segunda-feira, 31 de maio de 2010

TUDO PASSA...



Célia Cavalcanti
(cglcavalcanti@terra.com.br)


E as nuvens foram passando com o soprar do vento...
...E o dia foi se acabando com o morrer do sol...
...E os minutos, as horas, os momentos foram correndo e no tempo se perdendo...
...E passaram as alegrias eufóricas, os amores que nem chegaram a existir...
...E passaram as lágrimas que pareciam jamais secar...Passaram as ilusões, os sonhos, as paixões, as dúvidas, os rancores, os males, os amores que chegaram a nascer para logo morrer...
...Tudo foi passando...Tudo me levando...
...Uma coisa restou; linda, fascinante, incrivelmente bela,encantadora...Não nasceu por ter sempre existido...Não morreu por ser inabalável...Dá sentido a tudo, e tudo transforma: o Amor.

17/01/1981

Obs: Imagem enviada pela autora.

INCLUSÃO SOCIAL E DIREITO: POR UMA DEMOCRACIA CONSTITUCIONAL



INTRODUÇÃO
Tassos Lycurgo (*)
www.lycurgo.org


O argumento a ser desenvolvido neste artigo se divide em dois grandes momentos. Primeiramente, mostrar-se-á como a inclusão social se correlaciona com termos constitucionalmente resguardados tais como o de cidadania e o de democracia. Demonstrar-se-á, oportunamente, a relevância dos direitos sociais como elementos centrais no diálogo entre os referidos termos. Posteriormente, apresentar-se-ão três pilares da efetivação da democracia constitucional no Brasil: estímulo às políticas públicas de incentivo à educação social, fomento de uma cultura política de respeito irrestrito aos direitos humanos e, por último, promoção radical da justiça social, mormente por meio da valorização de instituições como a da Justiça do Trabalho, a do Parquet Laboral e a do Ministério do Trabalho e Emprego. Nas breves considerações finais, tecer-se-ão algumas considerações sobre o desemprego e sobre o desafio da promoção da humanidade social, com a qual, acredita-se, toda a sociedade deve estar comprometida.

A questão da inclusão social


Definir inclusão social não é tarefa de estreita envergadura. Há, contudo, relativo consenso na afirmação de que não se poderia considerar incluso na sociedade um indivíduo a quem fossem negados direitos mínimos, constitutivos de sua própria cidadania. É dizer, em outras palavras, que a inclusão social não poderia dar-se senão pelo efetivo gozo das vantagens e necessário cumprimento dos deveres que o status individual de inserção social é capaz de oferecer. Tais direitos não hão de ser restringidos; pelo contrário, abrangem não apenas os civis e políticos, mas também – e principalmente – os sociais. Diante disso, parece, pelo menos por ora, bastante razoável definir inclusão social como um estado individual do cidadão em que ele se sente socialmente confortável a exercer, de forma plena, a sua cidadania.

É importante reiterar que a cidadania não se restringe apenas à cidadania política ou a esta e à civil, como assim tradicionalmente é entendida. A cidadania plena, que nada mais é do que o status do cidadão em um regime democrático, engloba a assunção de que o indivíduo, entre outros direitos, tem acesso à saúde, à educação, ao trabalho decente, sendo, pois, uma cidadania também social. A cidadania plena, portanto, notabiliza-se pelo acesso às prestações positivas e negativas dos direitos constitucionalmente assegurados a todos os seres humanos de uma dada sociedade.


(*) Tassos Lycurgo é Professor Adjunto da UFRN e Advogado (OAB/RN); É Doutor em Estudos Educacionais – Lógica (UFRN), com pós-doutorado em Sociologia Jurídica (UFPB); Mestre em Filosofia Analítica (University of Sussex, Reino Unido); Graduado em Direito (URCA) e em Filosofia (UFRN). Atualmente, leciona as disciplinas Direito Processual do Trabalho e Elementos de Direito Autoral e Legislação Social na UFRN. Página Acadêmica: http://www.lycurgo.org/

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Obs: A Parte I será postada no próximo dia 08.

TEXTO DE LUG COSTA



Será que quando as palavras mudam de significado
nós precisamos também mudar de posição?

O que hoje chamamos com a palavra “liberdade”
amanhã pode se transformar em escravidão?

Será que a palavra “ser de esquerda” ou
“ser de direita” são as mesmas posições
em situações diferentes dependendo da situação?

Podemos tentar dominar as palavras
e seus respectivos significados,
mas não dominaremos a realidade.

O real está para além de nossas possibilidades de apreensão.

Chegamos sempre atrasados
e insuficientemente instrumentalizados
para aprisioná-lo em nossos esquemas racionais.

(Caxias 08.07.2003)

REINVENTANDO



José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Somos mesmo um povo alegre que no seu dia-a-dia se aplica ao máximo para viver com dignidade, sonhando e planejando o novo. O cansaço e o sofrimento se vão com os últimos raios do Sol e no raiar do novo dia nos refazemos cheios de esperança alimentando nossa imensa vontade de acertar.

Somos um povo que não se entrega. Mesmo Abatido nos levantamos da queda construindo degraus sólidos com o olhar perdido na imensidão da esperança que nos acompanha sempre. Companheira da dor e e de uma alegria que avassaladora arrebata o amor e nos enche de confiança.

Somos um povo que aprendeu a lutar pela vida e a fazer da pobreza nossa mola propulsora à mudar. Viver dignamente mostrando o quanto somos capazes e o quanto podemos fazer para recriar, reinventar, reconstruir, refazer.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

IRONIA



Laudi Flor
laudiflor@gmail.com


Entrei naquela cidadezinha com o único objetivo de consultar um processo.
Já passava das 13h00minhs, o sol estava quente, mas observei que as pessoas ali andavam de casacos de frio e botas, imaginei que durante a noite, a temperatura devia cair.
Àquela hora do dia meu estômago já reclamava, resolvi almoçar primeiro e ir ao Fórum depois.
Apressei-me em procurar restaurantes e lanchonetes, e foi assim que tudo começou:
Entrei no primeiro restaurante, daqueles que colocam o “cardápio” num quadro negro encostado na porta, lá estava escrito: Feijão, ovo, couve, lingüiça e arroz! Bom demais! minha alegria durou pouco, como já era tarde, não tinha garçom e nem almoço, aflita, me dirigi a outro restaurante, a carne havia acabado, parecia que havia passado um tsunami nas bandejas, a comida estava esparramada por todos os lugares, menos nas bandejas, mais outra tentativa, e finalmente uma padaria que servia refeições, o almoço tinha acabado, mas a garçonete, bem lentamente nos informou que serviam sanduíches, e espaguete.
- Traz o espaguete de frango, please!
Engraçado, por ironia, naquele dia eu havia começado o regime,achei que era um empurrãozinho do céu, porque já que não tinha almoço, ficaria com fome e conseqüentemente meu regime sairia vitorioso.
E como demorou...
Aquela garçonete não sobreviveria numa grande cidade, nunca vi tamanha lentidão!
Trouxe o refrigerante... Sem gelo, quente, tudo bem!
Entrou na copa!
Fiquei aflita igual uma criança que espera o bolo de aniversário, a pizza, o sanduíche com batatas fritas, e a garçonete conversava, pegava os pratos arrumava o molho, imaginei delícias, viajei e por fim ele: o senhor espaguete, servido numa tigelinha parecida com aquelas que a gente usa pra colocar comida de cachorro, ao tentar dar a primeira garfada, espere aí, que gosto é esse e que molho é esse se eu pedi de frango? Tentei a segunda garfada, não consegui, deixei de lado.
A moça ficou aflita perguntou por que não havia comido, se houve algum problema com o tempero, não expliquei e entendi que aquele era seu primeiro dia de trabalho,porque deixou a nota com outra e sumiu, acho que foi chorar.
Saí frustrada, pensei em chorar também, tive enxaqueca e dores de cabeça fui pra casa descansei e a noite saí e comi uma pizza!

Obs: Imagem enviada pela autora.

LIMITAÇÃO



Wilson Guanais
wilson_guanais@hotmail.com


não sei
onde
dorme
a palavra
: Paz

- nem
como
acordá-la
da
guerra.

MADRUG.ANDO...



(Maria Inês Simões)


Quando ela sonha,
não sabe, é a menina que impulsiona.
O único ser que lhe anima.
Quando pequenina... Sonhava que a tudo podia...
Ela era sua própria heroína... Mulher maravilha.
Cresceu... Conheceu... O cansaço o fracasso...
Vilões tiraram-lhe a paz a harmonia.
Mas, ainda assim restou-lhe a fantasia.
Por onde, de vez em quando se encontra...
Em sua poesia.
Quando ela sonha,
não sabe, é a menina que vem a tona.

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Maria Inês Simões - Bauru/SP
17/05/2010

Obs: Imagem enviada pela autora.

ONDE MORA A ESPERANÇA?

Euza Noronha


Sempre ressuscito na segunda-feira. Porque a noite de domingo invariavelmente me mata um pouco. Esta segunda me acordou com uma dúvida cruel: corto ou não corto os cabelos? Gosto dos cabelos da Fafi Siqueira e eles combinariam com meus óculos quase vermelhos. Mas gosto também das madeixas rebeldes e encaracoladas que me dão ares remotos da década de 70. E que combinam com quaisquer óculos!

Uma vozinha interior, aquela chata de sempre, me lembrou que as horas passam por mim. Deixei a difícil decisão para depois e me sentei para o café da manhã. Automaticamente uma mão pegou o leite e a outra os jornais. Ler jornais antes de começar o dia é um masoquismo que conservo há anos. E para variar, caíram sobre mim todas as notícias que eu até posso precisar saber, mas bem que poderia ser depois do almoço.

Imediatamente a postura mudou. Política, guerra, crimes – me lembrei desta coluna. Segunda é o dia de escrever algo que preste. E a pergunta da Ray bailou frente aos meus olhos: este mundo tem jeito? Fiz a pergunta em voz alta e recebi um olhar de espanto do marido. Gostei e resolvi repeti-la. Agora, diretamente para ele. Quem sabe uma discussão à mesa do café não me inspiraria?

Com olhar de quem-está-perdendo-a-hora ele se levantou: não venho almoçar. Um beijo e lá se foi ignorando completamente minha necessidade de inspiração. Mas levo a sério o que me proponho e passei a pensar em como escrever sobre o jeito do mundo. Lembrei-me que há alguns anos a ONU fez um pacto com vários países, inclusive o Brasil, para que todos se comprometessem com a promoção da cidadania. Mas o que aconteceu de lá para cá? Pergunta boba, me respondi. O que existe é um expressivo retrocesso na qualidade de vida, sobretudo nos países em desenvolvimento, e uma brutal soberania dos fabricantes de guerra.

Parei por aí e fui me vestir. Mas o tema é instigante demais para ser posto de lado assim, assim. Enquanto me vestia, daquele jeito confuso de escolher várias roupas, fatos e fotos viraram um filminho na minha cabeça. E o que sempre sobressai quando penso nas dores do mundo são as crianças. Crianças morrendo na guerra, crianças morrendo de fome na África e as nossas crianças comendo lixo, cheirando tíner, já na universidade do crime. As crianças, estas que são o nosso futuro.
Mas nesta linha de raciocínio seria quase impossível descobrir um jeito para o mundo. Dei no cérebro um giro de 180 graus e concluí que mais interessante seria escrever sobre esperança. Não é fácil ter esperanças, mas é necessário. Eu, especialmente, não consigo viver sem acreditar que amanhã ou depois as coisas podem mudar. E a chata da vozinha voltou a me lembrar: esperança sem ação, morre na contramão! Não se espante, leitor. Esta rima é ridícula, mas inventei esta frase para usar comigo mesma, com meus filhos e meus alunos. É que realmente acredito nisso. Para mim, esperança necessita de investimento pessoal. É preciso engajamento, idealismo, é preciso abraçar uma causa e lutar por ela. Mudanças não acontecem por acaso ou por milagre. E fiquei por aí, porque havia uma entrevista de emprego me esperando.

VELHOS QUINTAIS



Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


Os velhos quintais ainda hoje estão presentes nas lembranças guardadas. Coisas aparentemente sem importância encheram de encanto e magia minha infância.
Um gato dorminhoco enroscado junto ao fogão de carvão; minha velha, querida e miudinha avó pitando o seu cachimbo acocorada junto ao gato.
Ai que saudade das estrepolias e diabruras que eram consideradas ruindade de menina má que não tinha o que fazer. Mas, sempre pensei que era feliz. Mesmo quando tomava tremendas chineladas e ia chorar atrás da porta e pedir a Deus que minha mãe morresse, tal a raiva que tinha de apanhar. Pior do que a pancada era o remorso que sentia na hora de dormir, por haver pensado tal coisa. Mas, me ensinaram que se a pessoa pecasse e pedisse perdão, Deus perdoaria. Assim, logo à noite me penitenciava de tais pensamentos. E virou um circulo vicioso: pecar, pedir perdão e ser perdoada. Por conta disso não fazia outra coisa. Estava sempre em “estado de graça.”
Minha mãe reclamava e brigava por tudo, aliás, todas são iguais mudam apenas de endereço. Cada filho era considerado um castigo e muitos ou quase todos vieram por “descuido” e para “desconto do pecados.”
Eu mesma, fui uma dessas penitências que Deus mandou, acredito, que cumpri muito bem meu papel. Fui penitência para homem nenhum botar defeito. Só por conta do meu desempenho acredito que minha mãe, meu pai, minha avó, as freiras, as professoras, aliás, um mundão de gente, está todo no céu.
Volto às velhas casas. Revejo os velhos quintais. Os velhos esconderijos em cima da mangueira, do pé de romã que de tão esguio mal nos escondia. A saudade que sentimos em certas ocasiões, é a energia que emprestamos às coisas.
As pessoas ficam adultas e esquecem que foram crianças. Envelhecem, e passam a ver maldade em tudo. Ficar velho e honesto é uma marca registrada de quem não soube viver.
A vida de toda criança – do meu tempo, pelo menos – começou num fundo de quintal. Mais tarde, pouco a pouco lembramo-nos de uma mesa com o bule de café fumegante, tomamos conhecimento da sala de visitas, chegamos até a porta e, finalmente, à calçada para, então, ganhar a rua e o mundo. Mas tarde, gradativamente, vamos retornando e nada melhor do que uma rede no fundo do quintal para embalar nossas lembranças.
Hoje, revendo alguns destes quintais, os quais em sua maioria, existem apenas em nossas lembranças, retrocedemos no tempo e no espaço, ficamos crianças outra vez.
Quem dera possuísse ainda, um quintal mágico cheio de recordações, levasse palmadas, brincasse com terra, dormisse feliz.


Obs: Texto retirado do livro da autora – A Magia da Serra

CARTA À MINHA AVÓ


Dannie Oliveira

www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com

                       Mojuí, 26 de maio de 2010.

Não fui das netas a mais apegada. Aquela que estava sempre ao lado, mas Vó confesso enquanto escrevo estas linhas que sentirei saudades. Tento me recordar agora dos tantos momentos que vivi ao longo das duas décadas em que convivemos. Difícil... mas parecem remotos. É estranho que recordações agora sejam mesmo somente lembranças.

Prefiro acreditar que ainda te encontrarei sorrindo quando me avistar chegar à beira da estrada e que quando me aproximar ainda perguntará da mamãe e de como vão as coisas na cidade. Aliás, somente agora depois de adulta entendo sua vontade de sempre estar próximo a natureza. E sabe Vó a senhora estava mais do que certa! O mundo anda agitado demais e ter um lugar ermo onde repousar convém aos estressados.Mesmo sendo mulher não sei se teria a coragem que você teve de pôr tanta gente no mundo. Apesar de terem sido treze nunca que quem te visse diria isso. Se chegar com um corpo semelhante ao seu na sua idade já me darei por alegre e satisfeita.

De todas as coisas que tento imaginar agora para escrever aqui, me recordo da sua preocupação comigo no período em que estive fragilizada fisicamente. Eu precisava de cuidados, mas você mais ainda, mesmo assim você esteve solícita. Fiquei sem jeito, quando te vi sorrir feliz ao perceber que eu estava bem. Até mesmo as pessoas de pedra desmoronam diante de pequenas atitudes.

É bem difícil aceitar que não estará mais lá quando eu aparecer. Juro que agora não queria estar tendo que escrever esta carta de despedida, no entanto como uma malabarista de palavras foi a única forma que encontrei de expressar a consideração que tenho pela senhora. Por falar em palavras, obrigado por me deixar o legado delas. Acredito que se não fosse seu empenho em ensinar a tantos, provavelmente não aprendesse a lidar com elas tão bem, apesar de ter feito jornalismo e não ter me tornado professora. Creio que mesmo com esta discrepância tinhas orgulho de mim, a neta que nasceu feia como disse a senhora ao papai e se tornou bonita quando cresceu. Discordo desta afirmação, mas tudo bem.

Vó descanse em paz. Deixe que agora seus netos cuidem dos filhos que se esforçaste tanto para pôr no mundo. Daqui pra frente somos nós que os abrandaremos. Os mais teimosos, os mais bondosos, os justos, os complicados. Vá tranqüila encontrar o velho João, que a julgar pelo tempo deve estar morrendo de saudade. Duas pessoas tão amorosas só podem ter sido determinadas a continuar juntas pela eternidade...

Com carinho da sua neta.

Obs: Imagem da autora.

ESTE É O DIA QUE O SENHOR FEZ – CONCLUSÃO



Dom Sebastião Armando Gameleira Soares *
sgameleira@gmail.com


(Homilia no Culto Ecumênico de abertura da Campanha da Fraternidade 2010)
Recife, 20 de Fevereiro

“Este e o dia que o Senhor fez, exultemos e alegremo-nos nele”!


Eis, irmãos e irmãs, a mensagem desta Campanha da Fraternidade Ecumênica: Economia em favor da vida. Mas a visão de fé não admite compromissos, pois os dois campos são opostos, ou servimos a Deus ou o dinheiro. Para a Bíblia o dinheiro deixa de ser meio e se torna ídolo que adoramos na medida em que nele se reflete nossa carência de poder sobre as pessoas e sobre as coisas. Buscamos salvar-nos agarrando-nos às “obras de nossas mãos”, tão vazias quanto nós...

O chamamento da Quaresma é claro: de que lado estamos? Até que ponto temos condições de interpelar a sociedade que destroi o meio ambiente, que priva os pobres do alimento, que se compraz no desperdício, que almeja o conforto e a inovação tecnológica sem limites, que não se importa de esgotar no curso de poucas gerações os recursos do planeta... até que ponto temos condições de interpelar a sociedade se assimilamos sua mentalidade, se já não nos sentimos diferentes? Hoje já não só as Igrejas, mas também os cientistas nos chamam à conversão e ao juízo: ou mudamos de vida, ou perecemos com o planeta. Mais do que nunca a conversão nos aparece como uma questão, além de religiosa, essencialmente politicosocial. E a fé cristã, a fé bíblica, se revela em toda a sua atualidade: deixar-se atrair pelo brilho dos ídolos é correr atrás de ilusões e do vazio. Nunca talvez como hoje se revela tão claro que, se seguir a Jesus tem alto custo, custo ainda maior é não segui-Lo. Basta olhar em redor e ver o preço que pagamos por desviar-nos da vontade de Deus – no próprio pecado social nos sobrevém o castigo: desagregação, exclusão, fome, medo, violência, guerras, confiança na pedagogia do terror...

Estamos realmente disponíveis a Deus para lutar por uma economia em favor da vida? Ou ainda pensamos que essa não é tarefa central da fé e da Igreja? Ainda julgamos que a transformação econômica e política da sociedade não tem de estar no coração da Igreja? Está em jogo a obra de Deus, o mundo é a obra de Deus. Julgamos, porventura, que a união das Igrejas não é urgente por não se tratar de assunto de religião ou de negócio eclesiástico? Seremos tão irresponsáveis a ponto de abandonar o mundo ao poder das trevas?

Seria terrível dizer: que posso fazer, eu que sou pequeno e pobre? Só os poderosos têm como resolver tão graves problemas. Ora, são justamente os poderosos a causa principal do problema. Nunca como hoje a sorte da vida dependeu tanto das pessoas comuns, de gente como nós. Os ricos e poderosos não querem mudanças profundas, os governos também não as querem ou já não podem. A sorte do mundo está incrivelmente em nossas mãos, nas mãos das pessoas comuns. A tragédia é, tudo indica, que ainda não temos maturidade para enfrentar tão imenso desafio ético, que começa em nosso quotidiano, das pequenas coisas, no uso que fazemos dos bens que possuímos, nas decisões que tomamos, particularmente, em relação a nosso consumo. Começa no dia a dia de nossa casa, amplia-se nas organizações e movimentos da sociedade civil, alarga-se às nações e aos Estados.

É nossa decisão assumir a militância de Cristo para que seja feita a obra de Deus, mediante a restauração das pessoas e a preservação da criação? Estamos com a firme decisão de rever nosso consumo, de encarar uma vida sóbria e de partilha para que haja vida para todas as pessoas, de colaborar com uma Economia em favor da vida?

Se assim é, que Deus nos abençoe! Se assim ainda não é, que Deus transforme nossos corações e nos converta a Sua aliança!


* Bispo da Diocese Anglicana do Recife – DAR
www.dar.ieab.org.br

NORTE E SUL



D. Demétrio Valentini (*)


As atenções do mundo se voltam novamente para a Coréia. Na verdade, para as Coréias. Pois aquela nação foi divida em dois estados, por motivos ideológicos, desde a “guerra da Coréia” em 1953. De tal modo que agora temos duas Coréias. E o pior de tudo, ambas sempre em pé de guerra, valendo-se de todo tipo de pretexto para acusações mútuas e ameaças constantes. Como de novo agora, beirando ao desatino da guerra aberta, exigindo a intervenção das grandes potências para dissuadi-las de qualquer aventura militar.

A situação da Coréia é um atestado eloqüente de como o mundo ainda não encontrou as bases verdadeiras para o convívio pacífico entre as nações. Ainda não estamos curados das divisões causadas por ideologias que dividiram o mundo em dois blocos contrapostos, que não foram dissolvidos com a grande guerra mundial dos anos quarenta.

Desde então, já se podem contabilizar centenas de guerras localizadas, das quais a do Iraque, e agora a do Afeganistão, são os exemplos mais recentes.

A maneira de sinalizar a divisão das duas Coréias é sua posição geográfica. Uma é Coréia do Norte, outra é Coréia do Sul. Mas dá para perceber logo que o motivo da divisão não tem nada a ver com a posição geográfica. Nem o sul nem o norte tem culpa em cartório. Como nos tempos da guerra fria, em que havia Berlim Leste e Berlim Oeste. Se fosse transferir agora para a Coréia as diferenças ideológicas que dividiam o mundo em dois blocos, uma seria a Coréia do Leste, outra seria a Coréia do Oeste!

Na verdade, o mundo está cansado dessas divisões, impostas por motivos ideológicos. Elas oneram os povos, que acabam pagando o preço de disputas que não lhe dizem respeito.

O pior é que quando as ideologias perdem força, os interesses econômicos entram em ação. O exemplo mais evidente é a China, que optou por continuar com um estado totalitário, mas abrigando um capitalismo econômico que conta com a proteção do estado para garantir a exploração barata do enorme estoque de mão de obra proporcionada por milhões de chineses à espera de sua integração na dinâmica econômica.

Até a Fifa acabou reconhecendo a divisão das duas Coréias. De tal modo que ambas conseguiram se classificar para a copa do mundo que está por começar. Aliás a primeira partida do Brasil será exatamente contra a Coréia do Norte. Enquanto a Coréia do Sul terá que se haver com a Argentina.

Nisto, quem sabe, o esporte poderá colaborar para superar os confrontos militares, substituindo-os por confrontos esportivos. Parece residir aí a força do esporte. Ele tem a função de humanizar a aparente inexorabilidade do instinto guerreiro que a humanidade assimilou e do qual não consegue se livrar.

Se a humanidade não é capaz de prescindir das guerras, que estas ao menos sejam transformadas em batalhas esportivas. Assim sendo, vamos torcer para que as duas Coréias cheguem à finalíssima na copa do mundo. Antes que declarem guerra entre si, que aguardem ao menos a conclusão da copa. Contanto que o apito final do juiz não signifique o início da nova guerra que parecem estar ensaiando nestes dias.

Além de apostar no Brasil, vamos torcer para que as batalhas entre os países se limitem aos campos de futebol. Aí todos podem ganhar, mesmo perdendo o campionato.


(*) www.diocesedejales.org.br

O CAMELO, O LEÃO E A CRIANÇA



Padre Beto
www.padrebeto.com.br


Em uma cidade medieval, vários pedreiros trabalhavam na construção de uma grande catedral. Certo dia, um estranho que acabara de chegar naquele povoado aproximou-se dos trabalhadores da grande obra e perguntou o que eles estavam fazendo ali. "Você não está vendo...", respondeu com muito mau humor um dos pedreiros, "eu estou lutando pela minha sobrevivência". Um outro trabalhador que estava por perto imediatamente completou com muito suor, mas um sorriso no rosto: "Eu estou construindo uma belíssima catedral!"

Na verdade, os dois pedreiros deram ao estranho uma resposta correta. Porém, cada um possuía sentimentos e pensamentos muito próprios diante de um mesmo fato. Os dois edificavam a mesma catedral, mas construíam realidades diferentes. Dependendo da forma como vemos, compreendemos e descrevemos a nossa realidade acabamos por transformá-la e estabelecemos para ela determinados horizontes. Segundo o filósofo alemão Nietzsche, o espírito humano pode ter três comportamentos diante dos valores e das regras morais impostos pela sociedade. Frente às imposições sociais, o ser humano pode se tornar semelhante a um camelo. Ele aceita todas as regras e as suporta de cabeça baixa e em silêncio como um peso que deve ser carregado. O ser humano pode, porém, se comportar como um leão. Motivado por seus desejos interiores (eu quero!), o ser humano pode revoltar-se contra as imposições da sociedade e lutar ferozmente contra o dragão dos valores (dever ser). Por fim, o espírito humano pode reagir diante das regras morais com a liberdade de uma criança. Ele as compreende como brinquedos que podem ser manipulados para a sua diversão e seu bem estar.

As três posições reveladas por Nietzsche não se manifestam simplesmente diante das regras morais, mas podem caracterizar o próprio viver de um ser humano. Muitas pessoas encaram a vida com uma terrível resignação. Através de uma educação moral e religiosa podemos ser levados a um comodismo e a uma passividade diante de nossa condição humana. A idéia da existência de um destino ou de que Deus coloca o ser humano à prova através da dor pode fazer com que nos acostumemos com as dificuldades da vida, muitas delas frutos de estruturas econômicas, políticas e sociais, ou seja, geradas pelo próprio ser humano e passíveis de serem transformadas. A vida passa a ser um vale de lágrimas no qual o sofrimento deve ser carregado como um peso necessário. As alegrias passam a ser absorvidas pela esperança de que um dia toda a dor desta vida será recompensada na eternidade. "Se encara o sofrimento e o desprazer como algo nocivo e merecedor de aniquilamento ou como um defeito da existência, então torna-se evidente que este indivíduo abriga em seu coração (...) a religião do comodismo. Como estas pessoas sabem pouco a respeito da felicidade humana" (Nietzsche). Em contrapartida, somos, muitas vezes, tomados por uma purificante inconformidade diante das situações da vida. Esta pode nos levar a uma revolta. "Para se conquistar a liberdade e para expressar um santo "não" diante dos compromissos é necessário a força de um leão" (Nietzsche). O protesto contra as dificuldades da vida pode ser um remédio rápido e eficaz, mas por mais fortes que sejamos não deixamos de sofrer com as conseqüências de uma agressiva cirurgia na realidade. Entre o conformismo do camelo e a agressividade do leão, porém, encontramos a liberdade da criança. Esta surge da consciência de que em nossas mãos está a caneta com a qual escrevemos nossa história. Atingimos a verdadeira liberdade da criança quando compreendemos também que a única coisa absoluta é a vida humana, todo o resto (convenções e valores morais, estruturas econômicas, políticas e sociais...) é relativo, passível de mudança e só possui sentido se estiver a serviço da nossa felicidade. Assim, encaramos as dificuldades da vida, por exemplo, como se fossemos jardineiros. Por suas raízes, uma planta pode parecer estranha e desagradável, mas aquele que a conhece e acredita em seu potencial pode fazê-la florescer e frutificar. Na vida, em uma fase de raiz, surgem emoções e situações difíceis que, no entanto, podem resultar, depois de um cultivo cuidadoso, em grandes êxitos e alegrias. Para Montaigne, a arte de viver está em se fazer bom uso de nossas adversidades. Nem tudo que nos faz sentir melhor é bom para nós. Nem tudo que magoa pode ser ruim. Podemos ver em uma atividade ou na própria vida um mal necessário ou uma oportunidade de aprender algo novo. Se temos uma dificuldade podemos lastimar, reclamar, ou então carregar este peso, não como expressão de nosso comodismo, mas sim como uma oportunidade de fortalecer nossos músculos. "Algo como o mau tempo, na verdade, não existe. Existem, sim, vários tipos de bom tempo" (John Ruskin).

PRECISO DAS MÃOS!



Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Tento achar,

não sei exatamente em que lugar,
busco pela percepção e sensibilidade.

Fujo da minha razão,
                              isso é um fato!
Prefiro ir em busca de outro som
para não deixar o caminho pela metade..

Quem sabe o dos passarinhos, seu moço?

No tato,
tenho me lanhado pelos caminhos,
             mas preciso das mãos,
para achar meu rosto..


Obs: Imagem da autora.

PASSOU AQUI UM POEMA



Walter Cabral de Moura
(wacmoura@nlink.com.br)


um poema passante
andou por aqui:
lembrou-me um tempo
de sopros de flauta
que foi, evadiu-se
pra onde, não sei.

quis chamá-lo – ô poema!
me leva contigo aonde
tu fores, te quero seguir
mas ele, nem-nem,
passou e se foi
pra onde, não sei.

largado, meu corpo
se queixou de cansaços,
me fez cara má
e enfezado me disse:
– pois deixes que vá!

assim, me quedei
sem flauta e sem tempo
sem poema e sem nada
somente com o corpo
que sem graça repete:
– pois deixes que vá!

e eu, cá comigo:
pra onde, não sei.

TEXTO DE PAULA BARROS



www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)


Ela me dizia, sempre cheia de maturidade e de razão.

- Nós só sofremos com as pessoas porque atribuímos a elas valores e um gostar diferente.
- E quando nos alegramos?
- Quando nos alegramos é da mesma forma. Nos alegrar ou sofrer por uma pessoa é questão dos valores que atribuímos aquela pessoa. Trata-se apenas das nossas expectativas.
- Me dá um exemplo.
- Se você gosta de uma pessoa um simples olá, um sorriso, um e-mail é motivo de alegria. De uma alegria inexplicável, intensa, ampla. Muitas vezes no mesmo momento alguém mandou um e-mail dizendo muito mais, mas dentro de você não teve a mesma repercussão.
-Ah! Por isso quando esse alguém que sentimos um sentimento diferente, e passamos a valorizar, deixa de fazer algo, nos faz sofrer? Mesmo que outros tenham feito do mesmo jeito e não nos tenha feito sofrer?
- Exatamente. Então é preciso identificar que valor você está dando aquela pessoa, e se é importante realmente, e se a pessoa merece.
- Ah! Dito assim, visto por esse ângulo, parece fácil.

02.01.10
Quando as duas em mim conversam.

Obs: Imagem da autora.

CRÔNICA DO COTIDIANO

Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com


Primeiro; eu te amo tu me amas. Depois nos amamos, intensamente. Bem no meio do tempo que corre e solicita atenção com o futuro. Depois; vem o fruto do nosso amor. Resultado esperado devido a tanta intimidade praticada na nossa união. Fato normal porque na carne se realiza o desejo e pela carne se reproduz a realidade. Filhos então. Alegrias, gritos, sorrisos, fraldas remédios, apreensão. Não necessariamente nessa ordem. O amor prossegue, a carne persegue apesar da costumeira interrupção. A liberdade e a privacidade já não são privilégio, mas sim ocasião.

Trabalho, casa trabalho, e mais trabalho, menos casa e muito mais trabalho, porque de teto definitivo se faz um sólido futuro, pensamos. Repensamos economizamos. E, contudo nas figuras do tempo conseguimos consolidar nossa união. O tempo passa, eu me torno mais pragmático e você performática. Já não nos amamos com tanta intensidade. Já não me olhas com tanta saudade, já não te vejo tanto como minha metade. Mas e apesar de tudo ainda desfrutamos harmonia e momentos de tesão.

Descobri! Tornamo-nos irmãos. Bons irmãos na verdade, que às vezes cometem incesto, porque afinal de contas ninguém é perfeito, e a carne ainda clama por atenção. Estamos estabilizados. Filhos criados, contas em dia, saúde sem dar trabalho. Porém a paciência mútua está em frangalhos. Aqueles neurônios que se queimaram, não servem, mais para atalho de uma simples conciliação. Você reclama atenção, eu solicito uma ocasião, aonde tu sejas de novo minha mulher, e não minha mãe.

Eu nessa essa hora já sou ausência, impregnado nos meus pensamentos. Você, circunferenciada por tormentos, tenta encontrar uma solução. Vasculhando hipóteses mortas, entre o aleatório movimento das recordações. Amamo-nos, mas não mais nos amamos, perdidos que estamos entre os escombros dos nossos corações. Amamos, construímos, vencemos e vivemos, para imiscuirmo-nos em desenganos que o cotidiano nos presenteou.

Morte ao cotidiano!
Vida eterna ao amor!

NOVIDADES PARA A ECOLOGIA



Marcelo Barros(*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)


A cada ano, a sociedade civil internacional assume mais profundamente a proposta da ONU de dedicar o dia 05 de junho e a semana que envolve esta data como consagrada ao ambiente, à defesa da natureza e à comunhão com o universo. Talvez uma das razões para isso é que todos se dão conta de que os governos falharam em suas tentativas de deter as mudanças climáticas, provocadas pelo modelo sócio-econômico vigente. Não foi qualquer ecologista “exagerado”, mas o próprio presidente da Assembléia geral das Nações Unidas, Miguel d´Escoto Brokmann que, diante de 192 chefes de Estado e dos ministros e chanceleres creditados na ONU, afirmou: “Temos que reconhecer que a atual crise econômico-financeira é o último resultado de um modo egoísta e irresponsável de viver, produzir, consumir, como de estabelecer relações entre nós e com a natureza. Isso implicou em uma sistemática agressão à Terra a seus ecossistemas. É uma injustiça social planetária. A meu ver, chegamos à última fronteira. O caminho até agora percorrido tem se fechado. Se continuar assim, pode nos levar ao mesmo destino do que ocorreu com os dinossauros” (Cf. Alternativas, junho 2009, p. 56- 57).

Os dirigentes das nações sabem que, para salvar o sistema da vida, ameaçado de extinção no planeta Terra, não basta mais reduzir em 10 ou 12% as emissões de gás carbono lançado na atmosfera. Nem é suficiente promover um desenvolvimento sustentável, no qual a prioridade é o lucro e a preocupação ecológica é somente uma taxa mínima a ser paga, para que a natureza possa sobreviver às agressões, sem se extinguir. No tempo da ditadura militar, alguns médicos inescrupulosos assistiam à tortura de presos políticos para garantir que o prisioneiro a suportasse sem morrer. Há quem pense em fazer o mesmo com a natureza: explorá-la comercialmente, mas respeitar um limite.

Este tipo de desenvolvimento sustentável não basta. É urgente uma visão mais abrangente e radical no sentido de uma conversão. São os povos indígenas, as comunidades remanescentes de Quilombos e os movimentos populares que estão assumindo esta bandeira. Eles promovem campanhas e atividades de proteção à natureza e de cuidado com o planeta Terra. Há pouco mais de um mês, na Bolívia, o presidente Evo Morales convocou uma conferência dos povos tradicionais para um mutirão de cuidado com a Terra, a Água e o Ar. No Brasil, este mesmo assunto tem sido pauta de muitos encontros e trabalhos. Há anos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) tem fortalecido nos assentamentos e comunidades rurais o plantio de sementes crioulas. Tem lutado contra sementes transgênicas e incentivado as diversas formas de agriculturas ecológicas, livres de transgênicos e defensivos agrícolas. No sul do Brasil, escolas propõem a famílias e alunos a “adotarem” árvores que são espécies nativas da região. Elas são replantadas e cuidadas pelas pessoas que as adotam. Em várias regiões do Brasil, comissões de defesa de rios são compostas por alguns membros nomeados pelo governo e por pessoas voluntárias, eleitas pela comunidade para velar pela defesa das águas. Elas trabalham para que a água seja considerada patrimônio comum e um bem a ser salvaguardado para a humanidade e todos os seres vivos.

Quando se fala em defesa da natureza, todos pensam na Amazônia. Isso é bom e justo. Mas, todo brasileiro está obrigado em consciência a pensar na defesa do Cerrado. É o bioma que abrange dois milhões de Km2, presente em onze estados brasileiros. Nos últimos anos, graças a Deus, o desmatamento da Floresta Amazônica tem diminuído. Entretanto, a destruição do Cerrado tem aumentado. Chegam a falar em 30 mil km2 por ano. Também neste caso, as comunidades têm descoberto que, ao lado das medidas governamentais de defesa e as necessárias leis de proteção, um instrumento eficaz para a defesa do Cerrado é a valorização da cultura popular e da relação amorosa com a natureza que nos cerca.

Para quem crê em Deus, esta relação de veneração e amor com a natureza é um modo de testemunhar a presença divina no universo e de entrar na sua intimidade. Nesta 5ª feira, 03 de junho, os católicos celebram a festa do Corpo e Sangue de Cristo. Em algumas comunidades afro-brasileiras, os fiéis festejam Oxóssi. Tudo isso é um chamado para reconhecer na natureza uma presença divina, como grande corpo cósmico do Espírito. Ele nos convida a nos sentir inseridos neste coração divino e ser mais solidários uns com os outros e com a natureza.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

GARÇOM



Paulo Rebêlo)
(www.rebelo.org)


Nosso relacionamento com a instituição chamada garçom sempre foi uma eterna incompreensão para a maioria das mulheres.

Elas não entendem quando a gente passa meses fora e, na volta, queremos reencontrar nossos garçons e nossos bares de outrora.

Separações abruptas sempre são um processo doloroso. Delas e dos nossos bares e garçons preferidos.

Quando a bateria do celular descarrega e você fica incomunicável, ela não compreende quando você liga do orelhão, no dia seguinte, pedindo para vir lhe buscar na casa da garçom. Porque atire a primeira pedra quem nunca perdeu o ônibus bacurau ou bebeu o dinheiro da passagem de volta.

Às vezes o relógio atrasa e a gente perde a hora. O jeito é dormir no bar, nem sempre por vontade própria. Na falta de uma mulher-ambulância, é o garçom quem nos hospeda fraternalmente. Se você tiver sorte, a esposa dele ainda lhe esquenta um pão com manteiga antes de ir embora.

E depois das primeiras pedras atiradas, você conhece a família do garçom e descobre como os sofás alheios podem ser confortáveis diante das circunstâncias certas.

O garçom não é o nosso “empregado que serve à mesa em restaurantes”, como define pai Aurélio. A gente conversa, fala das novidades do Jornal Nacional daquele dia, mas ele também não é exatamente nosso amigo.

Quando bebemos além da conta, o garçom nos segura, nos ajuda a levantar do chão e nos leva até o táxi mais próximo, mas nem por isso ele é o nosso pai. Comumente é o garçom que diz ao taxista onde moramos, com direito a pontos de referência e nome do edifício – mas o garçom também não é nosso room mate.

Tem garçom que se recusa a servir a oitava saideira, principalmente quando você não consegue mais ficar em pé sozinho. A gente insiste porque coração de mãe sempre tem espaço para mais um, mas o garçom também não é mãe de ninguém.

O bom garçom sabe exatamente quando se aproximar, sabe quando puxar conversa quando queremos impressionar uma paquera ou uma amante, sabe quando manter distância na hora certa, mas nem por isso ele é nosso cúmplice.

Geralmente é ele, o garçom, o primeiro a saber quando levamos um chifre e vamos afogar as mágoas na mesa de bar. E nem assim ele se torna nosso vigário particular ou confessionário sob demanda.

Quando chego no bar com meus bloquinhos de papel para rabiscar idéias, é o garçom quem dá o primeiro feedback sobre um determinado assunto ou pergunta se falta muito para você terminar. E o garçom nem é nosso editor.

Garçom também não é álibi, embora tantas vezes ele atenda o telefone do bar para dizer que estamos lá, sim, bêbados e sozinhos, sem nenhuma sirigaita à mesa ou sentada no colo da gente.

Você pode ser irmão ou melhor amigo do dono do estabelecimento, mas é o garçom quem viabiliza a abertura do fiado no bar. Ele não é nosso avalista e nem gerente de banco, mas sem o aval do garçom você nunca vai poder tomar aquelas doses no pendura quando a fatura do cartão começa a apertar demais.

O garçom não é absolutamente nada que a gente possa definir durante aqueles momentos de fúria feminina quando trazemos um presente de viagem para o garçom, não para ela.

Sem a boa vontade do garçom, uma penca de mulheres feias nunca iria conseguir se aproveitar de nossa condição etílica e começar a mandar bilhetinhos no guardanapo. Garçom não é cupido, mas é quem faz o intermédio entre os rabiscos de papel e o seu arrependimento no dia seguinte.

A gente briga com o garçom, reclama, diz que a conta está errada e chama de cabra-safado. Juramos nunca mais voltar, mas no outro dia estamos lá novamente naquele mesmo bar, com o mesmo copo e exigindo o atendimento pelo mesmo garçom . Nem por isso o garçom é nossa meretriz.

A interação homem-garçom é uma relação cujo patamar de compreensão ultrapassa raciocínios lógicos de homens e mulheres. Bons garçons são um pouco como as boas mulheres. Sem elas, não faríamos nada. Sem eles, não seríamos nada.


Obs: Imagem do autor.

“DELICTA GRAVIORA”



D.Edvaldo G. Amaral *
(dedvaldo@salesianosrec.org.br)


Em data de 30 de abril de 2001, o Papa João Paulo II publicava carta apostólica, em que promulgava severas normas acerca dos delitos mais graves, reservados à Congregação para a Doutrina da Fé. Estas Normas, com o título que encima este artigo - em latim “DELICTA GRAVIORA”, “Delitos mais graves” - foram divulgadas em 18 de maio daquele ano, e assinadas pelo Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da citada Congregação, e o Secretário, Arcebispo Bertone. Notem as datas e os nomes.

Entre tais delitos sujeitos às penas mais graves, no número 3, cita-se: ”Delito contra a moral, isto é, contra a castidade, cometido por um eclesiástico com um menor de 18 anos”. A seguir, explica-se que tais delitos são reservados à Congregação da Doutrina da Fé e, conforme a norma do direito universal e comum, se extingue por prescrição em dez anos, notando que num delito contra um menor, cometido por um clérigo, tal prescrição começa a contar a partir do dia, em que o menor completar 18 anos. Veja-se bem que não é de hoje, nem por causa dos escândalos (Estados Unidos, Irlanda, Brasil e outros), explorados pela mídia nesses últimos meses, que a Igreja pela Santa Sé, vem tomando enérgicas providências de punição desses crimes. Ninguém pode aceitar que o Papa Ratzinger seja diferente do Cardeal Ratzinger.

Jorge Luiz Ribeiro, engenheiro metalúrgico e pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas, em artigo divulgado pela internet no site SEM MÁSCARA, faz observações bem pertinentes e algumas perguntas cáusticas, sob o título “O imbecil coletivo no ataque à Igreja”. Diz ele: “Agora o “Imbecil coletivo” volta em grande estilo na discussão da moda: a pedofilia na Igreja. É preciso ser muito idiota para não perceber que existe uma campanha global, muito bem orquestrada para desmoralizar a Igreja e o Papa. A Igreja, composta de criaturas humanas e, portanto, falíveis, ainda é o grande obstáculo às investidas dos destruidores da civilização ocidental: o ateísmo, o materialismo, o relativismo moral e, agora, o avanço islâmico, que estão destruindo nossa civilização. Por que se enfatiza tanto a pedofilia na Igreja e se silencia sobre a crescente erotização das crianças nos meios de comunicação? Por que a mídia não se preocupa em acusar os padres que violam o celibato, quando se sabe que tal ocorrência é milhares de vezes mais frequente que a pedofilia? Por que o silêncio sobre a perversão sexual de Mao Tse Tung, um dos maiores pedófilos da História? E sendo Mao, mito comunista, o Grande Timoneiro, por que ninguém extrapola a acusação de sua pedofilia para todos os comunistas, como se estende para a Igreja a acusação do mau procedimento de alguns poucos sacerdotes do mundo? É um misto de cinismo e incoerência o fato de que quem critica a pedofilia o faz baseado na moral cristã, que eles desprezam e combatem. Na história da humanidade, sempre existiu a pedofilia, que só o cristianismo veio condenar e combater sistematicamente.” Até aqui Jorge Luiz Ribeiro.

A Igreja é santa – por isso é acusada e perseguida – porque se espera dela só santidade e pureza. Não se pode dizer que os padres são criminosos; o correto é dizer que “criminosos se fazem padres”. Se a Igreja põe exigências na aceitação de seminaristas, excluindo na entrada pessoas que apresentam evidentes distúrbios de comportamento, logo surgem os “soi-disant” defensores da dignidade humana, que a acusam de discriminatória, opressora, não-respeitadora dos direitos humanos.

Afirmou o Cardeal Hummes na semana passada em Brasília: “[A pedofilia] é um problema gravíssimo, intolerável. A Igreja, no momento, está sendo a instituição no mundo que mais abertamente e, com maior rigor, está combatendo este crime.

O Papa já tem dito muitas vezes que não há lugar no ministério sacerdotal para pedófilos. Em Fátima, na semana passada, Bento XVI ensinou: “A maior preocupação de todo cristão, em particular das pessoas consagradas, deve ser a fidelidade e a lealdade à própria vocação; esta exige coragem e confiança.” Exortou os padres que “prestem particular atenção ao enfraquecimento dos ideais sacerdotais.” E pediu à Virgem de Fátima “ajuda para que não faltem vocações religiosas, para que não cedamos ao egoísmo, às seduções do mundo e às tentações do Maligno.”

A Conferência Nacional dos Bispos sintetizou com lucidez o problema em três atitudes: “Para o pecado, o perdão, para o crime, o castigo, para a patologia, o tratamento médico.”


(*) É arcebispo emérito de Maceió.

RELIGIÃO E ESCRAVIDÃO.



UM DIÁLOGO POSSÍVEL ?
Sebastião Heber
shvc50@gmail.com


Será realizado na Casa de Angola um Seminário intitulado “Preconceito na Fala, Preconceito na Cor”. Ele se desenvolverá de 26 a 28 de maio, no horário da tarde.

Na Programação consta: - Abertura com o Diretor do Centro Cultura Casa de Angola, Dr. Camilo Afonso. E as palestras (dentre outras ): - O negro e a escolha entre princípios universais e contingências mundanas - Dr. Luis Lindo, USP; - Remando contra a maré:trabalhando a lei 10639;03; - Ilustração e Preconceito - prof. Dr. Tourinho Peres- UFBA; - A utilização da sétima arte no ensino de História da África. MSc Joceneide Cunha- UNIT; - Racismo e políticas de identidade na escola. Profa. Dra. América Cesar- UFBA; - Aonde está tanto preconceito? Dra. Denise Veiga Alves- CIMI; - Balanço do que está sendo feito com a lei 10639/03 na Universidade - Dr. Kabenguele Munanga – USP. - Conclusão : exibição de filme angolano.

Fui também convidado para falar, sobre o tema: - Religião e Escravidão : Diálogo Possível? Será no dia 28/05, 6ª f às 16:00 h).

A religião foi sempre um tema que interessou etnólogos e antropólogos. É uma atividade das mais antigas e rudimentares (no sentido de que toca nas origens) da humanidade. Talvez alguns pesquisadores dela se aproximem pelo possível exotismo que muitas expressões religiosas apresentam. O século XIX foi marcado por um clima de contraposição com respeito à religião – os temas em voga eram: Religião e Ciência e Ciência e Fé. Nessa abordagem, muitos iam armados de preconceitos contra as práticas dos povos chamados de “primitivos” ou “selvagens”. Essa visão foi, aos poucos se modificando, sobretudo com a segunda leva de antropólogos. Frans Boas trouxe o aporte do particularismo histórico, o que com outras visões – a simbólica, por exemplo – foi trazendo uma perspectiva mais científica da religião.

Na verdade, o padrão religioso é universal – não se conhece um povo que não tenha expressões, rituais, nesse âmbito. São múltiplos os conceitos de religião, mesmo que a concepção do sobrenatural varie em cada cultura. Mas os conceitos estão sempre relacionados com o quadro teórico utilizado.

Mas o que marcou as grandes “descobertas” foi uma associação entre interesses comerciais e a evangelização no espírito do século XVI, acrescido, de imediato, do espírito da Contra-Reforma. “Ouro, pimenta e almas”, é o que os historiadores apontam como o objeto da grande epopéia. Isso reflete o clima do Padroado: a política da Coroa era a mesma da Igreja, Altar e Trono juntos. Os descobridores já estavam bastante familiarizados com a escravidão negra. O Infante do Henrique, lá de Sagres, em 1420, já permitira a importação de escravos para “convertê-los”. Uma Bula do Papa Nicolau V, em 1469, concede ao rei Afonso V o direito de se apoderar das terras em regiões africanas e de reduzir os pagãos à escravidão. Já em 1441, os portugueses trazem negros da África e oferecem ao Papa Eugênio IV, como fruto de suas incursões.

As Capitanias Hereditárias, com o malogro do trabalho indígena, pediu a crescente presença de escravos nas nossas terra. Gilberto Freyre, já constata a presença de negros nas procissões na Bahia em 1552.

Mas qual a consciência da Igreja, dos Pastores, dos padres com relação ao problema, naquela época? Na verdade, há uma contradição entre a lei e a prática.

Ao lado da naturalidade com a escravidão já citada acima, os Papas tiveram palavras oficiais de condenação a essa situação: em 1462 o Papa Pio II eleva a voz dizendo que”isso é um grande crime”. Em 1639 o Papa Urbano VIII lança uma Bula excomungando todos os católicos que se dedicavam ao tráfico negreiro. Em 1741 Bento XIV na carta “Immensa”, repete a mesma condenação. Em 1814 e ainda em 1823, Pio VII, proíbe aos governantes de Portugal e Espanha esse comércio.Em 1837 Gregório XVI retoma as mesmas proibições. Leão XIII, em 1888, felicita os bispos brasileiros na ocasião do 13 de Maio.

Mas na verdade, ao longo de todo esse período, as pessoas diretamente ligadas ao tráfico, pouco caso fizeram desses documentos pontifícios. E, de fato, não “pegou” nenhuma excomunhão em ninguém.

Só com as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707) é que o Batismo foi regulamentado, com preparação e aceitação prévia dos escravizados, isto é, na teoria.Mas que também nunca foi aplicado “ipsis litteris”. Luis Viana lembra que “acreditava-se que, por conta das águas lustrais do Batismo,o negro deixava na África todo o seu passado milenar. Mas, ao contrário, ele não abandonava o seus cultos. Modificava-os, adaptando-os ao novo ambiente”( O Negro na Bahia).

Na verdade, predominou a existência dos elementos afros na vida dos negros escravizados. Arranca-se tudo da pessoa: família, o habitat, mas a religião, como a mais forte expressão da cultura, sempre subsiste no coração de cada um.


Sebastião Heber. Professor Adjunto da UNEB, da Faculdade 2 de Julho. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris.

RESTAURANTE POPULAR, ATÉ QUANDO?



Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


Finalmente é anunciada a inauguração do restaurante popular em Santarém. Caso não surja novo contratempo que obrigue novo adiamento, será no dia do aniversário da cidade, em junho próximo. Que ninguém pergunte por que foi tão demorado o cumprimento da promessa. Se a cooperativa de criação de galinhas caipiras, que foi criada dois anos atrás, tivesse mantido a criação, hoje teria mais de 10 mil galinhas caipiras a espera do falado restaurante popular.

Mas voltando à anunciada inauguração, a informação que chega é de que serão beneficiado, trabalhadores formais e informais, aposentados, estudantes, moradores de rua e outros semelhantes. Não foi dito quais os critérios de identificação dos beneficiários. Nem foi dito ainda qual será o preço do prato feito. Mas pode-se bem imaginar o tamanho da fila, cada dia, para comprar um almoço, pois, além dos beneficiados residentes em Santarém, cada dia são centenas de visitantes que chegam em dezenas de barcos das comunidades rurais e Municípios vizinhos.

Se o preço corresponder ao tipo de restaurante popular e se o cardápio foi bem feito, não há dúvida que a concorrência será grande. Haverá cozinha e cozinheiros em quantidade suficiente? Outra questão que preocupa quem olha lá para a frente é: como levou tanto tempo para aparelhar um prédio já existente e como será inaugurado tão próximo das eleições, será que depois de outubro o restaurante popular vai funcionar todos os dias? Até quando ele vai funcionar?

Esse tipo de serviço popular em si, é uma bênção, os pobres da cidade e da região agradecem. Mas como há um ditado que diz que alegria de pobre dura pouco é que se tem essas preocupações. Deus queira que o restaurante popular tão sonhado consiga oferecer um serviço de qualidade, barato e duradouro. Oxalá!

HUMANAE VITAE: MUITO ALÉM DA PÍLULA



Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.


No dia 23 de abril de 1960 – portanto, há exatos 50 anos - a pílula anticoncepcional recebia a permissão para ser receitada, distribuída e vendida explicitamente como anticoncepcional oral nos Estados Unidos. Começava uma revolução que, nos anos seguintes, teria influência na vida de milhões de mulheres de todo o mundo e, através delas, nos homens, nas famílias e nas sociedades de todas as nações.

Qual era a grande novidade trazida pelo pequeno comprimido que, engolido por milhares e milhões de mulheres, passou a ser o símbolo de “libertação”? Libertação da vinculação necessária do exercício da sexualidade com a possibilidade de uma nova gravidez. Libertação do desejo e da satisfação sexual pessoal diante da possibilidade de gerar um filho não planejado nem desejado. Libertação, em certo sentido, da corporeidade feminina com relação à masculina, já que agora as mulheres não estariam mais sujeitas a conseqüências de suas relações sexuais, tais como sempre o haviam sido os homens.

Era o fim de uma ditadura que dizia que “em homem nada pega”, “o homem é polígamo por natureza” e por outro lado confinava as moças “de família” a uma excessiva proteção ou mesmo confinamento, já que uma prematura ou indesejada gravidez ainda solteiras poderia expô-las à execração pública e condená-las a uma vida de solidão, sem marido e sem respeitabilidade. Com a pílula, as mulheres poderiam, enfim, tomar as rédeas de sua vida sexual e decidir com quem, quando e em que circunstâncias desejariam que seus ventres ficassem grávidos de filhos queridos, planejados, desejados.

A Encíclica “Humanae Vitae”, do Papa Paulo VI, documento que trata justamente da concepção e contracepção da vida humana, lançada oito anos depois da liberação da pílula anticoncepcional, em 1968, ficou conhecida como a “encíclica da pílula”. Justamente por se posicionar contra a mesma antes mesmo de sua liberação, mas já a prevendo.

A nosso ver, isso é uma injustiça. Na “Humanae Vitae” há muito mais que uma condenação da pílula. Há, isso sim, uma profunda e bela reflexão sobre a vida humana em sua totalidade e integralidade. O documento papal se move e se expressa dentro da dinâmica que permeia toda a revelação e a teologia que dela é reflexão: a dinâmica do dom.

Se há algo central para a fé cristã, é o fato de tudo ser - primordial e inalienavelmente - dom de Deus. A economia da fé e da salvação cristãs é, pois, uma economia do dom, e não uma economia de domínio e de poder, onde a indústria humana toma as decisões fundamentais sobre algo que não produziu nem pode produzir, mas que é dado por Deus. O ser humano se define por ser alguém que é paciente mesmo quando agente. Portanto, criado em liberdade, percebe não poder produzir-se a si mesmo, dar-se a si mesmo o ser. Tem que recebê-lo de outro.

Esta recepção gratuita e amorosa não invade nem desrespeita sua liberdade; ao contrário, pede sua colaboração e ativa participação. Assim é que o ser humano, homem ou mulher, é chamado a conduzir a história na direção que o Senhor lhe mostra como sendo a de sua plena realização. Como segurança e garantia, nada mais do que as palavras que Abraão escutou e, na sua esteira, todos os homens e mulheres que fizeram na história a bela e transcendental experiência da fé: “Eu estarei contigo”.

O documento que se posiciona contra a pílula anticoncepcional por ser um método artificial de evitar a gravidez é o mesmo que estimula os casais cristãos e católicos a exercerem a paternidade e maternidade responsável. Ou seja, sabe o Papa e o magistério da Igreja que a vida moderna não permite que se deixe acontecer a prole sem um planejamento responsável, maduro, refletido e assumido conjugal e comunitariamente, na oração, no discernimento e na escuta da comunidade eclesial.

Ao se declarar contra a pílula a Igreja está contra:

1. a invectiva de reduzir a natalidade – tentação diabolicamente neo-malthusiana – pela qual os países ricos querem penalizar os países pobres para poder usufruir mais e impunemente de suas riquezas e ter que reparti-las com menos pessoas;

2. uma paternidade e maternidade que se autoconstituam em juízes únicos e absolutos da prole que pretendem ter. Embora reconhecendo explicitamente o direito que os cônjuges têm de “em relação às condições físicas, econômicas, psicológicas e sociais, ... fazer crescer uma família numerosa, como com a decisão, tomada por motivos graves e com respeito pela lei moral, de evitar temporariamente, ou mesmo por tempo indeterminado, um novo nascimento” (n. 10);

3. uma utilização irresponsável de meios artificiais que tornem infecundo o ato conjugal e abram por aí uma porta a outras medidas, a exemplo do aborto ou da esterilização involuntária de mulheres, como acontece ou tem acontecido por parte de organizações privadas ou públicas e até mesmo de governos irresponsáveis (cf. o que diz a encíclica no n. 17);

4. recomendar o uso (há 50 anos) de um recurso químico recente, do qual ainda não se sabiam nem conheciam as consequências. A equipe de peritos convocada por João XXIII em 1963 e que por cinco anos trabalhou com ele e com seu sucessor Paulo VI, não tinha nenhuma certeza das consequências que a pílula poderia trazer ao corpo da mulher ou aos filhos que ela viesse a gerar após ingerir a pílula.

Ao escrever a Humanae Vitae, o papa Paulo VI

1. está a favor da vida, em primeiro lugar e inegavelmente. E isso pode ser sentido desde o primeiro até o último parágrafo do texto pontifício. Sua única preocupação é proteger e preservar a vida em sua sacralidade e sua beleza, tal como a deseja e a concebeu o Criador;

2. em segundo lugar, quer proteger a instituição do matrimônio cristão. Quer colocar bem altos seus ideais, finalidades e objetivos. Quer reafirmar a beleza da união entre o homem e a mulher e apontar para o fato de que esta união tem finalidades mais altas do que simplesmente o prazer imediato e a satisfação de necessidades biológicas;

3. quer reforçar a responsabilidade e o dever gravíssimos de gerar novas vidas. Trata-se de uma participação direta na obra do Criador, portanto algo que fala alto sobre a criação do ser humano à sua imagem e semelhança.

Finalmente, gostaríamos de ressaltar o grande benefício que significou para a humanidade a descoberta da pílula anticoncepcional. Evitou, certamente, a morte de milhares e mesmo milhões de mulheres que sem ela estariam irremediavelmente condenadas à morte por partos sucessivos ou inevitáveis, ou ao aborto muitas vezes feito em condições inadequadas e por isso mesmo também e igualmente mortais.

Hoje, com a distância histórica de 50 anos, é possível ver que a produção dos anticoncepcionais também avançou. Há mais cuidado por parte dos médicos ao receitar pílulas a suas pacientes e por parte destas em tomá-las. Várias mulheres preferem outros métodos para evitar a gravidez, sem química, sem interferência direta em seu organismo.

Porque não se pode esquecer, sobretudo quando se é mulher, que ao fazer a tão temida mamografia, exame para rastrear precocemente o câncer de mama, uma das primeiras perguntas que ouvimos por parte do radiologista é esta: “Toma ou tomou pílula anticoncepcional”?

O Papa Paulo VI e seus assessores não estavam tão errados ao não recomendar a pílula, sobretudo em um momento em que esta apenas iniciava sua trajetória de distribuição ao grande público. Mesmo que não tenha sido este o motivo principal. Eis aí um motivo a mais para não simplificarmos uma reflexão que está longe de ser simples, pois o passar do tempo só a torna ainda mais complexa.


Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/

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