Vladimir Souza Carvalho (*)
A molecada, digo, a estudantada se dispersava, em grupos, no galpão de entrada do ginásio, aproveitando o horário vazio. De repente, alguém via o preto da batina do padre despontar lá longe, dobrando a esquina. Todo mundo corria de volta a sua classe. Quem era doido ficar para enfrentá-lo? A fisionomia fechada parecia uma máscara que assumia para firmar autoridade. No cinema, a mesma coisa. Seu desfilar de batina, substituída depois pelo terno escuro, de um lado e de outro, para lá e para cá, como uma sombra silenciosa, enquanto o filme era passado, todo mundo calado, que cinema era lugar de ver filme, não se admitindo uma piada ou um grito. Ninguém nunca ousou desafiá-lo, nem a gente do PSD, nem a da UDN. Nunca vi tanta autoridade em uma só pessoa!
Um dia, a biblioteca fechada, porque Valnery (ou seria Volnery?) arranjou colocação no Banco da Bahia, fui a sua casa. E a biblioteca, quando abre, perguntei. Talvez o padre já estivesse a me esperar. Respondeu que abriria naquele mesmo dia. Ótimo, pensei. E movimentei outra pergunta: e quem vai abrir? Ouvi uma frase que deu início a minha saga de responsabilidade na vida: você. Ou seja, eu. A partir daquele momento, idos de 1964 ou 1965, eu me tornava o responsável pela chave da Biblioteca Pública Dom José Tomaz, da Paróquia de Santo Antonio e Almas, de Itabaiana. Recebi a chave. Depois exigi máquina de datilografia para fazer as fichas de muitos livros. Gastei meia hora para datilografar o título do romance A Cidadela, de Antoine de Saint Exupéry. Não esqueci.
A biblioteca me aproximou mais do padre, que, de quando em quando, por lá aparecia. E da biblioteca o principal leitor era eu mesmo, devorando tudo que podia. E dentro dessas leituras, botei na cabeça que o ginásio deveria ter uma matéria de ensino (tomara que acreditem em minha palavra) de iniciação sexual. Fui levar a sugestão ao padre, com toda a solenidade que o pedido exigia. O padre me ouviu, numa educação danada. Depois, como resposta, escalou a Irmã Escolástica, uma alemã de quase oitenta anos de idade e uns cinquenta no Brasil, com o português engasgado, dar aulas de ... religião, lendo e interpretando a Bíblia, versículo por versículo. A turma quase que me bate.
Padre Artur Moura Pereira foi o vigário de minha infância. Cresci vendo-o de batina nas ruas de Itabaiana, silenciosamente, sem alarde e propaganda, plantando raízes, muitas que não foram adiante, outras que verdejaram e sobrevivem, ainda hoje, graças aos bons deuses. Bastaria a sua presença na criação da Maternidade São José e do Educandário Dom Bosco para preencher os dez anos e pouco que passou por Itabaiana. Mas, a esse rol se acrescenta o Cine Santo Antonio, ah, de saudosa memória, o cinema do padre, como a gente dizia, que, durante anos e anos, suplantou em programação o Cinema Popular, de Zeca Mesquita, ou seja, o cinema de Zeca, já sem o romantismo da década anterior. O Educandário Cônego Vicente [Francisco] de Jesus era escola de respeito, mantida pela paróquia. A biblioteca funcionou em todo o seu paroquiato, com sede digna do estoque de livro. O Serviço de Auto-falante São Luiz dava ares de sua graça. Filiou-se a uma considerável gama de obras, entre as quais, a construção de muitas casas para a população pobre, com dinheiro que vinha de paróquias estrangeiras. Eu mesmo, a pedido dele, datilografei legendas no verso de muitas fotos de casas, que ele enviava como prova da aplicação dos recursos. Até um time de futebol de salão, o GEC, formado por estudantes do ginásio, tinha seu patrocínio.
Foi mais do que um simples vigário de Itabaiana. A prova está na visita que a caravana de Seixas Dorea, na campanha para o Governo do Estado, em 1962, lhe fez. Seixas, pequeno, sentado na cadeira do bispo, os pés quase sem tocar no chão. Da janela, curioso, testemunhei a visita. Não era o padre que ia de encontro à caravana pessedista. Era esta que abria um espaço para escalar a montanha a fim de ver Maomé. Fundamental cumprimentar o padre, que, nas missas e nos sermões, se mantinha afastado da campanha política.
O governo de Seixas foi buscá-lo em meio as suas tarefas de cura para ser o diretor do ginásio, numa época difícil, onde até o giz deixou de existir. Época de poucos ou raros educadores, ninguém, naquele momento, na província itabaianense, em condições culturais e morais, iguais as dele, para assumir a direção do ginásio, afinal, ponto central da vida cultural de Itabaiana. Aceitou o encargo, ofereceu a sua colaboração, imprimindo à direção a força de sua autoridade, trafegando em meio aos estudantes de todas as idades com a cabeça erguida.
Talvez tenha sido o único sacerdote da história de Itabaiana que não precisava de nome para ser referido. Era o padre, apenas. O cinema do padre, já fiz menção. No campo do apelido, deixou sua marca. Um rapaz de Itaporanga, que levou para Itabaiana, a ganhar o apelido de Pelé, para diferenciar do outro, o do Santos, passou a ser conhecido como Pelé do padre. Há outro que nunca descobri a origem, nem tampouco sei quem é o apelidado: Cueca de padre Artur. Penso, sem certeza, que devia ter sido puxa-saco do padre.
Um dia, sempre há um dia, padre Artur deixou a paróquia de Itabaiana. Talvez sua missão estivesse cumprida. Veio para Aracaju. Depois, largou a batina, casou e foi embora para o Rio de Janeiro, trabalhar em centros de recuperação de menores infratores. De quando em quando, vinha a Aracaju, e daqui, dava voltas em Itabaiana, para matar a saudade dos seus tempos de vigário. Em uma dessas, talvez a última, há uns seis anos atrás, me visitou. Há muito que pedia a Zé Queiroz, com quem sempre manteve contato, que me avisasse de sua presença. Conversamos, relembramos episódios [marcantes] da história de Itabaiana. Acredito que não tenha mais voltado a Sergipe.
No último dia 10, ouvindo a Rádio Cultura, escutei a notícia de sua morte, no Rio de Janeiro. Durante muitos instantes, fiquei calado, pensando na homenagem que lhe prestava com o livro VILA DE SANTO ANTONIO DE ITABAIANA, que devo lançar em agosto próximo. Seu nome figura na dedicatória, em sinal de reconhecimento, como está grifado. Reconhecimento por me ter feito tomador de conta da biblioteca, fato que me foi tão importante e fundamental, na confiança depositada e na colocação de todos aqueles livros a minha disposição. O óbito não me levará a alterar a redação. No livro, padre Artur há de ficar sempre vivo, celebrando a missa, na Igreja de Itabaiana, como nos meus tempos de menino e de rapaz, porque homens como ele não morrem nunca. Nem mesmo quando o coração deixa de bater e o corpo é enfiado em uma sepultura.
(*) vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe (23.05.2009)