Vladimir Souza Carvalho *
Leio, em Eça de Queiroz: “Eu, por causa da maciça e indebastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual”, (do conto Civilização). Também em Machado de Assis: “Vinha cheirando ainda aos cueiros da academia, meio estudante e meio doutor, aliando em si, como em idade de transição, o estouvamento de um com a dignidade do outro” (A mão e a luva).
Pois bem. Quando me formei, já em época diferente da dos tempos de Eça e de Machado, também sai ignorante dos cueiros da Faculdade de Direito de Sergipe, situação que continuou e continua, independentemente da faculdade ser sergipana ou de centro maior do país, ou de estarmos a viver tempos modernos. Ninguém sai doutor. A bagagem portada é indicativa de caminhos que devem ser tomados quando o problema, na via prática, se forma. Com o diploma na mão e no exercício de uma profissão, dentro do círculo de atuação escolhido, se vai praticando e aprendendo, aprendendo e praticando, pelo resto da vida. Hoje, na véspera de trinta e sete anos de formado, estou ainda a aprender, com os mais velhos e com os mais novos, diariamente, em cada processo de que sou relator e em cada feito do qual participo, na turma e no pleno.
A Ordem dos Advogados do Brasil, contudo, encara o formado como douto. Não é nem como doutor. É como especialista, não em uma matéria, mas em todas, invariavelmente em todas, ao exigir a aprovação em prova objetiva elaborada para passar a paulada na grande maioria dos bacharéis. E o pior é que as pessoas, que comandam tal tarefa – quase dizia fuzilamento – não se submeteram a tal prova, e, com todo o respeito devido, se tivessem feito, ou se fossem fazer (não é desafio, é realidade), não seriam aprovadas. E ao assim afirmar, não estou ofendendo o cabedal de conhecimento de nenhum membro da diretoria da OAB, seja regional ou nacional, porque eu, apesar de ser membro de um tribunal, com trinta e dois anos de exercício na magistratura, também seria reprovado.
Tem mais: a prova não é nem elaborada pela OAB, mas por ente, geralmente uma fundação, por ela contratada. Ou seja, o exame da OAB é feito por terceiros, porque a OAB não redige a prova (e por que não é a OAB?). Se a prova se integra naquilo que a lei da OAB chama de exame da Ordem, é um terceiro, constituído de pessoas sem a experiência das lides forenses, que vai formular as perguntas, colorindo cada uma de casca de banana, para o candidato escorregar, explorando matérias sem nenhuma conexão prática, e, ainda mais satânico, exigindo do recém formado um cabedal de conhecimentos que só mais tarde, dedicando-se a uma advocacia generalizada e abrangente, poderia obter. Poderia. Ademais, a objetividade da prova, por se cuidar de teóricos, especialistas em formulação de quesitos apenas, sem a experiência prática da lide forense, se perde na falta de objetividade. Em miúdos, a prova, que deveria ser objetiva, objetiva não é.
Se o teste é da OAB, se o teste visa, pelo menos, no plano teórico, a obter os conhecimentos do formado que deseja se inscrever nos seus quadros e poder atuar na profissão, como advogado, deveria a OAB, levando em conta as nuances da profissão, a redigir a prova, a reclamar conhecimentos fundamentais e não extraordinários. Das últimas que vi, por força de feitos que passaram em minhas mãos, fiquei perplexo com o nível de perguntas. Pontes de Miranda e Nelson Hungria acertariam as questões constitucionais e penais, respectivamente. Mas, perderiam nas demais, porque os quesitos são formulados para não serem respondidas, e, ademais, não se conhece, na história forense, o profissional, por melhor que seja, dominar todas as matérias, absolutamente todas, simultaneamente.
O teste da OAB mostra a existência de duas realidades, que se chocam. A primeira, que os dirigentes da OAB viveram quando se formaram e foram a luta, na qual o recém formado sai ignorante dos cueiros da academia, e, vai aprendendo aos poucos. Quem escapar dessa linha é sábio, é gênio, e aí foge à rotina. A segunda, é a irreal, ou virtual, onde se pensa que o recém formando deve saber, a fundo, de tudo e de todas as matérias. Não sei como qualificar essa visão.
Dou um exemplo, vivido por mim. Apesar de ter sido juiz de direito por seis anos e juiz federal por vinte e três, atuando em duas comarcas e substituindo outras, e, depois, em três estados, estando, no momento, em um tribunal com jurisdição em seis estados, relatando processos criminais e participando de julgamento destes na turma e no pleno, eu nunca vi, na minha mesa, um processo criminal focalizando um delito de concussão. Nunca. Sou capaz de apostar que me aposento e não vou lidar com a concussão. No entanto, num destes testes, estava lá uma pergunta atinente às características do crime de concussão.
Se há algo de podre no reino da Dinamarca, há algo de estranho, de profundamente estranho, nas provas da OAB, algo que precisa ser revisto, porque, da mesma forma que os marinheiros se forjam no mar, como diria Machado de Assis, o advogado se forja é no foro, na atuação nos feitos, e não na resposta a perguntas de bolso, formuladas por quem nunca pisou no foro, nem nunca viu um processo ou participou de uma audiência.
* vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
AÇÃO E REAÇÃO
Ronaldo Coelho Teixeira
http://ronaldo.teixeira.zip.net/
ronteixeira@bol.com.br
Ação e reação. Eis aqui o ponto crucial de todo o desenvolvimento humano e o caminho pelo qual poderíamos trabalhar pela nossa paz e também a dos outros. Sim, porque a vida divide as pessoas entre as de ação e as de reação.
E, em geral, mais reagimos do que agimos. Um pouco pelo instinto animal que trazemos e muito devido à forma como somos educados, na qual crescemos mais olhando o mundo à nossa volta do que participando dele de fato, como deveria ser.
Quantas e quantas vezes já não reagimos diante da vida? É só puxar pela memória que você perceberá as milhares de ocasiões nas quais poderia ter agido e não o fez, preferindo – como a maioria – apenas reagir.
Pode ter sido naquela ocasião na qual inicialmente você tratou um balconista com toda a educação necessária e, em resposta, ele lhe tratou mal ou, no mínimo, de forma indiferente. E você não se conteve e também revidou na mesma medida.
Nessa e em tantas outras oportunidades você perdeu a chance de provar para si mesmo que não se curva diante de qualquer vento, que não está à mercê de qualquer mau humor ou mesquinharia, impaciência e raiva dos outros.
Sim, porque nesta vida devemos agir como queremos e não apenas reagir como os outros querem que reajamos. Ser senhores de nós mesmos e não bibelôs da ira,da maledicência e da maldade dos outros. Talvez esteja aqui a receita para se atingir a leveza do viver.
Por isso, se ao ser tratado com rudeza e grosseria sem motivo algum por alguém, você devolve na mesma moeda, é hora de saber a qual grupo você pertence. Pois, se a sua atitude foi a mesma de quem lhe destratou, saiba que você não agiu mas, apenas reagiu, ou seja, deixou que o outro ditasse a sua forma de agir.
Então, não está na hora de você ter o controle das suas ações? Ou você vai continuar apenas reagindo diante da vida?
Obs: Imagem enviado pelo autor.
Texto retirado do livro do autor - Surtos & Sustos
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Ronaldo Coelho Teixeira
SAI UMA REFORMA NA PRESSÃO
Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com
A gente aqui na pátria amada acaba encarando tudo que se repete com uma naturalidade assustadora. Crimes de qualquer tipo, a corrupção e a violência são coisas corriqueiras, meu deus do céu.
Miséria, falta de escolas, vida de biscateiro, mulher que apanha e fica calada, crianças que passam o dia entregues a si mesmas porque o pai não está nem aí e a mãe diarista tem que ganhar o dia ou então vão passar fome. É difícil entender como pessoas que crescem e se tornam adultas vendo o mundo desse jeito conseguem se tornar gente de bem, e no entanto a maioria trabalha, luta, corre atrás. No caminho delas, por pior que tenha sido, deve ter havido alguém capaz de carinho.
No item crianças, as coisas têm corrido muito mal também em famílias nem tão necessitadas. Não é dinheiro que falta. Faltam paciência e sensibilidade para educar, o que a escola sozinha, por melhor que seja, não consegue dar na medida certa. Quantas vezes faltam carinho, amor à cria. Criança atrapalha, precisa de tempo de convivência para experimentar coisas e se sentir protegida e segura, e nem sempre uma babá limpinha e bem paga resolve isso se não for supervisionada muito de perto.
A educação continua na base do processo. É demorado, vai levar vinte anos pra dar resultado. Mas sem ela podemos desistir de melhorar. Nem daqui a cinquenta ou cem anos.
Então esse primeiro passo tem que ser dado, mas não só. A parcela da sociedade que percebe o processo está aterrada e perplexa. Mas existem os que, mesmo informados e esclarecidos, optam por tirar vantagem da geléia geral e agravam a situação, porque não lhes interessa que a justiça funcione melhor ou que o combate ao crime seja eficaz; são os que vão perder vantagens inconfessáveis. Não interessa a essa gente implementar um bom sistema de educação para o povo, porque é mais vantajoso deixá-lo no lugar do cego em tiroteio, sem saber pensar, vendendo voto. Para eles a cadeia devia ser mais rigorosa, a pena mais longa. Surpreendentemente, não esquentam as poltronas em suas prisões especiais e comovem os juízes de um modo enternecedor.
Os direitos humanos têm sido apontados como um texto risível, complacente com os criminosos e um empecilho para que se faça justiça. Talvez valha a pena rever esse texto com mais cuidado, refletir um pouco mais sobre o que está tão errado, se é o que a declaração diz ou o modo como tem sido interpretada e aplicada no Brasil. O texto é uma garantia para que não se saia por aí linchando e dilapidando suspeitos e acusados de práticas criminosas. Seria também uma garantia para o cidadão acima de qualquer suspeita, caso fosse cumprida de modo adequado e honesto. Infelizmente a declaração não só não é respeitada, nem mesmo pela polícia, como tem sido usada por advogados inescrupulosos para livrar a cara de réus endinheirados com ou sem colarnho.
A cadeia e as casas para menores delinquentes são ótimas escolas de crime. Também vai ser demorado construir presídios decentes com espaços onde os presos possam exercer uma atividade útil. Alguém ouviu falar que construções desse tipo estejam em andamento? E enquanto elas não se concretizam, por que não usar a criatividade e ampliar o que já existe, ativar prédios públicos abandonados, inventar meios de atender a essa massa de gente sem misturar ladrões de manteiga com assassinos hediondos? Custa dinheiro? E os impostos, pra que é mesmo que têm servido?
Não dá pra esquecer que as coisas estão todas ligadas, que as maiores, como o crime, e a grossura, a mão grande e a ignorância são elos de uma corrente que nem sempre leva o meliante à cadeia, mas sempre leva à morte de muita gente.
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A gente aqui na pátria amada acaba encarando tudo que se repete com uma naturalidade assustadora. Crimes de qualquer tipo, a corrupção e a violência são coisas corriqueiras, meu deus do céu.
Miséria, falta de escolas, vida de biscateiro, mulher que apanha e fica calada, crianças que passam o dia entregues a si mesmas porque o pai não está nem aí e a mãe diarista tem que ganhar o dia ou então vão passar fome. É difícil entender como pessoas que crescem e se tornam adultas vendo o mundo desse jeito conseguem se tornar gente de bem, e no entanto a maioria trabalha, luta, corre atrás. No caminho delas, por pior que tenha sido, deve ter havido alguém capaz de carinho.
No item crianças, as coisas têm corrido muito mal também em famílias nem tão necessitadas. Não é dinheiro que falta. Faltam paciência e sensibilidade para educar, o que a escola sozinha, por melhor que seja, não consegue dar na medida certa. Quantas vezes faltam carinho, amor à cria. Criança atrapalha, precisa de tempo de convivência para experimentar coisas e se sentir protegida e segura, e nem sempre uma babá limpinha e bem paga resolve isso se não for supervisionada muito de perto.
A educação continua na base do processo. É demorado, vai levar vinte anos pra dar resultado. Mas sem ela podemos desistir de melhorar. Nem daqui a cinquenta ou cem anos.
Então esse primeiro passo tem que ser dado, mas não só. A parcela da sociedade que percebe o processo está aterrada e perplexa. Mas existem os que, mesmo informados e esclarecidos, optam por tirar vantagem da geléia geral e agravam a situação, porque não lhes interessa que a justiça funcione melhor ou que o combate ao crime seja eficaz; são os que vão perder vantagens inconfessáveis. Não interessa a essa gente implementar um bom sistema de educação para o povo, porque é mais vantajoso deixá-lo no lugar do cego em tiroteio, sem saber pensar, vendendo voto. Para eles a cadeia devia ser mais rigorosa, a pena mais longa. Surpreendentemente, não esquentam as poltronas em suas prisões especiais e comovem os juízes de um modo enternecedor.
Os direitos humanos têm sido apontados como um texto risível, complacente com os criminosos e um empecilho para que se faça justiça. Talvez valha a pena rever esse texto com mais cuidado, refletir um pouco mais sobre o que está tão errado, se é o que a declaração diz ou o modo como tem sido interpretada e aplicada no Brasil. O texto é uma garantia para que não se saia por aí linchando e dilapidando suspeitos e acusados de práticas criminosas. Seria também uma garantia para o cidadão acima de qualquer suspeita, caso fosse cumprida de modo adequado e honesto. Infelizmente a declaração não só não é respeitada, nem mesmo pela polícia, como tem sido usada por advogados inescrupulosos para livrar a cara de réus endinheirados com ou sem colarnho.
A cadeia e as casas para menores delinquentes são ótimas escolas de crime. Também vai ser demorado construir presídios decentes com espaços onde os presos possam exercer uma atividade útil. Alguém ouviu falar que construções desse tipo estejam em andamento? E enquanto elas não se concretizam, por que não usar a criatividade e ampliar o que já existe, ativar prédios públicos abandonados, inventar meios de atender a essa massa de gente sem misturar ladrões de manteiga com assassinos hediondos? Custa dinheiro? E os impostos, pra que é mesmo que têm servido?
Não dá pra esquecer que as coisas estão todas ligadas, que as maiores, como o crime, e a grossura, a mão grande e a ignorância são elos de uma corrente que nem sempre leva o meliante à cadeia, mas sempre leva à morte de muita gente.
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Dade Amorim
PÁTRIA E PLEBISCITO
D. Demétrio Valentini *
Está marcado para a Semana da Pátria um plebiscito, sobre o limite da propriedade rural no Brasil.
A própria iniciativa levanta uma porção de perguntas. Isto é bom sinal. Pois a intenção é suscitar um questionamento, em torno de um assunto de indiscutível importância, como é a questão da terra no Brasil. O ponto de partida para um país elaborar sua identidade é a sua terra. Sem terra não há país. Disciplinar o uso da terra é uma tarefa patriótica de primeira grandeza! A questão da terra tem tudo a ver com a soberania nacional, e com destinação primordial da terra, que é a de produzir alimentos para a humanidade.
O plebiscito é proposto para a Semana da Pátria. Bem intencional, mesmo! Para dizer que a questão da terra é de interesse nacional. Nisto o plebiscito, como outros já acontecidos sobre a Dívida Externa e a Alca, segue a intuição do Grito dos Excluídos, colocado em 1996 pela CNBB em seu plano de pastoral, para ser realizado em cada ano na Semana da Pátria. Dá para dizer que o plebiscito deste ano serve de gesto concreto do Grito dos Excluídos, cuja realização ainda continua acontecendo pelo Brasil afora.
Outra questão, que volta com freqüência, se refere ao envolvimento da CNBB neste plebiscito. São diversas perguntas, pedindo respostas adequadas.
- Foi a CNBB que decidiu fazer este plebiscito?
- Não, não foi a CNBB quem decidiu! Esta questão não foi colocada em votação na sua recente assembléia, diferente, por exemplo, da decisão tomada em 1996 sobre o Grito dos Excluídos. Mas uma decisão como esta, de caráter típico de exercício da cidadania, para ser válida não necessariamente precisa ser de iniciativa da CNBB.
- Então este plebiscito não tem nada a ver com a Igreja?
- Tem, sim! Pois diversas vezes e de diversas maneiras a CNBB já manifestou sua preocupação com a questão da terra, inclusive dedicando a este assunto diversas sessões de estudo em sua última assembléia. Além disto, a realização do plebiscito sobre o limite da propriedade rural consta como uma das recomendações da última Campanha da Fraternidade. Sabemos muito bem como as campanhas da fraternidade são ótima oportunidade para a Igreja participar da sociedade, propondo assuntos que merecem a atenção de todos. Como este, por exemplo, da questão da propriedade da terra, com seus múltiplos desdobramentos.
- Quem está promovendo, então, este plebiscito?
- Foi inicialmente lançado pelo Fórum Nacional da Reforma Agrária, que agrupa mais de quarenta entidades, entre as quais estão alguns organismos e pastorais da Igreja, como por exemplo a Cáritas Brasileira e a Pastoral da Terra.
- Então, é para participar deste plebiscito, ou não?
- Quando se trata de livre exercício da cidadania, dá até para perguntar a pessoas de nossa confiança o que devemos fazer. Mas cabe a cada cidadão decidir o que faz ou deixa de fazer. O plebiscito é livre, participa quem quiser, e cada um vota como quiser.
- Quais as grandes questões levantadas por este plebiscito?
- São maiores do que as perguntas que o plebiscito faz. Quase todos os países do mundo estabelecem limite para a propriedade rural . Nos Estados Unidos, por exemplo, era de 76 hectares e passou para 36. Na Índia é de 03 hectares. A proposta levantada por este plebiscito seria de estabelecer como limite 35 “módulos fiscais”, que variam de Estado para Estado, desde 05 a 110 hectares. Uma indicação clara de que a legislação sobre o limite de propriedade precisa levar em conta a grande diversidade regional, existente no Brasil em questão de tipo de terras e de seu uso racional
As perguntas do plebiscito só levantam timidamente a questão. Ninguém precisa se assustar, achando que este plebiscito vai colocar em risco a situação fundiária no país!
* http://www.diocesedejales.org.br/
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D. Demétrio Valentini
SEM VOLTA
Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/
Salva-me, nestes momentos obscuros, uma pequena luz que ainda teima em permanecer acesa – a sombra da lamparina que iluminou a minha infância e desenhou minha inocência no branco das paredes.
Folheio minha alma e as páginas queimadas pelo tempo ameaçam se desfazer com a dor de mais uma lágrima, chorada por lembranças, que nunca terminam de morrer.
Nunca te disse nada. Guardei por tanto tempo um amor que deveria ter dito, um grande amor feito de pequenas coisas, de sentimentos leves e simples que eu poderia ter transformado em verdade.
Ventos parados, águas turvas, caminhos destorcidos. Só a luz da lamparina permanece acesa, maculada, mergulhada numa penumbra onde a infância me parece irreal.
Nunca te disse nada e nada é tanta coisa...
Quem apagará esta escrita desconhecida que nunca consegui decifrar? Chorar não é resposta, é pergunta. Uma pergunta que me faço quando os silêncios se digladiam desesperados no castigo das esperas.
Sei que não há volta. Infelizmente sei.
Quem acreditará na dor deste silêncio?
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Djanira Silva
GRITO DOS EXCLUÍDOS E PLEBISCITO POPULAR
Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)
Na próxima semana, além das paradas militares e comemorações oficiais pelo aniversário de nossa independência política, em todo o Brasil, acontecerá mais uma vez o grito dos excluídos. Nos anos recentes, a sociedade brasileira conquistou algumas melhorias, como a redução da miséria e uma maior consciência de nossa identidade nacional. Entretanto, direitos sociais dos trabalhadores têm sido diminuídos ou ignorados por decretos governamentais e por uma cultura do povo que ainda se comporta passivamente. Por isso, é oportuno que, no 07 de setembro, o 16º grito dos excluídos expresse uma questão urgente: “Onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir um projeto popular”.
Por diversas razões, há pessoas que consideram estes eventos irrelevantes e até ridículos. Entretanto, há vários anos, a cada 12 de outubro, em 28 países do continente latino-americano, grupos indígenas, lavradores e pessoas de periferia urbana saem às ruas das cidades em passeatas coloridas, shows artísticos, encenações simbólicas e eventos de massa, reunidos no grande “Grito Continental dos Excluídos”. Por eventos como este, a consciência social se desenvolveu e a sociedade civil conquistou alguns direitos. Hoje, em países como a Bolívia e o Equador, as novas Constituições nacionais garantem alguns direitos novos para todos os cidadãos. Um exemplo disso é o dispositivo de lei que garante: se o povo pode eleger um representante para o governo ou para as câmaras legislativas, pode também, a qualquer momento, destituí-lo, se este representante não se mostrar digno do seu mandato.
No Brasil, neste 07 de setembro de 2010, se realizará o 16º Grito Nacional dos Excluídos. Ele também mostra o fortalecimento de uma sociedade civil que faz questão de participar de decisões, antes reservadas ao poder do Estado. Neste ano, o grito dos excluídos encerrará uma campanha nacional de assinaturas, para que se realize um plebiscito popular pelo limite da propriedade da terra no Brasil. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, em 2006, o Brasil tem 5, 2 milhões de estabelecimentos rurais. Destes, 84% são de agricultura familiar. São 4, 4 milhões de pequenas propriedades que, juntas, ocupam apenas 24% da área agrícola brasileira, ou seja, um total de 80 milhões de hectares e abrigam 74% dos trabalhadores no campo. As estatísticas mostram que são estas propriedades pequenas e familiares que mais colaboram na produção de alimentos e na economia do nosso povo. Enquanto isso, 86º das terras agrícolas ainda são no Brasil ocupadas por apenas 16% de grandes propriedades rurais. É uma concentração tão grande de terras nas mãos de poucos proprietários que soma 250 milhões de hectares, área equivalente às regiões Sudeste e Nordeste do Brasil, juntas. Daí a necessidade legal de estabelecer um limite ao tamanho das grandes propriedades. Como se sabe, um módulo fiscal é o tamanho de uma propriedade agrícola, considerado pelo governo o mínimo necessário para garantir a subsistência de uma família de lavradores. Como isso depende da qualidade e da fertilidade da terra, o tamanho dos módulos em hectares varia de região a região. Oficialmente uma propriedade é considerada familiar se tem até cinco módulos. Classifica-se de tamanho médio a propriedade com até 15 módulos. Além disso, se trata de uma grande propriedade. No Brasil, o tamanho médio das grandes propriedades é de 300 hectares, enquanto a das pequenas é de apenas sete hectares” (Cf. Le Monde Diplomatique Brasil, idem, p. 21).
A nossa Constituição determina que a assinatura de, ao menos um milhão de brasileiros possa obrigar o governo a fazer uma consulta popular (plebiscito) sobre o assunto. Este ano, os movimentos sociais ligados ao Grito dos Excluídos coordenam a campanha de assinaturas para pedir um plebiscito popular que determine o limite máximo de terras que um proprietário pode possuir. Será um inciso no artigo 186 da Constituição. A proposta é que o limite seja de 25 módulos fiscais, medida já enorme. De acordo com esta proposta de lei, o que passará disso será incorporado ao patrimônio público.
Para quem, na luta da vida, vive a busca espiritual da intimidade com o Divino, este cuidado com a justiça é fundamental. Dom Pedro Casaldáliga afirma: “Quem diz Deus está ao mesmo tempo dizendo: justiça e amor. Toda pessoa que, mesmo sem falar em Deus, se compromete com a justiça e o direito, está na relação com o Espírito”.
(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
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Marcelo Barros
VIAGENS
Angela Reis
Sentir mil vidas
surpreendentes e contraditórias
pulsando dentro de si,
facetas milésimas da alma esfacelada
que, ao abraçá-las, explodiu!
Querer, desejar, perder-se no desejo;
esquecer, lembrar, voltar e partir.
caminhos sinuosos, alegres ou tenebrosos,
idas e vindas, viagens do ator...
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Angela Reis
CARTA AOS BISPOS DA IEAB SOBRE AS ENCHENTES EM PERNAMBUCO
Dom Sebastião Armando Gameleira Soares *
sgameleira@gmail.com
Queridos irmãos em Cristo,
Graça e Paz!
Diante das chuvas e das enchentes que alcançaram, principalmente, vasta região empobrecida dos estados de Pernambuco e Alagoas, o poder público e a sociedade civil se têm mobilizado para responder às demandas que surgem com milhares de pessoas gravemente prejudicadas. Em Pernambuco entre pessoas desabrigadas e desalojadas contam-se cerca de 80.000 pessoas em mais de 10 municípios do estado, com grandes e graves perdas sociais e ambientais. É certo que, em tal contexto, pessoas idosas, mulheres e crianças são a massa mais vulnerável, tantas vezes esquecida pelos planos oficiais e sem garantias de fiscalização das ações públicas e privadas em nossas cidades. Muitas delas estão abrigadas em igrejas, escolas públicas, casas religiosas, casas de familiares ou amigos etc. É certo que nas regiões afetadas não temos paróquias anglicanas, mas diversas igrejas cristãs foram afetadas, muitos assentamentos destruídos totalmente.
Neste momento de calamidade é preciso lembrar a famosa palavra do grande anglicano Wesley: “O mundo todo é minha paróquia”. Não houve comunidades anglicanas afetadas, mas todas as pessoas pobres são “nossas”, porque são a presença viva de Jesus entre nós (cf. Mt 25). Interpelam-nos quanto à capacidade de amor e a nossa responsabilidade pelo povo e pelo planeta.
Antes de tudo, confiamos toda essa sofrida gente a suas orações pessoais e da comunidade diocesana. Participar de campanhas de doação que se têm feito pelo país afora, além de gesto concreto de solidariedade, pode ser momento particularmente pedagógico de participação no sofrimento do povo, que não é apenas conjuntural, mas estrutural. É bom ter presente que pessoas que já não tinham quase nada perderam tudo, inclusive entes queridos. Momentos como este podem muito bem ser utilizados para ajudarmos o povo a crescer em consciência crítica sobre a realidade do país.
Estamos com o propósito de atender 4000 famílias nos seguintes municípios: Palmares, Água Preta, Barreiros, Catende, Cortês e Maraial. Estamos fazendo ações emergenciais e estruturantes em parceria com a ONG DIACONIA, Visão Mundial, Habitat Brasil, OXFAM-GB, Centro Sabiá, entre outras instituições. As famílias já estão cadastradas nos núcleos ecumênicos de apoio locais que estabelecemos nos municípios citados acima. Toda solidariedade e ajuda é muito bem vinda. Desde já agradecemos pela confiança e pelo apoio que puderem suscitar em suas comunidades paroquiais, missões e pontos de evangelização.
Em Cristo,
+ Sebastião Armando, Recife
* Bispo da Diocese Anglicana do Recife – DAR
www.dar.ieab.org.br
Obs: Imagens retiradas da página da diocese.
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Dom Sebastião Armando
PENSANDO
Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)
Ela acorda
Senta na varanda
Contempla o sol que já está alto
Pensa.....
Olha o horizonte
O pensamento viaja
Fecha os olhos
Escuta com precisão os sons
O sol atrapalha a visão
O pensamento é livre, é dono de si
Ela não comanda
O sol descortina o dia
O pensamento a descortina
Voa distante
Quase tudo que pensa é um tanto quanto impossível
Pensa ....
Lembra que as matérias mostram que o impossível não existe
O amor, o carinho de alguma forma supera tudo
O amor encontra caminhos
Muda destinos
Ela pensa
Inquieta-se
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Paula Barros
SETE ANOS
Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com
De repente as coisas cotidianas invadiram o lar. Entraram pelas portas, pelas janelas, pelas frestas da porta da cozinha, pelos buracos das goteiras no telhado. Estavam ali. Depois de um tempo a toalha esquecida sobre a cama resultava em uma noite no sofá. A organização das peças no roupeiro o suficiente para uma revolta.
Enquanto a observava preparar o jantar tentava encontrar naquela mulher a poucos metros a mesma criatura encantadora de sete anos antes. A bela moça de cabelos e olhos castanhos, de pele macia e sorriso fácil. Suspirou. Tudo aquilo parecia muito distante como numa outra vida. O que percebia no dia-a-dia era que a rotina cada vez mais os deixava diferentes. Mesmo apesar do tempo o relacionamento a dois é um constante aprendizado. Questionou-se se deixará de aprender. Qual seria sua parcela de culpa? Sua falha?
Com o passar dos dias as pequenas coisas tomavam proporções enormes num piscar de olhos. As chegadas e saídas tornaram-se mudas. Sem querer o silêncio acabou se impondo e passou a ser o principal visitante daquela residência. Um inquilino indesejável que teimava em permanecer ali.
Ela chorava trancada no banheiro. Tinha facilidade em proferir palavras duras e frias, mas no fundo era frágil. Somente ele não percebia isso. Às vezes o observava dormir. Contemplava os cabelos negros, os ombros largos, a boca pequena, a barba rala, a respiração cansada e profunda. Alguns homens com a maturidade despertam belezas ocultas que poucas mulheres possuem a capacidade de desfrutar. Ele era um desses e ela sentia que estava perdendo isso, por mero capricho do seu temperamento difícil.
Quando a rotina bate a porta o amor é o primeiro a ameaçar pular pela janela. Mais do que sentimento é preciso ter companheirismo para sobreviver às peculiaridades do dia-a-dia. Quando o silêncio se impõe fecham-se algumas saídas e numa situação de emergência as janelas sempre vem a convir.
Conversaram quando o divórcio despontou como alternativa. Descobriram que o diálogo é a principal ferramenta para construir um relacionamento e aprenderam a começar do zero. Depois de tantos erros, encontraram o elo perdido. O amor renasce a cada dia mesmo quando o sol não desponta no horizonte.
Obs: Imagem enviada pela autora - Foto de José Bernardo (Olhares.com)
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Dannie Oliveira
vertigem
Euza Noronha
quando teus passos
descompassam
a lucidez
o coração
dá nó
nas antigas certezas
os pés
validam
a beira do abismo
viro caos
e sonho
com a sem-gravidade
do meu querer-despencar
quando teus passos
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o coração
dá nó
nas antigas certezas
os pés
validam
a beira do abismo
viro caos
e sonho
com a sem-gravidade
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FILME DA VIDA
Rivkah Cohen
Quantas histórias dariam
um belo ou triste filme..!
Os cenários,
poderiam até se confundir.....
O complicado
é quando a cortina se abrir!
São pinceladas da sua vida
que serão mostradas ali..!
Como um escrito,
passarão por tantas mãos!
Tantos olhos, ao mesmo tempo,
consumirão..!
E depois?
O que dirão?
Afinal é seu rosto!
Seu coração exposto!
É bem verdade que ao ser
esquadrinhado,
alguém ponderaria,
mas normalmente
o julgamento é inexato!
Tristezas,
alegrias,
opções,
momentos de pura emoção,
talvez os vejam opacos,
o coração nas mãos,
capitados sem beleza,
corriqueiro fato!
É você na ventania!
Corpo espancado,
inspiração quase seca,
ferimentos já fechados,
vida querendo guarida,
acontecimentos perfilados!
É muito fácil falar,
ainda mais,
quando não se padece ao lado,
não precisou pedir ajuda,
ainda mais,
quando não se está no tablado,
não foi sua alma que ficou nua,
Ainda mais,
quando aqueles dias,
nem de longe foram da sua,
mas da minha vida!
(Ao lado e ao fundo, cenas do filme israelense
que recebeu dois Oscar, Caminhando sobre as águas,
conforme está escrito em Hebraico cursivo)
Obs: Imagem da autora.
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Rivkah Cohen
TEXTO DE LUG COSTA
Já não temos mais medo.
Chegamos finalmente do outro lado da ponte.
O imprevisto não nos assusta.
Passamos por todas as provas.
Estamos em terra firme
com as nossas
convicções,
certezas,
finalizações.
Estamos replantados no seio da terra.
Entregues de corpo e alma.
(S. Paulo 11.09.2004)
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Lug Costa
DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL
Frei Betto
Relatório da ONU (Pnud), divulgado em julho, aponta o Brasil como o terceiro pior índice de desigualdade no mundo. Quanto à distância entre pobres e ricos, nosso país empata com o Equador e só fica atrás de Bolívia, Haiti, Madagáscar, Camarões, Tailândia e África do Sul.
Aqui temos uma das piores distribuições de renda do planeta. Entre os 15 países com maior diferença entre ricos e pobres, 10 se encontram na América Latina e Caribe. Mulheres (que recebem salários menores que os homens), negros e indígenas são os mais afetados pela desigualdade social. No Brasil, apenas 5,1% dos brancos sobrevivem com o equivalente a 30 dólares por mês (cerca de R$ 54) O percentual sobe para 10,6% em relação a índios e negros.
Na América Latina, há menos desigualdade na Costa Rica, Argentina, Venezuela e Uruguai. A ONU aponta como principais causas da disparidade social a falta de acesso à educação, a política fiscal injusta, os baixos salários e a dificuldade de dispor de serviços básicos, como saúde, saneamento e transporte.
É verdade que nos últimos dez anos o governo brasileiro investiu na redução da miséria. Nem por isso se conseguiu evitar que a desigualdade se propague entre as futuras gerações. Segundo a ONU, 58% da população brasileira mantém o mesmo perfil social de pobreza entre duas gerações. No Canadá e países escandinavos este índice é de 19%.
O que permite a redução da desigualdade é, em especial, o acesso à educação de qualidade. No Brasil, em cada grupo de 100 habitantes, apenas 9 possuem diploma universitário. Basta dizer que, a cada ano, 130 mil jovens, em todo o Brasil, ingressam nos cursos de engenharia. Sobram 50 mil vagas... E apenas 30 mil chegam a se formar. Os demais desistem por falta de capacidade para prosseguir os estudos, de recursos para pagar a mensalidade ou necessidade de abandonar o curso para garantir um lugar no mercado de trabalho.
Nas eleições deste ano votarão 135 milhões de brasileiros. Dos quais, 53% não terminaram o ensino fundamental. Que futuro terá este país se a sangria da desescolaridade não for estancada?
Há, sim, melhoras em nosso país. Entre 2001 e 2008, a renda dos 10% mais pobres cresceu seis vezes mais rapidamente que a dos 10% mais ricos. A dos ricos cresceu 11,2%; a dos pobres, 72%. No entanto, há 25 anos, de acordo com dados do IPEA, este índice não muda: metade da renda total do Brasil está em mãos dos 10% mais ricos do país. E os 50% mais pobres dividem entre si apenas 10% da riqueza nacional.
Para operar uma drástica redução na desigualdade imperante em nosso país é urgente promover a reforma agrária e multiplicar os mecanismos de transferência de renda, como a Previdência Social. Hoje, 81,2 milhões de brasileiros são beneficiados pelo sistema previdenciário, que promove de fato distribuição de renda.
Mais da metade da população do Brasil detém menos de 3% das propriedades rurais. E apenas 46 mil proprietários são donos de metade das terras. Nossa estrutura fundiária é a mesma desde o Brasil império! E quem dá emprego no campo não é o latifúndio nem o agronegócio, é a agricultura familiar, que ocupa apenas 24% das terras mas emprega 75% dos trabalhadores rurais.
Hoje, os programas de transferência de renda do governo - incluindo assistência social, Bolsa Família e aposentadorias - representam 20% do total da renda das famílias brasileiras. Em 2008, 18,7 milhões de pessoas viviam com menos de π do salário mínimo. Se não fossem as políticas de transferência, seriam 40,5 milhões. Isso significa que, nesses últimos anos, o governo Lula tirou da miséria 21,8 milhões de pessoas. Em 1978, apenas 8,3% das famílias brasileiras recebiam transferência de renda. Em 2008 eram 58,3%.
É uma falácia dizer que, ao promover transferência de renda, o governo está “sustentando vagabundos”. O governo sustenta vagabundos quando não pune os corruptos, o nepotismo, as licitações fajutas, a malversação de dinheiro público. Transferir renda aos mais pobres é dever, em especial num país em que o governo irriga o mercado financeiro engordando a fortuna dos especuladores que nada produzem. A questão reside em ensinar a pescar, em vez de dar o peixe. Entenda-se: encontrar a porta de saída do Bolsa Família.
Todas as pesquisas comprovam que os mais pobres, ao obterem um pouco mais de renda, investem em qualidade de vida, como saúde, educação e moradia.
O Brasil é rico, mas não é justo.
Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros. www.freibetto.org
-Twitter:@freibetto
Copyright 2010 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
Relatório da ONU (Pnud), divulgado em julho, aponta o Brasil como o terceiro pior índice de desigualdade no mundo. Quanto à distância entre pobres e ricos, nosso país empata com o Equador e só fica atrás de Bolívia, Haiti, Madagáscar, Camarões, Tailândia e África do Sul.
Aqui temos uma das piores distribuições de renda do planeta. Entre os 15 países com maior diferença entre ricos e pobres, 10 se encontram na América Latina e Caribe. Mulheres (que recebem salários menores que os homens), negros e indígenas são os mais afetados pela desigualdade social. No Brasil, apenas 5,1% dos brancos sobrevivem com o equivalente a 30 dólares por mês (cerca de R$ 54) O percentual sobe para 10,6% em relação a índios e negros.
Na América Latina, há menos desigualdade na Costa Rica, Argentina, Venezuela e Uruguai. A ONU aponta como principais causas da disparidade social a falta de acesso à educação, a política fiscal injusta, os baixos salários e a dificuldade de dispor de serviços básicos, como saúde, saneamento e transporte.
É verdade que nos últimos dez anos o governo brasileiro investiu na redução da miséria. Nem por isso se conseguiu evitar que a desigualdade se propague entre as futuras gerações. Segundo a ONU, 58% da população brasileira mantém o mesmo perfil social de pobreza entre duas gerações. No Canadá e países escandinavos este índice é de 19%.
O que permite a redução da desigualdade é, em especial, o acesso à educação de qualidade. No Brasil, em cada grupo de 100 habitantes, apenas 9 possuem diploma universitário. Basta dizer que, a cada ano, 130 mil jovens, em todo o Brasil, ingressam nos cursos de engenharia. Sobram 50 mil vagas... E apenas 30 mil chegam a se formar. Os demais desistem por falta de capacidade para prosseguir os estudos, de recursos para pagar a mensalidade ou necessidade de abandonar o curso para garantir um lugar no mercado de trabalho.
Nas eleições deste ano votarão 135 milhões de brasileiros. Dos quais, 53% não terminaram o ensino fundamental. Que futuro terá este país se a sangria da desescolaridade não for estancada?
Há, sim, melhoras em nosso país. Entre 2001 e 2008, a renda dos 10% mais pobres cresceu seis vezes mais rapidamente que a dos 10% mais ricos. A dos ricos cresceu 11,2%; a dos pobres, 72%. No entanto, há 25 anos, de acordo com dados do IPEA, este índice não muda: metade da renda total do Brasil está em mãos dos 10% mais ricos do país. E os 50% mais pobres dividem entre si apenas 10% da riqueza nacional.
Para operar uma drástica redução na desigualdade imperante em nosso país é urgente promover a reforma agrária e multiplicar os mecanismos de transferência de renda, como a Previdência Social. Hoje, 81,2 milhões de brasileiros são beneficiados pelo sistema previdenciário, que promove de fato distribuição de renda.
Mais da metade da população do Brasil detém menos de 3% das propriedades rurais. E apenas 46 mil proprietários são donos de metade das terras. Nossa estrutura fundiária é a mesma desde o Brasil império! E quem dá emprego no campo não é o latifúndio nem o agronegócio, é a agricultura familiar, que ocupa apenas 24% das terras mas emprega 75% dos trabalhadores rurais.
Hoje, os programas de transferência de renda do governo - incluindo assistência social, Bolsa Família e aposentadorias - representam 20% do total da renda das famílias brasileiras. Em 2008, 18,7 milhões de pessoas viviam com menos de π do salário mínimo. Se não fossem as políticas de transferência, seriam 40,5 milhões. Isso significa que, nesses últimos anos, o governo Lula tirou da miséria 21,8 milhões de pessoas. Em 1978, apenas 8,3% das famílias brasileiras recebiam transferência de renda. Em 2008 eram 58,3%.
É uma falácia dizer que, ao promover transferência de renda, o governo está “sustentando vagabundos”. O governo sustenta vagabundos quando não pune os corruptos, o nepotismo, as licitações fajutas, a malversação de dinheiro público. Transferir renda aos mais pobres é dever, em especial num país em que o governo irriga o mercado financeiro engordando a fortuna dos especuladores que nada produzem. A questão reside em ensinar a pescar, em vez de dar o peixe. Entenda-se: encontrar a porta de saída do Bolsa Família.
Todas as pesquisas comprovam que os mais pobres, ao obterem um pouco mais de renda, investem em qualidade de vida, como saúde, educação e moradia.
O Brasil é rico, mas não é justo.
Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros. www.freibetto.org
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O QUE NÃO PASSA...
Célia Cavalcanti
Amizades que se acabam, não são amizades, são ilusões. Pois a amizade mesmo nunca se apaga... Não importa a distância, o tempo, as avalanches da vida, as queimadas e as enchentes...Mais cedo ou mais tarde ela ressurge mais profunda, mais inabalável e verdadeira...
Obs: Imagem enviada pela autora.
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Célia Cavalcanti
A PRAIA É DE TODOS NÃO PARA VEÍCULOS
Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com
Um povo desenvolvido é também educado e sabe que seus direitos terminam onde começam os direitos dos outros. Onde existe uma sociedade civilizada não há necessidade de polícia vigilante.
Em Santarém, ainda há uma longa caminhada no processo de educação no relacionamento das pessoas. Nesta cidade, ainda há pessoas que lançam água utilizada em casa no esgoto público, ou no rego da rua; ainda há os que jogam lixo na rua, animais mortos em terrenos baldios, e há os ignorantes e arrogantes, donos de carros e motos, que utilizam as praias públicas para pista de corrida ou estacionamento. São pessoas que até melhoraram de situação financeira, mas não cresceram em educação e se sentem com mais direitos que os outros.
A situação dos mal educados está tão séria nas praias de Santarém, que polícia e bombeiros se obrigarão a fazer plantão nas praias para expulsar os ignorantes que invadem com seus veículos os locais, onde crianças e adultos também freqüentam para lazer. Isso lembra um exemplo histórico.
Próximo ao Japão existe um país chamado Singapura. Lá existe uma lei rigorosamente cumprida que, se uma pessoa jogar lixo, até um papel de cigarro na rua e for flagrado, é preso imediatamente e leva várias chicotadas na delegacia e é solto. Caso seja flagrado mais uma vez, a punição é mais rigorosa. Resultado é que as ruas e praias são bem limpas e poucas pessoas são punidas. É um país civilizado e desenvolvido.
Que tal se, em Santarém, ao menos nas praias, for baixada lei semelhante. Nem precisavam chicotadas, bastava prender os veículos estacionados ou transitando na área. Certamente que se conseguirá tornar os ignorantes mais civilizados! Com a multa salgada, os arrogantes ficarão mais humildes e as praias se tornarão áreas seguras para lazer. Afinal elas são para todos, menos para veículos. Antes havia um ditado que dizia – povo limpo é povo civilizado. Que se pode acrescentar – motoristas educados são motoristas civilizados e éticos.
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Edilberto Sena
O CRUCIFIXO NAS ESCOLAS
D.Edvaldo G. Amaral (*)
(dedvaldo@salesianosrec.org.br)
Promovido e elaborado pela Embaixada da Itália, junto à Santa Sé, foi publicado recentemente um estudo da autoria de Carlo Cardia, que tem por título “IDENTIDADE RELIGIOSA E CULTURA EUROPÉIA – A questão do crucifixo”. O prefácio do livro é de ninguém menos que o Ministro do Exterior da República Italiana, o Sr. Franco Frattini. Dada a enorme repercussão do assunto na Comunidade Européia, o jornal do Vaticano “L´Osservatore Romano” publicou o prefácio do Ministro Frattini.
Trata-se do seguinte: Em 3 de novembro de 2009, o tribunal de Estrasburgo emitiu uma sentença em que proibia a presença do crucifixo nas salas de aula dos países membros da Comunidade Européia, considerando tal prática violadora da liberdade de religião e de educação dos alunos e de suas famílias. Também no Brasil – e é por isso que o assunto nos interessa – falou-se recentemente de suprimir os crucifixos nos edifícios públicos, no Congresso Nacional, nos tribunais e nas escolas oficiais. Seria algo de impensável para nosso país, pela presença maciça de símbolos cristãos em todos esses ambientes. Bastaria pensar – e foi lembrado na oportunidade – que nossa mais conhecida cidade no exterior, o Rio de Janeiro, tem como símbolo e principal marca identificadora, a estátua do Cristo Redentor no Corcovado. Foi também luta das instâncias católicas de nossa pátria a colocação da Imagem de Jesus Crucificado nos tribunais e órgãos legislativos do Brasil.
O prefácio do ministro Franco Fratini lembra o princípio da subsidiariedade, que é norma jurídica universal e figura até na Constituição Brasileira de 1988. Tal princípio determina que qualquer decisão que pode ser tomada por uma esfera inferior de poder, não deve ser levada à superior. Ferindo tal princípio, tivemos no Brasil um folclórico Presidente, que em seus sete meses de governo, proibiu sessões cinematográficas no período da manhã em São Paulo e desfiles de concursos de misses – coisas que, na época se dizia, eram da competência de qualquer delegado de polícia do bairro...
No caso europeu, o ministro Fratini lembra que o aludido princípio da subsidariedade é o verdadeiro eixo das relações entre a União Européia e os Estados membros. Assim, diz ele, a Itália recorreu à instância superior e expôs as múltiplas razões que estão na base de um símbolo religioso como a cruz, presente no coração de todos os cristãos. “O símbolo da Cruz, diz ele, nunca foi nem é hoje, um símbolo de uma parte. É o símbolo das tradições cristãs que são comuns à grande maioria das nações européias (e podemos acrescentar, de nosso lado, dos países latino-americanos) e sua presença insere-se atualmente numa sociedade e numa escola, abertas não só a todos os credos e opiniões em matéria religiosa, mas inclusive aos símbolos e à presença de diversas religiões, que convivem na escola e noutros espaços públicos sem nenhuma preclusão”. Invocando o princípio da subsidiariedade, a Itália, como país membro da Comunidade Européia recorreu da sentença de novembro do Tribunal de Estrasburgo para que ela seja revista e superada, diz o Ministro italiano, num quadro de avaliação clarividente dos elementos, que estão em jogo não só na Itália mas noutros países membros. “Os povos europeus, assim como todos do mundo – e o nosso Brasil, a Terra da Santa Cruz está aí – não devem esconder as próprias raízes, nem ocultar suas tradições, que são fonte da racionalidade, do direito, da fé cristã que promoveu a liberdade e a dignidade do homem, como valores universais e precioso patrimônio da humanidade” – conclui sabiamente o Ministro em seu prefácio.
(*) É arcebispo emérito de Maceió.
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D. Edvaldo G. Amaral
A QUEM INTERESSA
Gerson F. Filho
A quem interessa,
O rescaldo da miséria.
A quem o quanto e quando!
Semear ignorância
Tornou-se o lucro dos insanos.
A quem aquém da esquina
Pertencerá toda esta fuligem,
Untando cicatrizes.
Revestido vertigens
Que surgem nas lembranças.
O que restará!
Como caminhar
No ruidoso silêncio do equívoco.
E ainda assim sorrir
Para não ser descoberto.
Porque pensar diferente
Será muito perigoso.
Sugerir uma diferença
Será a garantia de uma sentença.
Respire com cuidado;
E se puder finja-se de coitado,
Para poder viver.
Obs: Imagem enviada pelo autor.
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Gerson F. Filho
DESILUSÃO
marisia_moura@hotmail.com
O castelo ruiu, e o vento varreu tudo em volta – acabou!
O que era, deixou de ser... E o que deixou de ser, nunca foi...
Fico a procurar dentro das ruínas, algo que identifique você, mas, não vou achar nunca, porque no momento exato da queda, você correu. Correu, mas não escapou, foi varrido também pelo forte vento.
- Ai que dor tamanha!
Como me consome esta dor!
Recordar, é a minha melhor maneira de fugir, ao que irremediado está.
Vejo você ainda com esperança do melhor.
Vejo você ainda como desejaria que fosse no contexto certinho da vida.
Como posso abandonar se um dia me senti cativada?
Como faço morrer o amor de vez em mim?
Dizem os sábios, que o verdadeiro amor nunca morre. Ele adormece e adormecido vai ficar. O lugar no coração vai permanecer. Mas naquele exato lugar algo secou.
Castelo, farei outro dia, quando conseguir com muito afeto, regar cautelosamente este pedaço seco, dentro de mim, que é você.
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Marcante
RUA DESERTA
Maria Inês Simões - Bauru/SP
Na avenida principal de meus sonhos
tem uma lameda, uma rua, uma travessa
as casas são pintadas de cores estranhas...
sem esquinas...
sem placas...
Ás vezes não sei se sigo ou se páro
e penso...
não existe este lugar...
e me acho perdida
neste encontro de mim mesma...
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Maria Inês Simões
SONHO
José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com
Me encontro sozinho
Sonhando acordado
Pensando em você
Que cheia de encantos
Me acena distante
Irradiando vida
Pensando em amar.
Feliz ali fico
Espantando a tristeza
Que se vai sozinha
Carregando sua dor.
Agora acredito
Que posso viver
Dedicando a vida
E esse amor pra você.
(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA
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José de Alencar Godinho Guimarães
FESTA DE S. BARTOLOMEU NA PATRIÓTICA CIDADE DE MARAGOJIPE
Sebastião Heber
shvc50@gmail.com
O mês de agôsto, no Recôncavo Baiano, é consagrado ao santo Padroeiro de Maragojipe. Na festa há também momentos profanos, com shows musicais, cantores famosos, bandas, barracas – é uma festa de largo que toma quase toda a cidade. No domingo passado, na lavagem, houve cerca de 700 ônibus. Pode-se imaginar que não havia lugar,no centro da cidade, para as pessoas se mexerem. No lado sacro, há uma programação extensa, incluindo uma bela novena, cantada em latim. No dia 24, dia litúrgico do santo, houve a tradicional missa das 5 horas da manhã, depois outra às 10 horas.No dia 29 há outra missa solene, de conclusão, às 10 horas e na 2ª feira, dia 30, haverá a tradicional procissão. Pe. Sadoc sempre se refere a essa procissão, como a mais expressiva e que conserva o esplendor das antigas procissões do Recôncavo.
S. Bartolomeu foi um dos doze apóstolos e essa palavra (apóstolo) vem do grego, significando “enviado, encarregado da missão”. Esse apóstolo é citado pelo três evangelistas sinóticos, Mateus, Marcos e Lucas, mas também por João Evangelista. Ele está sempre associado a Felipe que o conduz a Jesus de Nazaré. Mas ele chega meio reticente e pergunta:”Pode vir algo bom de Nazaré?”. A resposta do colega é taxativa: “Venha e veja”. E aconteceu, a partir daí o chamado e a integração dele no grupo apostólico. No evangelho há outras cenas nas quais um conduz o outro a Cristo. É o caso de André que apresenta Pedro a Cristo, e o caso clássico de João Batista que teve como missão apontar o Cristo como “ o Cordeiro que tira o pecado do mundo”.
As infromaçõe sobre esse apóstolo são escassas, pois os evangelhos têm uma centralidade no Cristo, que torna secundários todos os que estão em torno dele. A própria presença de Maria se reduz a algumas poucas linhas – todas profundamente programáticas e reveladoras da missão dela. José, o pai carpinteiro, simplesmente, desaparece. Os evangelhos chamados de “apócrifos”, que uma versão do senso comum quer chamá-los de “falsos”, mas que na etimologia grega quer dizer “secretos”, é a base para a vida desse seguidor de Cristo. Lá se diz que ele passou pela Frígia, Armênia ( regiões da Ásia Menor), também na Mesopotâmia ( atualmente é o Iraque), assim como na Pérsia ( o Irã, recentemente em relevo na imprensa internacional, por causa do problema do adultério de uma mulher – mas se esqueceram de procurar quem adulterou com ela...),e, finalmente, teria passado pela Índia Oriental. Independente de qual teria sido seu périplo missionário, a tradição coloca-o no rol dos mártires, destino de todos os apóstolos, com exceção de João Evangelista, que teria morrido centenário.
Maragojipe é a terra das palmeiras, dos pescadores, dos marisqueiros, daqueles que lutam para sobreviver tirando o seu sustento a partir daquele elemento primordial, a água. É também a terra visitada por D. Pedro II, que registra no seu Diário, dentre outros recantos do Recôncavo, também essa cidade. (Ele fora orientado pela Condessa de Barral a visitar alguns pontos, deixar de visitar outros, etc.). Mas essa terra foi, ao menos vista do rio, pelo recentemente proclamado santo, Frei Galvão, que estudou em Belém de Cachoeira, na segunda metade do século XVIII. Alguns acham que ele teria descido do navio, pelo menos uma vez, para visitar a cidade.
Como tantas outras regiões do país, Maragojipe tem desafios: a educação, a saúde, a falta de trabalho e, especialmente, a luta com relação às drogas, que corrói a juventude, acorrentando-a aos atravessadores.
Maragojipe se prepara, com um entusiasmo especial, para integrar a nova Diocese que terá como sede a cidade de Cruz das Almas. E tem como título Nossa Senhora do Bom Sucesso – o título já é um indicativo de que essa implantação será culminda de êxito. O pároco local, Pe. Reginaldo e seu vigário cooperador, Pe. Mateus Leal, têm se desdobrado no atendimento e acolhida dos fiéis, visitantes e turistas que acorrem nesses dias à cidade. Nesse sentido, diz o Pároco:”Maragojipe, que é chamada a terra de S. Bartolomeu e das palmeiras, está acolhendo a todos para que juntos possamos festejar o Benigno Bartolomeu”.
O caprichado folder da festa, elaborado pela Paróquia e a Secretria de Turismo do Município, cita um trecho do livro “Santidade, Ontem e Hoje”, de Zélia Viana, sobre o santo festejado:”Nos dias de hoje, em que a hipocrisia das atitudes e a falsidade das palavras permeiam as relações na sociedade, merece especisal atenção o elogio que Jesus fez a Bartolomeu: ‘Eis um israelita no qual não se encontra falsidade’. Não é sem razão que o povo diz que um dedal de bons exemplos vale mais que um tonel de bons conselhos”.
Sebastião Heber. Professor adjunto da UNEB, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu, Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris.
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Sebastião Heber
UM AMOR DE FILHA
Eu e Helena no natal 2009
Bernadete Brutowww.bernadetebruto.com
Há um espelho meu,
Côncavo ou convexo?
Não é um mero reflexo...
Ao contrário,
Diferente!
Se impondo no crescimento.
Um tipo peculiar.
Um sorriso parecido,
Um coração tão sentimental!
Uma maturidade mais profunda...
Essa imagem que me olha,
Me contradiz e se impõem,
Me ignora e me adora!
Me orgulha do que é.
Ao fazer seu caminho,
Ao buscar suas escolhas.
Não um pálido reflexo
Que mira
Uma pessoa diferente
Um amor de filha!
Obs: Imagem enviada pela autora
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Bernadete Bruto
ANISTIA PÓSTUMA
Maria Clara Lucchetti Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio
Existe homenagem póstuma, publicação póstuma, e outras coisas póstumas. Existem, também, casos de punição póstuma, quando alguém recebe uma penalidade vários anos após a morte por algo que disse ou escreveu ou fez. Mas neste caso, trata-se de anistia. Ou seja, foi perdoado e declarado não imputável pela legislação alguém que teria feito em vida algo considerado ilegal.
Segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, anistia em sentido amplo significa esquecimento, perdão no sentido mais abrangente do termo. Juridicamente, “stricto sensu”, constitui um ato do poder público que declara impuníveis delitos praticados até determinada data por motivos políticos ou penais, ao mesmo tempo em que anula condenações e suspende diligências persecutórias.
Betinho, ou como diz a mídia, o sociólogo Herbert de Souza, foi anistiado. Perdoaram-lhe todos os delitos cometidos em vida e devido a isso receberá uma indenização financeira, da qual usufruirá sua viúva, Maria Nakano, que também foi anistiada.
Os mais jovens se lembram de Betinho fazendo campanha contra a fome, defendendo os meninos de rua, enfim, abraçando as mais nobres causas que esse Brasil cometeu. De que deveria ser anistiado, então, o irmão do cartunista Henfil e do músico Chico Mário, que a voz de Elis Regina imortalizou na canção “O bêbado e a equilibrista”, declarando que o país inteiro sonhava com a sua volta do exílio? Amado era Betinho por muitos e muitas. De que ou por quem necessitava ser anistiado?
Sua biografia traz a resposta. O mineiro Betinho estudou Sociologia e formou-se no ano de 1962, Foi membro da Ação Católica e amigo pessoal do grande filósofo jesuíta brasileiro Henrique Cláudio de Lima Vaz. Durante o governo do presidente João Goulart assessorou o Ministério de Educação, sendo o chefe da assessoria do ministro Paulo de Tarso Santos. Desde aquela trincheira, defendeu as reformas de base, com especial ênfase na Reforma Agrária.
Coerentemente, mobilizou-se contra o golpe militar que mergulhou o Brasil nos anos de chumbo em 1964 desde a primeira hora. Perseguido pela repressão, teve que exilar-se no Chile em 1971, com vários outros brasileiros “trocados” por embaixadores sequestrados. Ali, ao sul mais sulino da América, assessorou o presidente Salvador Allende até o golpe de Pinochet que o depôs e matou em 1973. Refugiando-se na embaixada panamenha conseguiu não engrossar as estatísticas de vítimas do truculento general chileno, que passou à história como um dos mais cruéis ditadores que o continente já conheceu. A partir daí teve que morar fora do Brasil, no Canadá, no México.
Ao começar no Brasil a campanha pela anistia aos exilados políticos, puxada e respaldada na beleza melódica e poética da canção de Joao Bosco e Aldir Blanc cantada por Elis Regina, Betinho liderou a fila dos desejados e esperados, “tanta gente que partiu num rabo de foguete”. Nesse momento, vivo e ativo, Betinho foi anistiado e em 1979 voltou a seu país.
Uma vez aqui, fundou com companheiros economistas o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e voltou à sua bandeira de antes: a justiça social. Participando ativamente da política, seu coração permanecia conectado às causas sociais que provocavam sofrimentos incontáveis em seu povo, mergulhado na miséria e na opressão.
Criou então, em iniciativa memorável, a Ação da Cidadania contra a Fome e a miséria pela vida. Com comitês espalhados por todo o país, o movimento era liderado por Betinho desde a mídia, onde aparecia incontáveis vezes, com sua figura doce e idealista, emagrecida pela Aids adquirida em uma transfusão de sangue para combater a hemofilia herdada da mãe e compartilhada com os irmãos.
A lembrança que dele me fica data do principio dos anos 90 quando, juntamente com outros professores universitários, organizamos no dia 12 de outubro, Festa de Nossa Senhora Aparecida, uma romaria de intelectuais ao santuário. A Campanha contra a Fome estava no auge e queríamos que Betinho falasse na missa. Missão quase impossível que acabou vitoriosa devido à habilidade, à estatura moral, à santidade mesmo de Dom Luciano Mendes de Almeida, que conseguiu abrir um espaço na oração dos fiéis para que Betinho falasse.
Fiquei encarregada - juntamente com o comum amigo Luiz Alberto Gomez de Souza - de buscá-lo no carro que o trazia do Rio de Janeiro e acompanhá-lo até a basilica, para que entrasse em segurança e se sentasse. Ao chegarmos diante do portão principal do santuário, vimos aquele mar de gente. E pensei comigo que ia ser difícil conseguir entrar.
Não me dei conta de que o povo sabe reconhecer os seus e abrir-lhes passagem. Ao reconhecerem Betinho dentro do carro, todas as portas se abriam. As pessoas sorriam, beijavam sua mão, agradeciam-lhe, diziam-lhe palavras carinhosas. Chegamos rapidamente à entrada da Igreja e Betinho sentou-se entre os celebrantes.
Falou lindamente à basilica, lotada de pessoas as mais diversas, das mais distintas proveniências e identidades. E sua mensagem calou fundo: a solidariedade é a melhor forma de oração.
Hoje, tantos anos depois de sua morte, leio a notícia desta anistia póstuma. Não tão póstuma, já que Betinho continua vivo em meio a este povo que tanto amou e ao qual deu o melhor de si, arriscando cargo, salário, profissão, carreira, reputação, domicilio, tudo. Se ele deve ser anistiado, tristes de nós que não necessitamos sê-lo. Talvez nosso compromisso seja tênue e instável. Não como o de Betinho que até hoje deixa frutos na vida do povo brasileiro.
Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros. http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/
Copyright 2010 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
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