segunda-feira, 28 de setembro de 2009

VALE A PENA LUTAR!


Célia Cavalcanti
(
cglcavalcanti@terra.com.br)



A vida é uma luta.
Cada passo , uma conquista.
Cada parada, uma revisão.
Cada fracasso, um reconhecimento
do que se é, a oportunidade de aprender
e tentar outra vez…
Nessa luta, o amor é a arma mais eficaz .
Amar quem nos ama é gostoso, é fácil…
Amar quem não nos ama é o verdadeiro combate… Tal desafio se apresenta sempre
na nossa vida…É necessário travar essa luta
com coragem, determinação e confiança
de quem possui a melhor arma.
Usá-la é certeza da vitória!
Sempre vale a pena!

Obs: Imagem enviada pela autora.

ABRA ESSA PORTAAA

Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Fazemos o que tem que ser feito
ou teremos uma eternidade para
nos perguntar, por que?
Por mais que nossa mente nos dê
respostas favoráveis,
uma voz lá dentro, nos diz:
Não! Você podia sim,
fazer isso, aquilo, ...etc

Não percebemos,
mas começamos a agir contra
nós mesmos e vou lhe dizer como:
Vivendo de mau humor,
tentando levar esse inferno
para os que ousam sorrir,
àqueles que arriscam a acreditar,
que amanhã, pode ser bem melhor.

Porque você não tem como voltar.
Quando podia, não fez,
não lutou e talvez,
nem tenha tentado porque
iria "contrariar alguém"
que, hoje, você não perdoa
também!

Como pode ver,
uma coisa puxa outra
e nesse círculo vicioso, não vê saída,
mas tem!

O Mundo é redondo,
as oportunidades vêm e voltam
e quando ela passar novamente,
por favor,
esqueça e
ABRA ESSA PORTAAA!


Obs: Imagem da autora.

APEGO AO PODER E O ESPECTRO DA MORTE

Frei Betto


Uma das características do poder é imantar em muitos que o ocupam a pretensão de nele se perpetuar. Nada mais trágico para tais pessoas do que sua perda: ficam com baixa autoestima, sentem-se abandonadas pelos antigos correligionários, lamentam já não usufruírem dos privilégios e das mordomias de outrora. Daí o empenho de tantos políticos para se perpetuarem no poder. Ao se defender no Senado, Sarney gabou-se de estar nele há 55 anos!

A questão do poder desponta com o surgimento da cidade-Estado, no início do IV milênio a.C. É quando o ser humano se desprende do ciclo da natureza. Já não funda sua identidade nos vínculos comunitários da sociedade agrária. Sua consciência se personaliza, ele se torna senhor do próprio destino, livre das mutações ecológicas que antes criavam nele a sensação de fatalidade.

A vida, como fenômeno biológico, adquire progressivamente contornos históricos. O ser humano percebe-se como sujeito, ator social, dotado de consciência da responsabilidade e capacidade de interferir nos rumos da natureza. As provisões já não dependem apenas da coleta e da extração; surge a atividade produtiva. O mundo deixa de ser uma realidade dada; passa a ser transformado e construído.

A fundação da cidade-Estado, ao inverter a relação do ser humano com a natureza, o faz perceber que não é mais ele que deve se adaptar a ela; ela é que deve se submeter à vontade dele. A invenção do tijolo, como o comprova o episódio da Torre de Babel (Gênesis 11), permite ao ser humano fabricar a base material do mundo. A produção em série o livra dos condicionamentos ambientais e climáticos.

Assim, altera-se a função da divindade, à qual natureza e humanidade estavam implacavelmente sujeitas. Antes, os deuses atuavam movidos por forças obscuras que escapavam do controle humano. Agora, são vistos como fundamento e reflexo da hierarquia que caracteriza a cidade-Estado. O rei é tido como mediador entre as ordens celestial e terrena. Ele interfere, não apenas na natureza, mas também na história.

Embora ele seja revestido de sacralidade, as leis que promulga já não decorrem da imposição dos deuses. São obra humana, suscetível de limitações e erros, interpretações e questionamentos. E a morte, até então encarada como inevitável degradação ou acidente ditado pelo ciclo da natureza, passa a ser encarada pela ótica da tragédia.

A história do rei sumério Gilgamesh ilustra esse atávico apego de muitos ao poder. Ela chegou até nós através da Epopéia, redigida em idioma acádio numa tábua de argila do século VIII a.C. Governante da cidade-Estado de Uruk, na Mesopotâmia (atual Iraque), Gilgamesh teria vivido em 2650 a.C. A lista sumeriana dos reis o aponta como o quinto da primeira dinastia. Sua função mítica associa-se ao novo olhar sobre o poder: o supremo grau a que pode ascender uma pessoa, comparada aos deuses, e a morte passa a ser considerada inaceitável, pois deuses não morrem...

Gilgamesh se queixa de que, ao criar o seres humanos, os deuses os fizeram mortais e reservaram para si o privilégio da imortalidade. Revolta-se ao descobrir que as funções de poder são perenes, os homens que as ocupam, não.

Por sua vez, os cidadãos de Uruk reclamam da tirania de Gilgamesh. Criticado por seus súditos, ele sente a solidão do poder. Necessita de um amigo, um alter-ego, o que não encontra em Uruk. Fica sabendo, por um caçador, da existência de Enkidu, que vive no deserto e comparte a vida dos animais selvagens. É o homem que procurava. Confrontam-se as duas violências: a da natureza (Enkidu) e a da cidade-Estado (Gilgamesh). Este envia uma comitiva a Enkidu com a missão de trazê-lo do mundo rural ao mundo urbano.

Após Enkidu transar com uma prostituta, os animais do deserto já não identificam nele um igual e passam a temê-lo. Como em muitos mitos, inclusive no Gênesis, é a mulher que introduz o homem no discernimento e na vida civilizada. Enkidu encontra Gilgamesh ao entrar na cidade; surge entre os dois uma profunda amizade. Unidos, sentem-se tão fortes que desafiam os deuses. A aliança entre eles reforça o apego ao poder. À perenidade soma-se a onipotência. Porém, Enkidu se enferma e morre. O imprevisto acontece.

Gilgamesh, solitário, se revolta. Recusa-se a aceitar a morte. Ele se torna “o grande homem que não quer morrer”, diz o texto. Decide partir e aprender com Uta-napishti - único sobrevivente do dilúvio -, a receita da vida sem fim. O poderoso não admite que a morte o destrone do poder.

Shamash, o deus-Sol, o adverte: “Você jamais encontrará a vida sem fim que procura”. Gilgamesh não se conforma de, após a morte, encontrar apenas um estado de inanição e sono sem fim. Uta-napishti insiste com Gilgamesh para que ele admita não merecer dos deuses o privilégio da imortalidade.

O poder pode tudo, exceto evitar que os poderosos sejam “derrubados de seus tronos e, pela morte, despedidos com as mãos vazias”, como canta Maria no Magnificat (Lucas 1, 46-55).

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

Copyright 2009 – FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

NA CONCEIÇÃO DO MONTE DE CACHOEIRA

UMA AÇÃO DE GRAÇAS
Sebastião Heber
shvc@oi.com.br



A igreja da Conceição do Monte, em Cachoeira, abriga uma das mais tradicionais irmandades daquela cidade.

De acordo com a Ficha Catalográfica de Monumentos, constatam-se as datas: 1745 – Fica pronta a casa de oração que alguns devotos levantaram no Monte consagrado à Senhora da Conceição; 1780 – É criada a Irmandade da Conceição do Monte; 1784 – O Capitão José Gonçalves Fiúza, Sargento-Mor da Vila de Cachoeira e proprietário do Engenho S. Domingos do Ponto das Garças, manda edificar a atual igreja no mesmo sítio da casa de oração; 1796 – Sob a administração de Manoel Freire de Almeida foram iniciadas obras para ”aformosear“ o templo; 1846 – Só nesse ano é que foi concluída a torre, graças ao zelo dos mesários da irmandade, sobretudo do devoto Antonio João Bellas; 1853 – É reformado pela última vez o Compromisso da Irmandade; 1981- no dia 20 de março foram roubadas todas as imagens, mas posteriormente foram recuperadas.
É lá que vou celebrar os meus 30 anos de ordenação sacerdotal a convite daquela irmandade. Foi o Prior Isaac Tito e o Secretário, Adilson Gomes, com aprovação da Mesa Diretora que fizeram o convite. A Missa será no dia 26/09, às 10:30, com a homilia proferida pelo orador renomado Mons Gaspar Sadoc. E essa celebração irá trazer muitas recordações pois foi lá em Olinda,em 1979, através das mãos de D. Helder Câmara, que recebi o sacerdócio. Presente, naturalmente, além de muitos amigos, a minha família. Um ano depois, papai falecia – neste ano estaria completando 90 anos. Mas “tudo é graça”, como dizia Tereza de Jesus, a Pequena de Lisieux.


O sacerdócio sempre ultrapassa os limites de quem o recebe. É dom para ser distribuído. Claro que ele brota do sacerdócio comum dos fiéis, fruto do batismo. Isso tudo foi reafirmado pela Constituição do Vaticano II, a famosa Lumen Gentium. E isso trouxe interrogações para muitos padres que não estavam acostumados com a verdade dessa afirmação. Sentiram-se enfraquecidos no seu ministério, pois com essa consciência do sacerdócio comum, muitas atividades da igreja passaram para os leigos, homens e mulheres, isto é, os não-padres. O sacerdócio do padre é decorrente do sacerdócio comum, mas é um ministério sacramental especial. Ele é chamado a estar muito próximo ao povo, como amigo, mas como sacerdote, isto é, continuando as pegadas e os gestos salvadores do Senhor Jesus.

Quando se olha para a história da Igreja Cristã, vê-se claramente que os apóstolos e a comunidade de fiéis fazem parte da estrutura inalienável e original dessa mesma Igreja. Eles não apenas tiveram auxiliares naquele ministério específico, mas para que a missão que lhes fora entregue continuasse após a morte deles, foi confiado aos colaboradores imediatos a tarefa de continuar a obra. Aquela estrutura essencial da Igreja, constituída pelo rebanho e pelos pastores para isso designados segundo a Tradição (com “t” maiúsculo, que significa a “entrega” daquela verdade e não o tradicionalismo), foi e permanece como algo normativo.

O ministério sacerdotal torna perene a obra essencial dos apóstolos. O sacerdócio é sinal do desígnio proveniente de Deus. Ele torna presente, sacramentalmente, o Cristo, Salvador do homem e da mulher de forma completa. O sacerdócio é, portanto, a garantia da primeira proclamação do evangelho.

Como definir o sacerdote? É um homem a serviço da comunhão. Essa consciência moldou o Novo Testamento. O apóstolo Paulo a proclama vivamente em I Coríntios 4,1: ”Consideram-nos os homens como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. E esse administrar é servir, é colocar-se a caminho do próximo, sobretudo do mais necessitado. O lava-pés da Última Ceia foi um paradigma desse serviço. Não se pode deixar de sublinhar que alguns apóstolos se espantaram com esse gesto. Até Pedro, chamado aos píncaros da missão, recusou tal gesto. Portanto, no sacerdócio, a autoridade que o sacramento confere, não pode ser confundido com autoritarismo – o que muitas vezes acontece – mas é um serviço da autoridade. O Papa João Paulo II na sua Carta aos Sacerdotes , em 1986, manifesta essa preocupação: ”O sacerdócio ministerial é herança, vocação e a nossa graça. Marca toda a nossa vida com o selo de um serviço: a salvação de todos”.

S. Francisco é sempre um parâmetro. Mesmo não tendo sido padre, sua vida, sua mensagem representa um direcionamento. Por humildade, chamou a seus irmãos de Frades Menores e não teve outro cuidado que o de colocar seus passos no caminho de Cristo para viver, assim, o mistério das Bem-Aventuranças. A sua grande Oração representa um direcionamento para a vida do cristão e, especialmente, do padre:

“Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz ( ... )
Ó Mestre,
Fazei que eu procure mais, consolar, que ser consolado,compreender, que ser compreendido, amar , que ser amado,
Pois, é dando que se recebe,
É perdoando, que se é perdoado, e é morrendo que se vive
Para a vida eterna. Amém.”


Sebastião Heber Vieira Costa. Professor de Antropologia da Uneb, da Cairu, da Faculdade 2 de Julho. É membro da Academia Mater Salvatoris e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

LIÇÕES DE TEGUCIGALPA

D. Demétrio Valentini (*)


A situação em Honduras preocupa cada dia mais. Os desdobramentos do precipitado gesto de destituir à força o Presidente Zelaya se apresentam cada vez mais complicados, e colocam em causa a prática da democracia, especialmente nos países latino americanos. De imediato põem em risco a segurança de tantas pessoas, com o perigo da deflagração da violência que ameaça o povo hondurenho.

Evitar a violência deveria ser a primeira preocupação de todos os envolvidos mais diretamente no conflito. Em conseqüência, a presdisposição para a o diálogo deveria ser assegurada de todas as maneiras. Mas para que isto aconteça, agora é evidente que o diálogo só pode ser iniciado com a prévia demonstração, de ambas as partes, de que todos estão dispostos a ceder, para que se chegue a um consenso mínimo para a saída do impasse.

O fato de Zelaya ter se refugiado na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, não só aumentou o interesse da opinião pública, mas aumentou a responsabilidade do Brasil, já sinalizada pela decisão de presidente deposto de buscar refúgio junto à representação brasileira.

A questão ultrapassa os limites do pequeno país de Honduras, e adquire significado mais amplo, sobretudo no contexto latino americano, que parecia ter superado o período das ditaduras militares, e retomado o caminho da democracia, consignada nas respectivas constituições nacionais.

Se permanecer a deposição do Presidente Zelaya, feita à força e de maneira truculenta, seria um duro golpe contra os frágeis regimes democráticos da América Latina e Caribe, quase todos eles, palco de escaramuças ditatoriais nas últimas décadas do século 20. Abriria um perigoso precedente, que ninguém seria capaz de imaginar os desdobramentos que poderia ter.

A angústia do impasse atual aponta com meridiana clareza a importância de se respeitar os procedimentos democráticos, para que sirvam de instrumento não só para implementar as decisões governamentais, mas também para solucionar, de maneira civilizada, os possíveis conflitos que a política pode suscitar numa democracia.

Neste sentido, o respeito à democracia, sobretudo em seu ritual de procedimentos jurídicos e políticos, não pode nunca ser dispensado. Em meio a uma espessa neblina de razões alegadas, não se justifica, de maneira nenhuma, a truculência praticada contra Zelaya, preso em sua casa e deportado à força para o exterior.

Este gesto profundamente equivocado deveria ter recebido o pronto repúdio internacional, com pressões eficazes para o imediato restabelecimento da democracia.

Pela maneira violenta como foi praticada, a deposição do Presidente Zelaya não pode ser justificada em nenhuma hipótese, mesmo que, democraticamente, ele pudesse vir a ser julgado e condenado, mas pela via de processo constitucional, e respeitando a sua integridade física e os seus direitos constitucionais. Errou quem praticou o golpe, e continua errando quem o justifica.

Outra lição a tirar é a validade do bom exemplo a ser dado pelos detentores do poder político. Uma democracia bem praticada comporta a alternância de poder, e não precisa temer a descontinuidade administrativa com a troca dos administradores.

Neste sentido, o Presidente Lula está dando para a América Latina e para o mundo um exímio exemplo de estadista. De todos os mandatários da América Latina, com certeza, Lula goza do maior prestígio, com excepcional aprovação popular ao seu governo. Se esta aprovação fosse pretexto de alterar a constituição para lhe dar outro mandato, Lula seria o primeiro a merecer esta mudança. Mas o fato de ele não postular um terceiro mandato se constitui em preciosa contribuição para solidificar a democracia.

Bom seria que este exemplo ajudasse na solução do impasse de Honduras, que todos acompanhamos com aflição.

(*)
www.diocesedejales.org.br

TOMETAMA: DE-SERTÃO – PARTE III

Tassos Lycurgo
www.lycurgo.org



VII – O Vaqueiro Adligeno

Na continuação da viagem, já havia passado por muitos rios e serras. Conseguira, de pouco, deixar para trás o Médio Oeste e foi isso, que me deixava ainda mais oestemente fortalecido. Por fim e ao cabo de algo como cinco horas, chegamos ao Alto Oeste: era a Fazenda Morena, nos arredores de Pau dos Ferros. Era tardinha – tardinhas são momentos adequados para se chegar a novos lugares –; e logo tratei, ainda na cancela, de perguntar a um dos trabalhadores sobre o Sr. Teófilo Diógenes, dono do referido lugar.

O vaqueiro estava em sua casa, bem na entrada da fazenda, olhando-me com desconfiança. Desci do carro e, em frente à porta da casa, vi, preso em um mourão sem uso, mas feito para amarrar bicho brabo, uma plaqueta azul e gasta, na qual constava o seguinte ditame: “se tá chegando, Deus te abençoe. Se já tá indo, Deus te acompanhe.” O que é certo é que havia ali um quê de cordialidade e outro de alguma religiosidade. Esta característica, em um esforço maior que o da mensagem da plaqueta, não deve ser entendida no sentido comum da palavra. Religiosidade, aqui, concerne ao amor tanto ao sagrado quanto ao profano; ou, em termos mais oblíquos, pode-se dizer que religiosidade traduz-se, em regra, na inviolabilidade de certos sentidos da vida, que estão presentes no sertão. Veja-se o vaqueiro Adligeno, que, sendo sertanejo, não possuí um código moral que estabeleça muitas das valorações típicas do povo do litoral. Ele age assim e assim, simplesmente. Esta é sua sina e sua vitória; sua nobreza e sua desgraça; sua vida e sua morte.

No que concerne à estrutura física do vaqueiro Adligeno – e, em boa, porém arriscada, indução, à estrutura do povo do alto sertão –, pode-se dizer que ele é um exemplar original, digamos, mas não tão genuíno, pois é formado da mistura de muitas gerações dos antigos Tarairiu e Kariri, mas modificado, aqui e ali, por poucas gotas de sangues europeus e africanos. Em resumo, Adligeno tinha o corpo forte; a estatura média, senão razoavelmente elevada; a cútis avermelhada; a cabeça mais comprida que larga – aproximadamente na proporção de cinco partes contra quatro, característica dos dolicocéfalos –; os olhos escuros, mas não escuríssimos; o jeito sério e, agora sim, dá-se vazão ao superlativo: seriíssimo.

Quanto à inteligência, ele a possui de forma quase instintiva – é em que, em regra, consiste o intelecto do sertanejo –; no que concerne à inibição, tem-na com veemência: começa por falar pouco com quem não conhece, de sorte que apenas com a confiança estabelecida é que passa à desenvoltura a prosa ou, mais que isso, em tal estágio, Adligeno bem que se confessa. É, portanto, neste último ponto, a personificação de um paradoxo, um homem das extremidades, do inconciliável, do contraditório... Assim, pelo menos, pareceu-me aquele sertanejo.

Mas ele, o sertanejo, quando personagem, não serve para ser gente. É, em realidade, um gigantesco demônio-homem, que agonia irresistivelmente a mente do escritor até que este concorde em escrever as histórias do sertão. De histórias, é fato, está o demônio-homem daquelas bandas repleto, pois são todos da estirpe dele, na qualidade de bons sertanejos, como bem notou Guimarães Rosa, grandes fabulistas. São também, nada obstante, sérios e resolutos: penso que acreditam em suas narrações e lendas com a força mais veemente que se pode imaginar e é isso que impressiona e fascina.

Ante à fascinação, resolvi, por fim, dirigir-me ao vaqueiro. Sendo assim, ei-lo, rápido e sem os sinais estranhos das sobrancelhas do meu interlocutor, o diálogo travado:

“Boa Tarde... O Sr. Diógenes está?” – indaguei.
“Tava. Saiu nestante” – retrucou como se falasse para dentro, voltando, logo depois, o olhar para baixo.
“Ah, bom... Olhe, sou amigo dele... Posso entrar para esperá-lo?”
“(...)!” – comunicou-se com a garganta, nem precisou abrir a boca. No que concerne ao significado, falou “(...)” como resposta ou, pelo menos, foi assim que eu o tomei. O fato é que não soube dar maiores semânticas ao símbolo de natureza estranha e quase, de tão misterioso, indecifrável. Ele abriu a cancela e eu segui a estrada até a casa-grande de onde uns já avistavam, com ar de desconfiança, o meu rosto: parecido nos traços com os ancestrais ali conhecidos, mas ainda não familiar totalmente.

VIII – Chegada à Casa-grande


Ao chegar lá, à casa-grande, fomos, apesar da desconfiança inicial de uns, extremamente bem recebidos. A Sra. Fátima, esposa do Sr. Diógenes, foi-me gentilíssima e, logo após uma prosa inicial, mas cujo convencionalismo não me estimula a narrar, chegou o Seu Chico, velho vaqueiro da fazenda. Ele me cumprimentou e eu, retribuindo o gesto e no esforço da entrosagem, engatei um diálogo:

“Mas o sertão está verde... Nem sempre está assim, não é mesmo?”
“É...” – ensaiou então uma obliquidade no sorriso e prroseguiu: – “mas têm duas coisa aqui que é verde sempre.” – reprimiu o sorriso para, ao que parece, dá maior seriedade à fala.
“E quais são?” – perguntei.
“Olhe, mesmo na seca, pano de sinuca e pena de papagaio tá sempre verde, verde...” – atrelou então uma risada... Todos os demais, que no alpendre também se encontravam, riram... A risada do Seu Chico, apesar da sua idade, era infantil, inocente, ingênua. Ri também e, na mesma bitola, ri com a sinceridade dos pacíficos e desarmados.

Depois, pensei sobre quantas pessoas riem assim, livremente, como faz a natureza, os trovões, o sol... Não obtive a resposta... O ar, contudo, ficou meio triste após a risada. Isso não se deu por culpa dos vaqueiros, mas de minhas elucubrações reflexivas, as quais são sempre meio tristes. Foi aí que voltei a considerar a natureza e a beleza do mundo, assim como se estivesse lendo A Arte de Ser Feliz de Cecília Meireles, só que não no papel, mas na realidade, nas plantas, no vento Nordeste, que havia como que um relógio não tão pontual, de chegar no intervalo daquele par de horas. É impressionante como nos é forte os movimentos da terra onde se enterraram nossos ancestrais. É como se a matéria inerte e decomposta deles se tornasse os efeitos do solo: suas plantas e cheiros. Estes, ao alcançarem nossas percepções, emocionam-nos como se estivéssemos tendo com os velhos avós, bisavós e outros mais, que choram por nós, a cada manhã, mesmo na seca, nos orvalhos das oiticicas.

IX – Os Orvalhos do Sertão


Os orvalhos do sertão são, de fato, as lágrimas da natureza. Eles, contudo, não nascem de sua tristeza, como às vezes nascem das dos homens o pranto consolador; mas, ao contrário, o orvalho do sertão é choro de alegria que, em uma acepção mitológica, promove o mundo ao se personificar na deusa Aurora. Explico: na guerra de Troia – de acordo com o Etiopida, com as Ilias Parua e, principalmente, com o poema Pólemoz de Hyogrucylos –, o filho da deusa Aurora com Titono, chamado Mémnon, matou Antíloco, filho da deusa Tétis. Antíloco, que entrara na batalha para salvar a vida do pai, Nestor, poderia ter, no futuro, a morte vingada... Não foi o que passou pelas noções de Mémnon naquele momento; sentiu-se – pode-se até dizer – não menos seguro que feliz: havia, enfim, matado o inimigo.

É fato que há os que, como Mémnon, pensam que a morte inibe a vingança do defunto, que desacreditam em quaisquer represálias de cadáveres, que gritam que os corpos inertes não causam mais problemas. É bem verdade que mortui non mordent – os mortos não mordem –, mas, por outro lado, outros podem morder em nome deles. Eis o que pode haver de mais sincero no homem: a manutenção da fidelidade e amizade a outro mesmo depois da morte deste. Nada mais sincero do que ser fiel a um morto. Informo-te, prezado amante das mitologias, que foi o que aconteceu. A morte de Antíloco despertou em seu fiel amigo, Aquiles, a vontade de vingança; haveria de acabar com aquele que destruiu a vida do amigo; o projeto, enfim, foi levado adiante. Aquiles encontra Mémnon no campo de batalha e assim se dá o confronto entre os filhos de deusas. Elas, as mitológicas deusas Tétis e Aurora, em desespero, vão a Zeus, no intuito preservar a vida dos filhos. Triste façanha de todos os acasos: neste ínterim, Aquiles vence a luta; Mémnon está morto... Morto como a metafísica; morto como uma pedra; morto, enfim, como Antíloco.

Ah, triste Aurora... O filho, que era vida e amor, agora queria apenas se putrefazer... Mater dolorosa – mãe que sofre –, que desanima, entristece-se, mas não desiste. A esperança de uma mãe é o que há de mais forte no mundo. Aurora haveria de fazer algo. Ela reúne em um só pacote todas as esperanças maternas e vai implorar a Zeus pelo filho já morto. Ele, Zeus, quem segundo a mitologia grega – que senão míope, por certo estrábica o é em assuntos divinos: vê vários deuses – é o mestre absoluto dos deuses, do mundo e dos homens, resolve pesar as almas e os destinos dos que há pouco combatiam. Aurora vê, quase que imperceptivelmente, um quê de brilho nos olhos de Zeus. Há esperança! É o que não deixava de pensar. Mantinha-se ansiosa...

Zeus, enfim, conclui que a alma de Mémnon é mais valiosa... Haveria, portanto, de fazer algo pelo filho de Aurora. De fato, fê-lo: prometeu à deusa a imortalidade do seu filho. Aurora transborda-se e, de tanta alegria, quase não cabe mais em si. Seu filho reviverá. Sai, desta feita, em busca do cadáver de Mémnon e, ao chorar de emoção durante o caminho, suas lágrimas caem no campo e se tornam os orvalhos que se vêem nas oiticicas do sertão, pelas manhãs. É isso! O orvalho, que passa por tantos de maneira tão despercebida, tem uma grande história, mesmo que fictícia. Ele é formado pelas lágrimas de Aurora que são quotidianamente derramadas nas plantas do sertão. Assim não deixaria de ser após aquela noite, na manhãzinha seguinte, quando vaqueiros acordariam uns e outros para o leite no curral. Ainda era tardinha, contudo, quase noite, restava apenas esperar a passagem das trevas, para que fosse obtido o aurorescer do dia, da vida.



Obs: A Parte II foi postada no dia 22.09.2009

A CELEBRAÇÃO DO MISTÉRIO PASCAL DE CRISTO

Maria Lioza de Araújo Correia



A Liturgia é a celebração do Mistério Pascal de Cristo, que é o centro da obra da salvação. Assim,“a Liturgia ocupa um lugar fundamental e insubstituível na vida da Igreja. Ação sagrada por excelência, ela constitui o ponto mais alto para o qual tende toda a ação da Igreja e ao mesmo tempo é a fonte de onde emana a sua força vital. Mediante a Liturgia, Cristo continua na sua Igreja, com ela e por meio dela, a obra da nossa redenção (cf. SC 7: 10).”( In: Sou Católico Vivo a Minha Fé. Ed. CNBB, pgs.74; 76).

“Este é o grande Mistério da fé, que celebramos com reverência e alegria. Toda vez que fazemos memória de Jesus pela ação litúrgica, participamos de sua morte e ressurreição, participamos de sua Páscoa”, pois em “cada assembléia litúrgica... o mistério de Cristo é atualizado”, significando que “o Ressuscitado vem ao encontro da comunidade de fé e com seu Espírito a ilumina e a transforma.” Esse fato central de nossa fé é atualizado e acontece para nós e em nós, hoje, pela celebração da Eucaristia. (Idem, pgs. 74; 75).

Por essa razão, a liturgia não pode ser considerada uma atividade em meio às outras, tanto que o Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concillium, mostra o verdadeiro sentido da Liturgia ao resgatar a centralidade do mistério pascal, na celebração eucarística “e a consciência da presença real do Senhor na globalidade da celebração: na assembléia, na Palavra, na pessoa do sacerdote que preside e sob as espécies de pão e de vinho”.(cf. SC 7).

Em decorrência o Concílio Vaticano II, resgatou, também, “a preocupação com a qualidade teológica, ritual, espiritual, pascal da celebração eucarística. Daí a insistência na formação litúrgica em todos os níveis(cf. SC 14-20)”, ou seja, “um processo permanente de aprendizado e aprofundamento sobre o sentido teológico-espiritual da ação celebrativa eucarística...”
( In: Estudos da CNBB 89 a eucaristia na vida da igreja , pág. 21).

Nesse contexto, insere-se a formação para o canto e a música, os quais “têm função própria na Liturgia, isto é, “devem estar estreitamente ligados com os momentos rituais da celebração e tem por finalidade principal glorificar a Deus e levar a assembléia a participar do Mistério que está sendo celebrado. Para isso “há critérios que devem ser respeitados, quais sejam: a fundamentação bíblica dos textos; sua origem nas fontes litúrgicas; a qualidade da harmonia; a beleza e a profundidade da oração da Igreja; a acessibilidade para a participação da assembléia; a riqueza da expressão cultural do Povo de Deus e o caráter sagrado e solene da celebração”.(In: Sou Católico Vivo a Minha Fé. Ed. CNBB, pgs. 83;84).

Outrossim, a Sacrosanctum Concillium chama a atenção para a “nobre simplicidade” da liturgia eucarística de nossa tradição romana do primeiro milênio, essencialmente centralizada na Palavra e no Mistério Pascal (cf. SC 34). Todavia, apesar da orientação apontada o que se vê é uma situação inversa, como bem explicita o comentário transcrito, ipsis litteris, “dos estudos da CNBB 89 - a eucaristia na vida da igreja”, pág.21: “Há uma tendência hoje (precisamente por causa de uma mentalidade viciada que herdamos de todo um milênio passado) de querer complicar tudo de novo, de inflacionar nossas missas novamente com um monte de “adornos” e “entulhos” que só vem comprometer a visão daquilo que é essencial na celebração da Eucaristia.. Um exemplo só: certas missas hoje são tão barulhentas, do começo ao fim, com tanto canto, com instrumentos musicais estridentes abafando as vozes do povo, com tanta fala e palavrório, tanto ruído, tantos shows, que não se abre praticamente espaço para o principal Participante “falar”, não se abre espaço para o Senhor se manifestar …, precisamente na suavidade, na calma e no silêncio,”

Portanto, face ao magistério do Concílio Vaticano II, que renovou a prática litúrgica da Igreja, urge o cumprimento de suas diretrizes para aperfeiçoarmos nossa prática celebrativa do Mistério Pascal de Cristo, origem e fim de toda a ação da Igreja.

AMARGURA SEM ESPERANÇA

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



É preciso que a criança que fomos nunca deixe de existir. Não é apenas os ensinamentos dos adultos que formam nossa personalidade. Na simplicidade e na inocência do que fomos, existe uma semente de sabedoria. Conversando com os animais, observando as plantas, brincando com terra e água, cavamos os alicerces de um mundo real. O amadurecimento estraga a inocência. Tornar-se adulto é abrir com ferro e fogo os caminhos para um outro mundo. Por que não sermos sempre assim, simples como os sonhos leves das traquinices de quem ainda não sabe que é traquinando que se aprende a vida. Não é nas mesas redondas, nas reuniões de cúpula, nos congressos nem no engano de palavras purgantes, escritas para fazerem efeito, que se encontra a verdade e a beleza da vida. Ela está nas pequeninas coisas.

Enquanto trabalho no computador uma formiguinha de um lado para o outro caminha dando contas de uma tarefa que, certamente. lhe foi imposta por sua comunidade. Ela tem uma vida, um destino, um propósito, e, o mais importante, faz parte de um grupo organizado onde todos trabalham, onde todos se preocupam menos consigo do que com os outros. Perco horas espiando o ir e vir de formigas e abelhas, de pássaros ocupados em construir ninhos, onde possam deixar em segurança suas crias. E nós, nós os humanos, os racionais, os cientistas e conhecedores de todos os mistérios da matéria e da vida, o que fazemos? Temos medo uns dos outros. Cada um no seu caminho, preocupado apenas com seus sonhos, sonhos que para realizar, não pensa duas vezes antes de destruir ou atropelar seus semelhantes. Infelizmente, já não confiamos no que vemos, no que percebemos menos ainda no que sentimos. Nossos sentimentos não possuem homogeneidade. Quando crescemos e deixamos de ser crianças, é como se fizéssemos vestibular para a vida. Uma vida que recebemos por empréstimo e que, logo logo nos será tomada. Alguém me diz que estou triste, amargurada, sem esperanças.

Não, eu estou apenas com os pés no chão vendo a realidade em cada canto pelo simples fato de haver recebido a enganosa condição de ser gente, de ter raciocínio. E o que nos traz de bom este raciocínio se não sabemos como administrá-lo? De que nos serve se temos medo do nosso irmão? Somos, atualmente, departamentos estanques. Cada um por si. E isto não é bom porque sozinhos não temos condições para discernir entre o certo e o errado. Precisamos sempre, de orientação e, infelizmente, quando nascemos não trazemos nem cartilha para orientar comportamentos, nem manual de instrução para dizer como devemos agir.
Sentimos falta de um líder que tome o pulso dessa multidão perdida.
A vida, não só perdeu o encanto, perdeu também o valor.
Hoje é coisa banalizada. Mata-se por qualquer motivo e sem ele.
Comparo o nosso país à casa de uma mulher irresponsável que vai para a farra e deixa os filhos indefesos, trancados em casa, alumiados por uma vela acesa. Quando retorna encontra-os mortos, a casa destruída, incendiada. Esta é a nossa novela não das oito, mas de todas as horas, infelizmente, sem final previsto. Nossos governantes fecham a casa e mandam-se em viagens ditas filantrópicas com o intuito de ajudar países carentes esquecendo-se de que os carentes ficaram aqui trancados enquanto o fogo queima o barraco. Nos hospitais faltam leitos, material e pessoal capacitado. Pessoas morrem à míngua, na sua maioria crianças. Por que olhar para fora quando diante dos nossos olhos, o povo clama por ajuda? Os postos de saúde não têm condições de funcionamento. As escolas vão de mal a pior. Enfim, faz-se necessário que se cumpram as normas constitucionais isto é o mínimo que podemos exigir. A quem estou me dirigindo se, na verdade, não temos a quem dar queixa? Não sei se estou certa ou errada. Alguém me corrija, por favor.


Obs: Imagem enviada pela autora.

TUDO SERIA POSSÍVEL...

Edilberto Sena
(
edilrural@gmail.com)


Quem chega de fora da Amazônia e experimenta por primeira vez as frutas e sucos naturais da região, se encanta. São exóticos, perfumados, saborosos, tropicais. Um mineiro que esteve há pouco em Santarém, comentava que tomou variados sucos regionais, que nunca tinha provado e nem conseguia qualificar qual o mais gostoso. Os festivais de frutas deliciosas podem se encadear, sem enfastiar. São tantos, festival do abacaxi, em Terra da Areia, festival da laranja, em Carariacá, festival do açaí, no Eixo Forte e assim por diante, poderia ser também, festivais da melancia, da manga, do caju, da castanha, da banana, abundantes em sua época. Como poderia haver os festivais de outros sabores deliciosos, como do taperebá, da goiaba, do jenipapo, em fim.


Quando indagam se é possível haver crescimento econômico na Amazônia sem derrubar floresta, sem saquear madeiras, sem monocultura de soja, ou pasto pra gado, está aí o espelho. Com todo este potencial produtivo daria para desenvolver a vida dos 25 milhões de habitantes da Amazônia. Um outro modo de produzir e gerar renda é possível.

Imagine se toda a generosidade do governo, através do Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico, o BNDES colocasse à disposição do crescimento econômico da produção agro extrativista, o tanto que coloca à disposição do agro negócio e das mineradoras; imagine se o governo decidisse direcionar toda a força de seus órgãos ligados à agricultura e floresta, Ceplac, Embrapa, Ministério da Agricultura, Sagri, Emater e juntos entrassem numa força tarefa a serviço de melhoria da produção, agregação de valores, comercialização dos produtos da floresta, ainda teria dúvida da eficácia?

Basta ver como tem aceitação o açaí e a castanha no mercado nacional e até internacional. O resultado seria crescimento econômico da produção familiar e desenvolvimentos da maioria da população da Amazônia. Não haveria tanta manga estragada em sua safra, nem abacaxi abaixo do custo de produção.

Tudo seria possível se os governos garantissem assistência técnica de qualidade, fomento à produção, garantia de preço justo e mercado para o excedente. Infelizmente essa não é a opção dos governos, do federal ao municipal. Financiam-se grandes empresas de soja, milho e trigo; aplaude-se o saque dos minérios, facilita-se a legalização de grilagem de terras públicas, mas não se leva a sério a produção familiar, apesar de repetidos discursos de reconhecimento da importância dela.

Este é o Brasil de Todos e o Pará, Terra de Direitos, dizem eles.

UMA PALAVRA PARA A HUMANIDADE

Marcelo Barros(*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)



As comunidades católicas celebram em setembro o mês da Bíblia, sendo que o último domingo é “o dia da Bíblia”, assim como os evangélicos comemoram esta data em dezembro. Cada ano, os bispos propõem um texto ou livro para ser aprofundado e atualizado na leitura comunitária e pessoal da Bíblia. Neste ano, foi escolhida a Carta de Paulo aos Filipenses. É uma das cartas mais belas do apóstolo e foi escrita a uma comunidade que, ele, Paulo, teria fundado na região norte do que, então, era a Grécia. Foi a primeira comunidade cristã da Europa e era composta de pessoas vindas de diversas religiões que se tornaram discípulas de Jesus. Provavelmente, Paulo escreveu a carta quando, pelos anos 56 ou 57, esteve preso em Éfeso, cidade da Ásia Menor (atual Turquia) que não ficava longe de Filipos. Embora o texto atual possa ser a junção de três ou quatro bilhetes escritos pelo apóstolo à comunidade, a carta aos filipenses é o mais afetuoso dos escritos de Paulo. Nele aparece não só a doutrina, mas a sensibilidade e uma verdadeira cultura de amizade e de relações humanas, baseadas não na concorrência e sim na colaboração e na ternura.

Infelizmente, para muitos homens e mulheres de hoje, a Bíblia ainda parece ser um livro cheio de violências e intransigências de um Deus que constrange a liberdade humana e ameaça com o fogo do inferno quem não seguir o que ele ordena. De fato, escrituras religiosas antigas, sejam judaicas, sejam hindus ou chinesas, contém imagens de guerra e de violência que hoje temos de rever e superar. De um lado, as diversas tradições mostram a divindade se inserindo em um mundo como ele é, cruel e violento. Ou Deus entrava nesta realidade como ela era (e de certa forma ainda é), ou não se inseria. Por outro lado, cada vez mais, um número maior de estudiosos/as percebe que, como Mistério de Amor, Deus foi se revelando progressivamente nas diferentes culturas religiosas. Não se deu a conhecer, desde o início, conforme a idéia que hoje, podemos ter dele. Foi em um processo educativo lento e dialético que se inseriu em cada civilização. Falou a linguagem de cada tempo e assumiu todas as culturas, cada uma à sua maneira. Assim, exprimiu o seu bem-querer pela humanidade. Hoje, se mostra presente nos fatos da vida diária e nos chama a construir uma sociedade de paz e de justiça, na qual as pessoas se vejam verdadeiramente como irmãs e em comunhão com os outros seres do universo.

A Bíblia é a escritura de uma revelação divina. O Cristianismo é a única religião que guardou um livro sagrado de outra religião (o Judaísmo). É verdade que acrescentou alguns livros para reler e reinterpretar o primeiro testamento, à luz da experiência nova que as primeiras comunidades cristãs viviam. Mas, a Bíblia é o livro sagrado de duas religiões e usado nas sinagogas judaicas e em todas as Igrejas cristãs. Pode ser interpretada de diversas formas, mas para se compreendê-la bem é bom perceber a evolução de como, nela, Deus vai se revelando. Nos tempos antigos, as pessoas o adoravam como terrível deus das tempestades e poderosa divindade dos clãs hebreus. Mais tarde, Jesus Cristo o revela como paizinho de amor e ternura, presente em cada gesto de carinho humano e atuante onde as pessoas se tornam mais amorosas.

Em um mundo tão complexo como o atual, a Bíblia não pretende ter respostas para tudo e menos ainda legislar sobre problemas próprios dos tempos atuais. A 2ª carta de Pedro compara a palavra da Bíblia a uma lampadazinha que brilha em um lugar escuro. Clareia o suficiente para que, no caminho árido e sombrio da noite da fé, não se tropece em uma pedra ou se caia em um buraco mais fundo. O texto esclarece que, mesmo se é uma lamparina pequena, esta palavra da Escritura é útil até que o dia clareie e o Cristo, sol de nossas vidas brilhe em nossos corações. Então, a luz do próprio dia fará com que não se precise mais de uma frágil lanterna (Cf. 2 Pd 1, 19ss).

Em português, existem boas traduções bíblicas, umas mais populares e outras mais para estudo. O importante é que os termos antigos possam ressoar como palavra atual e que fale ao coração das pessoas e principalmente da juventude atual. Então, poderemos compreender e vivenciar o que Paulo propõe aos antigos filipenses: “Alegrem-se sempre no Senhor. Eu insisto que se alegrem. Seja o equilibro de vocês percebido por todas as pessoas. Deus Amor está perto!” (Fl 4, 4- 7).


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

TEXTO DE PAULA BARROS

www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)



Tire de mim
Meus medos e receios
Tire de mim
As minhas inseguranças
Mas não corte as minhas asas
Preciso voar
Pegar o ar e pintar os meus anseios
Preciso das lágrimas de emoção
Para regar meus sentimentos
Não me tire mas do que o necessário para o meu crescimento
Posso morrer
Definhar
Se podar as asas da imaginação
Secar as penas do sentir
Sufocar o carinho
Aprisionar as fantasias e o poder de sonhar
Vou perder as folhas verdes da esperança
O brilho do olhar
E morrer....
Apenas me deixe sonhar
E voar....


Obs: Foto da autora.

EU, A FILHINHA DE PAPAI, A VIAJANTE E A FOLGADA

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com

O que você faz da vida?



Com certeza você já ouviu essa pergunta alguma vez.Estava pensando sobre isso nós últimos dias e lembrei da visão que muitas pessoas (equivocadas diga-se de passagem) têm sobre mim.


* Há 4 anos atrás ...


Primeiro dia de aula na faculdade de jornalismo. Todo mundo se apresentando, dizendo onde trabalhava, o que já tinha feito da vida.
A medida que se aproxima a minha hora eu vou me encolhendo no fundo da cadeira, esperando que esquecessem de mim.
Sem escapatória chega a minha vez.
- E você Dannie o que faz da vida?
Baixinho respondo.
- Estudo.
- Sim, além disso? Questiona a professora.
Envergonhada e querendo me esconder num buraco prossigo.
- Eu só estudo.
Alguém fala baixinho de um canto da sala...
- Entendi , filhinha de papai.

* Há 3 anos atrás

- Oi Dannie e aí o que você tá fazendo da vida?
- Eu estou estagiando numa Ong.
- Que bacana, mas o que você faz lá?
- Bom eu ajudo na organização de treinamentos. Temos uma equipe que elabora oficinas de comunicação e quando está tudo pronto nós viajamos para as comunidades ribeirinhas. Às vezes eu passo o final de semana fora. É bem legal.A pessoa lança uma cara meio assim ...
- Hum entendi. Então você vive viajando? Legal esse seu trabalho de ficar passeando por aí.
- Não, não é isso.
- Vai dizer que você não curte uma praia? Você tá mais para viajante do que pra estagiária.

* Há 2 anos e meio atrás

- Oi Dannie tudo bem? E aí como você está?
- Bom eu vou bem.
- E aí o que você anda aprontando, meu anjo?
- Eu estou trabalhando.
- Mesmo? Você tá fazendo o quê?
- Ah eu trabalho com um portal agora, estou trabalhando com internet. Sou responsável pela atualização de uma página.
- Que mais?
- Eu procuro notícias na internet, crio dados, edito fotos e vídeos.
- Tudo isso na frente de um computador e na internet?
- Sim.
- Que dizer que te pagam pra você ficar o dia navegando, vendo um monte de site. Pô eu que queria um trabalho desse.
Você está é folgada então.

A VIOLÊNCIA NAS GRANDES CIDADES

Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio



A violência urbana é um dos maiores problemas que, hoje em dia, atinge não só o Rio de Janeiro, como a maioria das cidades brasileiras. Trata-se, além disso, de uma situação que acontece igualmente em nível mundial. No entanto, apesar da gravidade do problema, sente-se que faltam luzes, perspectivas, no seu enfrentamento e, sobretudo, idéias que tenham uma dimensão prática, concreta, que possam ser traduzidas em ações concretas.


O Brasil tem uma memória na qual se encontra a temática dos direitos humanos, seus valores, operadores, e seus militantes formados em confronto com os teóricos, valores e operadores da segurança. A memória do tempo da ditadura militar coloca a militância dos direitos humanos em confronto com a da segurança pública, trocando acusações entre si, trocando, às vezes, até cadáveres.

Há uma forte dicotomia entre essas duas tradições: a dos direitos humanos e a da segurança pública, a ponto de o tema direitos humanos no Brasil com frequência ser associado, na opinião pública, a um discurso que ignora o problema da segurança e defende os bandidos e criminosos, sob alegação de motivos ideológicos. A origem de tal oposição vem do fato de que a afirmação dos direitos humanos foi feita num momento em que o Estado, não só no Brasil, estava numa situação de totalitarismo, como o nazismo, ou com o socialismo totalitário; ou em situações de regimes militares, ditaduras.

A afirmação dos direitos humanos era, pois, a afirmação de direitos, individuais ou de grupos, diante de uma autoridade do Estado. É como se fosse a defesa do indivíduo e dos grupos contra um poder que vem de cima. Foi nesse contexto que tudo se formou, com base nas denúncias de prisões arbitrárias, de tortura, do abuso da autoridade e da violência. Os direitos humanos se formaram nesse contexto, de defesa de direitos dos indivíduos diante de um poder externo, um poder autoritário de Estado. É nessa posição que a temática dos direitos humanos se firmou na nossa memória recente da segunda metade do século XX, depois da Segunda Guerra. Porém, a impostação do problema foi superada pelo processo de democratização no qual tivemos o fim do poder autoritário, mas a continuação da violência.

O que percebemos, sobretudo nas comunidades pobres do Brasil e da América Latina, é que o fato de viverem em tamanha insegurança implica uma perda efetiva dos direitos básicos associados aos direitos humanos. Ou seja, numa situação de insegurança, as pessoas têm dificuldade de liberdade de expressão. Sabemos da prática da lei do silêncio, como é chamada, a qual resulta justamente da profunda insegurança em que as pessoas vivem.

Se alguém é violentado ou tem alguma pessoa próxima agredida hoje no Brasil, o mais comum é que as pessoas próximas, ou a família, perguntem-se e acabem concluindo que não é negócio, não faz sentido chamar a polícia, a Justiça para ajudar.

A última coisa que se faz numa situação dessas é pegar o telefone e chamar a polícia. Engole-se a dor, o sofrimento, porque a chegada da polícia, da autoridade do Estado para enfrentar a situação só pioraria o quadro, traria mais insegurança ainda, mais risco. Ou seja, não é seguro apelar para a autoridade como instrumento de defesa do seu direito. Isso, inclusive, é fonte da dificuldade do trabalho de investigação.

O direito básico, elementar de recorrer à Justiça, e de reportar uma violência da qual se foi vítima está eliminado pela insegurança. O direito de associação, por sua vez, é muito complicado em condições de insegurança. Em muitos bairros, vemos, até mesmo, dificuldade do chamado ir e vir. Temos, dentro de algumas das grandes cidades brasileiras, comunidades que, em certos períodos, vivem uma realidade de Estado de Sítio. Quer dizer, há horário para voltar para casa correndo o mínimo de perigo possível.

Chegamos a esse nível de interferência nos direitos elementares. E a experiência que viemos fazendo nos últimos 20 anos, desde o fim da ditadura, mostra claramente que a insegurança acarreta perda, de fato, dos direitos elementares que compõem a agenda dos direitos humanos. Isso significa que segurança é uma condição desses direitos, não se opondo, em seus princípios, a eles. É essencial para que os vários direitos individuais e coletivos possam ser exercidos.

É uma idéia que contraria a nossa memória recente, embora esteja na origem do pensamento político democrático. O grande debate dessa área de reflexão se dá sobre quem controla as armas. Existem armas na sociedade, e alguém precisa controlá-las. Essa fiscalização é realizada pelo Estado. Mas agora a pergunta é: Quem controla o Estado que controla as armas? Existe, portanto, todo um debate sobre as formas democráticas de participação de controle.

Por isso, o grande desafio hoje é conseguir integrar essas duas histórias, esses dois temas, e produzir uma dinâmica que é difícil, porque evidentemente o tema da segurança impõe o tema da força, o uso da força na sociedade, seus limites e seu controle. Mas há uma tensão inerente a essa relação, uma tensão constitutiva. Sem segurança, não se tem direitos humanos. Isso implica numa abordagem do tema da segurança pública inseparável do tema dos direitos humanos.

A dificuldade central é que se tem, de um lado, o uso da força, a imposição de limites e, de outro, o comportamento das pessoas. Sabemos que a autoridade da lei implica uma combinação: o uso da força, da capacidade de impor limites, que é uma capacidade distintiva da polícia, e a legitimidade dessa lei, dessa ação. Essa relação entre legitimidade e uso da força é difícil, mas é óbvio que, quanto maior a legitimidade, menor o uso da força, e vice-versa.

O que vivemos hoje no nosso país é um uso da força que, na maioria absoluta dos casos, aparece como ilegítima. O típico trabalho policial que encontramos na sociedade é um trabalho que só aparece quando alguma tragédia já aconteceu. É por causa disso que a polícia está associada à tragédia. Ela aparece para reagir a alguma crise, algum problema, alguma desordem ou tragédia. É uma reação, na maior parte das vezes, que não resolve problema algum.

O que está em jogo é recuperar um sentido de segurança que seja reconhecido, e, portanto, legitimado, como um princípio viabilizador dos direitos e do desenvolvimento. Dos direitos num sentido bem pleno, não apenas daquele direito mínimo do exercício da liberdade individual, mas num sentido maior, de propiciador da superação de conflitos e contradições que são geradores de violência.

Não há dúvida de que há um trabalho a ser feito, e há muito espaço para a sociedade civil, a Universidade, as ONG’s e a Igreja participarem dele.

Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/

COMO PÉROLAS E RALOS

Maria Inês Simões - Bauru/SP



O dia cinzento anunciava o lenga-lenga do tempo. As nuvens escuras venciam a timidez do sol, o qual de vez em quando raiava em um brilho amarelado e sem graça. Prevaleciam as cores cinza e amarelo, dando ao céu um tom perolado. Como nunca havia visto igual. Em espaços de horas, a água rápida e impetuosa descia de súbito, acompanhada de relâmpagos e trovoadas, avisando que assim permaneceria por uma série ininterrupta de instantes eternos.

Enquanto a água descia, olhava pela janela, tentando imaginar como seria se o sol estivesse vencendo naquela luta diária pelo tempo. Crianças estariam na calçada brincando... Pessoas sadias estariam ocupando seus lugares no trabalho. Ao invés de lotarem hospitais levados por "influenzias mils". Culpa de suínos? Quem sabe, não daqueles próprios da família dos suídeos, mas sim daqueles que na escala evolutiva permanecem ronronando em seus chiqueiros e lamaçais de ganâncias ambientais.

O aguaceiro continuava descendo do céu... No canto do muro, como que, encurralado por algum construtor de moradas. Jazia inerte um ralo branco e encardido. Ao seu redor formava uma pequena circunferência daquele líquido insípido e transparente. Pensava... Do céu caem pequeninas gotas cristalinas como pérolas raras... Algumas têm sorte de caírem em plantações, jardins e rostos. Outras simplesmente caem por terra... Enquanto a maioria escorre pelos ralos e acaba em esgotos misturando-se a detritos... E pensar que eram como pérolas...


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Pequenos Contos Poéticos de Maria Inês Simões
Fomatação: www.mis.art.br

Obs: Imagem da autora.

DIÁLOGOS com um Filósofo e com uma Teóloga:

quem nós somos e em que sociedade vivemos? (Parte 2)
Uziel Santana
Tassos Lycurgo
Anna Helena Santana


“As (sub)culturas fundantes e latentes da condição humana pós-moderna: o Relativismo”


No Dialogus inicial, apresentamos ao leitor o propósito essencial e leitmotiv desta conversação que estamos a realizar – um Jurista, um Filósofo e uma Teóloga – a respeito de quem nós somos e em que sociedade vivemos. Assim, introdutoriamente, vimos que, neste momento da humanidade – chamado de pós-modernidade – o ser humano arvorou para si o direito de se tornar o centro e a medida de todas as coisas, de modo que, o que é e o que não é, só assim o são, porque eu, ser humano, digo que o é ou não o é. Eis o máximo da soberba humana, por certo, derivado da modernidade da humanidade. Em síntese: o bem, o belo e a verdade da vida (espiritual e material) deixaram de ter uma existência objetiva em si mesmos, independentemente da percepção, da intuição e do julgamento humanos, e se tornaram conceitos subjetivos que dependem, para a sua formatação, da observação e juízo de valor de cada indivíduo.

Neste segundo momento do Dialogus, vamos avançar, conceitualmente, na temática a que nos propomos analisar, conversando, desta feita, com os nossos interlocutores a respeito de uma das (sub)culturas fundantes que, por certo, melhor explica o nosso modo de pensar e de se comportar: a (sub)cultura do relativismo.

Caro Tassos Lycurgo, então, a partir do que já conversamos no artigo anterior, agora, sob o prisma filosófico e sociológico, o que é a condição pós-moderna do homem?

LYCURGO: Pois bem, Uziel. Como sabemos, o termo “pós-modernismo” é de aplicação vastíssima e de difícil conceituação, mas podemos dizer que, em todas as tentativas de sua definição, há duas concepções que as trespassam: a de que não há um agrupamento de princípios fundamentais, essenciais, que possam explicar como a realidade efetivamente é e a de que isso, por si só, não é argumento para que lastimemos a nossa impotência diante do entendimento das coisas. Nesses termos, sob o prisma estritamente filosófico, a condição pós-moderna do homem é aquela que o reduz a um sujeito que não desfruta da capacidade de entender o mundo que o cerca, senão fragmentadamente e, por consequência, de forma incompleta.
Ao lado do prisma filosófico, a impossibilidade técnica e científica de penetrar na essência das coisas traz uma importante consequência de interesse eminentemente sociológico: se, cientificamente, não sabemos o que é, em essência, verdadeiro (ou seja, que visão verdadeiramente representa o mundo), então, por outros métodos não-científicos, teremos de estabelecer qual das diferentes visões deverá prosperar. Esses métodos, na maioria das vezes, são encontrados nos campos das articulações de grupos sociais, os quais, mesmo que por vezes inconscientemente, digladiam-se para estabelecer no chamado consenso público o que é eticamente, cientificamente, esteticamente e, infelizmente, até mesmo religiosamente, apropriado.

Embora muitos pensem que a condição pós-moderna do homem seja algo negativo, eu penso não há de necessariamente ser assim. Para mim, ela denuncia algo verdadeiro, que é a nossa impossibilidade de tratar as coisas essenciais pela razão. Ela denuncia que tentar compreender o mundo pelo elemento unicamente cognoscitivo é limitado e insuficiente diante do objeto que queremos abarcar. Por consequência, diante das nossas limitações racionais, é preciso dar um salto para além do pensamento. Este salto, conforme eu o entendo, é o salto para a fé, de forma que somente ela é que poderá nos descortinar a verdade real.

UZIEL
: Isso que você falou por último, Lycurgo, parece-me que é o cerne da questão: “a nossa impossibilidade de tratar as coisas essenciais pela razão”. Você está certo ao afirmar que, de certo modo, há uma crítica exacerbada à condição pós-moderna do homem como se esta fosse, em si, a responsável por todos os males existenciais nos quais nos encontramos. Em verdade, a raiz de todos esses males existenciais que enfrentamos no atual contexto, está, em primeiro lugar, nas heranças culturais da modernidade da humanidade e, em segundo lugar, no não arrependimento humano, frente a essas, na pós-modernidade. Explicando melhor: a modernidade da humanidade fez com que o ser humano – colocando Deus a latere da história (como se pudesse de fato fazê-lo) – depositasse todas as suas esperanças de uma vida melhor e com máxima qualidade na razão iluminista e no seu produto experencial: a Ciência. Nesta, encontraríamos o que não encontramos nas cosmovisões da antiguidade clássica e no teocentrismo religioso do medievo: a Verdade, o Bem e o Belo, fundantes de todas as coisas. Mas a razão – como as cosmovisões clássicas e a religião medieval – dada a sua impossibilidade intrínseca, como você bem disse, Lycurgo, assim não o fez. Muito pelo contrário. Da Ciência – como conhecimento conseqüente da ação humana, portanto, falho e limitado –, e do seu mau uso, resultaram grandes males para a humanidade, como o foi a fabricação e uso indevido das bombas atômicas na segunda guerra mundial. E isso levou a um descontentamento espiritual e material do ser humano para consigo mesmo e para com esta “modernidade da humanidade”. E, assim, surgiu a condição pós-moderna do homem. E qual o grande e grave problema desta atual condição? Em vez de o homem ter se arrependido do seu audacioso e soberbo projeto iluminista de construção da Verdade e do controle de todas as coisas – via razão humana, via Ciência – e se voltado para Aquele que ele colocou a latere de sua história – Deus, o criador do homem e de todas as coisas – o ser humano preferiu, simplesmente, afirmar que, se a Razão não encontrou, é porque não há a Verdade, não há o Caminho, não há a Vida. Tudo é relativo e depende do prisma do observador. Esse, indubitavelmente, é o grande problema da condição pós-moderna do homem: a reação, nenhum pouco arrependida, à modernidade da humanidade.

Em sendo assim, vamos avançar agora, Lycurgo, na questão deste relativismo material e formal da condição humana pós-moderna. E aí, eu pergunto a você: em termos filosóficos, o que significa esta (sub)cultura do Relativismo que se constitui num dos pilares valorativos da condição humana e social atuais?

LYCURGO: Veja bem, Uziel, o relativismo é aquela visão de acordo com a qual algo pode ser verdadeiro para uma pessoa, mas não para outra; ou seja, é a postura diante da verdade que diz que, a depender de alguns elementos, tudo pode ser verdadeiro, bastando que, para isso, estabeleçamos para quem ou em que termos essa verdade pode dar-se. Para o relativismo, permita-me falar assim, não há verdades “verdadeiras”, mas apenas verdades “relativas”.

A postura relativista pode ser aplicada às mais diversas áreas. Há o relativismo estético, cultural, cognitivo, moral, entre outros tantos. É aqui, no relativismo moral (ou ético), que ocorre o maior problema. Em outras palavras, o grande problema da postura relativista aparece quando a aplicamos aos pilares valorativos (axiológicos) da condição humana e social. Ora, quando uma determinada sociedade estabelece que os seus valores éticos são relativos, ela simplesmente abre mão da ética, já que não terá mais parâmetros próprios para estabelecer o que é eticamente aceitável e o que não é.

Em uma sociedade eticamente relativística, o problema não mais será o de se escolherem as atitudes éticas a serem tomadas, mas sim o de se escolher um entre vários padrões para justificar eticamente uma atitude que alguém tenha tomado. Por esse prisma, repete-se, não mais serão os padrões éticos que justificarão as condutas a serem exercidas, mas sim as condutas que servirão de fundamento para que escolhamos padrões éticos. Neste ponto, teremos – como, infelizmente, temos hoje em dia – uma sociedade aética e, em decorrência disso, será estabelecida uma nova ordem: a da sociedade promíscua. Havemos de lutar contra isso!

UZIEL: Isso que você nos fala, Lycurgo, é muito importante, de extrema gravidade e confere, exatamente, com o que está acontecendo no Senado Federal, por exemplo. Mas não só na vida pública. Na vida privada, o comportamento das pessoas também tem sido assim: adotam e vivem uma ética particular que depende das intenções e motivações de cada um. Precisamos, realmente, lutar contra isso. Que esse seja o nosso engagement, enquanto pessoas conscientes de todos esses males existenciais.

No próximo Dialogus, continuaremos a discorrer sobre o relativismo – agora sob o prisma da Teóloga Anna Helena Santana – em busca de entendermos a relação, no contexto atual, nada honrosa do homem para com Deus. Do mesmo modo, introduziremos o tema de mais duas (sub)culturas fundantes da pós-modernidade: o individualismo e o hedonismo.




Uziel Santana (Jurista – www.uzielsantana.pro.br)
Tassos Lycurgo (Filósofo – www.lycurgo.org)
Anna Helena Santana (Teóloga – annahelenasantana@terra.com.br)

SALESIANOS COOPERADORES

D.Edvaldo Amaral (*)
(
dedvaldo@salesianosrec.org.br)



Realizou-se nos dias 23 a 26 do mês passado, no Recife, o IX Congresso Nacional dos Salesianos Cooperadores, sob a coordenação do Padre Carlos Lorenzo. A história dessa associação de leigos cristãos revela aspectos interessantes no desenvolvimento do engajar-se dos leigos na ação pastoral da Igreja. Aquilo que a primitiva Ação Católica chamava timidamente “a participação dos leigos no apostolado hierárquico da Igreja”. Hoje, graças a Deus, nesta era pós-conciliar, o conceito é outro: os leigos são a Igreja de Jesus e a hierarquia está a serviço da Igreja...

Quando Dom Bosco, como sempre, antevendo os tempos, apresentou à Sé Apostólica o primeiro esboço das Constituições da Congregação, que ele pretendia fundar, colocou em seu último capítulo, o 19, o que chamou de “Salesianos Externos”. A Santa Sé não aprovou a inovação. Dom Bosco insistiu, colocando num apêndice da segunda proposta das Constituições os tais “Salesianos Externos”. Eram os Salesianos no mundo. Novamente, as autoridades romanas cancelaram o apêndice, entendendo como Salesianos unicamente os sacerdotes e irmãos leigos (que são chamados de “coadjutores”) consagrados, com os três votos e a vida comum. Depois da aprovação definitva da Congregação Salesiana em 1874, em 9 de maio de 1876, o Papa aprovou a então chamada Pia União dos Cooperadores Salesianos. Era, assim, a terceira família salesiana, juntamente com os Salesianos consagrados e as religiosas, Filhas de Maria Auxiliadora.

Após a morte do Santo Fundador, por certo tempo, os cooperadores limitaram-se, quase exclusivamente, a ajudar com ofertas materiais as obras salesianas. Foi na década de 1950 que o dinâmico Pe. Luiz Ricceri, então responsável pelos cooperadores em nível mundial e logo, Reitor Mor, fez tornar-se realidade o sonho original de Dom Bosco. A partir daí, os cooperadores assumiram realmente ser os “Salesianos no mundo”, na família, no trabalho, na ciência, na indústria, nas comunicações sociais e em todos os campos da ação dos leigos na Igreja. Enfim, viver no mundo o carisma salesiano, a paixão apostólica de Dom Bosco, sobretudo em favor da juventude pobre e necessitada. Ultimamente, com o nome de Salesianos Cooperadores – e a inversão do nome tem profundo significado – a Associação foi aprovada em 15 de março de 2007, pela Santa Sé, através da Congregação romana dos Institutos de Vida consagrada e sociedades de vida apostólica.

O IX Congresso Nacional teve lugar no Colégio Salesiano do Recife, com 280 participantes, como delegados das seis regiões do Brasil, nestas proporções: Recife: 102; Porto Alegre: 60; São Paulo 45; Manaus 26; Campo Grande: 23 e Belo Horizonte: 11. De Roma, centro da Congregação, vieram: o Pe. Stjepan Bolkovac (de nacionalidade croata) e a Irmã Maria Trigilla, das Filhas de Maria Auxiliadora, ambos Delegados mundiais dos Salesianos Cooperadores. Participaram também os Inspetores de São Paulo e do Recife e muitos salesianos das Casas do Nordeste e de outras regiões.

Com o lema “Salesiano Cooperador: é hora de testemunhar!” o tema que era “Projeto de Vida Apostólica: santidade na comunhão e na missão” foi desenvolvido por especialistas brasileiros em espiritualidade salesiana, como o Pe. Tarcízio Odelli, de Porto Alegre, e a Sra. Beatriz Mateus, de Belo Horizonte.

Esse Congresso trouxe novo entusiasmo ao trabalho pastoral desses Salesianos no mundo.

(*)Arcebipso emérito de Maceió.

DETALHES

CauReb
(
caureb@gmail.com)


A cada papel rasgado,
A cada lembrança jogada fora,
A cada pedaço de memórias ocultas,
vou arrumando meu coração...

A cada canto, agora vazio
A cada caixa, agora repleta de coisas novas,
A cada detalhe antes escondidos
vou arrumando minha alma...

A cada saco de lixo colocado no corredor
A cada cartão relido e revivido,
vou limpando minha vida...
vou me libertando das memórias
e transformando-as em lembranças...

Escolhendo as que devem permanecer em mim,
e as que devem ir embora junto com todo o resto....

...vou arrumando meu coração
vou arrumando minha alma
vou limpando minha vida.........


Obs: Imagem enviada pela autora.

UMA NOVA VIDA

Jaime Sidônio
(
psjaime7@hotmail.com)


Conversão não é, pois, uma questão de colocar remendos ou dar ligeiros retoques na vida, como se faz com uma roupa ou com uma parede de casa. Trata-se de começar uma nova vida. “[...] este meu filho estava morto e tornou a viver” (Lc 15,24). “Eu garanto a você: se alguém não nasce do alto, não poderá ver o Reino de Deus...” (Jo 3,3-6). Conversão é um passo radical que se dá e que divide a vida num antes e de num depois da conversão.


Converter-se é encontrar um novo sentido para a vida, é mudar a ordem dos valores, elegendo um valor prioritário, absoluto que condiciona todos os demais; é enamorar-se de novo, encontrando profundas motivações para o amor; é permitir que Jesus se encarne em nossas vidas, em nossos sentimentos, gestos e atitudes. “Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl 2,5ss).

DESEJO


Amanda Barros (*)
mandok_pucca@hotmail.com



*Por que te amo e ao meu amor não correspondes?
Se és minha fonte de energia e de desejo, por que
ainda sinto sede de ti?

*Te desejo tanto, que nem consigo expressar o suficiente.
Por que essa vontade louca de te dar um beijo e de te ter
como meu, me persegue a cada instante?!

*Vou vivendo, te querendo, te amando, mas onde estás?!
E é por isso que sofro, por estares tão próximo a mim e não
poder te tocar, convivendo contigo todos os dias, e não poder
te falar, ou apenas te olhar!!

*Ô desejo que mata por dentro; desejo doentio, desejo
obsessivo, só em te querer, já morro, sou escrava do meu
próprio desejo, pois assim sendo, realiza o meu sonho de te ter
na imaginação.

*Quanto mais penso em ti, mais te desejo, desejo esse, que me
sufoca a alma, e se fosse só por “ele”, já estaria morta, mas
ainda assim te amo, e por esse amor calmo e severo, que ainda tenho
pequena posse de você e de mim mesma.



(*) Aluna da 7ª série

terça-feira, 22 de setembro de 2009

DONOS DO NADA

Vilmar Locatelli
(
vlocatelli@hotmail.com)


TE ESQUECERAM NA POEIRA
QUENTE, É O MUNDO FRIO
ONDE VEGETAS, QUE FAZ
MORRER A VIDA QUE TE
NEGARAM.

ÉS A CONSCIÊNCIA SUJA DO
IMPERIALISMO QUE NA GANÂNCIA
DO TER MAIS, O MELHOR,
TE DEIXA NO LIXO.

A VDA QUE TE NEGARAM...
ESBANJAM OS QUE TUDO TEM
O QUE ÉS SE NADA TENS?

OS PEQUENOS DO PAI,
NA GRANDEZA QUERIDOS,
ESPERANÇA DA VIDA,
CRIANÇAS SUJAS,
CRIANÇAS NUAS,
CRIANÇAS SUAS.

ABANDONO DE VIDA,
ESQUECIDO ENTRE OS PAPELÕES,
DORME COM FOME
SONHA COM A TERRA,
QUER TER UM NOME.

MAIS DO QUE O NADA
É A VIDA QUE DEVE
SER ENCONTRADA.

NO TEMPO

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


A vida se dissolve nas horas, nas sombras, nas passadas, nos sonhos, no nada. Nem ao menos podemos preservar os sonhos. No espaço deixado pelo que se foi, lembranças enterradas compulsoriamente.
Sobre o móvel, fotografias de um tempo adormecido. No piano compassos de valsas à espera do tom. O aniversário, a formatura, o casamento.
Das prisões dos porta-retratos as lembranças não podem fugir. A chuva espia pela vidraça. A roseira agradece.
Fecho os olhos, desligo o pensamento. Volto para a cama. Medos me ssaltam.
O trovão assusta a menina: - Tem medo, não, filha, é Deus arrumando a casa. O relâmpago risca o fósforo, acende o céu. Sinhá Maria avivava-lhe as ilusões. Ainda não era tempo de verdades.
Rituais de chegadas e partidas. Mãos abandonadas, olhos fechados, ouvidos de silêncio. Sou eu? Nem sei.
Uma estranha sabendo de mim o que não sei, dando voltas ao redor do nada.
Os sinos tocam.
Epifania, Eucaristia, Te Deum, anunciam e desanunciam a vida numa melancolia de noite de Natal ou na alegria do primeiro dia de um mundo inteiro a começar de novo - ameaça ritual de felicidade.
Metade da vida se vai, nos perdões vadios, nos arrependimentos vazios.
Fecha-se um tempo. A terra arquiva os escolhidos nos rituais das bênçãos e dos adeuses.
O corpo no chão. Nos pés, asas de Ícaro, sonhos derretidos, lágrimas de vidro.
O corpo no chão. Encantos de um maio branco, flores, altares, não e sim acasalados.
O corpo no chão. No olhar a certeza de uma alma esmagada.
Alma fantasiada. Monges, colombinas, palhaços, tudo sonho, tudo sonho, almas alegóricas vestem histórias de faz de contas. Era uma vez....
O corpo no chão, sinalizado: pare olhe escute.
A vida apita na curva.
Quem inventou a obediência inventou o arrependimento.
É preciso obedecer e saber que isto é isto é se já não me bastasse a respiração tenho que lhe acompanhar o ritmo.
Morro quando não posso parar e só me resta seguir as pegadas alheias nos caminhos tortos sem paradas.
Visto-me com os farrapos dos meus enganos. Nasci assim, nem verde nem madura. O que me prendia ao tronco da matéria foi cortado e enterrado num vaso de rosas, ali, um pedaço de mim descansa em paz. Com os restos de um livre arbítrio risonho e falso, construí inutilidades.
O corpo no chão.
Olhe, pense, ria. Olhei sem pensar e ri na hora errada.Ao amanhecer arrumo tesouros: um punhado de terra uma pá de cal.
Rasgo retratos antes que a traça os trace. Guardo o da família unida e imortal onde as crianças não crescem nem os velhos morrem. Queimo papéis, cartas, recados, promessas. Entrego meus livros para adoção. Alguns levam meus olhos cheios de espanto perdidos nas entrelinhas.


Obs: Imagem enviada pela autora.

TEXTO DE WALTER CABRAL DE MOURA

(wacmoura@nlink.com.br)


Se uma palavra valesse ser dita
neste mundo de tantos gritos
queria dizê-la baixinho:
te amo.

Se uma palavra valesse ser dita
neste mundo de tantas distâncias
queria dizê-la bem perto:
te amo.

Se uma palavra valesse ser dita
neste mundo de tantos conflitos
queria dizê-la em paz:
te amo.

Se uma palavra valesse ser dita
neste mundo de tantas tristezas
queria dizê-la feliz:
te amo.

Se uma palavra, enfim, valesse ser dita
neste mundo de tanta gente
queria dizê-la só a ti:
te amo!

P.S.: Esta palavra vale ser dita.

SOBRE… COISA NENHUMA

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


Dedique-se a fazer um pouco de nada.

A vida anda tão corrida que as pessoas perderam o prazer de ficar um instante displicentes de compromissos.

São muitos os prisioneiros do relógio, escravos do tempo, que seguem o tic-tac veemente. Sem perceber estão se desfazendo de um pouco de vida, de um pouco de si.

As pessoas estão perdendo as pequenas miudezas da vida, detalhes diminutos que fazem toda diferença.Esqueceram-se da importância de sorrir, de ser gentil, de abraçar, de beijar, de dizer ‘Eu Te Amo’. Tudo no fim se perde no vazio do espaço que cada um trás.

Você só percebe o tamanho das perdas quando elas interferem de maneira avassaladora na vida. Quando vê que além de perder o bom que há você, perdeu também a capacidade de ver o que há de bom nas pessoas.

Não se esqueça, dedique-se a um pouco de nada para fugir do previsível...


Obs: Imagem enviada pela autora.

A VIAGEM

Malu Nogueira




Para viajar nesse trem da saudade
Não é preciso muito.
Apenas a bagagem
Que deve ser fácil de levar,
Um assento, perto da janela,
Uma luz difusa, olhos que clareem a mente,
Levando por caminhos antes percorridos
E perdidos nas encostas da vida.
Lá vem o trem.
Passa aqui,
Passa acolá,
O vendedor grita: Olha a revista!
Tem O Cruzeiro, Realidade e Intervalo.
Afogados da alegria,
Com o povo sofrendo secas tenebrosas.
O trem passa dentro das serras.
Na estação tem gente de todos os lugares,
Ruas das reminiscências, com nomes
que evocam filhos falecidos.
Seria tão mais fácil
transformá-las como o povo chama-as:
Ruas do Açougue, da Cadeia, da Praça da Igreja,
da Ladeira, do Cabaré, Ladeira do Gosto do Padre,
E assim, por diante.
O som que vem da rua
Mistura-se ao cheiro da vida.
Um vendedor grita: Olha a ta-pi-o-ca,
Outro responde: Macaxeira papa,
Num samburá tem traira, mandim e piabas. O freguês escolhe.
Afogados das festas.
Do beiju, da beira seca, do arroz mexido, do tijolo de goiaba,
Do doce de leite ao bolo de barra,
Cidade dos parques, das quermesses, sorteios e pifeiros.
Cidade de minha infância, da minha juventude.
Das ladeiras e becos,
Dos banhos no poço de Benedito e no Rio Pajeú.
Das brincadeiras de ximba, pula corda,
Amarelinha, bola de meia e pedrinhas
Das risadas sem fim.
Do inigualável pôr-do-sol,
Da alegria derramada
Na juventude soberba,
Dos filhos que não querem dela partir.
Saudade sem fim, dos vizinhos e amigos,
Das famílias Rodrigues, Almeida e Malaquias,
Barbosa, Góes, Amaral, Virgínio, Queiroz.
Das costureiras, rezadeiras e bordadeiras.
Afogados das cadeiras nas calçadas, num balançar sem fim,
Na espera infinda do ar fresco que não vem,
Prosear, tricotar e namorar.
Olhar quem vem, passa ou morre.
Rezar as novenas do mês de maio,
Fazer a trezena de Santo Antônio.
Ir à novena de São Sebastião,
Brincar de queimado,
Levar bolada no peito,
Pedalar de bicicleta nas ruas de pedra.
Lá vem o trem.
O relógio da igreja a badalar as horas,
Comércio a fechar suas lojas,
Ouvir o sino tocando,
É missa, é enterro, é alguém que faleceu.
Como era gostoso ir comprar açúcar ou café,
Nas mercearias de Vicente Véras ou Zé Coió,
Comprar cachetes nas Farmácias Lima e de seu Cazuzinha.
Sair repetindo a palavra açúcar, açúcar, no final, distrair-se,
Esquecer a palavra, voltar em casa,
Levar uma reprimenda,
E retornar, chorando, matraqueando a palavra: a-çú-car, a-çú-car.
Sair escondido e ir olhar as cheias do rio Pajeú.
Ver menino, acocorado, na calçada do cinema,
Esperando a irmã que namora.
Gostar do frio do mês de maio.
Ouvir a mãe recomendar: Vá arrumar-se para ir à missa.
Olhar as bandeirolas de São João,
Dançar pertinho, nos ensaios de quadrilhas ouvir as palavras anarriê, olha a chuva
Lá vem o trem.
Quem quer comprar quebra queixo, pirulito de açúcar, pipoca.
Gelada de coco, goiaba e abacaxi,
Lá vem o trem
Trazendo notícias do mundo.
Lá vem a chuva,
Com relâmpagos e trovões.
Olha a tanajura,
Vem assar e comer.
Lá está a casa de meus avós,
Lá tem um gato e um papagaio.
Lá foi o trem e tantas pessoas.
Lá veio o trem com essas lembranças,
Mastigando melancolia.
Lá vai o trem,
Dobrou minha saudade.
O amanhã não tem mais trem.
Lá foi o trem.

CAMINHO DA LUZ


Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br



A mão sempre na mesma posição!
Nunca estendida
numa atitude altruísta,
de compreensão.
Que caminhos
pensamos para nossas vidas?
Desde a era primitiva,
é o ataque
dos que se "acham" desenvolvidos
e em contra-partida
a submissão
dos que "acham" que não podem revidar.
Quando na verdade,
para essa atitude, nem precisa de ajuda,
basta deixar
o lado involuído comandar,
basta ter a cabeça
para só separar as orelhas
e jamais usá-la para pensar!
Por que não fazermos
o Caminho da Evolução?
Temos que ter um projeto,
mesmo que seja preciso refazer o trajeto,
pois viemos da LUZ
e em busca dessa LUZ que devemos caminhar!

* Luz
Lumière
Licht
Light
Luce



Obs: Imagem da autora.

WAKING LIFE

Padre Beto
www.padrebeto.com.br


Como nas quartas-feiras levanto muito cedo, costumo deitar por alguns minutos depois do almoço para recuperar as forças e continuar o trabalho do dia. Naquela quarta-feira, o cansaço era grande e, ao me deitar, acabei adormecendo rapidamente. Neste estado de inconsciência fui transportado para um parque, ou melhor, para um horto florestal. O lugar era simplesmente lindo: enormes árvores, diversos caminhos que levavam a diferentes direções e muita água; sim, haviam canais e lagos espalhados por todo o grande parque. Em seu centro encontrava-se uma passagem subterrânea. Podia-se descer e subir através de escadas rolantes (tipo primeiro mundo mesmo) e atingir o outro lado do parque. Eu me lembro que usava sandálias e, como não podia deixar de ser, tinha minha mochila nas costas. Ao descer por uma escada rolante querendo utilizar a passagem subterrânea notei, em um determinado momento, que havia esquecido, em algum lugar do lado de fora, minhas sandálias. Com uma certa inquietação procurei imediatamente voltar para a superfície subindo rapidamente por outra escada rolante.

Ao chegar do lado de fora, comecei a procurar as sandálias, mas, para minha surpresa, senti a falta de minha mochila. Eu a havia esquecido no subsolo, na passagem subterrânea. A partir deste momento estava realmente tomado de pânico. Com medo de perder a mochila corri para a escada rolante. Porém, antes de iniciar a descida, apareceu diante de mim um garoto. "Por que você está apavorado?", me perguntou o garoto com certa admiração. Eu fiquei parado enquanto ele ao abrir os braços, com um sorriso no rosto e uma tranqüilidade no olhar me disse: "Não tenha medo... é tudo um sonho mesmo!" Neste momento fui tomado por uma profunda paz e acordei.

Cada pessoa é um indivíduo, um "ser" próprio e único que se difere dos outros através de sua idiossincrasia, ou seja, através do que possui de mais particular. Este "ser", porém, não está solto no espaço, em algo indefinido, mas se encontra em algum lugar geograficamente localizável, em uma determinada cultura, envolvido em relações concretas e lutando pelas dificuldades próprias da condição social na qual está mergulhado. Podemos definir este estado geográfico, econômico e sócio-político de nosso "ser" com a expressão "existência". Existir é expressar o nosso "ser" em um concreto "estar aqui" que, por sua vez, significa um "ser no mundo". À medida que vamos "sendo no mundo", interagimos com diferentes fatores de nossa existência. Estes, por sua vez, dificultam ou facilitam o auto conhecimento, o crescimento e desenvolvimento de nosso ser. Nós começamos nossa existência em um país de terceiro mundo, fomos criados por uma determinada geração que nos introduziu em uma certa mentalidade e estamos em constante relação com as atuais mudanças da sociedade brasileira e de um mundo globalizado. A interação entre nosso ser e estes fatores vão moldando a imagem do nosso "estar aqui". Porém, graças a esta intensa relação com o meio e a necessidade de sobrevivência nele, acabamos nos esquecendo da diferença importante entre ser e existir. Muitas vezes, agimos como pequenas formigas que vivem em um ritmo acelerado e presas em uma rotina alienante. Os dias, as semanas e os meses passam "voando", pelo menos ganhamos esta impressão e temos aquele gostinho de que o viver está sempre no amanhã. Todo o problema se inicia quando perdemos a visão do todo. Nos envolvemos em problemas cotidianos (que são importantes para a sobrevivência, sem sombra de dúvidas) e nos esquecemos de que poderemos viver eternamente, mas, por aqui, existiremos somente por alguns anos. A vida é uma viagem de nosso "ser" e a existência o modo de viajar. Como diz a canção de Geraldo Azevedo, "repare essas velas no cais, que a vida é cigana". Por mais dificuldades que encontremos no caminho, ou melhor, justamente devido a estas dificuldades é necessário ter uma visão de que não podemos descer do carro. É impossível parar de viajar, mesmo que eu caia fora desta existência, uma vez surgindo na vida sempre estarei nela. Mas também não devemos pisar no acelerador e viajar em alta velocidade perdendo a oportunidade de olhar a paisagem pela janela. Antes de ficarmos apavorados procurando sandálias e mochilas é fundamental nos questionarmos sobre o sentido desta grande viagem. Um bom começo é assistir com atenção o filme "Waking Life", uma animação para adultos que oferece variados discursos sobre vida, sonho, existência e realidade. A nossa viagem por aqui talvez seja realmente um sonho, se ela não é agora, um dia, com certeza, será.