terça-feira, 24 de novembro de 2009

POLÍTICA E GENERO: DUAS MULHERES NA CORRIDA PRESIDENCIAL?

Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.



Já lá se vai quase um século inteiro desde que se assiste ao fenômeno da emergência da mulher em todos os setores da vida social, política e cultural do mundo ocidental. E o evento desta emergência é percebido pelos principais setores desta mesma sociedade como um dos fatores mais importantes e relevantes em termos de mutação de seu perfil contemporâneo.

A metade feminina da humanidade, que vai saindo da sombra e da invisibilidade após tantos séculos, vem merecendo, por parte de especialistas das mais diversas áreas, atenção e interesse. Bastaria, para comprovar esta afirmação, a grande quantidade de pesquisas, escritos e eventos organizados em torno do tema, relacionando-o com as mais diversas áreas do saber , do conhecimento e da esfera pública.

Antes confinada ao privado e ao doméstico, a mulher vem ocupando espaços cada vez mais importantes na esfera pública tendo chegado, já no século XX, a ocupar altos cargos de governo. Isto se deu de forma mais patente nos países nórdicos da Europa, como Finlândia e Noruega. Mas são dignos de nota igualmente os casos de ministras de estado nos Estados Unidos. Na América Latina, os casos da presidente Michele Bachellet, que logo termina seu mandato, é um bom exemplo de estadista formada na base e na luta diuturna pelos direitos humanos que chega ao poder por eleição democrática e sabe manter seu país na corrida pelo desenvolvimento e por uma vida melhor para a população. "Ao aumentar de maneira efetiva a influência da mulher em todos os níveis da vida pública, ampliam-se as possibilidades de mudança em direção à igualdade entre os gêneros e ao empoderamento da mulher, bem como para uma sociedade mais justa e democrática", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, no relatório sobre a participação igualitária de mulheres e homens nos processos de tomada de decisões em todos os níveis, lançado em dezembro de 2005. Em 1995, a Plataforma de Ação de Pequim definiu como uma de suas prioridades a questão da mulher no exercício do poder e na tomada de decisões e apontou medidas concretas que deveriam ser adotadas por governos, setor privado, instituições acadêmicas e organizações não governamentais para que as mulheres tenham maior acesso e uma participação efetiva nas estruturas de poder e na tomada de decisões, como diz o artigo da ADITAL de 8 de março de 2006, ainda atualíssimo. Embora se haja avançado muito no acesso da mulher à política, o ranking nos mostra que ainda há muito a fazer, sobretudo em nosso continente e sobretudo em nosso país. No que a nós diz respeito, na América do Sul, o Brasil é o pior colocado na lista, em 107º lugar, bem atrás da Argentina (9º), Guiana (17º), Suriname (26º), Peru (55º), Venezuela (59º), Bolívia (63º), Equador (66º), Chile (70º), Colômbia (86º), Uruguai (92º) e Paraguai (99º). Isso nos leva a festejar o fato de que, olhando para 2010 e as eleições presidenciais que se avizinham, possamos enxergar duas mulheres na corrida presidencial: Dilma Roussef e Marina Silva. Independentemente de apoiarmos essa ou aquela, não importando qual delas nos agrada ou desagrada mais ou menos, o fato de duas candidatas do gênero feminino nos mostra que além das muitas coisas novas que a era Lula trouxe ao Brasil, veio também o balanço de gênero. Oxalá Dilma e Marina possam deixar um legado ético e positivo atrás de si quando termine o pleito, seja qual for seu resultado. Tomara que sua herança não seja como a de outras de triste memória, como a nada saudosa ministra Zélia, que após apropriar-se da poupança dos trabalhadores brasileiros de todas as extrações sociais, foi namorar ministros e atores de televisão e acabou nos Estados Unidos protegida de sanções maiores. Que Dilma e Marina possam ser comprobatórias de que a mulher pode fazer uma diferença também no governo de um país como o Brasil – eis nosso desejo.


Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape

Copyright 2009 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

POCA COSA

JORGE EDUARDO RIVERO
jorgeeduardorivero@gmail.com


PARECE TAN POCA COSA ,UN PETALO DE UNA FLOR BLANCA
TEMPLADO EN AMANECERES,LLEVADO POR BRISA FRANCA,
QUE EN EL PAÑUELO DEL ALBA,SE DESMAYA,SE ANONADA.
CON UN TIBIO RAYO ENCENDIDO,ACARICIA MI JORNADA.

POCA COSA UN PETALO BLANCO EN LA BRUMA DEL RECUERDO,
LLEGANDO DESDE EL ALBA CON EL AROMA SIN TIEMPO
Y DETIENE EN MI RETINA LLORANDO PAUSADA AURORA
CON LA LUJURIA DEL BLANCO ,ESE JAZMIN ENCENDIDO.

POCA COSA UN PETALO BLANCO EN EL SOLITARIO CAMINO
AROMADO POR LOS AÑOS Y DULCES GOTAS DE OLVIDO.
UNA LAGRIMA QUE SE ASOMA ,UNA CARICIA QUE EXPLOTA
EN LA SOLEDAD DE UN MURMULLO SE ESCONDE NUESTRO DESTINO

POCA COSA UN PETALO BLANCO A LO LARGO DE UNA HISTORIA
Y MIS MANOS TEMBLOROSAS ACARICIANDO SU BRILLO,
TAPIZ DE CIELO INFINITO,EN MIS BRAZOS RECOGIDO,
Y EL ROSTRO GRIS DE LA NOCHE,LA SONORIDAD DE AQUEL TRINO.

Y MAS ALLA DEL ENSUEÑO,UN LEÑO ROJO CREPITA
CLAMANDO EL PETALO BLANCO LA ILUSION DE UN IDILIO.

PASSEIO POR HAVANA

Frei Betto


Havana, nesta época do ano, é banhada por suave temperatura. O calor é amenizado pelo hálito de frescor que sopra das águas azuladas por trás do Malecón. A umidade reflui, embora a população se mantenha atenta à meteorologia: outubro e novembro são meses de furacões. Ano passado, ceifaram quase 20% do PIB, hoje calculado em US$ 50 bilhões.

Não há sinal de que o desastre se repita este ano. Impossível, contudo, prever as reações vingativas de Gaia, cruelmente estuprada por nossa ambição de lucro e solene desprezo à mãe ambiente.

A visita à Cuba, na penúltima semana de outubro, não tinha agenda de trabalho. Fui a convite do querido amigo José Alberto de Camargo que, para comemorar aniversário, escolheu a cidade reencantada pela literatura de Lezama Lima, Alejo Carpentier e Nicolás Guillén.

A comitiva (comitiva do coração) incluiu os jornalistas Chico Pinheiro e Ricardo Kotscho, este acompanhado de Mara, sua mulher. Alojados no octogenário Hotel Nacional, brindamos o desembarque com o daiquiri de La Floridita, onde Hemingway tomava seus porres. Visitamos a casa de praia em que ele morou e escreveu “O velho e o mar”, bem como o Hotel Ambos Mundos, no qual viveu seis anos e redigiu “Por quem os sinos dobram”.

Foram dias de boa culinária caribenha no El Templete, à beira do porto, e em El Oriente, frequentado por Saramago e García Márquez. Entre mojitos e o aroma perfumado dos charutos Cohiba, cuja fábrica percorremos, mantivemos proveitosas conversas com cidadãos anônimos e autoridades do país, como Ricardo Alarcón, presidente da Assembleia Nacional; Eusébio Leal, historiador da cidade (e responsável pela restauração da área colonial de Havana); Homero Acosta, secretário do Conselho de Estado (no qual se congregam ministros e dirigentes do país); Armando Hart, do Centro de Estudos Martianos; Abel Prieto, ministro da Cultura; e Caridad Diego, responsável pelo Gabinete de Assuntos Religiosos (que cuida da relação entre Estado e denominações confessionais).
Permaneci um dia a mais para encontrar-me com Raúl Castro, atual presidente, com quem almocei no sábado, 24, e Fidel que, na tarde do mesmo dia, me recebeu em sua casa, com direito a jantar.

Cuba se encontra grávida de si mesma. Após 50 anos de Revolução, é hora de analisar erros e impasses. Mira-se o passado para enxergar melhor o futuro. Em 2010, o 9º congresso do Partido Comunista deverá submeter o país à verificação de suas contradições e elaboração de novas estratégias, sobretudo no que concerne à economia e à emulação ética.

Engana-se quem supõe Cuba retrocedendo ao capitalismo. Ainda que se multipliquem aberturas à economia de mercado, devido à globalização e o mundo unipolar hegemonizado pelo neoliberalismo, não interessa à Ilha priorizar a acumulação privada da riqueza em detrimento da maioria da população. A América Central é o espelho no qual Cuba não quer se ver: ali os índices de violência são, hoje, os mais altos do mundo, com 23 assassinatos/ano por cada grupo de 100 mil habitantes. No Brasil, o índice é de 31/100 mil e, em Cuba, 5,8/100 mil. Basta dizer que, no Rio, a polícia matou, em 2007, 1.330 pessoas. No ano anterior, em todo os EUA foram mortas pela polícia 347 pessoas.

Os cubanos são conscientes de as falhas do país não poderem ser todas atribuídas ao criminoso bloqueio imposto, há mais de 40 anos, pela Casa Branca (e, agora, em vias de distenção pela administração Obama). A manutenção, por longo tempo, de medidas justificadas pela Guerra Fria, começa a ser questionada. É o caso do caráter paternalista do Estado que assegura, a 11 milhões de habitantes, gratuitamente, cesta básica, saúde e educação de qualidade. Por essa razão, a qualidade de vida em Cuba, onde o analfabetismo está erradicado, figura em 51º lugar, entre 182 países, no Índice de Desenvolvimento Humano 2009, da ONU. O Brasil mereceu a 75ª classificação. Não se cogita alterar o direito universal e gratuito à saúde e à educação. Porém, a redução dos subsídios à alimentação deverá coincidir com o aumento de salários e da produtividade agrícola, de modo a diminuir a importação de 80% dos alimentos consumidos. Busca-se solução a curto prazo para a duplicidade de moedas: o CUC adquirido pelos turistas (evita o câmbio paralelo e a evasão de divisas) e o peso utilizado pelo cidadão cubano. O turismo, ao lado da exportação de níquel, é das principais fontes de arrecadação de Cuba que, com tamanho 64 vezes inferior ao Brasil, recebe 2,5 milhões de turistas por ano, metade dos que desembarcam em nosso país no mesmo período.

Toda a América Latina se opõe, hoje, ao bloqueio e apoia a reintegração de Cuba nos organismos continentais. A questão política mais relevante nas relações internacionais é a urgente libertação dos cinco cubanos presos nos EUA desde 1998, condenados a penas elevadíssimas, acusados – acreditem! – de evitar atos terroristas. Os cinco lograram abortar 170 atentados planejados contra Cuba dentro da comunidade cubana de Miami.

Fernando Morais, com quem jantamos em Havana, promete lançar, em 2010, livro em que conta a esdrúxula história do processo movido pela Justiça usamericana contra os cinco cubanos.

PS: A quem possa interessar: Fidel goza de muito boa saúde e excelente bom humor.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.


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ESTEJA CERTO!

Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br


Quantas
informações
guardamos..

Muitas
com o passar dos anos
achamos que esquecemos,
não mais as temos,
mas não!
Estão armazenadas,
ou mais ou menos
apagadas,
por alguma razão..

Quantas
lembranças!

Quantas
reformulações!

Quantos
colocamos na balança
e nem pesaram tanto!
Uma decepção..

Nos eram tão caros
e quando viemos a precisar,
era o lugar mais vago..

Quantas palabras soltas,
quantos momentos sem par,
quantas questões ficaram roucas
de tanto que pedimos, insistimos
e até hoje estamos a esperar!

Somos
um mar de informações,
buscas,
decepções..

Em muitas temos culpa.
Não tivemos calma,
não nos empenhamos com alma
e deixamos escapar.

Outras,
não estávamos preparados.
Faltou-nos discernimento
e depois
de um certo tempo,
já não mais apaixonados,
caiu no esquecimento
ou não
nos interessamos mais!

E assim,
vamos tentando viver,
ser feliz.

Muitas vezes,
meio amargurados
costumamos dizer:
O que fiz?
Onde tenho errado?

Olha..
É mesmo complicado!

Você até que tentou,
mas na hora H,
ficou quieto
e não levou.

Em outros momentos,
fez correto, mas ainda
não estava bem equilibrado
o sentimento
e novamente escorregou!

Um dia, esteja certo,
eu,
você,
todos nós,
estaremos mais eretos
e só nos servirá
um mundo de Paz
e aí sim, será muito,
muito mais fácil caminhar!


Obs: Imagem da autora.

RITMOS DA HISTÓRIA

D. Demétrio Valentini (*)


Um dos mais lúcidos encontros acontecidos durante a estada dos bispos de São Paulo em Roma, para a visita ad limina, foi o diálogo com o Cardeal Kasper, presidente do Conselho para a Unidade dos cristãos.

Ele acabava de retornar da Bielorússia, onde tinha participado de um encontro com representantes da Igreja Ortodoxa. Expressou sua convicção de que a unidade com os ortodoxos irá acontecendo progressivamente, na medida em que for sendo realizada a reaproximação com eles, através de sinais de apreço mútuo, de respeito por suas tradições e de encontros para o convívio e o diálogo construtivo.

Assim como a separação entre a Igreja Oriental e a Igreja Ocidental, falando-se em termos de Europa, foi se estabelecendo lentamente, através de um distanciamento que poderia ter sido superado, assim a plena comunhão entre ambas precisará ser construída através de um lento processo de reaproximação, em que as diferenças poderão ser relativizadas, enquanto desaparecem as desconfianças, e a unidade vai se fortalecendo.

Ele chamou a atenção para a importância de superar preconceitos históricos, que ainda podem estar presentes. Eles alimentam ressentimentos que aos poucos precisam ser desfeitos por demonstração de mútua estima. Assim se fortalece a disposição de consolidar uma nova postura de respeito e de conhecimento mútuo, que abre caminho para a plena comunhão entre as duas grandes tradições eclesiais, que assim poderia se tornar referência para a tarefa mais complexa da superação das divisões acontecidas na Igreja Ocidental, fruto tanto da reforma protestante como do neopentecostalismo.

Para isto vale a pena o esforço de identificar as raízes desses preconceitos históricos, que parecia terem já desaparecido, mas que ainda continuam. Ele citou, por exemplo, a susceptibilidade ainda existente na Igreja Ortodoxa com referência aos episódios acontecidos em Constantinopla, por ocasião das cruzadas na idade média, quando os exércitos ocidentais passaram pela antiga capital do império romano do oriente. Eles recordam estes episódios como se fossem ainda recentes, quando na verdade já passaram tantos séculos, e os atores de hoje não tem mais nada a ver com eles.

Isto faz lembrar o testemunho de um dos membros do conselho para a unidade dos cristãos, que certa vez passou pela Grécia, para se encontrar com representantes da Igreja Ortodoxa daquele país. Como ele entendia grego, pôde escutar a conversa do povo, que perguntava ao padre ortodoxo quem era o visitante. O diálogo que ele ouviu foi surpreendente. O padre ortodoxo explicou ao povo que o visitante era enviado do Papa. O povo quis saber então quem é o Papa. Aí o padre ortodoxo explicou que o Papa era aquele que tinha mandado as tropas do seu exército invadir Constantinopla! De modo que em pleno terceiro milênio o Papa ainda levava a culpa da destruição de Constantinopla.

Fatos como este fazem lembrar os disparates ainda freqüentes de professores de história, nas escolas de hoje, que escondem sua ignorância e manifestam seus preconceitos com o seu esporte preferido de acusar a Igreja de hoje, atribuindo-lhe a responsabilidade por fatos acontecidos em outros contextos históricos, sobretudo aqueles relativos à inquisição na idade média.

Cada acontecimento precisa ser situado no seu tempo, e ser interpretado à luz das circunstâncias que o tornaram possível. Isto tanto mais se torna importante quando os acontecimentos fazem parte da história de uma instituição veterana, que ainda existe, como a Igreja, e que carrega o peso dos séculos que ela conseguiu atravessar. Ninguém se queixa, por exemplo, da destruição de Roma, que também aconteceu, mas hoje não existe ninguém que chora por ela. Mas a Igreja conservou sua identidade ao longo dos séculos. Se queremos interpretar sua história, precisamos situar os acontecimentos em sua devida época. Caso contrário embarcamos na canoa furada dos preconceitos, que ainda são espalhados por aí, no mercado livre da ignorância e do despreparo profissional de professores que preferem o exercício cômodo das acusações ao trabalho árduo da pesquisa científica.

(*)
www.diocesedejales.org.br

FOLHAS QUEIMADAS

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



Foi exatamente assim, do jeito que vou lhe contar.
Nunca se entregou por inteiro, nem pude imaginar quanto sofrimento estava preso nas malhas do seu silêncio. Sua alma sempre fugiu de mim. Quando falava, falava pouco, com dificuldade, frases curtas, significativas: sou uma mulher feita de sonhos e de desejos. Antes de terminar, estava cansada, ofegante, como se estivesse voltando de uma corrida. Depois, fechava-se num silêncio que durava horas, dias, meses. Nunca deixou de ser a menina dos meus olhos, nem mesmo quando se escondia nos espelhos à procura do antigo corpo examinando mãos e braços em busca das pegadas do tempo impressas na pele, agora, envelhecida..
Aconteceu assim, não digo de repente porque nem mesmo a morte acontece de repente. Quando chega já estava a caminho.
Algum desgosto? Pode ter sido, penso, não sei. Várias vezes, tentei alcançá-la. Impossível. Entrincheirada nas lembranças, não parecia me ver. E te escutava? Também não sei. Olhava-me com um olhar de quem apenas reage aos sons.
Sonho maldito, excomungado, amortalhado em sorrisos e remorsos, disse-me um dia, no seu cansaço. Lamentou conhecê-la? Não. Como poderia se a amava? E ela, sabia?
Sempre soube. Indiferente, se deixou amar.Uma noite, partindo ao meio o seu silêncio, perguntou? Posso ir?Não, eu disse. Calou-se e, por muito tempo, não voltou a falar. Tentei prendê-la ainda, por algum tempo. Precisava entender seus pensamentos, iluminados pela força invasora de uma luz que acendia seus olhos nesses momentos. Precisava devassar seus sentimentos em busca de um sinal que me conduzisse à verdadeira causa dos seus remorsos. E quem lhe contou a verdade? Ela, ela mesma. Como? Nesta carta: Salva-me, nestes momentos obscuros, uma pequena luz que ainda teima em permanecer acesa – a sombra da lamparina que iluminou minha infância e desenhou minha inocência no branco das paredes.
Folheio minha alma e as páginas queimadas pelo tempo ameaçam se desfazer com a dor de mais uma lágrima chorada por lembranças que não terminam de morrer.
Nunca te disse nada. Guardei por tanto tempo um amor que eu deveria ter vivido um grande amor que eu trouxe do passado feito de luxúria e de desejos. Não pude dizer a verdade e, assim vivemos nestes ventos parados, nestas águas turvas e nos caminhos destorcidos das enganações. Agora, apenas a luz da infância permanece acesa, imaculada, mergulhada numa penumbra onde só o passado me parece real. Quero partir.
Nunca te disse nada e nada apagará o amor que não consegui viver. Há sempre uma pergunta.Uma pergunta tão simples que me faço quando os silêncios se digladiam desesperados na confusão das escolhas: Por quê?
Naquele dia eu a deixei partir..


Obs: Imagem enviada pela autora.

BRENNAND, 80 ANOS E SEU UNIVERSO MÍSTICO

Sebastião Heber
shvc50@gmail.com


O Recife passou um segundo semestre de festa.. Isso tudo foi devido aos 80 anos de Francisco Brennand, considerado pela imprensa local como um “Gigante das Artes Plásticas”. Ele, que vive recluso na sua Oficina, não vê motivo para comemorações. Porem, a grandiosidade de sua obra, que é já há algum tempo , algo de internacional, não permitiria que a data passasse em branco. Ele reúne vários atributos : é escultor, pintor, ceramista, desenhista e até tapeceiro. Eu próprio, tenho uma grande e bela tapeçaria com a figura de S. Sebastião, que me foi presenteado por sua filha e amiga minha, Maria Helena - o que caracteriza essa tapeçaria é que o santo está atado a uma árvore sem folhas e as setas são as folhas que estão voltadas para ele em forma de flecha. No seu ateliê encontram-se os monumentos mais altos, os murais mais extensos, e tudo isso revestido de uma consagração internacional e uma produção abundante , numerosa e onipresente no Recife. No antigo aeroporto havia um painel imenso, sinal das primeiras obras e bem diferente do estilo das últimas décadas. Por algum obscurantismo da administração daquele órgão, essa obra foi encoberta. Numa posterior restauração do prédio, a obra foi descoberta. E no prédio do novo aeroporto, a obra está em lugar de destaque, mostrando as origens do Brasil, com o encontro das três raças – alem da tônica da decoração do ambiente ser feita a partir de suas monumentais esculturas, sobretudo com seus pássaros hieráticos.

Seu nome completo é Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand e nasceu a 11 de junho de 1927, no próprio Recife. Seu pai fundara uma cerâmica, S. João da Várzea, já em 1917.Essa antiga fábrica de tijolos e telhas está nas antigas terras do engenho Santos Cosme e Damião, no histórico bairro da Várzea, e é cercada por remanescentes da Mata Atlântica e pelas águas do Rio Capibaribe. Essa parte coube ao artista como herança. Mas estava em ruínas. Em novembro de 1971, ele empreende um colossal projeto de esculturas em cerâmica que deveriam povoar os espaços internos e externos do ambiente.

A grande verdade da obra de Brennand é que ele escreve em cerâmica. Suas obras revelam sua genialidade e são um romanceiro épico. Sua tônica é eminentemente nordestina : alem de formas humanas, os cajus, frutos e aves da região , povoam a sua obra.

Esse lugar é único no mundo. A Oficina Brennand constitui-se num conjunto arquitetônico monumental de grande originalidade, em constante processo de mutação. Lá a obra se associa à arquitetura para dar forma a um universo abissal, dionisíaco, muitas vezes sensual e ao mesmo tempo religioso e místico.

O universo do artista é eminentemente particular e sui generis. Ele não se deixa contaminar com tendências pontuais de época ou estilos específicos, mas se mantém sempre em reinvenção. Por isso é que vive como um ermitão no meio de suas obras – na sua “fábrica”, ele tem um pequeno apartamento onde trabalha suas criações nas horas mais inusitadas, isto é, muitas vezes, troca o dia pela noite.

Ariano Suassuna ( que também completou 80 anos) diz que ele “absolutamente não se preocupa em verificar se o que está fazendo no momento está em conformidade com o seu tempo”. O famoso escritor do Auto da Compadecida, nasceu na mesma semana que o artista ( mas em Taperoá, Paraíba), estudou no mesmo colégio, e costuma dizer que descobriu com o colega o significado de ser artista plástico :”Nós nordestinos, nos preocupamos em ser fiéis à terra, aos mitos, às histórias, às formas e cores da região. E como Brennand, ao mesmo tempo, absorve, naturalmente tudo aquilo que o rodeia, o resultado é que sua obra é a mais universal e a mais fiel à terra de tantas que já saíram do Nordeste”. Para o poeta Ferreira Gullar, prefaciando o seu livro “Brennand desenhos”, ele “não é apenas um artista plástico de presença marcante na arte brasileira; é também uma personalidade complexa e rica, em que se juntam, alem do amplo conhecimento da arte e da literatura, a rara capacidade de refletir sobre questões mais diversas, tanto estéticas, quanto humanas”.

Na obra de Brennand estão presentes referências literárias e mitológicas que se torna impossível definir a lógica que ele usa para reunir todas em uma mesma poética coerente. Seus desenhos, desde 1949, estão conservados na Accademia, inaugurada para imortalizar sua obra.

Na visão de Emanoel Araújo, Brennand, ao esculpir, “aproxima-se da criação divina no Gênesis”.De fato, sua obra é marcada por uma tônica de fertilidade, símbolos e mitos, que reaproxima os apreciadores de sua obra da criação primeira.No centro do seu templo, protegido por uma cúpula de vidro, há um ovo, que o artista chama de “ôvo primordial e cósmico”. O ôvo é um sinal de eternidade, o objeto primordial no qual todos os objetos e formas podem caber, é ,assim, a origem de tudo.Assim, a vida que brota do livro que trata da Criação, associado à vitalidade que emana dos trópicos, é marca registrada da obra desse octogenário que renasce em cada nova obra que executa. História, símbolos, mitologia, fertilidade e sintonia religiosa são as palavras –chave que marcam a obra desse gigante das artes. Vale a pena visitar seu santuário e respirar o ar de eternidade que exala daquele ambiente.


Sebastião Heber. Prof. adjunto da UNEB, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris

LOGO…

Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


De repente os dias tinham passado rápidos demais e logo ela se viu de volta na frente de um monitor rabiscando novas palavras, para um post de início de semana.

Tentou lembrar do que tinha feito no dia anterior, mas o sono que insistia em deixar seus olhos vermelhos, lhe dando uma expressão cansada dificultava o processo de relembrar.

Se concentrou no texto e a cada nova palavra vinha a dúvida do que escreveria depois, como se cada nova vogal e consoante brotasse a medida que se aproximava o vazio do espaço em branco.

Olhou o relógio. 07h15. Hora de elaborar os planos para os 5 dias seguintes.

Tentou recordar do que precisaria ler. Teses, livros, revistas. Ler era seu passatempo, mas se não estava bem até está paixão lhe parecia monótona às vezes.

Recordou-se de algo que também gostava muito de fazer, sentar-se num canto isolado de uma velha balsa para ver o pôr-do-sol. Àlias não entendia porque as pessoas estressadas que conhecia não tiravam 10 minutos do seu tempo para se dedicar ao nada. Tinha chegado a conclusão que muito embora cada segundo seja valioso, alguns precisam ser dedicados ao processo de amor individual, a si mesmo.

Estancou ...

O que mais poderia escrever agora?

...

As palavras agora corriam desesperadas de seus dedos para não serem fixadas num texto.

Simplesmente tinham livre arbítrio para não quererem ser eternizadas num post de segunda-feira....

Boa Semana pra todos!

Obs: Imagem enviada pela autora.

A ANDARILHA E O CAMINHO

Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)


Tem um caminho de palavras, e a andarilha segue, horas pisando macio, horas tropeçando nas emoções.

O caminho está lá. Com grama verdinha, flores coloridas, lagos, rios, mares, lua, estrela, sol, céu azul, nuvens alvas. Tem muitas belezas. Tem também, estrada de barro, poeira, espinhos, pedras pontiagudas, nuvens nubladas. Tem lembranças boas e não tão boas, angústias, inquietações do ser. Sonhos, esperança, amor. Tem porteira rangindo ao se abrir, tem carro de boi carregando o passado. Tem asas de bem-te-vi cantando o amor. O amor na imensidão do ser, o amor de todas as formas.

Tem vida pulsando. E talvez seja isso, só isso, isso tudo: a maravilha da vida pulsando, nos escritos, vida derramada nas palavras, polvilhadas nas frases, fermentadas no todo, que façam a andarilha ir e voltar, diversas vezes. E sentir o aroma do ser vivo. O ser de lá, o ser de cá.

Ela segue cada palavrinha poética. Cada emoção derramada. Ela se vê. Se reencontra. Se molha nas chuvas prateadas das lágrimas. Se inunda de um ser cheio de vitalidade. Derrama-se de palavras. E segue sempre viva. Pois aquelas palavras enfeitam a alma dela de flores sempre-viva.


Obs: Imagem enviada pela autora.

SONETO DO TERCEIRO MÊS

(Ou Soneto do Noivado)
Por Tassos Lycurgo
www.lycurgo.org


Escrito em 20 de dezembro de 2000,
para Camila, em comemoração pelo
noivado, no terceiro mês de namoro.



Ninguém senão tu, Camila, sempre me dizes
Que, como sintoma de um carinho profundo,
De ter havemos tu e eu, noivos, neste mundo,
A vida que só têm os veementemente felizes.

Creio-o, pois, com toda a graça das dançatrizes,
Dás-me aqui, em tua casa, o júbilo mais jucundo,
Ao preencheres-me com o sentimento mais rotundo
E ao clareares-me, do abissal amor, suas diretrizes.

E, em função disso, é que tenho vislumbrado,
De todos os conhecimentos, o mais aguçado,
Que diz que são as alvas estrelas deste céu dileto

Sintomas do amor por ti, que em mim há crivado,
E da certeza que felicíssimo será este noivado,
Graças às bênçãos dos pais e do Paracleto.

UMA HISTÓRIA DO AMOR

Dom Edvaldo G. Amaral (*)
(
dedvaldo@salesianosrec.org.br)



Quando vejo um casal na faixa dos 70 com demonstrações mútuas e sinceras de carinho e afeição, lembro uma pequena história de autor desconhecido, que li há algum tempo atrás. Parece-me muito interessante e instrutiva e queria hoje compartilhar com meus leitores.

Numa ilha deserta, estabeleceram-se certa vez o Amor, a Arte, a Sabedoria e a Riqueza. O Amor era o mais pobre de todos, o mais desprotegido, o mais carente. Houve um estranho fenômeno no oceano e o mar começou a inundar a ilha. Era urgente abandoná-la e buscar uma região segura onde se instalarem, mas só havia três barcos na ilha. Logo foram tomados pela Arte, pela Sabedoria e pela Riqueza. O Amor pedia aos três que lhe dessem uma carona para ele poder deixar a ilha.

A Arte respondeu-lhe que isso não era possível, porque o Amor poderia estragar suas preciosidades artísticas, suas pinturas, suas esculturas, suas riquezas históricas.

A Sabedoria disse ao Amor que não poderia levá-lo em seu barco, porque ela necessitava de silêncio, reflexão e muita meditação. E certamente o Amor iria perturbar sua concentração e profundas investigações.

A Riqueza negou um lugar ao Amor, porque seu barco já estava muito carregado de dinheiro, jóias, pedras preciosas e outras preciosidades, e com mais um ocupante, poderia afundar.

O Amor ficou sozinho, triste, abandonado, seja da Arte, como da Sabedoria e da Riqueza, quando apareceu um Velho num barco, que o convidou a ir com ele para outros lugares, onde o Amor fosse aceito.

Então, o Amor perguntou ao Velho: “Quem é o senhor?” e o Velho respondeu: “Eu sou o Tempo!”

Assim, o Amor ficou sabendo que só com o tempo é que se solidifica e se fortalece o verdadeiro amor...

Nas poucas celebrações do santo sacramento do Matrimônio a que presido, como ministro assistente, gosto de citar certa frase de autor desconhecido: “Amar é uma tarefa que não termina nunca”. O tempo amadurece, solidifica e aprofunda as razões do verdadeiro amor. Amor é doação, é entrega mútua e com o tempo, ele se torna mais maduro e aprofundado.

Outro pensamento que gosto de citar e muito simpatizo é : “Amar não é olhar um para o outro, é olhar os dois na mesma direção.” Os caminhos incertos da vida, palmilhados um ao lado do outro, tornam o amor mais sincero, profundo e autêntico e capaz de vencer todas as dificuldades da caminhada em comum.

(*) É arcebispo emérito de Maceió.

TEMPO…

CauReb
(
caureb@gmail.com)


Quanto tempo dura tanto tempo?

Quanto tempo para o tempo passar?
O que é o tempo, e o que esperamos
ao esperar tanto tempo para tudo passar?

O tempo passa, as feridas ficam.
O tempo passa, as mágoas permanecem.
O tempo passa e as lágrimas secam.

Quanto tempo esperei o tempo passar.
Quanto tempo passou até eu notar
que o tempo passa para acabar.

O tempo passou.
A dor permaneceu.
Mas memórias se transformaram...
e a mágoa cedeu.

Que o tempo passe,
e o vento leve.

26/08/09

Obs: Imagem enviada pela autora.

BOM DIA!

Therezinha Paiva


Queridos meus ao ver a beleza do céu e do mar, tudo muito azul e calmo, lembrei de vocês, bateu a saudade, bateu a vontade de estar junto.
Daí, bom dia!
Tanta violência nos noticiários, tanta corrupção em nossa país e Deus a nos enviar tanta beleza.
Bom seria que todos os brasileiros ouvissem Sua voz e buscassem o caminho da retidão, da solidariedade, da sabedoria infinita.


Tenham todos um belo dia!

Um abraço e o meu carinho

NOTURNO DA RUA DAS ÁGUAS VERDES

João Batista Pinto
(
melopintoneto@uol.com.br)



Na Rua das Águas Verdes
Encontrei uma camisa branca
E uma gravata azul
Que o último homem
O desesperado de amores da Rua do Apolo
Deixou cair num gesto de quem foge.


Diário de Natal
05 de março de 1950

AMIZADE

Amanda Barros (*)
mandok_pucca@hotmail.com


* Doce, alegre, amorosa, linda... é assim a amizade; mas quando digo “AMIZADE”, não é só uma simples palavra, é o resumo de algo mágico, único a cada pessoa que a tem...
* Nunca digo “fulaninho”, é meu amigo, só porque o(a) conheço, mas sim, quando compartilho momentos, quando confio segredos, quando consolo e sou consolada, quando aconselho e sou aconselhada, quando preciso e sou ajudada, quando choro e consigo dar risadas...
* Esse alguém sim, posso chamar de amigo, pois amigo é anjo enviado por Deus, presente divino.
* Amigo, está sempre, a qualquer hora, a nossa disposição, sempre nos ajuda quando precisamos, ou não...
* Não existe “VERDADEIRO AMIGO”, pois apenas “AMIGO”, é maior e suficiente, para qualquer palavra que o anteceda.
*Graças a Deus, eu tenho muitos, e muitos “ANJINHOS” comigo, não importa a distância, estão sempre e para sempre no meu coração e nas minhas lembranças!!

(*) Aluna da 7ª série

QUE PAÍS É ESSE?

Edilberto Sena
(
edilrural@gmail.com)



Até onde vai a desonesta imposição da ELETROBRÁS sobre a sociedade sem que surja uma reação explosiva? A subserviência do Ministério das Minas e Energia aos interesses das construtoras e das empresas mineradoras chega ao ponto de seus responsáveis declararem que oleilão para construir a usina de Belo Monte tem que ser feito no dia 21 de dezembro próximo. Para que essa decisão aconteça, eles devem declarar até o próximo sábado o edital do leilão, mesmo que até lá o Ibama não tenha liberado a licença prévia, como manda a lei constitucional.

Como a pressão dos interessados na construção da hidrelétrica de Belo Monte é grande e poderosa, o governo eleito democraticamente joga nolixo as leis e os argumentos dos estudiosos que garantem ser aquela usina de Belo Monte, um desastre social, ambiental e econômico.

Todos os truques e farsas são utilizados pelo governo para impor seu plano de construir a usina. Até os recentes apagões elétricos geram suspeita de que foram intencionais para levar a sociedade a querer novas hidrelétricas na Amazônia. Inclusive, há poucos dias a Eletronorte levou os vereadores de Itaituba com passagem e hospedagem grátis até Foz do Iguaçu, para eles verem a grande usina de Itaipu,porque a Eletronorte precisa o apoio dos políticos para construir outro desastre, que serão as cinco usinas na bacia do rio Tapajós.

Isto é, todos os meios são utilizados pelo Ministério das Minas e Energia para atender os interesses das empreiteiras e o grande negócio. Tudo pelo plano de aceleração do crescimento, o PAC. Só resta aos povos da Amazônia, que compreendem os desastres, unirem forças e partir para o enfrentamento como propõem os índios Kaiapós,no Xingu e os Mundurucus, no Tapajós. Se o demônio se apossou do Ministro também é preciso a sociedade exorcizá-lo de um jeito ou de outro.

E O HOMEM... QUANDO MORRE, MORRE?

Rômulo José
reidromacsc@hotmail.com
www.poematisando.blogspot.com



Detivi-me, há pouco, numa releitura de um texto de Carlos Drummond de Andrade que por sinal, me foi apresentado ainda na antiga casa religiosa. O título já não o sei. Sei somente tratar-se do que aqui me ponho a escrever. Porque isso? Devido a dúvida que de súbito invadiu a minha cabeça: estaria realmente o defunto (aquele da terra do nunca) realmente morto? E para responder a esse meu questionamento, bebi de algumas idéias de Brás Cubas. E cheguei à conclusão de que realmente, o morto, dependendo de quando vivo, depois de morto, ainda vive alguns dias. E falo aqui de todos aqueles defuntos famosos. Astros de funerais grandiosos. Mas na contramão desses defuntos de uma eternidade póstuma de alguns dias, semanas e até mesmo anos, estão os excluídos, marginalizados que até mesmo antes de morrerem; morrem pela vontade alheia. Falo do caso do Carlito Prata, agricultor da colônia Igarapé do Onça.

Esse homem sempre se imaginou livre de todos os pecados e doenças. Era cristão de uma fé inquestionável. Isso porque não dava espaço para os outros lhe questionarem. Era ele e sua bíblia. Sim! Sua bíblia. Mas o caso aqui não é religioso ou conseqüência disso.

No entardecer da vida esse homem descobriu que era muito doente. E com a descoberta da doença todos os males vieram de uma só vez. E lá pelas tantas da vida, o homem caiu. Foi parar direto na UTI.

Na colônia onde residia, não houve reza, nem tão pouco missa. O que houve na verdade foi à concretização máxima de que quando o homem morre, realmente...? Uma vez na UTI, fez-se o preparo para o enterro, pois se imaginou a morte. Assim a cova foi aberta. Esperava-se o cadáver, porém chegou o homem vivinho da silva. Agora posso responder: o homem quando morre, ainda vive alguns dias. Já o pobre, antes mesmo de morrer, morto já está


Obs: Imagem enviada pelo autor.

TEXTO DE LUG COSTA


Queria dizer-te uma outra palavra que não fosse "adeus".
Queria partir na mesma "tua" hora.
Queria proferir um oráculo: "Nossa amizade será eterna".

(Caxias/MA - 29.01.2008 - 17:05h)

ENSINO SOCIAL E PROMOÇÃO HUMANA – PARTE II

Luiz Moura
(
lmoura.pe@uol.com.br)



Entre muitas formas de definir a Nova Evangelização, uma se pode partir das trágicas situações da injustiça e sofrimento da América Latina e Caribe. Assim, Nova Evangelização, neste contexto, assume um caráter próprio; não quer dizer reevangelizar, mas uma resposta aos problemas apresentados pela realidade de um continente, no qual se dá um divórcio entre fé e vida, ao ponto de, produzir clamorosas situações de injustiça, desigualdades sociais e violência. A Nova Evangelização há de ter em conta a urbanização, a pobreza e a marginalização.


Os novos Sinais dos tempos no campo da promoção humana.

No capítulo da promoção humana, há uma introdução que serve de iluminação teológica ao tema, baseado no Novo Testamento, na Gaudium et Spes, Puebla e em algumas encíclicas dos últimos papas: Evangelii Nuntiandi e Populorum Progressio (Paulo VI), Sollicitudo Rei Socialis e Centesimus Annus (João Paulo II). Logo a seguir, o documento trata dos novos sinais dos tempos. Eis os temas tratados, no que se constitui o conteúdo central deste capítulo: direitos humanos, ecologia, terra, empobrecimento e solidariedade, trabalho, mobilidade humana, ordem democrática, nova ordem econômica e integração latino-americana.

Direitos Humanos

Traz muito pouca novidade em relação ao documento de Puebla. Denuncia o terrorismo, a repressão, os assassinatos, as condições de extrema pobreza e as estruturas econômicas injustas, fontes de grandes desigualdades. Denuncia, também, de maneira especial, as violências contra os direitos das crianças, da mulher, dos camponeses, indígenas e afro-americanos e o comércio do narcotráfico.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O HEDIONDO COMÉRCIO DAS DROGAS

Maria Lioza de Araújo Correia



Ao vermos, diariamente, a guerra urbana travada nas grandes cidades brasileiras pelo tráfico de drogas, não podemos nos omitir diante de uma questão real, para a qual a sociedade não quer atentar e as autoridades não a querem aprofundar, preferindo o temerário caminho da complacência que exclui o usuário de drogas da responsabilidade, juntamente com o traficante, pela mazelas sociais impingidas pelo tráfico e seus parceiros, os usuários, os quais de forma consciente, ou inconsciente são os destinatários desse hediondo comércio.

Destarte, não é necessário um grande esforço mental para se chegar a essa trágica conclusão: Só existe a droga porque existe o consumidor. É a lógica elementar e perversa desse comércio abominável e destruidor de vidas, de comunidades e da paz social. Assim, diante dessa insofismável evidência, torna-se incompreensível a dificuldade demonstrada pela sociedade e pelos orgãos públicos em admitir esta realidade e em aceitá-la, como ponto de partida para o trabalho de prevenção mas, também de repressão, abrangendo os consumidores, mediante campanhas educativas, enquadramento legal e co-responsabilidade penal pelo consumo de mercadoria proibida e por favorecer a realização de comércio ilícito, gerador do que se caracteriza como crime hediondo, com todas as dolorosas repercussões sociais e econômicas para a sociedade e para o país.

Nesse sentido, torna-se preocupante a constatação de que os próprios moradores das áreas onde se instala o comércio varejista das drogas pesadas, também demonstram uma certa conivência com o tráfico, haja vista que, durante os frequentes e violentos confontos entre traficantes e policiais especializados no combate ao tráfico de drogas, a população das áreas atingidas deixa transparecer que as balas certeiras ou perdidas, partem sempre dos policiais e não dos traficantes, responsabilizando o aparato policial pesado e necessário ao enfrentamento do tráfico de drogas, como principal causador da violência, e não os próprios tráficantes, possuidores de um arsenal bélico que tem contribuído para manter o estado de guerrilha urbana nas grandes cidades brasileiras.

Soma-se a isso, a precariedade do sistema carcerário que não consegue coibir, a corrupção de agentes públicos, responsáveis pela segurança dos presídios. Assim, agindo à custa de gordas propinas e suborno, esses agentes facilitam a entrada de celulares, armas e drogas para o interior das penitenciárias, proporcionando aos traficantes presos, comandarem as rebeliões internas e as violentas ações externas, ordenadas de dentro das prisões e executadas pelas quadrilhas a serviço do tráfico. Daí, resultam roubos, assaltos a bancos e até a quartéis do exército, sequestros e extermínio de pessoas, entre outros crimes. Tudo sob intensa violência, a fim de garantir o nefasto comércio, controlado pelas diversas facções que comandam o tráfico de drogas no Brasil.

Ademais, é sabido que, atualmente, o tráfico de drogas tornou-se uma organização internacional, possuindo muitos cartéis espalhados por quase todos os países capitalistas ocidentais, tendo como depositários dos bilhões originários da atividade criminosa, grandes bancos europeus, de onde retornam depois de transformados os depósitos sujos em finanças limpas, preservadas no sistema capitalista. Trata-se de uma intrincada e sofisticada rede de âmbito internacional, cujas ramificações se entrelaçam com o comércio ilegal de armas, o qual alimenta o terrorismo de esquerda e de direita; com o comércio de seres e de órgãos humanos; com a prostituição infantil e a pedofilia. Enfim, com todas as atividades criminosas que contaminam as estruturas sociais e econômicas e destroem a vida e a paz. Sem exagero, o tráfico de drogas pode ser comparado à bestafera, figura maligna do Apocalipse, popularmete interpretada como a encarnação do mal.

Aliás, o próprio Presidente Lula, reconhece publicamente o problema social, político e econômico, provocado pelo tráfico de drogas no Brasil, bem como a dificuldade na erradicação dos focos de conflito e no enfrentamento aos traficantes e às suas bases de comércio e de disseminação das drogas pesadas, principalmente entre os jovens. Entretanto, há que se encontrar uma forma eficaz de combater o tráfico de drogas, pois a população, em geral e, especialmente, as diretamente atingidas pelos horrores dos confrontos não podem viver sob o fogo cruzado das balas certeiras e perdidas. O Estado a quem compete a responsabilidade pela segurança da população, não pode se omitir, perante as dificuldades de assegurá-la a todos.

Daí porque, sem minimizar o valor e a necessidade da prevenção educativa como luta contra o tráfico, há que se travar, também uma luta cujos resultados possam ser imediatos, a fim de preservar agora, no dia a dia, a vida das pessoas, visto que, o trabalho educativo de prevenção contra as drogas é dirigido especialmente às novas gerações e se for eficaz, poderá atingir a raíz do problema, mas não evita a morte e o desespero que acontecem agora, no presente, por causa do famigerado tráfico de drogas.

Assim, sem pretender apontar uma solução salvadora da pátria, acho que os governantes, juristas, sociólogos, médicos, religiosos, psicólogos, educadores e os representantes da sociedade em geral deveriam analisar o problema das drogas sem preconceito, com base na premissa real de que o usuário de drogas é co-responsável pelo tráfico e indiretamente, por todos os males decorrentes de sua participação pessoal no comércio hediondo das drogas.

Para isso caberia a todos aqueles segmentos procurar um caminho viável e menos conflituoso para a solução deste imenso problema, e ao admití-lo como problema social, assim enfrentá-lo, submetendo-o a uma formulação jurídica específica que fundamente a tese do enquadramento e da co-responsabilidade do usuário, juntamente com o traficante, no tráfico de drogas e as consequentes implicações penais daí advindas, na proporção devida a cada um.

FUTEBOL


José de Alencar Godinho Guimarães (*)
jfidelvitoralencar@hotmail.com



Olhares oscilantes,
Fascinantes,
Flexíveis,
Passeio de cores
No palco único
Cheio de magia
E maestria ímpar,
Mentes habilidosas
E pernas dançantes
Nesse balé genial,
Onde sempre tem alguém desleal
Que bate,
Força tamanha
Pela vontade de vencer,
Gritos de dor e alegria
Com acrobatas elásticos,
Fotografados e filmados
Como registro heróico
Da partida.
Sem ela não há espetáculo,
E ela pula,
Agita-se,
Voa,
Desloca-se facilmente
Entre os pés valiosos
Que a colocam junto às redes
Para dormir famosa
Balançando a multidão
Eufórica,
Numa explosão única
De alegria do gol.



(*) Professor da Rede Pública Municipal de Santarém
Graduado Pleno em Pedagogia pela UFPA

AURORA DA RUA

Sebastião Heber



Há um jornal que é fruto do contato com as pessoas que moram na rua. Ele é um sinal de progresso e libertação e se chama “Aurora de Rua – o jornal que nasce da rua”. Encontramos seus vendedores nas portas das igrejas, eles que são remanescentes das ruas e agora , libertos das conseqüências daquele estado de vida, são veículos de libertação através desse pequeno jornal.

O Editorial do último número – outubro e novembro - lembra que o Censo Nacional dos Moradores de Rua, realizado pelo governo federal em 2008, comprova uma triste e perversa realidade: a causa primeira que leva as pessoas às ruas é a dependência química e o alcoolismo.

Esse tema foi tratado no número atual – outubro e novembro - e por sugestão dos próprios vendedores, pois muitos deles vieram dessa dura realidade, e outros ainda lutam contra ela.

Alem de ter uma equipe que dá suporte a esse jornal, integra essa equipe o conhecido Irmão Henrique, que notabilizou-se por esse apostolado singular, isto é, viver no meio dos mendigos e pessoas de rua.

Há um artigo intitulado “Nós, dependentes químicos, somos pássaros de uma asa só”. É uma entrevista com Marcos Antonio que abriu uma Casa em Tucano, denominada de Associação de Reinserção do Indivíduo Ébrio à Sociedade (Áries). Ele é ex-alcoólatra. Nessa entrevista ele conta histórias singulares de recuperação provindas de uma vida simples, dotada de espiritualidade e partilhas.À pergunta ”O que levou você a abrir uma Casa de Recuperação?”, ele responde :”Nós dependentes de álcool, somos pássaros de uma asa só. Precisamos encostar um no outro para poder voar. Quando ajudo alguém também estou sendo ajudado, porque me vejo naquele bêbado jogado na rua”. E mostra que esse trabalho começou a partir do interesse de lutar contra essa doença, para atender aqueles que não têm condições financeiras, mas que têm o desejo de alcançar a sobriedade. E a mensagem final dele é de estímulo e perseverança para os que ainda não alcançaram a sobriedade:”Que não desista. Tente várias vezes. Mesmo que você caia, tente levantar. Procure ajuda, reuniões de Alcoólicos Anônimos, algum centro de recuperação, só não se entregue”.

Uma outra matéria de destaque intitula-se “Uma doença que não é anônima”- é um texto coletivo, isto, foram ouvidos várias pessoas envolvidas com esse problema. Trata-se da dependência química e que é uma das principais razões que leva as pessoas às ruas e um dos motivos para a dificuldade de ressocialização dessa população. Encontrar moradores de rua entorpecidos pelas drogas e deitados pelas calçadas, já faz parte do cenário cotidiano. São pessoas marcadas por um estigma que dificulta a aproximação. Julgados pela dependência química, eles têm sua imagem associada à figura de vagabundo, de perigoso e de coitado. “Bebemos para aliviar a fome e as dores da alma”.O perfil desses usuários que moram nas ruas difere daqueles que possuem o apoio da família. “Drogar-se é sempre uma forma de estar aprisionado, só que as nossas correntes são as da exclusão. Em casa eu tenho o apoio dos parentes e amigos.E nas ruas, eu procuro quem?”

O jornal também oferece vários direcionamentos para o tratamento do alcoolismo e das drogas. Há em Salvador um grupo, intitulado de Despertar, que é direcionado para a população de rua e que tem como único requisito o desejo de parar de beber (Erro! A referência de hiperlink não é válida. um outro que se chama Milagres (
www.na.org.br) e que trabalha para manter os laços entre os adictos para que possam encontrar esperança e recuperação. Há também a indicação da Fazenda Esperança ( www.fazenda.org.br)para os dependentes químicos. Lá eles encontram a recuperação a partir de três pilares: espiritualidade,convivência e trabalho.Ler o Evangelho torna-se uma prática diária dos recuperantes que, todos os dias, recebem a mesma missão: escolher uma Palavra e concretizá-la. E como todos sabem que no coração de irmã Dulce há lugar para todos, lá, nas suas Obras, há o CATA, Centro de Acolhimento e Tratamento de Alcoolistas.

No artigo de Irmão Henrique, na Coluna “Deus na Rua”, ele lembra que “Deus espera... espera porque confia... que sempre a hora pode chegar, que enquanto uma porta permanece aberta nenhum caminho é totalmente fechado”.



Sebastião Heber. Professor Adjunto de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu, Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris.

DAREMOS AS MÃOS




Rivkah Cohen
www.rivkah.com.br
rivkah@rivkah.com.br



Quem sou eu,
quem é você,
se vejo
a mesma pressa nas mãos;
Que diferença pode ter
se você precisa de mim
e eu sozinha,
não pode ser;
Quem está na luz,
se a escuridão
é só da nossa agonia?
Minha alma,
pela sua,
eu trocaria
Minha vida, lhe daria
e você,
eu sei,
o mesmo faria!
Nessa contração,
nos debatemos,
até o dia,
que o sol terá explosão de poesia
e nós, enfim,
DAREMOS AS MÃOS!



Obs: Imagem da autora.

IANA

por Vladimir Souza Carvalho (*)


Peregrino pelo Cemitério das Almas, de Itabaiana, em direção a sua sepultura, onde o seu retrato colorido, a refletir o rosto feliz da festa dos quinze anos – em que foi princesa, por uma noite – fixa os parâmetros da inevitável diferença entre a vida e a morte. Levo flores para marcar a passagem do trigésimo ano do seu nascimento. Helder me acompanha, silenciosos estamos, numa visita que se repete, sempre que possível, ao longo dos anos, a assinalar que seu desaparecimento foi apenas um fato físico, de lamentável ocorrência, como lastimoso foi tudo aquilo que contribuiu para a sua morte. Deletamos na mente os seus últimos meses, quando a queda se tornava maior e mais acelerada a proximidade do evento final e fatal. É confortante vê-la crescer, no período anterior ao pesadelo que, de repente, numa manhã de sábado, se abriu a sua frente, para, sem lhe dar trégua, depois de muita judiação, fechar seus olhos e tapar sua boca, o coração sendo o último que resistiu até deixar cair no chão a bandeira do que restava de vida.


Ah, Iana, quase dez anos depois daquele domingo de céu azul, que você não viu, e de sol forte, que você não sentiu, as fendas não conseguiram se fechar, e, aqui e ali, inopinadamente, alguma coisa brota no ar para lhe lembrar, não só a Iana, nos seus dias risonhos e anteriores, mas a sua ausência, que cada dia se torna mais eterna, misturada a uma saudade que, mesmo suavizada pelos dias idos, passados e vividos, machuca, na fixação da fraqueza do corpo humano, sujeito às turbulências das correntes e dos venenos, incapaz, muitas vezes, de resistir a vírus maléficos que se tornam maiores que a essência da vida.

Quanta coisa para lhe dizer temos, as mãos se equilibrando no seu túmulo, a visão presa ao seu retrato e ao riso que dele brota, em parelho com a luminosidade de seus olhos, mas calados estamos e silenciosos ficamos, como se estivéssemos ante a um altar sumamente sagrado, no qual nada se precisa falar, porque é o silêncio o reflexo da frustração que nos atinge e nos faz menores do que já somos. Ou, como se fizéssemos silêncio para não lhe acordar desse sono que, em abril próximo, completa dez anos, sono que se prolonga no tempo, porque assim estava escrito e assim será, vivos nascendo e caminhando em direção a morte, única realidade concreta, que a ninguém é dado o privilégio de evitá-la, morte que, mais cedo ou mais tarde, iguala a todos no abafado espaço de um túmulo.

O tempo, infelizmente, não apagou a luta incessante de revelações médicas que nos chocaram, de ressonâncias e tomografias que se seguiram, de consultórios e de médicos em diversas especialidades, de hospitais e de cirurgias, de esperanças que se tornaram mortas e de pesadelos que tomaram o lugar da tranquilidade coeva, na luta incessante para debelar o mal que crescia, abafando a verdade para que não chegasse ao seu conhecer, a fim de evitar que o peso de tudo, que era volumoso, caísse compacto sobre seus ombros de criança.

Hoje, na passagem do seu trigésimo aniversário de nascimento, na lembrança do difícil e longo trabalho de parto daquele 7 de novembro de 1979, na Maternidade São José, em Itabaiana, repassando na balança dos tempos o lado bom de sua trajetória, sobressai, como o passado que não quer ser sepultado, a fragilidade de quem já nasceu marcada para um destino trágico, lutando contra um inimigo que desconheceu até o último momento, sem saber aquilatar a monstruosidade algoz do que lhe acometia, saindo da vida para poder derrotar o que derrotado lhe tinha, despojando-se dos tubos e da UTI, para, livre dos aparelhos que lhe amordaçavam a boca, poder sair de uma esfera para outra, a fim de se tornar mais um anjo do Senhor, purificada de qualquer pecado pela bandeira do sofrimento que esbaldou durante mais de dez dos seus vinte anos.

Saudade é pouco, Iana, o termo é insuficiente para concentrar tudo que, na cabeça dos que ficaram, restou. Saudade se faz de sete letras e a que ficou de você se escreve com todas os alfabetos conhecidos e desconhecidos, de letras e de símbolos, por misturar esperanças mortas a perdas reiteradas e a sonhos desfeitos, numa salada ponteaguda e tenebrosa, que tivemos de engolir para poder conduzi-la a última morada, onde descansa e há de descansar sempre, liberta da dor e da invalidez, a dispensar as pernas e a participação dos braços, porque no céu os anjos voam.

Hoje, Iana, você é um ponto de saudade, maior do que podia imaginar. É uma rua, ainda sem placa, mas se enchendo de casas, onde, em breve, crianças correrão por suas calçadas, rua que se encherá de árvores para que, em seus galhos, os pássaros possam pular e cantar, rua que há de aparecer no endereço consignado nas cartas e nos catálogos telefônicos, nos telefonemas para os programas de rádio, rua que enfrentará o futuro na busca de calçamento, tudo na terra que serviu de palco para o seu nascimento, abrindo, depois, compulsoriamente, espaço em suas entranhas para abrigar o que do seu corpo restou, porque outra função não lhe restava fazer, senão a de proteger, no abraço do túmulo, para toda a eternidade, a jovem filha de vinte anos que sucumbia aos golpes da morte prematura.

Repito, aqui, Iana, o poema que fiz quando seu corpo já não tinha vida, que inseri no santinho distribuído nas missas de sétimo dia pela sua alma: Quando a noite, com o farrapo preto/ vedou seus olhos, / você já não viu/ a grande fogueira apagada/ que em nós se diluía,/ nem percebeu o quanto segurávamos o tempo/ para o que amanhã não surgisse. / Em seus vinte anos, / você era uma pena frágil,/ que o vento perverso carregava,/ enquanto nós,/ inúteis e impotentes/, a tudo assistíamos,/ com a rosa de esperança/ esfarelada no peito.


(*) vladimirsc@trf5.jus.br

TEXTO DE WALTER CABRAL DE MOURA

(wacmoura@nlink.com.br)


Lembro bem quando era mais jovem
e usava cabelos compridos como os índios
e sentava no chão, pernas em anel
ao modo de um chefe Touro Sentado.

Abria as veias para que delas
escorresse poesia:
“homem branco, mente branca
pinta de preto o que lhe parece colorido”.

Agora, é preciso ser objetivo e prático
e minha vida tem a cara pálida
e fecho meu coração para que dele
não corra sangue
e nada em mim, exceto um olhar triste
lembra um cheyenne ou um xavante.

FORTALEZA


Malu Nogueira



Um cabo de aço, forte e comprido
Lançou-se sob um poste, para derrubá-lo.
Quebrar suas defesas, infiltrar-se e enferrujar sua estrutura
Uma teia de aranha, que o protegia barrou sua investida
O aço achando-se mais resistente, continuou a insistir
Deu uma laçada na base do poste
Arremessou-o para a direita, para a esquerda e, nada,
Nem oscilar, o protegido poste sequer oscilou.
Pasmo de admiração, frente a ousadia da teia,
Sem temor, sem arrogância, desbancou-o.
Respaldada na confiança e no poder de sua fina linha,
Minuciosamente tecida
Feita de sua própria carne
Fruto do seu amor.
O aço, que aparentava força,
Parou suas investidas
E se prostou sob si mesmo,
Vazio de emoções.
Decepcionado por ter sido pretensioso
E massacrado a quem, delicadamente, mantinha-se à distância,
Com uma presença fina e translúcida,
Diferente dele, aço, que machucava quando queria,
Entre sua grossura e a magnificência da teia de aranha,
Concluiu que não devia sobreestimar ninguém
O respeito ao desconhecido prevaleceria sob a capa de rendição
Em quem aparentava ser mais jovem e viçoso,
Porém não detinha experiência, nem determinação na consecução de seus objetivos.
Como a teia que cobre, resiste e não se corrompe.

O PORTA- CHAPÉUS

Djanira Silva
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



Lembro dele instalado perto da porta da sala: formal, de madeira escura, com cabides de prata, espelho de cristal, onde as pessoas se conferiam quando entravam.
Fui uma criança mal informada. Nunca me diziam nada. Mas ele, o porta-chapéus, dava-me informações muito importantes. Avisava da presença de certas presenças e, assim prevenida, eu me preparava para enfrentá-las.
Ao voltar da escola, ele avisava: o pai está em casa. O chapéu Ramenzoni cinza, abas largas, com uma discreta faixa escura, era a presença do medo, medo que acordava a minha falsidade deixando-me bem comportada, fingida, para iludir o pai.
À tardinha, ao voltar do catecismo, notícia boa: "O tio chegou". O chapéu-coco se equilibrava na alça de baixo, no lugar de sempre e meu tio, sentado no sofá me esperava. Era a presença da minha verdade, da minha alegria. Então eu me tornava eu, sem máscara, sem medo do chapéu Ramenzoni.
O que mais me agradava, na presença do chapéu coco, era a bengala que o acompanhava. Tinha cara de lobo, dentes afiados que não me assustavam, era a companheira do tio. Com ela eu brincava de cavalinho, dava pancadas nas costas do gato preto que vivia enroscado embaixo do porta-chapéus e que protestava dando miados histéricos. Eu penso que ele achava era bom, pois todo o dia estava lá.
O espelho me fascinava. Além do rosto das pessoas, refletia o sol e iluminava a sala. Muito pequena, eu não podia me ver como os outros faziam. Meu tio me ajudava, colocava-me nos braços e eu sorria triunfante com o sorriso furado dos meus sete anos.
Um dia, ao voltar da escola, vi pendurado em um dos ganchos o chapéu de palhinha branca, com detalhes pretos, que só aparecia em dias muito ruins: quando tive sarampo, quando minha irmã morreu, quando a avó quebrou a perna.
Sobre o sofá a bengala e o chapéu-coco.
A partir daquele dia, fiquei de mal com o porta-chapéus. Agora, só me dava notícias do chapéu Ramenzoni.


Obs: Texto retirado do livro da autora – O Olho do Girassol -

TEXTO DE PAULA BARROS

www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)


Chega um momento na vida

Que olhando para mim
E me ouvindo
Pude perceber o que não quero no meu caminho
Nem do meu lado de fora
Muito menos do lado de dentro

Chega um momento na vida

Que não dá para ficar me repetindo
Dando voltas em volta do nada
Escutando o silêncio
Dos mudo de alma

Chega um momento da vida

Que fui me desviando de alguns obstáculos
Pulando as pedras pontiagudas do caminho
Abrindo os braços para os abraços
Decidindo viver novos espetáculos

Chega um momento na vida

Que decidi fazer diferente
Seguir um novo caminho
Aceitar os bons naturalmente
Fui trilhando uma nova estrada
Com passos inversos dos quais caminhava
Decidi fazer versos de mim

Chega um momento na vida

Que decidi sorrir para os sorrisos
Oferecer minhas mãos para as mãos do aconchego
Viver belos momentos na vida
Ter boas lembranças para lembrar
Emocionantes histórias para contar
Caminhar juntinho .....de mim....do amor



Obs: Imagem enviada pela autora.

UM TEMPO PARA SONHAR…



Célia Cavalcanti
(
cglcavalcanti@terra.com.br)



É impossível viver sem sonhar... Que seria do homem sem um sonho, sem um ideal? Mesmo em meio aos pesadelos que a vida nos monta, quase armadilhas que nos prendem e nos deixam enredados, podemos e devemos salvaguardar o nosso sonho... Não só, mas com toda garra ir à luta para realizá-lo.Não importa se aos olhos do outro ele seja pequenino ou inútil...


Não importa se nos parecer quase impossível realizá-lo... É preciso manter em foco a certeza que um dia o alcançaremos!

Com os pés fincados no chão, sonhemos! Olhemos adiante! Não paremos diante dos obstáculos, pelo contrário, que esses sejam a mola que nos impulsione... Não percamos tempo...


Obs: Imagem da autora.

UNIÃO E CONSCIÊNCIA DA NEGRITUDE

Marcelo Barros(*)
(
irmarcelobarros@uol.com.br)


Depois da Nigéria, o Brasil é o país que tem a mais numerosa população afro-descendente do mundo. É mais negro do que muitos países africanos. Entretanto, apesar da população do Quênia ser quase exclusivamente negra, as propagandas e publicidades de celular e de shoppings apresentam nas ruas e praças de Nairóbi, garotas branquíssimas, louras e de olhos azuis. No Brasil, também a população afro-descendente chega a ser quase 60% dos brasileiros, mas continua tendo menos acesso do que os brancos às universidades, aos trabalhos liberais e à plena participação na cidadania social. Basta lembrar que, nos últimos 30 anos, o Brasil registrou mais de dois milhões e meio de mortes por causas externas, sendo que 82% eram homens e destes mais de 60% negros ou afro-descendentes. Dados da ONU mostram que, na Bahia, onde mais de 80% da população é negra, são assassinados 21 jovens negros entre 15 e 18 anos para cada assassinato de um rapaz branco da mesma faixa etária.

Por tudo isso, são importantes as medidas para integrar e dar igual direito de cidadania social e política aos afro-descendentes. Entre elas, é importante a iniciativa de recordar que, no dia 20 de novembro de 1695, o exército colonial e os senhores de engenho da cana de açúcar de Pernambuco massacraram a comunidade do quilombo dos Palmares e assassinaram Zumbi, líder do quilombo. Há duas décadas, várias cidades brasileiras consagram o 20 de novembro como feriado municipal e todo o país celebra o dia consagrado à união e consciência negra. Toda esta semana é coroada com eventos sobre a imensa contribuição das raças negras na história e na construção das culturas formadoras do Brasil de hoje. Embora em nosso país, toda expressão de racismo seja considerada crime grave e imprescritível, ainda há muito por fazer para retirar da memória cultural dos brasileiros o preconceito e a discriminação racial, heranças da escravidão, abolida oficialmente, mas, na prática, mantida em relações de trabalho injustas e em uma estratificação social rígida e impiedosa.

O atual governo federal inovou ao criar a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República. Desde 2003, o Programa Brasil Quilombola (decreto 4.887/03) monitora e estimula, por meio de articulações setoriais e interinstitucionais, as ações governamentais para o desenvolvimento sustentável das comunidades remanescentes de Quilombos, assim como de outros segmentos minoritários da população ou comunidades tradicionais e de cultura originária. A Constituição de 1988 garantia o direito das comunidades negras e remanescentes de quilombos à posse de suas terras ancestrais e à manutenção de sua cultura própria. Entretanto, ainda faltam leis complementares para por em prática à Constituição e esta, quando não favorece à elite, é facilmente esquecida.

Hoje, no Brasil, conforme os cálculos do governo, existem cerca de 2.842 comunidades quilombolas. São verdadeiras repúblicas de homens e mulheres livres, formadas por descendentes de escravos fugidos do cativeiro e de alguns índios e brancos que decidiram viver solidariamente com eles. Estes quilombos espalham-se por quase todos os estados do país e são símbolos da resistência dos pequenos. Servem de modelos como comunidades verdadeiramente solidárias.

Em 2003, uma destas comunidades, no município de Itapecuru-mirim, no Maranhão, recebeu, pela primeira vez, a visita de uma representante do governo federal, a então ministra Matilde Ribeiro, chefe da Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial. No encontro dela com a comunidade, uma senhora negra pediu desculpas por não saber ler, nem falar em público, mas expressou sua alegria em ver uma mulher como ela e da mesma raça, ser ministra de Estado. Depois, teve coragem de pedir: “Ministra, por favor, fale para o Presidente da República que, aqui não tem luz, não tem água, nem casa decente para a gente morar. Fale para ele que a vida aqui é muito difícil e nós queremos ser donos das nossas terras. Fale que os nossos filhos não têm onde estudar e eu quero que meus filhos jovens continuem aqui, porque, aqui, eles têm segurança. Se eles forem para a cidade grande, vão perder o que aprenderam de bom aqui. A senhora vai falar para ele, não vai?” (publicação do programa Brasil Quilombola, Brasília, 2005, p. 4).

Este retrato falado de tantas comunidades e grupos tradicionais precisa ser transformado. Todos os brasileiros temos responsabilidade social, junto com o governo, de trabalharmos por um país mais igualitário e justo. A manutenção das religiões ancestrais e de expressões culturais negras, mantidas vivas de geração em geração, têm sido instrumentos importantes para a unidade dessas comunidades e para garantir uma mais profunda consciência da dignidade dos seus membros.

Para os cristãos, um valor central que a Bíblia aponta é a consciência da cidadania de todos os seres humanos, como filhos e filhas de Deus e cidadãos do seu reino. Esta revelação divina pode ser encontrada, como valor intuído e praticado nas comunidades afro-descendentes. É um valor necessário a toda sociedade brasileira. Que este aniversário do martírio do Zumbi confirme e reavive em todos nós este caminho de comunhão e partilha!


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.

VISITA AD LIMINA

D.Demétrio Valentini (*)


Neste ano os bispos do Brasil têm um encontro marcado com o Papa, em Roma. Novembro é a vez dos bispos do Estado de São Paulo, que dentro da estrutura da CNBB, forma o “Regional Sul l”. Existem ao todo dezessete “regionais”, agrupando os bispos por proximidade geográfica, de acordo com o mapa do Brasil.

Quando se trata de tradições já sedimentadas, sempre convém buscar a inspiração inicial, que deu forma a determinado costume. Como este, por exemplo, de cada cinco anos, todo bispo, de qualquer parte do mundo, ter oportunidade de um encontro pessoal com o Papa, nem que seja de poucos minutos. Qual a razão que inspira esta tradição?

E´ fácil identificar logo uma porção de motivos. Quem sabe o mais importante de todos foi expresso com muita clareza pelo Concílio Vaticano II, quando identificou a estrutura colegiada do governo da Igreja, lembrando que Cristo a confiou coletivamente ao grupo dos doze apóstolos, que hoje têm sua continuidade nos bispos que são os seus sucessores. De tal modo que a responsabilidade pela Igreja é confiada aos bispos, que nesta missão são presididos pelo Papa, que na verdade é o Bispo de Roma, e como tal, incumbido de presidir a comunhão de todos os bispos e da Igreja toda.

Pois bem, se cada bispo participa da responsabilidade pela Igreja inteira, é mais do que conveniente que periodicamente se encontre com o bispo de Roma, que vive cotidianamente o que São Paulo expressou como “a solicitude por todas as Igrejas”.

Neste sentido, os dias passados em Roma, reunidos nos respectivos “regionais”, se constituem em momentos muito intensos de partilha mútua, primeiro entre si próprios, depois também com o Papa, a respeito da missão cotidiana do pastoreio do rebanho, em tempos de tantas transformações culturais e religiosas que estão atingindo profundamente a Igreja em nosso tempo.

Quando o vento sopra nos galhos das árvores, pode ser que notemos mais claramente o seu balançar, e nos perguntemos pela robustez de cada ramo. Mas na verdade o que está em jogo, em momentos assim, é a solidez do tronco, e a consistência das raízes.

Também na chamada “visita ad limina”, que periodicamente os bispos fazem ao Papa cada cinco anos, pode-se ouvir e comentar bastante o farfalhar do vento mexendo com as folhas e os galhos, e fazendo pressentir alguma tempestade, ou anunciando bonança. Mas o mais importante, para segurança de todos, também de Pedro, o timoneiro da barca da Igreja, é conferir a solidez do fundamento, e ver em que medida estamos construindo sobre ele.

A este respeito, são providenciais as advertências de Paulo aos coríntios, quando lembro que “ninguém pode colocar outro fundamento diferente daquele que já foi colocado: Jesus Cristo” (1 Cor 3, 11). Em seguida ele prossegue recomendando que cada um veja como está construindo sobre este fundamento. Se a construção se assenta sobre o fundamento, o edifício pode tomar fachadas bem diferentes, contanto que todas elas repousem sua solidez no fundamento que serve de base para todo o projeto de Igreja que se possa desenvolver.

Se há uma característica no clima vivido pelos bispos por ocasião da “visita ad limina”, com certeza sobressai a preocupação de conferir a solidez de nossa caminhada eclesial, confrontado-a com Pedro e Paulo, e tantos outros mártires que em Roma deram o testemunho de sua fé em Cristo.