segunda-feira, 31 de agosto de 2009

AS PALAVRAS NÃO SÃO INOCENTES

Dasilva, agosto de 2009


1. O sentido das palavras, pelo cultivo intenso e intencional, se legitima e se naturaliza. Com isso, o sabor doce ou ácido, que um dia receberam, se torna normal e inquestionado. As pessoas, de tal forma, introjetam certos conteúdos que esquecem o que existe por detrás das palavras. Por isso, muita gente se acha educada por repetir, mecanicamente, palavras como obrigado, com licença, por favor... ensinadas pela imposição da cultura escravista. Enquanto em outras culturas se diz agradeço, dou graças... nós nos sentimos na obrigação de ajoelhar diante de vossa mercê (você) para significar que, humilhados, reconhecemos a inferioridade e subserviência. O próprio conceito inferior/superior usado para medir o valor (ou foi para inventar a competição?) foi assumido como óculos, parâmetro, prisma... pelos quais classificamos as pessoas e as coisas.

2. É comum, por ex., a mulher assumir-se como doméstica (amansada, dócil) que até virou profissão do lar para perpetuar o papel secundário e subalterno, pelo azar de ter nascido com anatomia feminina. O cabelo encarapinhado dos negros é sinônimo de cabelo ruim e que é preciso alisar como os louros (fazer chapinha). As pessoas idosas ganharam guichê preferencial de atendimento porque sua lentidão atrapalha o andamento das filas e dos negócios. O Nordeste, transformado pelos paulistas em região homogênea, seca, pobre e atrasada, que recebeu a sina de só servir como fornecedora de mão-de-obra, hoje, virou identidade. (Omite-se o fato de que a maioria dos pobres vive, no Sudeste e Sul do Brasil). A colônia nunca conseguiu que seu queijo, sua pimenta, sua laranja fossem do reino como eram os produtos vindos da metrópole a qual enriqueciam e obedeciam.

3. Uma atitude é vulgar (do povo) é considerada má; uma atitude nobre (da nobreza e o clero) é uma atitude louvável. Clima bom é quando faz sol e clima ruim quando chove porque é um estorvo à vida urbana e ao turismo. (Como ficam as crianças que tanto gostam da chuva?). Mas, nosso frio fica bonito quando se parece com o frio da Europa. Um acidente é descrito como sinistro (algo à esquerda). Aliás, escrever com a direita é o correto, tanto que quase não há carteira escolar para os canhotos. A juventude é vista como “aborrecente”, arrogante e rebelde porque ousa quebrar os padrões caducos e contestar a ordem estabelecida pelo grupo dominante (pais, professores, governos, patrões). O direito já não nasce da necessidade vital, mas da decisão de quem faz uma lei, às vezes imoral. Assim, se naturaliza a dominação que torna o legítimo em ilegal e subversivo e, portanto, uma contravenção passível de repressão.

4. As palavras guardam em seu corpo as marcas de sua história, de sua origem. Seus significados primeiros permanecem vivos, e suas raízes alimentam sempre o imaginário que dirige a evolução semântica. Desse modo, cada vez que se emprega uma palavra, junto ao que se pretende dizer, ressoam todos os seus sentidos, explícitos e implícitos, atuais e potenciais, insinuando, revelando e promovendo o enriquecimento conceitual da língua. Por isso, muitas palavras que deixam de refletir o contexto social e cultural, caem em desuso.

5. A palavra significa não só palavra, a palavra exterior vocalmente proferida, mas também a "palavra" interior, o conceito, a idéia, que corresponde à palavra exterior. O conceito, a palavra interior se forma no espírito de quem fala, tem sua origem na realidade e se exterioriza pela linguagem que constitui seu signo (representação) audível. A palavra é a realização especial da representação transmitida, é "aquilo pelo qual alguém chega a conhecer algo da outra pessoa". O signo leva, pois, o sujeito a um conhecimento novo - a conhecer algo diferente do próprio signo. Há uma infinita variedade de signos: desde a fumaça, signo que indica o lugar e a intensidade do fogo, à bandeira branca da rendição.

6. A palavra também é um signo. O sinal próprio da palavra é a significação; não a significação qualquer, mas aquela que pressupõe um conceito, porque a palavra só se dá onde há conhecimento intelectual - é operação própria da inteligência. Entre a realidade designada pela linguagem e o som da palavra proferida há o conceito. Se a palavra sonora pode ser designada por um signo convencional (água pode chamar-se água, water, eau...), o conceito, pelo contrário, é um signo necessário da coisa designada: os conceitos se formam por adequação com a realidade.

7. Assim, toda palavra carrega um conteúdo, uma intenção. A palavra encarna uma verdade, é porta-voz de uma mensagem e defende um ponto vista. As palavras não ignoram - elas “sabem” o que querem, mesmo quando disfarçam, omitem ou mentem (inadequação entre o que diz e o que crê). Quanto mais dizemos estar “jogando conversa fora”, “apenas pensando alto”, “não queria dizer isso” e “não quero convencer ninguém”... mais afirmamos o caráter missionário de nossas falas. Em si, não há nenhum mal em apregoar idéias, pois, as palavras, incluindo aí as reticências, gestos... são a expressão do que acreditamos e é normal que a queiramos para todo mundo. Só pode ser condenável se a “justeza” dessa pregação se baseia na opressão e, se em vez de convencimento, usa a força e a manipulação. Será legítima se visa a VIDA e se dispõe a dialogar com outros esforços, no mesmo rumo.

LUZES DO PASSADO

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



As luzes do cruzeiro iluminavam os caminhos da serra. Seis horas. O sino anunciava o mês de maio. Rosas, muitas rosas, brancas, vermelhas, amarelas. Crianças vestidas de anjo para ofertarem flores a Maria.
A mulher enxugou uma lágrima. As lembranças se acenderam. Junto com as primeiras estrelas a menina voltou, alegre, cheia de histórias para contar, histórias sem pé nem cabeça contadas pela avó que durante horas falava de encantamentos de dormideiras – chás mágicos – de madrastas e príncipes encantados, de homens do tamanho da serra, enquanto, ao pé do fogão, Sinhá Maria adormecia com o gato no colo.
Na igreja prestava atenção a tudo. Não entendia por que as mulheres tinham que assistir à missa com a cabeça coberta e os homens tinham que tirar o chapéu.
Lembrava da mãe rezando, ajoelhada e contrita. Prestava atenção para descobrir o que ela dizia movendo suavemente os lábios. Mais tarde, no colégio, aprendeu que rezar é entrar em comunhão com Deus.
Quando começavam as cantorias todos acompanhavam e era um tal de senta e levanta que cansava e então, a menina se esgueirava e saia aos pinotes para brincar na festa da praça que o padre chamava de profana. Pensava que profano eram as bolas coloridas de todos os tamanhos, cestinhas de papel recheadas com castanhas confeitadas e os caramelos de dona Laura que nunca foram esquecidos.
Quando a missa terminava, e o povo começava a sair da Igreja, voltava correndo para junto da mãe que continuava ajoelhada rezando.
Todas as noites fechavam-se as portas e a ordem era dormir, coisa que detestava. De manhã, quando abria os olhos, sabia que o quintal ainda era o mesmo e a esperava cheio de sol e de surpresas.
Um dia acabou o tempo das folgas pois as crianças só iam para a escola depois que completavam sete anos. Ir para a escola significava crescer, ficar mais sabida, ter responsabilidade. Foi uma animação. A mãe costurava o fardamento cantarolando feliz. Compraram livros, cadernos, lápis, meias e sapatos e uma maletinha para levar o material e o lanche que a avó fazia questão de preparar.



Obs: Texto retirado do livro da autora - Do quintal para o mundo -

MENSAGEM AO SENADOR PEDRO SIMON

Maria Lioza de Araújo Correia.



Senhor Senador Pedro Simon.


Assídua assistente da TV Senado, vi e ouvi o seu pronunciamento ainda sobre a crise no Senado, terminando com a única solução que o senhor acha possível, qual seja, a renúncia do presidente José Sarney.

V. Exa. em seu pronunciamento disse e repetiu várias vezes que o Senado não é santo, mas que agora tem se transformado num verdadeiro inferno. E eu pergunto: Só agora, senador? De repente, não mais que de repente? Teria se repetido ali um castigo bíblico, tipo uma das pragas do Egito, ou se cumprido uma previsão apocalíptica, assim de repente? É claro que não. O que se vê hoje no Senado é o que foi plantado politicamente ao longo dos anos e agora estão aparecendo os frutos apodrecidos da falta de ética, da corrução, da venalidade, da irresponsabilidade, dos interesses pessoais escusos, do desrespeito ao povo e ao Brasil, cujas sementes medraram nesse terreno pantanoso que é o Senado Federal.

Ainda em seu pronunciamento, o senhor também constatou que todos, inclusive o senhor, sempre foram omissos, nunca tomaram conhecimento ou não tomaram providência com relação aos graves desmandos, desconhecidos da população, mas não dos senadores, ao longo dos anos, durante o mandato de vários presidentes do seu próprio partido e no decorrer da legislatura de vários presidentes da república.

Então, por que somente agora é que resolveram converter-se e entregar à fogueira, em holocausto da ética, o presidente José Sarney?

Ora, senador Simon, o senhor sabe que o Senado se está ruim com Sarney, poderá ficar pior com qualquer outro, pois, na opinião do povo em geral, nenhum dos senhores merece confiança nessa questão de ética. Ninguém pode atirar a primeira pedra, pois todos tem seus pecados contra a ética, uns maiores, outros menores. Mas, ninguém escapa.

Lembro-me do episódio em que o deputado Roberto Jeferson da tribuna da Câmara acusou todos os congressistas eleitos de fazerem "caixa dois" em suas campanhas eleitorais, mas não vi ninguém contestá-lo. Parecia que ele estava falando sobre uma ficção e não de uma realidade. Ninguém abriu a boca para não chamar a atenção sobre si, pois, pelo visto a carapuça sentou na cabeça de cada um, sem exceção. E nesse sentido, a mídia divulga tudo de todos, até do senhor.

Por isso, não adianta vir, só agora, "chorar as pitangas". O que os senadores devem fazer é arregaçar as mangas e botar a mão na massa. É trabalhar para recuperar o tempo perdido. É tentar consertar o que vem errado de muitas dácadas. E não somente agora, que o presidente Lula lançou a candidatura da ministra Dilma Roussef, com probabilidade de vitória, é que a oposição liderada pelos senadores do PSDB, do DEM e de alguns que pousam de éticos do PMDB, vêm com essa campanha insidiosa e golpista para derrubar o presidente do Senado. E ainda dizem que são seus amigos, que querem o seu bem, que querem preservar sua imagem, a história de sua trajetória política, a imagem do Senado, etc, etc.
Ora, senhor Pedro Simon, se os amigos procedem assim, melhor ter inimigos declarados. Isso é uma falsidade explícita dos que se dizem amigos e invocando á ética que não têm, pretendem empurrá-lo para a fogueira.

De fato, o que está por detrás disso tudo é a luta política pelo poder. Não existe essa preocupação com a ética, porque se isso fosse verdade, o senhor sabe muito bem que o caminho não passaria pelo golpe, nem pela violência de se derrubar um presidente eleito por maioria dos senadores. O caminho seria uma profunda reforma política e administrativa do Congreso: Senado e Câmara. O caminho seria trabalhar mais tempo, viajar menos, discursar sempre sobre temas do interesse do país e não perder tanto tempo em elogios melosos e palavrórios bajuladores de uns para com os outros, como se vê diuturnamente, pois o Senado é uma casa de provectos que deveriam se pautar pela sobriedade da postura e pela sabedoria e não como gralhas patéticas.

Entretanto, desde maio que esse Senado está completamente parado com relação aos projetos importantes para o Brasil, cuidando somente de denúncias, as mais das vezes vazias ou ridículas, futricas, intrigas, bate-bocas, apartes estéreis e tudo o que pode representar uma tentativa de alvejar o presidente Lula. Esta é a verdade. Tudo mais é armação estudada, gestada no ninho dos tucanos (PSDB) e no covil das serpentes (Democratas, ex-PFL).

Portanto, senador Pedro Simon, não é por aí. Até a ex-ministra Marina da Silva, está se deixando arrastar pela onda oposicionista, picada que foi pela "mosca azul" de uma candidatura à presidente da república contra a Ministra Dilma Roussef.

A INDECÊNCIA INSTITUCIONALIZADA

Edilberto Sena
(
edilrural@gmail.com)


Segundo um estudioso Francês da sociedade moderna, a quebra de valores éticos é tão grande hoje, que o respeito aos direitos dos outros perdeu o sentido. Mas, não precisa ser psicólogo ou sociólogo para se observar como a ética está fora de cogitação. Basta olhar a imoralidade pública desmascarada no senado brasileiro. Pior é a cena final dessa tragicomédia em que o presidente da República obriga seu partido a inocentar o réu de 11 acusações criminosas.

Como é então que os políticos de plantão - grande parte com ficha suja -, querem reduzir a maioridade penal de 18 anos para 16 anos? Se passar essa emenda à constituição um jovem de 16, 17 anos que tenha cometido um delito grave, passará por exames psicológicos e poderá depois ser condenado a anos em presídios cheios de criminosos adultos. Que dizer, os que deveriam se preocupar em criar condições de vida digna para educar bem seus filhos, dão maus exemplos nos cargos que ocupam utilizando de oportunismos e defendendo causa própria, vivendo vida desonesta. São estes que querem punir jovens delinquentes com rigor da lei que não aplicam a si mesmos. Que moral tem um deputado que se elegeu por meios imorais, um senador que se aproveitou do cargo para beneficiar parentes, que moral tem eles para criar leis reduzindo a maioridade penal? Para eles, criam leis de foro privilegiado, para os jovens, criam leis de rigor. É a indecência institucionalizada. Finalmente há ainda pessoas e instituições que tem dignidade. A secretaria nacional de direitos humanos reage contra o absurdo de se querer criar a redução da maioridade. O que falta primeiro é se criar leis para moralizar a política no país. A reforma política não pode ser feita por quem defende causa própria. É urgente se criar decência, ética nas autoridades e nos adultos do Brasil e não querer igualar os delitos dos jovens revoltados com os crimes dos adultos. Não é verdade?

DÉFICIT DE CIDADANIA

D. Demétrio Valentini (*)



Estamos próximos a mais uma Semana da Pátria. Mesmo com todo o ritual de praxe garantido, paira no ar um sentimento de resignação e de apatia. Tempos atrás havia expectativa e efervescência em torno de um projeto amplo de Brasil a ser pensado e urgido pelos cidadãos que o idealizavam.

Passou-se a cunhar uma expressão que serviu de mote para amplos debates, em todo o país, que tomaram forma sobretudo de “semanas sociais”. Chegou-se a cunhar uma expressão dinâmica e motivadora: “O Brasil que a gente quer”.

Agora, parece que a bandeira foi arriada. Não pensamos mais no Brasil que a gente quer. Parecemos resignados com o Brasil que aí está!

Verdade que o governo presidido pelo Presidente Lula trouxe inegáveis avanços sociais, possivelmente irreversíveis, através de pequenos mecanismos de distribuição de renda.

Simultaneamente à implementação das políticas sociais por parte do governo, houve uma acomodação da cidadania, um refluxo à passividade, somado com uma falta de motivação e uma dificuldade de articulação dos movimentos sociais que ainda conseguem mobilizar seus membros.

Convenhamos que assim não se avança. Pois caberá sempre à cidadania reconvocar continuamente o governo e todo o aparelho estatal, urgindo-o a cumprir suas finalidades constitucionais.

Este déficit de cidadania pode ser constatado em duas circunstâncias, como exemplo de outras.

A primeira salta aos olhos: a pouca participação popular nos diversos “conselhos paritários” a nível de município. O único que desperta um pouco de interesse é o “conselho da criança e do adolescente”, porque o grupo executor das políticas públicas afetas a este conselho, o “conselho tutelar” é eleito pelo povo e seus membros são remunerados.

Os outros “conselhos paritários”, quase não despertam interesse, são pouco conhecidos, não se leva a debate as questões que lhes seriam pertinentes, e não contam com o interesse da cidadania.

Seriam ótimos instrumentos de participação da cidadania, e de ação articulada com as instâncias governamentais. Mas na maioria dos municípios não cumprem sua função, por falta de interesse dos cidadãos, por sua pouca consciência política e por seu fraco compromisso social.

Outro caso que revela ausência de cidadania é a situação das “rádios comunitárias”. A idéia seria boa. Colocar ao alcance da cidadania local um meio de comunicação, que fosse instrumento para divulgar assuntos de interesse cotidiano, e ser expressão da cultura local.

Acontece que a grande maioria dessas “rádios comunitárias” se igualaram às rádios piratas. Acabaram se tornando propriedade de alguém que explora a concessão para interesse próprio, ou caíram na mão de alguma igreja que usa a rádio com finalidade exclusiva de proselitismo. E´ comum escutar alguém dizendo: “eu tenho uma rádio comunitária”. Ora, se alguém é dono de uma rádio, ela deixa de ser comunitária! Pior que tudo, essas ditas “rádios comunitárias” acabam se tornando instrumento de deformação da cidadania. Estimulam a sonegação de impostos, incentivam nas empresas o “caixa dois” para pagarem a propaganda que eles chamam de “apoio cultural” para disfarçar, e acabam fazendo concorrência desleal com as rádios tradicionais, que precisam arcar com os todos os encargos sociais e outros impostos que o governo se incumbe de cobrar.

Sem o exercício atento da cidadania até os instrumentos da democracia são pervertidos. Usando um símbolo do evangelho, a cidadania é como o sal. Se ele se corrompe, quem o poderá salgar, pergunta Cristo. Se não praticamos a cidadania, tudo pode ser corrompido, até as eleições que temos pela frente.


(*) (
www.diocesedejales.org.br )

MOBILIZAÇÕES POPULARES

Frei Betto



Desde 10 de agosto, mais de 3 mil trabalhadores sem-terra se encontram
acampados em Brasília para, de novo, alertar o governo federal sobre uma
questão que, outrora, foi considerada prioritária pelo PT: a reforma agrária.

O mundo gira, a Lusitana roda, e hoje muita coisa parece virada de cabeça para baixo: quem fazia oposição a Sarney o defende; quem gritava “fora Collor” o elogia; quem exigia reforma agrária exalta o agronegócio. E, apesar das políticas sociais, 31 milhões de brasileiros(as) continuam a sobreviver na miséria. E a violência dissemina o medo por nossas cidades.

O manifestação dos sem-terra reivindica do governo muito pouco, sobretudo se comparado aos incentivos oficiais concedidos a empresas que degradam a Amazônia e a usineiros que, em latifúndios, mantêm trabalhadores em regime de semiescravidão.

É urgente assentar mais de 100 mil famílias sem-terra acampadas pelo país afora, sobrevivendo em barracas de plástico preto à beira de estradas. E cuidar das 40 mil famílias assentadas virtualmente, apenas no papel, pois aguardam, há tempo, recursos para investirem em habitação, infraestrutura e produção. Nos últimos seis anos foram
financiadas apenas 40 mil casas no meio rural. Também as escolas rurais necessitam, urgente, de recursos.

O Brasil não tem futuro sem mudar sua estrutura fundiária. Nas três Américas, apenas Brasil e Argentina jamais fizeram reforma agrária. O detalhe é que somos um país de dimensões continentais, com 600 milhões de hectares cultiváveis.

Dois problemas crônicos encontrariam solução se nosso país não tivesse tanta terra ociosa, como se constata ao viajar por nossas estradas ou sobrevoar nosso território: o desemprego e a violência urbana. Os países desenvolvidos, como os EUA e a Europa Ocidental, com territórios bem menores que o nosso, conseguem obter alta produtividade no campo, sem que haja latifúndio. Há, sim, grande incentivo à agricultura familiar.

O governo federal deve à nação a atualização dos índices de produtividade das propriedades rurais, intocados desde 1975. Por exigência constitucional tais índices deveriam ser revistos a cada dez anos. Eles são utilizados para classificar como produtivo ou improdutivo um imóvel rural e agilizar, com transparência, a desapropriação das terras para efeito de reforma agrária.

O Ministério do Planejamento deve às famílias sem terra o descontingenciamento de R$ 800 milhões do orçamento do Incra previsto no orçamento de 2009. Esse recurso permitirá a obtenção de terras e aplicação no passivo dos assentamentos.

Durante o período de acampamento, que se encerra no próximo dia 21, estão previstos também debates sobre conjuntura agrária, clima e meio ambiente, energia, Previdência Social, juventude, comunicação, gênero e raça, além de atividades culturais e ato em comemoração dos 25 anos do MST.

Está marcada para amanhã a jornada nacional de lutas contra a crise, uma mobilização de trabalhadores e desempregados, em todo o país, para assegurar manutenção do emprego, melhores salários, ampliação dos direitos, redução das taxas de juros e investimentos em políticas sociais.

Em 19 de agosto, movimentos sociais, estudantis e sindicais se reunirão, em Brasília, em defesa do petróleo, para reivindicar um novo marco regulatório para a produção energética do país.

E no dia 7 de setembro, em todo o Brasil, o 15º Grito dos Excluídos, promovido por várias entidades, inclusive a CNBB, terá como tema “Vida em primeiro lugar – a força da transformação está na organização popular”.

A manifestação, que imprime caráter cívico à data da independência do Brasil, tem por objetivo arrancar a população do imobilismo e ressaltar a importância de se fortalecer os movimentos sociais para consolidar nossa democracia e conquistar soberania.

A democracia não pode se restringir a eleições periódicas que, por enquanto, permitem inclusive a candidatura de corruptos e réus de processos comuns. À democracia política é preciso aliar a econômica, de modo a reduzir a desigualdade social que envergonha o Brasil. Só assim conquistaremos o direito de ser um povo feliz.


Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder”
(Rocco), entre outros livros.



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Contato – MHPAL – Agência Literária (
mhpal@terra.com.br)

SÃO BARTOLOMEU DE MARAGOJIPE

EXPRESSÃO DA FÉ POPULAR
Sebastião Heber
shvc@oi.com.br


A Festa de S. Bartolomeu de Maragojipe toma, praticamente todo o mês de agosto. Desde o pregão, incluindo a novena, a missa do dia 24/08 – dia litúrgico do santo patrono – a lavagem, a missa oficial do dia 30/08, até a conclusão com a procissão apoteótica (ela é considerada a maior expressão que se conserva das antigas procissões do Recôncavo), tudo faz com que na cidade, não se fale ou se pense em outra coisa, a não ser na festa do santo.

A casa do vigário, Pe. Reginaldo Moraes, vive cheia de convidados. Ele, por natureza, gosta de casa cheia. Pe. Sadoc (que também gosta de casa cheia), diz que esse vigário lembra os antigos vigários ”colados”, isto é, aqueles antigos curas que tinham o privilégio de morrer no cargo - eram inamovíveis de suas funções paroquiais – e tinham a casa assim como a do Pe. Reginaldo: sempre cheia de gente, a comida sempre dava para todos. Era uma casa- coração. Na sua mensagem, no folder oficial da festa, o pároco convida a todos a uma intensa participação: ”Queridos paroquianos, estamos celebrando a festa maior da nossa paróquia, que é a festa do Padroeiro S. Bartolomeu. (...). Convoco a todos para este momento forte de evangelização, que é a festa do nosso patrono maior. Deus que ilumina a todo homem, ajude-nos neste trabalho de levar aos corações a mensagem de Jesus Cristo”.

O folder ainda explica a origem do nome do santo. Na verdade, no evangelho ele é chamado de Natanael, mas ficou conhecido por Bartolomeu. Aliás, em Maragojipe há uma forte tradição de se colocar nos filhos ambos os nomes. Mas a explicação para o duplo nome é que na tradição bíblico-judaica, muitas vezes os filhos eram chamados pelo nome do pai – é como em algumas regiões do Brasil, sobretudo no nordeste: a pessoa é conhecida como “filho de fulano”. Ora, em hebraico (talvez também em aramaico), pai é “bar”, e o pai do santo chamava-se de Tolomeu ( há outros exemplos nos evangelhos : Bartimeu, Barjonas ) – portanto, a mudança torna-se clara: ele era Bar-Tolomeu, isto é, filho de Tolomeu. E assim ficou conhecido na tradição. As informações sobre os santos-heróis dos primeiros séculos misturam-se com uma mítica lendária, por falta de uma documentação escrita. Diz-se que ele foi o evangelizador da Armênia e da Índia, onde morreu mártir.

Na verdade, o sacro e o profano em Maragojipe,confundem-se. Na última campanha política, o prefeito (aliás, meu amigo) mandou fazer uma imagem do santo, de quase dez metros de altura e colocou-a na praça da matriz. E isso sem combinar com o vigário. Claro que venceu, graças à “intercessão” do santo milagroso. A lavagem, com uma participação de visitantes que lá chegam em cerca de 600 ônibus, é uma mistura de devoção e parafernália – como as antigas saturnais .

Os estudiosos da religiosidade popular apresentam motivos para a religião ser abordada como argumento social. A experiência vivenciada no Brasil, confirma a afirmativa de Durkheim que proclamava a perenidade do assunto através dos tempos. Há duas direções na abordagem desse tema. Uma trata de sua evolução teológica, conceitual. A outra via de abordagem conduz à verificação do procedimento popular frente à vivência religiosa. Nessa perspectiva, o tema da religião, dentro das atuais abordagens historiográficas, tem apresentado interpretações inovadoras que colocam a explicação do religioso como fenômeno da vida social em conjunto. Nessa perspectiva, foge-se das explicações fechadas de se ver a religião como forma de dominação política ou a religião como neurose coletiva.

Até o final do século XIX, o catolicismo no Brasil estava fundamentalmente nas mãos dos leigos. As irmandades e confrarias, voltadas para a celebração do culto e das devoções aos santos e às almas, foram o principal suporte da religião católica brasileira. Atualmente, os estudiosos do tema, preferem o termo “catolicismo do povo”, em substituição à noção ambígua de “catolicismo popular”, pois é uma expressão de uma manifestação que está nas mãos do povo, isto é, do simples fiel.

A imponente matriz de Maragojipe, conforme informação do folder, foi construída na segunda metade do século XVIII, com 1.100 metros quadrados de área construída, uma referência arquitetônica da engenharia colonial. ”A mão-de-obra escrava foi usada, o sangue e o suor dos negros foram o amálgama em quase 80 anos de construção”.

Que S. Bartolomeu continue intercedendo pelo bom povo de Maragojipe.



Sebastião Heber. Professor adjunto de antropologia da UNEB, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia ( Casa da Bahia), e da Academia Mater Salvatoris.

AS RAÍZES DA PAZ E DA JUSTIÇA

Marcelo Barros(*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)



Em plena Semana da Pátria, Goiânia se torna centro de atenções do mundo todo, não por causa de algum desfile militar, ou uma exaltação nacionalista e sim porque, nestes dias, se torna sede do 2º Festival Mundial da Paz. De 04 a 07 de setembro, pessoas vindas de todo o mundo se reunirão no Centro de Cultura e Convenções de Goiânia para celebrar a Paz, como objetivo sagrado que congraça todos os seres humanos em uma sociedade nova e um estilo de vida sustentável e feliz.

Quando se fala de paz, logo se pensa na paz interior, equilíbrio profundo do espírito e estado de “amorização” que põe o ser em sintonia com todo o universo. As tradições espirituais antigas ensinam que esta conquista do coração depende também da paz social, capacidade de construir nas relações pessoais e na sociedade uma cultura de justiça e solidariedade. O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 340 confissões cristãs diferentes define este objetivo como “Paz, Justiça e Integridade do Universo”.

Esta é a visão do 2º Festival Mundial da Paz, coordenado por uma maravilhosa equipe de educadoras e de pessoas espirituais, que não só pregam o tema da paz, mas o vivem no cotidiano de suas vidas e de seus trabalhos. Já na manhã da sexta-feira 04 de setembro, a Caminhada Mundial da Paz sairá da Praça do Trabalhador e ao chegar na Praça Cívica se realizará o grande Abraço da Paz sobre a cidade e o mundo. Esta caminhada acolherá a tocha da Paz que, durante este tempo anterior ao Festival, percorreu várias cidades. Assim, uniu muita gente sedenta de paz e justiça em nossa região e no mundo.

O Festival contará com a organização de muitas palestras, fóruns, mesas redondas, eventos e shows já confirmados. O 11º Congresso Holístico Internacional, a ser realizado dentro do Festival, terá como tema o celebrar de uma nova consciência e a opção de uma cultura de paz e sustentabilidade planetária.

Em cidades importantes como Florença e Pisa, universidades públicas mantêm cursos de “ciências para a Paz”. Ali, as pessoas aprendem a pensar a economia, a sociologia ou a diplomacia internacional, a partir da opção pela paz e em vista da paz. Estes cursos representam passos importantes na construção de uma sociedade nova. Sem justiça internacional e sem uma ciência respeitadora da vida e da solidariedade, a paz não é possível. Entretanto, de nada adianta uma árvore frondosa e florida, se as raízes não estiverem sadias. A raiz deste problema é o que chamamos de “mística da paz”, cultura do cuidado amoroso com a vida, nossa e dos outros. Trata-se de um aprendizado de convivência solidária com todo ser humano e com as sociedades, assim como com a terra e todos os seres vivos. Esta atenção da vida doada nos compromete em uma verdadeira peregrinação às fontes mais profundas do nosso próprio eu, na descoberta e aprofundamento de uma forma de amor mais altruísta, no qual cada um se descobre à medida que se abre ao outro e à vida.

Neste longo aprendizado, as tradições religiosas e espirituais podem ajudar muito. Desde os caminhos espirituais mais antigos, o amor à Paz e o cuidado com ela, se revelam como métodos eficazes de intimidade com o Mistério divino, presente em nós mesmos e atuantes na realidade do mundo. As tradições afro-descendentes falam do Axé, energia vital que nos põe divinizados, quando o acessamos. As tradições indígenas a descobrem no cuidado e na veneração da natureza. O Islã chama a paz de “misericórdia”. É um atributo divino que o ser humano alcança pela justiça e bondade com seus semelhantes.

Na Bíblia, Shallom é um conceito básico da aliança de intimidade com o Divino. Comumente se traduz por paz, mas pode significar saúde, bem-estar, alegria e amor. É uma plenitude de vida que se encontra na solidariedade e na justiça social, assim como no cuidado atencioso consigo mesmo e com todo o universo, criação divina. Nesta espiritualidade ecológica, somos chamados a, junto com a Sabedoria Divina, brincar e dançar diante da natureza que resiste, renasce e se rejuvenesce (Pv 8, 22).

O Evangelho de Mateus nos diz que Jesus Cristo nos chama a ser “pessoas construtoras da paz” (Mt 5, 9), bem-aventuradas por fazerem o que Deus faz. Entretanto, esta força ou capacidade não vem de nós mesmos. Nós a recebemos do alto. Por isso, cada vez que Jesus ressuscitado se manifesta aos seus, a primeira palavra é sempre “paz para vocês” (Cf. Jo 20, 19- 23).

O Festival Mundial da Paz durará quatro dias, mas precisa ser enraizado no coração de cada pessoa, para desabrochar em uma convivência baseada na colaboração e não na concorrência e na competição de uns contra os outros. A paz se realizará progressivamente na construção social e política de uma sociedade mais justa e igualitária. Só assim, como dizia o profeta Isaías: “a paz se estenderá sobre o mundo, como uma torrente transbordante. A alegria de todos se concretizará. Então, toda pessoa se sentirá acariciada no colo e tratada como uma mãe trata seus filhinhos. Assim, vocês receberão consolação e força” (Cf. Is 66, 12 – 14).


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

LI ..

Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Li..
mas as palabras não se encaixavam,
eram maiores que o invólucro
e os fios se esgarçavam,
deixando o sentido mole,
sem consistência..

Brigava comigo mesma,
com minha consciência.
Voltava com os olhos
e me deparava só com letras,
um sentimento estranho, insólito!

Por que antes eu lia e via vida
e agora a rima atropela, se enrola?
Quantas leituras,
afinal, existem?!
Será que depende
se estou alegre ou triste,
se leio com sentimento
ou com a razão,
se uso lente de aumento
para enlevar meu coração?

É uma pena..
a ausência de encantamento
deixou sem sentido o teu poema,
e escorre num papel aparentemente vazio,
sem sentimento..
absolutamente frio!


Obs: Imagem da autora.

O CASEIRO E A LOUCA

Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)


Lá no alto, numa chácara distante, de bolas cor-de-rosa com tons amarelados, morava Elizabeth. Diziam que era louca, perversa, talvez. Ninguém a compreendia. Nem ela mesma.

Numa madrugada, de lua que pretendia ser cheia, ela ouvia vozes. O caseiro, Albert, rapaz de cabelos macios, sedosos, brilhosos feito a lua quase cheia, vinha perturbá-la. Da sacada da janela dizia coisas que ela não compreendia, numa linguagem raivosa, facadas perfuravam a mente. Quando questionado, afirmava a que só responderia na segunda-feira.

Era uma madrugada quente de um sábado tedioso.

Interessante demais esse sábado. Muito longe de uma segunda-feira que poderia não vir. Um encontro de loucos ao luar. Elizabeth – a má, era tão perversa, que seria capaz de extinguir todas as segundas-feiras do seu calendário. Jamais ouviria respostas na segunda-feira. Nunca numa segunda-feira. Era má, muito má. A ponto de ficar sem respostas. Faria perguntas todos os dias. Mas detestaria segunda-feira. Ficaria surda nas segundas-feiras e sorriria.

Na chácara, de gente, só eles. O resto, animais. Alguns moribundos. Animais cansados de pensar. Elizabeth e Albert, cansados de serem normais, brincavam de desencontros, responder era um jogo de garfadas, uma forma de se esconderem de si mesmos, preferiam o instinto animal que os aproximava. Lobo em noite de lua cheia ou quase cheia. Com sorrisos de hiena. Elizabeth, chamada carinhosamente por Albert de a louca, sem definição. Definição, esclarecimentos, respostas só na segunda-feira. No íntimo se sentia elogiada.

Somente louca, conseguia conversar com Albert – sábio mau humorado que sorria e – uivava de vez em quando, enquanto a lua crescia. Elizabeth – a má, babava ironicamente, enquanto a segunda-feira não chegava. Trincava os dentes. Não podia falar de amor, nem escrever sobre esse tema abominável.

Nem saudade, nem beijo, nem abraço. Albert ficava irritado quando ela falava sobre esse assuntos tediosos. Elizabeth falava porque não sabia vivê-los. Esperava o amor nas segundas-feiras que nunca chegava. Nem chegaria. Ela baniu as segundas-feiras.

Elizabeth – a má, provocava, adorava gente má. De gente má ela entendia. Tinha má até no sobrenome. Não se assustava com a loucura de Albert . Loucura não se transmite. São acordadas nas madrugadas.

O CRISTIANISMO:

UMA RELIGIÃO? OU A SAÍDA DA RELIGIÃO
Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio


Sempre nos pareceu muito evidente afirmar que o Cristianismo é uma religião. Pois na verdade isso não é tão claro assim. Cada vez mais a teologia se inclina por afirmar que o Cristianismo não pode ser definido como uma religião.O que significa isso? Na verdade, muitas coisas e que, se pensarmos bem, não irão nos parecer tão estranhas. Comecemos do começo. Ou melhor: comecemos por Jesus de Nazaré. Será que podemos afirmar que Jesus queria fundar uma religião?


Achamos que não. Jesus já tinha uma religião e não pensava em escolher outra. Era um judeu piedoso e fiel. O que o incomodava, justamente, era aquilo que os especialistas da religião haviam feito com a fé de Israel. Ao ler os quatro evangelhos, vemos claramente que a disputa de Jesus com os mandatários de sua religião se centra na distorção ou deturpação da imagem de Deus que os que se acreditavam donos da religião, do templo e da lei haviam feito. Haviam posto sobre os ombros do povo um peso tão absolutamente insuportável que era impossível de carregar. Um sem número de rubricas, ritos, prescrições.

Uma severidade implacável para com o cumprimento de todas essas mínimas normas e uma crueldade com as pessoas mais simples e humildes que não conseguiam cumpri-las por não terem condições de fazê-las. Jesus percebia que segmentos inteiros do povo eram declarados sem Deus: doentes, leprosos, pecadores. E que várias categorias de pessoas eram tratadas como cidadãos de segunda categoria dentro deste mesmo povo: mulheres, crianças.

A esses então Jesus anuncia uma boa notícia, um Evangelho: o projeto do Pai, o Reino é para eles também. Mais ainda: eles serão os primeiros a entrar, pois são humildes, se reconhecem pecadores, se sabem necessitados de misericórdia e perdão e não se acham donos inexpugnáveis e sobranceiros do dom de Deus que ninguém pode se arvorar em possuir.

Ao fazer isso, Jesus não queria atacar nem agredir a religião de seus pais, na qual havia nascido e a qual amava. Desejava apenas que a pureza do ideal da Aliança que sustentou a história e a caminhada de Israel pudesse continuar e crescer em toda a sua pureza. Porém por isso mesmo foi considerado blasfemo. Acusaram-no de agir contra a religião, de colocar em perigo a religião vigente que emanava do Templo de Jerusalém.

E por isso fazem um complot para matá-lo. E efetivamente o matam.É algo que deve fazer-nos pensar que quem matou Jesus não foi um grupo de bandidos e fora da Lei. Pelo contrário, foram homens considerados de bem, guardiães da ordem e da religião. Por crê-lo inimigo da religião de Israel, acreditaram dever eliminá-lo. Temiam que ele quisesse acabar com a religião e trazer uma nova religião.Na verdade a proposta de Jesus não é a de uma religião, e sim de um caminho: o caminho do amor, da justiça, da fraternidade.

O caminho da experiência de ser filhos de um Deus que é Pai bondoso, amoroso, misericordioso. E por isso, ser irmãos uns dos outros. Assim fazendo, Jesus desloca o eixo da presença de Deus do Templo para o ser humano. Anuncia que quando alguém está ferido á beira do caminho há que deter-se e socorrê-lo, atende-lo, com todo o amor e desvelo possíveis. E não ir correndo para o templo porque se está atrasado para a celebração.

Quem se detém e pratica o amor para com o próximo ferido e desamparado, encontra a Deus. Mesmo que seja um idólatra, como o samaritano do capítulo 10 do evangelho de Lucas. Mesmo que esse Deus se revele fora do Templo e das rubricas da Lei.Com a morte de Jesus e a experiência de sua ressurreição, seus seguidores começaram a anunciar seu nome e um movimento de fé começou a criar-se em torno dele. E essa fé necessitava de uma religião para expressar-se. Por isso tomou os ritos do judaísmo e acrescentou outros.

O Cristianismo nascente tentou ficar dentro da sinagoga. Não foi possível e o próprio Paulo, - judeu filho de judeus, circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamin, formado aos pés de Gamaliel - com muita dor na alma, foi quem chefiou o movimento de ruptura e ida aos gentios. Espalhou-se pelo mundo a nova proposta, cresceu e configurou todo o ocidente. Aquilo que começara humildemente em Nazaré da Galiléia, com o carpinteiro fazedor de milagres que chamava Deus de Abba – Paizinho tornava-se, sobretudo depois do século IV, a religião mais poderosa e hegemônica do mundo.

Foi preciso que houvesse a virada da modernidade, o declínio do mundo teocêntrico medieval, que o Cristianismo perdesse o poder que tinha de instancia normativa dentro da sociedade para que aparecesse a verdade inicial em toda a sua pureza. O Cristianismo não é uma religião. Ou, se for, é uma religião da saída da religião. É um caminho de fé que opera pelo amor, um estilo de viver, nas pegadas de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem.O que isso quer dizer para nós hoje? Que tudo que é religioso é mau? De forma alguma.

Os gestos, os rituais, as normas, as formulas religiosas são boas desde que enunciem a verdade de uma fé, de um sentido de vida que se expressa na abertura a Deus e ao outro. E por isso são relativas. Pode ser que algumas expressões religiosas que foram muito adequadas a determinada época histórica sejam extremamente inadequadas a outra ou outras. O único absoluto é Deus. O resto... é resto mesmo. Isso é que, hoje como ontem, o Cristianismo é chamado a proclamar diante do mundo.


Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).

wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/

CARIDADE NA VERDADE

Dom Edvaldo G. Amaral SDB (*)
D.Edvaldo Amaral
(
dedvaldo@salesianosrec.org.br)


Comemoração e atualização dos ensinamentos da histórica encíclica do Papa Paulo VI “Populorum Progressio” é o que caracteriza, como sua motivação, a nova e terceira encíclica de Bento XVI, intitulada “Caritas in veritate”.

Em três pontos resume o órgão da Cidade do Vaticano “L´Osservatore Romano” o novo documento pontifício: “Em síntese, ele propõe que haja mais ética nas relações financeiras; um pouco de gratuidade como antídoto à lógica do lucro desenfreado e boa injeção de solidariedade nos mecanismos do mercado. Não se trata de receita milagrosa – esclarece o jornal vaticano - nem muito menos de pretensão dogmática da Igreja. O que transmite a encíclica é a convicção, baseada na razão dos fatos, de que a adesão sincera e comprometida aos valores do cristianismo é, não só útil, mas indispensável, para a construção da sociedade e o verdadeiro desenvolvimento integral do homem e da comunidade humana.”

O próprio Papa Bento XVI, no dia seguinte ao lançamento de sua encíclica, comentou que este documento da Igreja inspira-se, em sua visão fundamental, no texto da Carta de São Paulo aos Efésios “Praticando a verdade na caridade, cresceremos sob todos os aspectos na direção daquele, que é a Cabeça, Cristo” (4, 15). “A caridade na verdade, ensina o Papa, é a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. Só com a caridade, iluminada pela razão e pela fé, é possível alcançar objetivos de desenvolvimento dotados de valor humano e humanizante. A caridade na verdade – e aqui o pontífice cita sua própria encíclica - ‘é um princípio ao redor do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha força operativa em critérios orientadores’” (nº 6)

Esta encíclica de Bento XVI é um brado cristão contra a ganância desenfreada, o lucro acima de tudo, o lucro como fim em si mesmo, sem nenhum sentido social. É por isso mesmo, que o Papa põe o seu ensinamento sob o ângulo da caridade evangélica, do amor e do respeito ao nosso semelhante, que é nosso irmão.

O liberalismo do século XIX tinha como slogan a expressão francesa “laissez faire, laissez passer” (deixe fazer, deixe passar). Ele criou o sistema capitalista em sua versão financeiro-especulativa. O que está em crise, escrevia José Faro em novembro passado, na revista CIDADE NOVA, não são os bancos americanos, mas sim o próprio sistema capitalista em sua versão financeiro-especulativa. Um paradoxo dessa crise, continua ele, é que o estado tenha de intervir com centenas de bilhões de dólares para salvar a economia, justamente onde os grandes grupos econômicos e seus intelectuais sempre defendiam a liberdade absoluta para o mercado. No “L´Osservatore Romano”, um economista de Milão, Luigino Bruni, afirmava no ano passado que a raiz do atual colapso da economia está no fato de o capitalismo, assim como toda a economia de mercado, ter-se concentrado na produção cada vez maior de lucros e na consequente especulação financeira. É curioso lembrar que o primeiro banco da história, o Monte della Pietà, foi criado pelos franciscanos no século XIII, exatamente para libertar os pobres da especulação dos emprestadores de dinheiro. Como os bancos de hoje estão longe dessa origem! Em nossos dias, o Nobel da Paz Muhammad Yunus criou o Grameen Bank (Banco dos Pobres) exatamente para conceder empréstimos a pessoas de baixa renda, com juros modestos, resultando em inadimplência mínima. Ele diz: “Ajude-nos a levar o programa de nosso banco para as famílias mais pobres do mundo!” Os bancos e as financeiras continuam a ser instituições essenciais para o bem comum, para as pessoas e os empresários. Não funcionaria a agricultura, por exemplo, sem os empréstimos bancários.

E assim chegamos ao ensinamento fundamental da encíclica de Bento XVI: a destinação social da riqueza. Diz o Papa: “A vitória sobre o subdesenvolvimento exige a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade econômica, caracterizadas por quotas de gratuidade e comunhão” (nº 39). Vejo aí explícita referência à economia de comunhão, que Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, proclamou em sua visita ao Brasil em 1991, e que é uma realidade no Polo Industrial Spartaco em Vargem Grande, S. Paulo, e em Pernambuco, no Pólo Empresarial Ginetta, em Igarassu e em muitos outros lugares ao redor do mundo.

Daí se vê, no exemplo indiano e no exemplo cristão, que, embora o Papa “não emita moeda” (como disse ironicamente certa revista de circulação nacional), os ensinamentos da encíclica podem transformar a atividade econômica em mola propulsora do desenvolvimento, superando a ganância do lucro.

´(*) É arcebispo emérito de Maceió.

Sen.Ti.Men.Tos

(Maria Inês Simões)
www.mis.art.br
mis@mis.art.br



Têm dias que a gente se sente assim... assim... Coloca uma música para ouvir... E ao longe Janis Joplin faz o show, em lágrimas de cair... E pensar que, talvez não tenha nada a ver... A música fala de liberdade e de Bobby Macgee... Ou tenha...

É... Fala de amor, mas sem o sentimento de espera... De procura... Canta um encontro, o sentir-se bem na doação gratuita do ser... Canta uma perda e o desejo da recuperação de dias felizes em sentir-se assim... assim...

Quando a liberdade impera... Não se perde nada. O que fica são lembranças de tempos e de blues, de abraços, calor de corpos. E de escolhas. E... A música toca lembrando um passado. Onde a cantora “trocaria todos os seus amanhãs por um simples ontem”. Cantar junto ajuda a alma a sentir-se liberta...

Pensamentos distantes... O sol em algum lugar aquece a outra metade que não se achou, não se concluiu. E a chuva acalenta um sonho eterno... Entre dias e dias, estações e estações... Tempo e eternidade. Ainda existe?... Quem sabe... Só onde, resiste ainda assim, a liberdade.


Obs: Imagem enviada pela autora.

O ÔNIBUS

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


A vida é um eterno ir e vir de pessoas. De coincidências...


Não era a primeira vez que se encontravam. Ela o conhecia há muito tempo. Ele nunca notou a sua presença até o dia chuvoso no ônibus. Antiga paixonite dos tempos de escola. Ele o ‘cobiçado’, ela somente mais uma ‘garota sem graça’.

Ela sabia seu nome, onde morava, quem era sua mãe, o que gostava de fazer. Tinha informações que talvez nenhuma outra pessoa tivesse. Ele adorava ruivas . Tinha namorado duas. A última deixou um rasgo no seu coração. Ele a pegou na cama com outro. Tocou a vida .Passou a não acreditar nas mulheres, apesar de ter muitas aos seus pés. Aproveitava a sua beleza ébana para seduzir e depois cair fora. Mulheres eram mentirosas. Desprovidas de sentimentos e nunca mais iria se apaixonar. Nunca!

Ela era sonhadora, apesar de também ter se decepcionado deveras no campo amoroso. O namorado a trocou por outra. Feia, diga-se de passagem. Nem por isso se desiludiu. Preferiu dar um tempo para o coração. Dedicou-se a outras coisas, aos pequenos detalhes, aos livros. Um dia ainda encontraria um pé torto para o seu chinelo.

Dia chuvoso. Ônibus molhado. Poucos lugares. Espaço vazio ao lado dele. Coincidência? Bom ela sempre o observava, mas nunca havia passado disso.

Ela pediu licença para chegar ao assento do lado da janela (ele estava no banco do lado do corredor). Ele se afastou. Desajeitada ela se acomodou. Pelo menos dessa vez ela não pisou no pé de ninguém (ainda bem!).

Pensou em pegar o livro na mochila a tiracolo verde fluorescente. Desisti. As gotas de chuva na janela ameaçaram molhar as páginas do seu Best Seller preferido. Colocou as mãos sobre o colo. Pegou o celular. Ia ouvir alguma música. Não tinha clima. Guardou novamente.

Ele, atento aos seus movimentos.

- Não vai ler hoje?

Ela levou um susto. Pegava o mesmo ônibus com ele todos os dias e ele nunca lhe mencionará uma única palavra.

- Não.

- Poxa que pena.

Ela não entendeu nada.

Ele percebeu.

- Você gosta de ler. Toda vez que te vejo você está lendo.

- Sim. É meu passatempo.

- Você gosta.

- Eu não. Não tenho paciência.

Quanta franqueza.

Passaram a se encontrar no mesmo ônibus todos os dias. Quando não se viam trocavam beijos na calçada da casa dela, na esquina, em frente à faculdade. A paixão durou dois meses, até que ela descobriu que ele não era o homem da sua vida e que nem sempre valia a pena reviver antigos lances.

Agora viaja sozinha no ônibus.

Ele comprou um carro.


Obs: Imagem enviada pela autora.

O Logos, o Ethos e o Pathos de DILMA ROUSSEFF:

Uma análise metajurídica dos discursos e comportamentos da Ministra.
Uziel Santana



“Eu me orgulho muito de ter mentido na tortura, senador.”
(A ministra, em 7 de maio de 2008, na audiência da Comissão de Infra-Estrutura do Senado Federal, a respeito do dossiê sobre o governo FHC)


Nos últimos anos, no desempenho do Serviço Público Federal, temos assistido, tristemente, a uma onda avassaladora de corrupção individual e institucional. Corrupção em todos os níveis do gênero humano e político. Foi assim, por exemplo, que assistimos atônitos à apuração, nas Comissões Parlamentares de Inquérito, do chamado “Mensalão”, indubitavelmente, o maior esquema de corrupção político-institucional promovido pelo Estado brasileiro nesses instáveis tempos petistas de República. Vimos, nisso tudo, um dos traços psicológicos do ser humano que, por certo, contamina o ser institucional: a sede pelo poder, custe o que custar, porque, segundo os atores políticos responsáveis por este cenário de degradação institucional, “os fins justificam os meios”. Esse era o Logos, isto é, a palavra fundamental, do projeto de poder do Presidente Lula e dos 40 corruptores e corrompidos do Mensalão (no dizer jornalístico: Lula Ali Babá e os seus 40 ladrões).

Todo esse fenômeno de corrupção é permeado por uma forma de atuação concreta do ser humano que altera e falseia a realidade que nos circunda. Estou a falar do ato da mentira, da impostura intelectual do ser humano a qual permeou e tem permeado o imaginário e as ações individuais e institucionais dos principais agentes políticos e servidores públicos do alto escalação desta nação. Por assim ser, o Governo Federal vive entranhado num lamaçal de pseudo-verdades, ilusões propositais e alegorias maledicentes. O último caso agora, digno de nota, de profunda análise, reflexão e combate é o do comportamento da Ministra, Chefe da Casa Civil, pré-candidata ao cargo máximo da nação brasileira, Dilma Rousseff. Esta, com o mesmo bias do Pedro que negou Jesus – aquele, sugestionado, ao qual o Cristo disse: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço – por três vezes, nos últimos tempos, foi “pega na mentira”. Num grau crescente de causas e efeitos. Um comportamento que, sem sombra de dúvidas, é inaceitável no âmbito governamental e que deve ser denunciado e combatido por nós, sobretudo porque esta senhora pretende ser, em 2010, a nossa liderança maior, Presidenta da República. Vamos à análise dos fatos – os discursos e os comportamentos da ministra – à luz do Direito e do que parece ser o Logos, o Ethos e o Pathos do ser da ministra.

OS FATOS.

A primeira mentira. No início de 2008, vários ministros do Governo Lula foram apanhados pagando despesas de natureza privada com dinheiro público. Mais precisamente através dos famigerados cartões corporativos, aqueles de limites sem fim e que se usavam para comprar de “tapiocas” até objetos e móveis residenciais de valor inestimável. No dia 16 de fevereiro deste mesmo ano, segundo noticiou a imprensa, jantando com industriais, a ministra Dilma entrou em cena a respeito dessas denúncias e disse que o governo não iria apanhar calado, assentindo que as contas do governo anterior (FHC) iriam ser devassadas. E, assim, ato contínuo, mandou produzir, no âmbito da Casa Civil, e circular, de modo anônimo, um dossiê completo sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da sua esposa, Ruth Cardoso. Confrontada pela imprensa, tendo em vista a consecução de tais fatos de natureza de serviço de espionagem, a ministra, primeiramente, negou a veracidade dos mesmos, mas depois, encurralada pelas próprias circunstâncias, acabou ratificando a existência dos dados, mas que não se tratava de um dossiê investigativo, mas apenas um banco de dados que fora feito com o intuito de organizar e estruturar as despesas com o cartão corporativo e de também fornecer informações à então nem criada CPI dos Cartões Corporativos. Eis a primeira mentira, desvelada.

A segunda mentira. Recentemente, descobriu-se que, ao contrário do que informava o site da Casa Civil na internet, ao contrário do que informava, também, o site do Ministério das Minas e Energia (onde Dilma atuou antes da Casa Civil), ao contrário do que informava o currículo acadêmico da ministra na base de dados do CNPq – a Plataforma Lattes, onde ficam os dados dos professores universitários e pesquisadores de todo o país – a ministra não tinha grau acadêmico de mestrado, nem de doutorado em economia, pela UNICAMP. Os dados eram falsos, mentirosos. Assim, a UNICAMP desmentiu, veementemente, tais informações, dizendo que a ministra tinha, tão-somente, matriculado-se no doutorado em 1998, mas nunca o concluiu, tendo a sua matrícula sido, assim, cancelada. A ministra, depois de denunciada e desmentida pela imprensa a respeito desses dados, disse que, no caso dos sites governamentais, houve um erro, e no caso da Plataforma Lattes, alguém falsificou o seu currículo, fato esse que não procede, porque para alterar o currículo nesta plataforma é preciso saber a senha do usuário. Mais ainda, em 2004 e 2006, a ministra participou do programa Roda Vida da TV Cultura e, no início de cada programa, é lido o currículo do entrevistado. No caso, foi lido o da ministra e as mesmas informações falsas estavam lá, sem que ela as contestasse. Enfim, mais uma vez, a mentira teve pernas curtas na vida da ministra.

A terceira mentira. Esta é a mais recente de todas e, ao que parece, mais uma vez a ministra será pega na mentira. A ex-Secretária da Receita Federal, Lina Vieira – cuja demissão pelo Presidente Lula não foi bem explicada – afirmou que foi chamada para uma conversa com a ministra Dilma Rousseff na Casa Civil. No encontro, a ministra lhe pediu que “acelerasse” as investigações que a Receita Federal estava realizando sobre a família Sarney. A então Secretária da Receita Federal achou estranho duas coisas: primeiro, o fato de ter sido convocada para uma reunião com a ministra, sem a presença do seu chefe imediato, o Ministro da Fazenda. A segunda coisa, o fato desse pedido significar, na verdade, um pedido de encerramento rápido das investigações, mesmo que sem a devida apuração. A bomba estourou agora com os Sarneys. Lina Vieira, demitida, contou o fato para a imprensa. A ministra negou, dizendo que nunca houve esse encontro e tal pedido. Mas aí, ontem, a chefe de gabinete do secretário da Receita Federal, Iraneth Dias Weiler, confirmou o encontro. E agora, Dilma? Parece que, novamente, a ministra foi pega na mentira.

A ANÁLISE.

Esse padrão de comportamento e de discursos inverídicos da ministra denotam para nós que, assim como no caso do Mensalão, mentir faz parte dos meios que justificam os fins. Isto é, esse continua a ser o Logos – a palavra fundamental – em que está sustentado o Governo Lula e o caráter de uma grande parte dos seus ministros. Mais ainda: muito diferente do que preceitua o Código de Ética do Servidor Público Federal – Decreto 1.171/94 – o Ethos comportamental da ministra parece ser aquele no qual a honestidade , “a dignidade, o decoro, o zelo, a eficácia e a consciência do princípios morais” (Capítulo 1, Seção 1, Inciso I) não constituem, em si, elementos valorativos e deontológicos que norteiam o seu serviço público. O Ethos da ministra é variável no tempo e no espaço, com e sem escrúpulos, de acordo com a conveniência e oportunidade dos seus interesses e os de a quem ela serve. Nisso tudo, o que se vislumbra é, em síntese, o que há de mais patológico no ser humano: a ganância desmesurada pelo poder. Esse é o Pathos – a afecção psicopatológica – da ministra Dilma Rousseff. Essa é a motivação da ministra em defender o indefensável – José Sarney – e de lutar, mesmo que sem saúde, para ocupar o trono da Presidência da República a partir de janeiro de 2011.

Entre mentiras e mais mentiras, o que mais impressiona aí é o cometimento desmedido e recorrente de vários atentados contra a Ética no Serviço Público, contra a Probidade Administrativa e o cometimento de Crimes Contra a Administração Pública que é o caso – se for provado o encontro e o pedido – do encerramento precoce das investigações contra a família Sarney. Se assim o foi, estamos diante de Crime de Prevaricação e de Advocacia Administrativa e, por assim ser, estamos diante de atos de improbidade administrativa, porque a ministra, assim agindo, atentou contra os princípios basilares da res publica, quais sejam, a honestidade, a imparcialidade, a legalidade e a lealdade às instituições.

Se o Logos da ministra Dilma Rousseff fosse “aquele que se fez carne e habitou entre nós”, Cristo, o que nos revelou a Verdade e combateu, veementemente, o Pai da mentira, se o Ethos da ministra Dilma Rousseff fosse o deste mesmo que, injustamente, por combater pela Verdade, foi apenado com morte e morte de Cruz, ela – mesmo sob tortura – jamais mentiria e jamais, sob qualquer condição, teria orgulho em mentir. Foi essa uma das grandes lições que Ele nos ensinou e Dilma Rousseff, de fato, não a aprendeu.
Destarte, a propósito da candidatura da ministra à Presidência da República, eu diria, sem vacilar: não, nessas condições, eu não voto em você, ministra Dilma Rousseff.



Uziel Santana (Professor da UFS e Advogado)
http://www.uzielsantana.pro.br

ATITUDES

Jaime Sidônio
(
psjaime7@hotmail.com)


Viver a vida na perspectiva da reconciliação implica assumir uma atitude de abandono nas mãos de Deus; estar livres, sem resistências, mas permanecendo acordados, conscientes de nossas fragilidades, mas também conscientes de que, apesar delas, somos profundamente amados por Deus, que nos atrai, que vem à nossa procura, que nos convida à conversão. Jesus disse: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrai” (Jo 6,44)


Somos continuamente chamados à conversão e, sem responder a esse chamado, é difícil viver reconciliados, porque, ainda que a reconciliação seja iniciativa gratuita e amorosa de Deus, é necessária a nossa tomada de consciência, o nosso posicionamento que expresse o nosso desejo firme e a nossa participação para haver reconciliação.

Jesus, ao iniciar sua missão, fez um apelo firme, uma convocação incisiva: “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1,15).
Todos somos permanentemente chamados ao dinamismo da conversão como caminho para a vida nova no Espírito. Para isso, é preciso criar espaço para ver como estamos administrando nossas vidas. Cabe aqui, portanto, umas perguntas básicas e pessoais: “Jesus é o meu único Senhor? Eu estou conseguindo dar o passo de qualidade, o passo radical no sentido de me desfazer de tudo aquilo que é relativo para me entregar a Ele como único absoluto de minha vida?”

CANTO DAS ESTAÇÕES…

(resomar)



Deixa que eu me debruce em teu coração...
Lágrimas desnudam o frio estremecido,
camadas derretidas encharcadas do orvalho...

Deixa-me explicar a experiência da demora que se faz partida...
Tempo esculpido em árvores desfolhadas,
verão em noite de abandono...

Deixa-me carregar o teu olhar na travessia amarga da dor...
Sentimentos crescem na aprendizagem do diferente,
obscura e indefinida entrega...

Silencio tuas amarguras...
Nublado passo...
Soletro nos degraus gorjeios do canto das estações que se entreolham assustados na alma povoada de sonhos...

Deixa-me dedilhar em teus lábios feridos as razões para existir,
a paixão para não desistir,
a ousadia em insistir,
o amor para prosseguir...


19.12.2004 - 19:55h (resomar)

Obs: Foto da autora.

?INCÓGNITO?

Amanda Barros (*)
mandok_pucca@hotmail.com



*Ao mesmo tempo que te quero tanto,
Já não te quero mais.
E quando a saudade quase me sufoca,
respiro o mais puro ou o mais poluído dos ares.

*Quando digo que a sua magia já não
me afeta mais, é só você estralar os dedos,
que eu estarei aí, ou não.

*Eu quero, eu tento chorar, mais o que dói
é um sentimento silencioso, que eu própria
desconheço. E agora, estou desconhecendo quem
foi você pra mim um dia.

*E eu odeio tanto o quanto te amo, se é
que te amo.
E você sabe de tudo, mas não entende nada.

*E eu me pergunto: - Por que fiz isso comigo e com você?!
Já não tenho mais certeza do teu amor, já não sei se
realmente serei eterna em teus pensamentos, nas tuas lembranças...
não sei o que fui, ou o que sou pra você.

*Mas você sabe voar, seguir sozinho, agora está livre, siga o seu caminho, seguirei o meu, não quero mais recordar, foi muito bom cada momento que passei contigo, peço-te desculpas por
minhas falhas e te perdôo pelas suas...

*Desejo-te ainda toda a felicidade
desse mundo, que consigas realizar
todos os teus sonhos... quanto a mim,
bom, quanto a mim, não sei,
sou imprevisível demais,
mas acho e espero que ficarei bem.
- E até NUNCA MAIS.

- Desculpa se te amo hoje!
- Desculpa se não te amar mais amanhã!!

Desculpa se já é tarde demais...



(*) Aluna da 7ª série

terça-feira, 25 de agosto de 2009

PESSOAS NÃO SÃO ESCORPIÕES

Padre Beto
www.padrebeto.com.br


Certa vez, um escorpião encontrou-se com um sapo à beira de um lago. "Caro sapo, você poderia me levar em suas costas à outra margem do lago?", perguntou o escorpião. "Eu não sou idiota. Quando eu estiver no meio do lago, você com certeza irá me ferroar e eu morrerei segundos depois", respondeu o sapo. "Claro que não", disse o escorpião, "se eu te ferroar eu também morrerei afogado". "Bom... isso é verdade", refletiu o sapo, "está bem, você pode montar em minhas costas. Vamos juntos para o outro lado do lago!" Depois de nadar alguns minutos, o sapo sentiu uma ferroada em suas costas. "Maldito! Você me ferrou mesmo. Agora, nós dois estamos condenados à morte!" "Eu sei...", respondeu o escorpião, "sinto muito, mas eu sou somente um escorpião... e escorpiões ferroam!"


Apesar de toda a carga genética que recebemos, nós, seres humanos, não vivemos em um determinismo natural. Definitivamente a natureza não se constitui em uma simples prisão ou força dominadora que nos limita e determina nossas ações e posturas. Pessoas não são escorpiões, pois possuem algo que os difere dos outros seres vivos em nosso planeta: a razão. A atividade de pensar e refletir constitui-se na capacidade que caracteriza a nossa liberdade de escolha. Nós não somos simplesmente controlados por leis naturais e nossos sentimentos, ações ou formas de vida não estão apenas programados por fatores genéticos. Justamente na relação dialética entre razão e natureza podemos concretizar o que gostaríamos de ser e como teríamos o prazer de viver. Graças à razão humana podemos aprender novas maneiras de ver o mundo e compreender o universo, podemos, também, desaprender valores e tradições. "Cada homem é arquiteto de seu destino" (Salústio). Através da capacidade de refletir e questionar descobrimos que não precisamos ser vítimas do passado, mas somos capazes de construir nossa vida de uma forma diferente de outras gerações ou, simplesmente, podemos modificar nossos costumes e comportamentos quando não encontramos neles um caminho de realização pessoal.

A liberdade de escolha, porém, exige o trabalho, muitas vezes desagradável, de autocrítica e a coragem de assumir a responsabilidade de nossas posturas. Exercer a liberdade de escolha significa a despedida de um mundo infantil, no qual nos sentimos, de certa forma, protegidos por uma falsa segurança. Sem dúvida alguma torna-se muito mais cômodo e nos dá uma sensação de tranqüilidade se acreditamos que "a vida é assim". Se adotamos esta "verdade", o nosso único esforço é nos acostumarmos com as regras e estruturas que encontramos em nossa atual mentalidade social. Desta forma, nos sentimos seguros na comodidade de continuar a vida sem mudanças. O problema é que a vida não é assim, mas ela se encontra assim no momento. Se dermos uma olhadinha na história da humanidade constataremos que a mudança e a diversidade sempre fizeram parte da vida. Na verdade, a riqueza da vida está na diversidade e cada um de nós contribui realmente, na passagem por aqui, buscando sua autenticidade e respeitando a das outras pessoas. "Precisamos parecer um pouco com os outros para compreender os outros, mas precisamos ser um pouco diferente para amá-los" (Paul Géraldy). Outra forma cômoda de não tomarmos as rédeas de nossa existência é encontrarmos um ótimo "bode expiatório". A vida, a natureza, Deus ou diabo sempre servem a este objetivo. Assim, preferimos nos consolar com clichês que escondem, na verdade, a nossa covardia: "eu nasci assim", "a minha natureza é essa", "meu temperamento", "meu destino", "minha cruz", "Deus quis assim"... Frases de efeito muitas vezes nos transformam em escorpiões, nos fazem matar os sapos e no final morremos todos juntos. "Os homens amontoam os erros de sua vida e criam um monstro que chamam de destino" (Thomas Hobbes). Ser ou não ser vítima de sentimentos, emoções, da vida ou da natureza consiste, na verdade, em uma escolha humana. Dentre todas as "razões" para nossos problemas, o demônio bate o recorde. O que seria do ser humano se ele não tivesse um "anjo do mal" para jogar suas culpas, erros e fraquezas. É claro que Deus também não escapa das acusações de suas crianças. Seríamos mais justo com Ele se o compreendêssemos como Aquele que possui como único desejo a nossa realização pessoal. Afinal, o que mais desejaria um verdadeiro pai? No fundo, afirma Michel de Montaigne, não existe uma definição definitiva do que somos e como nos realizamos como pessoa. Assim, não existem receitas prontas para sermos humanos. Cada um é convidado a encontrar seu próprio caminho, no que consiste seu chamado para a vida. "O que você tem capacidade de fazer, tem capacidade também de não fazer" (Aristóteles), a escolha, na maioria das vezes, é sua.

VENDAVAL NA SERRA

Malu Nogueira



Rasguei a noite, sem luar,
Cavei estradas cheias de rãs e pererecas.
Derrubei pedras, sem saber aonde chegar.
Vi o céu ser alumiado por relâmpagos,
Com trovões que assombravam os campos
E me mostravam galhos que se balançavam
Sob o peso dos pingos da chuva,
A terra barrenta escorria estrada abaixo,
Amolecida pela chuva,
Riachos enchendo
E o barulho de água caindo,
Vindo do céu escuro, pesado de água,
E eu subindo contra a avalanche de barro,
Que escoria e destruía o relevo de estrada
Que eu não conhecia e nem sabia quando terminaria.
O vento corria e me impulsionava para cima da serra,
Impossível retroceder,
Precipício de um lado,
Serra do outro
E eu, encolhida no meio da serpente de barro
Numa estrada que não tinha fim,
Com ânsia incontida
Meus olhos, na noite escura
Abriram-se para o fim da serra do vento,
Que me recebeu com luze belos jardins
E me perguntou o que eu queria dela
E eu, estradeira, pedi do seu vento,
Que viesse forte e mexesse comigo
Sacudisse dos meus galhos, as lágrimas
Que eu não quero mais derramar,
Levar os vultos que me cercam
Apagar as pegadas divididas no meu espaço.
Clamei por vendavais e tufões
Cobrei uma varredura nos meus pensamentos
Dissipando-os em fragmentos a serem espalhados
No fundo da serra do vento.
Uma limpeza completa,
Sem página rasgada,
Sem recortes de figuras,
Só o vento da serra, soletrando meus pedidos,
No gorjeio do passarinho
Que me ensina a amar.

FILOSOFIA EXISTENCIALISTA E A CRISE DA MODERNIDADE

Parte I
Marcelo Praciano


Filósofos como Descartes puseram o pensamento do homem como o centro da sua existência. O “Penso, logo existo” do filósofo francês é um claro exemplo da sua posição acerca da subjetividade do humano. Para ele o sujeito é constituído a partir do seu pensamento, e esse como fruto de um método. Descartes ainda salienta que Deus é o ser supremo que possui toda a inteligência, porque rege a matemática e a geometria.

A filosofia existencialista terá como pano de fundo de sua consolidação duas grandes crises. Primeiramente a crise do pensamento filosófico ocidental que teve início no fim do século XIX, e é representada pela crise do Racionalismo, na qual o pensamento cartesiano está inserido. A absolutização da razão deu lugar à nova cultura, marcada pela ausência do absoluto e pela derrubada dos tradicionais sistemas filosóficos.
A segunda crise foi a da própria civilização contemporânea, que tinha depositado suas esperanças na razão, como se ela fosse resolver os problemas da humanidade. No entanto, não os resolveu. Ao contrário, no século XX, a humanidade entrou em dois conflitos mundiais.

A crise do Racionalismo e a crise da própria humanidade assolaram os homens, pois se esperava uma solução para os problemas humanos, e eles não vieram. O homem se encontra embrenhado em sentimento de angústia e desespero. Dessa forma, Jolivet afirma “Nada tomava na transcendência o lugar deixado vago pela Razão e por Deus”.

Arrasado pela “traição da razão” e desiludido pela crença em um ser supremo que o abandonou. Restou ao homem se apoiar em si mesmo, e buscou na sua subjetividade: compreender o mistério de sua existência e essência.

Para que se chegasse a essa compreensão, é necessário que o homem abandonasse a dualidade gerada pela relação entre sujeito e objeto. Era preciso partir do sujeito concreto, da sua realidade de engajamento com o mundo, no qual ele está inserido. Do seu engajamento com o próprio projeto existencial da humanidade, constituída de sujeitos independentes uns dos outros, embora independentes estão inseridos no mundo e se relacionam entre si.

Na busca da compreensão da existência, filósofos como: Gabriel Marcel, Heidegger, Nietzsche, Sartre entre outros elaboraram uma forma de pensar o sujeito que receberá o nome de “Existencialismo”. O principal interesse desses filósofos será a busca da compreensão do ‘Ser no mundo”. Pois seus pensamentos não partirão do sujeito cartesiano. Mas do sujeito engajado no mundo. Logo, suas teorias serão anti-racionalistas.

Afastando-se dos racionalistas, os existencialistas – tratarão a existência “como um símbolo de oficina e de arena onde o homem forja o seu projeto e trava a batalha quotidiana do seu próprio destino” assim disse o professor, José Maria, da Universidade Federal do Maranhão. Para os existencialistas a compreensão da existência do ser assumirá um papel importantíssimo, a ponto de ela preceder a essência. Jolivet conceituará o existencialismo como:“ o conjunto de doutrina segundo as quais a filosofia tem como objetivo a análise e a descrição da existência concreta, considerada como ato de uma liberdade que se constitui afirmando-se e que tem unicamente como gênese ou fundamento esta afirmado em si mesmo.”

Percebe-se na citação acima que o grande intuito do existencialismo é compreender o humano a partir de si mesmo – das suas liberdades, dos seus anseios e até mesmo das suas angústias. No pensamento marxista se poderia imaginar que o existencialismo parte do homem concreto e de suas relações com o mundo.

Ao se defender dos marxistas e dos cristãos que criticavam a filosofia existencialista, Sartre, em 1946 proferiu uma conferência para defender o existencialismo. O tema dela foi: “O existencialismo é um humanismo”. O ponto culminante dessa conferência foi quando o autor afirma que “a existência precede a essência”.

Isto quer dizer que o homem primeiro existe e encontra-se no mundo, após ele se define no mundo e com o mundo, porque o ser não se define sozinho, mas em contato com outros seres. No entanto, o homem é livre para fazer suas escolhas e sofrer as conseqüências delas. Sartre chega afirmar que “o homem é condenado a ser livre”.

TEXTO DE WALTER CABRAL DE MOURA

(wacmoura@nlink.com.br)


Olhos negros
de veludo
são tapete voador
e meu pensamento viaja
até a tenda no oásis
onde jorra leite e mel
entre damascos da síria
figos e tâmaras do líbano
incenso, mirra, eloá
tenho direito à mais bela
mensageira de Alá.

Acordo, estive sonhando
foi só nuvem
foi-se tudo
mas sei que são bem reais
olhos negros
de veludo.

DR. EDIVALDO BRITO

FILHO DO AXÉ E FILHO DE MARIA
Sebastião Heber
shvc@oi.com.br



O relançamento do livro “A festa da Boa Morte e o Icone Ortodoxo da Dormição de Maria” foi abrilhantado pela presença do Dr. Edivaldo Brito, vice-prefeito de Salvador, que proferiu uma palestra com o tema: ”As irmandades como lugares de preservação da identidade e da cultura negra”. A ida do ilustre palestrante foi organizada pelas mãos do seu Chefe de Gabinete, Claudelino Miranda. A sessão foi presidida pela Srª Angélica Sapucaia, Presidente daquela Casa, e o protocolo foi dirigido pelo prof. Adilson Gomes da Silva. Dr. Brito representou um momento áureo nesse lançamento, pois estava particularmente inspirado. Esse é um tema que está no seu sangue. Ele não esconde suas origens, mas, ao contrário, dela se orgulha, e com razão. De origem humilde, Muritiba é a sua terra mater. Nunca deixa de falar na sua mãe, mulher de fé, de matriz afra e que educou os filhos com amor e vigor. Também citou sua tia querida, Mãe Bida, que era integrante da Boa Morte, vindo anualmente do Rio de Janeiro participar das festas de agosto. Lá na sessão da Câmara Municipal estava a famosa professora Iolanda Pereira Gomes, que foi vereadora, diretora do Colégio Estadual e Provedora da Santa Casa . E ela foi alvo da homenagem do conferencista, pois foi sua professora. Ele recordou de quantas vezes desceu a pé de Muritiba para estudar em Cachoeira. Diariamente, subir e descer a serra, e, às vezes, até quatro vezes, quando tinha aula à tarde. E ele não se esqueceu de ninguém que o ajudou na sua formação. Citou até uma família que lhe dava merenda, mingau, nesse vai-e-vem da casa ao colégio.

Sobre o tema apresentado, foi mostrado que as irmandades foram esses lugares privilegiados, como força agregadora para a manutenção das mais puras tradições afras no nosso país e, especialmente, na Bahia. O escravizado negro, arrancado brutalmente de sua terra natal, foi transplantado para um novo habitat, e, de repente, se encontra numa situação de subordinação. Dessa forma, ele se encontrava numa estratificação considerada a mais baixa de todas, ou seja, era incorporado à escravidão, num contexto totalmente diferente, inclusive o da religião. A cultura original do africano era básica e profundamente religiosa, mas do modo como foi levado à força ao trabalho, também foi levado ao cristianismo, sem nenhuma prévia evangelização. Mas a inteligência negra soube adaptar-se a essa nova situação. No final, ele ficou com a religião do branco sem abandonar a própria, como dizem Bastide, Valdemar Valente e Verger. Na verdade, as irmandades e confrarias, foram os grandes suportes para a preservação da cultura negra. Lá os escravizados tinham uma ascensão social, tinham um nome e conservavam a própria identidade.

No seu discurso, o professor Brito citou a senhora Ângela do Gantois ( Iakekerê do Gantois), que falou em seu nome e no de Mãe Carmen, Ialorixá daquele célebre Terreiro, onde o ilustre vice-prefeito é Ogan.

Pe. Sadoc não pode estar presente, mas mandou uma mensagem: ”Marco minha presença espiritual na festa religiosa e intelectual do lançamento desse livro. Abraço muito fraternalmente o amigo Pe. Sebastião Heber, e o parabenizo pela grande aula, a grande lição, levando-nos ao amor de filhos, felicíssimos pelas glórias de nossa Mãe e Mãe de Deus. Abençoados os filhos de Cachoeira onde se revivem a invencibilidade da fé e o patriotismo autêntico. Ao querido Prof. Edivaldo Brito, meus agradecimentos pelos seus permanentes testemunhos de patriotismo e de fé”. Também foram lidas mensagens do Prof. Edivaldo Boaventura, Presidente da Academia de Letras e Diretor do A Tarde, da Profª. Consuelo Pondé de Sena, Presidente do Instituto Geográfico e Histórico da BA (a Casa da Bahia), do Dr. Antonio Amorim, prefaciador do livro e Diretor do Departamento de Educação da Uneb, (ao qual pertenço), e da Fundação João Fernandes da Cunha. O presidente da Irmandade da Conceição do Monte, Isaac Tito, usou da palavra homenageando o autor em nome da Irmandade do Monte, dos amigos e do povo cachoeirano. Mônica Estela falou em nome dos estudantes da Uneb.

No final houve uma homenagem das irmãs da Boa Morte lá presentes, Ilá Deleci ( do Terreiro Ilê Kodedê), D. Dalva do Samba de Roda Suerdieck (que está inaugurando a sua Casa do Samba que tem seu nome, no dia 27 de setembro) e de D. Dadi que mantém um grupo afro na cidade. Um grande buquê de rosas foi ofertado ao escritor pelas irmãs presentes.
No dia 3 de outubro, o Dr. Edivaldo Brito (dia do seu aniversário) e sua esposa, estarão recebendo o título de Membros da Irmandade da Conceição da Praia, numa Missa presidida pelo Mons. Gaspar Sadoc.


Sebastião Heber. Professor Adjunto de Antropologia da UNEB, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da BA , do Genealógico e da Academia Mater Salvatoris.

O AFINADOR DE INSTRUMENTOS

João Batista Pinto
(
melopintoneto@uol.com.br)


Nunca ouvi tocar o sistro,
Porque não sou egípcio.
Será que o som repousa,
Cadente numa vogal?

Ouço guitarras à noite
De agressiva metalicidade,
Em loucas advertências
Do que será o amanhã.

Mas entre difusos sons
Que chegam aos meus ouvidos,
Há o canto de sereia,
Tão puro canto me dói.

Não importa que esse canto
Seja de peixe ou de mulher.
O que há de vivo é o encanto,
Nadando sobre vogais.