segunda-feira, 29 de março de 2010

UM ESTRANHO PARA AMAR



Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com


O tema é delicado. Envolve um tipo de relação humana muito rica e difícil, em que um ou dois adultos resolvem assumir como filho alguém cujos pais não quiseram ou não puderam criar. Mas é também importante e necessário, já que pode ser a oportunidade de resgatar o que se considera o fator maior para o equilíbrio psíquico e afetivo de uma criança: conviver e sentir a segurança de uma família estável.

Não vou falar do ato legal e burocrático, quase sempre cego e surdo ao coração; é um ato necessário, mas dependente do tipo de racionalidade de quem interpreta os fatos e lida com o texto da lei. Também não se deve esquecer que há manipulações nesse ato, e que o próprio pretendente à paternidade/maternidade pode esconder interesses bem distantes – e até contrários – daqueles do menor que está reivindicando.

Mas a adoção consciente, feita por pessoas que querem dar um destino digno a seus próprios sentimentos e transformar alguém em um filho, é um dos atos humanos mais próximos da idéia de Deus que temos em nós. Nada e ninguém obrigam a isso, e no entanto há quem assuma esse compromisso para toda a vida, diferente de todos os outros; um compromisso mais pesado e mais doce que um casamento, de resultado incerto. Mesmo assim, quem não desanimou e persistiu até conseguir realizar o que desejava, e enfrenta tantas dificuldades até abrir o espaço necessário para que o pequeno estranho seja transformado em filho pelo amor e pelo desejo, só pode ser gente boa, dessa que salva e redime o resto da humanidade.

Ninguém é obrigado a isso, no entanto. Há quem prefira gerar embriões que serão congelados e na melhor das hipóteses prover a medicina de células-tronco. Um destino útil, sem dúvida, mas não a vida do jeito que a conhecemos e experimentamos, do jeito que a desejamos para alguém que se ama como filho. Há outras fontes de células-tronco, que agora a ciência já consegue até duplicar artificialmente.

Acredito que todos temos em nós essa potencialidade de ser pai ou mãe. Se por algum motivo ela não se concretiza num filho biológico, e diante de tantas crianças órfãs, abandonadas e maltratadas pelos pais e/ou pelos estranhos que lidam com elas, é quase instintivo que se procure aproveitar esse espaço para tirar um ou mais desses menores do estado de abandono, dar a eles um futuro digno e uma chance de felicidade.

Obs: Imagem enviada pela autora.

ARTE NA BUTIQUE


Ronaldo Coelho Teixeira
ronteixeira@bol.com.br


O enigma cultural continua devorando artistas das mais diversas áreas. Em pleno Século XXI, a antiga e onipresente charada da esfinge denominada Cultura ainda não foi decifrada.

Isso acontece porque nossos artistas (a maioria!) estão omissos, enquanto os pseudo-artistas tomam conta da ribalta e a pirataria grassa lado a lado com a elitização da arte.

Não nos esqueçamos que Cultura é o conjunto dos costumes e manifestações de um povo, ou seja, todos os valores mantidos ou que, criados, passam a ser vividos como bem comum. É o que o danado do sabido do Câmara Cascudo chamava de sabedoria oral da memória coletiva.

Como o programa da nossa era parece ser a destruição do passado e os que ignoram este – não se enganem! – estão condenados a repeti-lo, seguimos repetidos repetidores alienados dessa memória. Primeiramente, porque fomos colônia portuguesa (todo o ouro para a Coroa!). Depois, européia (laissez-faire, laissez-passer!). E agora, americana (the american way of life!).

Hoje, o sistema vigente pega uma manifestação popular, dá-lhe um banho de loja e a coloca nas vitrines das butiques da moda. Mas com um valor tão alto que apenas uma minoria privilegiada pode ter acesso a esse bem cultural.

Se o ato criativo é individual, acima de poderes e impérios, necessita ficar longe da interferência do Estado. A Cultura, não. Por ser esta um fator de identidade, de riqueza e de patrimônio de uma nação é, então, questão política, ou seja, de Estado. Porque um povo sem identidade não tem auto-estima e, sem esta, é alvo fácil de culturas fortes, política, econômica e socialmente.

Assim, com a arte na butique e as manifestações populares minimizadas, pirateadas ou em guetos, entende-se porque o genial Plínio Marcos dizia que Cultura nas mãos dos poderosos constrange mais do que armas. E dá pra entender também porque o emblema cultural da nossa elite é a Disneylândia.

Obs: Imagem enviada pelo autor.
Texto retirado do livro do autor – Surtos & Sustos

TEXTO DE NICOLE BIANCHINI



nicole_bianchini@hotmail.com


Contorci dedos,
palavras, a coluna e desejos
Só ganhei essa dor que dói curvar,deitar
custa sequer chorar.

SIMPLES ASSIM...



Wilson Guanais
wilson_guanais@hotmail.com


quando
Você me olha
eu sinto
que Você
me enxerga

quando
Você me abraça
eu sinto
que Você
me Abraça

quando
Você me beija
eu sinto
que Você
me Beija

quando
Você me deixa
eu sinto
que Você
permanece...

A MORTE CEGA

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/







Acordo e vejo
Que durante o sono
Minha morte foi adiada
A vida prolongada
Posso ainda,
Jogar um segundo tempo




Antes que elas se fechassem eu precisava fugir. Fugir das portas, das janelas, das cortinas vermelhas, do fogo e do sangue. Na ânsia de atravessar para o outro lado, avistei seu rosto.
Da cadeira onde estava, como quem viaja, lançou-me um derradeiro olhar. A porta ainda aberta, sem chaves, sem grades, me permitia ver no espelho a imagem esfumaçada. Ali, em poucas horas, a ausência estraçalhou meus sonhos.
Vencedor da corrida deixava-me para trás. Nos lábios selados, o segredo das palavras omitidas. Assim, terminava a história que juntos havíamos começado: na tristeza e na alegria, na saúde e na doença. Fechava-se, no seu olhar, a derradeira porta.
Com a esperteza de um jogador que guarda uma carta na manga, jogara a última cartada, ganhara o jogo, deixando a maior e a pior das heranças - um espaço vazio dentro de um imenso nada. Sombras pintadas nas paredes, apenas sombras. Lágrimas de grafite na pureza magoada. Se tivesse me trocado por outra, eu teria o ódio para me ajudar a sofrer. Se tivesse partido sozinho eu o saberia no mundo, em qualquer lugar. Quem sabe, até poderia vê-lo de vez em quando, matar a saudade dos meus olhos. Mas, assim, do jeito que partiu, sem dizer para onde, foi covardia.
Antes que a porta se fechasse eu precisava fugir.
A linha do horizonte tingiu de sangue uma história apenas começada.
O que fazer do espaço vazio, como ocupá-lo, como avaliar os mistérios da alma que acabara de fugir sem dizer adeus?
No quarto, a cama, o sorriso, o abraço, o abraço que um dia capturou a inocência de quem ainda não temia as ameaças da vida. Na varanda a cadeira de balanço, as chinelas submissas, o jornal de ontem.
Foi assim, assim mesmo, ali mesmo que comecei a morrer.
Não era tempo ainda, e ele descobriu a saída. Cortando caminho, partiu por uma estrada que eu não conhecia. Naquela noite apagou-se no meu rosto o último sorriso verdadeiro, a alegria que me fizera multiplicar a vida, brincar de rodas, de coelho sai, passar o anel para ser feliz.
Calma, paciência, conformação. Quem inventou esta voz? Algumas palavras se reproduzem, bastardas, mentirosas, usam máscaras, riem, zombam como se fossem gente.
Naquela noite, um raio atravessou-me o corpo. Entre dois mundos dividiu minha dor. Onde estava a outra alma a que me entregaram para começar uma história?
Vingança, fuga, cilada? A supremacia do sábio que deixava para trás um emaranhado de lembranças de cheiros, de imagens. Coisas que a gente não sabe quando nascem nem quando morrem.
Agora, a solidão, monstro de muitas cabeças, voz de trovoada, agita-me os pensamentos. Cada vez mais compreendo menos. Meu mundo entrou em coma. A cada dia morre um pouco.
E assim, nos suspiros do vento ele partiu.
Ali fiquei sem saber para onde ir. Fechar os olhos e morrer também? Fugir? Para onde? Fiquei ali, ali mesmo fiquei olhando sem ver, escutando sem ouvir. Esta amargura tão grande, meu Deus, como suportá-la? O coração disparado, o rosto sem cor, as mãos geladas. Gritar? Como abrir o peito para soltar o grito? Preferi parar. Os ombros caídos, as mãos geladas, nos olhos uma ameaça de chuva.
O silêncio se multiplicava na sala, no quarto, na cama, na rua, no mundo. E doía e cravava as garras no meu corpo, na minha alma, no coração que não sabia parar as batidas descompassadas, pelos sustos da respiração.
E foi assim, assim mesmo, que ele se foi.

Obs: Imagem enviada pela autora.
Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega
As Catástrofes Naturais,
as Sociedades e o Estado do
Conhecimento

Terceira Parte: Os Três Últimos Eventos

Por J. A. Horta da Silva (28/02/2010)




Ex-Director do INETI (Coimbra)
Escritor (horta.silva@sapo.pt)


Quando terminei a segunda parte deste artigo, dedicada a ciclones e deslizamentos, devolvi o tema à Natureza, na esperança de umas férias ao arrepio de elucubrações acerca dos desentendimentos entre o Céu e a Terra e da Terra consigo mesmo. Assim não entendeu a Natureza ao presentear-nos, uma semana depois, com os grandes deslizamentos ocorridos no Sul de Itália, duas semanas depois, com a catástrofe da Madeira e, por fim, quase três semanas depois, com o grande sismo do Chile, razões bastantes para me sentir obrigado a voltar a olhar para estes assuntos. De mais a mais, desta feita, o mal entrou-nos em casa e, quando o mal nos invade a casa, a dimensão da tragédia agiganta-se e gera tensões nos mais desprendidos. Por isso, é indispensável analisá-la com bom-senso, à luz do estado actual do conhecimento, sem deixar que a esperança caia nos braços dos destroços.

Os deslizamentos no sul de Itália (Maierato e S. Fratelo) foram espectaculares e, graças à disponibilidade de telemóveis com câmara de filmar, apareceram nos noticiários das televisões e em sites da Internet, tal qual a Natureza os proporcionou aos olhos do mundo: enormes volumes de massa deslizando de forma lânguida e indiferente ao reparo das povoações adjacentes. Resultado: pasmo, amedrontamento e impotência de quem testemunhou os acontecimentos, certamente mais preocupado com os bens do que com a própria vida. A avaliar pelas imagens que nos chegaram, estes deslizamentos parecem seguir o figurino daquilo que nos é revelado por um bom livro de Mecânica dos Solos. A superfície de deslizamento parece do tipo circular simples ou múltiplo e a ruptura deu-se face ao súbito incremento da tensão da água nos poros do solo, em razão das intensas chuvadas que caíram na região. Desta feita, a Natureza foi indulgente com a vida humana, muito embora tenha colocado em risco povoações que foram evacuadas. Na vigência do governo do alto-comissário Coronel Pires Veloso, desloquei-me a S. Tomé, acompanhado de dois colegas de trabalho, para avaliar as causas do deslizamento do Rebordelo (dois milhões de m3 de terra) que soterrou uma aldeia que ficou inumada a cerca de cinquenta metros de profundidade. Pereceram, pela hora de almoço, mais de meia centena de pessoas e a capital de S. Tomé ficou privada de água e de energia eléctrica, dado que o deslizamento arrastou consigo o canal adutor que servia a cidade. Como solução de recurso, foi construído um by pass à zona afectada, usando como elemento de interposição, um cone de um vulcão extinto. No inquérito, então em curso, procuravam-se culpados. Não sei o que ficou exarado nas conclusões do inquiridor. Mas sei que depus, ao tempo, que S. Tomé e Príncipe não tinha quadros com formação à altura de analisar um processo de ruptura progressiva de uma encosta constituída por solos residuais problemáticos, ricos em argila constituída por material amorfo (alofana e imogalite) à mistura com blocos de rocha decomposta e blocos de rocha alterada, nem tão pouco tinha quadros à altura de calcular o factor de estabilidade de um talude homogéneo e de pequenas dimensões. Por isso, a culpa parecia-me ser do Estado.

A tragédia da ilha da Madeira não se deveu a deslizamentos de massa, muito embora, pontualmente, possam ter existido pequenas derrocadas e cedências de socalcos. Para além do número de vidas, demasiado pesado para o evento em causa, ressalta sobretudo o forte efeito erosivo das águas bravas que arrastaram não só a argila, a areia e o cascalho dos solos, mas também calhaus, matacões e blocos de rocha de consideráveis dimensões e, obviamente, veículos, mobiliário e outros bens de equipamento. Estamos perante uma tragédia, que se deveu, fundamentalmente, a quatro tipos de deficiência:

a) Não existência de serviços meteorológicos equipados à altura de prever, com a devida antecipação, o nível das tempestades. A inexistência de radar é imperdoável.
b) Inadequada preparação da Defesa Civil e das populações, para enfrentar a ocorrência de eventos desta natureza.
c) Falta de infra-estruturas drenantes apropriadas a picos de grande pluviosidade e inadequada ocupação e uso do solo.
d) Deficiente ordenamento do território.

Todos sabemos que o peso da História de um povo também se faz pela acumulação de erros, que provêm de hábitos que se perpetuaram nos tempos, graças a benefícios ornados de risco que, mais tarde ou mais cedo, podem ser cobrados com custos avultados. Na Madeira, o ordenamento do território e a ocupação e uso do solo são maus, como são maus em muitas outras regiões de Portugal, incluindo o Continente. Ter pontes construídas a cotas inferiores à cota máxima de cheia das ribeiras e ter prédios posicionados em leitos de cheia é uma insensatez. Em termos de hidráulica, as barragens são calculadas do ponto de vista probabilístico para a cheia do milénio, os leitos de cheia para a cheia do século e os colectores citadinos estão a passar para duas décadas. Vivemos uma fase intranquila do nosso planeta, nomeadamente do ponto de vista climático. O regime torrencial, as tempestades tropicais, os ciclones e até tornados tendem a aparecer em regiões onde não são tidos como característicos. E é nesse sentido, que temos de planificar o futuro que vai ser árduo, longo e dispendioso.

Finalmente, sobrou o terramoto do Chile. Quase nove na escala de Richter, versus sete no terramoto do Haiti. O ímpeto da placa Nazca voltou a afrontar a capacidade dos povos da América Latina em especial ao correr dos Andes. E, desta vez, o Chile aguentou uma das maiores sacudidelas a que a crosta terrestre foi sujeita. Segundo um artigo da NASA, o sismo terá alterado o eixo de rotação da Terra e terá encurtado ligeiramente o dia. Obviamente, ainda com demasiadas mortes, mas também com muitas estruturas (edifícios, pontes e outras) a aguentarem as múltiplas solicitações a que foram sujeitas, facto que demonstrou, ao mundo, que a América Latina não é o Haiti e que muita gente desta América Latina passou por escolas onde aprenderam a projectar e a construir tendo em conta o risco sísmico, facto que me leva de volta à primeira parte desta crónica, designadamente às lições de sismologia no Imperial College (Londres) e aos estudos experimentais relativamente ao comportamento de estruturas sujeitas a solicitações sísmicas. Se estiverem vivos, aqueles que dimensionaram e construíram as estruturas que resistiram ao último grande sismo do Chile, o mundo deve retribuir-lhes, em vida, com uma profunda e prolongada manifestação de gratidão. É deste modo que se deve encarar o futuro.

A Natureza é, na verdade, para mim, um armazém de marcantes recordações e, revivê-las, um imperativo de sobrevivência, sob a plenitude da sanidade mental. Podem cantar aos quatro ventos que é uma loucura. Contudo, este sacrifício e outros afins não passam de formas de evitar que a consciência me acuse, quando chegar a hora do meu repouso eterno. Cada um tem a fé que tem e eu, em miúdo, embora adorasse minha mãe, nunca acreditei que o azul fosse a cor real do céu, que ela dizia ser a fronteira do reino de Deus. A ignorância, a insensatez e o vício são de tal modo humanos que as sociedades ficariam desumanizadas se este e outros defeitos cessassem. «Já viram o que era viver numa sociedade na qual ninguém reconhecesse a virtude, pelo facto de não existirem vícios e outros malefícios e a economia girasse à volta do vácuo da generosidade?(...) Os grandes profetas e místicos da História são excepções e a humanidade é tudo menos uma excepção; a humanidade é a regra, muito embora Frei Luís tivesse concluído, depois dos seus estudos sobre S. Tomás, S. Agostinho, S. Bernardo, S.ta Tereza e outros: «Quer se ensine ou se viva no claustro, se trate ou não de doentes, se seja ou não religioso, todos acabamos por ser chamados à vida interior (...) e obrigados a reflectir sobre os frutos da própria vivência.» Horta da Silva (2003)¹


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¹ Horta da Silva (2003) – Introspecção de Nuno Barros (narrador) no romance “O Ambientalista, A Esfinge Egípcia e A Face Oculta da Verdade”.

SEMANA SANTA E DINHEIRO



D. Demétrio Valentini


Com o Domingo de Ramos se conclui a campanha da fraternidade, culminando com a sugestão de um gesto, que simbolize as boas motivações que ela foi despertando.

Desta vez o tema destacou a economia, e o lema advertiu que o dinheiro não pode usurpar o lugar de Deus.

Agora entramos na Semana Santa. Poderia parecer que é hora de esquecer o dinheiro, e pensar só em Cristo. Mas para nossa surpresa, em cada dia da semana o dinheiro comparece, mostrando como ele pode ser usado com intenções bem diferentes.

A liturgia da segunda-feira traz a narrativa do óleo derramado sobre os pés de Jesus, por Maira, que os enxugava com seus cabelos. Maria, irmã de Lázaro, enternecida de amor e de gratidão por seu Mestre. Judas, frio e calculista, fazendo suas contas, cotando o desperdício em “trezentos denários”. Instado, o Mestre toma posição, e acrescenta ao amor de Maria um preço ainda maior para o óleo que ela tinha derramado :serviria para a sua sepultura!

Na verdade, Jesus estava colocando critérios para o uso de dinheiro. Depende das causas, a serviço das quais ele é posto. Daí ele adquire o seu verdadeiro valor.

Na terça-feira o Evangelho descreve Judas, partindo para a traição, amparado nas aparências das boas intenções do seu ofício. “Pensavam que ele fosse comprar alguma coisa para a festa, ou dar alguma coisa para os pobres”. Na verdade, com os olhos fixos no dinheiro que lhe fora prometido, partia resoluto para a traição.

De novo, a destinação faz a diferença. Se o dinheiro serve para a festa da vida, ou para a ajuda aos pobres, ele é abençoado. Se usado para trair inocentes, ele vira perverso.

Quantos ainda hoje se valem das boas aparências das administrações, ou do seu ofício, para desviar dinheiro e impedir que ele seja colocado a serviço da vida.

Na quarta-feira o Evangelho mostra Judas negociando a traição. Acertou o preço em trinta moedas. Entenderam-se no valor da traição. Mas ignoraram o valor da vida, que não tem preço, e que estava sendo sacrificada em nome do dinheiro.

Na quinta-feira a liturgia destaca o contraste entre o amor total de Cristo, e a fria traição de Judas. O Evangelho observa que “o demônio já tinha seduzido Judas”, e suas ações eram inexoráveis. A fidelidade ao “contrato” de trinta moedas, eximia Judas da fidelidade ao amor gratuito do Mestre.

Quando na economia se instala o demônio da exploração, ela adquire uma lógica perversa, sacrificando vidas humanas em nome da inexorabilidade de suas “leis” .

Na sexta-feira santa, no final do solene relato da paixão do Senhor, comparecem, quem sabe tardiamente, Nicodemos e José de Arimatéia, homens de posses, trazendo uma quantia muito grande de perfumes, para ungir o corpo do Senhor morto. Se tivessem em tempo pago um advogado, ao menos para apontar as inúmeras irregularidades jurídicas do processo sumário contra Cristo, talvez o dinheiro deles teria valido mais. Quantas vezes o dinheiro acumulado perde oportunidade de estar a serviço da vida.

No sábado santo a liturgia se detém ao redor do túmulo, onde fora depositado o Senhor. Era um túmulo emprestado, provisório, destinado a testemunhar que o corpo nele depositado sairia de lá ressuscitado, para mostrar que a vida tem muito mais força do que a morte, quando impregnada do mesmo espírito que levara Jesus a morrer por nosso amor. Assim deveriam ser os empréstimos, para permitir que as pessoas saiam depressa da dependência que os explora. E não serem túmulos definitivos, de onde os pobres nunca mais conseguem sair.

O domingo de páscoa mostra o túmulo vazio, mas os corações cheios de alegria. Em vestes simples de jardineiro, ou de viandante, com um pouco de pão, Jesus restituiu a felicidade inaudita a quem tinha mergulhado na tristeza incomensurável. Com poucos recursos, mas com muito amor, é possível descobrir a verdadeira felicidade da vida, e a esperança na futura ressurreição.

Assim, em cada dia da semana santa, poderíamos nos deter na reflexão que o Evangelho nos sugere (www.diocesedejales.org.br) Associada à páscoa, esta campanha refaz o caminho de Emaús, onde podemos descobrir que o Senhor Ressuscitado caminha conosco, e se revela nos gestos de nossa partilha fraterna.


* A partir de segunda-feira, dia 29 e durante toda a Semana Santa, confira no site da Diocese: www.diocesedejales.org.br a reflexão de D. Demétrio sobre a liturgia do dia, destacando a surpreendente presença do dinheiro na paixão de Cristo.

O QUE É A MÍSTICA – PARTE II



Dasilva, novembro 2009.


 Desenvolver a mística não pode se confundir com o culto ao passado, relembrar os momentos trágicos da história e criar o sentimento da dor e morte sempre presentes para estimular a cultura de resistência entre sujeitos de semblantes pesados, sorrisos tristes e punhos cerrados.

 É a vida que causa paixão, é pela vida que os seres humanos se movem, é ela que deve ser celebrada. Que se celebre os lutadores em vida, que se declare o reconhecimento a cada pessoa pelo esforço de sua luta. Celebrar a vida e a alegria não é esquecer os compromissos da luta por transformações, é lembrar que o ser humano tem o direito de sorrir e ser feliz.

 Observa-se, hoje, uma conjuntura que vai de um extremo ao outro, da mística ao misticismo. Diante da mercantilização total da vida cotidiana, a mística corre o perigo de se tornar mercadoria, chavão, moda. Mística pode significar recitação de poesias, serenata, cantoria, reza; pode ser um olhar contemplativo à beira de um rio, um ritual festivo na aldeia e o êxtase de um monge tibetano.

 A mística não é propriedade de nenhuma instituição. A palavra “mística” tem a mesma raiz que a palavra “mistério”. O mistério não se explica, vive-se, na contemplação e na ação cotidianas. A mística é como a utopia. Ambas não se deixam aprisionar em conceitos ou definições.

 Não podemos ter místicas como se tem uma propriedade ou um objeto. Somos místicos. A mística não pode ser funcionalizada onde tudo é avaliado por sua funcionalidade ou pela utilidade que tem. Rezar e fazer poemas não tem utilidade, não tem preço, não pode ser vendido. A mística está no meio de nós como dom, não como posse. Mas o que não tem preço, pode ter muita dignidade. Temos mística ou somos místicos? Talvez, temos e fazemos mística e ainda não somos suficientemente místicos. Ninguém é místico vinte quatro horas por dia. A mística se revela no serviço desinteressado a causa dos oprimidos e nos faz simples, despojados, leves.

 Na mística, se vive o fim da dicotomia entre o campo espiritual e o material; não é luta e contemplação, mas luta na contemplação ou contemplação na luta. A redução da utopia para um suposto realismo no “aqui e agora” cria miopia, faz perder a esperança, compromete a fé e enfraquece a solidariedade.

 A mística tem dois braços. É mística da terra, da realidade material, da luta e das marchas e a mística do transcendente que se faz carne a cada dia; luta simbólica presente na transfiguração das estrelas, do céu, da poesia, das canções, dos bonés e das palavras de ordem.

“Mística é o conjunto de convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam as pessoas e movimentos na vontade de mudança, ou que inspiram práticas capazes de afrontar quaisquer dificuldades ou sustentar a esperança face aos fracassos históricos.”

Obs: Parte III será postada no dia 20.04.2010

ADÁGIO PARA UM PEREGRINO



Regina Carvalho
reginahcarvalho@hotmail.com


Passa,
o cenário fica,
fica o detalhe da vitrine,
o cheiro da alfazema,
a cor azul
do sábado
no abajur.
Um alfinete e um laço vermelho
no peito do vestido,
branco de algodão.
Será que passa
ou não?

NÃO REZE!!



Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Não, não reze!
Não peça,
ouça o que eu digo!

Muitas vezes, numa hora dessa,
agimos como nosso inimigo!

Deixe fluir, deixe vir
e se for possível,
que te encontre aqui..

Existem momentos
que pensando saber o que é preciso,
lutamos, queremos porque queremos
machucamos, vamos em frente
e não nos atemos ao que foi dito..

Não somos nós
que permitimos o ir embora.
É quando não há mais Paz,
quando o estranho se posta,
quando a brecha se faz..

Não precisa de prece!
Não precisa ter receio,
apenas peça
para não repetir os erros..!


Obs: Imagem da autora.

O MENINO, A BICICLETA E EU



Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


Não e novidade que todo final de semana eu fujo da cidade e vou para o planalto santareno. Esse domingo não foi diferente. Depois de enfiar a cara no travesseiro quando a mamãe me chamou às 07h00 (gritei sonolenta que era domingo, e dia de domingo é proibido acordar cedo,já basta a semana inteira), tive que levantar.

Pegamos a estrada ainda cedinho, no fim das contas foi até bom, o vento da manhã estava friozinho e dava até para sentir o cheiro de terra molhada por causa do orvalho da noite.

Mas eu vim aqui para falar do menino e da bicicleta.

Bom o menino era meu tio de 11 anos e a bicicleta era a dele.

Depois de varrer o quintal vi a magrela vermelha encostada numa árvore.

Acho que já fazia uns seis anos desde a última vez que eu andei em uma.

Varri o quintal rapidinho.
Eu encarava a bicicleta e ela me encarava.
Decidi me aproximar.
Quando me preparava para pegar a bicicleta, o guri empacou do meu lado.

- Tu sabes andar de bicicleta? – perguntou ele com um sorriso malicioso.

- Menino quando tu nem pensava em nascer eu já andava de bicicleta. Pro teu comando eu aprendi a andar quando tinha seis anos*. – respondi.

Ele se abriu na risada diante da minha resposta (na real acho que ele tava curtindo com a minha cara).

- Tá achando que eu vou cair é?

Ele continuou rindo.

- Se eu cair quem vai se machucar é eu não é tu. Se ralar vai ser em mim, viu.

Aí que o menino ria.

Saí empurrando a bicicleta para fora do quintal (o terreno é cheio de imperfeições, lá a queda poderia ser mais feia) e o pirralho atrás.

- Você vai lá para o asfalto é?

- Não sei.

Subi na bicicleta.

E o menino correndo atrás, subentendi que ele queria me aparar (Titio não levou em consideração que sou alguns centímetros mais alta e algumas gramas mais pesada do que ele)

Pensei comigo mesma ‘é agora que vou para o chão’, mas não fui.

Dentro de mim uma voz interior me dizia ‘ você está andando. Nossa! você está andando, você não caiu, eu consegui, eu consegui’.

Na hora de puxar os freios, cadê os freios?

Na falta dos automáticos foi o pé no chão mesmo. Parei num montinho de capim.

Fui entender que uma vez que você aprende a andar de bicicleta e para sempre, isso é uma coisa que nunca se esquece.


P.S: Quando eu tinha seis anos eu ganhei minha primeira bicicleta. Ela era azul royal com uns detalhes brancos. A primeira vez que sai pedalando sem as rodinhas quase cai dentro de uma bacia com roupas, sorte que a bacia era daquelas de borracha feita de pneu de caminhão (hoje já não se vende mais), eu bati e voltei automaticamente. Antes que a mamãe se desfizesse dela, eu ainda pedalei por muitos e muitos anos.

Obs: Imagem enviada pela autora (Foto: Lorena Castiglioni)

PARA UMA PÁSCOA NOVA E UNIVERSAL



Marcelo Barros (*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)


Em uma sociedade que não é mais movida por preceitos religiosos e, cada dia, é chamada a assumir o seu caráter leigo e multicultural, as celebrações pascais de cada ano parecem ser ainda resquício da velha cristandade que sobrevive nas procissões da Semana Santa e nos rituais de quem freqüenta as Igrejas. Muita gente aproveita o final de semana prolongado para viajar e curtir férias, nas margens de algum rio, em casas de parentes, ou em alguma cidade mais bucólica.

No hemisfério norte, o frio dá lugar ao verde da primavera . No sertão nordestino, as primeiras chuvas garantem uma boa estação. No Centro-oeste, a paisagem verde ameniza o calor úmido do verão. E a primeira lua cheia desta nova estação nos lembra que é a Páscoa. Em hebraico, o termo significa passagem ou salto da natureza, celebrada desde tempos imemoriais. Apesar de que os rituais indígenas de cura da Terra Mãe e, no Candomblé, a festa das águas de Oxalá, ritos da primavera do hemisfério sul, se dão em setembro, somos chamados já a valorizar ecológica e humanamente a celebração de uma Páscoa nova e universal.

Nas comunidades judaicas, a festa pascal recorda que a vocação de todo ser humano é ser livre. O chamado divino é sempre libertador, no plano social e no nível interior e íntimo de cada pessoa. Só existe Páscoa se entrarmos sempre de novo em um processo de libertação pessoal e social. Neste sentido, as conquistas sociais e os novos modelos políticos que se iniciam em vários países da América Latina, (Bolívia, Equador, Venezuela e agora Uruguai), embora ainda incipientes e contraditórios, não deixam de ser sinais de que a Páscoa é atual. No Brasil, este ano de eleições, não deixa de ser para nós, brasileiros, ocasião de exigir dos/as candidatos/as que pedem nossos votos, garantias mais profundas de que se manterão as conquistas feitas no sentido de um Brasil mais justo, mas também o compromisso de passos novos, na direção de uma mais equitativa distribuição de renda, de uma reforma agrária justa e um desenvolvimento que não seja só econômico, mas eco-social e respeitador das águas e dos povos empobrecidos. Sem abolir a democracia representativa vigente, precisamos conquistar, quanto antes, instrumentos adequados de uma democracia participativa que nos permita controlar os eleitos e o exercício do poder que delegamos a eles, para nos representar e não para nos substituir. Só assim, celebraremos uma Páscoa nova na sociedade.

Para mim que sou cristão, a festa da Páscoa tem uma dimensão afetiva imensa e renovadora. Ela vem me estimular a abandonar todo acomodamento e “ressuscitar” com Jesus Cristo para um modo de viver novo. Refaz no coração a opção de retomar profundamente o que de melhor, mais humano e generoso existe em nós, assim como renova nossa capacidade de conviver com as pessoas e com a natureza como servidores e seres de comunhão e não como concorrentes e adversários na corrida da vida. A Campanha Ecumênica da Fraternidade 2010 nos chamou para colaborar na implantação concreta de uma economia solidária de partilha. Temos de encontrar criativamente instrumentos locais para isso.

Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano, assassinado pelos nazistas na Alemanha (1945), dizia: “O Cristo ressuscitado se manifesta vivo em forma de comunidade”. Isso nos recorda a figura de um monge russo (Serafim de Sarov) que viveu no século XIX, como eremita nas florestas. Vivia uma profunda comunhão com a natureza. Conversava com as feras, cantava com os pássaros e acariciava as árvores. De vez em quando, ao caminhar pela floresta, se encontrava com andarilhos e pessoas fugidas da sociedade. Ao vê-los, sempre se inclinava e depois de orar, dizia: “Ao ver você, irmão (irmã), vejo que de fato o Cristo ressuscitou!”. Nesta Páscoa nova, exercitemos este olhar divino com as pessoas com as quais convivemos e que encontrarmos no nosso caminho.

(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

O SANTO SUDÁRIO DE JESUS



D.Edvaldo G. Amaral
(dedvaldo@salesianosrec.org.br)


Venera-se em Turim – norte da Itália - uma preciosa relíquia, que todas as pesquisas científicas e históricas nos asseguram ser o linho em que o corpo de Jesus foi envolvido, cujo fato é relatado pelos evangelistas – Mt 27, 59; Mc 15, 46; Lc 23,53 e Jo 19,40. Este linho recebeu na tradição cristã o nome de Santo Sudário.

O Sudário é um lençol de linho, tecido em forma de espinha de peixe com cerca de 4m41 de comprimento por 1m13 de largura, exibindo a imagem em negativo de um homem, morto em seguida ao suplício da flagelação romana e a crucifixão.

As notícias históricas que possuímos anteriores ao século XIV, se bem que não numerosas, confirmam a tradição de que o Sudário de Turim é o verdadeiro lençol em que o corpo de Jesus foi envolvido após a sua morte pela frente e pelas costas e que, após a sua ressurreição no terceiro di0a, foi encontrado pelos apóstolos, conforme nos narram os santos evangelhos – Lc 24,12 e Jo 20, 5-7.

Na antiga Edessa, hoje Urfa da Turquia, em 544, fala-se de uma extraordinária imagem em linho, “não feita por mão de homem”, conservada dobrada de forma a apresentar só o rosto de Jesus. A imagem de Edessa foi transferida em 944 para Constantinopla, então sede do Império bizantino, onde foi estendida permitindo assim a visão completa do corpo do Crucificado de frente e de costas. Por volta do ano 1204, durante a ocupação de Constantinopla pelos cruzados, há testemunhos escritos de cruzados que viram o “santo sudário do Senhor”. Em 1º de agosto de 1205, Teodoro Ângelo, da família do deposto Imperador de Constantinopla, escreve ao Papa Inocêncio III lamentando os saques realizados pelos cruzados na cidade, e em particular requerendo a restituição do Sudário do Senhor, que estaria em Atenas.

Apesar dessas ligeiras informações, diz o Prof. Maurício Baradello, diretor do Comitê do Santo Sudário, os primeiros documentos que nos fornecem informações seguras sobre o santo sudário de Turim remontam à metade do século XIV, com Geoffroy de Charny, cavaleiro e homem de fé, que o transferiu em 1353 para a igreja, por ele edificada em seu feudo de Lirey na França. Margarida de Charny, por causa da Guerra dos Cem anos, retirou o sudário de Lirey em 1418, levando-o consigo em sua peregrinação pela Europa afora, até que 1453, doou-a aos duques de Savoia, origem da dinastia italiana. O beato Amadeu IX ampliou e embelezou a capela do castelo de Chambery para acolher o Santo Sudário. Foi em Chambery que, a 4 de dezembro de 1532, aconteceu o pavoroso incêndio, que danificou alguns pontos extremos do linho, parcialmente reparados pelas Irmãs Clarissas dois anos depois, em 1534.

Em 14 de setembro de 1578, Emanuel Filipe transferiu definitivamente o Santo Sudário para Turim para ser venerado por São Carlos Borromeu, cardeal de Milão.

Em 1898, o sudário foi fotografado pela primeira vez, nos inícios da arte fotográfica, pelo advogado e fotógrafo Secondo Pia. A negativa dessa fotografia revelou com estupefação geral, em positivo, a extraordinária imagem de um homem flagelado e crucificado e cujo corpo não se corrompeu no sepulcro. Nenhuma técnica daqueles tempos poderia produzir um negativo, como é o sudário.

O Santo Sudário era propriedade da Casa Real de Savoia, dos reis do Piemonte e da Itália unificada. Assim com a morte do príncipe Umberto de Savoia, último ocupante do trono da Itália, em 18 de março de 1983 o Santo Sudário foi doado à Santa Sé, por disposição testamentária do príncipe falecido.

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Este ano, de 10 de abril a 23 de maio, haverá na Catedral de Turim solene Exposição do Santo Sudário com o tema Passio Christi, passio hominis – “ A paixão de Cristo, a paixão do homem”. “Este tema para as comemorações, que acontecerão durante todo o evento, foi escolhido para evidenciar a profunda relação do sofrimento de Cristo com o sofrimento do homem de hoje, entre o sacrifício de Cristo por amor e os nossos sacrifícios de cada dia, entre a esperança pela redenção de Cristo e a esperança da nossa salvação” - explica o Prof. Maurício Baradello.

Obs: Imagem enviada pelo autor.

UM TEMPO PARA VOAR...


Célia Cavalcanti

Muitas vezes na nossa vida se tem quase certeza de estar parado... As coisas não andam, nós não andamos...Essa sensação de não ter feito ou não fazer nada é terrível. Mas às vezes é puro engano...Quanto mais veloz um avião percorre a sua rota, parecendo totalmente estático para quem está dentro dele, mais rápido chega ao seu destino, deixando-nos perplexos ao ver como percorremos distâncias incríveis em tão pouco tempo... Como tudo se transformou: panoramas, clima, pessoas, realidades...

Obs: Imagem da autora.

PAIXÃO DE CRISTO E PAIXÃO DA AMAZÔNIA



Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


Junto com o mundo cristão, a Amazônia chega mais uma vez à Semana Santa. Santa, porque a pessoa central da memória é Jesus Cristo. Boa parte da Semana Santa dos cristãos faz memória da via crucis, a paixão e morte de Jesus.

Como Jesus, a Amazônia, com seus 25 milhões de habitantes, seus rios, lagos, igarapés, suas florestas, minerais e sua grandiosa biodiversidade, vive sua paixão e morte. A diferença entre os dois personagens, é que a paixão de Jesus durou poucos dias e foi redentora da humanidade; já a paixão e morte da Amazônia são prolongadas e sem esperança de redenção de seus povos.

Enquanto Jesus enfrentou resoluto os donos dos poderes, político, religioso e econômico de Jerusalém, porque sabia que sua morte tinha garantia de ressurreição, além de dar a vida por amor aos povos do universo, a Amazônia vive sem defesa, entregue à sanha insaciável dos poderes, políticos de Brasília, do capital transnacional e nacional. Seus povos não têm esperança de redenção. Os planos de PAC prevêem redenção apenas para as grandes empresas exploradoras das riquezas da região, enquanto para os povos nativos e tradicionais restam, o saque, a devastação de florestas, a pobreza, além da poluição ambiental.

Semana Santa, memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, mas paixão, morte e destruição da Amazônia. Os cristãos celebram a via sacra porque têm certeza da ressurreição, já os amazônidas não celebram, apenas carregam a cruz da colonização desenfreada, conformados, murmurantes, sabendo que mais cedo ou mais tarde só lhes restam as mortes de rios, florestas, crianças e adultos.

Poucos são os que dão sinais de resistência, mas são considerados anti desenvolvimento, loucos. Que se pode concluir? Mesmo esperando contra toda a esperança, este grito é um apelo à resistência e uma convocação ao enfrentamento dos poderes, político, econômico e passivos religiosos, como fez Jesus ao entrar em Jerusalém montado num jumento. A Amazônia não pode ser destruída para depois se lamentar, apenas lamentar o caldo derramado e os poderes do capital ainda desdenharem dos nativos. A ressurreição ainda é possível.

TEXTO DE PAULA BARROS



www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)


No quarto azul a luz dos olhos ainda estava acesa, não se apagara com a noite, nem com a solidão. O sol não tardaria a entrar pela fresta da janela, sem cortina, sem grades. Presa no quarto azul o rosto pálido refletia a vida, por trás da grade de uma velha emoção. Cuidadosamente levantou o braço esquerdo, puxou o carretel de pensamentos que tem enrolado no dedo indicador, colocou apoiado na fronte, respirou profundo. Instantaneamente, os olhos se fizeram rasos para suportar a água que vinha arrastando lembranças. Escorria pela ponta do nariz, mergulhava no pescoço e encharcava o peito. A dor dilacerante da saudade, imposta pelo silêncio, fez as barreiras dos olhos desabarem. No quarto azul, aquário sem ar, sem grades, sem janelas, escritos e lembranças boiavam na água salgada. 04.08.09

VALORES NA ECONOMIA PÓS-CRISE

Frei Betto


A crise financeira desencadeada a partir de setembro de 2008 exige, de todos, profunda reflexão e mudança de atitudes. Ela encerra uma crise mais profunda: a do modelo civilizatório. O que se quer: um mundo de consumistas ou um mundo de cidadãos?

Frente às oscilações do mercado agiram os governos. A mão invisível foi amputada pelos fatos. A destrambelhada desregulamentação da economia requereu a ação regulamentadora dos governos. O mercado, entregue a si mesmo, entrou em parafuso e perdeu de vista os valores éticos para se fixar apenas nos valores monetários. Foi vítima de sua própria ambição desmedida.

A crise nos impõe, hoje, mudanças de paradigmas. O que significa a robustez dos bancos diante da figura esquálida de 1 bilhão de famintos crônicos? Por que, nos primeiros meses, os governos do G8 destinaram cerca de US$ 1,5 trilhão (até hoje, já são US$ 18 trilhões) para evitar o colapso do sistema financeiro capitalista e apenas (prometeram em L’Aquila, ainda não cumpriram) US$ 20 bilhões para amenizar a fome no mundo?

O que se quer salvar: o sistema financeiro ou a humanidade?

Uma economia centrada em valores éticos tem por objetivo, em primeiro lugar, a redução das desigualdades sociais e o bem-estar de todas as pessoas. Sabemos que, hoje, mais de 3 bilhões – quase metade da humanidade – vivem abaixo da linha da pobreza. E 1,3 bilhão abaixo da linha da miséria. A falta de alimentação suficiente ceifa, por dia, a vida de 23 mil pessoas. E 80% da riqueza mundial encontram-se concentradas em mãos de apenas 20% da população do planeta.

Sem alterar esse panorama a humanidade caminhará para a barbárie. Os governos deveriam estar mais preocupados com o crescimento do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do que com o aumento do PIB (Produto Interno Bruto). O que importa, hoje, é a FIB (Felicidade Interna Bruta). As pessoas, em sua maioria, não querem ser ricas, querem ser felizes.

A crise nos faz perguntar: que projeto de sociedade legaremos às futuras gerações? Para que servem tantos avanços científicos e tecnológicos se a população não conta com serviços de saúde acessíveis e eficazes; educação gratuita e de qualidade; transporte público ágil; saneamento básico; moradia decente; direito ao lazer?

Não é ético e, portanto, humano, um sistema que privilegia o lucro privado acima dos direitos comunitários; a especulação à frente da produção; o acesso ao crédito sem o respaldo da poupança. Não é ético um sistema que cria ilhas de opulência cercadas de miséria por todos os lados.

Uma ética para o mundo pós-crise tem como fundamento o bem comum acima das ambições individuais; o direito de o Estado regular a economia e assegurar a toda a população os serviços básicos; o cultivo dos bens infinitos, espirituais, mais importante que o consumo de bens finitos, materiais.

A ética de um novo projeto civilizatório incorpora a preservação ambiental ao conceito de desenvolvimento sustentável; valoriza as redes de economia solidária e de comércio justo; fortalece a sociedade civil organizada como normatizadora da ação do poder público.

O velho Aristóteles já ensinava que o bem maior que todos buscamos – até ao praticar o mal – não se encontra à venda no mercado: a própria felicidade. Ora, o mercado, não tendo como transformar este bem num produto comercializável, procura nos incutir a convicção de que a felicidade resulta da soma dos prazeres. Ilusão que provoca frustração e dilata o contingente de fracassados espirituais reféns de medicamentos antidepressivos e drogas oferecidas pelo narcotráfico.

O pior de uma crise é nada aprender com ela. E, no esforço de amenizar seus efeitos, não se preocupar em suprimir suas causas. Talvez as religiões não tenham respostas que nos ajudem a encontrar novos valores para o mundo pós-crise. Mas com certeza a tradição espiritual da humanidade tem muito a dizer, pois é na espiritualidade que a pessoa se enxerga e se mede. Ou, na falta dela, se cega e se atola. O ser humano tem sede de Absoluto.

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Faço apenas um passeio socrático.” Diante de olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Apenas observo quanta coisa existe que não preciso para ser feliz.”


PS: texto escrito a pedido do Fórum Econômico Mundial, 2010, de Davos.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

Copyright 2010 – FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

O VOTO DO CRISTÃO NO CONTEXTO IDEOLÓGICO DAS ELEIÇÕES DE 2010



Uziel Santana (*) 


“’Dictamen’ reflexivo aos Padres, Pastores, Líderes Cristãos e defensores das liberdades fundamentais.”


Que tipo de Eleição se avizinha agora para nós? O que podemos esperar dos candidatos e partidos envolvidos neste novo processo eleitoral e seus respectivos programas e plataformas de governo? Enfim, o que estará, definitivamente, em jogo nas Eleições de 2010? É sob o fulcro deste conjunto de questões reflexivas que iremos analisar, neste ensaio, alguns aspectos que estão envolvidos no próximo pleito e que têm sérias implicações e repercussões para o exercício público e livre da fé cristã. E é exatamente por esta razão que este Dictamen reflexivo se dirige, mormente, aos cristãos e sua liderança. Muito embora, pelo conteúdo aqui expressado, o que está em jogo, no contexto ideológico das Eleições de 2010, mais do que a liberdade religiosa, é o conjunto das liberdades civis fundamentais do ser humano e da sociedade. Avizinha-se uma Eleição, ideologicamente, bem definida, onde os atores políticos e seus partidos têm deixado, mais do que nunca, às claras, os ideais morais, religiosos, culturais e político-sociais que cultivam, defendem e promovem. Por assim ser, inelutavelmente, a situação conjuntural atual exige de nós, cristãos, uma tomada firme de posição quanto ao que está (será) (im)posto. Usando uma figura de linguagem: entre os cristãos, o joio e o trigo comparecerão ao “Tribunal da Colheita” no escrutínio de outubro de 2010. E, assim, a questão que se apresenta para nós cristãos é: como deve ser o Voto do Cristão no contexto ideológico das eleições de 2010?

Ao analisarmos a historiografia dos processos eleitorais brasileiros após o Regime Militar (1964-1985) – dentro do atual contexto da chamada Nova República –, observamos que, estamos vivendo uma conjuntura política suis generis, quanto à determinação dos valores morais, culturais, religiosos e sociais a serem assumidos e promovidos pelo Estado brasileiro. Se no contexto das eleições de 1985, 1989, 1994, 1998 e 2002, os debates dos presidenciáveis – e, assim também o era, em nível estadual – se situaram em questões (macro e micro) econômicas (como foi o caso de FHC e Lula, em 1994 e 1998), em questiúnculas casuísticas sobre a vida dos adversários políticos (como foi o caso de Collor e Lula, em 1989) ou mesmo em promessas “palanqueiras” vazias, fruto da retórica retumbante dos “politiqueiros” brasileiros (como, entre tantos exemplos, foi o caso da promessa de “caça aos marajás” de Collor, em 1989), agora nas Eleições de 2010, com as temáticas e políticas públicas promovidas pela era Lula (2002-2010), com o lançamento das candidaturas de Dilma Rousseff (PT) e José Maria Eymael (PSDC) e, possivelmente, Marina da Silva (PV), José Serra (PSDB), Ciro Gomes (PSB), o que se mostra, sob uma perspectiva cristã, é um quadro eleitoral que, para nós, deve ser centrado em um debate, eminentemente, ideológico, mesmo que os discursos oficiais propostos sejam outros. Por quê? Porque, olhando para os referenciais teóricos e programáticos desses presidenciáveis, grande parte deles – como o foi o Governo Lula, in totum – adota uma ideologia programática, altamente, anticristã, semelhantemente ao que ficou demonstrado no lançamento do Decreto nº 7.037 de 21 de dezembro de 2009 – o PNDH-3 (Programa Nacional de Direitos Humanos).

O Governo Lula, finalmente, no apagar das luzes do ano de 2009 (como é práxis neste governo) e da sua Era, mostrou, in claris, o que tentou fazer e promover, em termos morais, religiosos, culturais, sociais e políticos, no nosso país, nos últimos oito anos. Eis a sua “Revolução Iluminista”: a formação de um Estado laico, anticristão, amoral, corrupto (onde os fins justificam os meios), adepto de uma democracia do tipo ditatorial-plebiscitária (nos moldes de Hugo Chávez da Venezuela), onde a “sociedade” é menos importante que o “movimento social” e a maioria é subjugada pelas pretensões políticas – sejam quais forem elas – da minoria.

Neste mesmo sentido, quando do lançamento da candidatura da presidenciável Dilma Rousseff, conforme ela mesmo assentiu em seu discurso inaugural, o fundamento das suas diretrizes programáticas é a constituição, a partir da sua eleição como presidenta, de um “Estado Forte”, evidente que, nos mesmos termos da Era Lula, sendo que agora, não mais de uma forma gramsciana (que propunha uma revolução silenciosa em busca de tomar as estruturas do poder pela “pregação” latente de uma hegemonia cultural-moral), mas de uma forma stalinista (uma revolução ostensiva e cruel). Isso é, realmente, assustador.

“Nunca na história deste país” – parafraseando o Presidente – os cristãos e suas igrejas foram tão atacados em seus valores e dignidade. “Nunca na história deste país”, os valores cristãos foram tão depreciados, estigmatizados e estereotipados. “Nunca na história deste país”, a liberdade religiosa, de expressão e de culto estiveram tão ameaçadas, como foi no caso da tentativa de aprovação, “a toque de caixa e à força”, do PL 122/2006 (o PL da ditadura gay) que ainda tramita no Senado Federal e que é amplamente apoiado pelo Governo Petista, através da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Secretaria esta que produziu o absurdo jurídico-moral do PNDH-3 que, entre outros, prevê a promoção do aborto, do homossexualismo, das invasões do MST, do enfraquecimento do Judiciário, das inconstitucionais políticas de cotas, da profissionalização da prostituição e do adultério, da adoção de crianças por homossexuais, da retirada dos símbolos cristãos dos órgãos públicos, da censura prévia a imprensa, da desconstrução dos valores familiares e etc.

Definitivamente, a liderança cristã do Brasil precisa reagir. Porque, se em oito anos de Governo Petista tivemos isso, tivemo-lo por omissão – e muitas vezes por ação – da liderança cristã. Foi desse modo, inclusive, que Lula venceu, sobretudo, as eleições de 2006, com o amplo apoio de Bispos, Pastores, instituições como a CNBB (que, por certo, não representa a Igreja Católica brasileira como um todo) e várias denominações evangélicas. Os fatos que estamos a descrever aqui neste ensaio – e este é o meu Dictamen a vocês líderes cristãos – devem ser levados ao conhecimento dos membros de cada uma das suas comunidades eclesiais, porque, assim, as pessoas terão a possibilidade de conhecer uma parcela considerável da verdade dos fatos que, por certo, não é transmitida pelos meios de comunicação de massa. E, assim, os fiéis cristãos terão a possibilidade de tomar suas decisões eleitorais livremente, sem o véu e o viés da ignorância. E, aí, o próprio Cristo, na sua onisciência, saberá quem, na hora do escrutínio, decidiu por votar a favor dos valores DELE ou a favor dos valores deste mundo, isto é, quem, entre nós, é joio e quem é trigo. Esta é a chance que ainda temos para que no Brasil não vivamos sob a égide de uma ditadura esquerdista, travestida de democracia, como um lobo vestido com pele de ovelha.

Que esse seja o nosso engagement, enquanto cristãos conscientes do nosso papel de ser luz e sal na terra, frente às Eleições ideológicas de 2010.

(*) Uziel Santana (Professor da UFS, Advogado, Doutorando em Direito)
http://www.uzielsantana.pro.br

ERRO



Marcante


Quero que a vida siga o seu curso sem que eu atrapalhe.
Quero viver minha vida, fazendo com que outros também possam vive-la.
Escolhi para mim o meu caminho...
Se foi bom, maravilhoso ou péssimo, foi escolha minha!
Não é justo arrastar comigo ilusões de outros, se o meu quinhão já foi ingerido.
Os anos voam, a gente nem sente...
A mágoa machuca e fere. Mas, o que foi bom, é gostoso de recordar.

BOA MORTE DE SÃO GONÇALO DOS CAMPOS



UM ENCONTRO NA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA
Sebastião Heber
shvc50@gmail.com


No dia 25 de março, na Academia de Letras da Bahia, será concluído o Seminário ( que se desenvolverá nos dias 23, 24 e 25/03) cuja temática é : Manoel Querino – Personalidades Negras da Bahia. Na conclusão, será apresentada a Irmandade da Boa Morte de S. Gonçalo e que contará com a presença das irmãs integrantes dessa confraria.

Essa Irmandade está na linha de continuidade das muitas outras, sob o mesmo título, que se desenvolveram na Bahia, no século XIX.

Conforme os mais consagrados estudiosos, tudo começou na Barroquinha. Mas falta uma documentação mais precisa, pois o arquivo desapareceu num incêndio, deixando no ar interrogações sobre a existência do Compromisso que, de fato, caracteriza a todas as Irmandades oficialmente constituídas .

As Irmandades foram o lócus privilegiado para a ascensão social do negro no Brasil. De fato, a religião foi o único bem que ele trouxera da África e que ninguém pode tirar. Gilberto Freyre diz que “com a destruição racial das linhagens, dos clãs, eles se apegavam tanto mais aos seus ritos e a seus deuses,as únicas coisas que lhes restaram do seu país natal, o tesouro que puderam trazer consigo. Os valores foram coagulados e dentre eles, a religião era o mais importante nas suas vidas”.

As Irmandades foram o lugar das aspirações mais ativas da busca democrática. Nelas se realizaram os debates e lutas que não podiam se empreender em praça pública.

A cidade de S. Gonçalo pertenceu a Cachoeira até 1884. E sofreu toda influência daquela cidade, nos aspectos sócio-políticos e, sobretudo, no religioso. O Arraial já é citado nos arquivos conservados na UEFS, desde o século XVI, e se tornou famosa pela aparição do santo português que lhe dá nome. Tudo teria acontecido na famosa Fonte da Gameleira. A povoação fora lugar de passagem dos bandeirantes, alem de ser ponto de cultivo da lavoura fumageira e ter tido na cana de açúcar e na criação do gado, um incremento para a economia local. O Marquês de Pombal já havia legislado sobre a plantação do tabaco nos campos de Cachoeira, à qual S. Gonçalo pertencia. Ela se encontra, portanto, dentro do projeto colonizador.

As fontes para essa Irmandade, já secular, vêm dos registros de óbito das irmãs, dos cadernos conservados por elas, das atas da Igreja Matriz, e, sobretudo, da tradição oral, grande via de reconstituição do passado.

É considerada fundadora da irmandade, a senhora Felismina Araujo e seguida de sua filha Cecília Araujo. A primeira já participara da Irmandade de Cachoeira, e ainda usava a tradicional beca e seu nome já aparece no primeiro caderno da Irmandade em 1900. A atual Juíza Perpétua é a senhora Maria da Conceição Cazumbá, conhecida como Dona Martina. Ela substitui sua mãe, Maria Tomásia, que, por sua vez, substitui a avó, Maria Bilô Felícia. As duas últimas conviveram com D. Felismina e D. Martina ainda se lembra de Cecília. Em cada ano há uma Presidente que organiza a festa. Este ano é a senhora Maria José. Mas os outros cargos são integrados pela vice presidente, a “escrivona” e a zeladora, que tem a missão de vestir Nossa Senhora no dia da festa. A celebração é sempre num domingo em torno do dia 15 de agosto, dia da Assunção de Maria, que,segundo a tradição portuguesa, se chama, Boa Morte. Esse ano será no próprio dia 15 pois é dia de domingo. A Festa é preparada por um tríduo que antigamente se realizava na casa da Presidente, que guarda a imagem da santa. Na véspera da Festa há uma missa pelas irmãs falecidas. Há objetos que caracterizam a Irmandade e que são usados no dia festivo. São o cajado (conforme a srª Martina, já tem mais de 100 anos), os livros e o baú, que recebe as doações para a festa. Diferente da de Cachoeira, essa Irmandade tem a participação de homens como membros , mas eles não podem portar o cajado, pois é um símbolo de poder/comando feminino. Isso ressalta a autoridade da mulher nesse contexto sócio-religioso.

Na verdade, a participação nas Irmandades foi fundamental para a preservação de suas tradições. Criou-se, assim, “uma família ritual”, segundo Reis, e foi um lugar de “negociação” com a religião do branco, conforme Ubiratã de Castro. A cultura não pode viver incólume, e assim, foi recriada, gerando outra cultura.

E a religião, através das irmandades, foi o lócus privilegiado, para a presença da mulher, num comando simbólico/ritual de tradições que fazem um amálgama com o culto ancestral ( muitas delas pertencem ao candomblé).

A Irmandade da Boa Morte de S. Gonçalo é um testemunho vivo dessa tradição.


Sebastião Heber.Professor Adjunto de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho, Membro do Instituto Geográfico e Histórico da BA e da Academis Mater Salvatoris.

VIAGENS PARA ARACAJU

Vladimir Souza Carvalho (*)


A viagem para Aracaju se fazia de marinete. A expressão jardineira, como sinônimo de ônibus, não habitava o meu dicionário de infância. Só depois é que aprendemos a denominar o veículo de ônibus. Das primeiras viagens, não me lembro. Algumas cenas na casa de tia Anita, onde ficávamos, na Vila de João Costa, lá para as bandas da linha do trem, perto do mercado. Depois, com a mudança dos pais para Aracaju, mamãe escrevia para as irmãs nos esperar na Rua da Frente, onde a marinete fazia pousada. A imagem que fica e me impressiona, imagem que revejo, comovido, em velhas fotografias, são dos fios de energia elétrica, nos postes, mais de dez, o que me levava a comparar com os postes fincados nas ruas centrais de Itabaiana, onde apenas dois fios se faziam presentes.

Do Rio Sergipe, ali, na frente, não me lembro de ter me causado nenhuma impressão forte. Gravada permanece, igualmente, a cor cinzenta dos prédios na Rua da Frente, rua larga, com paralelepípedo, onde as marinetes ficavam o dia inteiro, à míngua de uma rodoviária, que só no Governo Luiz Garcia foi construída.

Mas a viagem, que a gente só sabia na véspera, era motivo de festa, com direito a vestir a melhor roupa, confeccionada para o Natal, tudo escolhido de acordo com a imperial vontade de mamãe que cozinhava um bolo, para a filharada comer durante a viagem, porque esta era longa, com parada demorada em Areia Branca, e, depois, em Laranjeiras, para os adultos fazerem lanches. Se comia do bolo, não me lembro, porque o que me chamava a atenção era o longo percurso, considerando ser de grande proeza o motorista conhecer toda a estrada que ligava Itabaiana a Aracaju. Na lembrança, eu, em pé, ao lado da janela, calado, vendo o verde da paisagem, no entusiasmo de, mais uma vez, poder pisar os pés em Aracaju.

Acho que até os dez anos de idade, nunca viajei para Aracaju em outro veículo senão em marinete, que, salvo engano, saia de Itabaiana logo no início da manhã, para só retornar no período da tarde, em horário que, exatamente, não me vem à cabeça, porque, para a meninada, o relógio e as horas não existem, nem fazem sentido, e, muito menos, para a gente que, orgulhoso da viagem, procurava extrair da permanência, em Aracaju, o máximo que a capital exibia e oferecia, sobretudo porque não sabia quando retornaria, outra vez, dado que viajar e não viajar era matéria da alçada única de mamãe, de cuja boca, na véspera da viagem, enfim, a gente tomava conhecimento, até mesmo ante os preparativos que ela encenava.

Nas viagens, o prédio do IAPC, a que papai, como comerciante, estava ligado, no fundo da atual Secretaria de Saúde, no beco dos cocos. Na lembrança, mamãe e os três filhos. Alba ia se submeter a tormentosa tarefa de fazer exame de sangue. Quase que derruba todo o edifício, segura aqui e ali, para só depois de muita e inútil resistência, oferecer, pacificamente, o braço. Bosco e eu olhávamos calados a cena, na certeza de que seríamos as próximas vítimas, de acordo com a seqüência da idade. Ninguém se atrevia a perguntar nada, o medo rodando cada cabeça. Enfim, o exame foi feito. Mamãe conversou alguma coisa e saímos os quatros, sem que ninguém mais tivesse de ser submetido a mesma tortura.

As viagens para Aracaju fazem reativar o termo cozinha, utilizado para o último banco do ônibus, termo que, até o tempo de estudante universitário, ainda era usado. Quem viajava na cozinha se via na linha de tiro das brincadeiras, repetitivamente as mesmas, no sentido de mandar logo o cafezinho, de preparar a refeição, alusões que, invariavelmente, sempre eram feitas, ainda que, com o tempo, fossem perdendo a graça. Do meu tempo, as marinetes pertenciam a Luiz Prado, que morava na esquina da Praça da Santa Cruz com a Rua São Paulo, em cuja residência, artesanalmente, eram vendidos os bilhetes por quem da família estivesse disponível. Os ônibus eram poucos, do que me lembro, recordando-me de um, que era conhecido como o Gostosão, e de uma marinete, de formato mais bonito, que recebia o nome de Marta Rocha. Este, inclusive, ao chegar a Itabaiana, abriu as portas para uma volta em torno da cidade, gratuitamente, para quem topasse. Eu, que estava por perto, aceitei a parada. O que não entendia era que o passeio, no fundo, simbolizava um tipo de propaganda. Fazer referência as marinetes de Luiz Prado era mais prático de que mencionar o nome da empresa, denominada de Nossa Senhora das Graças, nome que não aparecia.

Dessa época e por esse tempo, a figura do cobrador assumia ares de real importância, por se constituir no correio do povo de Itabaiana, na remessa de cartas e encomendas para Aracaju, e vice-versa. Motinha, hoje no esplendor dos oitenta e tantos anos, encarna o cobrador educado, paciente, pronto a fazer um favor para todos, quer os que estavam lá, quer os que estavam cá. Não me lembro de Motinha em atividade. Só de referência ao seu nome e atuação. Quem me ocupa a memória é Totonho, ou seja, Totonho das Marinetes, ao que parece, servidor que Luiz Prado levou para Itabaiana e lá ficou quando a empresa passou para outro proprietário e, deste, enfim, para a Bomfim. A mulher de Totonho morreu de parto, ocorrência lastimada e enterro concorrido, que eu fui ao lado de meu pai, que, aliás, não perdia um sepultamento. Viúvo, Totonho casou com uma senhora, de nome Lídia, salvo engano, que fora levada a Itabaiana pela família de Luiz Prado. Totonho morreu na década de oitenta, em um choque de veículos, quando vinha a Aracaju ver um jogo do Itabaiana, em um dia de domingo.

J. Rabelo, no romance ALMAS TORTURADAS, faz alusão a uma viagem Itabaiana-Aracaju dos anos quarenta, destacando a parada em Areia Branca, então povoado, onde os adultos atrasavam a viagem com suas comilanças. De minha parte, nunca desci da marinete. Pacientemente esperava o prosseguimento da viagem, certo que, em Laranjeiras, outra parada demorada, a frente de uma padaria, ocorreria. Depois, viria uma ponte, no meio da estrada de rodagem, e, adiante, alguns sinais que anunciavam a proximidade de Aracaju. Aí, a gente ficava feliz, imensamente feliz.

(*) vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe