organizador de Buscar sentido e plenitude de vida: bioética, saúde e espiritualidade.
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Leo Pessini
RESÍDUO
Wilson Guanais
wilson_guanais@hotmail.com
todo poema recomeça quando pousa
simultâneos pés
um no claro
outro no escuro
nos dois lados do horizonte
pouco antes de sumir
completo
absorvido por um vazio acolhedor
que o devolve aos excessos da palavra
e do silêncio.
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Wilson Guanais
O ADVENTO DA “AMOROSIDADE”
Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)
Neste domingo passado, as Igrejas de tradição latina iniciaram o ano litúrgico, ciclo no qual se revivem todos os grandes atos da vida de Jesus, desde o seu nascimento, até a morte, ressurreição e partilha do seu Espírito sobre toda a terra. As comunidades revivem estes eventos não apenas para lembrá-los e sim para, neles, se incorporarem. O propósito de cada celebração não é apenas se ligar ao passado, mas nos ajudar a seguirmos o mesmo caminho e nos consagrarmos à mesma causa pela qual Jesus deu a vida. O ciclo anual de celebrações começa com o tempo do Advento, quatro semanas dedicadas a reavivar a esperança da realização do projeto divino no mundo. Esta esperança foi alimentada pelo nascimento de Jesus. O Natal não é apenas aniversário de um nascimento, mas proclamação que a presença e ação divinas se revelam permanentemente em todo ser humano ao qual Jesus se uniu ao nascer neste mundo.
Hoje, a presença divina é testemunhada pelas religiões, mas também por muitas pessoas e grupos que procuram melhorar o mundo e tornar a humanidade mais solidária e amorosa. Há poucos dias, ocorreu na cidade de Astana, capital do Cazaquistão, o 1º Fórum Mundial da Cultura Espiritual. O Cazaquistão é um dos países que se tornou independente com o fim da União Soviética e está na fronteira entre a Europa e a Ásia. Por isso, liga diversas culturas e é ponto de encontro entre várias raças, desde os antigos nômades cazaquis que deram o nome ao país (o termo significa “pessoas livres”) até europeus e chineses que há séculos são seus cidadãos. O 1º Fórum Mundial da Cultura Espiritual contou com a participação de Kiril I, patriarca da Igreja Ortodoxa de Moscou e de toda a Rússia, além de autoridades budistas, xintoístas, muçulmanas (o país é de maioria islâmica) e de muitas pessoas que, embora não pertençam a uma religião específica, vivem uma busca espiritual profunda. Durante a última semana de outubro, este fórum reuniu quase mil pessoas entre delegados/as e observadores, vindos de mais de 60 países, além de quase cem voluntários/as, ligados/as à organização do evento.
Como costuma acontecer, a imprensa internacional não deu nenhuma notícia sobre um evento como este. Certamente, jornais e televisões estavam ocupados demais com algum escândalo ocorrido nas cortes mundanas ou com detalhes sensacionalistas de algum crime passional. Encontros e fóruns para unir a humanidade em uma cultura da paz ainda não vendem jornais. De qualquer modo, é importante sabermos que o fórum propôs que em todos os países as pessoas e grupos empenhados na paz e na transformação do mundo comecem a discutir a elaboração de uma Constituição internacional da Cidadania Planetária, baseada em uma consciência ético-ecológica e em uma cultura da “amorosidade” universal.
Esta proposta parece irreal e distante das preocupações concretas do nosso dia a dia. Entretanto, a fé nos faz caminhar aqui e agora, sem perder o olhar sobre a meta final. É importante prestar atenção a cada passo do caminho para não nos desviar, nem cair em algum precipício. Ao mesmo tempo, pouco adianta caminhar, sem ter claro o destino final e o rumo a seguir até a utopia desejada.
Na espiritualidade cristã esta é uma atenção dialética. Precisamos assumir o momento atual como o hoje de Deus em nossa vida. Ao mesmo tempo, ainda esperamos o reinado divino que virá em sua plenitude a este mundo. Isso significa que a paz, a justiça e a comunhão com o universo são objetivos possíveis e que devemos perseguir. O tempo do Advento celebrado pelas Igrejas tem como objetivo aprimorar em nós esta consciência. Ele nos une a todas as pessoas e grupos que no mundo inteiro, nas diversas religiões ou fora delas, trabalham por este objetivo. No 1º Fórum de Espiritualidade que aconteceu em Brasília, (2006), cada participante assinou o seguinte compromisso: “Consciente de que a edificação de uma sociedade justa depende da transformação individual de cada ser humano, comprometo-me a atuar – com amor, inteligência e solidariedade – empenhando o melhor de minhas capacidades para a construção de uma sociedade livre, igualitária e fraterna, buscando proteger a vida no planeta e construir uma organização social, justa e digna. Reconheço que minha família é a humanidade e que estou irmanado/a a todos os seres viventes”. Este é o verdadeiro e principal conteúdo deste Advento, proposta não só para cristãos, mas para toda a humanidade.
(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
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Marcelo Barros
A ÚNICA COISA QUE PODERIA
Regina Carvalho
reginahcarvalho@hotmail.com
A única coisa que poderia
não posso
assim permaneço
sem poder algum.
Os vínculos foram cortados
o fosso é fundo
a ponte não arreia
os dias estão contados
e não há passagens secretas
(Não que eu saiba)
A água do poço evapora ao sol
os guardas estão mortos na amurada...
Contudo o cochicho das folhas caídas na
varanda abandonada
Envolve de paz minha alma encarcerada.
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Regina Carvalho
TEXTO DE PAULA BARROS
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)
As linhas do caderno estão em branco. Não consigo escrever sequer uma linha que se aproveite. Folhas e folhas em branco.
Os escritores dizem sofrer deste esvaziamento, deste branco de palavras, do sumiço delas. Comigo era para ser diferente, não sou escritora. As palavras saíam de mim sem minha permissão. As palavras me descobriam. As palavras desnudavam a emoção.
Tudo que eu escrevia, figurado, com erros de português, era a emoção desfilando nua, torta, pela linhas certas, que eu muitas vezes não enxergava, por estar cochilando, no escuro, ou com os olhos embaçados, úmidos da seiva da alma.
Eu sinto. Eu sei que sinto. Eu me emociono. Eu me encanto. Mas as palavras já não falam por mim.
Talvez elas estejam receosas de assustar, de amedrontar, de afugentar, de invadir, foi sempre assim, as minhas emoções afastaram a fonte dos meus devaneios. Onde eu podia mergulhar as meninas dos olhos e molhar a alma.
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Paula Barros
ZUMBI DOS PALMARES SABIA LER E ESCREVER.
Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com
Hoje é a celebração do dia da consciência negra no Brasil. Há quem afirme que 46 % da população brasileira tem sangue negro, mas a desigualdade social afeta grande parte do afro descendente.
No Brasil, a porcentagem de analfabetos é maior que nos países vizinhos, Argentina, Chile e Equador.14 milhões de pessoas, dessas, 13,4% são negras e apenas 5,9% são brancas. Este é um dos sinais da grande desigualdade social deste Brasil tão rico e tão injusto.
No Estado do Pará a situação ainda é mais grave: entre os 26 estados da nação, o Pará é o 4º maior exportador de produtos primários, como ferro, bauxita, gado, madeira e outros produtos, porém é o 5º Estado mais pobre em desenvolvimento humano. E a educação é um dos fatores desse baixo índice de desenvolvimento.
A população negra é a mais atingida. Entre os jovens e adultos analfabetos do Pará 15,4% são negros, o que dá 1 milhão de pessoas; os de origem branca são 8,5% = 600 mil analfabetos; enquanto que os descendentes de índios, chamados pardos, somam no Pará 12,9% = 950 mil analfabetos.
Então, o símbolo inspirador da libertação dos escravos, Zumbi dos Palmares sabia ler e escrever, que aprendera com os padres, apesar de ser escravo deles. O tempo passou, cresceu a população afro descendente, os quilombolas, recuperaram alguns direitos, mas a realidade ainda é cruel e injusta.
O analfabetismo faz com que a desigualdade social aumente. Os negros têm os empregos inferiores, inferiores salários, mais negros nos presídios, menos negros nas universidades e os negros que sobem na escala social passam a pensar e agir como brancos. Quando será mesmo o dia da real liberdade e da igualdade social?
* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.
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Edilberto Sena
MEDITAÇÃO
Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com
Agora não flutuo
Nem racionalizo
Não observo
Enraízo
Vejo
Admiro
Não penso
Sinto
Não meço
Respiro!
Obs: Fotos enviadas pela autora: Meditação pela Paz no parque da jaqueira
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Bernadete Bruto
40 ANOS…
CauReb
(caureb@gmail.com)
Queria um amor
que durasse 40 anos...
Um sentimento que
me fizesse feliz.
Uma sensação que
me fizesse querer mais...
Queria um amor
que durasse 40 anos...
Um olhar que não
parasse de brilhar.
Uma saudade que
doesse no peito...
Como eu queria um amor
que durasse 40 anos
Obs: Imagem enviada pela autora
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CauReb
A RAINHA AZUL DE VOLTA
Vladimir Souza Carvalho *
Vivo o terrível dilema de um final de relacionamento. Diariamente, qualquer contato sinaliza para a aproximação inevitável do último, o que me deixa resignadamente calado. A fonte, outrora tão fértil, agora seca. Procuro algo, que antes era tão abundante, e quase nada encontro. É o ponto final a espera de oportunidade certa para se fincar a minha frente. E, ao tempo em que o lastimo, pela separação, que, a esta altura do campeonato, será eterna, penso no rodízio que ocorrerá, vislumbrando uma fila de quatro, a espera do instante devido de estar ao meu lado, pelo menos um, me servindo, silencioso, não permitindo que nada me falte.
Refiro-me ao tinteiro de cor preta, a tinta se esvaziando, de tanto ser usada, já não ocupando espaço, que possa ser medido, a ponto de exigir, nos momentos atuais, a inclinação do tinteiro, para que a caneta capte algo suficiente para o seu uso regular. E, na fila de espera, os tinteiros de cor azul, adquiridos há vinte e cinco anos, no comércio de Maceió, na minha sempre lembrada passagem pelo estado alagoano. Em conseqüência, saio da assinatura na cor preta – que Jefferson Fonseca de Moraes, advogado dos mais ilustres, valoriza, como marca pessoal – e, passo, para a cor azul, a fim de não perder os tinteiros que ainda conservo.
É certo que poderia adquirir outro tinteiro de cor preta. Mas, e os quatro de tinta azul, que fazer? A conveniência do bolso me manda usa-los. Enquanto ainda estou na ativa, tendo onde fazer a caneta descer na linha de uma assinatura, nos relatórios, votos e despachos/decisões monocráticas. Fora daí, abro um espaço para esclarecer, não uso a caneta tinteiro, me sustentando em outras, muitas das quais adquiridas em supermercados. A caneta tinteiro – e é por isso que um tinteiro dura quase três anos – é de uso especial, aliás, especialíssimo, reservada apenas e tão somente para as assinaturas. A caneta é uma princesa, que só em ocasiões especiais aparece em público.
Serapião Antonio de Góes, saudoso e solene escrivão do Registro Civil de Itabaiana, se privilegiava, em cartório, com a exibição de uma garrafa contendo tinta azul, que alimentava sua caneta, na redação dos termos de seu cargo, letra graúda, uniforme, com uma assinatura inconfundível de quem aprendeu a escrever quando ainda se valorizava a letra legível. Uma garrafa! Não um tinteiro, de pouca e escassa tinta, mas uma garrafa, um litro, que deve ter ficado sem serventia depois de sua aposentadoria.
De minha parte, o meu cabedal se resume a quatro tinteiros, todos de cor azul, com uma história especial: comprei logo vinte, em 1985, em Maceió, para não correr o risco de não me deparar com a negativa de sua falta. Ao fato acrescento outro, detalhe que pode traduzir minha velha e estável relação com a caneta tinteiro: exceto os anos iniciais de magistratura, dos tempos de juiz de direito de Nossa Senhora da Glória, passei a utilizar, desde anos que não localizo, acreditando que, ainda, no trajo de juiz de Campo do Brito,a caneta tinteiro, inicialmente, e, de lá para cá, muitos tinteiros me serviram e muitas canetas passaram pelas minhas mãos, sem que nenhuma delas tenha batido, em precisão e em encanto, uma velha Parker 51, igual, mesmo na cor, da utilizada por Getúlio Vargas na assinatura da carta-testamento.
Com ela fiz questão de assinar o termo de posse no Tribunal Regional Federal [da 5a. Região], numa homenagem a velha companheira de magistratura, a se tornar mais importante que a decisão que subscreve, porque só ela, no seu traçado ímpar, confere a autenticidade devida a um punhado de textos a simbolizar um comando. É como a noiva, a chegar por último, mas não com atraso, para chancelar a autoridade do magistrado, com a fixação de sua assinatura.
A caneta aludida, presente imemorial de tio Eladio, cujo nome – Eladio Carvalho – ilustra seu dorso, transformou-se, ao longo dos anos, na companhia mais fiel de toda a minha carreira de magistrado federal, desde os idos em que me encontrava em Maceió, em longos vinte e cinco anos de uso quase diário, a pena macia a deslizar, suavemente, pelo papel, na confecção de uma assinatura única.
Agora a cor preta chega ao final. A azul pede preferência, pacientemente, como uma antiga namorada que fecha os olhos para a fase em que foi preterida por outra, e, agora, sabe que voltará a ocupar o pódio do dia a dia, fornecendo a tinta para a assinatura devida. Ou seja, a rainha de ontem retornando ao trono.
* vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe
Vivo o terrível dilema de um final de relacionamento. Diariamente, qualquer contato sinaliza para a aproximação inevitável do último, o que me deixa resignadamente calado. A fonte, outrora tão fértil, agora seca. Procuro algo, que antes era tão abundante, e quase nada encontro. É o ponto final a espera de oportunidade certa para se fincar a minha frente. E, ao tempo em que o lastimo, pela separação, que, a esta altura do campeonato, será eterna, penso no rodízio que ocorrerá, vislumbrando uma fila de quatro, a espera do instante devido de estar ao meu lado, pelo menos um, me servindo, silencioso, não permitindo que nada me falte.
Refiro-me ao tinteiro de cor preta, a tinta se esvaziando, de tanto ser usada, já não ocupando espaço, que possa ser medido, a ponto de exigir, nos momentos atuais, a inclinação do tinteiro, para que a caneta capte algo suficiente para o seu uso regular. E, na fila de espera, os tinteiros de cor azul, adquiridos há vinte e cinco anos, no comércio de Maceió, na minha sempre lembrada passagem pelo estado alagoano. Em conseqüência, saio da assinatura na cor preta – que Jefferson Fonseca de Moraes, advogado dos mais ilustres, valoriza, como marca pessoal – e, passo, para a cor azul, a fim de não perder os tinteiros que ainda conservo.
É certo que poderia adquirir outro tinteiro de cor preta. Mas, e os quatro de tinta azul, que fazer? A conveniência do bolso me manda usa-los. Enquanto ainda estou na ativa, tendo onde fazer a caneta descer na linha de uma assinatura, nos relatórios, votos e despachos/decisões monocráticas. Fora daí, abro um espaço para esclarecer, não uso a caneta tinteiro, me sustentando em outras, muitas das quais adquiridas em supermercados. A caneta tinteiro – e é por isso que um tinteiro dura quase três anos – é de uso especial, aliás, especialíssimo, reservada apenas e tão somente para as assinaturas. A caneta é uma princesa, que só em ocasiões especiais aparece em público.
Serapião Antonio de Góes, saudoso e solene escrivão do Registro Civil de Itabaiana, se privilegiava, em cartório, com a exibição de uma garrafa contendo tinta azul, que alimentava sua caneta, na redação dos termos de seu cargo, letra graúda, uniforme, com uma assinatura inconfundível de quem aprendeu a escrever quando ainda se valorizava a letra legível. Uma garrafa! Não um tinteiro, de pouca e escassa tinta, mas uma garrafa, um litro, que deve ter ficado sem serventia depois de sua aposentadoria.
De minha parte, o meu cabedal se resume a quatro tinteiros, todos de cor azul, com uma história especial: comprei logo vinte, em 1985, em Maceió, para não correr o risco de não me deparar com a negativa de sua falta. Ao fato acrescento outro, detalhe que pode traduzir minha velha e estável relação com a caneta tinteiro: exceto os anos iniciais de magistratura, dos tempos de juiz de direito de Nossa Senhora da Glória, passei a utilizar, desde anos que não localizo, acreditando que, ainda, no trajo de juiz de Campo do Brito,a caneta tinteiro, inicialmente, e, de lá para cá, muitos tinteiros me serviram e muitas canetas passaram pelas minhas mãos, sem que nenhuma delas tenha batido, em precisão e em encanto, uma velha Parker 51, igual, mesmo na cor, da utilizada por Getúlio Vargas na assinatura da carta-testamento.
Com ela fiz questão de assinar o termo de posse no Tribunal Regional Federal [da 5a. Região], numa homenagem a velha companheira de magistratura, a se tornar mais importante que a decisão que subscreve, porque só ela, no seu traçado ímpar, confere a autenticidade devida a um punhado de textos a simbolizar um comando. É como a noiva, a chegar por último, mas não com atraso, para chancelar a autoridade do magistrado, com a fixação de sua assinatura.
A caneta aludida, presente imemorial de tio Eladio, cujo nome – Eladio Carvalho – ilustra seu dorso, transformou-se, ao longo dos anos, na companhia mais fiel de toda a minha carreira de magistrado federal, desde os idos em que me encontrava em Maceió, em longos vinte e cinco anos de uso quase diário, a pena macia a deslizar, suavemente, pelo papel, na confecção de uma assinatura única.
Agora a cor preta chega ao final. A azul pede preferência, pacientemente, como uma antiga namorada que fecha os olhos para a fase em que foi preterida por outra, e, agora, sabe que voltará a ocupar o pódio do dia a dia, fornecendo a tinta para a assinatura devida. Ou seja, a rainha de ontem retornando ao trono.
* vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe
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Vladimir Souza Carvalho
A FLOR DO POETA
Vilmar Locatelli
( vlocatelli@hotmail.com)
Suspiros molhados com lágrimas doces de
Esperança lindas,
Fecundam férteis nos corações sensíveis
Saudades infindas.
Desejo de um novo, de novo tempo de
Calor com flores,
Nos campos tristes, apanhadas ao sereno
De um novo dia.
Queria sentir em perfume suave
Amores, odores
Sentimentos puros, meu ar dos campos
Verdes paixões.
Brincando inocente por entre pétalas
Coloridas, vidas,
Encontrei a rosa mais meiga
Escondida, brilha.
Te toquei com carinho temendo os
Espinhos, pureza,
Me envolvi em teus encantos nos
Cantos, serenos.
Recostada ao peito em tudo ilusão
Amor-perfeito,
Te guardo em segredo meu erro meu
Medo, canção
São pássaros errantes passos meus
Teus de amor.
Voei pelos desertos, nos campos, relvas
Sem as flores.
Triste caminho caminhar nos trilhos,
Ardendo em chamas
Um peito poeta fecundo em saudades
Sensíveis e lindas.
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Vilmar Locatelli
PENSANDO ALTO
Therezinha Paiva
05-11-2010
Um dia após o outro, eis a minha caminhada.
Jamais vivi do passado ou do futuro. Vivo o presente, o dia de hoje, embora pense no amanhã.
Envelhecer é natural, não posso evitar; no entanto como é difícil.
Perder gradativamente a memória é triste, muito triste. A idade do "com dor" é desanimadora.
Daí, ter que reagir a tudo isso e criar novos rumos, novo caminhar que me traga alegria e me faça sentir que vale a pena viver e viver, enquanto possível for.
Cultivar novas amizades, buscar os amigos que a vida afastou, estar ao lado dos que comigo convivem e conviveram ao longo de minha vida, que se faz longa, descobrir novos interesses, engatinhar na filosofia, na teologia, na música, na arte, em idiomas um tanto esquecidos, em ...
Gosto de discutir idéias, de ler e ler assuntos diferentes, autores ainda não lidos, música romântica, clássica, orquestrada, escrever e quantas e quantas coisas mais posso descobrir e quantas outras, relembrar.
Hoje decidi parar de chorar e de lamentar o fim de minha vida profissional, da sala de aula que tanto amo.
Vou conseguir? Não sei.
Estou aberta a vocês; busco conhecer o que não tive tempo nem oportunidade de conhecer por muito viver o magistério por 53 anos.
Hoje, uma amiga distante, linda em seu modo de pensar e sentir, sacudiu-me com suas palavras e me levou a repensar o meu viver.
Bom, não?
Estaremos juntas, com certeza.
Quanto a descobrir, a realizar, a somar!
… obrigada!!!!!
Um abraço e o meu carinho,
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Therezinha Paiva
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