sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

UMA CANÇÃO ILUMINADA PARA OS AMIGOS



Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


Amigos são aqueles parentes que seu coração escolhe para ama-los como irmãos. Não seria possível escrever apenas a um amigo, para demonstrar o quanto estou grata por tanta doação incondicional, neste ano que obtive grandes realizações, pois muitos CANTARAM A MELODIA DO MEU CORAÇÃO NOS MOMENTOS QUE MAIS PRECISEI!

Há uma frase no dialeto concani ,originário de Goa/India, língua de meus ancestrais paternos, para expressar agradecimento : DEV BOREM KORUM .Esta frase traduz-se como OBRIGADO, mas possui um significado muito maior, pois IPS LITERIM exprime: Deus te abençoe!

´É sabido que a benção é uma das formas mais poderosas para atrair sorte e proteção as pessoas. Dessa froma, utilizarei essas palavras e toda sua simbologia para agradecer aos amigos, por este ano de grande realizações, no qual a força deles foi indispensável na minha caminhada pessoal e profissional.

OBRIGADA

Amig@ de todas as idades, sexo, religião, lugares. Presentes ou virtuais:

Pelo apoio, incentivo, arte, palavra, companhia, amor, oportunidade, carinhos, conselhos, doações de todas as formas e compartilhamento de sonhos e vida. Lembro de cada um com imensa gratidão. Cada um é especial, pois cada um chegou na hora certa e o que recebi foi especial, mágico e divino.

Deus te abençoe!

OBRIGADA

Amig@ de todos os lugares e de todos os tempos

Há neste coração um desejo imenso que Deus retribua em graças os seus sonhos mais profundos. De minha parte, canta meu coração a vocês sempre esta canção: " YOU´ve GOT A FRIEND" e evoca esse poderoso agradecimento para chegar toda luz nas suas vidas:

DEV BOREM KORUM!

Obs: Imagens enviadas pela autora
Foto 1 – internet
Foto 2- Recital Maha Lila dez/2010
Foto Fatima Brito – as mais belas fotos de meus recitais


O QUE CONTA...


Célia Cavalcanti


Nestas “festas”, ame sempre!
É o que importa. É o que conta.
Se estiveres feliz, ame. Se chorares, ame. Se tudo caminha com tranqüilidade, continue amando…
Se um mar sombrio cresce, dentro ou fora, ame mais.
É simples. Tendo amado, se fez tudo!
É o que realmente vale.
É o que fica.
O resto passa.

(18- 12 – 2010 )

MENSAGEM DE NATAL – 2010



D.Demétrio Valentini *

“ Nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor!” Lc 2, 11


A todos os diocesanos, Feliz Natal!
Venho desejar a todos um Natal feliz, e um Ano Novo abençoado.
Este ano de 2010 nos aponta motivos especiais, para louvar o Senhor, e buscar sua graça.
Com ele se conclui a primeira década deste novo milênio. Ela nos deixa uma amostra eloqüente dos caminhos que a humanidade é chamada a percorrer daqui para a frente, para cuidar com responsabilidade da vida no planeta, superar preconceitos ainda existentes entre povos e nações, e buscar a paz mundial.
Mas sobretudo este ano foi muito especial para a nossa Diocese, pela intensa celebração do seu jubileu de ouro.
Com certeza podemos guardar lembranças positivas de tantos momentos que recordaram a caminhada de nossa diocese, e que nos deram a segurança de que poderemos contar com a graça de Deus para levar adiante nossa vida de Igreja e nossa missão de cristãos.
Este foi também um ano importante para o País. As eleições gerais definiram as responsabilidades dos eleitos. Mas apontaram também o compromisso de todos os cidadãos, no empenho comum entre governo e sociedade, para a construção de uma pátria onde todos possam viver com dignidade, e contribuir para a superação dos problemas ainda existentes.
Agradeço a todas as pessoas que colaboram com a diocese de tantas maneiras, pelo testemunho de sua vida, pelos serviços pastorais nas comunidades e na diocese
Que Deu abençoe a todos, pessoalmente, na sua família, na sua comunidade.
E que possamos olhar o próximo ano com serenidade e esperança, na certeza da graça de Deus, que queremos invocar sobre todos!
Com os renovados votos de um Feliz Natal e abençoado Ano Novo!
D.Demétrio Valentini
* Bispo Diocesano de Jales


Obs: Foi solicitada autorização para postar a Mensagem acima.

ABENÇOADO NATAL E FELIZ ANO NOVO!

Dom Sebastião Armando Gameleira Soares *


Apesar de nosso inveterado egoísmo, apesar do imperialismo global do dinheiro, da vergonha da fome, da ignorância e da doença (que já sabemos como evitar), apesar de nossa imaturidade e pouca responsabilidade pela VIDA, apesar…

Mais uma vez nos unimos ao partido dos céus e temos a ousadia de dizer que “VOS ANUNCIAMOS UMA GRANDE ALEGRIA, QUE SERÁ PARA TODO O POVO: NASCEU-VOS HOJE UM SALVADOR QUE É O CRISTO-SENHOR” 10-11).

Neste tempo de luz e revelação, a Diocese Anglicana do Recife se une a todos e todas que desejam renovar-se nessa ousadia e firmar o propósito de juntar-se aos anjos como “multidão de exército celeste” (Lc 2, 13) no combate por um “outro mundo possível, necessário e urgente”.

Com o privilégio de, com nossa gente, representar a Igreja Anglicana do Nordeste,

+ Sebastião Armando, Bispo Diocesano


* Bispo da Diocese Anglicana do Recife – DAR

NÁUSEAS



Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com


Eu sei, eu sei, o Natal está chegando, é hora de votos alegres, bolinhas cintilantes e barbudos suarentos de roupa vermelha. Dependendo do contexto, tudo isso também pode ser uma náusea.
Assim como gente jogando lixo da janela do carro; notícias sobre a CPMF; a cara do político safado. Autoajuda de ocasião, conselhos impossíveis, como aqueles que ameaçam você com câncer e infarto caso não os siga – e se você resolve segui-los, não tem mais tempo nem de ler duas páginas por dia ou pegar um cineminha, chegando à conclusão de que a vida não vale nada. A revista com suas caras cheias de dentes fake. Programação de tevê nos fins de semana; gente que se acha o máximo. Correntes por e-mail; textos assinados por autores famosos que nunca os escreveram; mensagens de nove megas pra você perder tempo de abrir e ver um desfile de figuras bregas e textos bobocas. Baile funk ou festa que nunca se acaba no play do prédio vizinho. Os preços nas livraria (campanha pela multiplicação dos sebos já!!!). Falsidade, mentira desnecessária, deslealdade, corrupção, exploração, plágio. Políticas (?) de educação no Brasil. Submissão cega à moda, o consumismo fútil que agrava as desigualdades sociais. Estupidez, violência, agressividade liberada, desrespeito pelos outros e pela natureza, falta de educação, insensibilidade aos problemas alheios. Candidatos a ditadores em geral.
É nauseante não poder confiar nas pessoas, às vezes vizinhos ou colegas de trabalho. É de dar calafrios ter que andar na rua com medo de quem passa. É uma ressaca ser acordado às sete e meia da manhã por um telefonema de marketing. É de dar desgosto ver a Barra da Tijuca transformada em Miami. E não dá mais pra aturar a avalanche de efeitos especiais – e a barulheira que eles fazem – dos filmes americanos médios, os mais numerosos, a visão de mundo boçal que impregna esses filmes, nem a babaquice das comédias que se repetem ad nauseam nos telecines da vida.
Tirando mais uns tantos itens nauseantes, que ia ser dose ficar enumerando, mas que a gente atura e acaba ficando ranzinza por causa deles, vamos enfim reconhecer que o Natal pode ter momentos genuinamente gostosos, de alegria e até de felicidade. É desses que desejo aos queridos amigos do blog.
Até a volta, queridos.


Obs: Imagem enviada pela autora.

O COMEÇO, O MEIO E O FIM – BOAS FESTAS!

Dasilva, Dezembro 2010


As festas do mês de Dezembro ficam bem no meio do começo e do fim. O antes, o agora e o depois acontecem e nem percebemos a passagem do presente, do passado e do futuro. Aliás, como era no princípio, agora e sempre... conosco, sem nós ou contra nós.

Quando olhamos para o fim, ele parece longe; se olhamos o passado, parece que foi ontem... Na verdade, o que resta de permanente é o movimento; esse movimento indomável, ininterrupto e inexorável que gera e se confunde com a imensidão da própria vida.

Nosso olhar humano é míope demais para entender e saborear o atemporal e o utópico. Por isso, a ansiedade, o medo e a nossa ganância criam o tempo e o espaço e, com eles, as distâncias, as metas, a pressa e a lerdeza, a obsessão de chegar e ganhar, de aproveitar e se salvar.

Nessa preocupação, o desejo vira estresse, a natureza vira mercadoria e as pessoas viram objeto de lucro e capricho. Nessa paranoia do sucesso sem fim e nessa vontade insana de acumular, perdemos pensando em ganhar e estragamos a única coisa que realmente conta - ser feliz sem medida.

O desafio constante dos humanos será contemplar o movimento da vida que passa e pendurar-se na hora, para saborear a felicidade, às vezes com pressa, outras com paciência. Mas, dentro do olhar humano, sempre com saudades do experimentado e apenas capaz de vislumbrar o sonho do futuro.

É a consciência de constatar que, em nós, o passado vive e o presente é feito de metade de memória e metade de esperança do futuro. Que viver aqui e agora precisa deixar uma marca na historia como a única forma de permanecer vivo e continuar na recordação dos vivos.

Só assim, o movimento da vida que será eternamente passado, presente e futuro, não será idealismo. Pois, “Se não tivesse o amor; se não tivesse essa dor; e se não tivesse o sofrer; e se não tivesse o chorar; melhor era tudo se acabar”(Vinicius). Será transcendente porque é divinamente humano.

A NOITE DE NATAL



Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


            Numa véspera de Natal a cidade se preparava para a missa do galo. O presépio, todos os anos, era armado no caramanchão da praça. As figuras em tamanho natural, pareciam pessoas de verdade. Nossa Senhora tinha cara de gente. Os animais pareciam animais mesmo. S. José tinha jeito de frade.
            A menina queria porque queria que a mãe fizesse uma roupa igual à de Nossa Senhora. A avó que lhe fazia todos os gostos, disse-lhe que era uma coisa impossível.
          -Não pode filha
          - E por que não, vovó?
          - Porque roupa de santo não é fantasia de Carnaval.
          - O padre disse que a gente tem que ser igual a eles.
          - No comportamento, querida, e não nas roupas.
          Não houve jeito de convencer a menina.

          À noite a família se preparava para assistir à missa. A mãe, chamou a filha para trocar de roupas. Ela não apareceu. Chamou novamente. Nada. Procurou por toda a casa e, assustada, ficou sem saber para onde tinha ido. O tempo passava e ela não aparecia. Não sabia mais o que fazer.
          Só havia um lugar onde ainda não procurara, a praça onde estava armado o presépio. Aproximou-se e não acreditou no que viu. A menina dormia tranqüilamente no monte de palha junto do Menino Jesus, enrolada no manto azul de Nossa Senhora.

O NATAL SOB VÁRIOS OLHARES


Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


Quem ama o feio bonito lhe parece e quem ama o belo cedo se apaixona. Assim pensam muitos, pois a beleza é relativa. Mas, e o natal onde está sua beleza? Nas luzinhas de enfeite? No pinheiro falsificado? No Papai Noel? No presépio e no canto tradicional da noite feliz?

Para muitos talvez, a beleza do natal está no feriado, para outros nas vendas dos produtos natalinos, mas que sentido tem o natal hoje numa sociedade tão pluralista, tão desgastada pela falta de ética em muitos setores da vida? Tudo depende de como as pessoas olham o significado da data.

Uma criança de família religiosa tradicional é levada a se deter no contemplar o presépio, com o menino, sua mãe, o padastro, os animaizinhos e o anjo. Já um adulto cuja fé anda bastante desgastada pela falta de espiritualidade, mesmo assim pode sentir que é tempo de festa ao menino Deus que se fez ser humano para nos salvar. Aí enfeita a casa, vai à missa, organiza a ceia natalina com a família e assim passa o natal.

Há os que aproveitam o natal pelo feriado e vão descansar no balneário, no sítio, ou na praia, afinal... vale a pena o descanso. Outros, mais comprometidos com a fé em Jesus, se alegram com o natal, pois comemoram mais um aniversário daquele que mostrou com palavras e atos o que é amar até a última gota de sangue e amar até quem não o ama.

Tais pessoas aproveitam o natal para oferecer um presente especial ao aniversariante, a renovação de seu compromisso de continuar aprendendo amar como Jesus amou. O natal do cristão comprometido é um dia alegre, pois lhe traz a certeza de que o aniversariante é o libertador, o irmão maior que nos acompanha em todos os momentos da vida, inspirando, admoestando, orientando.

E o natal para Jesus como será? Ele o aniversariante, que acompanha este planeta de 6 bilhões e meio de seres humanos, com seus deuses, seus ídolos, suas crenças e descrenças. Como o aniversariante do dia encara os beneficiários de sua Boa Nova, sua morte na cruz e ressurreição e que hoje, apenas um de cada seis seres humanos sabe que ele deu a vida por todos? E a grande maioria dos que já ouviram falar dele, não o seguem, ou o interpretam fora de rumo, outros o substituem pelo papai Noel.

Será que ele se aborrece? Rejeita a festa? Fica indiferente? Conhecendo um pouco este Jesus, Deus que se deu ao trabalho de se despojar de seu poder divino para se tornar um humano igual a nós, certamente sabe que ele se diverte, acolhe os que o procuram e pede que os comprometidos com sua Boa Nova, que lhe dêem como presente se preocupar de mostrar o caminho da felicidade aos que não crêem.

O aniversariante do dia não se preocupa com os que o substituem pelo papai Noel, mas sim, com os cristãos que não conseguem ser autênticos, isso sim, o deixa preocupado, pois o natal não é para ser um dia apenas, mas o ano todo. Então, Feliz Natal!


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.

NESSAS SITUAÇÕES É NATAL!



Edna Leuthier


A partir da expressão “Então é natal” de Cláudio Rabello utilizada na tradução da composição “Happ xmas(war is over) dos autores John Lennon e Yoko Ono, chamo atenção ao fato de que longe do fruto da casualidade o mistério do Natal advém de forma admirável na rica e sublime pobreza da manjedoura.

Acontece que o Menino Jesus veio ao mundo daí a esperança que ELE possa nascer de fato, no interior do coração dos seres humanos. A existência do amor fraterno e a benevolência no íntimo das pessoas abrem caminho para celebração de amizades verdadeiras.

Um Feliz Ano Novo cheio de realizações pessoais e profissionais num clima de muita AMIZADE para você, Edna Leuthier


Obs: Imagem enviada pela autora.

FELIZ NATAL! ABENÇOADO ANO NOVO!

MEU QUERIDO PAPAI NOEL

Euza Noronha


Levei mais de cinqüenta anos para lhe escrever. Não porque hoje eu acredite mais em você do que acreditei aos cinco anos. Talvez por ter poucas esperanças, eu queira refazer meu caminho e construir uma nova estrada. Ou plantar em mim novos olhares.
Meu neto me disse, Papai Noel, que você nunca se esquece de ninguém. Mas ele não soube me responder se você tem tempo para atender a todos os pedidos. Se o seu trenó corre em estradas esburacadas, se atravessa rios sem pontes, se enfrenta os sertões ressequidos. Se a sua roupa enfrenta as balas perdidas, os gritos desesperados, o vermelho que escorre no chão. Se os seus olhos alcançam os barracos pendurados nos morros e as barrigas vazias e nuas de quem nunca te viu. Mas ele, o meu neto, me jurou que você não se esquece de ninguém!
Acredito no meu neto, por isso vou acreditar em você. Quero primeiro pedir-lhe que dê perfume a quem não vê, cores a quem não escuta, música a quem não fala, asas a quem não anda, dignidade a quem a perdeu. E que plante flores nos caminhos das diferenças, mesmo que também por eles nasçam espinhos.
Para quem não se considera diferente, também peço. Aos insensíveis, dê olhos. Aos sensíveis, dê óculos escuros. A quem ama, dê velas soltas no mar. Aos não-amados, dê a lua cheia de sonhos. Aos ricos, dê a serpente. Aos pobres, a maçã. Aos injustos, dê um dia de cão abandonado. Aos injustiçados, uma estrela verdadeiramente vermelha. Aos jovens, esportes radicais e ideais. Aos velhos, boa memória e um pouco de irreverência. Aos que não se considerarem aqui citados, dê livros, árvores, poesia e imaginação.
Aos poetas, dê musas. Às musas, pés no chão. Dê luz à escuridão e à natureza, dê preservação.
É, Papai Noel, talvez eu esteja pedindo muito. Ou talvez seja pouco para quem nunca pediu. Mas se nada disso for possível, não brigo contigo. Sei que você é esperto e nem pensa em desmentir o meu netinho. Então troque tudo isso por um único tri-pedido: dê barcos aos meus amigos, pontes aos não-amigos e a mim, faz-me rio!

DEZ CONSELHOS PARA VIVER A RELIGIÃO

Frei Betto


1. Religue-se. Evite o solipsismo, o individualismo, a solidão nefasta. Religue-se ao mais profundo de si mesmo, lá onde se cultivam os bens infinitos; à natureza, da qual somos todos expressão e consciência; ao próximo, de quem inevitavelmente dependemos; a Deus, que nos ama incondicionalmente. Isto é religião, re-ligar.

2. Tenha presente que as religiões surgiram na história da humanidade há cerca de oito mil anos. A espiritualidade, porém, é tão antiga quanto a própria humanidade. Ela é o fundamento de toda religião, assim como o amor em relação à família. Busque na sua religião aprimorar a sua espiritualidade. Desconfie de religião que não cultiva a espiritualidade e prioriza dogmas, preceitos, mandamentos, hierarquias e leis.

3. Verifique se a sua religião está centrada no dom maior de Deus: a vida. Religião centrada na autoridade, na doutrina, na ideia de pecado, na predestinação, é ópio do povo. “Vim para que todos tenham vida e vida em abundância”, disse Jesus (João 10,10). Portanto, a religião não pode manter-se indiferente a tudo que impede ou ameaça a vida: opressão, exclusão, submissão, discriminação, desqualificação de quem não abraça o mesmo credo.

4. Engaje-se numa comunidade religiosa comprometida com o aprimoramento da espiritualidade. Religião é comunhão. E imprima à sua comunidade caráter social: combate à miséria; solidariedade aos pobres e injustiçados; defesa intransigente da vida; denúncia das estruturas de morte; anúncio de um “outro mundo possível”, mais justo e livre, onde todos possam viver com dignidade e felicidade.

5. Interiorize sua experiência religiosa. Transforme o seu crer no seu fazer. Reduza a contradição entre a sua oração e a sua ação. Faça pelos outros o que gostaria que fizessem por você. Ame assim como Deus nos ama: incondicionalmente.

6. Ore. Religião sem oração é cardápio sem alimento. Reserve um momento de seu dia para encontrar-se com Deus no mais íntimo de si mesmo. Medite. Deixe o Espírito divino lapidar o seu espírito, desatar os seus nós interiores, dilatar sua capacidade amorosa.

7. Seja tolerante com as outras religiões, assim como gostaria que fossem com a sua. Livre-se de qualquer tendência fundamentalista de quem se julga dono da verdade e melhor intérprete da vontade de Deus. Procure dialogar com aqueles que manifestam crenças diferentes da sua. Quem ama não é intolerante.

8. Lembre-se: Deus não tem religião. Nós é que, ao institucionalizar diferentes experiências espirituais, criamos as religiões. Todas elas estão inseridas neste mundo em que vivemos e mantêm com ele uma intrínseca inter-relação. Toda religião desempenha, na sociedade em que se insere, um papel político, seja legitimando injustiças, ao se manter indiferente a elas, seja ao denunciá-las profeticamente em nome do princípio de que somos todos filhos e filhas de Deus. Portanto, temos o direito de fazer da humanidade uma família.

9. A árvore se conhece pelos frutos. Avalie se a sua religião é amorosa ou excludente, semeadoras de bênçãos ou arauto do inferno, serva do projeto de Deus na história humana ou do poder do dinheiro.

10. Deus é amor. Religião que não conduz ao amor não é coisa de Deus. Mais importante que ter fé, abraçar uma religião, frequentar templos, é amar. “Ainda que eu tivesse fé capaz de transportar montanhas, se não tivesse o amor isso de nada me serviria”, disse o apóstolo Paulo (1 Coríntios 13, 2). Mais vale um ateu que ama que um crente que odeia, discrimina e oprime. O amor é a raiz e o fruto de toda verdadeira religião; e a experiência de Deus, de toda autêntica fé.


Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco, Brasil), entre outros livros. http://www.freibetto.org
- twitter:@freibetto


Copyright 2010 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

NO TEMPO

Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com


Que digam! Ele falou de amor.
Que navegou as incertezas,
Que viveu como desbravador.
Que sobreviveu às tristezas.

Onde o carinho foi dispensado.
Onde as palavras se perderam,
Onde o argumento foi rejeitado,
Onde as minúcias se ofenderam.

Para remissão das ausências.
Para a inclusão de um perdão.
Para diluir tantas conseqüências,
Para a alma; tempo e coração.

Que digam! Na aridez do deserto,
Houve um momento de emoção.

O RISO É PRÓPRIO DO HUMANO

Ivone Gebara *


É bem cedo ainda e o ônibus para o centro de Recife está repleto de passageiros. Nem todos conseguiram entrar e o ônibus já prepara-se para arrancar, acelera uma vez, e mais uma com força ruidosa e nervosa parece começar a mover-se. Finalmente, mais um passageiro consegue entrar apertando-se e segurando-se nos corpos dos outros. Os que continuam no ponto são incensados pela fumaça negra de diesel maculando as camisas brancas e os corpos recém-saídos do chuveiro. Apesar dos pesares é preciso continuar firme, à espera do próximo ônibus. A porta fecha-se com força e esforço. Mas, a porta não vê e, infelizmente o braço do último passageiro fica fora. Ele grita, outros gritam, muitos gritam: "Pare motorista! Pare motorista!". O ônibus pára, abre a porta, e felizmente o braço é salvo apesar de algumas manchas avermelhadas que ficaram como lembrança.

Mas, a agitação dentro do veículo era grande, como se outro incidente estivesse prestes a acontecer. De repente uma voz masculina e jovem se faz ouvir: "Bem feito companheiro! Porque não deixou seu braço em casa! Quem mandou trazer o braço para o ônibus!" risada geral, risada contagiante! Alguns riem da risada dos outros. Até o acidentado ri. Segue-se então o momento narrativo comum. Muitos passageiros tinham uma história trágica para contar, história parecida com o sucedido e esta virava imediatamente motivo de riso. As histórias se misturavam e ficava um pedaço de uma, um pedaço de outra nos ouvidos dos que conseguiam ouvir. Ninguém mais falava do calor, do incômodo da superlotação, das sacudidelas causadas pelos buracos das ruas. O humor trágico tornou o dia mais bonito, a viagem mais agradável, as caras mais distendidas, embora sem apagar a tragicidade da vida. O humor não faz esquecer, apenas abre uma pausa na dor de cada dia. O humor não resolve problemas, apenas nos dá condições subjetivas para encará-los com mais serenidade Este é o humor ou o riso trágico, riso comum que experimentamos no cotidiano de nossa existência. É o riso que ajuda a agüentar os sofrimentos e os medos da vida. É a risada que relativiza as coisas, que ridiculariza os poderosos, os bêbados, os estropiados; risada que nos torna mais simples e até talvez, mais amáveis aos nossos próprios olhos. Rir é o melhor remédio, diz o ditado popular. Rir de si, das outras, dos outros, rir do que construímos, do que pensamos, do que somos e do que pensamos que somos. Rir nos devolve a medida do que é ser simplesmente humano. Haveria outros risos, menos trágicos, menos marcados pela dor que podem ser observados na vida dos grupos humanos? Sim e tantos quantos possamos imaginar! Há o riso da beatitude, o riso da gratuidade, o riso da conquista da terra, o riso da saciedade, o riso da beleza, o riso do prazer, o riso do amor, o riso da criança e tantos outros para expressar esta dimensão própria do ser humano. Há o riso interior, o riso exterior, o riso solitário e o riso conjunto.

Há o riso, o sorriso e a gargalhada. Há o riso forçado, o riso amarelo, o riso irônico, o riso debochado, o riso formal, o riso educado, o riso triste... Haverá um riso religioso? O riso foi um pouco desenvolvido na espiritualidade cristã. As lágrimas e os lamentos foram sempre mais abundantes. Era preciso chorar sobre nossos pecados e alegrar-nos apenas com o futuro celeste. Era preciso entristecer-nos por nossas inúmeras culpas e esperar contritos a magnanimidade divina. O ser humano que chora chama mais atenção do que o que ri. Para o cristianismo as lágrimas são no próprio homem! Deus sempre foi sério. Deus não brinca e, portanto, não se pode brincar com Deus. Deus dá medo ou ao menos provoca temor. Religião é coisa séria muito embora algumas poucas vezes possa provocar alegrias. Mas são alegrias ditas espirituais! Desde o tempo dos Padres da Igreja, o gozo da vida e a sexualidade foram considerados ofensivos à herança cristã. A vida sexual se converte pouco a pouco em tristeza e contaminação pecaminosa. Esta marca se estendeu até os dias de hoje, embora o mundo tenha vivido múltiplas revoluções sexuais.

As oposições dualistas continuam habitando nossos corpos e nossas mentes. Continuamos mais ou menos convencidos, sobretudo os teólogos, de que o riso e o prazer apesar de serem próprios do humano podem ser uma armadilha que o levaria à perdição. No catolicismo, raros foram os santos apresentados sorrindo, raros foram os santos que tiveram uma vida prazerosa considerada positivamente. Ao contrário, a maior parte das hagiografias, assim como na arte sacra é cheia de dores, sofrimentos e sacrifícios. A arte religiosa é trágica. As expressões dos mártires são pintadas ou esculpidas por meio de formas sérias e sofridas ou quanto muito absortas em universos interiores que nos faziam pensar nas realidades para além da terra. Só no além o alívio para este "vale de lágrimas" é possível. Só no além as lágrimas serão absorvidas num estado de beatitude que só os ícones foram capazes de retratar. Os olhares fixos num além desconhecido, feições estáveis que não denunciam nem dor nem prazer. O Cristo crucificado, o Senhor das dores, o Senhor ensangüentado e morto, o Senhor quase sucumbindo ao peso da cruz são as imagens que povoam o mundo de nossas memórias religiosas e, até mesmo da memória protestante popular. A Maria, mãe de Jesus chorando ao pé da cruz, a Maria do coração traspassado por sete espadas, a Maria, Pietá acolhendo o filho morto nos braços. Esta se assemelha às tantas Marias sofridas pelo mundo afora. A religião está crivada de dor e de sofrimento. Estampando a tragicidade do sofrimento humano, parece, como diria Feuerbach, lembrar a necessidade de consolo, de alívio num mundo sem coração. Rir de prazer não era sinal de santidade. Os amantes da vida, os que buscavam vivê-la com alegria eram suspeitos de terem parte com o demônio. O demônio sim, este era festeiro, este gostava de dança, este gostava de vinho e de sexo. Assimilamos o sofrimento a Deus e às coisas de Deus. O sofredor apega-se a Deus. Mas, o "gozador" apega-se a seu próprio gozo ou como diz a tradição popular ao próprio demônio. O demônio parece gostar de rir, de festa, de prazer, de cachaça, de dança. É menos sério do que Deus e por isso está sempre metido nas confusões humanas. O demônio é mais parecido conosco do que Deus. Por isso fomos capazes de desenhar uma imagem feia do diabo, uma mistura de homem e animal. O diabo é nossa imagem. Entretanto, não fomos capazes de imaginar Deus ou quando o fizemos o assimilamos a um velho de barbas e cabelos brancos acima de todos os seres, um velho sem Eros, sem paixão presidindo o mundo em meio a nuvens brancas que às vezes se confundem com suas barbas. E o cristianismo não disse que somos "imagem e semelhança de Deus"? De que Deus? Precisamos ao longo dos séculos negar nossos prazeres e nosso riso para nos aproximarmos dessa imagem divina! Embora se diga que rir é próprio do humano, somos animais tristes. Fomos expulsas do paraíso. E mais do que expulsas, amaldiçoadas. E mais do que amaldiçoadas, condenadas a viver sob o peso de nossas necessidades. Fomos de certa forma cortadas de nossa harmonia primeira e da harmonia conosco mesmas. Por isso, vivemos errantes e dominadas pela vontade de prazer e pela necessidade de sobreviver. Vivemos na corda bamba, um passo em falso e caímos. Fora do paraíso a fragilidade é nossa condição! Por isso podemos rir, mas um riso breve, sóbrio, limitado. Nosso "próprio" riso foi controlado pela ideologia da seriedade e do antiprazer! O Deus Ordenador é sério. Sua lei deve ser cumprida e nela não parece haver lugar para o gozo. Deus não ri. Deus cria. Deus ordena. Deus julga. Deus salva, apesar de descansar no sétimo dia! E seus ministros conhecem sua vontade e sabem como impô-la a seus fiéis. Seus ministros sabem como controlar o riso e o prazer, sabem dosar a medida certa para que as "ovelhas" não saiam do rebanho. Expulsos do paraíso pela tentação consentida, pela fraqueza feminina, pela cumplicidade masculina. Esta é nossa condição! Não se pode mais voltar ao paraíso nesta vida, nesta história. A história não é paraíso, embora o tenhamos na lembrança, embora o tenhamos com sonho impossível a nutrir nossas mínimas possibilidades de felicidade. Somos o que fizeram de nós. E do que nos foi entregue podemos mudar apenas formas, tonalidades, mas a matéria saudosa de paraíso continua a mesma. E a saudade do paraíso pode levar à vida e à morte, pode levar ao individualismo egoísta e ao sentimento do outro como meu eu e meu próximo. A saudade do paraíso pode levar ao ódio disfarçado de amor ou ao amor disfarçado de ódio. Posso ser Hitler ou Bush e posso ser Gandhi ou uma avó da Praça de Maio. Paraíso perdido, amor perdido, objeto perdido de um sem fim! Riso, misturado à mistura da vida! Rir é próprio do humano. Há que rir ou tentar rir, ao menos em pensamento, rir do humano que somos sem saber porque somos o que somos. Jogo de palavras? Jogo da vida num tabuleiro de xadrez? Buscamos no riso formas de salvar nossa dignidade, formas para redefinir nossa identidade humana. É como se diante da violência que nos rodeia, que nos habita e tece, quiséssemos voltar à memória de quem somos: somos amantes, ridentes, sedentas de justiça e igualdade. Mas, somos também assassinas, injustas e mentirosas. E nesse somos tão misturado, tão frágil e passageiro queremos pelo riso resgatar o melhor que existe em nós mesmas. Ao pensar no riso embora não estejamos rindo queremos simplesmente vislumbrar a possibilidade de encontrar de novo nossa alma de encontrar de novo uma razão de ser que nos devolva um "coração de carne". Reaprender a rir com as coisas belas da vida, reaprender o humor presente no cotidiano no dará talvez forças para seguir viagem. Não resolve o problema da violência no trânsito, da falta de emprego, da jovem estuprada, braço ferido pela porta do ônibus, do filho chorando de fome, das decepções políticas, mas alivia, ajuda a respirar e a respirar melhor. Precisamos nos ajudar a aprender a rir para ver se algo novo pode nascer de nosso riso. Rir porque a mesa está farta, rir porque em breve a criança esperada vai nascer, rir porque amanhã é dia de colheita, rir porque Deus ri com a nossa risada.


* Filósofa e teóloga, feminista e escritora
Obs: Texto publicado em ADITAL(www.adital.com.br)

Um Passeio à Eternidade

   Um Passeio à Eternidade

              Conto em Tempo de Natal
                                                                    
 por


                    J. A. Horta da Silva





horta.silva@sapo.pt


Quando o espírito está saciado, é fácil negligenciar a hora do almoço em troco de uma refeição leve. As experiências absorviam cada vez mais a vida de Irene que decidiu enganar o estômago na companhia dos equipamentos. Anotou os resultados das últimas medições, abriu o embrulho da merenda, sentou-se à secretária e começou a comer uma sandes, enquanto passava os olhos pela revista “Environmental Science” Abriu uma garrafa de sumo e foi bebericando à medida que se embrenhava na leitura. Era uma peça importante sobre os malefícios de alguns efluentes industriais. Anotou pormenores, para digerir em ocasião mais oportuna, e voltou à bancada. De regresso, os colegas foram-se metendo com ela e Irene foi retribuindo com ditos jogralescos até que começou a sentir falta de ar. O tempo não estava abafado, nem o laboratório estava super-aquecido. Abriu uma janela, mas não melhorou. Conjuntamente com a falta de ar, sentiu dores de cabeça, depois tonturas e por fim náuseas. Quando se apercebeu do que se estava a passar, correu para o colega mais próximo e disse: «sinto-me envenenada…» e caiu.

O bulício era grande, não se sabendo como apareceu uma maca, um médico e dois enfermeiros que começaram a seguir o percurso da tensão arterial que baixava drasticamente. O médico cheirou a boca de Irene que exalava um hálito a amêndoa amarga, além de sofrer de dificuldades respiratórias que trepavam o quelho que dá acesso à morte. A dispneia aumentava à medida que o complexo “cianeto-citocromo oxidase” inibia a utilização do oxigénio pelas células. Fluidas recordações da vida corriam-lhe pela mente sob a forma de diaporama, entre as quais apareciam figuras esbatidas a enviarem beijos de despedida. O sussurro das vozes distanciava-se e a angústia passeava no rosto dos presentes, desesperada com a incapacidade humana perante a morte, que aguardava o momento de entrar.

- Não há tempo para a levar ao hospital. Precisamos de lhe dar a inalar nitrito de amilo e elevar-lhe a tensão arterial para a casa dos oito. A máxima está muito baixa.
- Dá-lhe outra pérola de nitrito e tu prepara tiossulfato de sódio. Ela está a gelar.
- A tensão arterial continua a cair – disse o enfermeiro em desespero.
- Ou a safamos agora ou nunca – retorquiu o médico, administrando o tiossulfato por via endovenosa.
- Vamos arriscar nitrito de amilo de minuto e meio em minuto e meio; tu prepara-me mais um bólus de tiossulfato e tu não deixes de me ir avisando da evolução da tensão arterial – gritou o médico de forma hirsuta, como se o mundo estivesse a desmoronar-se.
- A queda da pressão foi contida… – bradou o enfermeiro ao olhar a inversão do comportamento da coluna de mercúrio.
- Quando estiver perto de oito, vamos substituir o nitrito de amilo por nitrito de sódio. Prepara-me também norepinefrina para tentar manter a máxima acima do mínimo exigido.
- Acha que se salva doutor?
- Ainda é cedo para se saber; vai precisar de entrar nos “Cuidados Intensivos” para que não haja queda no ciclo de reabilitação. O tratamento exige medidas de suporte e um controlo apertado. É indispensável restaurar a função enzimática. Se aguentar quatro a cinco horas é provável que recupere, mas podem ocorrer lesões cerebrais irreversíveis.

Quando voltou a si, Irene encontrava-se rodeada de máquinas, enleada por tubos que lhe entravam pelo nariz, pela boca e pelas veias. Não tinha a mínima noção do que se passara e, confusa, não conseguia articular um pensamento. Vivia um estado hibernante envolto numa debilidade quase total. O silêncio era de morte, mas devia estar viva, porque começou a ouvir o piar, intermitente, que vinha de uma máquina que não tinha aspecto virtual. Estava envolta em penumbra, entalada entre cortinados de cor celestial, mas no ar persistia uma dócil nebulosidade à mistura com sombras e matizes de pinturas sacras evocando o que está para além do Olimpo. De qualquer modo, não sabia se eram imagens das recordações da vida ou se, por outro lado, não estaria a dar os primeiros passos da ressurreição, pois a morte deve ser algo que só se dá conta com os sentidos da alma. Uma coisa parecia certa. Se estava viva, a vida troçara de si, com uma dose de ironia que roçava o desprezo e, pela primeira vez, fora atirada para o domínio da transcendência, embora sem dar um passo consciente para isso. Era como se algo de transitório, nas relações com o mundo material, tivesse sido posto em causa e, presumivelmente, nunca mais deixaria de pensar nessa inquietante tranquilidade. De repente, o fundo celestial em frente da cama agitou-se e, uma figura feminina, de bata branca, apareceu e verificou o estado da tubagem, como se fosse um canalizador sofisticado, de mãos e pés de fada. Analisou os gráficos e os valores registados pelas máquinas, abriu-lhe os olhos, perscrutou-lhe o interior, deu-lhe umas palmadinhas na face e disse-lhe delicadamente: «então Irene, como vai isso? Não quer falar connosco? É preciso acordar! Temos de pentear esses cabelos bonitos» mas não obteve resposta. Ajustou o fluxo do soro, olhou em redor e foi-se embora em passos de cetim, deixando, atrás de si, um traço do profissionalismo próprio do mundo civilizado. O sono pesado regressou e ofuscou, de novo, a realidade momentânea, relançando a paciente no espaço, facto que lhe devolveu a tranquilidade e o prazer inerente ao mistério da sustentabilidade da leveza do ser.

Nuno encontrava-se no Bahrain, numa empreitada portuária. Estranhava a falta de notícias e sentia-se intranquilo. Detestava escrever à máquina ou em computador acerca de assuntos de intimidade. A letra, dizem os grafólogos, tem muito daquilo que somos e, segundo o seu pensar, o sabor de escrever uma carta, por amizade ou por amor, não podia ser satisfeito num computador. Afigurava-se-lhe um acto árido, em trânsito pelo deserto dos afectos. Por isso, tinha uma caneta de tinta permanente, cujo aparo havia adquirido o indispensável ajustamento à inclinação e força a que era sujeito e conhecia a sequência predilecta das palavras adequadas a ocasiões sublimes ou a momentos amargos. Era um aparo que continha, em si, o dom da escrita, como se fosse uma entidade viva capaz de adivinhar o resto da frase pela força exercida no bico, pela tremura do polegar, pela inclinação da caneta e por outros atributos que guardava a sete chaves. Em desespero, Nuno recorreu a telefonemas e e-mails, mas continuou a não obter resposta. Foi até ao bar do estaleiro, onde alguns trabalhadores queimavam horas de descanso à procura de um ouvinte e, na falta de ajuda humana, embalados por cerveja e whisky, acabavam por se curvar perante o próprio balcão, como se este fosse um muro de lamentações. Depois de muito pensar, Nuno tomou a decisão de antecipar a licença por férias de Natal.

Quando entrou no hospital, ia preparado para o pior. Estava gelado, não só pelas condições climatéricas, mas sobretudo pelas informações obtidas na universidade. Londres estava vestida de branco, os ponteiros do Big Ben haviam-se atormentado com o excesso de neve, mas as ruas e montras apareciam enfeitadas em honra da esperança natalícia. A esperança era para Nuno qualquer coisa inerme e inerte empoleirada nas asas da alma, quando esta esvoaça desorientada depois de se deixar encurralar pelos aneurismas dos becos vida. Sempre foi materialista e, por força desta singularidade específica, nunca acreditou que a esperança pudesse resolver o que quer que fosse relativamente ao futuro do ser humano, a não ser no domínio de uma abordagem primária e emotiva.

Ia trémulo e incrédulo, quando se dirigiu para o sector de reanimação, acompanhado por um médico que lhe pediu para chegar junto de Irene como se nada tivesse acontecido e lhe falasse exactamente como se estivesse a tentar acordá-la num dia normal. Quando o médico arredou as cortinas, Irene permanecia deitada de olhos semicerrados num estado aparentemente vegetativo. Nuno debruçou-se sobre o leito, tocou-lhe ao de leve na face, penteou-lhe os cabelos com os dedos feitos escova, deu-lhe um beijo prolongado na face e segredou-lhe ao ouvido, no tom plácido e carente que ela tanto adorava: «Irene! Temos de ir às compras de Natal. Lembras-te da lista que preparámos? Fizeste-me jurar que íamos ao Harrods e a Portobello Road. Vem aí os teus pais e ainda não aprontámos nada. Acorda amor…». O rosto de Irene tomou uma expressão de admiração, os olhos abriram-se e lucilaram, enquanto os lábios sorridentes pronunciaram as primeiras palavras após o acidente:

- Nuno?! Que bom voltar a ver-te...

Nuno sentou-se na borda da cama e ambos apertaram as mãos em honra da felicidade, enquanto o médico se retirou com discrição, inundado de complacência por ter ganho mais uma batalha a favor da vida.

A FLOR SE FARÁ FLOR E GENTE...


Jacinta Dantas


Um assombro cataclismático, invade e estressa, congestionando os poros, contaminando de impurezas o sangue, o sangue estremecido entre o desencanto e a frustração, o sangue desorientado. Gente que vai... gente que vem... superlotando lojas-supermercados-shoping-restaurantes-ruas-ônibus-buzinas, e o Ser se consumindo num consumismo finalizador, como se tudo acabasse num dia, à meia noite, convencionado como último dia de um ano. Na busca desenfreada, o Ser se desdobra em Despedidas do velho numa tentativa desesperada de manter-se sempre novo, apesar da comilança e da bebedeira permissivas em data final. Alheio às trapalhadas humanas, o tempo segue seu curso, e, no tempo que se encerra, assim como no começo, mais chuva toma conta da avenida e tudo se confunde...e pessoas perdem o pouco que têm e o pensamento remete-se ao ano de 2010 que começa abençoado pela tríade da Paz, do entendimento e da tranqüilidade. Mas a dicotomia da doidice faz desmoronar os projetos, transformando os sonhos em lamento, lama, lágrimas e água, muita água nos lugares encantados ou sem encanto, onde há seres festejando e seres entalados nos morros ocupados por insensatez. ANGRA! O ano termina e eu insisto em relembrar: BUMBA! Penso que, se não esqueço incorro no risco de ter atitude de mudança. Rememorando e não entregando os fatos à fatalidade, ouso pensar que posso escutar a natureza nos momentos em que deságua toda sua força. Qual é a escolha? Para onde ir? Crateras lesionam o fluxo do bem viver em descasos acumulados ao longo do trajeto. Segue o corpo – perdido segue – segue em descompasso cardial suplicando energia e paciência para retomar. E mais uma vez, com todas as avalanches, sinto que é preciso repetir o ritual, apesar das perdas. O coração pede para subir e agradecer, então subo. No alto, com a respiração ritmada, o corpo encharcado recebendo, dos cabelos, os últimos pingos, recompõe-se e, aos poucos, vai se acalmando e percebendo que na sagrada montanha, protegida por frondosas árvores em todo o seu entorno, o espaço é propício à contemplação. Sigo, procurando o melhor espaço e vejo o perfume no olhar radiante que me socorre. Na rocha molhada, percebo-me aliviando os medos contidos em assoreamentos subterrâneos. Então, admiro seu jeito livre que me devolve a intensidade da luz: uma gostosa troca que me faz reverenciar a vida pelo pulsar que aproxima as várias formas do viver. Elevo-me para o infinito, escuto-me...escuto-me...escuto-me...confidenciando meu desejo de esperança, sabedoria, justiça e o equilíbrio necessário na ocupação dos espaços para que outras tragédias sejam evitadas. Volto meu olhar e mais uma vez contemplo a flor amarela, com suas grandes folhas, esparramada sobre a rocha. E ela, generosa, acolhe-me com alegria e, em harmonia com o lugar que ocupa no mundo, toca em seus sinos a canção do amor fraternal na ternura do amarelo desabrochando em sorrisos, mostrando-me que eu sou o Ser que também é pingo de chuva, o Ser que também é rocha...que também é flor. Misturando-nos, sinto o pulsar da Alamanda proclamando com sua beleza que a tempestade vai passar; proclamando com sua simplicidade que o dia termina e sempre haverá o Amanhecer – amanheceremos em 2011 – conscientes de que juntos somos um no Universo, e, sendo um, precisamos nos cuidar, harmonizando-nos e reverenciando as 04 estações, os 04 elementos, as 04 fases da lua, 0s 04 pontos cardiais...e, respeitando-nos, a flor se fará Flor e gente será o Ser que se faz no caminho, tornando-se gente à imagem e semelhança de Deus.


Obs: Imagem enviada pela autora ( alamanda, do fotoblog da UOL)

A DELICADEZA DO SILÊNCIO NA COMUNICAÇÃO


Leo Pessini *


A incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de arrogância e vaidade. Parafraseando Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito: é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

O poeta se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras. Daí a dificuldade em ouvir o que o outro diz, se ele é interrompido com palpites ou outras idéias. Ou seja, o silêncio exterior não é suficiente: é necessário fazer silêncio internamente para conseguirmos realmente ouvir, assim como a música, que acontece no silêncio, quando livres dos ruídos, do falatório e dos saberes da filosofia ouvimos a melodia que, de tão linda, nos faz chorar.

Ouvir exige tempo e atenção. O silêncio ou a escuta atenta querem dizer: “estou ponderando cuidadosamente sobre tudo aquilo que você falou”. Esta é a beleza do silêncio.


*Camiliano, pós graduado em Clinical Pastoral Education pelo S. Lukes's Medical Center (Milwaukee, EUA). Professor doutor no programa de mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo (SP) e autor de inúmeras obras na área da bioética, dentre as quais Bioética: um grito por dignidade de viver e co-organizador de Buscar sentido e plenitude de vida: bioética, saúde e espiritualidade.

TEXTO DE LUG COSTA


Tocam os sinos no palácio do rei anunciando o nascimento de um menino-Deus, mas ninguém consegue encontrá-lo.
As pessoas mais importantes do reino são convidadas para a festa, mas a festa só terá início quando o menino-Deus for encontrado.
O banquete já está preparado com os melhores pratos do cardápio real, mas o festejado não foi ainda encontrado. Muitos convidados se perguntam: o que estava acontecendo, qual o motivo de tanta demora. As horas se passaram e o menino-Deus tão esperado para ser homenageado não apareceu.
A decepção dos poderosos deste mundo, com o nascimento do menino-Deus, não seria porque Ele preferiu o silêncio da gruta ao barulho das comilanças e bebedeiras de suas festas natalinas? Não seria talvez porque Ele preferiu a companhia dos simples pastores que jamais instrumentalizariam a sua pessoa para aparecerem nas colunas sociais?
Lá no meio do mundo dos pobres, bem distante do palácio, as estrelas iluminam as estradas que levam a gruta de Belém, os anjos anunciam aos pobres pastores o nascimento do filho de Maria.
Natal é o encontro com a simplicidade da gruta que acolhe e defende a vida.
Natal é perceber a presença do menino-Deus nos pequenos e excluídos do mundo.
Natal é optar pelo mais fraco, pelo mais insignificante, pelo não amado.
Natal é dizer “sim” à fragilidade de uma criança chamada Jesus de Nazaré.

VENHA FELIZ ANO NOVO!

Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)


Será que é errado ou mesmo fora de moda
Perguntar quais são suas novidades para a humanidade?
Merecemos respeito.
Diga-me, olho no olho, você será capaz de continuar nos machucando,
Como tão duramente anda fazendo?
Estou preparando-me para lhe receber,
Com mais dignidade e amor,
E as coisas que vivenciei ontem, anteontem e antes de anteontem
Sejam varridas no ano novo,
E toda mesquinharia que você trouxe no passado, não nos seja entregue em duplicidade.
Evapore-se, não volte a sufocar a vida de ninguém.
Quero que você venha com novo astral,
Num ângulo mais profundo, amadurecido e sincero,
Afinal você é bem velho para fazer tolices.
Venha em sintonia de risos e alegria,
Sem mágoa ou dor nos abraços,
Com muita expectativa
Circundado de sentimentos de fidelidade,
Confiança e lealdade
Não é pedir muito.
Afinal, você tem atendido a tantos pedidos vazios,
De valor material, sem valor espiritual,
E você dá sem reclamar!
Neste momento, em que estou a pedir-lhe estas coisas,
Vem-me na alma uma vontade de chorar,
Porque sei que as conquistas que fiz ao longo da vida,
E que como uma bola de sabão, explodiram e se perderam no ar,
Deixaram-se insegura para mais um ano que me chega.
Fiquei sem referência, sem meus momentos,
Sem minha história,
Que agora me parece ter sido da carochinha.
Mas estou decidida, quero você repaginado.
Como feito sob encomenda para mim, como algo exclusivo,
Não que eu queira lhe sufocar
Mas é tão legal ter algo só seu,
Que embriague sua vontade, seus dias,
Numa conquista diária,
De reter a vida, a felicidade,
Com a sensação de que em você eu tenho a soma de tudo
No que procuro a cada dia.
Vou preparar-me para você,
Sem ressentimentos ou mágoas,
Apenas a certeza de que você ainda me é uma incógnita
Onde eu procuro achar verdades,
Para que meu coração só tenha sentimentos de admiração,
Sem o egoísmo da posse, só o respeito e a união de seres.
Quero contar com você todos os dias que me virão.
Conhecer sua vontade.
Não duvidar do seu interesse, nem ter medo do amanhã,
Quero sentir minha família, pêndulo de minha vida,
Dedicar-lhe atenção e o amor que ela merece.
Cantar e dar graças a Deus pela beleza da vida
E renovada possa receber-te,
Com muito tempo para dividirmos juntos.
Quero brindar, com alegria,
A sua chegada pontual,
Com minha vida arrumada.
E embrulhado, feito presente,
Você Ano Novo,
Com suas surpresas e promessas
Chegue-me, sem abrupção.
E que toda a humanidade desfrute de você, Ano Novo extraordinário,
Repleto de realizações.
Venha feliz ano novo!

RECEITA PARA UM FELIZ ANO NOVO


Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)


Se existe uma palavra que pode ser mágica é o desejo. Quando desejamos com toda força interior, emitimos uma energia misteriosa que nos compromete no empenho de realizar o que desejamos e pode ter conseqüências concretas nas outras pessoas e no mundo. Nestes dias, há quem deseje “Feliz ano novo!” como mera formalidade social. Ao contrário, a maioria das pessoas, de fato, anseia que este ano de 2011 seja um tempo mais feliz e de paz para nós mesmos, nossos entes queridos e para todo mundo. Entretanto, mesmo quem deseja de coração os melhores votos de feliz ano novo nem sempre sabe como tornar o seu voto um caminho positivo para um futuro melhor. As culturas e religiões antigas crêem na força da palavra. Em muitas religiões indígenas, as palavras curam ou, ao contrário, podem matar. Na Bíblia, vários salmos pedem a Deus que nos proteja dos “i pô ´allê ´awen”, os que, com sua palavra, provocam males como doenças, tragédias ecológicas e todo tipo de infelicidade. Esta cultura vinha de Sumer onde existiam rituais de Shurpu, maldições do tipo que em nossa cultura popular se chamaria “rogar praga”. Ao contrário disso, no Novo Testamento, uma carta atribuída a Pedro insiste que “nós temos a vocação da bênção, isto é, somos chamados a bendizer, ou seja invocar o bem sobre as pessoas e sobre o universo (1 Pd 3, 9).

Para as culturas antigas, a palavra é eficaz quando nasce no mais profundo do coração e é precedida pela prática de vida. O Mahatma Gandhi ensinava: “Comece por você mesmo a mudança que deseja para o mundo”. No Evangelho, é dito que a palavra de Deus se realizou em João Batista no deserto (Lc 3). Isso significa que, primeiramente João viveu a palavra que depois ele passou a proclamar. Quando vivemos para os outros o amor, a generosidade, a solidariedade e a partilha de vida, então, o nosso desejo de que o mundo caminhe para isso se torna mais eficaz. Evidentemente que não temos força para mudar organizações sociais e sistemas complexos e baseados em leis estruturais. No entanto, podemos contribuir para que se criem as condições necessárias para transformar estas leis e sistemas.

Se você quiser, de fato, que este ano seja um tempo de profunda renovação da sua vida e isso repercuta bem para as pessoas ao seu redor e para todo o universo, refaça na noite de ano novo o compromisso de, a cada dia deste ano, consagrar um tempo, por mínimo que seja, de gratuidade e interioridade para renovar um diálogo verdadeiro e profundo consigo mesmo, comprometer-se em ser cada vez mais uma pessoa de diálogo com os outros seres humanos e intensificar a comunhão solidária com todos os seres vivos e com todo o universo. Faça isso e a bênção deste ano novo se realizará em você e no mundo inteiro a partir de você. Sinta como profundamente verdadeiras em sua vida e faça com que o sejam para os que convivem com você as palavras da antiga bênção irlandesa: “O vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas em teus campos. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão”.


* MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 37 livros publicados, entre os quais “O Amor fecunda o Universo (Ecologia e Espiritualidade) com co-autoria de Frei Betto. Ed Agir, 2009.

SERÃO CHAMADOS FILHOS DE DEUS


Maria Clara Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio *


Natal não é ponto de partida, mas de chegada. O povo que esperava o Salvador teve seu desejo atendido! Recebeu o que esperava. Neste fim de ano, nesta nossa amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o desejo que enche o peito e a garganta do povo é um só: paz. Paz para viver, para trabalhar, para construir, para amar, para formar família, para estudar, para fazer arte grande e pequena, para escrever livros e compor musica, para cantar, para viver enfim com tudo que a vida tem de duro e de delicioso, de difícil e de belo.

Avesso ao caos, à desordem, à balburdia, o ser humano anseia pela paz. Seu mais profundo desejo é que finalmente essa paz venha e se instale em seu coração, em sua cidade, em suas relações, em seu país. Desejo adiado, adiado, e às vezes tão pisoteado. Parece que a má notícia da paz e da desordem teima em ocupar espaço, fazer barulho, e bloquear a boa nova de que a paz é possível. E que se encontra entre nós alguém capaz de fazê-la acontecer.

E, no entanto, em meio a essa situação de desavença, ousamos celebrar o Natal. E assim proclamamos que nossa espera foi plenificada. Recebemos o que tanto desejávamos e esperávamos. “ Nasceu-nos um menino – disse o profeta Isaías ao rei que tinha ao lado a esposa grávida -... e ele se chamará... Príncipe da Paz “O povo viveu tempos penosos depois daquela profecia. E chegou a se perguntar: terá o Senhor Deus esquecido de sua promessa? O profeta estaria enganado?

Havia uma jovem em Nazaré prometida a um carpinteiro de nome José. Seu nome era Maria. E antes que coabitassem, ela concebeu um filho. José sofreu diante do mistério que não entendia, mas recebeu o menino e sua mãe. Aquele que Maria recebera em seu seio seria o verdadeiro Príncipe da Paz. E quem viu, ouviu, tocou e apalpou a Palavra da Vida feita carne maravilhou-se e acreditou: este é o verdadeiro Príncipe da Paz, que tanto desejamos e esperamos. Só Ele pode trazer-nos a paz verdadeira que nada nem ninguém pode destruir.

O menino cresceu em graça e sabedoria. Levantou a voz e falou nas praças públicas anunciando a chegada do Reino de Deus, feito de justiça e de paz. Todos os que esperavam e desejavam a paz nunca acontecida o seguiam maravilhados por toda parte. De sua boca saíam palavras de vida e onde pousava seu olhar e suas mãos, o mal era vencido e a paz acontecia.

Aqueles que não queriam a paz o mataram. Mas os que o amavam e o viram morrer logo receberam a boa notícia de que ele estava vivo. Creram e espalharam a novidade, inundados da paz e da alegria que ele prometera. Anunciaram aos quatro ventos que aquele que nascera pequenino do seio de Maria de Nazaré era, na verdade, o Filho de Deus, o Príncipe da Paz.

Só então entenderam aquilo que ele havia ensinado. Lembraram-se de uma vez que falou do alto de um monte e disse “Felizes os que constróem a paz porque serão chamados filhos de Deus”. E entenderam em que consistia essa paz: não em ausência de conflitos, em falsa tranquilidade de consciência, em alienação. Mas em dinamicidade que luta e tudo faz para que a justiça aconteça, dando seu fruto maior, que é a verdadeira paz.

Entenderam que Jesus tinha passado a vida lutando por isso. Morrera por causa dessa luta. E Deus, confirmando sua vida, havia dito: Esse é o meu filho amado. Ouçam-no. Façam como ele.

No Natal celebramos o nascimento do Príncipe da Paz. Ele é o único que pode nos dar aquilo que mais desejamos e esperamos. Mas nós somos responsáveis pela construção e consolidação dessa paz por ele dada, tão cara e fundamental para a vida.

Emmanuel Levinas, grande filósofo judeu do século XX dizia: “... cada um deve agir como se fosse o Messias. O Messianismo não é a certeza da vinda de um homem que detém a História. É meu poder de responzabilizar-me por todos”.

Neste Natal, calemo-nos em adoração diante do menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura. Em sua fragilidade repousa a salvação do mundo. Ele é o príncipe da paz. E ao mesmo tempo, responsabilizemo-nos com Ele a construir essa paz tão desejada por nós e por todos que vêm a este mundo. Ofereçamo-la, sobretudo ao que está próximo a nós. Seremos felizes, bem-aventurados. E chamados filhos de Deus!


* Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco). http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


Copyright 2010 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

PRESENTE DE NATAL


Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com


Aqui está meu presente para você. Como não embrulhei, você pode ir sentindo os aromas, vendo as cores e sentindo as texturas do que estou te mandando. Aproveite cada detalhe e não tenha pressa. Ele se estende com o tempo e tem, por isso mesmo, a duração exata. Recolhi e fui guardando, durante todo o ano, um pouquinho de cada bom momento que vivi, querendo compartilhar com você, quando chegasse esta hora.
Aí vão, em primeiro lugar, algumas estrelinhas bem pequenas e, junto delas, essa maior, que andou cercando a lua tantas vezes e me encantou por noites a fio. Use o brilho delas, a seu critério, para acender seus olhos, sempre que passar por eles alguma nuvem de tristeza que os embace.
Embaixo delas, deixo pra você o cheiro bom da terra molhada. Guardei esse pouquinho, numa tarde bem quente, quando a chuva bateu repentina e bem forte e me trouxe uma sensação imensa de alívio e de descanso. Aconselho a deixá-lo debaixo do travesseiro e ir puxando, de mansinho, quando parecer difícil adormecer. Inspire profundamente e aguarde os sonhos...
Tem também aí nesse cantinho, a coragem e o viço de uma florzinha branca que atravessou espontaneamente o muro do vizinho da casa onde trabalho e veio desabrochar, toda generosa, no meu caminho de entrada. Sua simplicidade elegante me surpreendeu, trazendo a mensagem da persistência vitoriosa, que espero possa enfeitar seus dias mais complicados.
Ah, está sentindo um gosto bom, de repente? É o paladar inigualável de comida fresca, aquela que é feita com todo capricho, bem na horinha de ser servida. Gosto raro nos dias de hoje! Pois, daqui pra frente, este sabor, o tempero do cuidado, te acompanhará, fazendo você ter vontade de voltar pra casa e preparar seu próprio alimento, “de corpo e alma”!
Guardei também para você, o toque gostoso de uma roupa bem macia, aquela que, de tão antiga, já conhece o jeito do corpo da gente e que quase nos acaricia. Se acontecer de se sentir muito tenso, vista essa sensação redescoberta e relaxe!
Não estranhe eu ter deixado este espaço vazio aqui no fundo. É pro seus novos projetos. Pode preenchê-lo como quiser e ousar. E não se preocupe, foi para isso mesmo que não embrulhei o seu presente. Assim você pode expandi-lo à vontade e torná-lo do tamanho exato da vida que você escolher viver. Aproveite-a!

Feliz 2011!