terça-feira, 26 de outubro de 2010

MEU AMOR!


Márcia Lima


Engano dizer que amor é abstrato.
Eu mesma já vi o amor!
Ele chegou num sorriso,
Disfarçado,
Calado,
Mas, percebi que era amor!
Sorria, tentava ser amizade
Caridade,
Era tarde!
Já era amor...
Enganam-se quem diz que amor é abstrato.
De fato!
Não é...
Percebi o amor nas palavras,
No olhar,
No gesto,
No incerto,
No certo,
Mas foi realmente de perto.
Que senti o calor do amor!
Vislumbrei a cor,
Aprendi a cantar,
Provei o sabor,
Comecei a amar!
Dizer que amor é abstrato? È engano!
Eu mesma sou o amor!
Talvez, disfarçada,
Calada,
Explosiva,
Reservada,
De uma maneira clara,
De forma rara,
Concretizo por você meu amor!

VOTO PELA DEMOCRACIA



D. Demétrio Valentini *


Esta campanha eleitoral, que está se concluindo, introduziu um fator novo, que compromete o exercício da própria democracia.

De maneira completamente impune, foi armado todo um esquema de demolição de uma candidatura, valendo-se da calúnia, difamação, mentira, e toda sorte de falácias enganadoras, sob o anonimato da intertet, e sem nenhuma ação da justiça eleitoral, que ignorou este fator como se ele não fosse altamente prejudicial para a prática da democracia.

Este fator precisa ser neutralizado pela força do voto. De tal modo que, nestas eleições, está em causa não só a eleição para a Presidência da República, mas sobretudo a salvaguarda do próprio processo democrático.

Antes de indicar a Presidência, o voto precisa expressar o repúdio a esses procedimentos antidemocráticos, usados impunemente para demolir a imagem de uma candidatura, na tentativa de inviabilizá-la eleitoralmente.

Este o fato. Se este procedimento prosperar, o processo eleitoral fica seriamente comprometido. As campanhas eleitorais se reduzirão à corrida para ver quem primeiro elimina impunemente o seu adversário.

A única arma para combater esta dinâmica deletéria é o próprio voto. E´ pelo voto que se frustram os intentos de eliminar arbitrariamente uma candidatura, valendo-se de expedientes difamatórios, caluniosos e injustos.

Cabe ao eleitor identificar qual a candidatura que foi vítima deste intento fascista. Pessoalmente, deixo ao eleitor a resposta a esta questão. Mesmo reconhecendo que este procedimento sujo e desonesto acabou abalando a consciência de muitas pessoas simples, que ficaram atordoadas, pela insistência das acusações e por sua gravidade. Mas prefiro apostar na capacidade de discernimento dos eleitores, e no bom senso que finalmente vai prevalecer, pois a mentira tem perna curta, e o feitiço pode se virar contra o feiticeiro.

Desta vez, portanto, com o voto, em primeiro lugar vamos desfazer o intento de quem procurou demolir uma candidatura. Esta candidatura acabou se tornando símbolo do repúdio a procedimentos que precisam ser extirpados. Votando nela, votamos contra as falácias desta campanha. Assim o voto adquire dupla finalidade.

Na verdade, além deste duplo valor do voto nesta eleição, ele tem uma terceira tarefa: reprovar de vez o intento de instrumentalizar a religião para fins eleitorais. Este também é um expediente que precisa ser extirpado do processo eleitoral brasileiro. E´ urgente rasgar as máscaras de muitos fariseus, que utilizam causas e posições religiosas para fins eleitorais, pretendendo-se detentores de poderes sagrados para manipular a consciência dos eleitores. Está mais do que na hora de abolir de vez este procedimento que já está ultrapassado há séculos.

Faço votos que tenhamos a lucidez de perceber o valor agregado que desta vez o voto vai assumir. E estejamos todos prontos para que, passado o processo eleitoral, possamos tirar desta campanha lições práticas que precisam ser transformadas em normas reguladoras das futuras eleições no Brasil. Para que, apesar de tudo, a democracia saia fortalecida!


* http://www.diocesedejales.org.br/

REGENERAR A CAMPANHA

D. Demétrio Valentini *


Temos pela frente mais uma semana de campanha eleitoral, em segundo turno para a Presidência da República.

Viria bem a propósito uma sugestão: quem sabe nesta semana daria para regenerar a campanha, livrando-a de sua mediocridade, e de muitos equívocos que a caracterizaram até aqui?

Quem sabe, ainda daria para debater propostas concretas de governo para os próximos quatro anos, sem perder de vista, claro, as perspectivas de um projeto de Brasil a longo prazo. Realizar em torno destas propostas uma discussão franca, aberta, aprofundada, procurando garantir a viabilidade de tudo o que cada um pretende fazer.

A discussão poderia ser conduzida pelos dois candidatos, mas poderia se estender aos chefes dos partidos, visando o engajamento dos parlamentares para a formulação e execução dos planos de governo.

Poderia, poderia, poderia!

Mas infelizmente não vai acontecer. Está mais do que evidente que não existe ambiente para isto. A campanha já foi contaminada pelo vírus dos ataques pessoais entre os candidatos, na tentativa de desmerecer o adversário e solapar sua imagem junto aos eleitores.

Seria ingenuidade pensar que nesta última semana a campanha vai melhorar. Os ataques vão continuar, as tentativas de desestabilização também. Nada vai ser alterado. As eleições poderiam ser feitas neste domingo, embora cada lado esteja pensando como aproveitar estes dias que ainda faltam para talvez desferir um golpe mais certeiro que produza um efeito mais evidente, fazendo pender a balança para o seu lado.

Portanto, está anunciada mais uma semana de encenação inútil, de promessas infundadas. Esta campanha passará para a história como a mais suja já realizada no Brasil, levantando grandes apreensões sobre as futuras campanhas, se não forem tomadas em tempo sábias providências, a serem transformadas em leis claras e severas, capazes de coibir os abusos.

Dado que as coisas assim estão, vamos nos alertando para o exercício do discernimento. E´ importante conferir como é composta a pauta dos noticiários televisivos, a capa das revistas, a primeira página dos grandes jornais. Numa aparente e elegante neutralidade, vão desfilando em sequência matérias trazidas à tona e enfileiradas com o único escopo de desfazer a imagem do adversário. Sim, do adversário, porque os grandes meios de comunicação sabem muito bem escolher quem é o seu candidato, e quem é o seu adversário. E não vão poupar nenhum cartucho que julgarem capaz de causar estrago efetivo.

Esta é a realidade política neste país chamado Brasil.

O que fazer? Valorizar ainda mais o voto! E´ com ele que podemos frustrar quem faz da política um meio de conseguir o poder, para colocá-lo a serviço dos seus interesses pessoais e corporativos, instrumentalizando a fé e as instituições eclesiais.

O voto é nossa arma verdadeira. Ele é a pequena pedra que Davi colocou em sua funda, no combate contra o gigante Golias. A verdadeira vitória eleitoral, desta vez, não é em primeiro lugar “ganhar a eleição”, mas derrotar as trapaças eleitorais. Isto a gente faz demonstrando que votamos, não levados pelas falsas acusações que se propagaram em abundância nesta campanha, mas pela vontade livre de cada eleitor, definida a partir da proposta de governo que cada eleitor achar mais conveniente para todo o povo brasileiro e para o futuro do nosso país.


* http://www.diocesedejales.org.br/

DOIS EVENTOS NO MESMO CAMINHO



Marcelo Barros(*)
http://marcelobarros.zip.net/
(irmarcelobarros@uol.com.br)


Neste próximo domingo, as comunidades cristãs serão chamadas a viver dois eventos que, aparentemente, nada têm em comum, mas, o calendário os uniu no mesmo 31 de outubro. O primeiro evento é o segundo turno das eleições para presidente da República. O segundo acontecimento é que este dia do segundo turno eleitoral coincide com o “dia da reforma”, aniversário do início do movimento evangélico. Segundo a tradição, no dia 31 de outubro de 1517 Martinho Lutero pregou na porta da catedral de Wintenberg (Alemanha) as 95 teses sobre a necessidade de uma profunda reforma na Igreja cristã.

De fato, somente cinco séculos depois, no Concílio Vaticano II (de 1962 a 1965) e, mais tarde, em uma declaração comum com a Federação Luterana Mundial (1999), a hierarquia católico-romana reconheceu o acerto das principais afirmações de Lutero: a primazia da Bíblia como fonte da fé cristã, a salvação pela graça de Deus através do dom da fé e o sacerdócio real de todas as pessoas batizadas. Apesar dessas afirmações feitas em comum, as Igrejas continuam divididas. Até hoje, cada grupo cristão ainda é tentado a pensar a sua missão apenas em função de si mesmo. O aniversário da reforma começa a chamar a atenção não somente de cristãos evangélicos, mas também de católicos. Em algumas cidades do país, o dia 31 de outubro começa até a ser feriado municipal.

Neste ano, a coincidência do segundo turno destas eleições no dia do aniversário da reforma protestante pode nos ajudar a perceber que estes dois acontecimentos são como uma só estação na mesma estrada.

No século XVI, Lutero, Calvino e outros reformadores propuseram à Igreja uma reforma que a ajudasse a voltar ao espírito do evangelho.: uma Igreja mais simples, mais comunitária e aberta à participação ativa dos leigos e disposta a se renovar espiritualmente para ser como o ensaio de uma humanidade renovada. Lutero dizia que esta reforma da Igreja deve ser permanente e contínua. Hoje, quase cinco séculos depois, homens e mulheres que pertencem às várias Igrejas cristãs sentem a urgência de uma nova reforma da Igreja e do mundo, como também cada pessoa é chamada a se converter e se renovar interiormente.

Ao dar o seu voto neste segundo turno das eleições presidenciais, a maioria do povo brasileiro também está dizendo que quer uma mudança social e política para o país. Não uma volta ao passado do qual já nos libertamos, mas um passo adiante no caminho de uma sociedade mais justa e participativa. Esta mudança não depende só e principalmente do governo, por mais importante que este seja. É necessário desenvolvermos um modelo democrático que não consista só em votarmos em nossos representantes cada quatro anos, mas possibilite que todo o povo participe verdadeiramente dos destinos do país. Para presidente da República, é preciso escolhermos a pessoa que for mais aberta e disponível para não somente aceitar, mas incentivar esta participação da sociedade civil no processo do país.

Para os cristãos, a fé não é apenas um sentimento individual. Ela deve nos levar a uma postura social e política que se expressa em uma atitude de cidadania. Não existe verdadeira vida de fé se não se busca criar uma sociedade mais justa e igualitária. Por isso, as pessoas cristãs devem não somente votar de acordo com a sua consciência, mas a partir do interesse dos mais empobrecidos e para que o regime social e político favoreça a realização do projeto divino no mundo e no país. Não se trata de servir apenas a interesses eclesiásticos, mas de construir um mundo renovado de fraternidade entre as pessoas e de comunhão com a natureza.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

A ÉTICA DO HUMANO



Dasilva


O ser humano é essa fúria por existir. Logo que é concebido, entra em um movimento constante. Quando chega a hora, insiste em ser dado à luz e já nasce esperneando. Cresce rápido, tem um apetite insaciável e quer andar. Curioso, mexe em tudo e pergunta o porquê de tudo. Não quer ser pequeno, sai de casa e corre atrás do infinito. Para saciar sua insatisfação de comida, de beleza e de perfeição, não se cansa de inventar e recriar.

Quando os humanos percebem que seu querer não é poder ou descobrem que tudo que nasce tem um fim, então, apelam para as poções mágicas, para continuar vivos e em ascensão. Nessa sua procura, se fazem deuses ou inventam deuses para poder ressurgir e continuar a brilhar.

O processo da vida acontece em um mundo real, onde os ser humano está acompanhado de outros seres vivos, pretendendo a mesma coisa. Então, entende que a aventura de viver exige construir caminhos, junto porque só não se vai muito longe. Junta-se em bandos, em classes, em povos para mútua sobrevivência.

Nesta momento, olha para dentro de si e, como os índios guaranis, vê que dentro de cada ser, convivem dois cachorros, cada um com sua mundivisão e uma intencionalidade. Cresce o cão que for mais alimentado por cada pessoa. O cachorro da direita sugere um caminho e o da esquerda outro. Cada projeto tem seus princípios, sua moral, seu método de atuação e seus mecanismos de controle.

O caminho do primeiro passa pela vontade de crescer sozinho e, como não é possível, tenta vencer os outros pela competição de força e esperteza. O segundo propõe a via do compromisso solidário, a participação e a cooperação. O primeiro caminho é simpático porque satisfaz o desejo, já o segundo cobra ousadia, convicção e sacrifício.

A ética que marca o rumo e o sentido de uma vida é o conteúdo da utopia. A moral reúne as regras e os princípios necessários a sua construção. A ética do cada um por si, ainda que pareça fácil, não sacia a sede que é a marca do ser humano. Vira, inclusive, uma tormenta porque para subir na vida a pessoa precisa usar os irmãos como escada. A ética do desenvolvimento humano, em vez da competição, propõe a criatividade, a companhia, o intercâmbio.

O contínuo e verdadeiro desenvolvimento humano só pode ter como horizonte a plena realização e satisfação do conjunto dos habitantes de uma nação. Por isso, entende que as várias dimensões do progresso, devem se orientar pelo princípio ético da rejeição de qualquer exploração ou apropriação do trabalho alheio, da rejeição de todas formas de dominação (classista, étnica, religiosa, sexual, etária, cultural...). Mas, além e junto com isso, a ética do humano propõe a criação de condições para a vivência da plena liberdade, como única forma de fazer desabrochar o potencial e os sonhos que forma a essência de cada pessoa.

TEXTO DE WALTER CABRAL DE MOURA



(wacmoura@nlink.com.br)


O poeta vive da loucura
o poeta também come verdura
mas o poeta se nutre de algo mais

O artista vive de amor
o poeta e o artista são iguais
o poeta vive sem senhor

Como Eva a passear no Éden
quer ver o poeta a mulher sua
em trajes de Adão se apresenta
aos céus a alma do poeta: nua

O artista vive de loucura e amor
amor e loucura, flor e rocha dura
o poeta tem o olho calmo
o artista jamais se angustia
o dia-a-dia do poeta é um salmo.

modus operandi

Dade Amorim
dedaamorimo@gmail.com
http://inscries.blogspot.com
http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com


aqui cabem amor esquecimento

e tudo mais que a vida acondicione

cabe a mochila das férias

e mais o crime

o medo

o espanto e a coorte dos desejos



cabe o perdão aqui

contanto que as articulações sejam poupadas

e cabe mais uma vontade imensa

obstinada

de pétalas se abrindo

EDUCAÇÃO, CASO DE POLÍTICA OU DE POLÍCIA?

Frei Betto


O IBGE divulgou, a 17 de setembro, a Síntese de Indicadores Sociais 2010. O IBGE é um órgão do governo federal. Portanto, não está a serviço da oposição nem dos detratores do governo Lula. Felizmente, é sério e isento. Os dados concernentes à educação no Brasil são estarrecedores.

Em 2009, 14,8% dos jovens de 15 a 17 anos se encontravam fora da escola. E 32,8% daqueles que tinham entre 18 e 24 anos deixaram os estudos sem completar o ensino médio. (Haja mão de obra desqualificada e candidatos ao narcotráfico...).

Comparado aos demais países do Mercosul, o Brasil tinha a maior taxa de abandono do nível médio – 10% dos alunos. Na Argentina, 7%; no Uruguai, 6,8%; no Chile, 2,9%; no Paraguai, 2,3%; e na Venezuela, 1%.

Por que nossos jovens abandonam a escola? Os principais fatores são a falta de recursos para pagar os estudos e o reduzido número de escolas públicas; o desinteresse; a constante repetência, provocada por pedagogias ultrapassadas, desmotivação e frequente ausência de professores; a dificuldade de transporte e a necessidade de ingressar precocemente no mercado de trabalho.

Para se ter um aluno empenhado em fazer um bom ensino médio é preciso que a motivação seja despertada na pré-escola e no ensino fundamental. Ora, como alcançar este objetivo se nossas crianças ficam, em geral, apenas quatro horas por dia na escola? A média latino-americana é de seis horas!

Apesar disso, houve avanços nos últimos dez anos, quando quase dobrou o número de jovens de 18 a 24 anos que concluíram o ensino médio ou ingressaram na universidade. Se em 1999 apenas 29,6% dos alunos terminaram o ensino médio, em 2009 o índice subiu para 55,9%. Em 1999, 21,7% tinham 11 anos de estudos (tempo suficiente para completar o ensino médio). Em 2009, 40,7% frequentaram a escola durante 11 anos. Em 1999, 7,9% ingressaram na universidade; em 2009, 15,2%.

Em 2009, 30,8% dos jovens entre 18 e 24 anos concluíram algum curso de qualificação profissional. Em 2004, apenas 17,2%. Este avanço se deve ao empenho do governo em multiplicar o número de escolas técnicas, bem como o sistema S (Senai, Senac etc.), e as bolsas de estudos concedidas via ProUni.

Por trás dos dados positivos se escondem desigualdades gritantes. Em 2009, 81% dos jovens de 15 a 17 anos entre os 20% mais pobres estavam na escola. Entre os 20% mais ricos o índice subia para 93,9%. Graças ao sistema de cotas e ao ProUni, dobrou o número de universitários com mais de 25 anos que se declaram negros: 2,3% em 1999, e 4,7% em 2009. Já o índice dos que se declaram brancos é quatro vezes maior: 15%.

O Brasil conta com 3,6 milhões de crianças com menos de 4 anos de idade e é ínfimo o número de creches para elas. O que significa que estão sujeitas a graves desvios pedagógicos por longo tempo de exposição à TV, permanente convivência com adultos ou idosos, muitas vezes entregues a vizinhos enquanto os pais cumprem o horário de trabalho. A Constituição assegura, no Capítulo II – Dos Direitos Sociais, “assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até seis anos de idade em creches e pré-escolas.” Quantas empresas cumprem?

Segundo o IBGE, entre 0 e 14 anos de idade há, no Brasil, uma população de pouco mais de 54 milhões de pessoas. Dessas, 5 milhões, ou 10,9% do total, vivem em situação de risco, em moradias sem água tratada, rede de esgoto e coleta de lixo. O Nordeste concentra a maior parte dessas crianças: 19,2%. E o Maranhão e o Piauí lideram essa estatística. A pesquisa apontou ainda que quase 39,4% dos alunos do ensino fundamental frequentam escolas sem rede de esgoto e 10% delas não contam nem com água potável.

Falta muito a fazer. Enquanto a educação brasileira não alcançar o nível mínimo de qualidade continuaremos a ser uma nação desigual, injusta, subdesenvolvida e dependente. Também pudera, embora a Constituição exija que sejam aplicados 8% do PIB na educação, o investimento do governo nesta área não chega a 5%. E o orçamento do Ministério da Cultura para 2011 é inferior a 1%.

Não é de estranhar o nepotismo na Casa Civil e os Tiriricas na corrida eleitoral. Além de educação, falta ao Brasil vergonha na cara. Desse jeito, o descaso da política para com a educação acaba virando caso de polícia, tamanho o crescimento da violência urbana.


Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – autobiografia escolar” (Ática), entre outros livros. www.freibetto.org
 – twitter: @freibetto


Copyright 2010 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

PORTAS PARA A TRISTEZA



Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


            Tarde quente. Pássaros voavam de uma árvore para outra em busca de abrigo. Tanajuras, aos montes, caíam no meio da rua. As crianças faziam algazarra. Quanta liberdade nos movimentos impulsivos, sem premeditação.
            Aconteciam porque acontecia a chuva a mudança de tempo, o tempo de ser criança. A frieza da tarde denunciava uma nova etapa do tempo e, quem sabe, da vida. Escureceu mais cedo. Restava do sol apenas um pálido fio de luz que se esgueirava por entre a escuridão das nuvens. Começou a chover.
            O dia nem mais parecia um dia. Era uma coisa que aos poucos se desintegrava, uma coisa que aos poucos se dissipava deixando em seu lugar uns restos de sombra a ameaça de uma noite prematura, a tristeza, uma tristeza que apagava os sorrisos. As faces contorcidas, sombras mais densas e fortes, o homem impotente diante da loucura do tempo. A sombra manchou o espaço, o rosto, a alma.
            Acordo. Recolho o que resta das sombras.
            Quem abriu as portas para a tristeza entrar?


Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega

REMINISCÊNCIA



Wilson Guanais
wilson_guanais@hotmail.com


11 anos
e o brinquedo
que
eu mesmo construi

quebrou

: a minha perna.

SÉRIE PINGUINS DOS TRÓPICOS

COTAS RACIAIS
Tassos Lycurgo
http://www.lycurgo.org/


AUSÊNCIA DE PONTEIROS



Ronaldo Coelho Teixeira
http://ronaldo.teixeira.zip.net/
ronteixeira@bol.com.br


Felicidade. Todos queremos e buscamos. Ainda mais nesses tempos “bicudos e difíceis”, nos quais a correria e a enxurrada de coisas supérfluas tentam, e geralmente conseguem afastar-nos cada vez mais dela.

Felicidade. Sonho de consumo número um no Século XXI. É verdade que, na maioria das vezes, atropelamos a nós mesmos e aos que nos cercam, na louca tentativa de encontrá-la.

Mas a busca por ela não é tão difícil. Nós é que complicamos demais esse trajeto utilizando-nos do auto-engano, da mentira, da perfídia, do falso e do dissimulado, traições e trapaças. E não é por mal a opção por esses – vamos colocar assim – desvios para se tentar chegar mais rápido ao paraíso.

Também não confundamos alegria com felicidade. Pois, a primeira é algo momentâneo e passageiro, ou seja, a sentimos quando somos promovidos no trabalho, ganhamos um presente ou conseguimos um objeto que tanto desejávamos, entre outros exemplos. Já a segunda é o resultado de um caminho trilhado na busca constante do “eu”. Alegria é estar. Felicidade é ser.

Por outro lado, muitos chegam a um ponto, no qual passam a sentir medo da felicidade. Resultado de tantas frustrações e decepções ao longo do viver. São aqueles que se agarram à única e confortável posição: a de se construir muros ao invés de pontes.

Receitas? Não, não existem regras para se alcançá-la. Mas Gibran dá uma boa pista: “Sim, o nirvana existe: está em conduzir teu rebanho a um verde pasto, e em por teu filhinho na cama, e em escrever a última linha de teu poema”. E Quintana, no poema “Indivisíveis”, que trata da felicidade através de suas lembranças enquanto ancião, diz, ao final do texto, que o exemplo de duas crianças de sexos diferentes, alegres e falantes, seria o que os adultos passariam a vida inteira procurando com esse nome.

E assim passamos a vida toda para descobrir que felicidade é todo o tempo que não medimos. Felicidade é a ausência de ponteiros.


Obs: Imagem do autor.
Texto retirado do livro do autor – Surtos & Sustos.

TEXTO DE PAULA BARROS





Chovem ideias
Que enchem o leito das veias
Deságuam na mansidão dos dias

Transbordam rios de nada
Nado na imensidão deste mar
Vazão da emoção
Abundância de ideias vazias


Obs: Imagem da autora (Foto de Campos do Jordão-SP)

CRIATIVIDADE



José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfdelvitoralencar@hotmail.com


Até a década de 80 do século XX a garotada se sentia instigada a inventar, longe ainda da modernidade e da era eletrônica a que chegamos. Éramos mais livres nas brincadeiras quando podíamos fugir da rigidez de nossos pais e do tradicionalismo quase “encantador” das escolas públicas. As nossas latas de Sardinha transformavam-se em carros enfeitados, produto de nossa fértil imaginação. Hoje essas latas contribuem para o aumento do lixo no planeta.

Um simples pedaço de madeira era transformado em cavalo corredor que nos levava aos mais distantes lugares e nos auxiliava na captura de perigosos bandidos.

Nossas inesquecíveis patelas, feitas de sandálias velhas, saltitavam em qualquer parede para se juntar à patela adversária no chão empoeirado que manchava nossas roupas de moleques “arteiros”.

As bolas de gude, ou petecas como são chamadas aqui no Norte, eram as meninas de nossos olhos enfeitando os quintais nos quais a meninada se concentrava para jogar turiti.

Nossos papagaios com suas rabadas enormes coloriam o céu azul de verão hipnotizando os olhares dos meninos e adultos que "descansavam" brincando num calor de matar.

Nossas bolas eram de meias sem uso com bastante retalho de pano e pareciam obra de arte nos campinhos de pelada.

As grandes folhas de jornal viravam barcos nas enxurradas das chuvas demoradas ou então serviam de chapéu nas cabeças pensantes daquela época...

Hoje nossas crianças, jovens e adultos ficam horas com seus brinquedos eletrônicos que depois de repetidas vezes jogando ou brincando ficam entediados. São brinquedos que nos ensinam a repetir movimentos moldados e chegam a nos viciar nos paralisando frente a uma tela que nunca retrata nossa identidade humana criativa.


(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

LIU XIAOBO: DISSIDÊNCIA COMO “OUTRO” NOME DA PAZ



Maria Clara Bingemer,
professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio


Um intelectual chinês de grande estatura ganhou recentemente o prêmio Nobel da Paz de 2010. Liu Xiaobo tem 55 anos, é professor de literatura e casado. Tem todas as características de uma pessoa com uma vida absolutamente normal. No entanto, tem algo de transgressão, que desde que o mundo é mundo e o ser humano se destaca como absolutamente original na criação divina faz com que a história seja escrita com consciência e decisões deliberadas. Pessoas como Liu Xiaobo revelam que a vida não é uma sucessão fatalista de acontecimentos automáticos, mas depende da atitude que tomarmos diante dela.

Por pensar e viver assim, Liu Xiaobo está preso, incomunicável, condenado a onze anos de reclusão na prisão chinesa de Jinzhou. Recebe apenas mensalmente a visita de sua esposa, que desde que lhe foi outorgado o prêmio Nobel anda com escolta e depois que foi visitá-lo para comunicar-lhe a notícia encontra-se em prisão domiciliar.

Para os que vivemos no Ocidente, o nome do agraciado com a premiação maior do planeta pode soar estranho. Mas para nos refrescar a memória, basta citar um acontecimento do qual todos nos lembramos, ao menos aqueles que acham história e memória importantes: os acontecimentos ocorridos em 1968 na Praça da Paz Celestial. Quem não se lembra dos tanques do exército chinês passando por cima de estudantes que manifestavam contra a ditadura e pediam seu fim? Pois Liu Xiaobo ali estava, participando. Discursou pacificamente e pediu calma aos estudantes, embora defendendo a mudança do regime ditatorial para a democracia.

Mas a trajetória de Liu Xiaobo não para ai. Ele foi igualmente o líder da famosa Carta Oito, assinada por mais de três centenas de intelectuais chineses, que reivindicavam o fim do unipartidarismo dentre outras coisas. Era um manifesto pela democracia, uma semente que ansiava por vir à luz. E veio! Foi plantada com tanto carinho e força que acaba de germinar no mundo todo.

Porém, o preço a pagar pela liberdade e pela paz às vezes é alto! E Liu Xiaobo sabe disso. Da prisão onde está por sua coerência sabe que nada se constrói em um mundo dividido sem ser de alguma maneira salpicado pelo conflito que gerou esse tipo de situação. O prêmio Nobel vem referendar sua luta, que é também a de tantos homens e mulheres no mundo inteiro em vários pontos do planeta.

O governo chinês deixou claro seu descontentamento. A China, através de sua chancelaria, ameaçou boicotar a Noruega pelo fato de ter escolhido um preso político para homenagear com a premiação mais alta do mundo. É, no mínimo, surpreendente que um país continente, tão poderoso economicamente, tenha esse tipo de reação. Se é fato que cada país tem direito à sua soberania e não deve ser manipulado por interesses outros, sobretudo por potências estrangeiras e alheias à sua cultura, o reconhecimento de uma vida que com coerência vem lutando pela liberdade é um valor universal. E é isso que diz a premiação outorgada a Liu Xiaobo.

Liu Xia, a mulher do premiado, revelou, após a visita que fez ao marido, que ele dedicou o prêmio aos que morreram durante os protestos pela democracia na Praça da Paz Celestial. Ela também estava presente ao massacre.

No entanto, como dizia outro idealista que conheceu muitas vezes a prisão, no século I de nossa era, Paulo de Tarso, a liberdade não está acorrentada. Seu sopro continua dilatando os pulmões desta humanidade tão combalida do século XXI, para quem o heroísmo do casal Xiaobo é um exemplo edificante e estimulante da grandeza e importância de não ter medo de dissentir, de andar contra a corrente, de lutar pelos grandes valores, ainda que com o risco da própria liberdade e da própria vida.


Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros. http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/


Copyright 2010 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

CORRENTEZA



Maria Inez do Espírito Santo
www.mariainezdoespiritosanto.com


Navegando pelo Amazonas, eu desejei, um dia, dolentemente, que aquelas águas me levassem sempre adiante... A força desse querer me espanta ainda agora, quando não sei que destino seria aquele, no sempre adiante que não finda, nem chega, jamais.

Às margens do São Francisco, imaginando apenas a possibilidade da navegação, eu quis estar indo, rio mesmo, ou embarcação ao menos, num sem fim de me escorrer e de buscar repetir, no Infinito, aquilo que já sou e sempre fui.

Nos corredores do hospital público, na emergência da vida (ou da morte?) que se impõe em quase centenas de necessidades simultâneas, em rostos marcados pela dor, em vozes que se alteram na necessidade de alienação, dividindo o espaço insone sob a claridade artificial do dia que não acaba, ao me deparar com o imperioso do sofrimento sem conforto ou amparo, eu era de novo a que se vai eternamente e poderia ainda estar ali e ali ficar, indefinidamente, buscando registrar algum prazer nos corpos de onde o bem estar partiu, leviano e perversamente.

Aquele espaço é, agora, a correnteza da vida. E eu, barco à deriva, mal resisto ao desejo de ir-me indo, sendo levada, solidária contínua ao movimento eterno do Ser.

CRISTÃOS DEBATEM A DEMOCRACIA NO BRASIL



Edilberto Sena *
edilrural@gmail.com


Uma novidade está acontecendo em Santarém. Cristãos debatem sobre a democracia no Brasil. O que tem a ver a doutrina cristã com a construção da democracia no país? Talvez, para muitas pessoas pode soar estranho e até fora de propósito que a igreja local proponha tal assunto para reflexão à luz da fé cristã.

Ainda mais que os temas de estudo são inteiramente leigos à religião tradicional, como por exemplo um deles vai tratar do Estado brasileiro e sua atuação na Amazônia; e um outro, a reforma do Estado brasileiro. No entanto, quando se observa a situação da governança do país e as desigualdades sociais, onde poucos lucram muito e 13 milhões de famílias dependem do bolsa família, aí os cristãos se perguntam onde está a moral evangélica sendo praticada?

Quando tantos políticos incompetentes e outros ficha suja ainda conseguem ser eleitos e reeleitos para cargos públicos,os cristãos têm o dever de questionar sobre o significado da ética à luz do evangelho. E na força da fé cristã têm o dever de estudar as causas de tantas injustiças e de como se precisa transformar as relações do Estado brasileiro para o bem de todos os habitantes do país.

Faz sentido a Igreja propor o estudo sobre construção da democracia no Brasil. E faz sentido todo cristão se questionar sobre como colocar em prática as bens aventuranças propostas por seu mestre Jesus Cristo.Ter fome e sede de justiça é um compromisso moral, não só na vida pessoal e familiar, mas inclusive com a vida da sociedade onde se vive.

Daí que se envolver na construção de uma sociedade ética e praticar a fé são partes do absoluto cristão. Não se pode dormir em paz quando a democracia brasileira é injusta com a maioria do povo. Quem diz que não tem nada haver? que fé é algo da intimidade pessoal e democracia é algo da vida profana?


* Pároco diocesano e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém.

sem-sentido

Euza Noronha


é o machado e o sangue
o plástico e a fome
é a ferida na camada
o animal sem chance

é do hoje
o disfarce
do amanhã
a armadilha

(afagar
a Terra
é fartar-se
de feri-la?)

SAUDADE!



Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Saudade
é se demorar num abraço
e não sentir o tempo passar..
É no peito
ouvir o mesmo compasso
e simplesmente, relaxar.

Saudade é isso
e não se assuste,
nem ache esquisito
se os dois se puserem a chorar!


Obs: Imagem da autora.

RUA



Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


Sono. Traço algumas palavras e as deleto em seguida. Paro. Penso, logo ...o texto não existe. Queria estar dormindo. Na minha cama. No quarto azul. Janela de vidro. Raios iluminando o chão. Cadela creme estirada sobre o tapete. Preguiçosa. Mas a vida corre lá fora, como os carros a ir e vir. Buzinas. Sol quente. Clima abafado. Céu azul. Casal de mãos dadas atravessando a rua. Velhinha sentada em frente a casa. Um gato malhado na calçada. Um menino pedala na sua bicicleta azul. Três guris correm atrás de uma pipa que rodopia desnorteada no ar.

- Olha o caminhão menino!

-Saí do meio da rua!

-Ah... Vó!

- Me dá! É minha.

- Devolve se não te bato.

Tudo normal cinco minutos depois. A mulher de cabelos castanhos mete a cara na janela para ver o movimento na rua. A garota loira desce do carro vermelho, mas não antes de dar um beijo no namorado. O adolescente de dread chama atenção ao atravessar a avenida. Carros. Motos. Um homem observa tudo de dentro do ônibus. Pessoas descem do coletivo.Cansadas. Sorrindo. Distraídas (uma menina quase cai). Pombos aproveitam o semáforo fechado para comer os pedregulhos no asfalto. Poças de lama aqui e acolá. Um urubu olha desconfiado de cima de um poste. Na árvore da esquina, mangas caem. O cheiro exala no quarteirão. Invade-me a narina. Um rato sai do buraco do bueiro e desaparece por uma fresta do velho depósito.

Televisão ligada. O diálogo da protagonista da novela ressoa pelos corredores. Fome. Pão com suco de acerola. Não tem queijo na geladeira. Tem? Atrás do pote da manteiga. Presunto? Na prateleira de cima. Pego um chocolate escondido. Minha mãe adora chocolates. A cachorra creme toma água. Seca a vasinha. Fica parada diante do portão. Abana o rabo. Late. Corre. Volta para perto de mim. O telefone toca. Não é o meu. Não é o fixo. É o do vizinho. Não atendem. Desistem. Buzinas. Freada brusca. Acidente?

- Sai do meio da rua menino!

- Bora pra casa agora! Tô mandando.

- Ah vó!

- Agora! Olha o cinturão!

Pernas apressadas cruzam o espaço estreito. Barulho de água. Meninos sorriem. Gritam. Alvoroço. Cheiro de comida. Baião de feijão verde. Com ovo ia bem. Maravilhoso. O relógio da sala dispara. Nem vi as horas. Lá fora a lua desponta no céu. Enorme. Estrelas. Vento frio. Início de noite tranqüila. Tá na hora da novela.

ÉPOCA VENENOSA



Gerson F. Filho
gersonsilva@globo.com


Desonestos são meus instintos.
Que insistem que eu seja correto!
Embora eu só veja corrupção.

Soa a flauta triste em seu silvo,
Mas eu não ouvi bem aquilo.
Terá sido o riso do escorpião?

Tempos dissimulados estes.

Termos mentirosos aqueles.


Obs: Imagem enviada pelo autor (Publicodomainpictures.)

NU.LA



Maria Inês Simões - Bauru/SP
www.mis.art.br
mis@mis.art.br


Sem cor, sem desejos, sem pudor. Vagava madrugada a fora, em diâmetro de um quarteirão.
- Já passou por aqui três vezes. Dizia o observador.
- Mas a narrativa é onisciente. Relembrava o pássaro, que passando tempo no fio também atentava.
- Vou aguardar mais um pouco, se ela passar aqui novamente, vou perguntar – “Qua’lé a sua ô da caminhada? Sai logo desta estrada. Não vê que já vai raiar o dia? Daqui a pouco isto aqui ferve de gente. E a visão será compartilhada. Ou vc se manda ou então, vê se enrola em toalha.”
- Faz isso não... Observador maluco. Deixa a mulher andar pelada. Não tira a alegria deste pobre pássaro, sem asa e sem escada.


Obs: Imagem enviada pela autora.

OLHOS TRAIÇOEIROS



Bernadete Bruto
www.bernadetebruto.com


Esses olhos que tenho
Refletem tudo que procuro encobrir
Refletem tudo que tento esquecer
Meus olhos são escuros
Não muito para esconder
Essa imagem instantânea
De todo meu ser...
Meus olhos traiçoeiros
Não escondem nada não!


Obs: Imagem enviada pela autora.

AVANÇO E RECUO DE ALGUMAS PALAVRAS

Vladimir Souza Carvalho *


As palavras não perdem o significado no correr dos tempos. O que era escuro no século dezenove, permaneceu escuro durante o século vinte, assim ingressando no século vinte e um. Mas, muitas vezes, o termo ganha outros significados, ou, ainda, passa a abranger horizontes mais amplos.

Parto de um exemplo colhido em Machado de Assis, mais precisamente em Memorial de Aires. O conselheiro Aires, viúvo, com sessenta anos, em diálogo com sua irmã, Rita, igualmente viúva, considera-se inadequado para casar com Fidélia, viúva também, de vinte e cinco anos, em face da idade portada. Na sua opinião, Fidélia deveria casar-se com homem fresco.

A frase do conselheiro Aires, em toda a sua abrangência, é essa mesmo:

- Com qualquer, não; pelo menos, é difícil;, um sujeito fresco,- continuei enfunando-me e rindo.

Cabe um escorço (parece linguagem de tese acadêmica) nos romances machadianos, pródigos no uso da palavra fresco. Eça de Queiroz, do outro lado do Atlântico, em seus contos, também utilizava e abusava do termo fresco.

Mas, desejar a viúva Fidélia um marido-sujeito fresco é algo que, nos dias atuais e muito para trás, se dito na presença da noiva, causaria o maior constrangimento possível, sendo motivo até para um bom duelo, se a lei ainda o permitisse.

Aí cabe a explicação que o leitor já captou: o termo fresco apresenta o significado de novo, simplesmente novo. E era justamente assim que Machado de Assis usava, isto é, sujeito fresco=sujeito novo.

O tempo, contudo, trouxe para a palavra fresco um outro significado, que, à época, não se usava, ou não se conhecia. É mais provável a segunda hipótese. Fresco passou a abarcar o sujeito efeminado, cheio de gestos dengosos, que se sobressai ante os outros pela queda dos braços, pelo rebolado do caminhar, pelo gesticular aberto das mãos, pela maneira com acentua certas palavras, entre outros fatores. Daí, se o conselheiro Aires estivesse vivo hoje, por certo, com toda a certeza, não recomendaria marido fresco para ninguém, sobretudo para a viúva Fidélia (coitada dela!). E se recomendasse, e esta aceitasse, naturalmente, entraria depois com ação por perdas e danos, face o defeito redibitório que acompanharia a mercadoria para o segredo das noites quentes e frias.

Ainda hoje, no interior sergipano, pelo menos, em Itabaiana, o termo fresco só é usado para a carne do boi vendida no mesmo dia em que o animal é abatido. Carne fresca é a expressão vigente, ao lado de uma antiga, que muito já crismou os mercados: Carne verde. Acho que verde também no sentido de ser nova, isto é, do gado ter sido abatido há pouco tempo, me arrisco a explicar.

Em todo caso, a palavra fresco cresceu em seu significado para abranger situações outras, ficando em desuso com relação a determinados aspectos.

Diferentemente de fresco, o verbo aposentar perdeu o seu significado histórico. Foi lendo o Memorial de Aires que vi uma expressão, mais ou menos, assim - porque não se aposenta em minha casa? - que me fez procuraro dicionário para dissipar as dúvidas. Aposentar, no caso, exprime hospedar-se. Não sabia. Daí a fortíssima ligação de aposentadoria com aposentos. Um gramático - eu sou apenas o curioso - explicaria com ciência ímpar. Eu, não, em lugar de esclarecer, boto mais lenha na fogueira, porque, afinal, com sessenta anos, não posso ter mais a mente fresca.


* vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Diario de Pernambuco

POEMA PSICANALÍTICO



João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Elisabeth era impura,
Mas não tinha pecados.
Era simples e substantiva,
Pecados são sempre adverbiais.

Quando lhe nasceram os dentes,
Incisivos e de elegante postura,
Elisabeth, fingindo indolência,
Engoliu os mamilos de sua mãe.

Sem arrependimento,
Ficou a se perguntar,
Entre fria e distraída,
Por que não morrera de véspera?

Em idade ainda imprecisa,
Sentiu a falta de seu pênis
E procurou-o em gavetas e armários
Quase em estado de pânico.

Quando um dia se fez moça
Ficou em cores sua urina
Prenunciando acontecimentos,
Terremotos e catástrofes.

Quando se fez mulher,
Soprou no ouvido de Eva
Qualquer coisa de obscuro
Antes que a serpente se movesse

Ao bordar com suavidade
Um simples ramo de flores
Transformou-se em bailarina
E dançou como um cisne no seu lago.

Certo dia, ao acordar
Em átomos se explodiu
E sob o clarão do mundo,
Nasceram mil cogumelos.

A PADROEIRA DO BRASIL.



Odete Melo de Souza (*)


          O mês de outubro é repleto de importantes comemorações.
          Festejamos no dia 12 o mais lindo e santo ser, que é a criança.
          O dia 15 foi escolhido merecidamente para vivenciar a figura ímpar do professor.
          Não devemos esquecer também o dia 18, dedicado à importante categoria profissional – O MÉDICO.
          Entretanto, a comemoração máxima que vivenciamos durante o mês, é a que prestamos à Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.
          O título de Aparecida surgiu certamente com o aparecimento da imagem, encontrada por pescadores, por ocasião da passagem do novo governador da Província de São Paulo e Minas do Ouro pela vila de Guaratinguetá.
          As autoridades locais recrutaram pescadores para pescar uma grande quantidade dos melhores peixes, de modo a satisfazer ao banquete que seria oferecido ao Governador e comitiva.
          Havia peixes em abundância, mas depois foram rareando e os pescadores desiludidos se afastaram, ficando apenas duas canoas.
          Como estava anoitecendo, os pescadores tentaram mais uma vez jogar as redes.
          O pescador João Alves recolheu a rede vazia, apenas com uma imagem sem cabeça, medindo 40cm.
          Os pescadores envolveram a imagem com suas camisas e jogaram novamente as redes.
          A surpresa foi maior ainda, quando veio na rede uma cabeça tão pequenina, menor que as malhas da rede, que milagrosamente não escapou pelos orifícios da mesma.
          Depois desse episódio, os peixes voltaram em grande quantidade, satisfazendo as necessidades de todos.
          Os pescadores juntaram as duas partes da imagem com cola e armaram um altar na residência do pescador Felipe Pedroso onde permaneceu por 15 anos para culto à santa.
          A devoção à imagem foi crescendo rapidamente e precisou de um recinto maior, então, o vigário de Guaratinguetá construiu uma capela no Morro dos Coqueiros.
          Em 1822, D. Pedro e sua comitiva visitou a capela.
          Depois de doze anos foi iniciada a construção de uma igreja maior (atual Basílica Velha), que foi inaugurada em 8 de dezembro de 1888.
          A princesa Isabel visitou pela segunda vez a basílica e ofereceu uma coroa cravejada de diamantes e rubis e um manto azul, ricamente adornado, que foram colocados na imagem.
          A vila do Morro dos Coqueiros tornou-se município, vindo a se chamar APARECIDA.
          Depois foi construída a Basílica Nova e o papa João Paulo II consagrou-a como o maior santuário mariano do mundo.
          A Lei 6.802 de 30.06.1980 decretou oficialmente feriado o dia 12 de outubro e também reconheceu Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
        Aparecida atrai anualmente milhões de fiéis e também diariamente é muito freqüentada por todos aqueles que buscam graças para suas necessidades naquele SAGRADO LUGAR.
          Que Nossa Senhora Aparecida coloque em seus sagrados braços a nossa Pátria, para a felicidade de todos os brasileiros e do mundo inteiro.


(*) Autora do livro - Retalhos do Coração.

NA ESCURIDÃO DOS PORÕES...



resomar


O olhar vago pairava no sonho de poder também rodopiar e ser
feliz!...

- Na camisa rasgada e suja perambulava pelas madrugadas...
Não mais pedia esmolas...
Não mais aguardava certezas, nem alegrias...
Não mais sabia ser criança, ou se já o fora algum dia!
Os pés carregavam porções de vida usada e amordaçada pelas ilusões...
Nas mãos, o resto da esperança escondido no calção desfiado,
recolhido do lixo...

Era preciso esconder esta "pedra preciosa”...
Era preciso saborear o néctar ao qual ainda podia ter acesso...
Era preciso cantar, gritar, dançar, gargalhar e se deixar amarrar,
se assim fosse surpreendido pela violência...

Na escuridão dos porões, recolhia-se para recordar a única lição de vida
aprendida: sua liberdade possuía um preço muito alto...

Viver o absurdo no amargo da solidão passou a ser o abraço
que recebia das pessoas que o taxavam de vagabundo!
Seu corpo furado e marcado cambaleava anonimamente pelos
calçadões e palácios,
e caía sonolento na sombra das estrelas...

Atravessava seus pesadelos, aguardando a outra margem ou
outro lado da dor...


(11.09.2003)

CORAÇÃO ABERTO



Jaime Sidônio
(psjaime7@hotmail.com)


É preciso termos o coração aberto, estarmos desarmados, sem preconceito e sem resistências para podermos acolher a presença de Jesus e ouvi-lo dizer, como Zaqueu ouviu: “Hoje a salvação entrou neste casa” (Lc 19,9). A salvação é dom gratuito, é graça, é favor de Deus, é sinal do seu amor que transborda e se derrama sobre nós; é vida em sentido pleno; é ressurreição; é vida repleta do Espírito de Deus. Em Jesus, todos encontramos a realização da salvação prometida por Deus. É nele que Deus nos oferece esse dom.

A experiência da salvação na vida nos faz sentir grande paz e muita alegria. A salvação é, na realidade, um renascer, um reencontrar e um ressuscitar. Quando o pai da parábola acolheu o filho que voltou, ele organizou uma festa para celebrar a volta, dizendo: “Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado” (Lc 15, 23-24).

Essa experiência desperta em nosso íntimo energias novas, faz-nos sonhar de novo, conduz-nos ao reencontro do sentido da vida, renovando a esperança e impulsionando ao compromisso.

Sentimo-nos acolhidos, valorizados, amados por Jesus, aquele que salva, que é o nosso Salvador. Sentimos grande alegria e profunda gratidão por sermos destinatários da salvação que Jesus veio trazer, pois “[...] Deus amou de tal forma o mundo, que entregou seu Filho único [...] não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele” (Jo 3,16-17).